Feitiço Inquebrável


Escrita porNyx
Editada por Lelen


Capítulo 08 • Ecos do Passado

  O amanhecer não chegou de verdade — ele só se insinuou entre as torres, dissolvido em névoa. A luz que atravessava as janelas da torre da Corvinal parecia o resto de um sonho, não o começo de um dia. O ar estava frio o bastante pra embaçar o vidro, e o silêncio pesava no quarto como um feitiço inacabado.
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  Acordei antes do primeiro sino, com o colar grudado na pele — gelado, quase dolorido. Por um instante, pensei que fosse só o frio da pedra, mas logo percebi o motivo real: o grimório, aberto sobre a escrivaninha, estava... respirando.
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  Não era figura de linguagem. As páginas se moviam devagar, como se o pergaminho exalasse um ar próprio, um pulsar suave, quase vivo. Me aproximei, hesitante, e notei que as anotações da noite anterior — meus rabiscos sobre a visão da lâmina e o rosto do Harry diante de Morgana — não estavam mais onde eu as deixei.
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  As letras se moviam sozinhas, escorregando pela página como tinta líquida até se reorganizarem em um novo símbolo: duas linhas paralelas cruzadas por uma terceira. O elo.
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  Encostei o dedo no traço, sem pensar.
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  Um arrepio subiu pelo meu braço e se espalhou pela nuca.
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  Por um segundo, juro que ouvi uma respiração — não a minha, mas vinda de dentro do livro.
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  Foi quando bateram à porta. Uma, duas, três vezes.
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  — Tá acordada? — a voz suave da Luna atravessou o corredor, serena e sonhadora como sempre.
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  Respirei fundo antes de responder:
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  — Desde sempre. Ou pelo menos é o que parece.
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  A porta se abriu no mesmo instante. Luna apareceu com o cabelo despenteado, um colar de miçangas pendendo torto no pescoço e uma expressão de quem tinha acabado de conversar com alguma criatura invisível.
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  — Eu sabia — disse ela, com aquele tom tranquilo de quem nunca tinha pressa. — Senti uma energia estranha vindo daqui. As runas estavam agitadas.
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  — As runas e eu — respondi, meio rindo, meio cansada. — Tivemos uma noite... interessante.
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  Luna inclinou a cabeça, observando o grimório que eu fechara segundos antes.
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  — Ele está diferente. — Falou como se fosse óbvio. — Como se tivesse te reconhecido.
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  — Isso é uma coisa boa? — perguntei, desconfiada.
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  Ela pensou por um instante.
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  — Depende. Coisas antigas só reconhecem quem carrega o mesmo tipo de verdade. — Depois deu um pequeno sorriso. — Não parece algo ruim. Só... importante.
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  Suspirei, passando a mão no rosto.
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  — E você sempre aparece quando as coisas ficam confusas, né?
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  — Eu gosto de quando o mundo fica confuso — respondeu. — Significa que ele está mudando de forma.
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  Sorri, porque era impossível não sorrir com Luna.
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  — Você é impossível.
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  — Eu sei. — Ela esticou a mão e me puxou pelo braço, leve. — Anda, vamos descer. O café já esfriou e o professor Flitwick não gosta de alunos famintos tentando fazer feitiços.
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  Peguei a mochila, mas antes de sair, olhei pro grimório mais uma vez. O símbolo ainda estava lá, fraco, mas pulsante — como um lembrete.
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  O elo.
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  Enquanto descíamos as escadas, senti o colar vibrar de leve, um aviso quase imperceptível. E por um instante — só um — tive certeza de que não éramos apenas nós duas descendo juntas. Tinha algo mais conosco. Algo que respirava o mesmo ar.
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⚡🧙

  A última aula de Aritmância terminou com a professora Vector escrevendo fórmulas no quadro mais rápido do que qualquer aluno conseguia copiar. As linhas de números e runas brilhavam sob a luz das tochas, parecendo dançar quando o giz riscou o último traço.
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  Eu e Hermione fomos as últimas a sair. Nossos pergaminhos estavam cobertos de anotações — dela, perfeitamente alinhadas; minhas, uma mistura de cálculos e rabiscos de símbolos que o grimório parecia insistir em fazer reaparecer na minha cabeça.
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  Sentamos perto da janela, aproveitando os minutos de intervalo antes do almoço. O ar lá fora estava frio e leve, e Hogwarts parecia respirar num ritmo próprio.
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  — Você entendeu aquela parte da projeção energética? — perguntei, apontando pro canto do meu pergaminho. — Porque eu juro que essas variáveis mudam só pra me irritar.
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  — As variáveis não mudam, %Ayana%, você é que tenta sentir em vez de calcular — respondeu Hermione, mas o tom era mais de carinho do que de crítica. — O que, convenhamos, é muito você.
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  Sorri, mexendo na pena.
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  — E ainda assim, tirei nota igual à sua na última prova.
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  — Por pura sorte mágica — retrucou, rindo. — Mas admito: você tem uma intuição assustadora pra esse tipo de coisa.
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  Ficamos um tempo em silêncio, só o som do vento entrando pela janela. Então, como quem lançava uma pergunta sem muito aviso, ela disse:
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  — Você e o Harry estão brigados de novo? — Ergui o olhar devagar.
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  — Não estamos brigados.
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  — Só não se falam, não se encaram e fingem que o outro não existe — completou, cruzando os braços. — Claro, muito diferente de estar brigados. — Soltei um suspiro, rendida.
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  — Ele anda… impossível. Tudo é o Malfoy, o Slughorn, o Snape… e qualquer coisa que eu diga parece virar provocação. — Hermione fechou o pergaminho, apoiando o queixo nas mãos.
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  — Talvez porque ele escute você mais do que quer admitir.
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  — Escutar é diferente de gostar — respondi, tentando parecer despreocupada. Ela arqueou uma sobrancelha, o olhar cheio de significado.
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  — É, mas nem tanto.
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  — Mione… — comecei, mas ela ergueu a mão, interrompendo.
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  — Você conversou com ele depois daquela noite? — perguntou, firme.
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  O ar pareceu mudar de densidade. Pisquei, tentando manter a naturalidade.
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  — Não. — A resposta saiu mais curta do que eu pretendia. — E não vejo por que deveríamos.
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  — Porque vocês precisam — insistiu, baixando a voz. — Fingir que nada aconteceu não vai fazer desaparecer o que vocês sentem.
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  — “O que sentimos”? — repeti, tentando rir. — Você anda lendo demais romances.
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  Hermione não riu. Só me olhou com aquele olhar clínico de quem enxergava verdades que a gente preferia ignorar.
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  — Você pode negar pra mim, mas não pra ele. Nem pra si mesma.
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  Desviei o olhar para o pergaminho, rabiscando qualquer coisa só pra não ter que encará-la.
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  — Não é o momento pra… isso. Tem coisa demais acontecendo.
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  — Justamente por isso — rebateu, com calma. — Às vezes, é quando tudo parece desabar que a gente precisa admitir o que sente.
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  Suspirei, esfregando a têmpora.
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  — E se eu não quiser admitir? — Ela deu um sorrisinho pequeno, mas triste.
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  — Então vai continuar se perdendo cada vez que ele olhar pra você desse jeito. — Revirei os olhos, mais pra escapar do que por real impaciência.
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  — Você fala como se tivesse todas as respostas.
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  — Não tenho — respondeu, juntando os livros. — Mas aprendi a reconhecer quando alguém está se escondendo atrás das perguntas erradas.
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  Antes que eu pudesse responder, ela soltou um meio sorriso e disparou:
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  — Se vocês continuarem fingindo que não sentem nada, avisa pra eu parar de ser a vela desse drama intercasas.
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  Revirei os olhos outra vez, mas o calor subiu pelas bochechas antes mesmo que eu pudesse disfarçar.
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  — Drama? É assim que você chama guerra fria agora?
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  — Chamo de negação com potencial — rebateu, divertida. — E você sabe que eu estou certa.
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  Balancei a cabeça, rindo, mas a frase ficou ali, ecoando mais fundo do que eu gostaria de admitir.
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  Foi quando uma sombra atravessou o vidro. Uma coruja desceu em linha reta, imponente, e pousou sobre nossa mesa, derrubando alguns papéis. Um pergaminho selado com cera azul-escura pendia da perna dela.
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  — O que é isso? — Hermione perguntou, já se inclinando.
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  Tirei o bilhete e quebrei o selo com cuidado. A tinta prateada das letras mudava de tom conforme a luz das tochas.
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“A Srta. %Chikondi% é convidada a comparecer ao gabinete do diretor,
junto ao Sr. Potter, às seis da tarde.”
— Alvo Dumbledore

  Hermione piscou, surpresa.
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  — Uau, as aulas era só com o Harry, estou surpresa por ele ter te incluído nessa.
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  Fiquei olhando o bilhete, a tinta ainda viva na superfície. O colar vibrou de leve contra minha pele — quente, pulsante — como se reconhecesse o nome.
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  — Acho que ele tem um bom motivo — murmurei.
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  Hermione mordeu o lábio, pensativa.
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  — Se o Dumbledore está juntando você e o Harry nessas lições, é porque o que vem pela frente não é pouca coisa.
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  Assenti, dobrando o bilhete e guardando no bolso interno da túnica.
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  — Nada em Hogwarts é pouca coisa, Mione. — Sorri de leve, mas o arrepio que subiu pela minha nuca contradizia o tom calmo.
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  As horas seguintes arrastaram-se em um emaranhado de aulas e pensamentos. Mesmo mergulhada em fórmulas de Aritmância e exercícios de Feitiços, minha mente insistia em voltar para o bilhete de Dumbledore — e para o nome que o acompanhava.
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  Harry Potter.
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  Era como se cada vez que eu tentasse focar no presente, o colar esquentasse em aviso, lembrando-me de que havia algo prestes a acontecer.
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  Durante o intervalo, encontrei Hermione rapidamente na escadaria. Ela tentou disfarçar o nervosismo com comentários sobre a tarefa de Transfiguração, mas seus olhos diziam o que a boca não precisava: “toma cuidado.”
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  O restante do dia passou num ritmo estranho, com o castelo parecendo respirar junto a mim — as paredes pulsando de magia contida, as sombras mais longas do que de costume.
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  Quando o final das aulas ecoou pelos corredores, senti o estômago se contrair.
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  Agora não havia mais adiamento possível.
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  Guardei os livros, ajeitei a túnica e segui para o corredor principal. O entardecer entrava pelas janelas em feixes dourados e alaranjados, tingindo as pedras antigas com luz morna. O ar tinha cheiro de poeira e expectativa.
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  Foi ali que o vi.
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  Harry já me esperava no pé da escada em espiral que levava ao gabinete do diretor. A postura dele era a de sempre — mãos nos bolsos, olhar baixo —, mas havia algo tenso no ar, um fio invisível que me puxava em direção a ele.
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  — Achei que o Dumbledore fosse me chamar sozinho — disse, sem me encarar.
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  Cruzei os braços, tentando soar mais leve do que me sentia.
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  — Talvez o destino tenha outros planos pra nós dois.
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  Ele ergueu o olhar, rápido, e por um instante, aquele mesmo silêncio de antes — o do quase beijo — se estendeu entre nós. Nenhum de nós mencionou o que aconteceu. Fingimos, como sempre, que nada existia além do que podíamos controlar.
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  — Pronta? — perguntou, com a voz mais baixa.
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  — Nunca — respondi, mas comecei a subir mesmo assim.
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  Eu e Harry subimos os degraus que levavam ao gabinete do diretor lado a lado, não próximos o bastante para parecerem aliados, nem distantes o suficiente para serem estranhos. A tensão flutuava entre nós como uma corda esticada prestes a arrebentar.
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  A cada passo, o som dos sapatos no chão ecoava mais alto do que qualquer palavra que não estávamos dizendo. Por um instante, pensei em quebrar o silêncio, dizer qualquer coisa, mas quando olhei para o lado, vi que ele já fazia o mesmo esforço para fingir normalidade.
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  — Você acha que o Dumbledore vai mostrar outra memória? — perguntei, apenas para ocupar o espaço.
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  — Provavelmente — respondeu, sem olhar para mim. — Ele sempre tem um motivo.
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  — Ele sempre tem muitos. — Cruzei os braços. — A diferença é que só revela um de cada vez.
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  Um canto do lábio dele se curvou, quase um sorriso, mas o som do quadro de pedra se movendo interrompeu o momento.
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  A escada em espiral surgiu, e subimos em silêncio.
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  O gabinete do diretor era exatamente como eu lembrava: o ar perfumado por livros antigos e magia densa, as prateleiras cobertas de instrumentos cintilantes, e o retrato de antigos diretores fingindo não escutar. No centro, Dumbledore nos esperava, sereno, com as mãos cruzadas sobre a mesa e o olhar azul fixo em nós, não julgando, mas avaliando.
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  — Srta. %Chikondi%, Sr. Potter — disse, com aquele tom calmo que conseguia impor respeito sem esforço. — Que bom que vieram.
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  Harry assentiu em silêncio. Eu fiz o mesmo. Dumbledore levantou-se, caminhando lentamente até a penseira prateada que repousava sobre um suporte de mármore. O líquido no interior ondulava suavemente, como se respirasse.
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  — Hoje — começou, com a voz grave e pausada — veremos a origem de algo que mudou o curso da nossa história.
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  O colar no meu pescoço vibrou, quente. Olhei para ele sem entender, mas Dumbledore já se inclinava sobre a penseira, tocando a superfície prateada com a varinha.
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  — Toquem aqui — disse. — E mantenham os olhos abertos.
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  Troquei um breve olhar com Harry. Ele hesitou, mas foi o primeiro a encostar os dedos na borda líquida. Fiz o mesmo logo em seguida.
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  O mundo girou.
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  Quando abri os olhos, o ar cheirava a mofo e ferro.
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  O teto era baixo, as paredes descascadas, e as janelas deixavam entrar um fio de luz acinzentada. Reconheci o lugar antes mesmo que Dumbledore surgisse à frente, mais jovem, batendo à porta de um orfanato de aparência miserável.
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  O chiado de dobradiças ecoou, e uma mulher magra, de olhar cansado, o conduziu até uma sala onde algumas crianças brincavam em silêncio. No canto, isolado, estava ele: Tom Riddle.
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  Pequeno, com os olhos sombrios demais para a idade. A presença dele era fria, quase palpável. Quando Dumbledore se aproximou, o garoto levantou o olhar e, pela primeira vez, eu entendi que o medo e o fascínio podiam ser a mesma coisa.
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  As vozes ecoavam ao redor — o diálogo igual ao que eu lembrava dos relatos de Hermione —, mas havia algo que ninguém mais via.
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  No canto da sala, uma sombra se movia.
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  Morgana.
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  A figura dela se formava entre a penumbra e o pó. O capuz baixado, os olhos brilhando como prata líquida. Ela observava o menino com um misto de curiosidade e tristeza — como quem reconhecia algo que não queria ver.
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  Quando Tom mostrou a Dumbledore a caixa com seus “troféus”, vi o brilho metálico do medalhão. O mesmo das minhas visões. O mesmo símbolo que queimava nas páginas do grimório.
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  Meu colar esquentou de novo, e a voz de Morgana atravessou minha mente, suave e cortante ao mesmo tempo:
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  “O mal e o dom nascem do mesmo ventre. Cabe ao portador decidir o que cultiva.”
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  As palavras vibraram dentro de mim. Olhei em volta, mas ninguém parecia notar a presença dela — nem Harry, nem Dumbledore.
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  Somente eu.
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  Quando Riddle sorriu para o diretor, orgulhoso do próprio segredo, senti uma onda de frio me atravessar. A sala começou a se desfazer, os rostos se dissolvendo em névoa.
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  Voltei à realidade com um sobressalto.
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  O gabinete de Dumbledore estava exatamente igual, exceto pela sensação de que o ar pesava mais. O líquido na penseira tremulava, refletindo fragmentos do que havíamos visto.
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  Dumbledore nos observava, a expressão serena, mas os olhos… curiosos.
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  — Curioso… — disse, mais para si do que para nós. — A penseira reagiu à sua presença, Srta. %Chikondi%. Isso não é comum.
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  Senti o colar latejar sob o tecido da túnica, como se confirmasse o que ele dizia.
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  Harry me olhou, ainda processando.
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  — Reagiu como?
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  — Como se algo dentro dela reconhecesse outra força — respondeu Dumbledore, os dedos tocando o queixo. — E, de certa forma, talvez reconheça mesmo.
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  Eu segurei o colar com os dedos, tentando estabilizar a respiração. Ainda podia ouvir o eco da voz de Morgana, distante, mas viva: “Cabe ao portador decidir o que cultiva.”
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  Dumbledore se virou lentamente para nós.
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  — As escolhas, meus caros, são sementes. Algumas florescem… outras envenenam o solo onde caem.
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  Ele sorriu, breve, mas o olhar pairou em mim por tempo demais. E eu soube — antes mesmo que ele dissesse — que aquilo estava longe de ser a última vez que veríamos o passado.
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  Dumbledore nos observava em silêncio por um momento, as mãos cruzadas às costas. O brilho das velas refletia nos óculos meia-lua, e o rosto dele era um retrato de calma estudada.
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  — Creio que por hoje já basta, Harry — disse por fim, num tom gentil, mas definitivo. — Pode ir. Gostaria de conversar com a Srta. %Chikondi% por um instante.
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  Harry me olhou rapidamente, como se quisesse protestar, mas o olhar de Dumbledore não deixava espaço para isso.
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  — Tudo bem — respondeu, a contragosto. — Te espero lá fora.
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  Quando a porta se fechou atrás dele, o gabinete pareceu crescer em silêncio. O som dos retratos cochichando ao fundo se dissolveu, e o ar se tornou quase sagrado.
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  Dumbledore se aproximou da penseira e tocou levemente a superfície prateada, que ainda ondulava com ecos da memória recém-visitada.
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  — O medalhão — começou, a voz baixa, quase um pensamento dito em voz alta. — Já foi tema de investigações antigas. E, curiosamente, sempre parece retornar para aqueles que não deveriam tê-lo.
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  Fiquei imóvel, acompanhando o movimento do líquido na bacia.
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  — Ele pertencia aos Gaunt, não?
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  — Sim. — Dumbledore assentiu, sem tirar os olhos da penseira. — Uma família que carrega em si um ramo de magias mais antigas do que o próprio nome de Salazar Slytherin. Laços que não se apagam, mesmo depois de séculos.
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  As palavras dele pareciam vibrar junto com o colar no meu pescoço. Respirei fundo.
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  — Professor… o senhor acredita em Morgana?
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  O silêncio durou um segundo, dois, três, e então ele sorriu, suave, como quem já havia previsto a pergunta.
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  — Acredito em forças antigas demais para duvidar delas — respondeu, virando-se para mim. — Morgana foi uma delas. E talvez ainda seja.
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  O coração deu um salto.
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  Ele sabia.
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  Ou, pelo menos, intuía.
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  — Ela… apareceu pra mim — confessei, a voz saindo mais fraca do que eu pretendia. — Nas visões. E agora, na penseira.
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  — As forças que nos escolhem raramente pedem permissão — disse Dumbledore, com uma serenidade que parecia abranger todos os séculos da história. — Elas apenas se manifestam quando o mundo precisa ouvir algo que esqueceu.
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  — E se eu não quiser ser o eco disso? — perguntei, num fio de voz.
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  O olhar dele se suavizou.
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  — Não querer não muda o chamado, minha cara. Mas compreender… pode mudar o destino.
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  Por um instante, ninguém falou. O fogo da lareira estalou, e eu juro que ouvi o colar pulsar em resposta. Dumbledore caminhou até a mesa e, com um gesto leve, indicou a porta.
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  — Vá. É tarde. E eu imagino que o Sr. Potter ainda esteja esperando.
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  Assenti, com o coração pesado. Quando alcancei a maçaneta, ouvi sua voz uma última vez, quase um sussurro:
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  — Tome cuidado, %Ayana%. Há poder demais em quem escuta o que o tempo tentou silenciar.
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  O corredor estava vazio, exceto por ele. Harry estava encostado na parede de pedra, os braços cruzados, a expressão indecifrável. Quando me viu, endireitou-se, mas não disse nada.
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  — Ele te prendeu lá dentro um tempão — comentou, tentando soar casual, mas o tom traía curiosidade. — O que ele queria?
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  — Conversar. — respondi simples, passando por ele.
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  Ele deu alguns passos ao meu lado.
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  — Sobre o quê?
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  — O medalhão. As memórias. Essas coisas que você adora decifrar.
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  — E o que ele disse?
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  Parei no meio do corredor. A luz das tochas tremulava, lançando sombras longas no chão.
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  — Que o medalhão está ligado a algo muito mais antigo. Que as famílias que o tocaram guardam segredos que vão além da magia comum.
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  — E você acredita nisso? — Olhei para ele, hesitando.
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  — Eu vi coisas, Harry. Não só na penseira. — Toquei o colar. — A Morgana… ela estava lá. Na mesma memória que a gente viu. — Ele franziu o cenho.
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  — A Morgana… Le Fay que você comentou dos livros? — Assenti.
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  — Ela observava o Tom Riddle. Como se o conhecesse. Como se… visse nele algo que eu não sei nomear.
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  Harry deu um passo mais perto, a voz baixa:
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  — E o que mais ela disse?
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  — Que o mal e o dom nascem do mesmo ventre — murmurei. — E que cabe ao portador decidir o que cultiva.
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  Ficamos em silêncio. O corredor parecia respirar junto com a gente. A expressão dele suavizou.
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  — Isso te assusta? — Soltei um riso fraco.
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  — Tudo me assusta ultimamente.
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  — Você não devia carregar isso sozinha, %Ayana%. — Ele se aproximou mais um pouco. — Se ela está te mostrando essas coisas, se o Dumbledore confia em você pra ver as memórias… é porque você tem algo que a gente não entende ainda.
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  — “Algo” é uma palavra perigosa — respondi, num murmúrio. — Principalmente quando nem eu sei o que significa.
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  Harry hesitou, depois estendeu a mão, como se fosse tocar meu braço, mas parou no meio do gesto.
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  — Então deixa eu tentar entender junto.
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  A frase ficou suspensa no ar, quente e sincera. Por um instante, pensei em recuar, mas não consegui. Os olhos dele estavam diferentes. Não o olhar do garoto teimoso que caçava respostas, mas de alguém que começava a enxergar algo além das perguntas.
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  Respirei fundo.
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  — Eu não sei o que vem pela frente.
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  — Ninguém sabe — respondeu, num sussurro. — Mas você não precisa andar sozinha.
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  Antes que eu pudesse responder, o colar vibrou com força — um pulso quente que me fez estremecer. Uma voz ecoou na minha mente, suave e cortante:
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  “%Ayana%.”
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  O nome soou como um feitiço, seguido pelo estalo de uma lâmina atravessando o ar. A visão da lâmina cintilou, o mesmo brilho prateado das chamas que cercavam o medalhão.
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  — %Ayana%? — Harry me segurou pelos ombros. — O que foi?
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  Pisquei, voltando a mim, o coração descompassado.
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  — Nada… — menti, ainda ouvindo o eco do meu nome. — Só… um arrepio.
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  Ele me olhou por um segundo a mais, como se soubesse que eu não estava dizendo toda a verdade, mas não insistiu. Apenas assentiu e caminhou ao meu lado pelo corredor vazio.
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  E enquanto o som dos passos se misturava ao farfalhar das tochas, percebi que algo dentro de mim tinha mudado. Não apenas o elo com Morgana, mas com ele.
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  Porque, de alguma forma, eu sabia: nossas histórias estavam presas ao mesmo fio, e ele já começava a se tensionar.
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  O amanhecer chegou tímido, dissolvendo a noite como quem apagava um feitiço. A primeira luz atravessou as janelas altas da torre da Corvinal, pintando o chão com tons de prata e ouro pálido. Eu ainda estava desperta quando o sino das seis soou — não que tivesse realmente dormido.
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  O colar repousava sobre o travesseiro, frio outra vez, como se a energia da noite anterior tivesse se esgotado junto comigo. A imagem da lâmina ainda vinha em flashes — o brilho cortante, o sussurro do meu nome, a voz de Morgana se misturando à lembrança do olhar do Harry.
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  Tentei afastar aquilo com gestos automáticos: vesti a túnica azul e bronze, prendi os cachos, calcei as botas. A rotina era o único tipo de feitiço que funcionava contra o caos.
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  O colar parecia inerte agora, mas eu sabia que não estava. Era como uma fera adormecida: silenciosa, mas atenta.
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  Peguei a mochila e desci a longa escadaria em espiral que levava até os corredores principais. O castelo ainda despertava — sons de passos apressados, o ranger das portas, o cheiro familiar de torradas e chá quente vindo do Salão Principal. Passei por um grupo de alunos sonolentos, todos com o brasão da Lufa-Lufa, e entrei no Salão, que ainda estava meio vazio.
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  Foi então que vi Gina, perto das janelas que davam para o campo de Quadribol. Os cabelos ruivos capturavam cada traço de luz, como se ela mesma tivesse guardado um pedaço do sol. A caneca fumegante nas mãos, o olhar distante — parecia em paz, mas havia algo pensativo em sua expressão.
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  — Acordou cedo — comentei, me aproximando com um sorriso discreto. Ela virou o rosto, correspondendo o gesto.
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  — E você também. — Bateu de leve na cadeira ao lado, num convite. — Senta.
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  Obedeci, apoiando os cotovelos na mesa.
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  — Dormi pouco. Fiquei revisando os cálculos de Aritmancia… ou tentando.
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  — Ah, sim, vi Mione falando do exercício impossível da professora Vector — resmungou Gina. — Vocês são corajosas de cursarem essa disciplina.
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  Rimos juntas, cúmplices no caos estudantil.
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  — Você pelo menos tem o Quadribol pra extravasar — comentei, pegando uma torrada. — Ontem o treino da Corvinal quase me matou.
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  Gina riu baixo.
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  — Você fala como se o nosso estivesse melhor. — Girou a caneca nas mãos, pensativa. — O Harry anda com os nervos à flor da pele, o Rony distraído, e eu tentando manter o time inteiro concentrado sem perder a cabeça.
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  — Imagino. — Apoiei o queixo na mão, cansada só de lembrar. — O nosso capitão está obcecado com táticas novas. Jurou que, se não vencermos a Grifinória no próximo jogo, vai nos fazer treinar até de madrugada.
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  Ela sorriu de leve.
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  — Ah, o clássico desespero antes da temporada. — Deu um gole no café, suspirando. — Às vezes, eu acho que o Quadribol é só uma metáfora disfarçada pra vida em Hogwarts: caos, competição e gente voando pra todos os lados.
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  Ri, concordando.
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  — E, no meio disso tudo, o Rony parece… distante.
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  — É. — O sorriso dela diminuiu um pouco. — E não sei se é o Quadribol, a Hermione ou ele mesmo que não sabe o que quer.
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  — Aposto nos três — comentei, e ela soltou um riso cúmplice.
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  Ficamos em silêncio por um instante, o tipo de pausa confortável que só existe entre pessoas que não precisam se provar. O campo lá fora ainda estava coberto de névoa, e por um momento, apenas o som dos talheres e do fogo nas tochas nos envolveu.
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  — Às vezes eu penso que todo mundo aqui anda meio perdido — disse ela, olhando pro horizonte. — A gente tenta fingir normalidade, mas o ar parece pesado, sabe? — Assenti.
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  — Como se tivesse uma tempestade vindo, mas ninguém quisesse admitir.
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  Ela virou o rosto pra mim e, por um instante, o silêncio bastou. Era fácil conversar com Gina. Havia nela uma calma que equilibrava a minha mente sempre em alerta.
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  — E você? — perguntou de repente. — Tá bem mesmo?
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  Demorei um pouco antes de responder.
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  — Tentando entender as coisas. — Sorri de leve. — Algumas visões, algumas verdades, alguns silêncios.
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  — Entender as coisas — repetiu ela, pensativa. — Essa é a missão de todo mundo aqui, eu acho.
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  O Salão começava a encher, o barulho crescendo em ondas. Gina observou os alunos chegando, o olhar sereno.
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  — Sabe, o Harry fica diferente perto de você — disse, quase num sussurro, sem qualquer malícia. — Não sei se ele percebe, mas eu percebo.
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  Ergui uma sobrancelha, tentando conter o sorriso.
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  — Lá vem.
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  — Não é uma crítica nem um elogio — explicou. — É só um fato. Ele tenta disfarçar, mas… é meio impossível não notar.
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  Fiquei quieta, sem negar nem confirmar. Ela me olhou, e seu sorriso ganhou uma ponta de ternura.
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  — As pessoas são mais complicadas do que a gente quer que sejam. E gostar de alguém não precisa virar uma guerra.
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  Soltei o ar devagar, o peito apertado e calmo ao mesmo tempo.
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  — Isso é bem sábio. — Gina deu de ombros, sorrindo.
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  — Acho que o caos do Quadribol me ensinou a escolher minhas batalhas.
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  Rimos juntas, duas jogadoras, duas garotas tentando navegar entre o dever, o coração e as expectativas. Ela terminou o café, batendo o fundo da caneca na mesa.
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  Gina terminou o café, batendo o fundo da caneca na mesa.
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  — Agora vai, antes que o café esfrie e a manhã acabe te engolindo.
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  — Você fala como se as manhãs daqui fossem inofensivas — retruquei, rindo.
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  Ela se levantou, ajeitando o cachecol da Grifinória e olhando mais uma vez para o campo encoberto de névoa.
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  — Nada em Hogwarts é inofensivo — disse, com um meio sorriso. — Mas tem coisa que vale a pena enfrentar… mesmo quando a gente sabe que vai se machucar um pouco no processo.
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  Sorri, sem saber se ela falava do Quadribol, do Rony, do Harry — ou de nós mesmas. Ela apenas deu de ombros, voltando o olhar pro horizonte.
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  — Eu gosto de ver as coisas se revelando aos poucos. É o único jeito de entender o que é real.
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  Fiquei alguns segundos ali, em silêncio, antes de me despedir com um aceno discreto. Quando olhei pra trás, Gina ainda estava lá — firme, calma, com o vento bagunçando os cabelos e o sol iluminando as bordas da névoa. Forte, serena e, de algum modo, em paz com o que sentia.
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  E por um instante, percebi que talvez eu também pudesse aprender isso com ela.
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⚡🧙

  O sol já se punha quando deixei o Salão. O dia inteiro parecia ter passado em um borrão — aulas, deveres, olhares que eu evitava e pensamentos que se recusavam a se calar. Meu corpo doía de tensão, e minha cabeça girava entre lembranças, visões e tudo o que ainda não fazia sentido. Foi o cheiro de terra molhada que me fez mudar o caminho.
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  A estufa estava quase vazia, exceto por uma figura curvada sobre uma mesa, limpando instrumentos de medição mágica.
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  Saphira.
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  O uniforme dela tinha manchas de terra nas mangas, o cabelo preso de qualquer jeito, e algumas mechas rebeldes escapavam, contornando o rosto iluminado pelo tom âmbar do fim de tarde. Ela levantou os olhos quando me viu — e aquele sorriso calmo apareceu, o tipo de sorriso que parecia dizer eu já sabia que você viria.
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  — Você tá com aquela cara de quem viu coisa demais e falou de menos — disse, pousando o pano sobre a mesa. Soltei uma risada curta, mais cansaço do que humor.
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  — Aparentemente, isso anda sendo meu novo talento. — Ela inclinou a cabeça, me observando com atenção.
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  — E o ombro tensionado é consequência, imagino.
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  Antes que eu entendesse o que ela queria dizer, Saphira deu dois passos à frente e, com a delicadeza de quem avisa antes de tocar, colocou as mãos sobre meus ombros. A pele dela estava quente, contrastando com o frio que vinha do vidro das estufas.
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  — Posso? — perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.
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  Assenti, sem confiar na minha própria voz.
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  Os dedos dela começaram a pressionar de leve, em círculos lentos, firmes o bastante pra aliviar, suaves o suficiente pra confundir. O cheiro de ervas e terra fresca misturava-se ao perfume leve que vinha do pescoço dela. Meu corpo reagiu antes da mente: os músculos cederam, a respiração desacelerou.
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  — Viu? — murmurou Saphira, com um meio sorriso. — Às vezes, fugir da própria cabeça começa por aqui. — E apertou mais uma vez, de leve, bem na base do pescoço.
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  Um arrepio me atravessou inteira.
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  — Se quiser fugir da sua própria cabeça, você sabe onde me encontrar — completou, e o tom era tão simples… mas carregava algo que eu não conseguia decifrar.
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  O toque dela permaneceu por um segundo a mais do que o necessário. Quando suas mãos deslizaram, deixando meus ombros, senti falta do calor quase de imediato.
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  Virei-me devagar, sem planejar. Nossos rostos ficaram a poucos centímetros de distância.
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  O ar entre nós pareceu mudar de densidade. O coração batia alto demais. Saphira me olhava como quem reconhecia um segredo — e esperava que o outro tivesse coragem de admiti-lo também.
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  — Você devia descansar — ela disse, mas o tom traía a intenção.
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  — E você devia parar de me olhar assim — rebati, baixinho, sem conseguir sustentar o olhar por muito tempo.
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  Ela deu um passo à frente, o suficiente para que o perfume dela me envolvesse por completo.
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  — E se eu não quiser? — perguntou, a voz ainda suave, mas com uma firmeza que fazia o chão parecer menor.
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  Engoli em seco, o ar preso na garganta.
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  — Isso… pode estragar o que a gente tem. — As palavras saíram frágeis, como se pedissem pra serem desmentidas.
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  Saphira inclinou a cabeça, os olhos fixos nos meus.
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  — E o que a gente tem, %Ayana%? — perguntou Saphira, a voz firme, mas suave. — Amizade? Ou algo que você tem medo de admitir?
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  O ar ficou pesado, quente. Engoli em seco.
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  — Eu gosto do Harry — confessei, num fio de voz. — Gosto dele, mesmo quando não quero.
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  Ela assentiu devagar, sem surpresa.
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  — Eu sei. — O olhar dela era doce, mas cheio de uma dor quieta. — Mas não é só ele, é?
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  Fiquei sem resposta. O silêncio era a confissão que eu não sabia dar.
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  — Eu nunca… — comecei, hesitando. — Eu nunca me interessei por meninas. Nunca pensei nisso. — A respiração dela ficou mais leve.
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  — Até eu aparecer. — Não era uma pergunta. Era constatação.
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  Meu coração disparou.
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  — Sim — admiti, baixinho.
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  Saphira deu um passo à frente, e o espaço entre nós desapareceu como se o ar tivesse decidido nos empurrar uma pra outra. Por um instante, não houve som. Nem folhas, nem vento, nem pensamento.
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  Os olhos dela buscaram os meus com cuidado — pedindo permissão, não perdão. E quando nossas testas se tocaram, a hesitação simplesmente cedeu.
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  O beijo aconteceu como um feitiço silencioso. Lento. Incerto. Real. O tipo de toque que mais parece descoberta do que resposta.
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  Quando nos afastamos, ainda podíamos sentir a respiração uma da outra, presa no mesmo ar. O mundo parecia menor — e, ao mesmo tempo, muito mais perigoso.
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  — Viu? — murmurou Saphira, com um sorriso quase triste. — Às vezes, não é preciso dizer nada.
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  Mas antes que eu pudesse responder, um barulho seco ecoou pela estufa. Viramos ao mesmo tempo.
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  Harry estava parado na entrada.
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  Imóvel.
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  Os olhos arregalados, o rosto pálido — e um silêncio tão afiado que parecia cortar o ar. Saphira deu um passo para trás. Eu fiquei sem ar.
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  — Harry… — tentei dizer, mas ele já se virava, rápido demais.
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  A porta bateu com força, e o som ecoou entre as plantas, como um trovão preso.
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  Fiquei ali, parada, o coração martelando no peito. O colar vibrou contra a pele, frio. E, por um instante, uma voz ecoou na minha mente — clara como uma lâmina:
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  “O coração dividido abre caminhos perigosos.”
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  O silêncio caiu outra vez. E eu soube que nada, depois daquilo, voltaria a ser igual.
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  Corri pelos corredores, o som dos meus passos ecoando contra as paredes de pedra. A respiração saía curta, o coração batendo alto demais, não sabia se era pela corrida ou por tudo que tinha acabado de acontecer.
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  Virei a esquina e o vi: Harry, atravessando o corredor com passos duros, como se fugisse de algo que o perseguia por dentro.
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  — Harry! — chamei, mas ele continuou andando. — Harry, me escuta!
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  Ele parou de repente, girando pra me encarar. O olhar dele estava aceso, mas não era o tipo de brilho que eu queria ver. Era raiva, e dor.
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  — Escutar o quê, %Ayana%? Que você tava ocupada demais pra lembrar que quase beijou alguém há dois dias?
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  As palavras cortaram o ar como uma lâmina.
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  — Não é isso.
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  — Ah, não? Porque, sinceramente, eu já perdi a conta de quantas vezes te vi assim. Um dia é com Zabini, outro com alguém novo, e agora, aparentemente, meninas também entram na lista.
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  — Para! — rebati, o sangue fervendo. — Eu sou solteira, Harry! Posso beijar quem eu quiser, sem precisar justificar pra você!
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  Ele deu um passo à frente, a voz subindo junto com o tom.
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  — É, claro que pode. E eu posso não aguentar mais ver isso! — O silêncio que veio depois foi quase ensurdecedor.
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  — O que você quer dizer com isso? — perguntei, a garganta apertada.
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  Harry passou a mão pelo cabelo, nervoso.
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  — Eu tô cansado, %Ayana%. Cansado de fingir que não me importo. Cansado de ver você se aproximar de alguém e fingir que não me atinge. E agora, além de tudo, eu tenho que lidar com ciúmes de meninas também?
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  A confissão pegou o ar de surpresa. Fiquei imóvel, o coração batendo descompassado.
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  — Ciúmes? — repeti, quase num sussurro.
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  — É, ciúmes! — Ele explodiu. — Porque por mais que eu tente negar, eu sinto. Sinto raiva, sinto medo, sinto... você. O tempo todo.
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  Dei um passo à frente, o ar entre nós quase elétrico.
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  — Então diz, Harry. Diz de uma vez o que você sente por mim.
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  Ele hesitou — por um segundo apenas — antes de soltar o ar, vencido.
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  — Eu gosto de você, %Ayana%. Gosto de um jeito que me deixa louco. Mas eu também gosto da Gina. E isso me mata.
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  A dor que atravessou meu peito foi quase física. Engoli em seco, lutando contra a vontade de chorar.
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  O silêncio caiu como uma sentença. Ele virou os ombros como se fosse embora, e eu poderia ter corrido atrás, poderia ter implorado; a teimosia antiga, o medo de perder, tudo gritava pra eu ficar. Mas algo dentro de mim, mais pesado e mais claro do que qualquer medo, me empurrou para frente.
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  Respirei fundo, e pela primeira vez em dias deixei a voz sair com a precisão de quem não quer deixar margem pra mais meias-verdades.
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  — Escuta — disse, e a calma da minha voz encobriu a raiva por um segundo. — Eu gosto de você. Gosto de verdade. Mas eu não vou esperar pelo teu princípio de homem indeciso passear de um lado pro outro como se fosse entretenimento.
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  Ele me olhou como se as palavras fossem pedras. Senti o peito doer por um segundo — porque eu sabia que ferir também dói quem causa — e continuei, sem suavizar.
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  — Nem eu, nem a Gina, merecemos viver numa porra de triângulo emocional porque você não quer nomear o que sente. Não merecemos ser a opção de ninguém. Não vou aceitar encaixar a minha vida na tua indecisão.
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  As palavras saíram rápidas, afiadas. Havia verdade demais nelas pra voltar atrás. Harry mordeu o lábio, os olhos tremendo com uma mistura que não era só raiva — era também reconhecimento, culpa, e algo como perda.
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  — Você tá sendo injusta — tentou falar ele, mas eu já não podia mais conter o resto.
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  — Injusta? — repeti, rindo, sem humor. — Não. Eu tô sendo honesta. E honestidade dói. Se você quer ter ciúmes e se confundir entre duas pessoas que se importam contigo, faça isso sozinho. Eu não vou pagar o preço das suas dúvidas.
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  Ele abriu a boca. Fechou. As palavras queriam sair, mas o próprio peito dele parecia uma cela onde as emoções batiam, presas.
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  — Então o que você quer que eu faça? — saiu dele, pequeno, quase quebrado.
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  Olhei pra ele por um segundo que pareceu eternidade. Podia sentir as coisas pendendo — a velha cumplicidade, as lembranças, o peso das noites — e também aquilo novo, indecifrável, que tinha acendido comigo e com Saphira.
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  — Quero que você escolha — respondi, direto. — Escolha com coragem. Escolha agora. Ou não escolha nada e deixa a vida seguir sem me usar como lição. Eu não vou esperar. Nem pela sua coragem, nem pela sua confusão.
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  Harry recuou. Não foi um tropeço; foi um movimento lento, de alguém ferido que aprende naquele instante que perdeu algo importante. Ele deixou escapar um som que poderia ser qualquer coisa — um pedido, um lamento — e virou, caminhando pelo corredor com passos que soavam muito mais distantes do que quando chegara.
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  Fiquei ali, parada, vendo as sombras engolirem as costas dele. O colar no meu peito pulsou, frio contra a pele, marcando cada batida do meu coração. Morgana, por algum motivo que eu ainda não sabia decifrar, parecia ter dito algo que agora sabia significar outra coisa: não apenas aviso, mas convocação.
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  O vento no corredor trouxe o cheiro das tochas e o som remoto de vozes, a vida continuando, indiferente, salvadora. Eu respirei, larga e profunda, e pela primeira vez desde que as visões começaram senti uma clareza cortante.
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  Não era o fim de nada; era a minha escolha, crua e inteira. Levantei o queixo. Pisei uma vez no chão frio do castelo, e a decisão não pesou mais, era leve como verdade.
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  — Vai — disse em voz baixa, para ninguém além de mim mesma. — Vai descobrir o que quer. Porque eu já decidi o que não quero ser.
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  E com isso, saí do corredor. A porta rangeu atrás de mim como um ponto final.
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  Nota da autora: Eu chegando depois de três meses kkkkk, perdão a quem acompanha, mas essa história me demanda bastante atenção porque é cânone, nenéns, prometo não demorar tanto.
  Primeiro: a cena do Dumbledore. Eu AMEI escrever esse momento, foi uma das passagens mais intensas até agora. Colocar %Ayana% e Harry lado a lado dentro da penseira, vendo o passado de Tom Riddle e o eco de Morgana ali, foi algo que me arrepiou até a alma. É o tipo de cena que muda tudo, porque mistura o passado, o destino e o medo de repetir histórias.
  Depois, claro, veio o primeiro beijo da %Ayana% com a Saphira, um momento terno, confuso e poderoso. Não é só sobre romance, é sobre autodescoberta, sobre ela se permitir sentir sem entender completamente, e perceber que há mais de uma forma de se encontrar em alguém.
  E então… o confronto com o Harry.
  O ULTIMATO.
  Foi catártico.
  %Ayana% finalmente disse o que precisava ser dito. Chega de triângulos, de silêncios, de ser metade de uma escolha. Ela se impôs, com toda a força e dor de quem ama, mas também de quem se ama o suficiente pra não aceitar menos do que merece.
  Esse foi o capítulo em que %Ayana% deixou de ser só uma peça nas profecias, e começou a ser a própria força do destino. 💙
  Nos vemos no próximo!

Capítulo 08
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