Back to Me


Escrita porBetiza
Editada por Lelen

Sexto Capítulo

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

Era Natal, e eu sabia o quanto %Alessia% amava essa época do ano. Sabia também que, se pudesse, ela fugiria de tudo que a lembrasse de mim. E, como já era previsível, ela havia ido para a casa dos pais, na mesma cidade onde os meus também viviam.
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  Era óbvio que lá estava eu, sentado na sala da casa dos meus pais, cercado pelas mesmas decorações natalinas que eu via desde criança. A árvore de Natal, cheia de luzes piscantes e enfeites antigos, não conseguia me distrair do verdadeiro motivo da minha presença ali: %Alessia%.
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  Eu não estava ali apenas para passar o feriado com a minha família. Estava esperando a oportunidade de vê-la, nem que fosse de longe. Como se esperasse um milagre de Natal, algo que, sinceramente, eu não merecia.
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  Enquanto meu pai ria alto com algum filme antigo que sempre passava nessa época e minha mãe arrumava mais pratos na mesa, eu olhava pela janela. Meu coração apertava com a ideia de que ela estava tão perto e, ao mesmo tempo, completamente fora do meu alcance.
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  Na minha cabeça, eu ensaiava todas as possibilidades. Talvez ela fosse à missa da meia-noite, como fazia todos os anos. Talvez eu a visse caminhando pela praça, como era seu hábito. Cada pequeno "talvez" se agarrava a mim como uma desculpa para não desistir.
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  — Você está distraído — comentou minha mãe, sentando-se ao meu lado no sofá.
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  — Só pensando, mãe. — Tentei sorrir, mas sei que não convenci.
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  Ela suspirou e passou a mão pelo meu cabelo, um gesto que sempre fazia quando eu era criança e algo me incomodava.
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  — Se está pensando nela, por que não faz alguma coisa? — perguntou suavemente, como se lesse meus pensamentos.
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  — E se ela não quiser me ver? — Minha voz saiu baixa, quase inaudível.
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  Minha mãe apenas sorriu, aquele sorriso típico de quem acredita em milagres.
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  — Às vezes, o Natal traz respostas que a gente nem espera.
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  E assim, fiquei ali, esperando... esperando que, de alguma forma, %Alessia% fosse uma dessas respostas. Que o destino nos cruzasse novamente, nem que fosse só para me dar a chance de vê-la, mesmo que à distância.
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  Meus pensamentos foram interrompidos por batidas na porta. O som ecoou pela sala, me trazendo de volta à realidade.
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  — %Dino%, abre a porta, querido? — pediu minha mãe, já se levantando para buscar algo na cozinha.
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  Levantei-me lentamente, passando as mãos nos cabelos para tentar parecer menos abatido. Caminhei até a porta, ainda meio perdido em meus próprios pensamentos, e a abri.
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  Para minha surpresa, quem estava ali era ninguém menos que a mãe de %Alessia%.
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  — Senhora Caruso? — Minha voz saiu hesitante, quase um sussurro.
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  — %Dino%! — Ela sorriu educadamente, mas havia algo de constrangido no seu olhar. — Sua mãe está? Preciso falar com ela sobre... um detalhe do jantar na igreja.
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  Eu engoli em seco, tentando esconder o nervosismo.
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  — Claro, claro... Entre, por favor. — Dei espaço para que ela passasse, sentindo meu rosto esquentar.
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  Ela entrou com a mesma elegância discreta de sempre, os olhos percorrendo rapidamente a sala como se estivesse avaliando cada detalhe. Eu fechei a porta atrás dela, tentando recuperar algum senso de normalidade.
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  — Só um instante, vou chamar minha mãe. — Apontei para o sofá. — Pode se sentar, se quiser.
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  — Obrigada, querido. — Ela assentiu, mas não se sentou, preferindo ficar de pé ao lado da árvore de Natal, observando os enfeites como se tentasse preencher o silêncio.
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  Caminhei rápido até a cozinha, encontrando minha mãe ainda organizando pratos.
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  — Mãe, é a senhora Caruso. Ela quer falar com você.
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  Minha mãe ergueu as sobrancelhas, surpresa.
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  — Oh, sobre o jantar, claro. — Limpou as mãos no avental e me lançou um olhar curioso. — Você parece nervoso, %Dino%. Está tudo bem?
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  — Sim, só... só vai lá falar com ela. — Fiz um gesto para que ela fosse, desviando o olhar.
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  Ela riu baixinho, claramente percebendo o meu desconforto, mas foi até a sala sem dizer mais nada.
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  Enquanto elas conversavam, fiquei parado na cozinha, a cabeça girando. Tê-la ali, a mãe de %Alessia%, tão perto, trazia uma onda de lembranças e emoções que eu estava tentando evitar. Era como se o universo estivesse conspirando para me lembrar de que %Alessia% ainda fazia parte de mim, mesmo que ela não quisesse.
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  Fiquei encostado na parede da cozinha, ouvindo o murmúrio das vozes vindas da sala enquanto minha mãe conversava com a senhora Caruso. Minhas mãos estavam enterradas nos bolsos, e meu olhar perdido no chão.
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  Era óbvio que %Alessia% estaria no jantar da igreja. Essa tradição era importante para ela e sua família, algo que ela sempre fazia questão de manter, mesmo nos momentos mais difíceis. Eu sabia disso melhor do que ninguém.
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  Mas a pergunta que me consumia era: eu deveria ir?
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  Por um lado, minha presença poderia ser um desastre. Eu já havia causado estragos suficientes, não queria transformar o Natal dela em mais um motivo de desconforto. Ela merecia paz, merecia um momento com a família sem que eu estivesse lá para lembrar tudo o que deu errado entre nós.
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  Por outro lado, era como se uma parte de mim acreditasse que essa poderia ser a minha chance de... eu nem sabia bem o quê. Reparar algo? Me redimir? Era ridículo pensar que algumas palavras e um sorriso no meio de uma noite festiva poderiam consertar meses de erros e mágoas.
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  Passei as mãos pelo rosto, frustrado.
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  Eu não sabia o que fazer. Não queria ser egoísta, aparecer lá e arriscar estragar a noite dela só porque eu sentia falta dela. Mas, ao mesmo tempo, o pensamento de não vê-la, de deixar essa oportunidade escapar, fazia meu peito apertar de uma forma insuportável.
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  — %Dino%? — A voz da minha mãe me trouxe de volta.
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  Levantei a cabeça e a vi me olhando com aquele misto de curiosidade e preocupação que só mães conseguem.
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  — O que foi? — perguntei, tentando soar casual, mas a expressão dela dizia que eu não estava enganando ninguém.
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  — A senhora Caruso me perguntou se você vai ao jantar na igreja esta noite. — Ela inclinou a cabeça, avaliando minha reação.
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  Eu travei. Meu primeiro instinto foi dizer "não". Mas as palavras ficaram presas na garganta.
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  — Eu não sei, mãe... — murmurei, desviando o olhar.
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  Ela se aproximou, pousando a mão no meu ombro.
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  — Você precisa decidir o que quer, %Dino%. Mas, seja qual for sua escolha, faça por você e por ela. Não por culpa, nem por medo.
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  Assenti, embora não tivesse certeza de que isso ajudava. Meu coração estava em guerra, dividido entre a necessidade desesperada de vê-la e o desejo genuíno de não causar mais dor.
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  "Talvez eu fique por aqui mesmo," pensei. Mas, no fundo, sabia que essa decisão não seria tão simples de manter.
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  Minha mãe voltou para a sala, mas logo retornou com a senhora Caruso ao lado. Eu me endireitei, tentando parecer menos perdido, mas ela me lançou um olhar gentil, como se percebesse que algo me incomodava.
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  — %Dino%, querido — começou ela, com aquele tom amável e educado que sempre usava. — Eu mencionei o jantar da igreja para sua mãe e... sei que você provavelmente já ouviu falar dele.
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  Assenti, tentando manter a expressão neutra, embora meu coração estivesse acelerado.
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  — Seu nome estará na lista, caso decida aparecer. — Ela sorriu ligeiramente. — Não quero pressionar, só achei que seria bom saber.
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  Minha garganta secou. Eu estava prestes a balbuciar alguma desculpa quando ela continuou:
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  — E, se isso te ajudar a se sentir mais confortável... %Alessia% não estará lá.
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  O impacto das palavras foi imediato. Eu ergui os olhos, surpreso.
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  — Ela não vai? — perguntei, sem conseguir esconder o misto de alívio e desapontamento.
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  — Não, querido. — A senhora Caruso suspirou, como se escolhesse bem as palavras. — Ela não estava se sentindo muito bem hoje, então preferiu ficar em casa para descansar.
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  Fiquei em silêncio, digerindo aquela informação. Por um lado, a ausência de %Alessia% significava que eu poderia comparecer sem causar desconforto a ela. Mas, por outro, tirava toda a razão de eu sequer cogitar ir.
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  — Pense com calma, %Dino%. — Ela colocou a mão no meu braço por um instante, oferecendo um sorriso compreensivo. — Natal é uma época de recomeços, não de culpas.
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  Ela se despediu pouco depois, deixando-me sozinho com minha mãe, que me olhava de soslaio enquanto arrumava a mesa.
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  — E então? — perguntou ela casualmente, embora sua curiosidade fosse óbvia.
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  Eu apenas dei de ombros, ainda processando tudo.
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  — Não sei, mãe... ainda não sei.
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  Mas agora, saber que %Alessia% não estaria lá tornava a decisão ainda mais difícil. Se eu fosse, estaria indo por mim ou por algo que já não fazia mais sentido? E será que ela realmente estava indisposta ou estava apenas com medo que eu aparecesse por lá?
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“I can make you mad, I can make you scream
I can make you cry, I can make you leave
I can make you hate me for everything
But I can't make you come back to me”

Sexto Capítulo
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