Oito
Lawrence, Kansas. 2000.
Um ano se passou desde a morte de Jake. Ainda estávamos em luto profundo, porque isso nunca passa de fato, mas era uma dor que tinha se tornado mais suportável e menos incapacitante com o tempo.
Eu fiquei em casa durante meses. Não arrumei um emprego, não estudei e ignorei e-mails da Universidade de Standford. Nada, apenas o vazio e os dias cinzentos presenciados por olhos tristes através da janela do meu quarto.
%Verity% ainda tinha força para me visitar algumas vezes. Ela ajudava meus pais e continuou indo trabalhar quando sua licença acabou. Minha amiga era um milhão de vezes mais forte que eu. Meus pais a amavam e a tinham como filha, entretanto, ainda era possível escutar %Verity% chorando no banheiro ou pelos cantos da casa de vez em quando. Ainda assim, ela ajudava com as compras, mantinha a casa limpa sempre que podia e estava quase morando conosco — enquanto eu não saía do quarto e só levantava para ir ao banheiro quando sentia as pontadas nas costas, indicando que meus rins não aguentavam mais.
Quando meu irmão morreu, eu e %Verity% tínhamos combinado que encontraríamos o que matou Jake, mas eu não fui tão valente quanto pensava que era. Todavia, ainda fazia algumas pesquisas no meu
laptop no quarto. O pior de tudo é que não tínhamos nenhuma pista por onde começar. Ela fazia as pesquisas de campo, visitando locais em que Jake frequentou por último e o de sua morte — ou, pelo menos, onde foi encontrado seu corpo.
Nada. Totalmente sem sucesso.
Eu estava na pista errada, procurando assassinos em série locais e bufando de frustração toda vez que encontrava os casos solucionados pela polícia. Nenhum deles passou em branco, todos as investigações de possíveis criminosos homicidas haviam chegado à sua conclusão: prisão perpétua, encontrado morto ou condenado a pena de morte. Todos os meus suspeitos eram irrelevantes, pois nenhum deles poderiam ter matado Jake.
Com o passar do tempo, as coisas em casa ficavam cada vez mais estranhas: as luzes se apagavam, alguns pontos nos cômodos ficavam extremamente frios e o espelho do banheiro estava sempre embaçado. Além do mais, tínhamos a sensação estranha de que Jake estava nos observando — e comentei isso com %Verity%, que também sentia a mesma coisa —, mas optamos por deixar isso de lado. Era loucura demais.
Quando meu irmão nos deixou, nossos pais já estavam em sua terceira idade. A mamãe era a mais nova, mas foi a primeira deles a nos deixar também. Papai não conseguiu viver sem ela, ficou muito doente e partiu, meses depois. O luto voltou em cheio e, mais uma vez, eu me vi sozinha no mundo de novo. A dor era devastadora, mais do que eu posso descrever aqui. Os três levaram pedaços da minha alma e, embora eu estivesse lidando com o luto anteriormente, percebi que nunca estaríamos preparados de fato para perder alguém.
Principalmente pai e mãe.
%Verity% sofreu como se fosse filha de sangue deles. Embora o sentimento de solidão tentasse habitar permanentemente em nossos corações, sabíamos que tínhamos uma a outra e era tudo o que nos restava.
Naquele mesmo dia em que papai morreu, eu tive um sonho. Parecia vívido, lúcido e muito real. Toda a minha família estava reunida na sala de estar: mãe, pai e Jake. Estavam jantando e eu havia acabado de chegar, segurando uma mochila caída aos meus pés e sem acreditar no que estava vendo.
—
Você chegou! — comemorou minha mãe. —
Venha, sente-se conosco. Sorriam como se não tivessem sofrido.
—
Demorou, estávamos com tanta fome que começamos sem você — brincou Jake, dando uma cotovelada de leve em mim.
Eu me entreguei, por um momento. Nós ríamos na mesa; meu pai pegava a maior quantidade de batatas assadas que ele podia, minha mãe chamava sua atenção de maneira cômica e meu irmão tentava a todo custo roubar os aspargos do meu prato. Permiti que eu tivesse um vislumbre de felicidade com eles ali, que infelizmente acabou rápido.
Abri os olhos, com o coração pulsando fortemente como se quisesse saltar da boca. Olhei ao redor e percebi que nada daquilo foi real, como se o abismo me puxasse novamente para o limbo de solidão em que eu me encontrava.
No entanto, algo no canto do quarto me chamava a atenção, como se me observasse. Meus olhos correram para a direção da sensação estranha e eu pude jurar que vi Jake em pé atrás da porta, me olhando com suas íris escuras e sentimentais. Por um milésimo de segundo, vi ira em seu semblante.
A imagem dele ali, mesmo que tivesse durado pouco, me assustou. Foi como ver um fantasma. Quando eu disse que as coisas estavam estranhas, elas passaram a ficar ainda mais com os meses seguintes.
Jake se mostrou um fantasma real.
Aquilo soava até patético. Fantasmas, espíritos? Desde quando isso existe?! Eu fui a primeira a negar tudo, mas %Verity% acreditava em misticismo, no sobrenatural e no paranormal. Eu cheguei a pensar que estava enlouquecendo e dei entrada em uma internação psiquiátrica voluntária, sendo impedida pela minha amiga no dia em que estava arrumando as malas.
— Isso é real, %Cassie%! — exclamou ela. — O fantasma de Jake existe e estamos em perigo, você não percebe?
Eu ignorei completamente, era loucura. Mas ela continuou:
— Ele está ficando cada vez mais agressivo, jogando coisas, quebrando vidros e fazendo barulhos terríveis durante a noite. Sinto que ele quer nos dizer algo e você está fechando os olhos para isso.
Dei uma risada frouxa, desconcertada como quem foi pega no flagra.
— Conta outra — rebati, enfiando as roupas nas malas. — Isso é coisa da nossa cabeça. Levamos muito a sério esse lance de investigação. Talvez...
Engoli em seco antes de continuar. Nem eu mesma acreditava no que iria dizer.
— Talvez ele realmente tenha se matado.
No segundo seguinte em que falei tal absurdo, a minha mala quase pronta voou sozinha e violentamente em direção à parede. Minhas roupas só se espalharam pelo chão quando ela caiu, de tanta força usada no impacto.
As luzes piscaram poucas vezes e, depois, silêncio. Eu e %Verity% sequer nos assustamos, tinha sido assim por meses — e ela até comentou com vizinhos. A fofoca se espalhou mais do que deveria e eu a odiei por isso, porque não entendia que %Verity% estava procurando uma forma de nos ajudar. Estava quase impossível continuar naquela casa.
— E como você explica isso? — indagou, enfim.
Eu não tive resposta na ponta da língua daquela vez. Toda a racionalidade parecia ter ido embora e, de súbito, a porta e as janelas do quarto começaram a bater contra as frestas, abrindo e fechando. Começaram de leve e a força foi gradualmente aumentando, até quebrar os vidros das janelas. Outra vez.
— Não foi isso que ela quis dizer... — disse %Verity%, baixinho.
A agitação não se acalmou de imediato, foi se abrandando aos poucos até que parou. Eu suspirei, me rendendo.
— Só perdi as esperanças. Tem sido difícil para mim.
Minha amiga colocou as mãos em meus ombros e me puxou para um abraço, acariciando minhas coisas e sibilando que tudo iria se ajeitar. Porém, nosso momento foi interrompido pela campainha, que nos fez afastar-se uma da outra de súbito e trocar olhares curiosos. Fazia muito tempo que alguém não vinha em nossa porta.
Corremos para lá e atendemos a porta logo que de imediato. Nos deparamos com um senhor na porta da saída da meia-idade e entrando na velhice, pois aparentava ter entre cinquenta e sessenta anos. Os cabelos castanhos, adornados por muitas mechas grisalhas, estava ligeiramente penteado para trás e a barba, mal feita. Ele estava vestindo um terno escuro e uma gravata azul, colocando o distintivo de FBI bem na nossa cara, nos impedindo de enxergar mais detalhes da sua pessoa — pelo menos, naquele momento.
— Agente Thomas Briggs, Unidade de Investigação Criminal do FBI em Lawrence, Kansas — ele se apresentou, com a autoridade natural na voz firme, e abaixou o distintivo quando semicerramos os olhos para ver melhor. — As senhoritas têm um instante?
O que caralhos o FBI queria naquela altura do campeonato? Suspirei, deixando um espaço na porta para que ele entrasse e o velho o fez. Eu o observei pelas suas costas e olhei diretamente para sua calça de alfaiataria abarrotada e as botas estranhas até demais para o
dress code de agente do FBI.
Esse cara definitivamente não nasceu para usar ternos.