God Complex


Escrita porNobara
Revisada por Lelen


Nove

  Lawrence, Kansas. 2000.

  Depois que o velhote se instalou em nossa sala de estar, nós nos sentamos nas poltronas à frente dele e nos preparamos mentalmente para o que viria a seguir. Para falar a verdade, eu não fazia ideia do que esperar, já que a visita do agente era totalmente surpresa. Olhei para %Verity% e ela parecia aflita, o que me fez erguer uma sobrancelha.
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  — Muito bem... — começou ela. — Do que se trata, senhor Briggs?
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  Ele puxou um bloco de anotações e uma caneta do bolso. Inclinei um pouco a cabeça para o lado quando vi o logotipo marcado no plástico esbranquiçado da esferográfica em sua mão.
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  Singer Salvage Yard.
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  Semicerrei os olhos para observar com mais atenção, mas o homem pareceu ter percebido e virou o desenho da caneta para o outro lado, como se tivesse algo a esconder.
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  — Estou investigando uma série de assassinatos por essa região — explicou o agente Briggs. — Muitos deles arquivados pela polícia local.
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  Quando ele disse isso, ouvi a porta do meu quarto bater com força, chamando completamente a atenção e os sentidos de Briggs. Dei uma risada sem graça e olhei para %Verity% da forma mais descontraída possível, buscando disfarçar o que aconteceu.
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  — Minha amiga querida, você esqueceu de dar ração ao nosso cachorro... — pausei para pensar em um nome. — Nosso cachorro Matt! Agora ele está furioso batendo portas como sempre faz.
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  %Verity% ia me responder, mas o policial a interrompeu:
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  — Se puderem ser o mais breves possível, menos tempo eu as incomodarei em sua própria casa — disse ele, incisivo.
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  Engoli em seco.
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  — Muito bem, continuando... — o agente prosseguiu. — Estou investigando o caso de Jacob %Winters%, que foi dado como resolvido pela polícia. Suicídio.
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  Nós assentimos, ainda confusas. Deixamos que Briggs guiasse aquele momento pra lá de embaraçoso.
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  — Posso dizer que somos chamados quando a polícia local extrapola sua própria incompetência, então é para isto que estou aqui — continuou sem ser interrompido. — Acontece que não é a primeira morte suspeita nem aqui, nem em outros estados. Eu identifiquei um padrão: de dois em dois anos, uma onda de possíveis suicídios acontece.
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  A explicação do agente Briggs não era a mais esclarecedora, mas também nos fazia refletir. Quase reacendeu a chama de voltar a investigar a causa da morte do meu irmão.
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  — Nós procuramos por Jake — disse %Verity% como se pudesse ler minha mente. — Não aceitamos como as coisas acabaram, então decidimos investigar.
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  — Mas desanimamos — eu a cortei secamente, pressionando os lábios um contra o outro.
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  O agente do FBI abaixou a cabeça por alguns segundos, como um sinal de respeito. Porém, os barulhos retornaram, mais brandos, e as luzes piscaram por um breve momento. Aquilo pareceu ter chamado a atenção do homem de forma diferente.
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  — Então, como eu estava dizendo... — falou Thomas, um tanto distraído. — Preciso que respondam algumas perguntas, por favor.
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  %Verity% assentiu, mas eu revirei os olhos. Já tínhamos feito aquilo várias vezes.
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  — Qual foi a última vez em que viram Jacob %Winters%?
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  Eu não respondi. %Verity% estava colaborando bem mais.
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  — Bom, o Jake saía bastante para os treinos de futebol e, nos fins de semana, íamos com certa frequência para festas com nossos amigos — ela relatou. — Mas ele foi perdendo o ânimo, nem parecia o Jake que eu conhecia.
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  Briggs anotava tudo. Ou fingia que anotava.
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  — Então, em uma segunda feira qualquer voltando do trabalho, eu não o encontrei em lugar algum — %Verity% contou. — Isso foi duas semanas depois da sua morte.
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  Ela apertou ambos os relicários em seu pescoço. Como já dito antes, os dois possuíam relicários que usavam como se fossem alianças. Quando meu irmão se foi, %Verity% pegou o dele e passou a usá-lo com o dela. A duas correntes com pingentes chamaram a atenção de Briggs quase que de imediato.
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  — Desculpe, mas por que usa dois? — indagou o policial.
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  E do que isso importa?!
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  — Anda logo com isso — esbravejei.
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  — Certo... — Ele voltou a anotar. — Vocês, por acaso, notaram quedas de temperatura bruscas? Ou sentem cheiros estranhos?
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  Franzi o cenho.
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  — Que perguntas são essas?
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  — Sim — respondeu %Verity% sem pestanejar.
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  Eu olhei incrédula para minha amiga.
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  — Houve alguma interferência de TV ou na rádio? — continuou Briggs, me ignorando completamente.
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  Senti a raiva me subindo à cabeça. Levantei-me imediatamente e, de forma brusca, arranquei a caneta do agente de sua mão. %Verity% me olhou assustada, mas o policial me fitou como se estivesse muito impaciente.
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  — Chega! Se você não me disser o que tá acontecendo agora, eu vou... Vou enfiar isto na minha aorta — ameacei, levando a caneta até meu pescoço.
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  Briggs riu, guardando o bloco de notas.
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  — A aorta fica no peito, senhorita.
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  Eu podia jurar que estava vermelha de raiva. Escolhi ignorar completamente seu comentário nada pertinente.
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  — %Cassie%, para! — Pediu %Verity%, e eu também a ignorei.
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  — Estou falando sério. Se não me contar o que está acontecendo, eu juro por Deus...
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  Soltei a caneta no chão e puxei um objeto surpresa do bolso da minha jaqueta: um canivete. Pressionei a lâmina contra meu pescoço e me afastei para que ninguém pudesse me impedir.
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  — Por Deus! Tudo bem, eu conto. Abaixe isso.
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  E o que veio depois disso mudou nossas vidas para sempre.
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  — Eu não sou policial de verdade — começou ele. Conforme o mais velho falava, eu lentamente afastava o canivete do pescoço. — O que eu realmente faço é caçar seres sobrenaturais e garantir que as pessoas fiquem seguras.
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  Não dava para acreditar. Pelo menos, não de primeira. %Verity% parecia tão chocada quanto eu.
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  Dei risada.
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  — Você também acredita em fantasmas? — perguntei, tentando disfarçar o desespero com as gargalhadas.
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  Não obstante, Briggs não precisou responder. Jake fez isso.
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  Na mesa de centro da sala de estar, havia um vaso de vidro com um pouco de terra, água e orquídeas, que foi brutalmente arremessado contra a parede. As risadas cessaram no mesmo instante.
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  — Como você sabia que... — começou %Verity%, apontando para o vaso estilhaçado no chão. — Bom, isso?
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  O falso agente suspirou.
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  — Estou caçando outra coisa, algo grande que possivelmente matou Jacob e mais centenas de pobres coitados — ele explicou, pegando de volta a caneta e puxando um molho de chaves do bolso do terno. — Eu já suspeitava que seu irmão era uma vítima dela, senhorita %Winters%, mas o que eu não sabia é que ele ainda não estava descansando no pós vida.
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  Não tinha o que pensar além das inúmeras perguntas que eu sabia que ele não responderia de imediato.
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  Vítima? Pós vida? E quem é “ela”?
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  — Muito menos que as manifestações desse espírito vingativo eram tão violentas — concluiu ele.
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  — Então... — respondeu %Verity%. — O senhor vai nos ajudar?
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  Ele suspirou pesadamente e assentiu com a cabeça.
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  — E façam-me o favor — rebateu um tanto rude. — Me chamem de Bobby. Senhor é só o bom Jesus que está no céu.
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  Era tarde da noite, por volta das onze horas, e estávamos no cemitério com Bobby. Ele tirou uma pá da carroceria de sua caminhonete, juntamente com uma bolsa. Mais cedo, o caçador-de-coisas-sobrenaturais nos ensinou que, para que o espírito de Jake descansasse de fato, precisaríamos salgar seus restos mortais e incendiá-los. A maior loucura da qual já tinha ouvido falar até então.
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  %Verity% não foi contra, pelo contrário. Seguiu tudo à risca.
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  Nos dirigimos até o túmulo de Jake e Bobby começou a cavar. Então, jogou sal nos ossos do meu irmão e um fósforo aceso. Seus restos mortais pegaram fogo, mas aquilo trouxe uma paz indescritível para o meu coração.
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  Você finalmente terá o descanso que merece.
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  Uma lágrima desceu, embora meus lábios se esticassem em um sorriso.
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  Foi mais fácil do que eu pensei que seria, pois Bobby disse que aquilo era perigoso algumas vezes, dependendo do tipo de fantasma com qual estivesse lidando.
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  No caminho de volta para casa, %Verity% fez muitas perguntas sobre os seres sobrenaturais, se existiam vampiros, demônios, lobisomens... E Bobby respondeu todas elas. Não pude deixar de prestar atenção nas curiosidades que ele nos contava e, apesar do tom — muita das vezes — rude, ele parecia uma pessoa machucada. Notei seu olhar pesando quando %Verity% perguntou sobre demônios.
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  Bobby nos contou, superficialmente, sobre a tragédia com sua esposa, a qual ele foi forçado a matar depois de ser possuída por um deles. O silêncio se fez presente, mas como forma de respeito. Entretanto, não durou muito.
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  — Entregues, meninas. Se cuidem, e caso precisem de algo, vocês já têm meu número — disse ele.
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  Saímos da caminhonete e acenamos em despedida, com um sorriso mínimo e simpático no rosto. Assim que entramos em casa, %Verity% me abraçou fortemente.
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  — Eu mal posso acreditar que realmente acabou — começou ela. — Finalmente Jake descansará em paz.
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  Todavia, eu não tive tempo de resposta. Assim que o nome do meu irmão foi mencionado, %Verity% voou contra uma parede da sala e eu, contra a oposta. Aquilo nunca havia acontecido antes. Jake batia portas e janelas, quebrava as coisas e queimava luzes, porém, nunca nos atacou de tal forma.
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  Nós gritamos, e eu mais ainda quando vi minha amiga ficar cada vez mais vermelha. À nossa frente, entre nós duas, o borrão da imagem de Jake estendendo a mão em direção ao pescoço de %Verity%, que agonizava com falta de ar.
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  Como aquilo era possível? Por que ele ainda estava ali?
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  — Jake, não! — gritei, tentando inutilmente me soltar da parede.
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  O chute que escancarou a nossa porta em seguida foi o movimento que salvou nossas vidas. Bobby apareceu como quem nem tinha ido embora e talvez não tivesse dado tempo sequer de trocar a marcha para seguir seu caminho. Ele segurava uma espingarda com cano cerrado e possuía o mesmo semblante endurecido de como quando nós o conhecemos.
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  Ele atirou e o fantasma de Jake desapareceu. Nós caímos no chão e %Verity% conseguiu respirar novamente.
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  — Arma contra fantasmas?! — indaguei, incrédula.
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  — Munição com sal — explicou rapidamente. — Anda, não temos muito tempo. Ele pode voltar a qualquer instante!
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  Bobby arrancou o relicário com a inicial “J” entalhada em sua prataria do pescoço de %Verity% e jogou a espingarda para mim. Ela pareceu se desesperar com o movimento de Bobby, no entanto, não tinha tempo para reação. Rapidamente, o mais velho pegou o sal e a caixa de fósforos e Jake reapareceu antes do esperado.
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  — Não, não, não... — murmurou %Verity%, se afastando.
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  — Atira, %Cassie%! — ordenou Bobby.
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  Eu? Fodeu!
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  Apontei a arma em direção ao fantasma de Jake, sem nem saber como usava aquilo.
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  — Já está engatilhada, atira agora!
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  Travei a mandíbula ao ver o rosto enraivecido do meu irmão, que havia se teletransportado para rente de mim. Estava à queima roupa.
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  — Me desculpa, Jake.
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  Eu estava pronta para atirar, mesmo que isso machucasse ele. Ou o que tivesse sobrado dele. Os próximos segundos se passaram em câmera lenta, e todos aqueles meses em um profundo luto bateram à porta do meu coração novamente.
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  Que sofrimento era vê-lo daquela forma.
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  Jacob %Winters% era o cara mais simpático e gentil da escola, da família e do grupo de amigos. Estava sempre sorrindo e espalhando seu carisma por aí, melhorando o humor das pessoas sem nem fazer esforço e nunca deixando de enxergar o lado bom das coisas.
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  Ele era fácil de amar, fácil de ansiar pela companhia.
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  Eu teria dado minha vida por ele em algum momento, se ele não tivesse morrido primeiro. Diferente de Jake, eu não tinha conquistado muito, mas nem fazia tanta questão. Ele sempre esteve lá para me lembrar que a vida devia ser vivida conforme nosso próprio tempo.
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  Jake acreditava que valia a pena lutar por amor, mesmo que isso lhe custasse tudo.
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  Depois da sua morte, eu aceitei que nunca mais poderia lutar por ele. Então, com o coração afogado em escuridão e desolado pela solidão que sua morte deixou, eu passei a acreditar em um estilo distorcido de amor.
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  Todavia, aquele era o último momento em que eu poderia lutar pelo meu irmão gêmeo.
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  O luto se distanciou e me deu força de vontade. Apertei o gatilho e contemplei os cristais de sal se espalhando no ar e espantando o fantasma de Jake por um breve momento. A adrenalina me fez tremer e eu joguei a arma no chão logo em seguida. Não faria isso com ele novamente, mesmo que Jake nos machucasse.
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  — O que você vai fazer? — perguntou %Verity%, com a aflição na voz que me chamou a atenção. — Isso é tudo o que sobrou dele para mim.
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  — Fantasmas não se ligam somente a restos mortais — explicou o mais velho, deixando o relicário no chão e jogando sal por cima. — Eles também ficam conectados a objetos de grande valor.
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  Bobby parou e olhou para %Verity%. Havia algo diferente dessa vez, ele estava profundamente compadecido.
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  — Eu sinto muito, menina — falou, por fim. — É o único jeito de mantê-las a salvo e acabar com o sofrimento dele.
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  Não tínhamos mais tempo. Jake reapareceu no mesmo lugar onde eu havia atirado nele, mas %Verity% não cedeu. A garota tomou o fósforo da mão de Bobby e colocou fogo no relicário.
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  — Me desculpe, meu amor — disse ela, começando a chorar. — Mas não posso mais deixar você machucar ninguém.
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  Jake continuava ali, mas ele também mudou. Naquele momento, eu vi o seu sorriso e o rosto alegre do meu irmão como ele sempre foi. O relicário estava em chamas e o fantasma de Jake caminhava no fogo até nós, queimando lentamente.
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  Era como uma despedida. Um agradecimento.
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  Seu rosto já não era mais um borrão enfurecido, pelo contrário: estava radiante.
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  %Verity% chorava de sacudir os ombros, e ele finalmente se foi.
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  Uma parte minha acreditava que seu espírito agitado estava por trás das manifestações cada vez mais violentas pela casa e, apesar disso, eu encontrava conforto por saber que ele ainda estava entre nós.
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  Que não havia me abandonado.
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  Meu egoísmo levou Jake a sofrer por tanto tempo e a culpa pesou em meus ombros. Então, era eu que estava ajoelhada no chão ao lado de %Verity%, chorando sem parar. Ainda podíamos sentir a presença de Bobby, em seu silêncio respeitoso de sempre. O relicário encerrou as próprias chamas quando o fantasma de Jake sumiu por completo. Era o fim, definitivamente.
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  Minha visão de amor se deformou ainda mais, como o relicário derretido pelo fogo. Eu nunca mais poderia lutar por Jake e demonstrar meu amor por ele.
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  Sua morte cessou essa oportunidade.
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  Mas eu poderia vingá-lo.
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Lelen

Descobrimos o momento de assombração do Jake. No final ele foi embora feliz(?), acho que ninguém quer ficar preso o resto da morte sendo um fantasma, né? Fora ir perdendo a humanidade e ir deixando de ser quem era.
E o tio Bobby 🥹 ele tá sempre ali quando se precisa <3
Coitada da Cassie, perdeu a esperança no mundo. Mas você pode continuar demonstrando seu amor pelo Jake de outras formas, honrando a memória dele. 🥹
Quero saber mais do ser que estamos caçando. E pra onde todos esses personagens vão!

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