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Feitiço Inquebrável

Escrita porNyx
Editada por Lelen

Capítulo 05 • Aulas, Olhares e Outras Complicações

Tempo estimado de leitura: 49 minutos

  O céu amanhecia coberto por uma névoa fina, mas o campo de quadribol já começava a ganhar vida.
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  Prendi os cachos com um feitiço rápido, apertei as luvas e montei na vassoura com firmeza. Um impulso, e subi no ar com um giro certeiro, cortando o vento como se estivesse fugindo de tudo que me prendia ao chão.
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  O uniforme da Corvinal colava no corpo com a brisa gelada da manhã, e por alguns minutos, o mundo lá embaixo simplesmente sumiu. Os símbolos em chamas, os sonhos com serpentes, as sombras que me seguiam em silêncio — nada disso existia ali. No céu, só existia instinto.
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  — Vamos, %Chikondi%! — gritou Pirlo, lançando uma das goles com força.
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  Mergulhei sem hesitar, o corpo rente à vassoura, e rebati com precisão. A bola cortou o campo numa trajetória limpa, arrancando um murmúrio satisfeito de quem assistia.
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  — Isso! É assim que se joga! — vibrou uma voz das arquibancadas.
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  Nem precisei olhar pra saber quem era. O tom calmo, mais animado, só podia ser de Ian Caulfield — o aluno da Lufa-Lufa com quem eu vinha trocando algumas palavras pelos corredores, principalmente depois das aulas de Runas Antigas. Gentil, observador... e, se eu fosse honesta, uma das opções citadas naquela conversa com a Hermione. Aquela em que eu prometi a mim mesma que ia tentar olhar para outras direções.
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  Sorri. Um daqueles sorrisos curtos, quase privados. Só meus.
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  Nos treinos, eu me sentia mais eu do que em qualquer aula. Ali não havia pressões por respostas, nem visões inquietantes. Era só eu, a vassoura, o céu.
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  Quando o treino terminou, pousei com leveza. Meus colegas começaram a se dispersar entre risos e planos para o resto do dia. Ainda com as bochechas coradas do frio e o coração acelerado, fui até a arquibancada pegar minha capa. Foi aí que ouvi a voz de novo.
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  — %Chikondi% — chamou Ian, descendo os degraus com as mãos nos bolsos. — Foi incrível. Sua velocidade de reação no segundo lance... — ele fez um gesto no ar, imitando meu mergulho — ...foi coisa de profissional.
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  — Exagerado — respondi, rindo enquanto pegava a toalha para enxugar o rosto. — Mas obrigada.
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  — Não é exagero. Eu nunca teria conseguido fazer aquele desvio — ele disse, e hesitou por um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras. — Escuta... eu sei que você anda meio ocupada, mas... ainda quer ajuda com Runas do Norte? E quem sabe... eu também poderia aprender um pouco sobre as do Sul?
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  Olhei pra ele por um momento. Os olhos de Ian eram gentis, atentos. Sem julgamento. Sem expectativa disfarçada.
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  Assenti, respirando fundo.
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  — Tudo bem. Vamos marcar. Depois do passeio, pode ser?
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  — Pode — ele sorriu. Um sorriso inteiro. — Te vejo no Salão.
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  Fiquei o observando se afastar, e por um instante... o peso da manhã pareceu recuar.
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⚡🧙

  O Salão Principal estava mais barulhento do que o habitual, com os alunos ansiosos pelo passeio a Hogsmeade trocando planos entre mordidas em torradas e goles apressados de suco de abóbora.
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  Me sentei na mesa da Corvinal ainda com o cabelo levemente úmido do banho pós-treino. O corpo estava relaxado, mas a mente... não. A sensação da névoa sobre o campo ainda pesava no fundo do estômago — uma premonição sem forma, mas teimosa.
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  Ao meu lado, Luna mastigava uma torrada com geleia de amora com aquela calma de quem nunca estava, de fato, inteiramente aqui.
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  — O ar hoje está estranho — ela disse, encarando o teto encantado com olhos mais arregalados que o normal. — Como se a magia do castelo estivesse... azeda.
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  Ergui uma sobrancelha, desconfiada.
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  — Azeda?
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  — É. Como leite deixado fora da geladeira — explicou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Ácido e barulhento. Você não sente?
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  Hesitei. A verdade é que sentia algo, sim. Mas colocar aquilo em palavras era quase impossível.
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  — Eu... sinto que tem algo fora do lugar. Mas não sei se chamaria de leite ruim.
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  Luna sorriu, satisfeita por não ser a única desconfortável com o ar à nossa volta.
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  Foi quando Hermione apareceu com sua típica expressão determinada e uma pilha de pergaminhos meio desalinhados nos braços.
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  — %Ayana% — disse, ajeitando a mochila no ombro. — A gente vai pra Hogsmeade logo depois do café. Você vem?
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  Pensei em recusar. Queria ficar na torre, estudar um pouco, talvez escrever no diário… ou só sentar em silêncio com aquele pressentimento até ele fazer sentido. Mas, no fundo, sabia que me isolar era exatamente o que esse tipo de sensação queria que eu fizesse.
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  — Tá bem — respondi por fim. — Eu vou com vocês.
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  Hermione assentiu, satisfeita, e foi atrás de Rony e Harry. Luna me observou por um segundo, depois murmurou:
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  — É bom ir. Coisas importantes sempre acontecem em Hogsmeade. Mesmo quando a gente não quer.
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  Tomei o restante do suco. A frase dela ficou martelando na minha cabeça.
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  Mesmo quando a gente não quer.
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  O vilarejo parecia mais acinzentado do que o normal — e não era só por causa da névoa.
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  À medida que descíamos a trilha de pedras, folhas secas se arrastando sob nossos pés, eu sentia o peso da magia pairando sobre as ruas. Portas protegidas com feitiços recém-lançados brilhavam discretamente. Algumas vitrines estavam rachadas, outras, cobertas com tábuas de madeira.
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  — Isso aqui tá com cara de lugar assombrado — murmurou Rony.
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  — Tá com cara de vila em alerta — corrigiu Hermione. — Li no Profeta que os aurores reforçaram a segurança. Aplicaram feitiços anti aparatação por todo o entorno.
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  Andava um pouco atrás deles, olhando para cada detalhe do vilarejo. Um homem de capa escura cruzou nosso caminho em silêncio. Um gato preto nos vigiava do alto de uma janela.
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  Quando entramos no Três Vassouras, o lugar não era o mesmo. O cheiro de manteiga amanteigada ainda estava lá, mas a luz parecia mais fria. A tensão pairava no ar como poeira encantada.
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  Madame Rosmerta nos cumprimentou sem o sorriso habitual. Franzi o cenho.
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  — Tem alguma coisa errada com ela — murmurei.
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  — Com quem? — perguntou Hermione.
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  — A Rosmerta. Ela tá... estranha.
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  Nos sentamos numa mesa de canto. As canecas chegaram, mas até a cerveja amanteigada parecia menos reconfortante. Observei as mãos dela. Levemente trêmulas. E o olhar… fugia sempre que passava pela janela dos fundos.
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  Harry estava alerta. Os olhos varrendo tudo. Até que ele congelou.
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  — Ele está aqui — disse.
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  — Quem? — perguntou Rony.
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  — Malfoy.
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  Segui o olhar dele. E vi. Quase escondido atrás de uma divisória, o cabelo prateado denunciava. E Rosmerta... estava com ele. Inclinada. Falando baixo. Segundos depois, os dois saíram às pressas.
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  — Não pode ser — disse Hermione, já entrando no modo negação. — Ele não viria aqui assim.
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  — Eu vi — insistiu Harry. — Ele tá tramando algo.
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  — A gente não pode ter certeza... — tentei dizer, mas parei.
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  Olhei pra ele. E vi, ele estava convicto. Hermione ainda resistia, mas a dúvida já começava a se formar. Do lado de fora, a névoa engrossava de novo. Hogsmeade parecia ser engolida.
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  Saímos do Três Vassouras em silêncio. Rony tentou puxar assunto, sugerindo a Dedosdemel.
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  — Preciso de feijõezinhos. Os últimos tinham gosto de remédio de trouxa.
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  — Isso porque você come tudo que brilha — provoquei.
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  — É uma política de vida. Brilhou, mastigou.
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  Sorri. Mas o sorriso morreu na boca quando viramos uma ruela menos movimentada. Katie Bell e Leanne vinham na direção contrária.
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  E eu senti.
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  Um calafrio me percorreu inteiro. Denso. Cortante.
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  Meus olhos foram direto para o pacote que Katie segurava — pequeno, envolto num tecido negro. A luz parecia fugir dele. Um brilho estranho escorria pelas costuras.
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  Franzi o cenho.
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  — Katie… — comecei, instintiva. Um passo à frente.
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  Tarde demais.
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  O grito cortou o ar. O embrulho explodiu em uma rajada invisível. Katie foi lançada para cima, o corpo convulsionando. Os dedos abertos, as veias saltadas, o rosto torcido de dor.
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  Corri junto com Harry. Rony e Hermione chegaram logo atrás.
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  — Afastem-se! — gritou uma auror, aparecendo do nada.
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  Rosmerta saiu da loja ao lado, pálida. Leanne chorava, em pânico.
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  — Eu disse pra ela não tocar! Eu disse! Ela disse que alguém mandou entregar! — Olhei pra Hermione.
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  — É uma maldição. Eu senti antes dela cair. Aquilo estava… vivo.
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  Hermione só assentiu, chocada. Os aurores baixaram Katie com feitiços de contenção. Um orbe mágico isolou os restos do embrulho.
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  — Leve-a para St. Mungus imediatamente. Isso é magia das trevas.
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  O grupo voltou em silêncio pela estrada. Eu ainda sentia a vibração do feitiço na pele. Harry quebrou o silêncio.
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  — Eu vi esse colar. No verão. Na Borgin & Burkes. Quando segui o Malfoy. — Hermione tentou argumentar. Mas eu sabia. Sabia demais.
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  — Não foi um acidente. Nem coincidência.
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  Harry me encarou.
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  — Você acha que foi ele? — Assenti, devagar.
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  — Eu acho que ele tá brincando com magia que não entende. E vai machucar muita gente até perceber.
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  Ninguém respondeu.
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  A névoa em Hogsmeade não se dissipou naquele dia, e algo me dizia que também não dissiparia tão cedo.
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⚡🧙

  Mais tarde, de volta a Hogwarts, os corredores fervilhavam de cochichos e teorias desencontradas. O ataque à Katie Bell se espalhava de boca em boca como fogo em feno seco — e, por mais que tentassem disfarçar, todo mundo estava assustado.
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  Segui pelo saguão principal em direção às escadas da torre, os passos firmes, o olhar distraído. Ainda tentava processar o que tinha sentido em Hogsmeade — o colar, a magia pulsante, aquela certeza incômoda de que o perigo agora tinha rosto. E cheiro.
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  Foi aí que vi a sombra perto de uma das colunas centrais. Zabini.
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  Estava recostado como se fizesse parte da arquitetura, mãos nos bolsos do manto e aquele sorriso preguiçoso que ele usava quando queria parecer inofensivo. Spoiler: nunca funcionava.
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  — Você sempre parece saber o que vai acontecer antes de todo mundo... — disse, casual, como quem comenta o tempo. — É seu talento natural ou tem a ver com aquele diário que você vive escondendo?
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  Parei. Cruzei os braços, erguendo uma sobrancelha.
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  — Talvez eu só saiba ler pessoas. Algumas são mais fáceis que outras.
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  Ele riu, e o som foi baixo, quase íntimo. Deu um passo à frente. Depois outro. A distância entre nós se encurtou.
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  — Anda comigo — disse, sem explicar, apenas fazendo um leve gesto com a cabeça em direção a um corredor lateral, meio apagado.
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  Hesitei por um segundo, mas segui.
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  Assim que entramos ali, Zabini me encostou delicadamente na parede de pedra fria, ficando à minha frente como se criasse um espaço fora do tempo.
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  — E o que você vê em mim, %Chikondi%? — A voz era baixa, carregada de algo entre provocação e desafio. — Vamos lá. Me surpreenda.
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  Sorri de lado.
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  — Um pavão com perfume de serpente. — Zabini gargalhou.
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  — Hum… criativo. Gosto disso.
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  Ele inclinou o rosto. E quando seus lábios estavam a milímetros dos meus, eu virei o rosto — deixando que sua boca tocasse apenas minha bochecha. Ele ficou parado por um segundo, depois riu baixinho contra minha pele. Afastei sua mão com leveza e ergui uma sobrancelha.
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  — Boa noite, Zabini.
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  — Até parece que você nunca me beijou, %Chikondi%.
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  — Já beijei. Mas agora... não tô com vontade. — A resposta foi seca, mas ele não se ofendeu. Pelo contrário.
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  — Um dia você vai ceder de novo — disse ele, recuando com aquele sorrisinho presunçoso. — E quando acontecer... vou estar esperando.
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  Virei as costas, o coração batendo um pouco mais rápido do que eu queria admitir, e voltei ao corredor principal.
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  E foi então que o vi.
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  Harry.
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  Parado a poucos metros dali. O rosto tenso. O maxilar travado. Os olhos cravados em mim como se tivesse acabado de presenciar um crime.
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  — Então é isso agora? — a voz dele me cortou como uma lâmina.
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  — Isso o quê, Harry?
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  — Você está ficando com ele, com o Zabini? — Ele cuspiu o nome como se queimasse a língua. — Você sabe quem ele é. O que ele é. E mesmo assim...
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  — O que você está insinuando? — retruquei, cruzando os braços, tentando manter o tom calmo, mesmo com o sangue fervendo.
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  — Ele disse, %Ayana%. Disse que vocês já se beijaram. — Engoli em seco. Eu não tinha como negar. Não completamente.
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  — E o que exatamente você quer saber? Se é verdade?
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  — É! — a voz dele se ergueu. — É verdade?
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  — É. Aconteceu, sim. Uma vez, talvez duas, sei lá. — Segurei o olhar dele. — E daí?
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  Harry ficou em silêncio por um segundo. Mas o silêncio dele era barulhento. Estalava entre nós.
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  — Como você pôde... com ele?
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  — Eu não tô entendendo essa conversa — respondi, firme. — Desde quando você acha que tem o direito de questionar com quem eu fico?
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  — Ele é... o Zabini! Um cara que vive me provocando, que anda com o Malfoy, que...
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  — Que não te deve nada. Assim como eu. — Ele se calou por um instante, mas o olhar seguia queimando.
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  — É isso, então? Você gosta dele? — A pergunta me pegou de surpresa. Mais pela intensidade do que pelas palavras.
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  — E se eu gostasse? — rebati, o tom cortante. — Você vai fazer o quê?
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  Harry abriu a boca, mas nada saiu. O olhar dele parecia prestes a explodir em palavras que ele mesmo não conseguia organizar.
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  — Você sempre agiu como se minha vida não fosse da sua conta — continuei. — E, adivinha? Ainda não é. Eu nunca me meti nas suas escolhas, nunca questionei suas decisões. Então por que diabos você acha que pode fazer isso comigo?
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  — Porque ele é o Zabini, %Ayana%! — ele disse, a voz erguida. — Você tem ideia do que ele é capaz?
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  — Tenho, sim. E ainda assim, não é da sua conta.
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  Harry passou a mão nos cabelos, visivelmente irritado. Parecia mais com ele mesmo quando enfrentava Comensais do que conversando comigo.
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  — É que... ver você com ele... — murmurou, a voz mais baixa agora, quase falhando. — Não parece certo.
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  — Não parece certo pra você, talvez. Mas eu não preciso da sua aprovação pra nada, Harry. Eu não sou sua aluna. Não sou sua irmã. E definitivamente não sou sua responsabilidade.
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  O silêncio que se instalou depois disso foi denso, quase sufocante.
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  — Nós somos amigos. E amigos não fazem esse tipo de cena — acrescentei, fria.
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  Ele me encarou, os olhos verdes intensos, como se quisesse entender o que estava sentindo e falhando miseravelmente.
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  Me virei, sem esperar resposta. Não olhei pra trás, mas senti. O olhar dele queimando minhas costas como se fosse um feitiço não lançado.
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  Subi os últimos degraus da Torre da Corvinal como quem carregava o próprio corpo no feitiço Levicorpus, pendurada de cabeça pra baixo pelas emoções.
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  O dormitório já estava mergulhado no silêncio das cortinas fechadas e da respiração calma das colegas dormindo. Mas minha cabeça… essa não fazia silêncio nenhum.
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  Troquei de roupa devagar, sentindo o tecido roçar na pele como se eu estivesse sensível demais até para o toque de algodão. Me joguei na cama e fiquei ali, encarando o teto azul-escuro que refletia o céu do lado de fora.
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  Harry.
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  O nome dele ecoava como uma palavra maldita dentro de mim.
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  Por que aquilo tudo tinha me afetado tanto? Por que ver aquele olhar nele — raiva, ciúme, frustração, tudo junto — mexeu comigo desse jeito?
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  Virei para o lado, puxando meu diário, mas acabei pegando apenas um pergaminho em branco. E, por algum motivo, em vez de escrever sobre tudo aquilo que me atravessava, comecei a rascunhar uma carta.
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Ian,
Me desculpa por cancelar tão em cima da hora, mas hoje não vou conseguir estudar com você.
Minha cabeça está um caos e eu não quero ser uma companhia ruim e, honestamente, você merece mais do que isso.
A gente pode remarcar pra outro dia?
Com carinho,
%Ayana%.

  Li uma, duas vezes. Não dizia muito, mas também… dizia tudo. Dobrei o pergaminho e o deixei separado perto da janela. Mandaria no primeiro horário com minha coruja.
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  Fechei os olhos. Tentei dormir, mas só conseguia ouvir a voz do Harry, presa entre raiva e alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.
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  “Não parece certo.”
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  Nem tudo que não parece certo… é errado. Às vezes, só é novo. Suspirei, hoje, eu só queria conseguir respirar sem sentir o peso de um olhar me seguindo.
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⚡🧙

  O Salão Principal ainda ecoava com risos, tilintar de talheres e conversas triviais sobre tarefas, quadribol e aulas. Na mesa da Corvinal, os colegas falavam animadamente sobre a última aula de Runas, mas minha cabeça estava longe demais para acompanhar debates sobre declinação mágica e estrutura simbólica.
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  Eu estava prestes a seguir direto para a torre quando ouvi a voz de Rony:
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  — Ei, %Ayana%! — Ergui os olhos, surpresa.
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  Hermione deu um leve sorriso, empurrando um pouco a bancada para abrir espaço. Rony acenava com um pedaço de torta na mão. E Harry... Harry nem olhou.
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  Hesitei. Depois da nossa discussão, a última coisa que eu queria era ficar perto dele, ainda mais em público. Mas ignorar o convite também levantaria suspeitas, e eu já tinha olhos demais em cima de mim naquela semana.
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  Caminhei até a mesa com passos contidos e me sentei devagar, mantendo uma distância segura entre mim e o garoto que agora evitava qualquer contato visual comigo.
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  O silêncio entre mim e Harry dizia muito e nada ao mesmo tempo.
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  — Enfim, aquilo não foi um acidente — disse ele, com os olhos fixos no prato, mas a voz firme, como se minha chegada não mudasse nada. — O colar era uma armadilha.
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  Hermione soltou um suspiro longo, empurrando uma mecha de cabelo para trás.
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  — Harry, você já falou isso. E ninguém quer acreditar nisso mais do que a gente, mas ainda não há provas.
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  — Talvez porque o Malfoy seja esperto demais pra deixar rastros — ele rebateu, a mandíbula travada. — Desde a Borgin & Burkes eu venho falando.
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  Rony se remexeu no banco como quem queria estar longe daquela conversa.
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  — E se não for ele? — Foi minha vez de erguer os olhos.
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  — E se for? — O silêncio que se seguiu foi incômodo. Denso. — Vocês viram a Katie. Aquilo foi magia das trevas. Poderosa. Planejada. Quem mais teria acesso a esse tipo de objeto aqui dentro?
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  Hermione hesitou. Um segundo. Dois. O bastante para deixar escapar a dúvida por trás da lógica.
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  — Existem muitos bruxos com más intenções. Não podemos sair acusando alguém só porque é... Malfoy.
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  — Às vezes, a resposta mais óbvia é a certa — murmurei. — E algumas verdades estão mais perto do que a gente quer admitir.
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  Meus olhos encontraram os dele por um segundo. Rápido demais. Tenso demais. Harry desviou primeiro, mas não antes de perceber o desconforto no meu olhar também. Estávamos diferentes. E ninguém parecia mais consciente disso do que Hermione. Ela franziu levemente o cenho, observando a troca silenciosa entre nós dois.
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  — Está tudo bem com vocês? — perguntou devagar, com aquele tom suave que sempre precedia uma intervenção.
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  — Claro — falei ao mesmo tempo que Harry disse “sim”, ambos rápidos demais.
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  O constrangimento preencheu o espaço entre a gente como um feitiço mal executado. Hermione não insistiu. Mas o olhar dela… dizia que anotaria mentalmente para questionar depois.
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  Foi quando Rony, em sua falta de tato habitual, tentou mudar de assunto do jeito mais desastrado possível:
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  — Falando em gente com más intenções… e o Zabini… — Hermione arregalou os olhos. Eu, sinceramente, quis usar um Silencio nele.
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  — Sério, Rony? — rebati, sem paciência. — Essa é sua contribuição?
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  — Só comentei… — disse, dando de ombros. — Ele vive te encarando e aquela cena no corredor ontem… Eu espero que você não esteja ficando com ele. Ele é inimigo. — Bufei, sem esconder a irritação.
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  — Não tenho nada com Zabini. E nem vou ter.
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  Falei devagar, com firmeza, olhando diretamente para ele. Foi então que Harry finalmente reagiu.
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  — Isso não é verdade — disse, a voz baixa, mas clara o suficiente para fazer o garfo de Rony parar no meio do caminho até a boca.
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  Virei o rosto para ele, lentamente. O sangue gelando. Hermione também congelou, os olhos arregalados, alternando entre mim e Harry como se não soubesse se estava ouvindo certo.
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  — O quê? — perguntei, quase num sussurro.
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  — Eu os vi ontem, depois da ceninha pública — continuou ele, sem desviar o olhar. — E ele mesmo disse... que já a beijou e ela me confessou ontem também.
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  O silêncio caiu sobre a mesa como um feitiço de congelamento. Rony tossiu, engasgando com um pedaço de frango.
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  — O quê?! — exclamou. — Você… ficou com aquele... aquele... sonserino nojento?!
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  — Não foi assim — rebati, a voz mais alta do que eu pretendia. — E ele não é o que vocês pensam.
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  — Não é o quê? Um completo imbecil com a cara de quem vai te amaldiçoar pelas costas? — retrucou Rony, indignado.
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  Hermione não disse nada no início. Só olhou para mim. E aquilo doeu mais que qualquer acusação.
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  — Por que você não me contou? — perguntou, baixo. Magoada.
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  — Porque não tinha o que contar. Foram só dois beijos, um no quarto ano e um recentemente. Um erro. E, sinceramente, nem sei por que isso está virando uma sessão do Wizengamot! — explodi, me levantando da mesa. — A vida amorosa de vocês não vira interrogatório público, então por que a minha vira?
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  — Porque não estamos nos pegando com os possíveis ajudantes do Malfoy! — gritou Rony, vermelho até a raiz dos cabelos.
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  — Eu não estou me pegando com ninguém! — gritei de volta. — Foi um beijo! E ele não me enfeitiçou, nem me manipulou, nem me obrigou a nada! Foi uma droga de momento de confusão, e eu não devia ter que me explicar por isso!
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  — Mas devia — disse Harry, finalmente se levantando também. — Porque isso muda tudo, %Ayana%. Ele não é confiável. E se ele usou você para conseguir informação?
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  — Usou?! — arregalei os olhos, ofendida. — Você realmente acha que eu seria idiota a esse ponto?
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  — Não é isso que ele tá dizendo! — tentou Hermione, tensa, mas estava claro que ela mesma não sabia de que lado ficar.
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  — É exatamente isso que ele tá dizendo! — falei, encarando Harry. — Que eu sou tola. Que eu sou burra. Que eu não sei com quem me envolvo.
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  — Não é isso, %Ayana%… — Ele parecia sem ar. — É que... é Zabini.
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  — E você é o Harry Potter, o escolhido, o herói, o cara que acha que pode julgar todo mundo. Mas não pode. Não pode, Harry.
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  O silêncio voltou. Denso. Cortante.
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  E então eu me afastei, o peito arfando, os olhos ardendo, ignorando os olhares que agora vinham de outras mesas também. A escola toda adorava um espetáculo.
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  Mas eu não olhei pra trás, por um instante, não senti culpa.
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  Senti raiva.
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  Raiva de ter que justificar meus erros mais do que os acertos deles. Raiva de saber que, se fosse com qualquer outro, talvez ninguém se importasse.
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  Talvez ninguém notasse.
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  Mas comigo... sempre era diferente.
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⚡🧙

  A noite caiu pesada sobre Hogwarts. Do lado de fora da torre da Corvinal, o vento sussurrava entre as pedras, como se o castelo inteiro também guardasse seus próprios segredos. Subi os degraus em silêncio, cada passo ecoando fundo dentro da minha mente inquieta.
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  Na sala comunal, alguns alunos ainda conversavam em voz baixa, espalhados pelos sofás e poltronas. Mas bastou eu passar pelo arco para sentir os olhares deslizando na minha direção, não hostis, mas curiosos. Especulativos.
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  — Não foi ela que estavam dizendo que ficou com um sonserino? — uma menina do quarto ano murmurou, rindo baixo.
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  Fingi não ouvir. Fingi que não me importava.
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  Acenei de leve para a Cho, que estava recostada perto da lareira com um livro no colo e um olhar cauteloso, como quem não sabia se devia me chamar para conversar. Desviei da Miranda, adormecida sobre um livro de Feitiços Avançados, e segui direto para o dormitório.
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  Fechei a porta com cuidado, como se o som pudesse acordar algum feitiço adormecido.
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  Sentei-me na beira da cama, os dedos repousando sobre a capa do grimório. Ainda sentia no corpo a tensão do jantar. A certeza do Harry. O olhar da Hermione. A decepção que veio sem que ninguém dissesse nada em voz alta. O ciúme mal disfarçado de alguém que nunca dizia o que sentia, nunca dizia.
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  Respirei fundo.
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  Foi então que aconteceu.
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  Não era sonho. Nem sono.
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  Foi como um estalo — como se o tempo tivesse escorregado por entre as frestas do presente. O quarto escureceu por um instante. E então, diante dos meus olhos abertos, a imagem surgiu:
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  O colar amaldiçoado, flutuando, envolto por fios de luz negra que se entrelaçavam como serpentes. Uma mão estendida, mas o rosto, invisível. Vozes gritando. Uma mulher. Uma explosão de luz prateada. E uma porta. Fechando. Trancando algo por dentro.
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  Pisquei. E voltei.
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  Mas o ar parecia mais frio. A nuca suada. O coração batendo rápido demais pra quem não tinha nem saído do lugar.
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  Aquilo não era só uma premonição. Era um aviso.
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  Me levantei devagar, peguei a varinha e, com um toque leve, abri o grimório, procurando o símbolo. Ele não brilhava, mas estava mais fundo. Como se cada traço carregasse agora um peso que antes eu não sabia nomear.
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  Puxei um pedaço de pergaminho limpo, respirei fundo e comecei a escrever.
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  Mãe,
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  Dumbledore me contou que vocês sabem do meu dom, ele despertou. Sempre senti algo diferente, mas agora está ficando mais forte. Não são apenas sonhos. Nem apenas visões. É como se coisas que não são minhas estivessem tentando me alcançar.
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  Às vezes, vejo imagens, fragmentos de algo que ainda não aconteceu. Às vezes, ouço vozes que não pertencem a ninguém ao meu redor. E tudo parece real demais para ser só imaginação.
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  Não estou com medo, mas estou cansada. Confusa. Sinto como se estivesse carregando uma chave para algo que nem sei onde fica a porta.
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  Você sempre me disse para ouvir a magia. Mas, mãe, ela está gritando. E eu não sei mais como escutar sem me perder no meio.
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  Me ajuda. Por favor. Me ensina a entender isso. Eu preciso de você agora mais do que nunca.
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  Com amor,
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  %Ayana%.
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  Fechei os olhos por um segundo. Selar o pergaminho com um feitiço suave foi quase automático. Coloquei a carta sobre a escrivaninha, pronta para ser levada por uma coruja assim que amanhecesse.
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  Me deitei, mas deixei a vela acesa. E antes de fechar os olhos, pensei:
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  "Algumas maldições não são lançadas. Elas apenas... esperam o momento certo para se revelar."
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  O céu ainda estava em tons de cinza azulado quando deixei a Torre da Corvinal em silêncio, os corredores frios roçando nos meus tornozelos como véus encantados. A maioria dos alunos ainda dormia, e era assim que eu preferia. Sozinha. Em paz. Com o pergaminho dobrado com cuidado entre os dedos, caminhei até o corujal.
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  Subi os degraus de pedra da torre onde as corujas dormiam ou despertavam, sacudindo as asas sob o telhado aberto. Algumas me ignoraram por completo. Outras apenas me observaram, curiosas.
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  — Abeni — chamei baixinho.
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  Ela apareceu quase no mesmo instante, descendo com um voo leve e preciso. Suas penas tinham um brilho perolado, com manchas escuras nas pontas, e os olhos dourado-âmbar pareciam antigos demais para aquele corpo pequeno. Abeni sempre tivera esse ar de sabedoria silenciosa. Como se escutasse mais do que deveria. Como se entendesse coisas que nem eu conseguia nomear.
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  Ela pousou no corrimão de pedra à minha frente, erguendo a cabeça com dignidade.
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  — É pra minha mãe — sussurrei, amarrando o pergaminho à patinha dela com um feitiço leve de proteção. — E leva devagar, tá? Ela precisa de tempo pra ler. E eu preciso de tempo pra respirar.
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  Abeni bicou meu ombro com delicadeza. Depois, com um bater de asas quase cerimonial, levantou voo, sumindo entre as névoas das primeiras luzes do dia.
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  Fiquei ali por mais um momento, observando o céu mudar de cor. Do azul profundo para tons suaves de dourado.
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  “Escuta a magia, filha.”
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  Eu estava tentando, mãe. De verdade.
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  E agora, pelo menos, eu não estava mais em silêncio.
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  Desci os degraus de pedra em silêncio, o cheiro da manhã ainda grudado na pele. A carta já estava nas asas de Abeni, voando em direção à única pessoa que podia me oferecer respostas ou, pelo menos, me ensinar a não afundar nas perguntas.
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  O castelo começava a despertar. As armaduras cochichavam entre si, os retratos trocavam bocejos e acenos, e o Salão Principal já vibrava com o som abafado de talheres e conversas.
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  Depois de deixar a carta para minha mãe no corujal, desci para o Salão Principal. Ainda era cedo, mas o lugar já começava a se encher. Sentei perto da Luna, que comia fatias de pêssego em silêncio, como se estivesse em outro plano de existência — o que, com ela, nunca era surpresa.
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  — Dormiu melhor? — perguntou com a voz leve, sem me olhar diretamente.
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  Assenti com um meio sorriso, apesar da exaustão ainda colada no meu corpo. Ela apenas mastigou mais uma vez, como se entendesse tudo sem precisar de mais palavras. E eu agradeci, em silêncio, o fato de ela não tocar no que todos os outros provavelmente comentavam desde a noite anterior.
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  A discussão com Harry, os olhares no Salão, os sussurros nos corredores… Infelizmente, parecia que tínhamos entregado à escola inteira o espetáculo da semana. E Luna, com sua sensibilidade etérea, soube exatamente o que não dizer.
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  Quando o horário bateu, nos levantamos juntas para a primeira aula do dia: ela, Trato das Criaturas Mágicas; eu, Herbologia. Seguimos lado a lado pelos corredores abertos e pelas escadarias externas, o vento frio da manhã roçando o rosto. O castelo parecia respirar com um silêncio antigo, daqueles que precedem algo que ainda não tem nome.
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  — Hoje Hagrid disse que vai trazer pelúcios — comentou Luna com a mesma serenidade de quem fala sobre flores silvestres. — Eles adoram objetos brilhantes.
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  — Apesar de tudo, eles são fofinhos, né? — murmurei, ajeitando a mochila no ombro.
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  Quando estávamos quase chegando ao caminho que levava às estufas e ao campo de criaturas, uma voz conhecida me chamou:
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  — %Ayana%?
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  Parei no mesmo instante. Gina vinha de uma trilha lateral, os cabelos soltos esvoaçando com o vento da manhã, a mochila pendurada de qualquer jeito.
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  — Oi — respondi, tentando soar natural, mesmo com o estômago virando.
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  Luna parou ao meu lado, observou a cena com seus olhos grandes e tranquilos, e depois disse com um sorrisinho misterioso:
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  — Acho que vou na frente. Os pelúcios me esperam.
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  Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela já tinha se afastado pelo caminho de terra, me deixando sozinha com Gina e com o peso do que eu não dizia. Gina se aproximou devagar.
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  — Eu estava te procurando. — Ela parou de frente pra mim, a voz mais baixa. — Você sumiu esses dias… e eu fiquei pensando se tinha feito algo errado.
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  — Não foi você — respondi depressa demais. — Juro que não.
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  Ela me olhou, o rosto impassível, mas os olhos… os olhos procuravam mais do que as palavras que eu estava dizendo.
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  — É só que... algumas coisas aconteceram. Eu tô tendo visões, Gina. Coisas que eu não entendo completamente, que me deixam esgotada. É como se eu estivesse presa entre dois mundos e...
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  — Isso começou agora? — Engoli em seco.
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  — O quê?
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  — As visões. Essa exaustão. Porque... se for só isso, por que você passou o começo do ano letivo inteiro me evitando?
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  O baque veio como um soco bem aplicado, certeiro, direto, e impossível de desviar.
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  — Não te evitei — disse rápido demais. Ela cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
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  — %Ayana%.
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  Soltei o ar com força, sentindo o peso da verdade que eu ainda não estava pronta para encarar, muito menos pra confessar. E tinha nome e sobrenome: Harry Potter.
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  — Eu juro que não foi por mal. Eu só... precisava de espaço. Pra lidar com tudo. Comigo.
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  Gina me estudou por um instante, depois assentiu, lentamente.
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  — Tudo bem. Mas não precisa se esconder de mim, sabe? Eu não sou seu inimigo.
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  — Eu sei — murmurei, sentindo uma pontada de culpa apertar meu peito. Ela me olhou por um momento que pareceu mais longo do que realmente foi. — Eu senti sua falta — disse, simples assim.
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  — Eu também. — Ela mordeu o canto do lábio, como se ponderasse se devia ou não continuar. — E, olha… só pra constar: não acho que você esteja errada. Sobre o Zabini, quero dizer.
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  Levantei uma sobrancelha, surpresa. Ela deu de ombros, com um sorriso pequeno.
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  — Ele é bonitinho. Arrogante, claro, mas bonitinho. Se eu tivesse um galeão pra cada vez que algum grifinório me julgou por dar uns beijos... bom, eu já teria meu próprio castelo.
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  Ri, aliviada pela leveza.
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  — Você é mais compreensiva do que muita gente.
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  — É que eu sei como é ser mal interpretada.
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  Gina ajeitou a alça da mochila e olhou para o céu, como se estivesse procurando coragem entre as nuvens.
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  — Você vai pra Herbologia agora? — Assenti. — Então… que tal almoçar comigo depois? Com a gente, quero dizer. Com o pessoal da Grifinória. Rony, Mione, Harry…
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  Hesitei. O nome dele ainda parecia latejar.
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  — Acho melhor não — murmurei. — Eu e eles… a gente não tá bem. — Gina franziu o cenho, mas não com julgamento. Apenas tristeza.
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  — Essa briga não vale a pena, %Ayana%.
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  — Talvez. Mas agora… eu só preciso de um pouco de espaço. — Ela assentiu devagar, aceitando.
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  — Então tudo bem. A gente almoça só nós duas. Os outros que se virem. — Dessa vez, meu sorriso saiu mais genuíno.
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  — Obrigada, Gina.
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  — Você não precisa se isolar, tá? Não de mim.
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  — Eu sei.
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  Ela me deu um aceno e se afastou pelo caminho oposto. Fiquei ali por um instante, respirando fundo. O vento continuava frio, mas... doía menos.
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  As estufas estavam envoltas por uma névoa suave quando cheguei, o vidro das paredes embaçado pelo contraste da manhã fria com o calor interno. Lá dentro, o ar era úmido e perfumado, uma mistura de terra molhada, raízes frescas e flores que exalavam magia mesmo sem desabrochar.
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  A turma se espalhava pelas bancadas, e logo percebi que todos os lugares já estavam praticamente ocupados. Andei até o fundo, varrendo os rostos com os olhos cansados, procurando onde me encaixar sem ter que falar muito com ninguém.
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  Foi aí que a vi.
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  Ela estava sozinha ao lado de uma das bancadas centrais — uma aluna da Lufa-Lufa que eu só conhecia de vista. Morena, de pele clara, usava tranças finas e delicadas presas até a metade das costas. O jeito como observava as plantas, com atenção tranquila, me chamou atenção. Tinha uma aura serena, quase... silenciosa.
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  Ela percebeu meu olhar antes que eu perguntasse.
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  — Pode sentar aqui, se quiser — disse, com um aceno de cabeça.
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  — Tem certeza? — perguntei, meio sem jeito.
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  — É isso ou você vai ter que dividir espaço com os tentáculos da bancada do fundo — respondeu, com um sorrisinho.
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  Sorri de leve, mais pelo alívio do que pela piada, e sentei ao lado dela. Pela primeira vez naquela manhã, o ar ao meu redor pareceu não pesar tanto.
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  — Saphira — disse ela, me oferecendo um par de luvas.
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  — %Ayana%.
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  — Eu sei — respondeu com naturalidade, como se isso fosse óbvio. — A professora Sprout fala de você às vezes. E… bom, você não é exatamente invisível. — Franzi o cenho, surpresa.
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  — Isso era pra ser elogio?
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  — Só se você quiser. — E sorriu. Simples assim.
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  Antes que eu pudesse responder, a professora Sprout chamou a atenção da turma com seu entusiasmo de sempre:
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  — Hoje trabalharemos com a Língua-de-Sereia! Planta sensível ao humor do bruxo. Se estiverem nervosos… bem, ela morde.
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  Um burburinho correu pelas fileiras. Saphira me lançou um olhar leve.
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  — Então... melhor respirar fundo, né? — Assenti, calçando as luvas.
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  — É. Vamos manter nossos dedos inteiros hoje.
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  Ela riu, e voltamos nossa atenção para a planta. A Língua-de-Sereia balançava suavemente dentro do vaso, como se estivesse respirando. Suas folhas azuladas pareciam de cristal fino e, à medida que os alunos se aproximavam, emitiam pequenos sons, estalos, como bolhas estourando.
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  A professora Sprout caminhava entre as mesas, explicando:
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  — A planta é capaz de reconhecer alterações de humor. Se sentirem tristeza, ela fecha as folhas. Raiva? Espinhos. Ansiedade? Ela começa a emitir um som parecido com choro. Agora, se estiverem calmos… — ela sorriu — ela canta. Literalmente.
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  Uma das plantas emitiu uma nota suave. Miguel, aparentemente zen demais para o próprio bem, ganhou um “Muito bem!” animado da professora.
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  Saphira olhou para mim de canto.
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  — Já pensou? A planta cantar e alguém desafinar junto. Ia ser o caos. — Soltei uma risadinha abafada, o mais discreta possível.
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  — Do jeito que tô hoje, ela vai berrar.
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  — Então vamos tentar fazer ela cantar. Juntas.
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  Ela estendeu a mão devagar até a planta, sem tocá-la. Os dedos pairaram no ar, a poucos centímetros das folhas. Copiei o gesto, com menos leveza, mas tentando.
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  Ficamos assim por alguns segundos, concentradas. A planta balançou as folhas. Não cantou, mas também não mordeu.
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  — Isso é um bom começo — ela disse, olhando para mim com um sorriso leve. Assenti, ainda surpresa com a sensação de estar... em paz. Ou quase.
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  — Você sempre foi boa com plantas? — perguntei, sem pensar muito. Saphira deu de ombros.
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  — Talvez. Eu cresci com a minha avó. Ela dizia que a terra fala e que a gente tem que aprender a escutar. — Eu pisquei.
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  — Isso parece algo que a minha mãe diria.
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  — Ela também fala sobre escutar a magia?
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  — O tempo todo.
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  — Então talvez elas se conheçam, ou venham do mesmo tipo de sabedoria.
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  A planta, naquele momento, emitiu uma nota aguda. Nada demais, quase como um suspiro musical. Mas foi o suficiente para a professora Sprout sorrir ao longe e fazer um sinal de aprovação. Saphira me lançou um olhar satisfeito.
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  — Viu? A gente não é tão ruim assim juntas. — Sorri de volta.
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  — Fico feliz de não ter saído daqui com um espinho cravado no braço.
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  — Ainda dá tempo — ela brincou, mas o tom era gentil.
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  E ficamos assim. Trabalhando lado a lado. Sem perguntas demais, sem pressa. Só com aquela sensação estranha — e boa — de que, talvez, nem tudo estivesse fora do lugar. Quando a aula acabou, ela começou a guardar o material.
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  — %Ayana%?
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  — Hm?
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  — Se quiser estudar alguma coisa junto depois… ou só não quiser ficar sozinha… — ela ajeitou uma das tranças com naturalidade — me encontra na biblioteca, depois do jantar.
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  Fiquei parada por um segundo.
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  — Tá bem — respondi, com um aceno. — Eu… vou.
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  Ela apenas sorriu de novo. Sem expectativa. Sem pressão.
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  E foi embora.
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  Mas deixou alguma coisa em mim que continuou vibrando, como uma nota que a Língua-de-Sereia não teve tempo de cantar completamente.
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  Nota da autora: Esse capítulo foi um verdadeiro caos emocional embrulhado em feitiços não lançados, né? Tivemos a primeira briga da %Ayana% com o Harry e o trio de ouro, porque ninguém é feito de pedra, e nossa menina tá cansada de ser silenciada, mesmo por quem ela ama. As palavras doeram, as ausências pesaram e os silêncios... disseram muito. 😔
  Mas também foi o capítulo de reencontro. A conversa com a Gina trouxe uma %Ayana% mais vulnerável, mais humana, e nos lembrou que as meninas também precisam se apoiar em tempos sombrios. Essa amizade, do jeitinho torto dela, ainda vai render!
  E é CLARO que eu precisava fechar com um toque de mistério (e tensãozinha boa): Saphira. A aparição dela pode ter sido rápida, mas quem conhece meu jeitinho de escrever já sabe... nada entra à toa nessa história. 👀
  Obrigada por estarem aqui, por sentirem com a %Ayana%, por vibrarem com cada escolha dela, mesmo as erradas. A jornada ainda vai tremer as paredes de Hogwarts, e acreditem: vocês não estão preparados pro que vem aí.
  Com carinho,
  Nyx

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Eu esperando o “date” de estudos com o Ian, aí vem o Harry e caga meu role, vou te contar, viu?
E Harry, admite logo que ficou com ciúmes que tá ficando feio pra você, menino u.u
E como será que vai ser com a Gina depois de tudo, hein? Espero que não seja tão sofrido, apesar de adolescentes sentirem tudo com mais intensidade, né
Na discussão entre os quatro, eu, no máximo fico a favor da Hermione na parte de a Ayana não ter contado nada pra ela porque eu acho que eu ficaria magoada se alguém que eu considero muito amiga não me contasse algo assim, eu ia sentir que a pessoa não confia em mim o suficiente IOASHNDOIASNDP fora isso, acho que o preconceito contra sonserinos precisa acabar! Vou fazer protesto contra isso HAHAHAHAH
E a Luna <3 Ela tem meu coração todinho, amo demais <333333
Agora: Saphira. PRA MIM ela tava até flertando com a Ayana HDASODNASPODNP E EU AMEI. Espero que ela apareça mais vezes pra trazer essas fagulhinhas, adooorooo!

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