Feitiço Inquebrável


Escrita porNyx
Editada por Lelen


Capítulo 06 • Ecos do Silêncio

  Os dois dias que se seguiram pareciam existir em outra dimensão do tempo, como se o castelo tivesse desacelerado só para me lembrar de cada escolha, cada silêncio, cada ausência.
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  Desde a briga no Salão Principal, eu evitava Hermione, Rony e Harry com a mesma precisão com que evitava meu reflexo. Nossos caminhos até se cruzavam, às vezes, mas os olhares desviados e as conversas interrompidas deixavam claro que o abismo entre nós só aumentava.
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  Foi Saphira quem preencheu o espaço, com palavras leves, risos inesperados e uma presença que, mesmo quando silenciosa, não exigia nada de mim além da verdade. Aos poucos, me vi ao lado dela nos intervalos, nos corredores, nas pausas entre aulas. E, estranhamente, aquilo era um alívio.
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  Mas as visões…
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  Essas, não davam trégua.
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  A cada noite, imagens surgiam com mais força. Símbolos flamejantes dançavam sob as pálpebras fechadas. Vozes sussurravam nomes que eu ainda não conhecia, e o peso do colar no meu pescoço parecia dobrar, como se algo, ou alguém, estivesse cada vez mais perto.
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  Naquela noite em especial, o céu estava costurado com nuvens densas, e os corredores de Hogwarts murmuravam os últimos ecos do jantar quando a professora McGonagall me encontrou nos andares superiores.
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  — O diretor gostaria que você fosse até o gabinete dele — disse ela com aquele tom que não deixava espaço para perguntas.
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  Mas não foi Dumbledore quem me esperava.
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  Quando a porta se abriu, foi minha mãe que eu vi — em pé, junto à estante de instrumentos encantados, com a expressão séria e os olhos brilhando demais para aquela luz baixa. Parei no mesmo instante. Por um segundo, o mundo parou comigo.
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  — Mãe?
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  Ela se aproximou devagar, e me envolveu num abraço que tinha cheiro de casa e calor de verdade. Um abraço que eu não sabia que precisava tanto.
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  — Vim porque achei que você merecia mais do que uma carta — disse, quando nos afastamos. — E porque o que você carrega... não pode mais ser ignorado.
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  Sentamos lado a lado, o gabinete silencioso como se escutasse.
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  — Dumbledore me contou que seus dons despertaram. Mas não era ele quem devia explicar. Era eu.
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  Esperei em silêncio.
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  — Sua avó materna também tinha esse dom, %Ayana%. O mesmo tipo de percepção. A mesma sensibilidade para ouvir o que os outros não escutam, ela chamava de escuta do véu. Dizia que entre o mundo visível e o invisível existe uma camada fina, e que alguns de nós nascem com a pele feita pra atravessar isso.
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  Senti a garganta apertar.
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  — E o colar? — perguntei. — Aquele que ela me deu…
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  — É um elo. Não é apenas um presente. É um artefato mágico da nossa linhagem, um canal. Protege, guia... e às vezes chama. E se você estiver escutando mais forte agora, pode ser porque ele está se ativando com você.
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  Ficamos em silêncio por um instante. Então falei:
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  — Tem algo mais. Um grimório. Eu venho usando desde o início do ano. Ele… responde a mim. As runas brilham. Ele revela coisas que ninguém mais vê. — Ela franziu o cenho.
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  — Que grimório?
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  Me levantei e fui até minha mochila. Tirei o grimório com cuidado e o coloquei entre nós. Minha mãe o encarou. Por um momento, não disse nada e então murmurou:
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  — Não pode ser…
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  — O que foi? — Ela deslizou os dedos pela capa.
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  — Esse grimório era da sua avó. Da nossa família. Ele desapareceu quando ela morreu. Achamos que tinha sido destruído ou… levado, mas parece que ele foi convocado. E por você.
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  O silêncio que seguiu foi denso como uma premonição.
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  — Isso significa que eu fui escolhida?
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  — Isso significa, filha... que você já era parte disso antes de entender o que era isso. O grimório voltou porque reconheceu em você a próxima guardiã da escuta.
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  Encostei as costas na poltrona, o coração batendo forte demais.
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  — E se eu não conseguir? E se for demais? — Minha mãe pegou minha mão com firmeza.
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  — Então você vai me ter aqui com você pra te ensinar e te ajudar a escutar sem se perder.
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  Minha mãe pegou minha mão com firmeza. Os olhos dela carregavam aquela ternura que não cedia espaço para dúvida, a mesma que me fazia sentir segura mesmo diante do que eu não entendia.
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  — %Ayana%… você precisa parar de ter medo. O que você sente, o que você vê, não veio pra te destruir, e sim pra te guiar. — Ela apertou meus dedos, e a voz dela era firme, mas suave como quando me embalava nas noites de tempestade. — A magia sempre te reconheceu. Agora, é você quem precisa reconhecer a magia. Aceitá-la.
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  Baixei os olhos para o grimório entre nós. Ele ainda pulsava levemente, como se respirasse com a conversa. Como se escutasse.
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  — Mas às vezes parece que ela me engole — confessei. — Eu não consigo distinguir o que sou eu… e o que é dela.
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  Ela sorriu, e naquele sorriso havia uma sabedoria tranquila.
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  — É normal, no começo. A magia antiga se entrelaça com a alma. Mas, com o tempo, você vai aprender a escutar com calma. Vai entender que as visões não são ameaças. São caminhos. Que os símbolos não te assombram, te protegem. As coisas vão melhorar, filha. Você vai ter clareza. Vai ter paz.
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  As palavras dela ficaram suspensas no ar, como um feitiço que não precisava ser pronunciado para funcionar. Minhas mãos encontraram as dela, e ali ficamos, por um instante que parecia fora do tempo.
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  Depois, minha mãe me puxou para um abraço apertado, quente, tão familiar que senti meu peito aliviar só de existir naquele momento.
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  — Sempre que o mundo parecer pesado, pensa nisso — ela sussurrou. — Eu estou com você. Sempre estive. Sempre estarei.
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  Eu me permiti sorrir, mesmo com os olhos úmidos.
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  — Obrigada, mãe. Eu também sempre vou te encontrar. — Ela se afastou só o suficiente para me olhar nos olhos.
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  — Sempre conectadas, %Ayana%.
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  — Sempre — prometi.
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  E enquanto ela se virou e saiu pela porta do escritório de Dumbledore, com o manto leve flutuando atrás dela, uma certeza se fixou em mim como nunca antes: eu não estava sozinha. Nunca estive.
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⚡🧙

  O dormitório da Corvinal estava silencioso, banhado apenas pela luz pálida da lua atravessando a vidraça azulada. As outras meninas já dormiam, cobertas até o nariz, mas eu permanecia sentada à escrivaninha, os olhos fixos no pergaminho à minha frente.
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  As palavras da minha mãe ainda dançavam dentro de mim. O toque quente dos braços dela naquela visita inesperada, a voz firme e doce dizendo que eu não precisava mais temer. Que era hora de escutar. Fechei os olhos por um instante.
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  “Escuta a magia, filha. Ela sussurra onde os outros gritam.”
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  Levantei-me devagar, como se qualquer movimento pudesse desfazer aquela certeza nova que começava a nascer em mim. Fui até o grimório. Quando o abri, o símbolo marcado entre as páginas brilhou — não como antes, quando desaparecia como fumaça — mas com uma luz pulsante, quase viva. Pela primeira vez... ele não se apagava.
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  O coração acelerou.
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  Aproximei os dedos, mas dessa vez, eu não hesitei por muito tempo. Toquei o símbolo. E então, a visão me engoliu inteira.
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  O ar parecia mais denso, mais real do que nunca. Eu podia sentir o chão sob meus pés, ouvir o sussurro da névoa ao redor, como se o tempo respirasse devagar. As figuras estavam ali, mas agora, eram apenas duas. A mulher de tranças e eu.
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  — Onde estou? — perguntei. Minha voz soou clara, sem eco. — Quem é você?
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  A mulher não respondeu de imediato. Caminhou em minha direção, o manto feito de sombras ondulando como fumaça ao vento.
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  — Meu nome foi esquecido por muitos. Apagado dos livros, dos retratos, das histórias contadas pelos homens. Mas as mulheres… as mulheres ainda se lembram — disse, com um leve sorriso que não era afeto, mas respeito.
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  — Eu não entendo o que isso tem a ver comigo — falei, o coração martelando no peito. — Por que estou vendo essas coisas? Por que agora?
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  Ela estendeu a mão. Tocou levemente minha têmpora.
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  E imagens me atravessaram: uma casa decadente, uma mulher pálida deitada em uma cama, os olhos vítreos e desesperados. Uma criança chorando. Um nome sussurrado com dor.
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  Merope.
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  — Ela amou um homem que nunca a amou — disse a mulher, com pesar na voz. — Usou magia para segurá-lo, para fingir que era escolhida. Mas o preço do feitiço... foi alto. E quando a verdade caiu, ela caiu junto.
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  — A mãe do Voldemort — sussurrei, reconhecendo o nome e a história das aulas com Dumbledore que Harry contou.
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  A mulher assentiu lentamente.
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  — A linhagem de Salazar Slytherin corre nele. Pura, corrompida, isolada. Mas o sangue antigo… esse, ainda vive. Em outros ramos. Roubado de um lado. Honrado no outro.
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  — Você está dizendo que eu…?
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  — Não — ela interrompeu, firme. — Você não é dele. Mas você vê porque sua linhagem também escuta. A magia que você carrega não é a mesma. É mais antiga. Mais selvagem. Mais livre. É por isso que o símbolo veio a você. Porque o mundo vai gritar e poucos saberão escutar.
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  A névoa ao redor começou a girar, veloz, como se puxada por um redemoinho invisível.
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  — Espere! Ainda tem mais — tentei dizer. — Você não me disse seu nome!
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  A mulher me olhou, e seus olhos dourados arderam como o próprio símbolo:
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  — Morgana me chamaram, antes de me temerem.
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  E então, a névoa me engoliu de novo.
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  Quando acordei, o quarto estava escuro. O grimório aberto ainda brilhava fracamente sobre o colo, mas o símbolo finalmente havia se apagado.
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  E desta vez, eu sabia: aquilo era só o começo.
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  Deitei-me, com o corpo ainda tremendo. Os olhos fitando o teto abobadado da torre da Corvinal, tentando processar tudo. Pela primeira vez em muito tempo... não havia medo.
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  Só uma certeza incômoda e poderosa: aquela mulher... eu já a tinha visto. Em algum livro. Em alguma aula. Ou talvez... nas páginas que a história tentou apagar. No dia seguinte, eu começaria minha busca. Procuraria o rosto dela entre os retratos esquecidos da biblioteca. E descobriria, finalmente, quem era Morgana.
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⚡🧙

  A manhã seguinte chegou mais suave do que eu esperava. Pela primeira vez em dias, eu tinha dormido profundamente. A visita da minha mãe ainda estava em mim e tinha me feito muito bem. Levantei devagar, me arrumei no ritmo calmo de quem finalmente encontrava algum respiro, e desci para o Salão Principal antes da maioria dos alunos.
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  O céu encantado estava salpicado de nuvens douradas e cor-de-rosa, como se o próprio dia estivesse tentando me lembrar que ainda havia beleza no mundo. A mesa da Corvinal estava quase vazia, mas, claro, Luna Lovegood já ocupava seu lugar de sempre, com uma fatia de pão com geleia de framboesa flutuando na altura dos olhos, guiada por um feitiço discreto e gracioso.
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  — Bom dia — murmurei, me sentando ao lado dela. Ela me olhou com aquele jeito leve e certeiro que só a Luna tinha.
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  — Você está mais leve hoje. Como se tivesse deixado algo importante pra trás. Ou... pra alguém.
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  Sorri. Peguei o jarro de suco de abóbora e me servi, sentindo o calor subir pelas mãos.
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  — Recebi uma visita da minha mãe.
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  Não falei mais nada. Não precisava. Luna só assentiu, os olhos se perdendo lá no alto, nas bandeiras de Hogwarts que dançavam com a brisa encantada do teto.
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  — Os pais sabem mais do que dizem. Quase sempre estão guardando alguma magia silenciosa.
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  Ficamos em silêncio por alguns minutos. Um silêncio bom. Desses que abraçam em vez de afastar.
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  — Às vezes, os símbolos vêm antes das respostas — ela disse, tranquila. — Mas a gente sempre sabe quando é hora de olhar de novo.
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  Eu encarei o reflexo dourado da luz atravessando meu copo e respirei fundo.
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  — Hoje… eu acho que estou pronta pra olhar.
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⚡🧙

  Depois da aula de Herbologia, fui direto para a biblioteca.
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  Algo dentro de mim — mais forte do que uma simples curiosidade — me guiava pelos corredores como se eu soubesse exatamente onde procurar. O rosto da mulher da visão ainda estava fresco na minha mente. A forma como ela me olhou, a voz, a força nos olhos dourados… eu precisava encontrar aquela mulher.
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  Passei os dedos pelas lombadas dos livros de história da magia, até encontrar um tomo antigo, empoeirado, de capa azul-acinzentada, com letras quase apagadas: Feiticeiras Lendárias da Grã-Bretanha.
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  Sentei-me em uma mesa isolada e comecei a folhear. As páginas cheiravam a tempo, a segredo, a coisas que foram enterradas por medo, e não por esquecimento.
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  Então eu vi.
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  O retrato.
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  E congelei.
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  Tranças longas até a cintura. Traços firmes, pele negra como a minha. Um olhar intenso, como se atravessasse a alma da pessoa que se atrevesse a encará-la por tempo demais.
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  Morgana Le Fay.
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  Lia-se na legenda:
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  "Descendente das linhagens mais antigas, bruxa de poder intuitivo, dominadora das runas, da magia ancestral e dos encantamentos da escuta mágica. Seu nome foi apagado de muitos registros, mas seus feitos atravessam as eras em fragmentos. Era conhecida por aparecer àqueles que carregavam dons raros, principalmente mulheres de sangue antigo, quando estas se aproximavam do despertar completo de suas habilidades."
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  O coração acelerou, fechei o livro devagar. A mesa, os livros, o mundo ao redor pareciam distantes. Morgana Le Fay. Uma ancestral. Um eco do que eu podia ser... ou do que eu deveria despertar.
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  Saí da biblioteca com os dedos ainda trêmulos. Mas agora, diferente de antes, eu não tremia de medo e sim de saber. Porque agora, pela primeira vez, eu tinha uma pista concreta de que aquilo tudo era real mesmo.
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⚡🧙

  Não demorou muito para que a rotina de Hogwarts me puxasse de volta. Mais tarde, Slughorn nos convidou — uma seleção estratégica de alunos — para um almoço especial no escritório dele. Eu evitava o trio, e eles me evitavam com a mesma precisão. E foi com Gina e Neville que acabei subindo até o escritório, sem muita vontade, mas ciente de que faltar só reforçaria as suposições que já corriam pelos corredores.
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  A escada em espiral parecia mais longa do que de costume. O silêncio entre nós era denso. Só Neville arriscava um comentário ou outro sobre as ervas raras da aula de Herbologia. Gina respondia com frases curtas e sorrisos sem força. Eu apenas soltava ocasionais “hm”, mantendo a expressão serena, ou pelo menos tentando.
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  Ao chegarmos, Slughorn nos recebeu com seu sorriso empolado, os braços abertos como se estivéssemos entrando em um baile da alta sociedade bruxa. O escritório parecia ainda mais carregado: tapeçarias bordadas demais, frascos brilhantes e uma luz amarelada que não favorecia ninguém.
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  — Ah! Srta. %Chikondi%! Srta. Weasley! Sr. Longbottom! Entrem, entrem! — exclamou ele com sua voz untuosa. Seus olhos brilharam ainda mais quando avistou Harry, Hermione, Cormac McLaggen e Blaise Zabini, que já estavam acomodados. — E aqui estão os meus favoritos!
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  Harry manteve os olhos fixos em qualquer lugar que não fosse em mim. Hermione hesitou por um segundo, nossos olhares se cruzaram. Havia algo ali, talvez incômodo... ou saudade. Mas ela desviou rápido. Já Zabini ergueu uma sobrancelha ao me ver e deu um meio sorriso carregado de ironia.
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  — Pensava que Corvinais elegantes não se misturavam com bajuladores — murmurou ele assim que passei por sua cadeira.
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  — E eu pensava que Sonserinos sabiam disfarçar melhor suas intenções — rebati, sentando entre Neville e Gina, sem sequer lhe oferecer um olhar.
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  — Isso foi um elogio? — ele insistiu, divertido.
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  — Foi silêncio disfarçado — respondi, servindo-me de suco de groselha com toda a calma que não sentia.
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  Slughorn, claro, começou o espetáculo. Nada ali era espontâneo, tudo tinha propósito, brilho demais e um foco: Harry.
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  — Sabe, Sr. Potter… sua mãe era absolutamente brilhante em Poções — começou ele, já na terceira taça de suco. — Tinha um toque delicado, como se a magia a tivesse escolhido.
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  Harry tentou sorrir, mas havia dureza demais em seus olhos.
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  — É o que dizem — respondeu.
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  — Imagino que tenha ouvido muitas histórias sobre os amigos dela... Sirius, James... e aquele outro rapaz… ah, qual era mesmo?
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  O garfo de Harry parou no ar. Hermione abaixou os olhos. Cormac, distraído, servia-se pela terceira vez de carne de dragão em molho espesso.
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  — Não me lembro de muitas histórias — disse Harry, com frieza.
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  — Algumas memórias não querem ser desenterradas — murmurei, mais para o prato do que para a mesa.
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  Hermione olhou de relance para mim. Não foi um olhar carregado, apenas... humano. Um ponto de contato e isso bastou para que algo dentro de mim vacilasse.
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  Slughorn, é claro, seguiu falando como se nada tivesse acontecido. Cormac tentou se mostrar espirituoso contando que sua tia havia ganhado o Troféu de Poções de Ouro três vezes consecutivas, mas acabou confundindo “polissuco” com “polifônico”, e Slughorn mudou de assunto antes que alguém explodisse de riso.
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  — Diga-me, %Ayana% — continuou ele, já enchendo minha taça de suco de groselha. — É verdade que seu avô participou dos Rituais dos Quatro Ventos, no Malawi? Sempre achei fascinante a forma como eles canalizavam magia elemental...
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  — Meu avô canalizava a paciência com tolices, professor. Era um dom raro — respondi, sem sorrir. Gina soltou um risinho abafado.
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  Slughorn pigarreou, apanhando um guardanapo com certa pressa.
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  — Ah, claro! Brincadeiras espirituosas... gosto disso, gosto disso...
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  Zabini, entre uma provocação e outra, comentou com falsa inocência:
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  — Interessante como algumas pessoas aqui atraem muita atenção... mesmo sem querer.
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  — Interessante como outras acham que tudo gira em torno delas — respondi, sem tirar os olhos da sobremesa.
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  Gina quase engasgou tentando esconder o riso. Hermione soltou um suspiro disfarçado.
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  Ao final, quando nos despedimos, o grupo se dividiu naturalmente. Harry, Hermione, Neville e Zabini foram por um corredor. Cormac saiu antes mesmo da sobremesa terminar. Gina andava ao meu lado, quieta, mas despertou minha atenção com sua próxima fala:
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  — A Hermione parecia... hesitante. Vocês conversaram?
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  Assenti com um leve aceno, os olhos ainda presos em algum ponto à frente.
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  — Na verdade, não. Ela ficou magoada porque eu não contei sobre... o Zabini.
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  Gina soltou um som entre um suspiro e um riso baixo.
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  — Imagino. Ela detesta segredos — disse com um sorriso enviesado, antes de acrescentar: — Mas acho que ela ficou mais chateada por não ter sido você a contar. Vocês duas sempre foram muito próximas.
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  — Eu sei — murmurei. — E talvez tenha sido por isso que eu não contei. Porque ela me conhece demais. E eu não queria... ver o que ela pensaria estampado no rosto dela.
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  — Às vezes a gente protege as pessoas do jeito errado — comentou Gina, com a sabedoria tranquila de quem já aprendeu isso na prática.
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  Assenti, o peito apertado. Ela chutou de leve uma pedra invisível e, depois de alguns passos, perguntou como quem decidia arriscar:
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  — E o Harry? — Minha respiração vacilou por um instante.
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  — Não sei. A gente se afastou, ele ficou magoado, eu também. E... não sei se tem volta.
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  — Talvez tenha — disse ela com um encolher de ombros. — O Harry é... complicado. Às vezes ele se fecha e constrói muros até mesmo com quem quer deixar entrar.
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  Ela chutou uma pedra invisível no caminho, os olhos fixos no chão.
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  — Mas quando ele se importa, ele se importa. Mesmo que não saiba demonstrar.
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  Houve uma pausa que pesou mais do que eu esperava. E quando olhei de lado, encontrei aquele olhar da Gina, firme, vermelho-Weasley, cheio de camadas.
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  — Eu sei que você gosta dele — murmurei, sem conseguir segurar.
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  Ela demorou um segundo para responder. E quando o fez, não foi com palavras. Foi com um pequeno sorriso que não chegava aos olhos.
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  — Gosto — disse, por fim, sem se explicar, sem justificar. — Já faz um tempo.
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  A confissão pairou entre nós como uma folha que caía sem pressa, mas sabia exatamente onde queria pousar. O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era cheio. Denso. Carregava tudo o que não sabíamos como dizer.
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  Então ela respirou fundo e me lançou um olhar de lado.
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  — E você?
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  — Eu... o quê?
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  — O que sente pelo Harry?
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  A pergunta veio simples, mas cortante. Não havia acusação no tom — só uma curiosidade crua demais para ser ignorada.
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  — Nada — respondi depressa, talvez rápido demais. — A gente é amigo, só isso. Ele é... ele é importante pra mim, mas não desse jeito.
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  Minha voz soou firme, mas havia um desconforto estranho se acomodando no fundo da garganta.
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  — É estranho você perguntar isso — acrescentei, franzindo levemente a testa. — Por você gostar dele e…
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  — Mas o que eu sinto não muda o que pode estar nascendo aí dentro de você. Eu só queria entender. Não pra julgar. Só pra saber se... bom, se eu precisava me preparar pra ver.
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  Aquilo ecoou dentro de mim de um jeito que me desconcertou mais do que eu gostaria de admitir. Mas ela não insistiu. E ela, com uma leveza quase mágica, mudou de assunto com maestria:
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  — E o Zabini? — perguntou com a sobrancelha arqueada e aquele brilho provocador nos olhos. — Vai me dizer que aquele drama todo hoje foi só implicância?
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  — Foi. Uma vez. Agora é só... sarcasmo acumulado com pitadas de arrependimento.
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  — Uhum — murmurou, meio rindo. — Então você jura solenemente que não vai se envolver com um sonserino instável de novo?
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  — Não posso prometer. Mas se ele me der um colar, eu juro que jogo no Lago Negro.
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  — Ainda bem. Se precisar, eu empurro junto.
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  A risada escapou das duas ao mesmo tempo. Cúmplice. Sincera. Como se, por um instante, fôssemos apenas duas garotas andando por corredores antigos, tentando não tropeçar nos próprios sentimentos.
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  Quando nos despedimos perto da Torre da Corvinal, ela me puxou num abraço breve, mas firme.
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  — Você não tá sozinha, mesmo que se sinta assim. A gente se encontra — disse, com aquela convicção silenciosa de quem já aprendeu a sobreviver aos próprios vendavais.
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  E quando me virei para subir as escadas, ouvi sua voz de novo:
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  — Mas se o Harry começar a agir como um idiota... avisa. Talvez eu ainda lembre do feitiço do nariz de porco.
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  Dessa vez, fui eu quem riu.
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  E percebi que, mesmo entre feridas e silêncios, ainda havia espaço para o cuidado.
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  As aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas com o Snape pareciam testes disfarçados. Ele andava como se esperasse que a gente falhasse — e ficasse satisfeito quando isso acontecia.
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  Naquela manhã, o clima já estava denso antes mesmo da primeira palavra. O conteúdo: feitiços não-verbais. O tipo de magia que exigia domínio completo da mente e eu estava longe de conseguir silenciar a minha.
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  Sentei sozinha. Hermione, Harry e Rony estavam na frente, todos ocupados demais fingindo que eu não existia — ou talvez apenas tentando entender o que tinha acontecido entre nós. Zabini se sentou à esquerda, com o mesmo ar de predador entediado. E quando Snape entrou, com o manto negro deslizando atrás dele, o silêncio caiu como uma cortina.
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  — Hoje vamos praticar feitiços de desarme e bloqueio... sem verbalização — anunciou, cruzando os braços. — O primeiro a sussurrar uma sílaba será usado como exemplo do que não fazer.
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  Alguns alunos trocaram olhares apreensivos. Eu apenas respirei fundo.
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  — Srta. %Chikondi% — chamou ele, os olhos escuros fixos nos meus —, já que se julga tão segura de suas capacidades, fará par com o Sr. Zabini.
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  Sério?
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  Caminhei até o centro da sala e me posicionei. Zabini sorriu como se tivesse ganhado uma aposta.
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  — Isso vai ser divertido.
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  — Para você, talvez — respondi, firme. — Eu pretendo vencer.
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  Do outro lado da sala, ouvi um resmungo. Rony. Só precisei de um segundo para ver o jeito como ele me olhava — entre confuso e levemente indignado.
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  — Expelliarmus. Não-verbal. Façam — ordenou Snape.
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  Zabini atacou primeiro, mas a magia falhou. Eu ergui minha varinha, canalizando toda a energia do incômodo que ele me causava… e a varinha dele voou longe.
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  — Muito bem — disse Snape, seco. — Finalmente, alguém com um mínimo de foco.
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  Zabini riu baixo enquanto pegava a varinha no chão.
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  — Impressionante. A frieza fica sexy em você, %Ayana%.
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  — A idiotice continua feia em você, Zabini.
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  Alguns alunos riram, mas Snape sequer piscou.
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  — Sr. Zabini, a senhorita %Chikondi% venceu. Volte para o seu lugar. E controle sua... verborreia hormonal.
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  Quando voltei para o fundo da sala, Zabini sussurrou ao passar por mim:
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  — Você atrai tipos perigosos, %Ayana%. Potter parece prestes a explodir. — Virei o rosto na direção dele, lenta.
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  — Preocupado com os outros ou só tentando descobrir se ainda tem chance?
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  Ele sorriu. Mas antes que pudesse responder, Rony falou alto da primeira fileira:
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  — Dá pra calar a boca e prestar atenção, Zabini? Ninguém aqui quer ouvir suas cantadas fracassadas.
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  A sala inteira parou por um segundo. Snape girou nos calcanhares.
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  — Sr. Weasley — disse, a voz tão gélida quanto o lago negro —, se está entediado, posso encantá-lo para repetir o conteúdo da aula cinquenta vezes no teto da torre de Astronomia.
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  Rony ficou vermelho até as orelhas.
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  — Não precisa, professor — respondeu, engolindo seco.
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  Zabini, claro, estava radiante. Voltou para o lugar dele como quem ganhou a rodada. Mas o olhar que me lançou ainda carregava algo mais. Curiosidade. E um tipo de interesse perigoso.
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  A aula seguiu. Draco entrou com atraso, visivelmente abatido. Snape fez seu comentário mordaz, Draco apenas assentiu, e ocupou uma das cadeiras próximas ao fundo. Perto de mim.
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  Entre uma prática e outra, Zabini lançou um feitiço de Protego em mim com força demais, e minha varinha quase escapou dos dedos. Apontei de volta com frieza — e talvez um pouco mais de vontade do que devia.
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  Mas foi a presença do Harry que pairou mais que qualquer feitiço naquela sala. Toda vez que Zabini falava comigo, os olhos dele brilhavam com algo entre o incômodo e o ciúme. E eu… não sabia se me irritava ou se doía mais.
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  No fim da aula, Snape deu um último aviso:
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  — Semana que vem, duelos com análise tática. Preparem-se para pensar além dos feitiços. Isso… é guerra.
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  De alguma forma, eu já estava no meio de uma.
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⚡🧙

  Os corredores de Hogwarts sempre tinham essa mania irritante de parecerem mais longos à noite. As tochas lançavam sombras que dançavam nas paredes, e cada rangido do piso de pedra soava como um aviso. Suspirei, ajustando a alça da bolsa no ombro, quando uma voz conhecida me chamou.
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  — %Ayana%!
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  Me virei e, por instinto, minha expressão de alerta suavizou. Saphira caminhava na minha direção, leve, como se o peso do mundo não a alcançasse ali dentro. Os cabelos negros presos em uma trança frouxa balançavam de leve sobre o ombro. Ela sempre parecia calma. Intocada. Uma parte de mim invejava aquilo.
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  — Estava te procurando — disse, sorrindo de um jeito fácil. — Vamos estudar juntas? Preciso revisar Herbologia antes da aula de amanhã.
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  — Herbologia nunca foi problema pra mim — respondi, com um sorriso discreto. — Mas não recuso boa companhia.
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  Seguimos lado a lado até uma das salas vazias perto da torre de Astronomia. O lugar era banhado pela luz pálida da lua, que filtrava através das janelas altas. Livros, pergaminhos e folhas secas de mandrágora logo nos cercaram. A calmaria era quase terapêutica. Por alguns minutos, o único som foi o arrastar das penas no pergaminho.
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  — As aulas estão pesadas esse ano... — Saphira comentou, quebrando o silêncio.
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  — Um pouco mais do que eu gostaria — murmurei, girando distraidamente a pena entre os dedos.
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  Ela me lançou um olhar de canto, hesitando.
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  — Ouvi uns boatos... sobre o que aconteceu com Katie Bell. Dizem que foi um feitiço proibido. Algo muito antigo. — Meu corpo enrijeceu, a pena parou no ar.
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  — E você acredita nisso? — perguntei com cuidado.
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  — Não sei. — Ela deu de ombros. — O castelo sempre parece seguro... até alguém trancar a porta por dentro.
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  As palavras ecoaram forte, muito além do que provavelmente ela pretendia. Ela percebendo o clima estranho que ficou, resolveu mudar o rumo da conversa, me lançou um olhar curioso.
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  — E você? Está interessada em alguém? —  Levantei o olhar, arqueando uma sobrancelha.
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  — Hm... essa foi direta.
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  — Desculpa — ela sorriu, um pouco tímida. — Só... curiosidade mesmo.
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  Suspirei, apoiando o queixo na palma da mão.
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  — Na verdade... sim. Mas estou tentando esquecer.
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  — Porque não deu certo? — a voz dela saiu suave, sem nenhuma malícia, só genuína curiosidade. Fitei o céu escuro pela janela.
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  — Ele não gosta de mim do mesmo jeito. E eu cansei de me machucar esperando que ele veja. Preciso dar um basta antes de perder a cabeça de vez.
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  — Complicado — disse Saphira, balançando a cabeça devagar. — Mas corajoso da sua parte. — Eu sorri de canto.
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  — E você? Tem algum garoto da Lufa-Lufa sortudo que eu deva ficar de olho? — Saphira hesitou.
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  — Não exatamente. —  De novo aquele rubor leve nas bochechas.
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  — Não? — franzi o cenho, divertida.
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  — Eu... gosto de meninas — disse ela, com um sorriso pequeno, mas cheio de segurança. — Sempre soube. Mas só aceitei mesmo no terceiro ano.
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  Pisquei, surpresa, mas sem desconforto. Só surpresa genuína.
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  — Nossa... e como você soube? — perguntei, a curiosidade vencendo minha hesitação. Saphira deu de ombros, jogando a pena de um lado para o outro entre os dedos.
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  — Acho que sempre esteve ali, sabe? Mas quando comecei a perceber que minhas amigas comentavam dos meninos e eu... não sentia nada, foi ficando bem claro. No terceiro ano, tive uma paixonite impossível por uma monitora da Corvinal. — Ela riu, quase envergonhada. — Aí tive certeza.
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  Dei uma risadinha junto.
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  — Ah. Achei que você fosse como eu… —  Saphira arqueou a sobrancelha, divertida.
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  — Hetero?
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  — É.
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  Nós rimos juntas, e pela primeira vez em muito tempo, o peso constante que eu sentia parecia ter diminuído. Nos olhamos, e naquele instante o ar entre nós ficou um pouco mais denso. Não desconfortável, mas... diferente.
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  Um fio de algo indefinido passou ali, um pequeno choque, uma faísca suave que fez meu coração bater meio segundo mais rápido.
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  — Seja lá quem for esse cara... — Saphira disse, voltando a fitar o pergaminho. — Ele é um completo idiota por não enxergar o que tem bem na frente dele.
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  Sorri, sentindo o rosto aquecer um pouco mais do que eu gostaria de admitir.
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  — Você fala como se me enxergasse muito bem. —  Saphira apenas sorriu, misteriosa, antes de voltar a escrever.
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  E eu fiquei ali, fingindo estudar, tentando ignorar aquela leve e incômoda consciência da proximidade dela. Algo me dizia que nem todos os feitiços de proteção de Hogwarts seriam suficientes para impedir certas confusões de acontecerem.
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  Quando o relógio da torre anunciou que já era tarde, começamos a guardar os livros e pergaminhos. Nossos dedos se tocaram brevemente ao tentar pegar a mesma pena. Foi só um segundo. Um toque leve. Mas senti um arrepio quase imperceptível subir pela espinha.
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  Levantei o olhar, surpresa. Saphira também congelou por um instante, antes de sorrir, como se nada tivesse acontecido.
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  — Boa sorte com a mandrágora amanhã — disse ela, já arrumando os livros.
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  — E você, tenta não deixar a professora Sprout te fazer de cobaia de novo — rebati, ainda sentindo o coração ligeiramente acelerado. Ela riu, e aquele som leve me deixou momentaneamente desarmada.
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  — A gente se vê, %Ayana%.
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  — A gente se vê, Saphira.
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  Fiquei parada mais tempo do que o necessário vendo-a se afastar pelo corredor iluminado apenas pelas chamas das tochas. Só quando a silhueta sumiu na curva, voltei para a realidade e ajeitei a alça da mochila nos ombros. E talvez por isso, ao virar o corredor e dar de cara com Hermione parada ali, sozinha, como se soubesse exatamente onde me encontrar… eu não fugi.
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  Ela estava com um livro contra o peito, os olhos indecisos entre altivos e inseguros. O tipo de olhar que você só dedica a quem já foi importante demais.
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  — Você tem um radar, por acaso? — perguntei, encostando na parede de pedra fria. — Ou a biblioteca sempre te entrega os fugitivos?
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  Hermione respirou fundo. Estava cansada de algo que não era físico. Era o peso das palavras não ditas.
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  — Eu... queria falar com você. Sem Harry. Sem Rony. Sem os outros.
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  Assenti. O coração deu um passo à frente. A mágoa ainda morava em mim, mas... algo nela dizia que também morava ali.
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  — Então fala, Hermione.
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  Ela apertou o livro contra o peito com mais força. Seus olhos estavam cheios de perguntas, mas ela escolheu uma só.
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  — Por que você não me contou?
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  Fiquei em silêncio por um segundo. Mas eu sabia exatamente do que ela estava falando.
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  — Eu não achei que fosse importante pra você — confessei. — Achei que, se eu contasse, ia virar sermão. Ou pior... julgamento.
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  — Não é sobre o Zabini, %Ayana%. — A voz dela era baixa, mas firme. — É sobre você ter passado por isso sozinha. Ter feito isso escondido. A gente sempre compartilhou tudo, até as coisas mais difíceis. E, de repente, você se fecha. Some. Beija alguém que a gente detestava até semana passada. E simplesmente... não diz nada?
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  Suspirei, deixando a cabeça bater levemente na parede atrás de mim.
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  — Eu me senti... confusa. E com vergonha. Porque nem eu entendi o que foi aquilo. Ele me irrita, Hermione. Me provoca. Me desafia. Mas quando ele me beijou… eu quis. E isso me assustou.
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  Hermione desviou o olhar por um instante. Quando voltou, estava menos dura.
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  — Você podia ter me dito isso. Não ia te julgar. Só ia... te ouvir.
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  — Eu sei. E eu sinto muito. De verdade — falei, a voz falhando um pouco. — Eu tava lidando com tanta coisa ao mesmo tempo. As visões. O grimório. O símbolo. E aí veio ele. Foi tudo demais.
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  Ela assentiu devagar. Não como quem perdoa de imediato, mas como quem entende o peso que eu carregava.
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  — Eu senti sua falta. Até mesmo quando estava com raiva. Não é a mesma coisa sem você.
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  — Também senti sua falta — respondi. — E talvez eu não mereça que tudo volte a ser como era, mas... se a gente puder tentar de novo... com mais sinceridade e menos medo...
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  Hermione deu um passo à frente. Depois outro. E antes que eu percebesse, estávamos de frente uma para a outra. Entre nós, apenas o peso da amizade ferida... mas viva.
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  — Não quero que volte a ser como era. Quero que seja melhor — ela disse, devolvendo minhas palavras.
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  Dessa vez, fui eu quem abriu os braços. E ela veio. Forte. De verdade. E pela primeira vez em semanas, o frio do castelo parecia menos cortante. Hermione ainda não havia se afastado. Ficamos ali, no corredor da biblioteca, no silêncio acolhedor que só se instalava entre duas pessoas que começaram a se reencontrar.
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  Eu respirei fundo. Tinha mais pra dizer. Muito mais.
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  — Tem outra coisa… algumas coisas, na verdade — falei, com a voz mais baixa. — Eu preciso te contar.
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  Hermione me olhou de lado, paciente.
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  — Minha mãe veio até Hogwarts. — A frase saiu mais baixa do que eu esperava, como se ainda fosse segredo até pra mim. — Ela falou comigo no gabinete do Dumbledore.
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  — Ela veio? — Hermione arregalou os olhos. — O que ela disse?
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  — Muita coisa. Sobre o dom que eu tenho... que não é novo. Que vem de muito antes de mim. Da minha avó, de outras mulheres antes dela. Ela falou sobre o eco que corre na minha linhagem e também sobre o colar, que ele é uma herança mágica. Um elo.
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  Hermione ficou em silêncio, absorvendo cada palavra como se fossem preciosas.
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  — E tem mais — continuei. — Eu comecei a pesquisar... sobre as visões. Sobre a mulher que aparece nelas. E encontrei uma pista nos registros da biblioteca antiga. Ela existiu. Morgana Le Fay. Ela era uma bruxa poderosa, ligada à magia ancestral. Tem textos que a descrevem como alguém que entendia os fluxos invisíveis da magia, que ouvia... como eu ouço.
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  Hermione levou a mão à boca, surpresa.
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  — %Ayana%... isso é... é inacreditável.
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  — É real — respondi, firme. — E me assusta. Mas também me faz sentir menos sozinha.
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  Houve um silêncio breve, confortável, antes que eu continuasse:
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  — Ah, e conheci alguém. Uma garota da Lufa-Lufa. O nome dela é Saphira.
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  Hermione arqueou uma sobrancelha, curiosa.
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  — Aluna nova?
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  — Não exatamente. Ela só não se mistura muito, mas a gente se esbarrou numa aula de Herbologia, começamos a conversar… ela é diferente. Direta. Atenta. Tem um jeito de enxergar as coisas que me pegou de surpresa.
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  — E ela é legal? — perguntou Hermione, com um sorriso pequeno.
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  — Muito. E ela me contou que gosta de meninas. Tipo… foi muito natural, como se não fosse nada demais. Eu fiquei meio... sei lá, surpresa. Nunca tinha ouvido ninguém falar isso aqui em Hogwarts, pelo menos não abertamente. E ela… ela falou com tanta leveza que me fez pensar. Em tudo, sabe?
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  Hermione sorriu mais abertamente agora.
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  — É bom ter alguém assim por perto. Que te faça pensar.
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  Assenti, olhando para o chão de pedra por um segundo.
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  — Eu nunca pensei sobre isso antes. Sobre o que eu gosto ou deixo de gostar. Mas ouvir ela falar... me deixou com a cabeça cheia. Não porque eu senti algo por ela. Mas porque eu percebi que... talvez tenha muito mais em mim do que eu ainda não entendi. E pela primeira vez, isso não me parece errado. Só… em aberto.
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  Hermione se aproximou um passo e tocou levemente o meu braço.
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  — Tá tudo bem não ter todas as respostas agora. O que importa é você se permitir fazer essas perguntas. E seja o que for que você descobrir… eu tô aqui.
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  Sorri, pequena, mas genuinamente.
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  — Obrigada, Mione. — Ela sorriu de volta.
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  — Estou sempre aqui para você.
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  Ficamos ali em silêncio por alguns instantes, até que a curiosidade — ou a saudade, talvez — falou mais alto dentro de mim.
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  — Mione… e você e o Rony? — perguntei, com cuidado. — Tá tudo bem entre vocês?
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  Ela soltou uma risadinha amarga e olhou para o vitral mais próximo, onde a lua vazava seu brilho pálido no chão de pedra.
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  — Normal, %Ayana%. Mas ultimamente… ele tem estado muito próximo da Lilá Brown. E isso está me matando aos pouquinhos. Mas eu também tô cansada de ter que ser a que segura o mundo e ainda segura o coração de alguém que nem sabe o que sente.
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  Fiquei quieta. Eu entendia mais do que queria admitir.
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  — Eu fico me perguntando se ele gosta de mim, da Hermione que resolve tudo, que entende tudo, que ajuda todo mundo… mas que não pode ser frágil nem por um segundo.
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  — Talvez ele ainda não esteja pronto pra te ver por inteiro — comentei. — Mas isso não é culpa sua.
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  Ela assentiu, apertando o livro contra o peito com mais força. E então, fui eu quem hesitou um segundo antes de perguntar:
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  — E o Harry? — soltei, mais baixo do que pretendia.
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  Hermione me olhou com atenção. Não foi um olhar rápido ou curioso, foi o tipo de olhar que atravessava a pergunta e enxergava o que vinha por trás dela.
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  — Ele está… mais calado do que o normal. E, sim, ficou bem irritado com tudo o que aconteceu entre você e o Zabini, mas mais do que bravo… ele ficou confuso. Ferido, eu acho.
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  Uma pontada latejou no meu peito. Como se alguma coisa dentro de mim se encolhesse, tentando se proteger. Afastei o olhar, tentando disfarçar com um gesto leve da mão. Mas nada em mim era leve naquele momento.
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  — E... entre ele e a Gina? — perguntei, prendendo a respiração como se a resposta pudesse me despedaçar um pouco.
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  Hermione hesitou. Foi rápida, mas o suficiente pra eu perceber. Ela media as palavras com cuidado.
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  — Eles se aproximaram no começo do ano, você sabe disso. Mas agora... não sei. Tá morno. Ele parece distante, e a Gina anda com a cabeça em mil lugares. Quadribol, estudos, os irmãos... Você conhece ela.
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  Assenti, e um silêncio desconfortável se instalou. Não era culpa da Hermione. Era minha. Minha e de tudo que eu vinha guardando há meses.
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  — Ela me procurou — murmurei. — Uns dias atrás. Disse que notou meu afastamento desde o início do ano. Que sentiu minha falta e ficou se perguntando se tinha feito algo errado.
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  Hermione não disse nada. Só me olhava daquele jeito dela, silenciosa, firme, como quem esperava a verdade nascer sem pressa.
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  — E eu menti — confessei. — Disse que era por causa das visões, do dom, do grimório... E parte disso é verdade, mas não foi por isso que eu me afastei dela.
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  Engoli em seco. A garganta arranhava como se cada palavra estivesse escrita com espinhos.
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  — Eu me afastei porque... estava com ciúmes. Dela. Do Harry com ela. De como ele sorria quando falava com ela, de como ela parecia pertencer a um lugar ao lado dele que eu nunca tive certeza se poderia ocupar. E, em vez de lidar com isso… eu me escondi. Me fechei. Fugi.
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  Hermione continuou em silêncio, mas dessa vez havia emoção nos olhos dela. Não julgamento. Só empatia.
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  — E me odiei por isso — continuei, a voz falhando no fim. — Porque ela é minha amiga. E eu a amo. E não queria que o que sinto pelo Harry… estragasse isso. Não quero afastar as pessoas que amo por um sentimento que eu ainda nem sei como nomear direito.
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  — %Ayana%... — Hermione sussurrou, com uma ternura úmida na voz — você é uma das pessoas mais corajosas que eu conheço. Ter coragem de olhar pro que sente, de dizer isso em voz alta... isso é força, não fraqueza.
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  Balancei a cabeça, apertando os olhos por um instante. Como se o mundo pesasse demais atrás das pálpebras.
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  — Eu só... preciso encontrar equilíbrio. Saber lidar com tudo isso sem machucar ninguém no caminho.
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  — E você vai conseguir — ela disse, com convicção. — Do seu jeito. No seu tempo. E o mais importante: você não precisa fazer isso sozinha.
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  Respirei fundo. A vergonha ainda pulsava, mas havia algo mais ali agora. Algo leve. Quase como alívio. Quase como paz.
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  — Eu não sei se tenho coragem de contar isso pra Gina — confessei. — Porque eu sei que ela também gosta dele. E eu não quero que ela pense que eu fui falsa... ou egoísta.
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  Hermione me encarou com aquele olhar que enxergava por dentro.
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  — Eu entendo. Mas você não foi falsa, %Ayana%. Só estava tentando entender o que sentia. E, às vezes, a gente só consegue entender depois que já se afastou. O importante é o que você faz agora.
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  — Ela me perguntou sobre, sabia? — acrescentei, num sussurro. — Se eu gostava dele.
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  — E o que você disse?
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  — Que não. Que somos só amigos.
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  — E ela acreditou? — Dei de ombros.
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  — Não sei. Talvez ela tenha percebido o que nem eu sei explicar ainda. Mas... mesmo assim, ela foi gentil. Verdadeira. Não me atacou,
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não me julgou. E isso... só me fez admirar ainda mais ela. — Hermione sorriu.
  — A Gina tem esse dom. De lidar com a verdade sem fazer dela uma arma.
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  — É. E é por isso que dói mais. Porque ela é incrível. E eu não quero machucá-la, mesmo sem intenção.
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  — Dá um passo de cada vez — Hermione aconselhou, com doçura. — Às vezes, o silêncio protege, mas a verdade... reconstrói. E quando for a hora certa, você vai saber.
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  — Obrigada, amiga. Por estar aqui. Por sempre... ser você — disse, puxando-a para um abraço apertado.
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  Ela me envolveu com carinho. E naquele instante, com as pedras frias do castelo ao redor, meu coração encontrou um pedaço de casa. Minha melhor amiga de volta. E com ela, a coragem pra me reencontrar também.
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  Nota da Autora: Esse capítulo foi um respiro que eu queria dar pra %Ayana% fazia tempo. Teve reconciliação com a Mione (sim, finalmente), conversa honesta com a Gina (ai, esse triângulo emocional, viu?) e aquele momento com a Saphira que… hmm, deixou o ar mais denso. Tá tudo começando a se alinhar, sabe? As amizades, os sentimentos confusos, os segredos que não cabem mais no peito. Obrigada por estarem sentindo tudo isso junto com ela. A jornada tá só começando. 💫

Capítulo 06
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Lelen

AI, A SAPHIRAAAA, I KNEW IT! AHAHAHAH
Ela é um respiro bem vindo na história, já quero mais aparições!
E assim, acho que Harry tá sentindo, hein? Ele pode não saber o que, mas tá. Agora fica aí o questionamento de como fica a Gina, porque se ela fosse uma personagem insuportável, até ficaria mais ok, mas ela é uma florzinha >.<
E O RONY, ALGUÉM DÁ UNS PETELECOS NO RONY, PELAMOOOOOOR!!!
Mas, algumas questões foram respondidas nesse capítulo, né. Trouxe mais questionamentos? Sim, mas respondeu alguma coisa pelo menos kkkkkkkkkk

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