Capítulo único
Tempo estimado de leitura: 30 minutos
Trajando jeans, coturno e camisa branca de botões sem mangas, Richard aguardava o namorado a duas quadras de distância do estádio de basquete.
Ansioso, verificava as horas, temeroso em se atrasar para a partida. Buscava não pensar sobre como se comportaria ou reagiria durante o encontro depois de tomar conhecimento de maneira abrupta, para não dizer dolorosa, acerca da vida do namorado — se é que era prudente chama-lo assim.
Se passaram dois anos desde o início do relacionamento. Para seu azar, não se acostumou a viver às escondidas, sempre em último plano. Sempre... Como se fosse párea no universo de Ralph.
Richard erro do qual Ralph jamais seria corajoso de admitir por optar em manter o casamento de fachada ao invés de admitir a sua verdadeira identidade como homossexual era a união estável com uma figura feminina que não imaginava a incontestável natureza do marido.
Advindo de família conservadora, Ralph, de quarenta anos, esclareceu como não se divorciaria da esposa quando as lágrimas de Richard desceram pelos olhos semanas atrás perante a realidade do casamento.
A culpa que o corroía era implacável.
Se questionava como Ralph escondeu a verdade por tanto tempo, a revelando porque se deparou com ele no mercado dando adorável selinho na esposa com os filhos ao redor — e é claro que as três crianças nasceram com evidentes características físicas do pai.
Portanto, ali estava Richard, sentindo o turbilhão de emoções densas o suficiente para surgirem sintomas físicos, como o embrulho no estômago e o peito dolorido.
Desprezava a posição oficial de amante, que o obrigava a dividir a pessoa por quem se apaixonara com a esposa — mesmo que a pessoa em questão não tivesse nenhuma inclinação para a fidelidade por razões óbvias e nem amasse ou
sequer desejasse a cônjuge.
Se fosse, não se contentaria com aquele relacionamento distorcido — afinal, foi o mais próximo que alcançou de um namoro aos vinte e sete anos de idade.
Se esforçou a sorrir por avistá-lo atravessando a rua, buscando deixar os pensamentos no recôndito mais profundo do cérebro.
— Oi, amor. — Ralph lhe deu um abraço apressado. — Desculpa pela demora. Estava ocupado.
Se questionou se deveria aceitar tão pouco, visto como o outro evitava demonstrações afetivas em público. Raras eram as ocasiões quando as manifestava — e quando aconteciam eram assim, apressadas.
Com o tempo compreendeu o significado da frase tão típica da parte do mais velho.
“Amor, me perdoe, mas estava cumprindo com os meus deveres sociais de esposo com excelência perante a minha família, então não arranjei tempo pra você. Quem sabe da próxima vez não chego mais cedo por encontrar a desculpa perfeita para me retirar do aniversário da minha filha mais nova.” Se a finada mãe estivesse viva, sem dúvida levaria uma surra por ela provar na pele a dor de ser traída dentro do casamento.
Olha aí a história se repetindo, não é?
Notou o rápido franzir de cenho mediante a pronúncia do nome.
Desde a descoberta da união estável, não conseguia chama-lo de maneira carinhosa como antes.
— Trouxe os ingressos? — Richard ergueu as sobrancelhas na tentativa de parecer animado enquanto ajeitava os cabelos ondulados.
No caminho mantiveram distância segura, como se fossem amigos.
Se tivesse sorte, Ralph permitiria ele deitar a cabeça no ombro pelos indivíduos prestarem atenção no jogo.
Edward tranquilizava os amigos com o telefone nas mãos.
— Cara, vamos entrar — clamava o loiro.
— Daqui a pouco essa merda começa e a gente vai continuar aqui fora. — Anthony comia a pipoca no balde.
— O Oscar está perto — se dirigiu a eles. — Estacionou o carro.
— Já não era sem tempo! — Finn tomava o gole de cerveja na latinha. — Bom, pelo menos o estamos tirando de dentro de casa. O coitado está numa melancolia do caralho desde a separação.
— E eu não sei? Sabe quanto tempo passei com ele no telefone essa noite o ouvindo chorar as pitangas? Sério, dormi na ligação. Cheguei morto de cansado do trabalho. Dá um desconto — ralhou por receber o olhar recriminatório de Finn. — Acordei assustado com o pobre coitado xingando o ex porque é difícil achar alguém com o tamanho daquele pau.
— Filho da puta. — Imprecou Edward rindo da situação. — Por que...
Não perceberam que ele se calou de súbito devido a conversa amena.
A atenção foi dirigida para um ponto em específico onde o rapaz de cabelos ondulados em curioso tom cobre passava na companhia do mais velho cujos fios claros denunciavam a maturidade.
O reconheceu de imediato, agradecendo pela capacidade de reprimir o suspiro no momento correto para os amigos não notarem a mudança sutil nele.
Embora tivessem feito faculdade juntos, os caminhos dele e de Richard se desencontraram devido às peripécias do destino, as respectivas vidas tomando rumos distintos.
Foram bons amigos na época.
Encontrou nele alguém leal, divertido, franco e carinhoso, cujo coração ansiava pelo enlace amoroso com quem carregasse tanto afeto quanto ele para entregar.
Apenas se arrependia de não declarar os sentimentos para além da amizade por covardia. Era evidente como o rapaz declinava de suas discretas demonstrações amorosas, então compreendeu o recado e seguiu em frente resignado com a rejeição ao invés de se revoltar.
Olha como as coisas são. Só o ver no intervalo de vários anos foi o suficiente para o coração disparar contra o peito e a saudade aflorar ao ponto de desejar segurar a mão dele novamente.
Como queria ter sido corajoso na época ou insistido um pouco mais. Richard era a personificação de tudo o que buscava quando pensava em um parceiro de vida. Se criticava por desistir com tamanha facilidade. Afinal, a vida não lhe proporcionou outras figuras que almejassem a solidez no relacionamento. Talvez, caso insistisse um pouco mais, compartilhassem da alegria e da segurança de estarem nos braços um do outro.
O arrependimento foi instantâneo, assim como a percepção de que o rapaz também não parecia feliz. Detectou certo pesar no semblante. O sorriso não alcançava os olhos, sem mencionar o esforço em demonstrar satisfação quando, sem dúvida, não era a forma que se sentia naquele momento.
A série de reflexões perpassou na mente por cinco segundos — o tempo exato em que Richard preencheu o campo de visão antes de desaparecer por entre a multidão.
Engoliu em seco, fechando contundente as pálpebras para se recompor. Enfim, se virou para o grupo de amigos se inteirando do diálogo ameno.
Não imaginava que o destino tinha novos planos para si, lhe entregando a possibilidade de reparar o erro do passado.
A partida foi eletrizante.
Richard perdeu as contas de quantas vezes comemorou entusiasmado quando a bola atravessava a cesta marcando pontos.
Durante a partida até esqueceu da desaventurança, focado nos jogadores correndo pela quadra imersos na adrenalina proporcionada pelo esporte.
Infelizmente, assim como sempre acontece, a realidade se fez presente de forma amarga.
Na ligeira pausa, a câmera focou em si e em Ralph. Por ver a imagem refletida no telão — Richard com a cabeça deitada no ombro do namorado de mãos cruzadas nas dele — o mais velho se separou em ato brusco, o deixando sem reação e em postura acuada.
Embora não concordasse com a cena humilhante cujo protagonista era Richard, Ralph se manteve congelado. Não queria ser reconhecido ou visto em comportamento meigo com alguém do sexo masculino. Tenso pela proporção que a imagem deles transmitida no aparelho poderia causar, a musculatura se retesara. A cabeça baixa foi totalmente voltada pro lado oposto em virtude da covardia de fitar quem amava, o peito apertado em reprovação da própria atitude.
Ou melhor, se conformou em suportar o episódio de humilhação pública na torcida para aquilo finalizar o mais rápido possível.
O constrangimento de Richard era palpável, aumentando no decorrer dos segundos. O coração batendo rápido contra a caixa torácica servia para potencializar os sentimentos indigestos, assim como o rubor denunciava a vergonha da situação onde foi desprezado como se fosse uma doença infecciosa da qual o mais velho deveria tomar cuidado para não se contaminar.
Não imaginava como Ralph reagiria de maneira impiedosa — para não dizer cruel.
Naquele tempo foi arrebatado por impactante epifania.
Não era de seu desejo prosseguir em posição tão desfavorável. Caso pretendesse permanecer dentro do relacionamento, jamais o teria por inteiro. A ideia de dividi-lo com outros já era amarga o suficiente, entretanto, embora não amasse Kate, ela teria o marido por inteiro. O exibiria para o mundo, contaria as histórias engraçadas do casal nas reuniões familiares e usufruiria da companhia masculina quando estivessem cercados dos amigos e dos colegas de trabalho. Iriam a comemorações, festejariam as próprias datas importantes — como a de casamento — e dormiriam juntos todas as noites — afinal, assim como o esposo exemplar que era, não passava as noites fora de casa.
Assombrado pelas terríveis expectativas futuras, arfou pela impossibilidade de
existir no mundo de Ralph. A assimilação dos fatos doeu, sim, mas não o destruiu. Ao contrário. Através da dor, emergiu a presunção imprescindível para se retirar de contextos desfavoráveis em ato decidido.
Já estava preparado para ir embora em genuína derrota com o nariz empinado, incapaz de sustentar o constrangimento por mais tempo. Afinal, a câmera continuava reproduzindo a imagem deles — e a tensão na plateia era pujante por compreenderem em parte o que se passava entre eles.
Não imaginava como o campo de ação sofreria interferência.
Após longos segundos do episódio vergonhoso, alguém segurou suas bochechas com ambas as palmas. Por instantes assimilou que o toque inesperado era familiar, o achando carregado de gentileza apesar de haver aprazível firmeza no gesto. Sem cerimônia, a cabeça foi girada para o lado direito e uma boca quente se encaixou perfeitamente na sua.
Richard não raciocinou. Ao longe escutava as pessoas ovacionando a atitude do desconhecido, mas não se importava com os aplausos e nem com os encorajamentos. Gostou mais do beijo do que poderia imaginar. Fechou os olhos de maneira automática objetivando se entregar àquele momento incomum.
Não houve resistência da parte de Richard pela entrega do outro ser louvável, testemunhando a cada movimento da boca o quão presente estava no momento. Não havia desculpas esfarrapadas, vergonha de trocar carícias e nem o medo constante de serem flagrados por conhecidos de Ralph — ou, Deus os livrasse, os parentes caso os visse passeando.
Adorou o sabor do beijo. Ao contrário de quando partilhava dessas trocas com o namorado, o homem misterioso não parecia se envergonhar. Não hesitou em transmitir carinho ao longo do ósculo nos segundos tão delicados, deslizando a língua para dentro da boca de Richard e explorando a área morosamente enquanto enterrava as falanges nos cabelos de tonalidade cobre.
Quando o homem tomou a iniciativa de se afastar após finalizar com o adorável selinho demorado, Richard permaneceu de olhos fechados ainda sob o efeito da química inegável que os envolveu capaz de silenciar todos os sons ao redor.
— Adorei te reencontrar, Rick.
Perplexo, ergueu as pálpebras por reconhecer a voz aveludada.
A centímetros de distância, Edward o admirava com sorriso travesso, aprovando a combinação deles no encaixe surpreendente através das íris brilhantes e das pupilas dilatadas no centro dos olhos verdes.
Graças a falta de reação pelo outro pestanejar com o queixo caído em ar aturdido, murmurou em preocupação:
Levou instantes para o cérebro registrar a inquisição, achando curiosa a tonalidade carregada de afeto.
— Sim. — Deu um toque na covinha alheia localizada no queixo. — Agora estou bem, sim. Adorei a sua forma de receber velhos amigos, inclusive.
Apreciando a provocação, Edward, guiado pelas emoções sem ressalvas, arrastou os lábios até a orelha sem ignorar como Richard respirou fundo inalando o perfume na pele exposta do pescoço.
— Essa recepção só é destinada apenas para quem sinto saudade.
O vendo assentir, Edward se ajeitou no lugar prolongando o contato corporal pelas digitais deslizarem por onde estava ao alcance. Por fim, se inclinou para beijar os cabelos cobres e se acomodou, captando a aprovação dos amigos.
A repreenda de Ralph era gélida, o tom cortante quebrando o encanto.
Retornando para a realidade onde assistia à partida de basquete na companhia do namorado na desconfortável posição de amante fixo, se virou para o mais velho em expressão irônica.
— Não vejo motivos para o mau humor. Eu te flagrei beijando a sua esposa na companhia dos filhos, então agora estamos quites,
benzinho. — Jamais a fronte seria banhada com tamanho atrevimento.
Falou despretensioso, passando o polegar no canto da boca como se para degustar dos últimos vestígios do delicioso beijo, em exibição implícita de como repetiria o ato caso surgisse a oportunidade. Em seguida, abriu sorriso cínico cujo brilho não atingiu as íris azuis.
Em outro cenário se classificaria como mesquinho. A falta de argumentos para rebater a mensagem lhe despertou plena satisfação velada, demonstrada através dos globos a arrogância, visto como saiu por cima ao invés de engolir a humilhação calado.
Ao longo da partida, se concentrou em não virar para trás, contando os minutos restantes para se retirar por sentir o peso do olhar de Edward sobre si.
De maneira inconsciente, evitou o contato corporal com Ralph, apesar dele buscar por si — talvez prevendo como a relação tinha prazo de validade por se abster enquanto outro tomava a atitude correta para com Richard.
Torcia para o dia finalizar o mais rápido possível por não almejar permanecer na presença do namorado.
Aguardava Ralph na esquina de onde se encontraram. Graças ao início do entardecer, observava a pele dele a dez metros de distância tomar aspecto dourado pela exposição à luz solar.
Agora não havia razão para esconder com quem conversava no celular ou para quem eram as mensagens enviadas, então se viu no direito de murmurar o nome do filho ao se afastar para o diálogo.
Se questionou quais abraços eram os mais calorosos — quando abraçava a esposa ou quando abraçada Richard.
— Esse mundo é muito pequeno.
O sobressalto lhe tirou dos devaneios, se virando de imediato por reconhecer a voz rouca.
— Nunca pensei te encontrar de novo após tantos anos, Rick.
Sorridente, Edward enlaçou o corpo por, talvez, tempo demais, em gesto carregado de afeto. Durante os segundos harmoniosos o rapaz foi tomado pelo calor da pele firme, constatando novamente como não havia embaraço por parte do velho amigo na demonstração de ternura.
Pela posição não viu como o semblante de Edward relaxou, as pálpebras fechando para degustar cada sensação proporcionada pelo momento — tanto as sensoriais quanto as emocionais. Arrastou a ponta do nariz até o vão entre o ombro e o pescoço, inalando o cheiro natural da derme crua. Não reprimiu a vontade de mordiscar de forma tênue a área sem deixar marca nela.
Para não lhe dar tempo de raciocinar acerca da atitude íntima em demasia, se separou — não sem visualizar a epiderme arrepiada pela ousadia.
— Como andam as coisas contigo?
O interesse de Edward em si era genuíno.
Assim como se lembrava, uma das características marcantes era a preferência por diálogos e relações mais profundas.
Graças a natureza franca, o traço de personalidade não mudou.
Pigarreou para firmar a voz falha, visivelmente afetado pela conduta irreverente da qual gostou mais do que deveria — e o fato de como derreteu naquele breve instante nos braços alheios era prova suficiente da comoção.
Em ar divertido beirando ao estado de decifrar intrigante segredo, Edward crispou os lábios e os cantos caíram por ínfimo átimo, o brilho no olhar denunciando como decodificou a reação corporal.
— Estou trabalhando com enfermagem — prosseguiu, aliviado pelo tom voltar ao normal. — Adoro meu trabalho, mas chego morto dos plantões. Prefiro passar as horas a seguir dormindo.
— Não tiro a razão — comentou tirando um cisco imaginário dos cabelos cobres em pretexto para apreciar a textura. — Sou cirurgião cardíaco, então sei bem como é o ritmo de hospital.
A transformação foi rápida. De súbito as íris se intensificaram, fitando Richard num misto de curiosidade e desvelo.
— Sobre o trabalho eu já imaginava — prosseguiu dando um passo para frente, ambos os peitorais quase se encostando. — Sempre gostou da área de saúde. Eu gostaria de saber sobre
você. Como você está? A vida tem sido gentil contigo?
Se manteve calado por alguns segundos, perdido nos globos expressivos que pareciam ler a sua alma.
Edward matou rápido a charada — ou melhor, compreendeu que o outro não era nenhum exemplo de felicidade verdadeira. Apenas não sabia há quanto tempo estava naquela condição incômoda e nem qual era o motivo disso.
Detestava não poder postar as fotos de casal, agirem como amigos quando saíam e ter tão pouco tempo pra aproveitar
escondido e
isolado os momentos legais proporcionados pelo relacionamento.
Engoliu em seco e cruzou os braços. Encolhendo os ombros, pareceu frágil, enfim expressando a vulnerabilidade sem optar pela falsa dissimulação. Abaixou a cabeça em postura tensa, refletindo até onde seria prudente atualiza-lo sobre sua vida cujo único cenário destoante era tudo o que Ralph representava.
— Me responda uma pergunta primeiro.
Ergueu a cabeça sustentando o contato visual. Vasculhou qualquer mínimo sinal de desinteresse ou que a personalidade mudara ao longo dos anos de forma negativa. Descobriu que não.
— Por que me beijou na arquibancada?
— Porque, meu caro, eu não iria permitir que passasse por constrangimentos. — Sem cerimônia, encaixou a palma na lateral do pescoço de Richard. — E também porque eu nunca fui indiferente a você.
— Não sentiu vergonha ou...
— Vergonha de quê? — Franziu o cenho em incompreensão.
— De mim ou de sermos gays.
— E por que caralhos eu teria vergonha de você ou de quem somos?
Não houve irritação na réplica. Soou perplexo, como se o assunto fosse fora de cogitação por se aceitar plenamente como homem homossexual.
Pela inexperiência na parte afetiva, buscava justificativas para a conduta do amante.
Richard soltou uma risadinha sem humor, enfim dimensionando as atitudes de Ralph para consigo.
— Respondendo a sua pergunta, Ed, estou tranquilo. Só cometi um puta erro por ignorância. — Olhou de soslaio em indicação inconsciente para o futuro ex-namorado, que os observava ao longe com o telefone na orelha. — Mas ainda hoje irei consertar isso.
— Se puder resolver logo, agradeço. Vou com os meus amigos pra um bar novo onde minha prima está nos aguardando em comemoração à promoção no trabalho. Vem conosco. Ainda não fui com eles porque vim falar contigo primeiro.
— Eu vou, sim. Me espera? É rapidinho.
— Claro. Estamos ali. — Apontou para a barraquinha de cachorro-quente onde Finn comprava água.
Tomado de expectativas positivas, Edward não reprimiu o desejo e lhe roubou rápido selinho inesperado. Caminhando para trás, avisou antes de se virar em feição alegre:
— Gostei demais do sabor dos seus lábios para não querer repetir.
Adorou ver como o rosto de Richard se iluminou com o comentário, o largo sorriso radiante em aprovação.
Ralph retornou em sua direção apressado.
Se viu o selinho, não demonstrou.
— Está com fome, amor? Vamos naquele restaurante italiano... — Estendeu a mão para segurar a do outro.
— Não. — Decidido, se desvencilhou do toque e cruzou as destras nas costas.
— Está sem fome? Podemos ir pra sua casa...
— Ralph, não — proferiu impassível. — Não vou pra nenhum lugar contigo porque não vejo sentido de levarmos essa relação adiante.
— Está terminando comigo?
— É sério isso? Amor, eu te amo. Eu sei que você me ama. Até ontem tudo estava bem entre nós...
— Estava bem pra você — o interrompeu. — Tudo é muito confortável pra você. Pra mim não é. Não sabe como morro de culpa pela sua postura. Você é casado. Tem um casamento nas costas e nem sequer teve a decência de me falar quando começamos a sair. Me recuso a dividir a pessoa que amo com outro. Ou melhor,
outra. Pra você é tudo fácil. Não precisa desistir de nada e nem adianta mentir pra mim dizendo que vai. Permanecerá dentro desse casamento fadado ao fracasso por pura covardia.
— Então por que não se separa, banca quem é pra sua família e vive de acordo com o seu próprio modelo de vida?
— Amor não desaparece da noite pro dia — rebateu pela falta de argumentos. — Se eu fiz algo de errado, vamos conversar. Eu consigo melhorar.
— Ok. Largará a sua esposa, se assumirá socialmente e vai me declarar publicamente como seu namorado?
O silêncio sepulcral acompanhou o endurecimento da feição do mais velho, incapaz de retrucar as exigências.
— Foi o que pensei, Ralph. — Deu de ombros sem se abalar.
Com o diálogo finalizado, passou pelo ex em direção a Edward, que acompanhava sério a cena de longe.
Era óbvio como estava atento para a possibilidade de precisar interferir caso Ralph não aceitasse o término.
— Querido, espera. — Segurou o braço o impelindo a se virar. — Eu amo você — murmurou com os olhos marejados. — Eu juro, sempre te amei. Não o quero fora da minha vida.
— Eu sei. Nunca duvidei dos seus sentimentos. Mas eu mereço muito mais do que você tem a oferecer pra mim.
Saboreando o amargor do coração partido, Ralph acompanhou o homem por quem se apaixonara sair na companhia do desconhecido que lhe beijou na arquibancada, o peito doendo por assimilar o contraste entre ambos — ao contrário de Ralph, não tinha impedimentos para caminhar lado a lado com Richard pela rua e o braço enlaçando a cintura do rapaz era demonstração clara de que não negava a própria essência.
Ao lado de Edward e cercado pelos amigos dele, Richard experimentou a tranquilidade que o futuro lhe guardava.
A noite festiva no bar com karaokê foi ótima. Dialogou, riu e lanchou em perfeita comunhão com todos — em especial o velho amigo, de quem descobriu apreciar as gentilezas e o afeto transmitido em pequenos gestos como olhares, toques, implicâncias e sorrisos.
De imediato os presentes descobriram quem era o objeto de interesse de Edward — principalmente por ter colocado a perna sobre a do rapaz, em clara demonstração de como se sentia confortável na presença dele.
Foi levado para casa no carro de Edward. Sentado no banco da frente na escura rua deserta, dialogava com o motorista em conversa amena ainda envolto na energia da reunião agradável.
— O mais difícil, meu bem, é encontrar alguém legal — retrucou Richard aos risos.
— Nem sempre — rebateu Edward desligando os faróis. — Você ficou sozinho porque quis na época da faculdade. A oportunidade estava na sua frente o tempo todo.
Não esperava soar tão sincero.
Após alguns segundos do silêncio necessário para Richard assimilar as palavras, disse esperançoso:
— Gostei muito de te reencontrar. Nos veremos de novo, Edward?
— Aí depende — murmurou, a atmosfera mudando em prelúdio ao que se referia.
— Vai aproveitar a oportunidade que está na sua frente pela segunda vez ou dispensa-la de novo?
Era apenas uma pessoa querendo a verdade acerca do que ambos poderiam usufruir juntos no decorrer dos anos.
Se recordando das vivências de quando eram estudantes, Richard lembrou que por diversas vezes pensou como imaginava Edward no papel do namorado ideal.
Os dois combinavam, compartilhando de peculiar harmonia. Um cuidava do outro, um enviava mensagens pro outro de bom dia e boa noite, um se lembrava do outro ao comprar mimos dos quais o par gostaria de receber — mesmo que fossem simples como brigadeiros ou doces para dividirem.
Embora naquela época se classificassem como amigos, não agiam exatamente como
apenas amigos. Agora, enxergando o cenário mais distante e com mais amadurecimento pelo avançar da idade, compreendia o temor de colocar a amizade a perder ao tentar avançar com a relação.
Movido pelas novas impressões, pelo atencioso tratamento para consigo e pela certeza do que queria para a sua vida, saiu do banco em direção a Edward. Se acomodou no colo alheio, cabendo perfeitamente tanto no espaço apertado quanto no quadril alheio.
Pela proximidade, detectaram as reações corporais — os corações acelerados contra o peito, a sombra de sorrisos querendo desenhar nos cantos dos lábios e o conforto da posição que lhes trazia a sensação de aconchego.
Inclusive, seria a preferida deles ao longo dos anos, a aproveitando quando estivessem enlouquecidos pela lasciva enquanto Richard o abraçava em meio a gemidos mútuos ou quando apenas quisessem aproveitar dos afagos castos.
— Dessa vez vou aproveitar, sim — disse fitando os globos cujo verde era similar ao castanho naquela escuridão, sentindo as palmas ásperas repousarem nas ancas. — Ou melhor... — embalou o rosto com as palmas — já estou aproveitando.
Finalizou em meigo beijo.
Três anos depois se casariam na cerimônia onde postariam as fotos nas redes sociais.
Ralph, por sua vez, passaria tempo demais acompanhando a vida de Richard nas redes sociais em pura amargura, desejando ser ele ali ao invés de Edward.