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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Feitiço Inquebrável

Escrita porNyx
Editada por Lelen

Capítulo 09 • Fratura

Tempo estimado de leitura: 49 minutos

  Hogwarts seguia funcionando como sempre.
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  As escadas continuavam mudando de lugar sem aviso. As corujas cruzavam o céu ao amanhecer. Os corredores ainda fervilhavam de vozes, risadas, reclamações sobre provas e deveres atrasados. Nada parecia fora do lugar — exceto eu.
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  Descobri rápido que era mais fácil me afastar do trio do que imaginei. Não por falta de vontade, mas por logística. Casas diferentes criam rotinas diferentes. Horários diferentes. Mesas diferentes no Salão Principal. E, pela primeira vez, usei isso a meu favor.
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  Evitei o Harry conscientemente.
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  Não desviando o olhar de forma teatral, nem mudando de direção ao vê-lo, apenas… não indo até onde ele estava. Não puxando conversa. Não ocupando o espaço que sempre ocupei ao lado dele. Era um afastamento silencioso, quase educado. E talvez por isso tenha doído mais.
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  Passei a sentar com mais frequência à mesa da Corvinal. Falar de coisas pequenas. Reclamar de Aritmancia. Ouvir Luna comentar, com absoluta seriedade, que os quadros do terceiro andar andavam cochichando mais do que o normal.
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  — Eles ficam assim quando tem tensão no ar — ela disse, mexendo o mingau. — É como mofo emocional. Espalha rápido.
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  Miguel me encontrou antes que eu tivesse a chance de fingir que não o vi.
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  Não foi um esbarrão acidental nem um encontro forçado, foi aquele tipo de aproximação tranquila de quem conhecia seus passos. Ele surgiu ao meu lado no corredor, acompanhando meu ritmo como se tivesse estado ali o tempo todo.
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  — Você anda sumida — disse, sem acusação, só constatação. — E não vale dizer que foi por causa das aulas. Eu te conheço melhor do que isso.
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  Suspirei, diminuindo o passo.
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  — Eu sei. — Olhei para o chão por um instante antes de encará-lo. — Fui eu que me afastei. Desculpa por isso.
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  Miguel inclinou a cabeça, estudando meu rosto com aquela atenção silenciosa que sempre teve.
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  — Tá tudo bem se você precisar de espaço — respondeu. — Só não precisa desaparecer pra conseguir isso.
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  O comentário não vinha carregado de cobrança. Era cuidado.
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  — Ando cansada — admiti. — De pensar demais. De sentir demais.
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  — Então veio pro lugar certo — ele disse, abrindo um meio sorriso. — A Corvinal é basicamente um refúgio oficial pra mentes sobrecarregadas. Se quiser, posso até oficializar a gente como substitutos do trio. Menos drama, mais chá quente.
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  Ri, baixo. Um riso curto, mas verdadeiro.
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  Foi nesse momento que Cho Chang se aproximou, ajustando a alça da bolsa no ombro. O olhar dela era atento, mas distante, como se carregasse um peso parecido com o meu, só organizado de outro jeito.
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  — Faz tempo que a gente não se vê — comentou, sem cobrança. — Você anda… diferente.
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  — Eu que sumi — repeti, dessa vez com mais firmeza. — Não foi nada pessoal. Só precisei… recolher as coisas por dentro.
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  Cho assentiu devagar, como quem entendia mais do que perguntava. Antes que o silêncio ficasse denso demais, Luna apareceu ao nosso lado, equilibrando livros como se a gravidade fosse uma sugestão.
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  — Nada mudou — disse, com tranquilidade absoluta. — As pessoas só se movem em órbitas diferentes às vezes. Ainda são as mesmas estrelas.
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  Miguel franziu a testa.
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  — Isso foi reconfortante ou ligeiramente alarmante?
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  — Depende do telescópio — Luna respondeu, serena.
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  Ri de novo.
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  Por fora, eu parecia bem. Funcionando. Inserida em outros círculos, outras conversas, outras risadas. Hogwarts me oferecia alternativas e eu as aceitava.
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  Mas por dentro, havia um cansaço que não passava.
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  Vi Harry de longe mais de uma vez. No Salão. No pátio. Em escadas opostas. Ele parecia… igual. Cercado. Inserido. E talvez fosse isso que mais doesse: o mundo não tinha parado por nossa causa. Ainda assim, algo em mim sabia — com uma certeza incômoda — que aquela distância não era como as outras.
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  Não era birra.
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  Não era mal-entendido.
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  Era uma fratura silenciosa e eu ainda não sabia o que ela iria quebrar em mim.
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  Eu não tinha planejado encontrar o Rony e a Hermione naquele dia. Na verdade, vinha evitando encontros longos com qualquer um que pudesse me perguntar como eu estava, porque a resposta exigiria mais do que eu estava pronta para dar.
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  Mas Hogwarts tem esse hábito irritante de cruzar caminhos quando a gente menos espera.
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  Foi no fim da tarde, depois de aulas que eu mal lembrava de ter assistido, que os encontrei no corredor perto das escadas móveis. Hermione carregava pergaminhos demais para alguém que já tinha encerrado o dia, e Rony parecia indeciso entre acompanhá-la ou fugir para o campo de Quadribol.
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  — Você sumiu — Hermione disse, sem acusação. Só constatação.
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  — Eu sei — respondi. — Não foi por mal.
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  Rony me avaliou por um segundo, como se decidisse alguma coisa importante.
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  — Tá. Então vem com a gente.
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  — Pra onde? — perguntei, já cansada só de imaginar o Salão Principal cheio.
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  Ele abriu um sorriso enviesado, daquele que sempre significava confia em mim.
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  — A cozinha — anunciou, como se fosse uma revelação divina. — Nada de Salão Principal, nada de olhar torto, nada de gente perguntando coisa. Só comida de verdade e silêncio confortável.
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  Hermione abriu a boca para argumentar — eu vi o impulso —, mas desistiu no meio do caminho. Talvez porque soubesse que ele estava certo. Ou talvez porque, às vezes, até ela cansava de pensar demais.
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  Os elfos nos receberam como se já esperassem. Em poucos minutos, a mesa estava cheia demais para três pessoas, como sempre. Chá quente, tortas pequenas, algo que parecia pão doce e cheirava a casa, não a castelo.
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  Sentamos lado a lado, sem pressa.
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  — Então — Rony começou, pegando um pedaço grande demais de qualquer coisa —, como anda a vida na Corvinal? Já estão dominando o mundo em silêncio ou ainda só julgando mentalmente todo mundo?
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  — Ainda estamos na fase do julgamento — respondi. — Dominação vem no próximo semestre.
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  Hermione sorriu de canto, distraída, mexendo o chá.
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  — Aritmância anda te consumindo — comentou. — Você ficou olhando o mesmo cálculo por cinco minutos hoje.
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  — Estava bonito — rebati. — Quase poético.
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  Rony fez uma careta.
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  — Snape mandou a gente repetir o mesmo exercício três vezes hoje. Disse que “erros conceituais se repetem quando o aluno insiste em existir”.
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  — Ele tem um jeito especial de incentivar — murmurei.
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  A conversa seguiu assim por alguns minutos. Quadribol, deveres, o frio que parecia nunca ir embora de verdade. Normal. Confortável. Como se o mundo ainda soubesse exatamente onde nos encaixar.
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  Comemos em silêncio por alguns minutos. Não um silêncio pesado — desses que pedem explicações —, mas aquele confortável, onde ninguém se sente obrigado a preencher cada espaço com palavras. O chá ajudava. O cheiro doce também.
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  Eu girava a xícara entre as mãos quando percebi que estava adiando demais.
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  Respirei fundo.
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  — E o Harry… — comecei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia. Parei por um segundo, como se estivesse decidindo se continuava. — Ele tá bem?
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  Rony levantou o olhar na mesma hora, como se tivesse esperado por aquilo desde que sentamos.
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  — Tá — respondeu rápido demais para ser ensaiado. — Meio… tenso. Mas isso é padrão Potter. Come pouco quando tá pensando demais.
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  — Ele perguntou de você — completou Hermione, observando meu rosto. — Não muito. Mas perguntou.
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  O silêncio se acomodou entre nós.
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  — É — concordei. — E por isso eu… — parei por um instante, buscando ar. — Por isso eu preciso contar uma coisa.
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  Hermione se endireitou de leve, já imaginando o que eu queria compartilhar. Rony diminuiu o ritmo da mastigação, atento.
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  — Eu me envolvi com alguém — continuei. — Com a Saphira.
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  Rony piscou.
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  Piscou de novo.
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  — A Saphira… da Lufa-Lufa? — perguntou, apontando com o garfo como se estivesse tentando confirmar se existia outra com o mesmo nome.
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  — Essa mesma.
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  Ele franziu a testa, claramente reorganizando as peças.
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  — Tá… — disse devagar. — Então… isso explica metade das coisas.
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  — Metade? — Hermione perguntou, cautelosa.
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  Rony deu de ombros.
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  — Explica por que você anda diferente. Mais… fechada. Mas não explica por que você e o Harry parecem dois fantasmas se evitando pelos corredores.
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  Meu estômago se contraiu. Não era raiva. Era cansaço.
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  — Ele viu — respondi, simples.
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  — Viu o quê? — Rony insistiu.
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  — Eu beijando a Saphira.
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  O silêncio que caiu foi abrupto. Rony ficou imóvel por um segundo inteiro, o garfo ainda suspenso no ar.
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  — Ah.
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  Só isso.
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  Ah.
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  Hermione foi rápida em intervir, pousando a mão sobre a mesa, firme.
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  — Não foi uma situação fácil — disse. — E não é algo que a %Ayana% precise explicar além disso.
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  Rony piscou de novo, agora mais devagar.
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  — Certo… — murmurou. — Tá. Eu… não estava esperando por isso hoje.
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  — Nem eu — respondi, sincera. Ele coçou a nuca, desconfortável, mas não hostil.
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  — Então… vocês brigaram por causa disso?
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  — Não exatamente — falei. — Mas também não foi só isso. — Dei de ombros. — Foi o suficiente.
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  Rony assentiu, claramente entendendo menos do que gostaria, mas percebendo que aquele não era um território seguro pra avançar.
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  — Beleza. — Forçou um meio sorriso. — Eu sou péssimo com… sentimentos complicados. Sempre fui.
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  Hermione lançou um olhar rápido para mim, silenciosamente perguntando se estava tudo bem. Assenti de leve.
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  — Só não queria que você achasse que eu sumi por causa de você, Rony — acrescentei. — Eu só… precisava respirar fora daquele eixo.
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  — Isso eu entendo — Rony respondeu, sincero. — Às vezes Hogwarts fica pequeno demais pra cabeça da gente.
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  Hermione inclinou a cabeça, observando-me com atenção diferente agora.
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  — E você não tá tentando ganhar uma briga — disse, repetindo minhas próprias palavras de antes. — Tá tentando não se perder.
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  Assenti.
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  — Exatamente isso.
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  Rony ficou quieto por um momento. Depois soltou um suspiro longo.
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  — Bom… — disse. — Seja lá o que estiver acontecendo, você ainda é nossa amiga. Mesmo quando a gente não entende tudo.
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  O nó no peito apertou, não de dor, mas de alívio. Às vezes eu esquecia o quanto Rony era especial. Tudo o que eu tinha dividido com ele ali, eu já havia contado à Hermione antes, mas ainda assim foi bom desabafar. Às vezes, sem perceber, eu o deixava à margem das coisas… e ele continuava ali. Presente. Simples. Leal.
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  Hermione inclinou a cabeça.
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  — Você tá diferente — disse. — Não emocionalmente. Magicamente.
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  Franzi o cenho.
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  — Como assim?
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  — Não sei explicar — admitiu. — Mas tem algo… deslocado. Como se você estivesse segurando uma coisa grande demais por dentro.
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  Rony assentiu devagar.
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  — Eu também sinto isso — falou. — Não sei dizer o quê. Só… parece que você tá andando com uma tempestade no bolso.
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  O arrepio subiu pela minha nuca.
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  — Eu tô bem — menti. — Só cansada.
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  Hermione não insistiu. Mas seus dedos tocaram o pulso da própria xícara com força demais.
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  — A gente respeita seu espaço — disse. — Sempre. Mas se isso escalar… você fala com a gente.
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  — Mesmo que não saiba o que é — completou Rony.
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  Assenti.
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  Algo em mim se movia.
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  Silencioso.
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  Atento.
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  Como se a magia estivesse apenas esperando o momento certo para cobrar o que eu vinha adiando sentir.
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  A sala de Poções estava mais silenciosa do que o normal naquela manhã, como se até os caldeirões soubessem que algo diferente estava prestes a acontecer. As cortinas estavam abertas, deixando a luz pálida do inverno entrar e se refletir nos frascos alinhados nas prateleiras. O cheiro metálico e adocicado das poções antigas parecia mais forte do que o habitual, quase denso demais para ignorar.
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  Slughorn entrou com passos satisfeitos, carregando uma pequena bandeja de prata.
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  — Hoje, meus queridos… — começou, com aquele tom teatral que sempre usava quando queria impressionar — teremos algo especial.
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  Ele ergueu um frasco minúsculo, e o líquido dentro dele dançou como ouro líquido sob a luz.
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  — Felix Felicis — anunciou, orgulhoso. — A poção da sorte líquida.
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  Um murmúrio percorreu a sala.
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  Senti o colar aquecer levemente contra a minha pele no instante em que o frasco foi erguido. Não era um calor de alerta. Era… reconhecimento. Como se algo em mim soubesse exatamente o que estava sendo mostrado ali.
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  — Quem preparar a melhor poção hoje — continuou Slughorn — leva este pequeno tesouro para casa.
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  Os alunos se inclinaram sobre os caldeirões quase imediatamente. O som de colheres mexendo, ingredientes sendo cortados e frascos sendo abertos preencheu o ambiente, caótico e concentrado ao mesmo tempo.
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  Organizei meus materiais com calma. Não estava nervosa. Não estava ansiosa. Apenas… atenta.
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  Quando o vapor começou a subir do caldeirão à minha frente, algo mudou.
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  Pisquei.
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  O vapor não se dissipava ao acaso.
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  Ele se organizava.
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  Linhas suaves se formavam no ar, curvas que se entrelaçavam como runas incompletas, caminhos possíveis se abrindo e se fechando diante dos meus olhos. Não eram imagens claras, eram padrões. Mapas que só faziam sentido se você soubesse como ler.
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  Meu coração acelerou.
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  Isso não é sorte… pensei, sentindo o colar pulsar uma única vez. É direção.
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  Do outro lado da sala, Harry mexia o caldeirão com uma confiança quase distraída. Observei quando ele fez uma pausa, desviou o olhar por um segundo — como se algo invisível o tivesse puxado — e então acrescentou um ingrediente fora do tempo esperado.
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  O vapor do caldeirão dele mudou imediatamente.
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  Não ficou mais bonito. Ficou… mais claro.
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  Engoli em seco.
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  Eu não via “sorte” ali.
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  Via a escolha certa no momento exato.
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  Quando Slughorn percorreu a sala, elogiando aqui e ali, a conclusão foi inevitável. O caldeirão de Harry borbulhava com um brilho perfeito, quase satisfeito consigo mesmo.
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  — Extraordinário! — exclamou Slughorn. — Absolutamente extraordinário, Harry!
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  Ele colocou o frasco de Felix Felicis diante dele.
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  Enquanto os alunos murmuravam, recolhendo materiais e trocando comentários animados, fiquei sentada por mais alguns segundos, observando o último fio de vapor se desfazer acima do meu caldeirão. O colar contra minha pele esfriou lentamente, como se tivesse cumprido o papel de avisar e agora se retirasse, em silêncio.
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  A Felix não criava sorte, ela revelava caminhos. E caminhos… sempre levavam a escolhas.
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  Guardei meus materiais com cuidado e saí da sala com a sensação estranha de que algo tinha sido alinhado, não apenas para Harry, mas para todos nós. Como se o mundo tivesse dado um pequeno empurrão invisível, discreto demais para ser percebido por quem não estivesse atento.
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  Tinha acabado de dobrar um corredor lateral, distraída demais para perceber que não estava sozinha, quando duas vozes surgiram adiante, baixas, tensas, carregadas de algo que não combinava com simples fofoca.
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  — Meu pai disse que foi selado — murmurou Malfoy, impaciente. — Não era pra ninguém saber ainda.
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  — Essas coisas nunca ficam escondidas por muito tempo — respondeu Blaise Zabini, num tom mais calmo, quase indiferente. — Principalmente quando envolvem promessas antigas.
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  Parei sem perceber. Não cheguei a vê-los, só as sombras projetadas na parede de pedra, alongadas pela luz das tochas.
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  — Não é uma promessa qualquer — Malfoy insistiu. — É… — ele hesitou, como se medir as palavras fosse parte do acordo. — É do tipo que cobra. Não tem volta.
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  — Juramentos assim não protegem ninguém — Blaise comentou, com uma frieza que me fez gelar. — Só garantem que alguém vai pagar no final.
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  Meu colar pesou contra a pele no mesmo instante. Não aqueceu. Não vibrou. Era um peso surdo, denso, como se algo invisível tivesse sido pendurado no meu peito.
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  Algo selado.
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  Dei um passo para trás antes que qualquer um deles percebesse minha presença. Afastei-me em silêncio, o som dos próprios passos alto demais nos ouvidos.
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  Não houve visão, não houve imagem, só a certeza.
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  Alguns juramentos não protegem.
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  Aprisionam.
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  Fechei os olhos por um instante, respirando fundo, e entendi o que a Felix tinha me mostrado mais cedo, mesmo sem estar no meu caldeirão: nem todo caminho claro leva a um destino leve.
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  Alguns levam direto para a escuridão, não porque alguém se perdeu, mas porque escolheu pagar o preço.
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  Alguns dias se passaram.
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  Não foram dias marcados por acontecimentos grandiosos, explosões mágicas ou visões claras, e talvez isso fosse o mais perigoso. Foram dias de acúmulo. De silêncio. De uma normalidade frágil demais para sustentar tudo o que se agitava por baixo da superfície.
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  Eu me isolei aos poucos.
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  Não de forma dramática. Não desapareci. Continuei indo às aulas, respondendo quando falavam comigo, rindo quando a situação pedia. Mas havia sempre uma distância calculada entre mim e o resto do mundo, como se eu estivesse observando tudo através de um vidro fino demais.
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  A sensibilidade não diminuía.
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  Aumentava.
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  Ruídos comuns pareciam altos demais. Emoções alheias vinham com peso próprio. Às vezes, um simples olhar carregava mais informação do que eu sabia processar. O colar reagia com frequência crescente, aquecia sem motivo aparente, esfriava de repente, como se testasse limites que eu ainda não entendia.
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  Hogwarts tinha caminhos suficientes para duas pessoas fingirem que não estavam orbitando a mesma ferida. Ainda assim, o castelo parecia ter uma memória própria — e gostava de cruzar rotas quando ninguém pedia.
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  Foi assim que aconteceu.
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  Perto da escadaria leste, no fim da tarde, quando o céu já escurecia cedo demais e o cansaço deixava tudo mais lento. Eu descia, distraída com pensamentos que não queriam se organizar, quando ele surgiu do patamar inferior.
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  Nossos passos desaceleraram ao mesmo tempo.
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  Harry parou.
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  Eu também.
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  Por um segundo, o mundo pareceu suspenso, como se o castelo estivesse segurando o fôlego junto conosco. Ele me encarou com algo que não era só raiva. Nem só mágoa. Havia cansaço ali. E uma pergunta que ele claramente queria fazer.
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  Eu senti, mas não dei espaço. Passei por ele sem dizer nada, o olhar fixo à frente, como se o silêncio fosse uma parede sólida o bastante para nos manter em lados opostos.
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  Não foi.
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  Dei poucos passos antes de sentir o primeiro sinal.
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  Uma vibração leve. Depois outra.
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  O corrimão de pedra sob minha mão tremeu quase imperceptivelmente. Uma armadura próxima rangiu, como se tivesse sido empurrada por algo que não existia. O ar ao meu redor ficou denso, pesado demais para um corredor vazio.
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  Meu colar aqueceu de repente, não como alerta, mas como reação. Como se estivesse respondendo a algo que eu tentava empurrar para baixo havia dias.
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  Raiva.
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  Desejo.
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  Medo.
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  Culpa.
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  Tudo veio de uma vez. Sem ordem. Sem permissão. Meu coração disparou. O chão pareceu inclinar sob meus pés, e eu parei bruscamente, apoiando a mão na parede fria, tentando puxar o ar para dentro dos pulmões.
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  Atrás de mim, ouvi o som dos passos dele hesitarem.
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  Ele ainda estava ali. Eu sabia. Sentia, como se a simples presença dele fosse uma faísca encostando em algo instável dentro de mim.
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  — %Ayana%… — ouvi, baixo. Contido.
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  Não virei.
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  Foi quando o grimório respondeu.
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  Fechado dentro da bolsa, ele se moveu. Não abriu. Não revelou páginas. Mas pulsou, como um objeto vivo reconhecendo um gatilho. O couro da capa estalou levemente, e um arrepio subiu pelo meu braço inteiro.
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  — Não — murmurei para mim mesma, mais como súplica do que ordem.
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  O colar esquentou mais.
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  Não queimava ainda, mas estava perto. Tão perto que precisei puxá-lo para fora da túnica, os dedos trêmulos, tentando ancorar o corpo no presente. O corredor girou. As paredes pareceram se afastar e se aproximar ao mesmo tempo.
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  — Tá tudo bem? — a voz dele veio de novo, agora muito mais próxima.
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  Não estava.
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  E admitir isso significava abrir a porta para tudo o que eu vinha tentando manter trancado. Endireitei os ombros à força, tentando recuperar o controle, mesmo com as mãos tremendo. Por um segundo, pareceu funcionar. O metal silenciou. A pedra voltou ao lugar. O ar deixou de pressionar.
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  Dei dois passos.
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  O terceiro não aconteceu.
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  O mundo inclinou de vez. Minha visão se encheu de pontos escuros, o som distante como se eu estivesse submersa. Tentei me apoiar em algo — qualquer coisa — mas meus dedos só encontraram o vazio.
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  — %Ayana%!
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  O chão veio rápido demais.
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  Não senti dor. Só a sensação de estar caindo para dentro de mim mesma.
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  A primeira coisa que senti foi o cheiro. Ervas. Poções calmantes. Lençóis limpos demais para Hogwarts.
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  Abri os olhos devagar, a luz branca da enfermaria me obrigando a piscar algumas vezes antes de conseguir focar. Meu corpo estava pesado, como se cada músculo tivesse sido drenado.
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  — Ela acordou.
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  A voz veio da esquerda.
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  Virei o rosto lentamente, e encontrei um círculo de rostos conhecidos.
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  Miguel estava encostado na cabeceira, os braços cruzados, a expressão aliviada demais para quem fingia tranquilidade. Hermione estava sentada na ponta da cama, os olhos atentos, avaliando cada mínimo movimento meu. Rony ocupava uma cadeira próxima, inquieto, claramente tentando decidir se falava ou ficava quieto.
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  Saphira estava ali também, um pouco mais afastada, as mãos entrelaçadas à frente do corpo, o olhar preso em mim como se estivesse contando as respirações.
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  E então… o vi.
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  Harry estava de pé ao fundo, perto da divisória de cortinas. O cabelo ainda mais bagunçado do que o normal, os ombros tensos, como se não tivesse relaxado desde que eu chegara ali. Nossos olhares se encontraram por um segundo longo demais.
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  — Você desmaiou — Hermione disse, a voz firme, mas carregada de preocupação. — Madame Pomfrey disse que foi exaustão mágica. E… sobrecarga emocional.
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  — Sobrecarga — Rony repetiu, coçando a nuca. — É, faz sentido. Você anda meio… — ele fez um gesto vago com a mão. — Tudo.
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  Miguel inclinou-se um pouco mais perto.
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  — Assustou a gente, %Chikondi%. — Minha garganta estava seca.
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  — Quem…? — comecei, a voz fraca demais para terminar a pergunta.
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  Ninguém respondeu de imediato.
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  Mas eu sabia.
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  Sabia pelo jeito que Harry desviou o olhar. Sabia pelo silêncio que caiu pesado demais para ser coincidência. Hermione foi quem falou, com cuidado:
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  — Foi o Harry que te trouxe. Nos braços.
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  Meu peito apertou de um jeito estranho. Não era conforto. Nem dor. Era… reconhecimento. Harry não disse nada. Apenas me olhou de novo, como se quisesse confirmar que eu estava mesmo ali, acordada, inteira.
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  Saphira foi a primeira a se mover.
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  Ela se aproximou devagar, como se tivesse medo de me assustar, e sentou-se na beira da cama. Sem pedir permissão, estendeu a mão e entrelaçou os dedos aos meus com cuidado um gesto simples, mas cheio de intenção.
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  — Você deu um susto enorme — murmurou, baixinho. — Mas agora tá aqui. Isso que importa.
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  A pele dela estava quente. Estável. Presente. Meu corpo respondeu antes da cabeça, apertando a mão dela de volta, buscando ali algo que eu ainda não sabia nomear.
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  — Respira comigo, tá? — continuou, o polegar desenhando círculos lentos no dorso da minha mão. — Você não precisa segurar tudo sozinha.
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  Eu assenti, sentindo os olhos arderem de um jeito perigoso. Foi então que percebi. Harry estava olhando, mas não para mim, e sim para nós. O maxilar dele se contraiu visivelmente, os músculos tensos como se ele estivesse mordendo algo que não podia dizer em voz alta. Os ombros ficaram rígidos, e por um segundo, achei que ele fosse se aproximar… mas não o fez.
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  O ar entre nós ficou estranho. Carregado.
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  Eu soltei a mão da Saphira devagar, não por rejeição, mas por consciência. O gesto não passou despercebido. Ela me lançou um olhar rápido, compreensivo demais para doer, e se levantou.
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  — Vou… buscar um pouco de água — disse, dando um passo para trás. — Já volto.
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  Miguel pigarreou, como se só então lembrasse de respirar.
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  — É. Boa ideia. — Ele me olhou com aquele meio sorriso que sempre vinha quando queria aliviar o clima. — Vou com ela.
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  Os dois saíram juntos, a cortina se fechando atrás deles com um sussurro suave.
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  O silêncio que ficou foi outro, mais denso e íntimo.
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  Só o trio agora.
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  E eu.
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  Harry ainda estava ali.
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  Não tinha se aproximado da cama, mas também não tinha ido embora. Estava encostado perto da parede, os braços cruzados, o olhar inquieto, como se cada segundo parado fosse uma escolha difícil demais.
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  Rony foi o primeiro a quebrar o silêncio.
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  — Tá… — disse, coçando a nuca. — Isso definitivamente não foi só falta de comida.
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  Hermione não riu. Estava me observando com atenção, como se tentasse enxergar algo por baixo da pele, além do corpo exausto.
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  — %Ayana% — disse, com cuidado. — O que aconteceu antes de você cair?
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  Engoli em seco. Meu coração acelerou de novo, não como antes, mas o suficiente para me manter alerta.
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  — Eu… — comecei, e parei. — Eu cruzei com o Harry.
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  O ar mudou.
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  Harry se mexeu, quase imperceptivelmente.
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  — Eu tentei te chamar — ele disse, de repente, a voz baixa demais para ser defesa, alta demais para ser silêncio. — Você não respondeu.
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  Rony piscou, confuso.
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  — Só isso? — perguntou. Balancei a cabeça.
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  — Não. — Respirei fundo. — Não foi só isso. Foi… o que eu senti. Tudo veio de uma vez. Eu tentei ignorar, fingir que não estava acontecendo. Mas meu corpo reagiu antes de mim.
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  Hermione se inclinou um pouco mais.
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  — Reagiu como?
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  — Como se eu tivesse aberto uma porta sem querer — respondi, a voz baixa. — Emoções que eu vinha empurrando pra baixo explodiram. Raiva. Medo. Culpa. — Olhei para as mãos sobre o lençol. — E o dom… respondeu.
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  Harry deu um passo à frente sem perceber.
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  — Eu senti alguma coisa também — disse, quase num sussurro. — No corredor. Foi… estranho. Como um peso no peito. — Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto. — Achei que fosse coisa minha.
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  Rony franziu a testa.
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  — Então o gatilho foi… — fez um gesto vago. — ele?
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  Assenti devagar.
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  — Eu não sei explicar direito — admiti. — Não é culpa dele. Não é só sentimento. É como se… quando ele está perto, algo em mim desperta. Como se eu estivesse tentando segurar uma maré com as mãos.
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  Harry me olhou então. De verdade. Havia culpa ali. E medo.
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  — Eu não queria… — começou, e parou. — Eu não queria ser isso pra você.
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  Hermione fechou os olhos por um instante, absorvendo tudo.
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  — Emoções intensas sempre foram catalisadores mágicos — disse, pensativa. — Mas no seu caso… — abriu os olhos, me encarando — parece que o dom não espera mais você estar preparada.
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  — Eu sei — murmurei. — E isso é o que mais assusta.
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  Harry abaixou o olhar.
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  — Foi por isso que eu te trouxe — disse. — Quando você caiu… eu senti que, se não te tirasse dali algo pior podia acontecer.
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  A cortina se abriu de novo, interrompendo o momento. Madame Pomfrey entrou com passos decididos, segurando um pequeno frasco de vidro âmbar.
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  — Muito bem — anunciou. — Já que nossa paciente resolveu acordar, vamos cuidar para que não apague de novo.
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  Ela se aproximou da cama e pingou algumas gotas de um líquido claro em um copinho.
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  — Essência calmante — explicou. — Floral. Não interfere na magia, apenas ajuda a desacelerar o corpo. — Estendeu-me o copo. — Beba devagar.
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  Obedeci. O gosto era suave, quase adocicado, e senti a tensão nos ombros diminuir aos poucos, como se alguém tivesse afrouxado um nó invisível.
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  — Você vai ficar em observação hoje — continuou ela, ajeitando os lençóis. — Nada de corredores, nada de escadas, nada de dramas emocionais.
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  Hermione abriu a boca para argumentar, mas Pomfrey ergueu um dedo.
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  — Especialmente dramas emocionais. — Rony soltou um meio riso.
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  — Acho que isso inclui a gente, né?
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  — Inclui todos vocês — confirmou ela, já empurrando-os gentilmente em direção à saída. — Voltem amanhã.
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  Rony e Hermione saíram primeiro.
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  Harry hesitou.
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  Ficou parado por um segundo a mais, os olhos presos nos meus.
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  — Desculpa — disse, simplesmente.
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  Não respondi.
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  Não porque não quisesse, mas porque alguma coisa dentro de mim sabia que aquela palavra não era suficiente para o que tinha sido despertado.
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  Ele saiu.
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  A cortina ainda não tinha terminado de se fechar quando ouvi a voz dele de novo.
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  — Madame Pomfrey… — Harry disse, firme, mas contido. — Eu posso falar com ela? A sós.
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  O silêncio que veio depois foi denso o suficiente para eu sentir o colar reagir, um calor leve, atento. Madame Pomfrey virou devagar, o olhar avaliando como quem pesa riscos invisíveis.
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  — Cinco minutos — decretou, por fim. — E só porque ela está acordada e cooperando. — Apontou para Harry com o frasco ainda na mão. — Uma palavra fora do tom e eu te transformo num paciente também.
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  — Cinco minutos — ele repetiu, assentindo.
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  Ela saiu, puxando a cortina atrás de si com um estalo suave.
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  Ficamos sozinhos.
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  Harry se aproximou da cama, mas não sentou. Ficou ali, em pé, como se não soubesse exatamente onde se encaixar naquele espaço pequeno demais para tudo que precisava ser dito.
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  — Eu tirei esses dias pra pensar — começou, sem rodeios. — De verdade. Não pra fugir. Pra… entender. — Esperei. — Sentir sua falta foi a parte mais difícil — continuou, a voz baixa. — Porque eu via você todos os dias. Nos corredores. No Salão. — Ele respirou fundo. — E não poder falar com você… em respeito ao que você precisava… foi sufocante.
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  Meu peito apertou, mas não desviei o olhar.
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  — Eu fui egoísta — disse, enfim. — Por muito tempo. Achei que podia ignorar o que eu sentia, empurrar tudo pra debaixo do tapete e ninguém sair machucado. — Um riso curto, amargo. — Spoiler: não funciona assim.
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  Ele passou a mão pelos cabelos, claramente nervoso.
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  — Eu não posso brincar com os sentimentos da Gina. Nem com os seus. Vocês não merecem isso. — Seus olhos encontraram os meus, sérios. — E eu percebi que… eu também não mereço continuar fingindo.
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  Meu coração bateu mais forte.
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  — Eu tomei uma decisão — disse ele.
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  O colar aqueceu de leve. Eu ia responder. Ia dizer alguma coisa, qualquer coisa. Mas a cortina se abriu de repente.
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  — Tempo esgotado — anunciou Madame Pomfrey, sem nenhuma delicadeza. — Conversas profundas demais para pacientes em recuperação.
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  Harry fechou os olhos por um segundo, frustrado.
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  — Só mais—
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  — Fora — ela apontou para a saída. — Agora.
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  Ele se virou para mim uma última vez, rápido demais para o que eu queria, lento demais para não doer.
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  — As coisas vão ser diferentes a partir de agora — disse. — Eu prometo.
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  E então ele foi puxado para fora, a cortina se fechando entre nós com um sussurro definitivo. Fiquei ali, o coração acelerado, a magia ainda vibrando sob a pele.
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  Ele tinha uma decisão.
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  E eu sabia, com a mesma clareza assustadora que vinha acompanhando meu dom ultimamente, que o que quer que ele tivesse escolhido… nada voltaria a ser como antes.
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  Enquanto o efeito do remédio me envolvia — não apagando pensamentos, apenas tornando-os menos afiados —, uma certeza se acomodou no fundo do meu peito, pesada e inevitável: aquilo não tinha sido um aviso.
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  Tinha sido um limite ultrapassado.
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  E o meu dom… não ia mais aceitar silêncio como resposta.
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  A enfermaria já estava quase em silêncio quando a noite se assentou de vez sobre Hogwarts. As lamparinas haviam sido diminuídas, lançando sombras longas sobre as camas vazias. O cheiro de ervas calmantes ainda pairava no ar, mas não me acalmava mais. Meu corpo estava exausto e, ainda assim, algo em mim permanecia acordado demais. Atento demais.
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  Fechei os olhos.
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  Foi quando o colar queimou.
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  Não aqueceu. Não vibrou.
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  Queimou.
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  O ar saiu dos meus pulmões num sobressalto, e meus dedos voaram instintivamente até o peito. A corrente estava incandescente contra a pele, como se tivesse sido arrancada do fogo. Um ardor seco, profundo, atravessou o osso, e eu mordi o lábio para não gritar.
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  — Não… — murmurei, tentando puxá-lo para longe.
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  Não consegui.
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  A dor se espalhou, não como uma chama que sobe, mas como algo que afunda. O mundo ao meu redor perdeu contorno. As sombras se alongaram demais. O teto da enfermaria pareceu se afastar, dissolvendo-se em escuridão líquida.
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  E então…
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  Eu caí.
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  Não para baixo.
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  Para dentro.
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  O chão desapareceu sob meus pés, e quando abri os olhos, Hogwarts não estava mais ali.
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  Eu estava em outro plano.
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  O ar era denso, pesado de magia antiga. Não havia céu nem chão definidos, apenas uma vastidão de sombras entrecortadas por veios de luz azulada, como raízes luminosas atravessando o vazio. Cada uma pulsava em um ritmo próprio, lento, consciente.
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  — Respire — disse uma voz ao meu lado.
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  Eu não me virei.
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  Não precisei.
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  Morgana estava ali.
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  Não como nas visões fragmentadas. Não como reflexo ou sussurro.
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  Ela estava inteira.
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  O manto escuro parecia feito da própria noite, os cabelos longos caindo como água sobre os ombros. Seus olhos — profundos, antigos — não me olhavam com julgamento. Olhavam com reconhecimento.
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  — Você atravessou — disse ela. — Sem pedir permissão. Sem proteção.
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  — Eu não escolhi — respondi, a voz ecoando estranhamente naquele espaço.
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  Morgana sorriu de leve.
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  — O dom raramente pede consentimento. Ele cobra.
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  Ela ergueu a mão, e o espaço à nossa frente se abriu como um véu rasgado.
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  Vi um lugar que não reconheci de imediato, uma sala fria, de pedra antiga, velas dispostas em um padrão que fazia o estômago revirar. Runas marcadas no chão, profundas demais para serem recentes. Sangue seco misturado a pó de ossos.
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  E no centro…
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  Ele.
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  Tom Riddle não era mais o garoto da memória.
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  Era Voldemort.
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  Magro, pálido, os olhos vermelhos brilhando com uma concentração quase reverente. À sua frente, um objeto repousava sobre um pedestal improvisado, não um artefato pronto, mas um caminho sendo construído. Fragmentos de intenção. De alma. De escolha.
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  Não era uma criação final.
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  Era um processo.
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  — Ele não está criando um fragmento agora — sussurrei, entendendo antes mesmo de formular. — Ele está… preparando o terreno.
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  Morgana assentiu.
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  — Fragmentação não começa no ato — disse. — Começa na decisão de se separar do que ainda resta.
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  Voldemort se moveu. E então… ele parou. O ar mudou, o peso se concentrou. Os olhos dele se ergueram, lentos, precisos, não para Morgana, mas para mim. Meu sangue gelou.
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  — Há algo aqui — disse ele, a voz baixa, serpenteante. — Algo que não pertence.
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  A magia ao redor estremeceu. As velas oscilaram violentamente. O colar no meu peito queimou mais forte, uma dor aguda que arrancou um som da minha garganta.
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  — %Ayana% — disse Morgana, firme. — Agora.
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  Ela segurou meu pulso, e o toque foi como ferro frio contra pele em brasa.
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  — Você não é invisível para ele — continuou. — Ainda não. E não será se ficar.
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  Voldemort deu um passo à frente.
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  Sorriu.
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  — Interessante… — murmurou. — Um eco antigo. Uma escuta fora do tempo.
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  O espaço começou a se romper.
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  — Agora — ordenou Morgana.
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  Ela me puxou.
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  O plano se dobrou sobre si mesmo, luz e sombra se esmagando numa pressão impossível. A dor no meu peito explodiu, não só física, mas mágica, como se algo estivesse sendo marcado em mim.
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  Caí.
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  De novo.
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  A enfermaria voltou com violência.
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  Meu corpo arqueou na cama, um grito escapando antes que eu pudesse contê-lo. O colar caiu sobre o colchão com um estalo metálico, frio de repente, inofensivo demais para o que tinha feito.
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  Eu tremia.
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  Respirava em golfadas curtas.
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  E então senti.
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  A dor no peito não desaparecia. Levei a mão até lá, os dedos encontrando pele sensível, ardida, e algo mais. Uma marca.
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  Pequena. Irregular. Como uma cicatriz recente, ainda viva.
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  Fechei os olhos, a magia não se afastou. Não se calou.
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  Ela estava ali, correndo sob a pele. Nos ossos. Na respiração. Não havia mais silêncio entre as visões, não havia mais intervalos.
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  O dom não era mais episódico, ele estava desperto. E pela primeira vez desde que tudo começou, eu soube: eu não tinha apenas visto algo que não devia.
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  Eu tinha sido vista.
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  E não havia mais volta.
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  Nota da Autora: Só tiro essa atualização, né?
  Esse capítulo ficou bem mais voltado pro dom da %Ayana%, porque sim, a magia dela tá despertando de um jeito que não dá mais pra ignorar, e as consequências começam a bater à porta. Nem tudo é sobre romance agora, mesmo que ele esteja ali… rondando.
  E vamos combinar uma coisa? Adolescente é confuso. E chato.
  O Harry tá exatamente nesse lugar: cheio de sentimentos que ele não sabe nomear, reagindo antes de pensar, se perdendo no próprio orgulho. Ele não é fácil — nunca foi — e agora tá ainda menos.
  Mas a %Ayana% também não ajuda, né?
  Ela tá nesse eterno vai e não vai, sentindo demais, pensando demais, tentando entender o dom, os sinais, as pessoas… e tropeçando em tudo isso ao mesmo tempo. Crescer, descobrir quem você é e lidar com magia antiga definitivamente não vem com manual.
  Então, se em algum momento você pensou “MEU DEUS, DECIDE LOGO”, parabéns: era exatamente essa a intenção 😂
  Essa é a primeira atualização do ano, então aproveito pra agradecer de coração todo o carinho, os comentários, as teorias e o amor de vocês por essa história 🖤✨
  Desejo a vocês um Ano Novo cheio de saúde, magia, histórias boas e sonhos realizados. Que 2026 venha com ainda mais capítulos, surtos e emoções pra gente compartilhar 💫
  Com carinho,
  Nyx 🖤

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Lelen

Eita que as coisas tão ficando mais tensas. E essa mudança que o Harry comentou, hein? Será se vamos ter um avanço na relação e o moço vai finalmente sair do muro?
E O VOLDY SENTIU A AYANA NO PASSADO? EITA.
Se eles se reencontrarem no presente, ele vai saber que foi ela bisbilhotando? 🤔
E vamos ter um triângulo com a Saphira? 😮
ONDE QUE ESSSA HISTÓRIA VAI PARAAAR?

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