Change My Mind


Escrita porLaís Stéfani
Revisada por Bella


4 • Para enfrentar o futuro, a melhor dica é fechar os olhos

  Então, eu estava tomando meu chocolate quente no telhado, olhando o céu quando uma abelha veio pousar bem no meu ombro. Comecei a me debater e quando abri os olhos outra vez estava atirada no gramado em frente à minha casa.   Eu pedi que meu pai não me levasse para o hospital, porque tirando a dor nas costas, na cabeça e no pulso eu estava bem. Mas adiantou? Não, não adiantou. Ao que parece ele pensou que eu estivesse com uma costela quebrada, que podia perfurar meu pulmão e me matar a qualquer momento; era só um mal jeito, mesmo. E assim guardei mais algumas cicatrizes para o primeiro item dessa história toda: aquelas tragédias que me trouxeram até aqui.
  Fato é que nos dias que se passaram depois disso, até meu pulso voltar ao normal, meu pai me deixou praticamente de quarentena em meu quarto; ninguém entra, ninguém sai, nem a maldita abelha. Então, fiquei sem ver meus amigos, só comendo sorvete e pipoca e olhando filmes antigos (porque tenho paixão por qualquer coisa antiga).
  Quando finalmente pude sair, depois de muito incomodar meu pai em uma sexta feira à noite, fui para o lago do parque. Foi a primeira coisa que pensei em fazer, afinal Monica provavelmente estava trocando saliva com alguém na sexta feira à noite.
  Fui até o parque e dei quase uma volta inteira sentindo a brisa gostosa de verão soprar meus cabelos, quando avistei alguém conhecido; os cabelos cacheados eram inconfundíveis, é claro. Ele estava debruçado sobre a ponte olhando para a água, e só percebi o que ele estava realmente fazendo quando cheguei mais perto. Harry estava com um buquê de rosas mistas e uma tesoura de poda, cortando todo o caule das flores e jogando-as na água para que flutuassem em meio aos patos que ali nadavam.
  Parei ao seu lado, e ele me olhou.
  - Oi – disse e ele sorriu para mim.
  - É bom te ver.
  - É bom te ver também. – sorri de volta. Levantei meu pulso. – Meu pai finalmente deixou eu sair.
  - Ah, é ótimo ver que você melhorou.
  - É... - O silencio voltou e fiquei ouvindo o barulho dos patos.
  - O que está fazendo?
  - Ah... sobraram essas flores hoje, e... – ele apontou com o queixo para a água, agora cheia de flores flutuantes com os botões bem abertos, se espalhando por ali, criando uma vista bonita; até romântica. – Acho que será uma bela vista para quem passar aqui amanhã.
  - Você está certo, é uma vista linda, até mesmo de noite.
  - Não se compara com as suas estrelas, aquelas que você gosta de olhar em seu telhado.
  - Gostava. O telhado agora é proibido para mim ao não ser que eu convença meu pai a colocar uma tela lá em cima, ou um trampolim lá embaixo. - Harry riu e eu o acompanhei. Então, voltamos para o silêncio. Decidi que estava ficando tarde, e se eu não falasse tudo o que queria dizer desde o baile logo meu tempo se esgotaria. Acho que ele pensou o mesmo, pois falou meu nome no mesmo momento em que eu falei o seu e nos olhamos.
  - Fala!
  - Não, fala você!
  - Eu falei primeiro.
  - Por isso mesmo.
  - Harry, vou socar você.
  - Tudo bem – ele suspirou. – Eu não gosto da Mo, se é o que você pensa, não, e aquele beijo não significou nada, absolutamente nada. Ela é minha amiga, e só. Assim como...
  - Assim como eu. – falei, um pouco alto demais. Me assustei com como minha voz saiu forte. – Assim como eu sou só sua amiga. Porque... eu não sei o que me fez pensar que talvez eu fosse mais. Porque eu sou...
  - Elizabeth – ele me olhou, chateado. – Cala a boca e me escuta! - Olhei-o, surpresa, mas fiz o que ele disse. - Monica é minha amiga assim como você era, era, no passado, logo que te conheci. Porque depois de algum tempo, eu... você... – ele balançou a cabeça, incapaz de achar as palavras. – você é como uma flor. – ele abaixou a cabeça para a última rosa que segurava na mão. – É linda e delicada, apesar de cobrir isso com algumas camadas de proteção. - Olhei para baixo, acompanhando seus movimentos, e à essa altura meu coração estava batendo em minha garganta.
  Harry segurou o caule com cuidado, para não se cortar com os espinhos, e arrancou-os, um por um.
  - Eu sei tudo ao seu respeito, e você é a única coisa que me chama a atenção. – olhou-me e só o que consegui fazer foi encará-lo também.
  - Mas o beijo...
  - Eu só beijei-a porque a garota do encontro estava me procurando e eu não consegui achar você a tempo. Acredite, eu queria ter achado. - Sorri e olhei para baixo, mas ele levantou meu rosto no mesmo minuto. - Porque sempre foi você que eu quero. – Harry disse e aí ele finalmente se achou no direito de me beijar.
  Até que enfim!
  Meu corpo se arrepiou ao toque dos seus lábios, mas aquilo me pareceu natural. Eu correspondi ao beijo e o frio na minha barriga só fez aumentar, mas o nervosismo passou, porque aquilo parecia a coisa certa a fazer naquele momento. O beijo, eu quero dizer.

  Depois daquela noite, nenhum acontecimento merece uma atenção especial. Harry e eu caminhamos até a minha casa de mãos dadas, em nosso silêncio confortável, fazendo comentários sobre algumas coisas sem importância. Eu me sentia feliz, e sei que ele também. Ele me deixou na porta de casa, com um quase beijo que foi interrompido por meu pai que estava espiando pela janela.
  Pelo resto da noite, como já era de se esperar, eu fiquei pensando naquele beijo e em tudo que poderia mudar a partir de agora, mas não tive medo. Isso é, até receber a visita do carteiro no dia seguinte, bem cedo.
  Não consegui nem sequer chamar meus amigos. Eu só sentei ao lado de meu pai e nós abrimos juntos, com cuidado, espiando para dentro do papel assim que o desdobramos o suficiente. E lá estava a palavra. Não era Oxford, e nem Cambridge. Era London University of Arts, era Londres,e grande capital! Em um segundo, um número infinito de possibilidades para o futuro passou em minha cabeça. Meu futuro, minha profissão, minha felicidade, meus sonhos, o mapa para tudo o que eu viveria de agora em diante estava ali, naquele papel. Era Londres!
  Meu pai me abraçou e parabenizou um milhão de vezes e começou a fazer mais planos do que eu conseguia acompanhar, mas fiquei feliz pela sua felicidade.
  E daí em diante, os dias passaram como borrões. Em algumas semanas, eu estava empacotando minhas coisas, e quando percebi já era hora de entrar no carro e dizer adeus à minha cidade e ir para a universidade; com o maior frio na barriga que eu já sentira na minha vida.
  - Eu vou sentir t-tant-to a falta de voc-cês! – Monica se afogava em lágrimas, abraçando-nos e beijando-nos a cada dois segundos. Harry só conseguia rir dela, enquanto eu tentava desgrudar de seus abraços sufocantes. – Somos os três mosqueteiros, nós não p-podemos nos separar, vocês... vocês têm que me prometer...
  - Ei, garota, calma. – Harry disse, limpando umas lágrimas da bochecha dela. – Escuta só, Londres, Cambridge e Oxford ficam há apenas duas horas de distância. Nós vamos nos ver seguidamente, isso é uma promessa.
  - Tudo bem. Se você quebrar, eu mato você e penduro sua cabeça naquela fachada horrível da floricultura. - Ele ri e eu o acompanho.
  - Ok, mas oi, sou eu que estou indo embora aqui, e não você. – empurro-a de leve, e ela me abraça de novo.
  - Eu sei. Bom, já te abracei e beijei o suficiente. Vou deixar marcado na minha agenda para nos encontrarmos em Londres daqui a duas semanas, exatamente, nós três. Sempre vai ser assim, ok? De duas em duas semanas no máximo. E se você se atrever a não atender o telefone, eu penduro a sua cabeça lá em cima também.
  - Tudo bem, Graxa. – rio e beijo sua bochecha de novo.
  - Ok, agora eu preciso ir. Tenho que terminar de arrumar minhas coisas, porque eu vou amanhã, e não quero te ver entrar nesse carro de jeito nenhum. Beijo. Eu amo você. - Ela acenou e foi se afastando. Acenei de volta, com uma pontinha de dor no coração.
  Eu e Harry nos olhamos, e meu pai entendeu que era hora de um pouquinho de privacidade e foi buscar algumas coisas dentro de casa.
  - então... – ele colocou as mãos no bolso e olhou para o chão. – É isso. – olhou de volta para mim, com um sorrisinho um tanto triste.
  Eu podia ser mais forte do que Monica, mas definitivamente não era mais forte do que Harry. Corri até ele e o abracei com força, cercando meus braços na sua cintura e encostando minha cabeça em seu peito com força, não querendo sair de lá.
  Ele me abraçou também, segurando todo o meu corpo contra o dele com total facilidade, e beijou o topo da minha cabeça. Ficamos assim por um minuto, e então eu me afastei para olhar em seu rosto. Harry se surpreendeu ao ver uma lágrima em meu rosto e a limpou com o polegar; e eu também me surpreendi porque não havia percebido. Limpei meu rosto, meio envergonhada, e ele segurou-o nas mãos e beijou minha testa com carinho.
  - Você não precisa ficar minimamente preocupada. Ouviu a rainha do drama ali, nós vamos nos ver de duas em duas semanas. - Ri em meio ao choro, e concordei com a cabeça.
  - E se...
  - Não. Eu não vou achar ninguém melhor do que você, até porque em todos os anos de amizade isso nunca aconteceu, e não vai ser agora que acontecerá. Pode ter certeza, o meu coração é seu, Lis. - Eu ficava impressionada com o quanto ele conhecia cada vírgula de expressão que eu expunha. Ele sabia até o que eu estava pensando antes de falar, ele me lia como um livro aberto, e minha mente se enchia de arrependimento toda vez que pensava em quanto tempo eu perdi vendo-o apenas como amigo. Mas eu confiava em Harry e se ele dizia que tudo ficaria bem, é porque ficaria.
  - Eu vou sentir muito a sua falta, não vai ser o mesmo sem você.
  - você vai se acostumar, eu sei que vai. – ele disse, tirando algo do bolso de trás da calça, era uma daquelas Gardênias bem pequenas, brancas e com um cheiro maravilhoso. Harry prendeu-a em minha camisa xadrez e colocou uma mecha de meu cabelo atrás da orelha. Beijou a ponta do meu nariz, e depois minha boca, demorando um pouco mais alí. - Gardênias significam agradecimento. Obrigado por ser a melhor pessoa que eu poderia ter como amiga.
  - Cala a boca, isso vai parecer uma despedida. – pedi, com a voz falhando.
  Ele riu e depois de outro beijo rápido, se afastou quando meu pai voltou para guardar a última caixa no porta malas.
  Harry abriu a porta do carona para mim e eu entrei. Ele fechou-a e deu alguns passos para trás, ainda sorrindo para mim, para me tranquilizar.
  Meu pai entrou no carro também e colocou o cinto, e então deu o arranque. Harry me deu tchau, e correspondi, respirando fundo. Lá vamos nós!

  Me instalei em meu quarto, conheci minha roommate, meus professores, minhas aulas, os calouros, os novatos, fui em festa de boas vindas, em festas na fogueira, em festas de comemoração de inicio de aulas, em varias outras festas e por alguns dias eu fiquei tão ocupada que não consegui pensar em quase nada. Falava com meu pai uma vez por dia e conversava com Mô e Harry por mensagem.
  Na segunda semana, Mônica desmarcou porque tinha um teste em uma aula mais avançada do que ela podia participar, mas queria muito entrar. Quando perguntei a Harry se ele viria, ele apenas respondeu:
  “Vou encontrar uma garota x”.
  E eu juro que foi isso, só isso, nem para mentir ele prestou. Ele só falou isso, e não mandou mais nada. Até pensei em perguntar, em tirar satisfação, em demonstrar interesse, brigar, sei lá, qualquer coisa, mas nem consegui pensar no que dizer. Eu me senti estúpida demais.
  Terminei de tomar meu café na cafeteria do campus e fui a passos rápidos para meu quarto, sem cabeça para conversar com ninguém. Cruzei com minha roommate e nós batemos nossos ombros sem querer.
  - Foi mal – falei, já virando para frente outra vez.
  - Ah, Lis – ela chamou e eu olhei. – Tem uma coisa para você lá na porta do nosso quarto.
  - Uma coisa? – olhei-a, confusa. – Que coisa?
  - Ah – ela deu um tapinha no ar e foi se afastando. – Só um buquê de flores e um cartão. - Arregalei os olhos e meu sangue gelou. No mesmo segundo, comecei a correr.
  Fui até meu quarto, e quando cheguei lá eu já estava cansada e ofegante. Olhei pelo corredor ao ver o buquê, mas não havia nada nem ninguém. Então eu me abaixei e peguei-o com cuidado, eram rosas vermelhas, em perfeito estado, e no segundo em que o aroma chegou até mim, era como se eu sentisse o perfume de Harry. Fechei os olhos por um momento, sentindo o cheiro, e puxei o cartão. O abri com o dedo e li a caligrafia que eu já conhecia:
  “Sorria, alguém te ama...
  E esse alguém sou eu.”

  O sorriso nasceu em meus lábios e abri a porta do quarto, entrando nele sem de fato prestar atenção a nada que não fossem as flores.
  - Pensou mesmo que eu não vinha? - Sua voz me assustou um pouco, e ao olhar para minha cama lá estava ele, a Gardênia na lapela do blazer e os cabelos para trás, bem como no dia do baile; lindo, com os olhos verdes quase azuis e o sorriso de canto maravilhosamente iluminador. Corro para abraçá-lo, e ele me abraça também me levantando do chão. Me beija, mas outra voz interrompe o momento:
  - Chega, sem demonstração de afeto assim na minha frente, seus nojentos! - Me afasto de Harry e vejo Mônica sentada na cama de minha colega de quarto, com os braços cruzados.
  - Mô! – corro até ela e a abraço. – Vocês me enganaram! Eu me senti horrível, seus monstros!
  - Era lógico que a gente vinha. Você já viu eu não seguir minha agenda fielmente alguma vez na sua vida? - Ri para ela e Harry se aproximou de nós duas.
  - E você já me viu quebrar alguma promessa?
  - Tudo bem, vocês venceram, mas nunca mais, nunca mais façam isso comigo! – ordeno, sorrindo.
  - Nós sempre vamos estar aqui, Lis. Somos os três mosqueteiros. - E assim, com um abraço em grupo e algumas risadas, me sinto completa. Não importa o que o futuro reserva, porque eu tenho meus amigos. Somos um por todos, e todos por um!

FIM

4
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Todos os comentários (0)
×

Comentários

Você não pode copiar o conteúdo desta página

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x