2 • Os tombos que me trouxeram ao presente
Quando Deus me inventou, deve ter pintado um alvo bem no meio da minha testa, porque em questão de tragédias, eu tenho até Phd. Afinal, foram elas que me transformaram no que sou hoje e que me trouxeram tudo que tenho na vida.
Foi quebrando meu braço que eu e Monica nos conhecemos, e desde então somos melhores amigas. Estávamos no ginásio, eu tinha nove anos e subi em uma árvore alta para espiar para dentro das salas de aula pela janela. Cheguei perto demais do vidro, e Monica, que estava estudando naquela sala, abriu a folha da janela, batendo em mim e eu caí. No outro dia, eu arrumei briga com ela no recreio e acabamos indo parar na direção. Depois, ela disse que podia enfeitar meu gesso se eu quisesse e eu aceitei, e depois disso a gente nunca mais se separou.
No quesito de “quebrar partes do corpo” eu sempre ganhava. Já quebrara o pulso por bater em uma porta de vidro, já ficara dias sem conseguir levantar por ter pisado em uma casca de banana no refeitório do colégio e já apanhara de uma menina três vezes maior do que eu por ter jogado meu suco na blusa dela. Eu tinha diversas cicatrizes por ter jogado uma pedra em uma cachopa de abelhas, ter quebrado a janela da sala de aula com uma bola de bilhar e pisado nos cacos de vidro, entre outros. Eu tinha cicatrizes em cada parte do meu corpo, e era por isso que Harry sempre dizia que estava tentando manter meus dedos seguros - ele sempre cortava os espinhos de flores antes de dar a mim ou a Mô, para que não nos machucássemos.
Sobre Harry, eu o conheci durante um incidente na rua. Estava correndo para alcançar o ônibus, e ele vindo da direção contrária com um balde de tinta fresca para pintar a fachada da floricultura de sua mãe. E... e aí, de algum jeito, meu pé acabou dentro do balde e a tinta toda em cima dele. Como esperado, depois desse dia, nos encontramos mais algumas vezes e aí ele mudou de colégio e foi parar na minha sala. No início, ele tinha medo de mim, você sabe, por eu poder machucá-lo sem querer como eu sempre fazia quando nos víamos, mas depois de alguns “façam duplas” em que nós sempre sobrávamos, acabamos nos tornando amigos.
Minha mãe deixou a mim e ao meu pai logo depois que eu nasci, então aquela parte delicada de todas as meninas, que elas geralmente aprendem com as mães, faltou para mim.
- Aí, você quer matar o último tempo?
- Temos oratória, né? – Harry me olhou. - Fiz que sim com a cabeça; estávamos tomando um sol no lado de fora do ginásio enquanto o pessoal jogava queimada na educação física, geralmente éramos “acidentalmente” os primeiros a sair do jogo, que podia durar um bom tempo.
- Tudo bem, eu acho que não vamos perder nada importante mesmo.
- É...
- Como vamos pegar nossos materiais?
- Vivi disse que a Cláudia deixou a porta aberta para as mulheres da limpeza entrarem. Vamos lá, e a gente descobre! – dei de ombros.
- Não me parece uma boa ideia.
- Então fica aí – fiz careta e levantei, indo para dentro do prédio.
Harry me seguiu e, como eu planejava, a porta estava aberta e ninguém nos viu pelos corredores depois que saímos. Esperamos o sinal tocar perto do portão, e nos misturamos com as garotas do reaproveitamento de estudos, que sempre saíam a essa hora. Depois de já fora do colégio, nós só precisamos pensar por um tempo em para onde ir. Decidimos ir para a lagoa do parque.
Ao chegarmos lá, por ser um horário calmo, quase ninguém caminhava por lá com exceção de alguns cachorros com seus donos, fomos para debaixo de uma árvore perto da água e joguei minha mochila em cima dele para ir pegar umas pedrinhas e jogar na água.
- Você sabe fazer ela picar?
- Algumas vezes, quer ver? – ele se levantou e procurou uma pedra redonda o suficiente para jogar na água. Escolheu uma e arremessou-a; contamos juntos ela picar três vezes na água antes de afundar.
- Aposto que consigo mais. - Peguei uma também e fiz igual a ele; a minha picou quatro vezes. Ele riu, e então pegou outra.
- Um, dois, três, quatro... cinco! Bate essa, Lis! - procurei por uma pedrinha chata o suficiente para picar várias vezes, mas não achei nenhuma na areia da borda da lagoa, então subi em um tronco grande de árvore, que entrava água adentro, para não molhar os pés, e conseguir pegar uma dentro da água onde ainda era raso. Caminhei em cima dele e me abaixei quando achei a pedra ideal. Peguei-a e virei-a na mão algumas vezes.
- Observe e aprenda, Styles! - Quando fui jogar a pedra, porém, algo deu errado e coloquei tanta força em meu arremesso que perdi o equilíbrio.
Meu corpo virou e caí de costas na água, molhando toda a minha roupa mesmo sendo num lugar onde a água pegava em minha canela. Só pude ouvir a gargalhada de Harry ecoando em alto e bom som para todo mundo ouvir. Ele nem se preocupou em me ajudar, só conseguia colocar as mãos na barriga e se curvar de tanto rir de mim.
Levantei sozinha mesmo, e saí da água me sentindo gelada e irritada. Como sempre, esses pequenos acidentes eram comigo mesma.
- Droga, para de rir, palhaço! – reclamei e empurrei-o, abraçando meus próprios braços. – Mas que droga, Harry, é tudo culpa sua! – peguei minha mochila e fui andando; ele me seguiu ainda rindo.
- Foi ideia de quem matar aula, para começo de assunto? E quem decidiu vir para o parque? E quem foi que começou a jogar as pedrinhas? – ele me cutucou e riu mais. Revirei os olhos, mas não pude evitar sorrir também.
- Foi engraçado, mas não precisa tudo isso.
- Você não viu a cena como eu vi. - Eu ri um pouco com ele, e fomos tomando o caminho de casa devagar.
- Pega aqui o meu moletom e coloca em você, ou vai pegar uma gripe daquelas! – ele disse, tirando um moletom grosso e grande de dentro da mochila. Peguei-o sem pestanejar e coloquei, sentindo o frio diminuir na hora.
Andamos um pouco em silêncio, enquanto ele ainda tentava se livrar da crise de riso.
- Aí, Harry – olhei-o, e ele me olhou também. – Você não sente vontade de estar com alguém especial às vezes? -Ele olhou para frente e deu de ombros, se equilibrando em cima do pequeno cordão da calçada com seus converses brancos nos pés.
- Às vezes sim, mas aí eu olho em volta e me lembro do porquê de não estar com ninguém. As pessoas de hoje em dia são muito vazias, só se importam com futilidades e não sabem de verdade o que é amor, então, acho que não preciso ficar com alguém que não significa nada para mim. Eu posso esperar por alguém melhor, certo?
- É, eu acho o mesmo, mas, tipo, a Mô parece se divertir bastante.
- A Mô não vê as coisas como nós dois vemos. – deu de ombros outra vez e eu concordei com a cabeça. - Você está ansioso para pegar sua carta?
- E quem não está, além de você? - Ri.
- Eu acho que me esforcei bastante, e, seja o que for, vou saber fazer valer a pena.
- Eu gosto da sua confiança, sabia? É uma das coisas que mais admiro em você. - Sorri para ele e voltei a olhar para o cordão onde eu também estava me equilibrando. Harry e eu morávamos perto um do outro, então íamos todos os dias para casa juntos.
- Olha só – ele parou e pulou do cordão, se abaixando e pegando uma pequena flor no chão. – Essas flores se chamam Angélicas, elas têm um perfume delicioso. Chega mais! – ele me chamou e me aproximei, cheirando as pequenas florezinhas brancas em sua mão.
- Hum, é ótimo mesmo! – olhei-o.
- É. Elas nascem antes do final do verão e duram o outono inteiro; vão sumir outra vez em poucas semanas. - Ele olhou-a por mais um tempo e então colocou-a encaixada em minha orelha. Ri e arrumei-a ali, e então continuamos andando.
- Elas soltam perfume durante a noite e ele dura o dia todo.
- Você é tão nerd. – zoei, e ele me empurrou. Fomos até minha casa assim, e Harry seguiu reto logo depois que eu entrei.
Na manhã seguinte, fiz tudo que eu sempre fazia antes de ir para o colégio: acordei com quarenta minutos de antecedência, me arrumei, tomei meu café e na hora de sair encontrei com um Harry ofegante na porta de minha casa.
- Fazendo uma corridinha matinal? – perguntei ao fechar a porta atrás de mim, saindo em direção à casa de Mô para de lá irmos para o colégio.
- Você precisa me ajudar, é serio.
- O que rolou, garoto?
- Tem uma garota lá no colégio, e ela está meio que me perseguindo.
- Quê? – olhei-o, confusa. – Como assim, perseguindo? Quer que eu dê um susto nela?
- Não, não, não é bem assim. Ela meio que me convidou para sair, e fica me mandando bilhetinhos.
- Ué, e qual é o problema nisso? – ri. – Você está fugindo de garotas e ainda quer que eu te defenda? Desse jeito não vai rolar, viu, Harry? Escolhe em que time quer jogar!
- Isso é sério, Lis.
- Ok. Então, qual é o problema? Ela é feia?
- Não, ela é legal, é até meio bonita, e parece ser gente boa.
- Então não tem problema nenhum.
- Eu não quero sair com ela. Então eu... eu disse que não podia, e quando ela perguntou porquê eu falei que tinha uma namorada.
- Namorada?! – Monica nos encontrou no portão da sua casa no momento em que passávamos por ele. – Você com uma namorada? Desde quando? Eu te vi ontem e você ainda era você! O que você fez com ele, Elizabeth?! – Monica olhou-me, assustada.
Harry revirou os olhos.
- Bom dia para você também. Estou contando que uma garota do colégio quer sair comigo, mas como eu não queria inventei que tinha uma namorada.
- Olha, Harry, sei qual é o seu problema. – ela arrumou as alças da bolsa no ombro. – Tenho um amigo que também gosta de garotos, e acho que vocês dois combinam muito! Eu posso marcar um encontro em dupla com ele e você, eu e Chad.
Soltei uma risada alta.
- Eu não sou gay! Mas que droga, vocês.
- Não falei nada. – levantei as mãos e os ombros.
- Ok, então porque não quer sair com ela? - Harry pareceu meio tenso. Ele demorou um pouco para responder, e coçou a cabeça, desviando os olhos para outro lado.
- Eu não quero... uma namorada agora, não quero isso faltando algumas semanas para o fim do ensino médio.
- Tudo bem, isso até que é compreensível, mas um encontro não significa que vocês vão namorar. – Monica falou, e tudo que fiz foi escutar, afinal aquele era sua especialidade e não minha. – Mas tudo bem, você mentiu para a garota. Qual é o problema, então?
- Ela quis saber quem é minha namorada.
- E?
- E – ele bufou, e depois pigarreou e olhou-nos. – E, que eu disse que era você. – ele empurrou meu ombro de leve e olhei para ele confusa. Se ele estava falando com Monica, por que me empurrou?
Ah... ah! Harry estava falando comigo?
- Eu? Euzinha? Eu? – apontei para mim mesma. – Sua namorada? Mas por que eu? Por que eu e não ela? – apontei para Monica.
- Porque ela vive com mil caras, a menina perceberia que é mentira na hora!
- tudo bem, não é nada demais, ela já saiu do seu pé. Olha lá, Harry, acho que os caras do coral estão de chamando. – Monica falou rápido, e empurrou Harry para perto do grupo do pessoal do coral do colégio, que sempre ficavam reunidos perto do muro da escola. Ele a olhou estranho, mas olhou para o pessoal e foi até lá meio incerto. Assim que Harry se afastou, Monica me puxou pelo colarinho da camiseta e me virou para ela.
- O que deu em você?! – empurrei suas mãos e alisei minha blusa.
- Harry está afim de você. - Quase engasguei com minha própria saliva e fiz um som estranho.
- Não. – falei, com toda a certeza do mundo. – Do que você está falando? Monica, alguém te deu alguma bebida, algo forte, sei lá, você aceitou bala de estranhos hoje?
- Sem brincadeira, Lis. – ela olhou por cima de meu ombro para onde Harry havia ido e agora batia um papo com os caras do coral. – Ele está afim de você. Eu vi, eu sei dessas coisas. - Eu conhecia Monica bem o suficiente para saber quando ela estava falando a verdade; e ela parecia falar sério mesmo, dessa vez, apesar de ser algo absurdo. Resolvi dar-lhe crédito e olhei por cima do ombro, para o garoto de cabelos cacheados e parado com as mãos nos bolsos, conversando com um garoto com seu habitual sorriso no canto dos lábios. Sempre, sempre, sempre, vi Harry como um amigo; éramos um trio, os três mosqueteiros, éramos amigos. Amigos e nada mais do que isso, e nunca me passou pela cabeça algo desse tipo. Então algo sério desse jeito vindo de Mô me deixou confusa.
- Por que você acha isso, Monica?
- Eu vi o jeito que ele olhou para você agorinha mesmo, e não é de hoje, mas só agora me caiu a ficha. Ele te olha de canto o tempo todo, só para ter certeza de cada reação sua a algo que ele diz. Eu sempre pensei que fosse um costume, que ele fizesse isso com todo mundo, mas não. Quando ele falou em dizer que namora com você, eu vi que ele ficou todo alerta sobre sua futura reação àquilo; e ele ficou sem graça. Eu percebo essas coisas, você sabe, Lis, eu tenho uma intuição quando se trata disso. O Harry está sim afim de você!
- Mas eu... ah, Mô, por favor. – bati o pé no chão. – Para de viagem. Eu e Harry somos amigos, nós sempre fomos, nada mudou entre nós, ele está agindo como sempre agiu.
- Então talvez ele sempre tenha gostado de você.
- Para com isso! O Harry não...
- Ah! – ela falou mais alto, dando uma breve olhada para trás de mim e soube que significava que ele estava voltando. – Eu comprei um esmalte novo cor de vinho que ficaria ótimo com o seu tom de pele! Vou achar, e hoje de noite passo ele em você.
- Ninguém havia me chamado, mas aquele tal de Louis ali já veio perguntar se eu sabia cantar e se estava interessado em montar uma banda punk. – ele riu. – Digam aí, vocês acham que eu ficaria maneiro todo tatuado?
- Ia ficar uma delícia – Monica ironizou. – Tenho até um esmalte preto que combina bastante com você também. Podíamos cortar o seu cabelo e te dar umas calças mais apertadas, ficaria legal. - Ele fez careta para ela, e entramos dentro dos muros do colégio rindo.
Cada um de nós foi para uma sala de aula depois que o sinal tocou; e minha aula de biologia parecia tudo, menos interessante. Depois que Monica colocou aquela ideia absurda em minha cabeça, eu não conseguia tirá-la de lá. Era incabível que Harry estivesse afim de mim, mas, apesar de eu custar a acreditar, uma pontinha de mim estava curiosa para saber. Era um pouco assustador, mas empolgante a ideia de um garoto se interessar por mim, e por isso eu não conseguia parar de pensar nisso.
Me peguei notando todos os detalhes de Harry no terceiro horário, na aula de química que fazíamos juntos. Eu olhava-o o tempo todo só para ver se ele estava olhando também e procurar alguma pista. Me senti idiota, mas fato é que algumas vezes ele estava olhando também. Espero não ter sido pega no flagra muitas vezes, ou ele saberia que tinha algo diferente; eu só estava agindo estranho, porque estava mesmo curiosa.
Quando nossa professora falou que teríamos que furar o dedo para pegar uma amostra de nosso próprio sangue, meu estômago revirou na hora. Antes mesmo que eu levantasse minha mão para falar, Harry o fez.
- Sim, Harry?
- Hum, a Lis não se dá muito bem com sangue. – ele apontou para mim com a caneta, e depois voltou a morder a ponta da mesma e olhou para a professora de novo.
- Ah, é só um furinho de nada, não acredito que vá fazer grandes estragos. Mas, caso se sinta mal, você pode me falar, tudo bem, Lis? - Assenti, respirando fundo.
Ela passou de classe em classe para furar os dedos dos alunos - como estávamos no laboratório e as mesas eram em duplas, é claro que eu estava com ele. Esperei chegar a nossa vez, mas antes mesmo de isso acontecer, vi os garotos da mesa ao lado fazendo babaquices e apertando os próprios dedos para que o sangue escorresse pela mão. Meu estômago revirou de novo e me senti tonta, perdendo a noção de espaço no momento em que dei um passo para trás e a mesa de trás fez um barulho quando a empurrei. Perdi o equilíbrio e tentei me segurar em meu banco no momento em que Harry teve o dedo furado, e fiz mais barulho, chamando a atenção da sala inteira, como eu sempre arranjava um jeito de fazer.
- Ih, ela vai desmaiar. – ouvi alguém falar, e em seguida Harry me segurou pelos braços, me mantendo de pé. Abri os olhos e olhei para cima, para olhar para ele.
- Você quer sair?
- Fiz que sim com a cabeça.
- Ok, você estava certo. Pode tirar ela daqui por favor, Harry? Eu preciso continuar a aula, e ela só precisa de um pouco de ar. - Harry concordou para a professora, e me levou para fora da sala, servindo como um apoio.
Assim que chegamos ao corredor e parei de sentir o cheiro de sangue, pedi para sentar no chão mesmo ao lado da porta e ele me ajudou, sentando ao meu lado. Abaixei a cabeça e coloquei-a entre os joelhos, respirando fundo.
- Valeu pela ajuda.
- Eu não queria ver você vomitar. – brincou. – Você já paga micos demais naturalmente o tempo todo.
- Não é algo pelo qual eu me orgulho, os desastres parecem me perseguir.
- Tudo bem – ele riu. – Isso faz de você engraçada. E única.
Levantei a cabeça, e olhei-o. Ainda com a conversa com Monica rondando em minha cabeça, de repente comecei a pegar um monte de pistas que eu não pegava antes entre nós dois. Talvez isso tudo fosse coisas da minha cabeça, coisas que eu não percebia antes por não ter pensado nos absurdos que Monica disse, mas talvez fosse real.
- Você me acha única?
- Bastante – ele concordou, e levantou. – Vou voltar para a aula e quando se sentir melhor você pode entrar, ok? - Concordei com a cabeça, e ele entrou na sala outra vez.
Aos poucos minha vertigem foi passando, então só precisei de mais alguns minutos sentada no corredor para voltar ao normal. Ao olhar para alguns cartazes presos em um mural na parede bem em minha frente, percebi o cartaz do baile de formatura. As letras destacadas na parte de baixo diziam que as garotas eram quem convidavam, e não os garotos, como de costume, isso fez uma ideia surgir em minha cabeça.
- Lis? – a porta foi aberta e alguém olhou para mim. – Todo o sangue já foi limpo, você já pode voltar.
- Obrigada. - Levantei e voltei para meu lugar; e pelo resto da aula os olhares estranhos entre mim e Harry foram mais intensos.
No sábado de tarde, eu, Mô e Harry sempre fazíamos algo juntos, mas nesse sábado em especial, Monica ficara no colégio para auxiliar o comitê de decoração a decorar o ginásio para o baile, então éramos apenas nós dois. Logo na primeira hora da tarde fui para a floricultura ajudá-lo, para que ele pudesse se livrar do serviço mais cedo, e agora nos encontrávamos de costas um para o outro, cada um cuidando de uma mesa de flores; ele cortando os espinhos e eu espirrando água nas pétalas. Os dois em um silêncio confortável que já era usual entre nós.
- Hum, Harry? – chamei-o, pegando algumas tulipas brancas com a mão para espirrar a água mais de perto.
- Sim?
- Alguém convidou você para o baile?
- A garota do encontro que eu não fui e mais algumas meninas que são clientes aqui da loja. Por quê? - É claro que Harry fora convidado, que pergunta a minha, ele era lindo, seu jeito quieto chamava a atenção das meninas, e aquele lance das flores era um chamativo a mais. Harry tinha várias pretendentes.
- Você já sabe com quem vai?
- Não quero ir com nenhuma delas. - Talvez ele gostasse de alguém e estivesse esperando seu pedido, talvez fosse até a Mô, afinal, quem sabe? A conversa que tive com ela no dia anterior voltou à minha cabeça e virei para ele. Cutuquei seu ombro e ele virou para mim também.
- Talvez você queira me dar a honra? – sorri e levantei a tulipa em direção ao rosto, para cobrir o leve rubor que tomou conta das minhas bochechas. Harry riu e pegou a flor das minhas mãos.
- Será um prazer, madame. - Encarei-o por um segundo, e então desviei o olhar.
- Ótimo, mas e quanto àquela corrida, hum? - Empurrei-o e saí correndo loja afora, ouvindo seus passos atrás de mim.
Harry e eu corremos até aquele parque da lagoa e cansamos tanto que me atirei no gramado logo que pisei nele. Tentei recuperar o fôlego, enquanto ria e ele se atirou ao meu lado, fazendo o mesmo. Depois de conseguir recuperar o fôlego, Harry parou de rir aos poucos e olhou para cima.
- Quero te mostrar uma coisa.
- O que é? – olhei-o, curiosa. Ele levantou e me estendeu a mão para que eu fizesse o mesmo.
- Vem comigo! - Levantei e o segui até uma rua bem calma e parada, cheia de prédios residenciais. Harry caminhou até o meio da quadra, sentou no cordão e me chamou para fazer o mesmo. Eu o fiz, e ele olhou no relógio e depois para a portaria do prédio do outro lado da rua.
- Olha lá – ele fez um aceno com a cabeça para a garota que entrava no prédio com seu cachorrinho. Ela entrou, parou no portão e olhou para o chão. Se abaixou e pegou algo, e quando se levantou eu vi o pequeno e delicado buquê em suas mãos. Ela olhou para os lados, procurando alguém, mas não encontrou ninguém. Então, cheirou as flores, pegou o cartão e entrou sorrindo no prédio.
- Foi você? - Ele, que olhava para a cena com um sorriso no rosto, fez que sim com a cabeça. - Você... tá afim dela? – perguntei, e Harry me olhou.
- Eu nem conheço ela.
- Então... - Ele percebeu minha confusão e explicou.
- Nos fins de semana, muitas flores sobram na loja, e eu acho um desperdício jogá-las fora, então acho um jeito de dar um fim mais útil a elas; eu gosto de juntá-las em buquês e fazer o dia de alguém mais feliz.
- Ah... mas... não é maldade iludir as pessoas desse jeito?
- Eu não as iludo, não. – explicou, com toda a paciência do mundo. – Eu escrevo apenas uma mensagem no cartão. “Sorria, alguém te ama” ou “Tenha um ótimo dia”. Sabe, coisas que podem ajudar alguém a ter um dia melhor, fazê-los acreditar que ainda há bondade no mundo.
- Isso é lindo, Harry. É muito legal da sua parte.
- Obrigado. – ele sorriu. – A sensação é boa. - Ficamos em silêncio enquanto eu pensava melhor nisso. De repente, Harry era mesmo o melhor cara que eu conheceria na vida. Me aproximei dele e descansei a cabeça em seu ombro, e ele aceitou a aproximação com naturalidade, me segurando em um abraço confortável. A sensação era boa.