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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Feitiço Inquebrável

Escrita porNyx
Editada por Lelen

Capítulo 10 • Depois da Quebra

Tempo estimado de leitura: 46 minutos

  O primeiro som que eu ouvi foi o tique-tique insistente de um relógio, não o de Hogwarts, mas um menor, preso à parede da enfermaria, como se alguém tivesse decidido que o tempo ali precisava ser vigiado de perto.
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  Depois veio o cheiro.
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  Ervas amargas, lençóis limpos demais, e aquele perfume metálico que sempre existia onde poções eram misturadas para consertar gente.
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  Abri os olhos devagar.
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  O teto branco me encarou de volta, indiferente, e por um segundo eu não soube onde meu corpo terminava e onde o cansaço começava. Eu me sentia… pesada. Como se cada osso tivesse sido preenchido com água. Mas a minha mente... estava estranhamente desperta. Alerta. Como se algo dentro de mim tivesse apertado um botão e se recusasse a desligar depois.
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  Tentei me mexer. O gesto foi pequeno, só o suficiente para o lençol roçar na minha pele.
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  E então eu senti.
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  Um ardor na altura do peito. Não era dor de machucado recente. Era um desconforto quente, vivo, o tipo de sensação que não passa quando você respira fundo. O tipo que te lembra, sem gentileza, que algo aconteceu.
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  — Ah. Ótimo. — Minha voz saiu rouca, raspando na garganta. Eu pisquei, tentando focar.
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  Foi quando vi Madame Pomfrey.
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  Ela estava ao lado da cama, de costas, mexendo em uma bandeja de frascos com movimentos secos, precisos. Não havia nada de “preocupada” nela. Havia algo pior: a calma rígida de quem já decidiu que aquilo não é normal e está a dois passos de te dar um sermão que vira sentença.
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  — Você acordou — ela disse, sem surpresa, como se já estivesse esperando o exato segundo em que meus olhos abririam. Virou-se. E o olhar… Merlin.
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  Pomfrey não olhava para doentes. Pomfrey olhava para problemas.
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  — Como você se sente? — Eu engoli em seco, tentando mapear meu próprio corpo.
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  — Como se… alguém tivesse me usado pra praticar feitiços em bonecos e depois lembrado que eu era humana — respondi, num esforço miserável de humor.
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  Ela não riu. Nem um músculo.
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  — Levante a gola da sua camisola — ordenou, já puxando a luz sobre a cabeceira para mais perto.
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  Meu estômago afundou.
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  Fiz o que ela mandou, os dedos tremendo um pouco. Quando o tecido desceu, o ar frio da enfermaria tocou meu peito e, por reflexo, eu prendi a respiração. Pomfrey inclinou-se. O rosto dela se aproximou demais, os óculos captando o reflexo da luz como duas lâminas.
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  E então eu vi.
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  A cicatriz.
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  Fina, mas irregular. Não era um corte limpo, não era a marca ordenada de um feitiço bem lançado. Parecia… uma linha desenhada por algo que não tinha pressa, nem pena. O tom era estranho, prateado e acinzentado ao mesmo tempo, como se a pele tivesse sido beijada por cinza fria e, ainda assim, guardasse um brilho próprio.
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  Uma marca que não pertencia ao meu corpo.
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  Mas estava nele.
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  Pomfrey não tocou de imediato. Primeiro ela observou, em silêncio, o tipo de silêncio que pesava mais do que gritos.
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  — Onde está o seu colar? — ela perguntou, de repente, como se aquela pergunta fosse parte do exame.
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  Meus dedos foram automaticamente ao pescoço. O vazio ali me respondeu.
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  — Eu… não sei. — Minha voz falhou. — Eu acho que… eu tirei. Ou… alguém tirou.
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  Ela fez um som baixo, impaciente. Pegou uma varinha do bolso do avental e apontou para o centro da cicatriz.
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  — Episkey.
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  Nada.
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  Eu senti o arrepio de magia passando — eu senti — mas ela bateu na cicatriz como uma onda batendo num rochedo e voltando sem levar nada. Pomfrey franziu o cenho. De novo.
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  — Episkey — repetiu, mais firme, como se o feitiço devesse obedecer por respeito.
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  Nada. Nem calor, ou coceira, nem a sensação típica de pele se fechando. A cicatriz continuou ali, imóvel, indiferente. O silêncio entre nós engordou.
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  Pomfrey pousou a varinha com mais força do que o necessário na bandeja, pegou um potinho pequeno de pomada cicatrizante — que eu reconheci porque ela usava aquilo para tudo, inclusive para quem exagerava em feitiços de treino — e passou uma camada fina sobre a marca, com luvas.
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  A pomada… não aderiu.
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  Ela escorregou como água, como se a pele tivesse decidido rejeitá-la.
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  Eu engasguei um pouco.
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  — Isso… isso não é normal, né? — perguntei, embora já soubesse. Pomfrey me lançou um olhar que deveria ser proibido para menores de idade.
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  — Você acha?
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  Ela respirou fundo, tirou as luvas, e ergueu a varinha novamente. Dessa vez, os movimentos foram diferentes, não cura. Diagnóstico.
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  Um encanto sutil, de reconhecimento, como quem pedia para o corpo contar o que aconteceu. A varinha passou a poucos centímetros do meu peito. Um brilho suave, esverdeado, deveria ter surgido, era assim que Pomfrey sempre via inflamações, ferimentos antigos, feitiços residuais.
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  Mas, no lugar disso, o ar… oscilou. Não foi uma luz. Foi uma distorção. Como se o espaço ao redor da cicatriz lembrasse de outra coisa. Outro lugar.
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  Pomfrey recuou um passo.
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  A primeira rachadura real apareceu na expressão dela. Não medo. Mas algo que eu raramente via naquela mulher: cautela. Ela olhou para mim, e pela primeira vez desde que eu acordei, o tom dela mudou.
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  Ficou mais baixo.
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  Mais sério.
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  — Isso não foi causado por magia comum — disse, cada palavra pousando como um peso. — E definitivamente não foi um acidente.
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  Minha garganta apertou. Eu tentei falar. Tentei dizer que eu não queria, que eu não pedi, que eu só… que eu só estava tentando aguentar. Mas tudo o que saiu foi um fio de ar.
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  — Madame… — comecei.
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  Ela ergueu a mão, cortando qualquer explicação antes mesmo de nascer.
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  — Não fale ainda. — A voz dela foi firme, mas não cruel. — Primeiro eu preciso garantir que você não está com uma maldição ativa no peito.
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  Eu senti minhas mãos suarem embaixo do lençol.
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  Pomfrey virou-se, e agora os movimentos dela eram rápidos, quase militares. Abriu uma gaveta, puxou um pergaminho em branco, uma pena, escreveu duas linhas com letra agressiva e dobrou de um jeito que parecia oficial.
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  Depois selou com um encanto simples, mas o selo ficou mais forte do que o normal, como se ela estivesse selando a própria urgência ali dentro.
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  Ela assobiou curto.
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  Uma coruja da enfermaria — uma, pequena e cinzenta, que eu nunca tinha notado antes — pousou no batente da janela como se já tivesse sido chamada. Pomfrey amarrou o bilhete na perna dela.
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  — Entregue ao diretor. Agora.
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  A coruja sumiu no corredor num bater de asas. Pomfrey voltou para mim e ajeitou o lençol sobre meu peito com uma delicadeza que, vinda dela, parecia quase uma confissão de que aquilo era sério demais para broncas.
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  — Você vai ficar aqui — decretou. — Sem visitas, a não ser que eu permita. Sem levantar. Sem “eu estou bem” e “é só cansaço”. Entendeu?
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  Assenti, porque qualquer outra coisa parecia perigosa. Ela começou a recolher os frascos, mas parou de novo, olhando para a cicatriz como se ela pudesse se mexer.
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  — Você lembra de alguma coisa? — perguntou, sem me encarar. — Alguma sensação específica antes de… acontecer?
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  Minha mente tentou puxar a lembrança.
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  O colar queimando.
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  A luz quebrando.
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  A voz.
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  O nome.
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  E aquela presença… aquela presença que me viu. Meu estômago revirou.
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  — Eu… — minha voz saiu quase inexistente. — Eu lembro de estar acordada… e depois… não era Hogwarts.
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  Pomfrey finalmente me encarou, e eu vi algo duro e antigo no olhar dela, a certeza de quem já viu estudantes quase morrerem por coisas que achavam que conseguiam carregar sozinhos.
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  — Então você vai contar tudo para o diretor — disse, e cada palavra foi uma ordem. — E vai contar direito.
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  A porta da enfermaria se abriu com um rangido. Eu pensei que fosse mais um aluno, mais uma enfermeira, qualquer coisa normal.
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  Mas o ar mudou.
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  Não com medo. Com… respeito.
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  Madame Pomfrey endireitou os ombros, como se o próprio castelo tivesse acabado de entrar ali.
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  E, do outro lado da porta, com o manto caindo impecável sobre os ombros e aquele olhar azul que parecia ver coisas que ninguém mais via, Alvo Dumbledore atravessou a enfermaria com passos tranquilos demais para a urgência que eu sentia no peito.
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  Ele parou ao lado da minha cama. Olhou para mim primeiro. Só depois olhou para a cicatriz. E, por um segundo, o sorriso dele não apareceu. A expressão de Dumbledore ficou… vazia.
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  Não de ausência.
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  De cálculo.
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  Como quem reconhecia um símbolo em uma língua antiga.
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  — %Ayana% — ele disse, com suavidade, mas com um peso que me fez arrepiar inteira. — Parece que o seu dom decidiu deixar uma assinatura.
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  E meu colar — onde quer que estivesse — pareceu vibrar dentro da minha memória, como se aquela frase não fosse só dele.
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  Como se alguém, em algum lugar além do alcance da enfermaria, tivesse ouvido meu nome ser dito.
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  E gostado.
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  Dumbledore não disse nada de imediato.
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  A porta se fechou atrás dele com um clique suave, e o ambiente pareceu ajustar o próprio ritmo, o ar mais denso, o silêncio mais atento.
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  Seus olhos passaram por Madame Pomfrey primeiro, em um cumprimento silencioso entre pessoas que já tinham visto demais para perder tempo com formalidades. Depois, voltaram-se para mim.
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  Não foi um olhar apressado. Nem curioso.
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  Foi um olhar que media.
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  Senti como se ele estivesse observando não só o meu corpo ali deitado, mas algo ligeiramente deslocado, como se uma parte de mim ainda estivesse em outro lugar e ele estivesse calculando a distância.
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  — %Ayana% — disse, por fim, com aquela voz baixa que nunca precisava subir para ser obedecida.
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  Algo dentro de mim respondeu. Não com palavras. Com presença.
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  Dumbledore aproximou-se da cama devagar. Não estendeu a mão de imediato. Não tocou na cicatriz. Apenas se inclinou o suficiente para vê-la melhor, os óculos captando o brilho irregular da marca prateada como se ela refletisse algo que não estava ali.
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  — Fascinante… — murmurou, mas não havia encanto na palavra. Havia cautela.
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  Ele ergueu a varinha, mas não da forma comum. Não houve gesto amplo, nem feitiço pronunciado em voz alta. Os movimentos foram contidos, quase cerimoniais, como se ele estivesse desenhando algo invisível no ar, símbolos que não precisavam ser vistos para existirem.
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  A magia que emanou dele não era agressiva.
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  Era antiga.
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  Eu senti antes de ver qualquer efeito. Um deslocamento suave, tipo quando se muda de posição dentro de um sonho sem acordar de verdade. O ar ao redor da cama pareceu se reorganizar, obediente a uma lógica que não era imediata.
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  Foi então que Dumbledore parou.
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  O movimento da varinha cessou no meio do gesto, e o olhar dele desviou de mim pela primeira vez. Não foi um desvio casual. Foi preciso. Direcionado.
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  Segui a linha do olhar, confusa, e foi nesse instante que percebi.
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  O colar.
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  Ele não estava ali antes. Eu teria notado. Agora repousava sobre a pequena mesa ao lado da cama, como se sempre tivesse pertencido àquele espaço. Simples. Silencioso.
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  Mas o ar ao redor dele… não era.
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  Dumbledore aproximou-se devagar. Não tocou de imediato. Observou como se estivesse diante de algo que não precisava ser explicado, apenas reconhecido. Mesmo sem estar em meu pescoço, algo nele reagiu. Não com calor ou dor. Mas com um pulso interno, profundo — como um chamado atendido.
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  Como se algo em mim tivesse sido nomeado corretamente pela primeira vez.
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  A cicatriz respondeu. Não se iluminou ou mudou de forma. Mas o ar ao redor dela se firmou, como se aquele ponto do meu corpo tivesse deixado de ser apenas pele.
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  Dumbledore estendeu a mão e tocou o colar com dois dedos apenas. O gesto foi mínimo, e ainda assim, senti o impacto atravessar o quarto inteiro, como uma vibração baixa que se espalhou pelas paredes.
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  Ele fechou os olhos por um instante. Depois, interrompeu de vez o movimento da varinha. Endireitou-se lentamente.
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  — Marcas assim — disse, finalmente, voltando o olhar para mim — não são feridas. São fronteiras.
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  O peso da palavra caiu sobre mim com mais força do que qualquer feitiço. Pomfrey cruzou os braços, o semblante fechado, mas atento.
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  — Ela entrou em choque mágico — acrescentou, prática, como sempre. — O corpo reagiu como reagiria a uma sobrecarga. Mas… — fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado — …ela não perdeu o controle. É como se tivesse atravessado algo. E conseguido voltar.
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  Dumbledore assentiu uma única vez.
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  Era um gesto pequeno.
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  Definitivo.
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  — Sim — concordou. — Não houve ruptura desordenada. Houve passagem.
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  Meu estômago se revirou.
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  Passagem.
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  Eu lembrei da sensação de atravessar, da ausência de chão, da presença que me viu, do puxão súbito que me trouxe de volta antes que algo pior pudesse acontecer.
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  — Diret… — comecei, mas minha voz falhou. Dumbledore ergueu a mão, gentilmente, pedindo silêncio.
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  — Não agora — disse. — Você já fez mais do que suficiente por uma noite.
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  Ele voltou o olhar para Madame Pomfrey.
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  — Ela ficará sob seus cuidados hoje — falou, embora soasse menos como pedido e mais como confirmação. — Nenhuma visita sem supervisão. O corpo precisa se reajustar… e a magia também.
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  — Já estava nos meus planos — respondeu Pomfrey, seca. — E quando ela estiver pronta para falar, vou garantir que não desmaie no meio da frase.
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  Um quase-sorriso passou pelo rosto de Dumbledore. Quase. Ele voltou a olhar para mim, e foi aí que eu entendi. Ele não estava surpreso, e nem assustado. Ele parecia… confirmado.
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  Como se algo que ele já suspeitava tivesse finalmente se manifestado de forma inegável.
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  — %Ayana% — disse, com suavidade perigosa —, algumas pessoas nascem com talento. Outras o descobrem. E há aquelas… — ele fez uma pausa mínima — …a quem a magia decide atravessar.
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  Meu coração bateu mais forte.
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  — O que aconteceu esta noite — continuou — não foi um acidente. Nem um erro. Foi um chamado respondido, ainda que sem intenção. — fez uma pausa — E fronteiras — concluiu ele — não podem ser desatravessadas.
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  O silêncio que se seguiu não foi vazio.
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  Foi prenúncio.
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  Dumbledore virou-se para sair, mas antes de alcançar a porta, falou por cima do ombro:
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  — Quando estiver pronta, %Ayana%… precisaremos conversar. Sobre o que você viu. E, principalmente, sobre o que viu você.
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  A porta se fechou atrás dele.
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  Madame Pomfrey voltou a se mover, ajustando poções, anotando coisas com força demais no pergaminho. Eu fiquei ali, deitada, o peito ardendo sob o lençol. Com uma certeza pesada demais para ignorar: eu não tinha apenas despertado algo.Eu tinha cruzado uma fronteira que não existia mais só para mim. E o mundo — gostando ou não — teria que se reorganizar em torno disso.
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⚡🧙

  Acordei como quem retornava de um lugar que ainda não decidiu se existiu. A enfermaria estava quieta demais. Não o silêncio acolhedor da madrugada, mas o da manhã ainda indecisa, aquele que observava, que media, que esperava você abrir os olhos para perceber que algo mudou enquanto dormia.
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  Antes mesmo de abrir os olhos por completo, senti a cicatriz.
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  Ela pulsava sob o tecido fino da camisola, não doía, não queimava. Era um calor profundo, constante, quase… atento. Como se estivesse ali não para ferir, mas para lembrar. Levei a mão ao peito, os dedos hesitando por um segundo antes de tocar.
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  Foi então que ouvi a porta, o som foi baixo, quase tímido. O clique suave da maçaneta girando ecoou no silêncio do dormitório, como se quem estivesse do outro lado soubesse que aquele instante exigia cuidado.
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  Virei o rosto lentamente, o coração acelerando sem motivo claro.
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  Esperei ver Hermione, Rony, provavelmente perdido no andar errado. Talvez até Harry, parado na porta, hesitante, com aquele jeito contido de quem nunca sabe se deve se aproximar ou recuar.
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  Mas não foi nenhum deles.
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  A porta se abriu apenas o suficiente para que uma silhueta entrasse com delicadeza, evitando qualquer ruído. Os passos foram suaves sobre o chão de pedra, familiares demais para que eu demorasse a reconhecer.
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  — Mãe…?
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  Ela não respondeu de imediato. Apenas me observou por um segundo — longo, silencioso — como se estivesse confirmando algo que já sabia antes mesmo de chegar ali.
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  Então caminhou até a cama.
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  Sentou-se devagar ao meu lado, o colchão cedendo sob o peso conhecido de sua presença. O gesto era o mesmo de sempre. O mesmo de quando eu era pequena e acordava assustada depois de sonhos ruins.
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  Sem perguntas, pressa, mas com o cuidado de quem sempre soube exatamente quando o silêncio era mais necessário que palavras.
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  — Vem cá… — disse baixo, abrindo os braços.
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  Eu não pensei. Não medi. Não tentei ser forte.
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  Me inclinei para frente e me deixei cair naquele abraço que cheirava a casa, a magia antiga, a noites em que ela ficava acordada ao lado da minha cama quando eu ainda não sabia explicar o que sentia. Os braços dela me envolveram com firmeza, uma mão apoiada nas minhas costas, a outra segurando minha nuca, como se precisasse me ancorar ali, naquele corpo, naquele mundo.
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  O abraço durou mais do que precisava. Menos do que eu queria, mas foi o suficiente para me lembrar que, mesmo depois da travessia, eu ainda era filha antes de ser qualquer outra coisa.
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  Quando nos afastamos, vi os olhos dela marejados, não de desespero, mas de orgulho contido. Do tipo que dói bonito.
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  Foi então que senti a presença do meu pai.
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  Ele estava parado a poucos passos de distância, os braços rígidos ao lado do corpo, como se ainda estivesse decidindo se tinha o direito de se aproximar. Fazia tempo demais desde a última vez que nos vimos. Tempo o bastante para que o silêncio tivesse se acumulado entre nós como poeira antiga.
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  — Pai… — chamei, a palavra saindo menor do que eu lembrava.
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  Ele respirou fundo, deu dois passos à frente, mas não abriu os braços de imediato. Parou diante da cama e me olhou como se estivesse contando cada detalhe — meu rosto, meus ombros, minha respiração — certificando-se de que eu estava mesmo ali. Que não era um eco. Que não tinha ficado do outro lado.
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  Então, com um gesto simples, quase contido demais para alguém que sentia tanto, ele me puxou para junto de si.
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  O abraço dele era diferente, mais rígido, contido, mas não menos profundo. O braço envolveu meus ombros com força suficiente para denunciar tudo o que ele não dizia. A outra mão pousou no meio das minhas costas, firme, quente, como se dissesse eu te seguro.
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  — Você me deu um susto — murmurou, a voz baixa, rouca. — Não faça disso um hábito.
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  Soltei um riso pequeno, ainda com o rosto escondido no peito dele.
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  — Vou tentar.
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  Ele assentiu, como se aquela resposta fosse suficiente por agora. Ficamos assim por alguns segundos, respirando no mesmo ritmo, até que ele se afastou só o bastante para me olhar de novo.
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  — Você cresceu — disse.
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  — Você também — respondi.
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  Ele sorriu de canto, daquele jeito discreto que sempre foi só dele.
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  Minha mãe se aproximou, pousando a mão sobre o braço dele, e por um instante estávamos os três ali, ligados por algo mais antigo do que qualquer dom ou marca.
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  — Então… — minha mãe murmurou. — É assim que ela aparece.
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  Ela se referia a minha cicatriz, engoli em seco.
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  — Você sentiu — respondi. Ela assentiu uma única vez.
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  — Desde a madrugada.
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  Nenhum dos dois perguntou o que tinha acontecido, eles já sabiam que algo tinha.
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  Minha mãe afastou o tecido da camisola, sem pressa. A cicatriz estava ali. Fina. Irregular. Levemente prateada, como se a luz tivesse passado por ela e cansado. Ela não puxou a varinha. Não tentou curar. Apenas observou.
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  — Não é ferida — disse.
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  — Não — meu pai concordou. — É fronteira.
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  Meu coração acelerou, não de medo, mas de confirmação.
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  — O professor Dumbledore disse algo parecido — confessei.
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  — Ele saberia — minha mãe respondeu.
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  Houve um silêncio breve. Antigo. Familiar.
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  — Você atravessou — ela continuou. — Não foi puxada. Não foi empurrada.
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  Assenti.
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  — Não foi como uma visão — expliquei. — Não foi sonho, nem como na penseira. Foi como se tudo que me prendia ao corpo tivesse afrouxado por um instante. O colar queimou… e o mundo abriu.
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  Meu pai respirou fundo, atento.
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  — Eu não caí — continuei. — Eu dei um passo. E Hogwarts não estava mais ali.
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  O silêncio se adensou.
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  — Não era um lugar — acrescentei. — Era um entre. Um limiar.
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  Minha mãe fechou os olhos por um instante, confirmando algo que já sabia.
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  — E você voltou — disse.
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  — Voltei.
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  — Porque aprendeu — meu pai completou.
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  A cicatriz pulsou de leve, como se concordasse. Minha mãe tocou o local com dois dedos. O gesto foi suave, respeitoso, e meu corpo respondeu, não com dor, mas com encaixe.
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  — Nós sabíamos que um dia isso viria — ela disse. — Só não esperávamos que fosse tão cedo.
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  Respirei fundo.
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  — Nem eu.
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  Foi então que percebi Dumbledore, parado perto da janela, em silêncio atento.
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  — Houve uma presença — eu disse, escolhendo as palavras. — Não foi como nas visões. Ela estava… comigo. Me guiou pelo limiar. Mostrou onde pisar. Onde não olhar por muito tempo.
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  Dumbledore se virou devagar.
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  — Isso confirma muito — disse, sereno. Minha mãe o encarou sem hostilidade.
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  — Confirma que o tempo acabou.
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  Ela deu um passo à frente.
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  — Quem sabe o que aconteceu?
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  Minha mãe perguntou com precisão.
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  — Poucos — Dumbledore respondeu. — E continuará assim. Apenas professores diretamente envolvidos e aqueles cuja lealdade é inquestionável.
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  — Nomes — meu pai disse, direto. Dumbledore sustentou o olhar.
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  — Minerva McGonagall. Severus Snape. E eu.
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  Minha mãe assentiu devagar.
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  — Mais alguém fora de Hogwarts?
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  — Não oficialmente — ele respondeu. — E não enquanto eu puder impedir.
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  Meu pai cruzou os braços, avaliando.
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  — As proteções do castelo continuam intactas?
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  — Reforçadas — disse Dumbledore. — Como sempre estiveram em tempos de incerteza.
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  Minha mãe respirou fundo, mas não havia histeria em seus gestos. Havia cálculo.
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  — E se alguém tentar alcançá-la por outros meios? Visões. Objetos. Intermediários?
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  — Estaremos monitorando qualquer manifestação incomum — respondeu Dumbledore. — Hogwarts é, ainda, o lugar mais seguro para ela.
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  O silêncio que se seguiu não era medo, e sim avaliação.
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  Minha mãe então voltou-se para mim, os olhos dela não buscavam decisão, buscavam verdade.
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  — Você se sente segura aqui?
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  A pergunta não era sobre o castelo, era sobre mim, sobre o que eu sentia dentro da própria pele. Olhei para a cicatriz. Para o colar. Para as janelas altas que deixavam o fim de tarde entrar como ouro antigo.
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  Respirei fundo.
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  — Sim — respondi. — Eu me sinto protegida. Mas… não ignorante.
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  Ela assentiu devagar, absorvendo cada palavra.
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  — E você se sente preparada para o que está despertando?
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  A pergunta foi firme, mas suave.
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  — Não completamente — admiti. — Mas eu sei que não estou sozinha. E isso muda tudo.
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  Minha mãe tocou meu ombro, firme.
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  — Nós estaremos por perto. Em vigilância constante. E quando a magia cobrar…
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  — Eu respondo — completei, firme.
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  Dumbledore observava em silêncio, o olhar atento de quem reconhecia que aquela não era uma decisão impulsiva — era maturidade.
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  Minha mãe se inclinou e me abraçou mais uma vez, não apertado ou desesperado, foi um abraço firme, de quem entendia que o mundo mudou, mas a filha continuava ali.
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  A batida na porta foi discreta, interrompendo o nosso momento. Duas vezes apenas.
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  Dumbledore não se moveu de imediato. Olhou para meus pais, depois para mim, silenciosamente perguntando. Minha mãe assentiu uma única vez.
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  — Pode entrar.
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  A porta se abriu devagar.
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  Hermione foi a primeira a aparecer, cautelosa como sempre, como se estivesse entrando num espaço que exigia respeito. Rony veio logo atrás, o mesmo jeito desengonçado de sempre, mas com os olhos atentos demais para ignorar o peso do momento. Harry entrou por último.
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  Quando nossos olhares se encontraram, algo em mim se contraiu — não dor, não caos — apenas consciência.
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  Ele parou perto da porta, rígido, como se tivesse acabado de atravessar um limite invisível. Não disse meu nome. Não disse nada.
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  O silêncio se estendeu por um segundo a mais do que o confortável.
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  Minha mãe foi a primeira a quebrá-lo.
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  — Faz tempo que não os vejo juntos assim — disse, com um leve sorriso, a voz baixa, firme. — Imagino que os Weasley estejam bem?
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  Rony piscou, surpreso, e depois assentiu rápido.
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  — Estão… sim. Quer dizer, do jeito deles. Minha mãe anda preocupada, como sempre.
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  — Molly Weasley nunca muda — comentou meu pai, com um quase sorriso. — Isso é um alívio, considerando tudo.
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  Hermione relaxou um pouco os ombros, reconhecendo o terreno familiar. Rony pigarreou, desviando o olhar por um instante antes de voltar a mim.
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  — Você deu um susto na gente — disse, simples, honesto. — De verdade.
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  — Eu sei — respondi. — Desculpa.
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  Meu pai observava a cena em silêncio, atento não às palavras, mas ao que se movia entre elas. Quando Rony o encarou de novo, meio sem jeito, ele assentiu levemente.
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  — Continua leal — disse apenas.
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  Rony arregalou os olhos, como se tivesse sido pego de surpresa por algo que não sabia explicar.
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  — Eu… tento.
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  Foi então que Harry deu um passo à frente.
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  — Eu a trouxe até a enfermaria — disse, baixo. — Quando ela caiu.
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  Não era uma explicação. Era uma responsabilidade assumida. Meu pai se voltou completamente para ele. O olhar não era duro, era preciso, antigo, o tipo de olhar que pesa histórias inteiras em segundos.
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  — Nós sabemos — respondeu. — E agradecemos.
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  Harry assentiu, mas não relaxou.
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  — Ela… — começou, e parou. — Ela caiu por minha causa.
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  Meu coração acelerou, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, minha mãe falou:
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  — Não — disse com suavidade. — Ela caiu porque estava segurando demais sozinha.
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  Harry piscou, claramente desarmado.
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  — Mesmo assim — insistiu. — Eu devia ter percebido antes.
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  Dumbledore observava tudo em silêncio absoluto, como quem sabia que aquela conversa não precisava de direção. Hermione se aproximou mais da cama.
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  — A senhora… — hesitou. — Vocês… sempre souberam sobre o dom dela?
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  Minha mãe trocou um olhar breve com meu pai.
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  — Sabíamos que ela ouviria a magia de um jeito diferente — respondeu. — Não sabíamos quando ela atravessaria.
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  Rony franziu a testa.
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  — Atravessar?
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  — Alguns aprendem olhando — meu pai disse. — Outros, sentindo. Ela… entra.
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  O silêncio que veio depois não foi de medo, foi de compreensão tardia. Hermione apertou os lábios, claramente conectando peças que vinham se acumulando havia meses.
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  — Isso explica muita coisa — murmurou.
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  Harry não disse nada, mas seus olhos estavam em mim o tempo todo. Não como antes. Não com confusão ou desejo reprimido.
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  Com cuidado.
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  Como quem finalmente entendia que não estava lidando com algo simples.
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  Minha mãe se virou para mim.
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  — Eles sabem agora — disse. — Não tudo. Mas o suficiente.
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  Assenti.
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  — Eu confio neles.
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  Meu pai assentiu também.
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  — Então fiquem — disse ao trio. — Mas lembrem-se: estar perto dela agora exige atenção. Não curiosidade.
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  Rony endireitou os ombros imediatamente.
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  — A gente cuida dela — disse, sério. — Do nosso jeito meio… desorganizado, mas—
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  — Mas cuidam — minha mãe completou.
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  Hermione respirou fundo, emocionada demais para esconder. Harry deu um último passo à frente, parando ao lado da cama.
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  — Eu prometo — disse. — Não como herói, mas como amigo.
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  Nossos olhares se prenderam por um segundo. E eu soube — com uma clareza calma, nova — que aquilo não era reconciliação ainda, mas era base.
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  Dumbledore finalmente se moveu.
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  — Acho — disse, com um leve sorriso — que este castelo acaba de se tornar um pouco mais… atento.
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  Minha mãe pousou a mão sobre a minha.
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  — E você — murmurou — não precisa mais fingir que dá conta sozinha.
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⚡🧙

  Meu pai foi o último a se mover.
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  Quando todos já pareciam ter entendido que aquele encontro chegava ao fim, ele se aproximou um passo de Harry — não o bastante para intimidar, mas o suficiente para ser ouvido apenas por quem precisava.
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  — Potter — disse, com aquela calma que sempre antecedia decisões sérias. — Um instante.
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  Harry assentiu de imediato, não me olhou, aliás não olhou para mais ninguém. Apenas seguiu meu pai até perto da porta, onde as vozes baixaram o suficiente para se tornarem inacessíveis, mas não irrelevantes. O silêncio que se formou foi pesado, denso de coisas que eu não via, mas sentia.
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  Não tentei adivinhar o conteúdo da conversa.
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  Pela primeira vez em dias, eu simplesmente não tinha espaço emocional para mais nenhuma interpretação.
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  Minha mãe se inclinou e beijou minha testa com cuidado, como se aquele gesto precisasse atravessar mais do que pele.
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  — Descansa — disse. — A gente conversa de novo em breve.
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  Assenti.
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  Meu pai voltou logo depois, colocou a mão no meu ombro por um segundo — firme, presente — e saiu com eles.
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  A enfermaria foi esvaziando aos poucos.
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  Rony se despediu com um aceno meio desajeitado, prometendo voltar com algo que não fosse comida hospitalar. Dumbledore foi o último a sair, silencioso como sempre, deixando a porta se fechar com um clique quase respeitoso.
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  Ficou só Hermione.
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  Ela puxou uma cadeira e se sentou ao lado da cama, sem dizer nada de imediato. Apenas ficou ali, como sempre soube ficar, sem invadir ou pressionar.
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  — Harry falou com você ontem antes de sair — disse, por fim, num tom baixo demais para ser casual. — Disse que queria conversar. Que precisava.
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  Soltei o ar devagar.
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  — Eu sei.
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  — Seu pai chamou ele — completou. — Não foi hostil. Mas… foi sério.
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  Assenti de novo.
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  — Mione… — comecei, e parei. — Depois de tudo o que aconteceu… eu nem consegui pensar no que ele queria me dizer.
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  Ela inclinou a cabeça, compreensiva.
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  — Talvez isso também diga alguma coisa.
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  — Talvez — concordei. — Ou talvez eu só esteja cansada demais pra decidir qualquer coisa agora.
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  Ficamos em silêncio por alguns segundos, deixando a resposta existir sem ser definida.
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  — Você acha que ele ia… — ela começou, e depois desistiu da pergunta. — Bom. Não importa agora.
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  — Não — confirmei. — Agora não.
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  Foi quando a porta se abriu outra vez. Saphira entrou com passos leves, quase cautelosos, como se sentisse que aquele espaço exigia delicadeza. O olhar dela foi direto para mim, imediato, preocupado.
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  — Posso? — perguntou, mesmo já estando ali.
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  Hermione se levantou no mesmo instante, entendendo tudo sem precisar de mais nada.
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  — Eu vou deixar vocês — disse, apertando minha mão de leve antes de sair. — Depois a gente conversa.
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  Saphira ficou.
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  Não sentou de imediato. Caminhou devagar até a janela da enfermaria, observando o céu escurecendo atrás das torres, como se estivesse tentando entender o tempo ali dentro, onde tudo parecia suspenso.
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  — A Sprout deve estar surtando por você ter faltado em Herbologia — comentou, por fim, com um meio sorriso. — As tentáculos da Venus atrapamentum já devem estar se sentindo abandonadas.
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  Soltei um riso baixo, cansado, mas sincero.
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  — Eu sei. — Suspirei. — Ela provavelmente já separou uma palestra inteira sobre responsabilidade emocional com plantas.
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  — Plantas sentem quando a gente some — disse Saphira, se virando para mim. — Não ficam bravas. Mas ficam… estranhas. Crescem torto. Respondem diferente.
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  Aquilo não era só sobre plantas.
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  Eu senti.
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  — Eu gosto da Herbologia justamente por isso — murmurei. — É uma das poucas matérias que não exige que você controle tudo. Só que esteja presente.
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  Ela se aproximou da cama e se sentou ao meu lado.
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  — Você anda tentando controlar coisas demais — disse, sem acusação.
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  Ficamos em silêncio por alguns segundos. Um silêncio bom. Daqueles que não pedem explicação.
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  Saphira estendeu a mão e tocou a minha, os dedos se entrelaçando com naturalidade. Depois se inclinou e deixou um beijo leve na minha bochecha. Outro, um pouco mais perto do canto da boca. Nada urgente. Nada exigente.
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  Correspondi, encostando a testa na dela.
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  — Saphira… — comecei, e minha voz saiu diferente. Mais frágil do que eu gostaria.
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  Ela se afastou só o suficiente para me olhar.
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  — Fala. — Respirei fundo.
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  — Eu tô passando por muita coisa aqui dentro. — Levei a mão ao peito, não à cicatriz, mas ao espaço ao redor. — Coisas que eu ainda não sei nomear direito. Eu tô confusa. Não só cansada. Confusa mesmo.
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  Ela não interrompeu.
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  — Eu sinto atração por você — continuei, honesta. — Gosto de estar perto. Gosto do jeito que você me acalma. Mas eu… não consigo prometer nada agora. Não consigo entrar em algo sério quando ainda tô tentando entender quem eu sou depois de tudo isso.
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  O silêncio que veio foi tenso.
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  Eu temi ter ido longe demais.
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  — E tem o Harry — acrescentei, por fim, a palavra pesada entre nós. — O que eu sinto por ele é diferente. Não é só sentimento. Ele faz parte de algo muito importante pra mim. Da minha história. Do que eu tô me tornando. E eu não sei separar isso ainda.
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  Saphira fechou os olhos por um instante, inspirou fundo e depois soltou o ar devagar, como quem decidia não carregar algo que não era seu.
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  — Tá — disse.
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  Só isso.
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  Abri os olhos, confusa.
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  — Tá…?
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  Ela sorriu de leve.
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  — Eu não tô apaixonada por você, %Ayana%.
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  A frase caiu como água morna depois de dias de febre.
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  — Eu sinto atração — continuou. — Curiosidade. Vontade. Você é… intensa. Isso chama. Mas eu não tava projetando futuro nenhum em cima disso.
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  Meu corpo relaxou antes que eu percebesse.
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  — Sério?
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  — Sério. — Ela riu baixinho. — Eu não gosto de entrar em terrenos onde alguém ainda tá tentando se reconhecer. Herbologia ensina isso também, sabia? Algumas plantas só florescem depois de um tempo em dormência. Forçar antes… só mata a raiz.
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  Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo.
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  — Obrigada por dizer isso.
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  — Obrigada por ser honesta — respondeu ela, inclinando-se para deixar um beijo rápido, tranquilo, nos meus lábios. Sem promessa. Sem cobrança. — A gente pode gostar sem complicar. Ou parar sem ferir. Isso também é maturidade.
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  Ela se levantou devagar.
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  — Descansa. Volta pras aulas quando estiver pronta. E… — deu de ombros — quando quiser conversar sobre plantas assassinas ou caos existencial, eu tô por aí.
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  Sorri.
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  — Vou lembrar disso.
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  Saphira saiu, deixando o quarto em silêncio outra vez, mas, dessa vez, não era um silêncio pesado.
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  Era um espaço aberto.
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  Deitei a cabeça no travesseiro, sentindo o corpo finalmente ceder. Eu ainda estava confusa, ainda dividida, ainda no meio de coisas grandes demais, mas, pela primeira vez desde que acordei naquela enfermaria, eu não sentia que estava machucando alguém só por existir.
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  E isso... já era um começo.
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  Nota da autora: Capítulo 10 foi pra virar a chave de vez no arco do dom da %Ayana%, porque agora não é mais “visão estranha”, é marca. É consequência. É o castelo percebendo também.
  Eu quis que a enfermaria tivesse esse tom quase claustrofóbico, como se até o tempo estivesse observando ela respirar.
  Obrigada por estarem aqui comigo, por sentirem cada detalhe e por não largarem a mão da %Ayana% mesmo quando ela mesma tenta se afastar. 🤍
  Nos vemos no 11.

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Lelen

Eu sei que o foco era outro, mas esse final com a Saphiraaaa 🥹🥹🥹

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