3 • Provando um sentimento novo pela primeira vez
- Mas que droga, pai... – me contorci quando meu pai enfiou a agulha pela décima oitava vez na pele da minha cintura. – Desiste disso, você não sabe costurar!
- Tudo bem, eu acho que já está bom assim. – meu pai se afastou e me ajudou a descer do banquinho em que me encontrava. Ele puxou e mexeu em meu vestido mais algumas vezes, até que enfim achou bom o suficiente. Sim, como minha mãe fugiu da responsabilidade de ter uma filha, meu pai precisou aprender a fazer os dois papéis, o que significava ajudar a filha com o vestido da festa de formatura também. Virei para o espelho e dei uma boa olhada. E não é que ficou bom mesmo?
- Está ótimo assim, muito obrigada.
- Eu disse que ia conseguir, não disse? – ele falou, empurrando os óculos de leitura mais para cima e guardando seus “equipamentos”. É claro que na maquiagem mesmo que ele tentasse não saberia ajudar, ao não ser que eu quisesse aparecer no colégio com tinta de tecido na cara ou algo assim, sei lá. Então Mô já havia providenciado essa parte, passando mais cedo lá em casa e fazendo seu melhor em meu rosto. Depois, ela foi para casa preparar a si mesma para ir com seu namoradinho novo ao baile.
Depois de pronta, com meu vestido branco com as costas rendadas (que pertencia a Mô também, porque os vestidos que eu tinha eram velhos por só serem usados quando íamos para a fazenda de meu tio), meu pai me forçou a tirar uma foto, afinal, que pai não faria isso? Principalmente o meu, que é o mais coruja do mundo, mas tudo para deixá-lo feliz. Depois, ouvi um discurso sobre precaução, mesmo ele sabendo que eu iria com Harry e conhecendo Harry tão bem quanto conhece Monica. Aí, ele disse que esperava que eu voltasse cedo para casa e graças a Deus a campainha tocou.
Eu mesma atendi, e atendi a tempo de ver Harry tentar ajeitar a gravata no pescoço. Assim que me viu, ele parou e tratou de sorrir.
- E aí – falou, parecendo meio sem jeito.
Gostei do jeito que o cabelo dele ficava quando era todo colocado para cima daquele jeito. Além disso, ele tinha uma pequena rosa na lapela do blazer azul marinho, e segurava um corsage com uma rosa bem delicada na mão. Ofereceu-o a mim e eu estendi minha mão para ele.
- Eu nunca fiz isso antes, mas... a flor é de verdade. – ele disse, abrindo a pulseira e colocando-a no meu pulso. Corsages tinham basicamente o significado de “ela já tem dono” e gostei disso, apesar de ser apenas uma tradição boba, é claro.
- Gostei do seu cabelo – comentei quando saímos da porta da minha casa, com um breve tchau a meu pai.
- Obrigado. Eu também gostei do seu. – ele falou, puxando a gravata outra vez e passando os dedos dentro do colarinho. Sorri. – Me desculpa, não temos uma limusine, mas temos o carro da minha mãe – ele falou.
- Ah, Harry, tudo bem, que bobagem esse negócio de limusine. Nem esquenta! - Entramos no carro e Anne nos deixou no portão da escola, avisando que viria nos buscar assim que ligássemos.
E então, a festa começou.
Monica era minha melhor amiga e nos conhecíamos a mais tempo do que eu conhecia Harry, mas, pensando bem, eu sempre acabava sozinha com Harry, porque ela quase sempre estava com um garoto, e eu odiava ficar de vela. E nesse dia não foi muito diferente. Sentamos todos na mesma mesa, ouvimos todos os professores fazerem discurso, e depois dessa chatisse toda a festa começou. Havia uma banda ao vivo, onde reconheci aquele punk que conversou com Harry e mais três garotos também do colégio. Começaram cantando Summer of 69’ e eu sabia o quanto Harry adorava aquela música, então dançamos juntos e conversando bobagens por um tempo.
Já fazia alguns dias que eu havia começado a ponderar ver Harry com outros olhos, e agora não conseguia mais parar. Eu começara a notar detalhes que nunca havia visto antes, como o jeito como ele passa os dedos nos lábios fazendo-os ficarem vermelhos em contraste com sua pele branca, como eles são rosados naturalmente, o jeito como seus olhos verdes brilham quando ele está mexendo com flores, por causa do aroma, ou como ele sempre tinha um cheiro delicioso de rosas mesmo nem estando perfumado.
Eu não gostava de segredos ou situações mal resolvidas, então por mais que aquela situação não estivesse desconfortável e nem nada, eu me sentia cada dia mais inquieta com a vontade de falar para ele sobre essas coisas.
- Harry... – chamei-o, quando paramos para beber um ponche na mesa do ponche e ele ficou olhando para a pista de dança, encostado na parede.
No mesmo segundo, seus olhos foram parar em mim.
- Hum? - Tomei um gole da minha bebida, porque, na verdade, eu não tinha ideia do que falar. Então, antes mesmo de poder pensar, a música mudou e ele soltou seu copo na mesa, se aproximando de mim.
- Você tem que dançar comigo. - Fiz que sim com a cabeça e mal tive tempo de soltar meu copo também antes de ele me puxar pela mão até a pista.
A música era calma, então ele envolveu minha cintura e me abracei em seu pescoço. Harry era tão alto, que minha cabeça ficava encostada no meio do seu peito.
- Você tem um cheiro bom. – eu disse, encostando a cabeça ali.
- Eu trabalho em uma floricultura. – ele riu.
- Eu sei – sorri. – Eu só queria que soubesse. - Ele ficou quieto por um segundo, enquanto nos balançava de vagarzinho para os lados.
- Você tem mãos bonitas. - Ótimo, eu tenho mãos bonitas, nada de um cabelo macio, ou uma pele legal, ou até mesmo um sorriso mais ou menos, eu tenho mãos bonitas. O que diabos isso significava? O que ele fazia olhando para minhas mãos? E por que eu ligava tanto para isso de uma hora para outra?
Tratei de me acalmar, e dancei o resto da música antes de avisar que ia ao banheiro - Mô ordenou que eu fosse de meia em meia hora me certificar de que o lápis de olho não estava escorregando para a pele debaixo dos meus olhos, então eu achei melhor obedecê-la e fui ao banheiro tratar disso. Fui até lá, limpei a maquiagem borrada com papel toalha e arrumei melhor o vestido.
Voltei para a festa pegando outros dois ponches para nós podermos beber em algum canto, porque aquilo era muito bom. Procurei por Harry olhando em volta, mas não o achei, então dei uma volta pelo meio da pista. O achei bem rapidamente, enfiando a língua na garganta de Monica, lá no meio de todo mundo.
Eu não sei o que me deu, mas o ponche em minhas mãos resolveu pular para a roupa da garota ao meu lado, e em questão de segundos saí batendo os pés de lá de dentro e xingando até a vigésima sétima geração de Harry Styles em alto e bom som. A revolta que senti não podia ser explicada. Eu podia até admitir a mim mesma que talvez tivesse criado uma pequena quedinha por Harry nos últimos dias, porque negar seria hipocrisia, mas vê-lo beijar nossa melhor amiga era a coisa mais revoltante que existia.
Senti vontade de bater nela, como fiz quando ela quebrou meu braço na segunda série. Mas que droga! Monica podia ficar com mil caras, mas Harry? Justo o Harry?! Nosso amigo, aquele do qual ela disse que estava afim de mim? E ela não estava feliz lá com seu namorado do dia? Então por que raios ela foi beijar logo o Harry? E por que ele estava correspondendo?! Ele devia gostar de mim! Pronto, é isso! Harry devia gostar de mim, e não de Monica. Ela era mais bonita, mais feminina, mais “gostável”, mais tudo; ela com certeza era melhor do que eu. Mas eu o conhecia muito melhor; e ele demonstrava sentir alguma coisa às vezes.
Saí de dentro do ginásio e sentei na ponta da calçada que o cercava, decepcionada demais com o curso que a noite levara. Fiquei bufando algumas vezes com raiva até de mim mesma e resolvi ligar para meu pai. Ele disse que chegava em cinco minutos, apesar de eu ter dito que Anne nos levaria para casa. Esperei até que ele me ligasse avisando que chegou, e então levantei e comecei a andar até o estacionamento lotado de carros.
- Lis? Você está indo aonde?A festa só está ficando boa agora! – ouvi a voz de Harry atrás de mim e apressei o passo.
- Não estou me sentindo bem.
- Você pode esperar eu ligar para minha mãe, pelo menos? – ele levantou o tom de voz e tentou me acompanhar, andando mais rápido.
- Já chamei meu pai, Harry.
- Lis, espera aí! – ele correu e segurou meu braço. Virei-me para ele e o encarei. – O que está acontecendo? Eu fiz alguma coisa que você não gostou? A festa estava ótima, achei que estivesse se divertindo; eu estava.
- Eu vi que você estava. – me afastei um passo dele. – Metendo a boca na Mônica. - Harry entendeu o que havia de errado naquele momento e soltou o ar, se aproximando de novo de mim.
- Lis, não é isso. Eu só beijei ela...
- Eu vi. – falei, e ele parou para olhar-me por um tempo, sem dizer nada. – Olha, quer saber? – dei um tapinha no ar, cansada de esperar que ele explicasse qualquer coisa. Não havia explicação, ela era melhor e ponto. – Esquece!
- Lis, volta! Por favor, Lis. – ouvi sua voz, ainda parada no mesmo lugar, me chamar, enquanto eu voltava a caminhar para o estacionamento. – Mas que droga você, Elizabeth! – gritou quando eu já estava longe demais para voltar.
Entrei no carro de meu pai com o choro na garganta. Ele foi esperto o suficiente para não fazer perguntas, então só fomos para casa e subi para meu quarto, me trancando lá e colocando meu pijama.
No outro dia, acordei um pouco menos irritada com tudo aquilo. Nada melhor do que uma boa noite de sono, mas eu ainda estava profundamente desapontada com Harry e comigo mesma, por ter acreditado que aquilo daria em algo. Graças a Deus eu nem cheguei a falar nada para ele, garanto que Harry era apaixonado por Monica há anos.
Peguei uma xícara de café preto e subi para o telhado, por meio da pequena janelinha no sótão. Fiquei sentada lá, olhando para a rua e para meu bairro e aproveitando de minha paz, silêncio e o meu café amargo, até levar uma pedrada na cabeça.
- Mas que porra... – passei a mão na testa onde a pedrinha pegara e olhei para baixo, para o chão.
- Foi mal! – Harry levantou as mãos, fazendo uma careta. – Era para acertar na janela. - Olhei para a janela, a uns dez metros de mim, e estreitei os olhos.
- Será que você pode descer? Eu tenho que falar com você, é importante. - Ponderei fazer aquilo, mas eu realmente não estava com vontade.
- Você sabe como subir.
- Lis...
- Ou sabe o caminho de casa. – disse, sentando fora de sua linha de visão outra vez e bebendo meu café.
Ouvi Harry bufar e a porta da frente de minha porta ser aberta. Em dois minutos lá estava ele, se espremendo para passar pela janelinha do sótão. Harry escorregou na telha e quase foi parar lá no chão outra vez, mas sentou ao meu lado sem nenhum arranhão.
Ficamos quietos por um tempo, mas eu me recusei a falar uma sílaba. Se ele queria, ele que falasse.
- Olha, Lis, você entendeu errado quando...
- Gente! Gente! Gente! Ai meu Deus, Gente! Gente! Desçam! Agora! – Mônica veio gritando pela rua até parar no gramado da minha casa pulando e balançando uma folha no ar enlouquecida. – Eu consegui! Minha carta, eu consegui! Ela chegou! Cambridge! Eu vou para Cambridge! - Eu e Harry nos olhamos e levantamos na mesma hora para descer até Monica. Ele saiu primeiro e depois eu passei pela janela e nós descemos as escadas correndo. Harry escancarou a porta e foi correndo para um abraço em Monica, levantando-a do chão com seus braços enormes. Fiquei parada ao lado dos dois, me sentindo uma palhaça, enquanto ele dizia uns “parabéns, baixinha!”, que eram abafados pelo cabelo dela. Depois que se largaram, eu a abracei também.
- Cambridge, Mô! Isso é ótimo!
- Eu não estou acreditando! Minha mãe está gritando para a vizinhança toda – ela disse, rindo e recuperando o fôlego com a mão no peito. – Ai, meu Deus.
Pelo resto do dia, só o que fizemos foi parabenizar Monica e falar em faculdade; e pela primeira vez comecei a me sentir nervosa com isso, eu não queria me separar de meus amigos, mas com certeza não seria aceita em Cambridge.
Os dias se passaram. Mônica pediu que eu e Harry a ajudássemos a fazer uma última decoração no colégio e nos ocupamos com aquilo. Eu e Harry não tivemos um tempo sozinhos depois daquilo, porque íamos cedo para a escola e saíamos de lá cansados, então mal nos víamos. Como eu era boa em pintura, pintei um enorme buquê de rosas vermelhas na parede do saguão, que era o que nos pediram para enfeitar. Rosas, porque eram nossas flores preferidas, minha e de Mo, e flores, porque... bem, Harry.
E assim, depois que terminamos e recebemos nossas congratulações, logo a carta de Harry chegou.
- Eu estou nervoso – ele disse e pude perceber que sua respiração estava acelerada.
- Anda logo, abre rápido como quem tira um curativo! – Monica falou e me debrucei sobre a mesa com ansiedade. Ele respirou fundo e abriu o envelope, abriu o papel e leu brevemente, depois olhou-nos.
- Oxford. - Eu e Mo nos olhamos e soltamos um grito.
- Meu Deus, Oxford, Oxford, Harry, Oxford! Você entrou na Oxford! Isso é maravilhoso! - Nós duas levantamos e pulamos em cima dele para um abraço em grupo. Eu estava tão feliz por meus amigos, mas meu coração estava apertado. Estávamos nos separando. Tudo bem, de Oxford a Cambridge eram apenas duas horas de viagem, mas e se eu fosse parar, sei lá, em Manchester, Liverpool ou algo assim? Era longe! Além disso, eu não conseguiria nada em Cambrigde e muito menos Oxford, eles eram os nerds e não eu.
O problema era que um mosqueteiro sozinho não completa uma equipe.