Um Bebê Para Lian & Key

Escrita porLelen
Editada por Lelen

Procedimentos, questões jurídicas e alguns acontecimentos podem não ter total relação com a realidade.


Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

Por Keira
Meses antes...

Eu encarava a tela de meu computador tentando achar uma forma de resolver aquele problema na codificação do sistema que havia desenvolvido recentemente para uma empresa de softwares. Aquilo estava me dando uma bela dor de cabeça e eu já não aguentava mais ver números e letras na minha frente. Olhei para o relógio no canto da tela, pouco menos de cinco minutos para as seis da tarde. Ora, que se danasse. Fechei toda a programação e logo em seguida desliguei o computador. Revirei meu nécessaire em busca de um remédio que fizesse a dor de cabeça passar e fui até a cozinha em busca de um belo copo d’água. Eu mal havia terminado de engolir o comprimido quando meu celular tocou fazendo minha cabeça zunir.
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  — Alô? — retruquei um pouco mal-humorada.
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  — Nossa, o que houve com você? — Ouvi a voz de Tricia perguntar do outro lado da linha.
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  — Ah, eu fiquei o dia inteiro tentando descobrir qual o problema do sistema que criei para a Saunders Tech e agora estou com uma bela dor de cabeça... — murmurei massageando a base do meu nariz.
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  — Puxa, que droga! — Tris exclamou parecendo emburrada. — Eu ia te chamar para sair em alguma balada por aí — ela disse parecendo realmente ressentida.
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  — Tricia, amiga... Você sabe que eu detesto baladas, não sabe? — perguntei me jogando no sofá para ficar encarando o teto branco de meu apartamento.
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  — Aff, sério, Key. Você precisa arrumar um namorado.
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  — E você sabe o que eu penso sobre o que você pensa sobre o assunto “namorado para Key”, certo? — disse, apenas para me certificar.
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  — Blábláblá... — Tris retrucou. — E você sabe o que eu penso sobre você não querer ninguém na sua vida. Poxa, Keira, existem tantos homens maravilhosos por aí!
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  — Eu não preciso de um homem na minha vida, Tris. Estou muito bem como estou. — Pontuei, logo em seguida ouvindo minha amiga bufar.
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  — Você precisa de um homem para realizar o seu sonho.
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  Outch.
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  — Não preciso dele todo para isso, Tricia. Só dos espermas — resmunguei.
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  — Sério, você tem problemas...
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  — Sou perfeitamente normal como toda mulher independente que apenas quer ter filhos e não sexo — retruquei.
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  — De verdade, você é maluquinha. — Tris gargalhou, mas sabia bem quais eram os meus planos para o futuro. E não incluía nenhum homem, a não ser que meu filho fosse um menino.
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  Desde a adolescência eu já sabia que não teria uma família “convencional” já que, apesar de conseguir achar caras bonitos e tudo mais, eu nunca senti atração ou vontade de ter alguma relação que fosse além de um flerte e troca de olhares que não levariam a mais nada. Eu havia tentado me impor a relacionamentos convencionais antes. Havia tido um namorado na adolescência, mas tudo foi por água abaixo quando ele percebeu que meu “apetite sexual” não era nem de longe o mesmo que o dele e nem afloraria com o tempo.
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  Entendi desde aquele momento que constituir uma família convencional não era para mim. Embora meus pais tenham me levado à especialistas para tentar “reverter” a situação, bem lá no fundo eu sabia que eles não teriam um genro. Mas eu teria meu bebê.
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  Por mais que meus instintos de procriação estivessem fora dos padrões, meu lado maternal ainda existia. E é claro que eu correria atrás desse sonho; eu era uma programadora bem paga para trabalhar em casa, tinha dinheiro o bastante para investir nisso e existiam as inseminações artificiais com doações de esperma. O que poderia me impedir?
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  — Tudo bem, tudo bem. Um dia eu vou entender esse seu lado, prometo — Tris murmurou suspirando. — Mas você não quer mesmo ir pra uma balada comigo, só pra fazer companhia? — choramingou e então foi a minha vez de suspirar.
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  — Tris, eu realmente preciso descansar e uma balada não é o melhor lugar para isso — murmurei.
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  — Ok. Vou sozinha. Sua chata — ela disse e desligou. Conhecendo como a conheço, ela deve ter mostrado a língua para o telefone pela frustração.
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  Tricia Conner era minha melhor amiga desde os 18 anos. E desde essa idade ela vive querendo me empurrar para o primeiro homem que surge na nossa frente. Não é por mal, eu sei. Já tentei explicar várias vezes que aquilo não rolaria comigo como rolava com ela, mas ter uma amiga que não sente atração sexual por homem ou mulher era confuso demais para Tris processar, por isso sempre tínhamos a mesma discussão quando os assuntos eram baladas e ficadas.
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  Eu tinha trinta anos e por mais que eu ainda fosse jovem o bastante para ir à uma balada, qual exatamente seria meu objetivo num lugar como aquele? Eu não sabia dançar, detestava lugares cheios, não era muito chegada às bebidas servidas nos bares e não queria arranjar um ficante nem um caso de uma noite só. Tris sempre ficava triste quando eu frustrava seus planos de me arranjar alguém numa balada, mas eu sabia que ela se divertiria muito mais sem mim. E era de fato o que realmente acontecia.
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  Estava quase pegando no sono quando minha campainha tocou e eu dei um pulo com o susto. Um pouco cambaleante e sonolenta, fui até o olho-mágico na porta e espiei para ver quem era a pessoa que me visitava. Destranquei a porta e abri uma brecha para que o visitante entrasse enquanto eu voltava para meu lugar no sofá.
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  — Mas que modos, Keira! — Julian ralhou comigo enquanto entrava e fechava a porta.
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  Julian Deasey era meu melhor amigo de infância. Não nos desgrudávamos e isso significava que morávamos no mesmo prédio.
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  — Lian, você já é de casa e tem sua própria chave, não sei por que ainda toca a campainha — retruquei me esparramando no sofá.
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  — Eu tenho modos, Keira, modos — ele disse erguendo minhas pernas para poder se sentar também.
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  Revirei os olhos.
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  — O que te traz aqui? — perguntei fechando os olhos enquanto recebia massagem nas pernas. Já disse o quanto amo Lian?
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  — Você se lembra de que entrei com o processo de adoção há alguns meses? — ele perguntou e eu assenti sentindo a sonolência voltar ao meu corpo. — Eles estão demorando mais do que o normal para prosseguir com o processo — resmungou parecendo magoado.
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  Abri os olhos imediatamente e me endireitei no sofá para poder encarar meu melhor amigo.
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  — Hei, vocês vão conseguir — eu disse segurando em suas mãos.
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  — Eu não sei, de verdade. — Lian parecia desanimado de uma forma que eu nunca tinha visto antes.
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  — Vocês dois têm tudo para conseguirem a adoção, Lian, você sabe disso. — Acariciei sua bochecha e ele me encarou sério, seus olhos com um brilho de dúvida.
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  — Sabe que existem muitos contra o nosso tipo de família, Key. E receio que o encarregado de avaliar nosso caso seja um desses.
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  Suspirei pesadamente. Julian, assim como eu, não tinha — ou teria algum dia — uma família “convencional”. Lian é gay e estava noivo de Mathias Wurfel. Os dois haviam entrado num processo para adotar uma criança, mas, por mais que o mundo diga que não há mais preconceito em relação a isso, mesmo na lei, com toda a certeza o fato de Julian e Mathias serem um casal homo afetivo interferia bastante na decisão do juiz.
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  Lian e eu sempre fomos muito unidos e confidentes um do outro, mas a verdade é que foi uma grande surpresa quando ele anunciou a mim e aos pais que era homossexual. Ele nunca tinha se deixado demonstrar sua orientação sexual até aquele momento, apesar de nunca ter falado muito sobre interesses amorosos ou aparecer com algum “peguete”, para mim, talvez ele fosse alguém como eu.
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  Foi convivendo com ele, meu melhor amigo, que percebi o quanto todos nós estereotipamos homossexuais como aqueles personagens de filmes e seriados afetados e com trejeitos femininos. Para algumas pessoas do nosso círculo social ainda é desconcertante saber que Julian é gay. E muito bem quase casado.
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  — Pense positivo, Lian — falei séria. — Nem parece o Julian que eu conheço com essa cara insossa e desanimada.
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  Ele gargalhou, mas por poucos segundos, o que ainda não era um bom resultado.
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  — Ora, vamos, se não der certo, ainda temos um ao outro — murmurei nosso velho bordão de quando ainda éramos adolescentes sonhadores.
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  — Mathias está ficando de cabelos brancos com a falta de ação em nosso processo — Julian disse bagunçando os cabelos, forma como ele expressava sua aflição.
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  — Vai dar tudo certo — disse, rezando em meu íntimo para que realmente desse certo.
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  Depois de alguns instantes em silêncio, Lian voltou-se para mim.
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  — E quanto a você?
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  — O que tem eu?
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  — Você e sua ideia maluca de inseminação artificial pelo banco de doadores.
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  — Até tu, Brutus? — resmunguei.
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  — O quê?
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  — Até você acha que é maluquice eu querer ter um filho sem ser da forma convencional? — perguntei um pouco indignada.
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  — Olha, Key, eu realmente não sou contra você querer ter um filho, mas acho que é bastante arriscado usar o banco de doadores de sêmen, você sabe... Não vai saber quem é o pai biológico da criança... E se ele tiver algum problema genético que não foi mapeado?
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  — Não me interessa nem um pouquinho quem será o pai biológico da criança e você me conhece, Lian. Acredito que se for para ser, simplesmente será — retruquei cruzando os braços e as pernas, um pouco emburrada.
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  — Eu sei, eu sei. Mas você poderia considerar a adoção também... — Ele deu de ombros.
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  Sim, eu realmente poderia considerar a adoção, mas desde os meus 25 anos eu tenho o sonho de ser mãe passando por todos os estágios — tirando a parte do sexo, claro — desde o possível enjoo das primeiras semanas até o esperado dia do nascimento do bebê. Queria amamentar e ninar, e ensinar coisas e também — admitindo um pouco de egoísmo da minha parte —, queria poder olhar para a criança e ver um pouco de mim nela. E por essas razões eu optei pela inseminação.
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  — Ok, isso não me diz respeito, é uma decisão sua, já saquei — Lian murmurou depois de eu ficar calada por longos instantes.
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  Sorri para ele. Por mais que o tempo passasse ainda nos entendíamos perfeitamente, mesmo sem usar palavras.
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  Ficamos em silêncio por alguns instantes até que o celular de Julian tocou. Era Mathias preocupado pela demora.
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  — Preciso ir, Keikey. — Ele se levantou e deu um beijo em minha testa como sempre fazia quando nos despedíamos. — Mathias preparou o jantar e parece que teremos vinho hoje.
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  — Poupe-me dos detalhes, Julian! — exclamei tacando-lhe uma almofada que sequer o acertou, já que ele já estava praticamente na porta de meu apartamento.
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  — Até mais tarde, Keikey! — cantarolou em meio a risinhos antes de fechar a porta.
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  E então, lá estava eu novamente, sozinha em meu apartamento... Com uma bela dor de cabeça querendo voltar a dar o ar da graça.
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  Nota: Um Bebê Para Lian & Key foi escrita em 2017 em menos de 30 dias para o desafio do Nanowrimo - foi a primeira e última vez que participei dele de forma satisfatória e completa kkk. Essa história é mais ou menos meu sonho de vida e de mundo perfeito HAHAH Eu sei que existem vários pequenos detalhes na história que não são bem como descritos aqui, mas vou usar de licença poética e deixar como está por enquanto :B

  Espero que gostem, porque eu amo essa família não convencional de forma muito especial <3

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Liv
  — Sou perfeitamente normal como toda mulher independente que apenas quer ter filhos e não sexo — retruquei." Leia mais »

ta certissima

Liv
  Suspirei pesadamente. Julian, assim como eu, não tinha — ou teria algum dia — uma família “convencional”. Lian é gay…" Leia mais »

que ódio disso, desse preconceito meu deus. Deixa eles serem felizes, ngm tem nada a ver com isso!!!!!!!!

Liv
  — Eu sei, eu sei. Mas você poderia considerar a adoção também... — Ele deu de ombros." Leia mais »

claro, mas deixa a gata passar pelos estágios, pelo o amor. é o que ela quer!!!!

Liv

LELEN, MIMDÁ A CONTINUAÇÃO!!!!!!
eu adoro uma família nada convencional, e quero saber muito como será o desenrolar dessa!!!!!!

Liv

Amo que as atts virão mais rápido!!!!! E tô adorando ver um pouco de cada personagem 🥹
Confesso que to super curiosa para saber como que virá a ideia dos bests terem um baby, inclusive, aceito spoiler u.u masssss, ja to aguardando a próxima att! E é óbvio que lerei até o final, não tem essa de desistir só pq o início eh meio parado 😠

Nara Souza

Eu tô amando isso aqui

Nara Souza
  — Sabe que existem muitos contra o nosso tipo de família, Key. E receio que o encarregado de avaliar nosso…" Leia mais »

Ok, ele é gay e ela assexual?

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