Capítulo 5
A pilha de documentos sobre a mesa de
%Alex% %Vance% crescia a cada dia, e não eram apenas relatórios de casos atuais. A frustração com a estagnação da investigação da professora
Leslie Walsh, a vítima do Assassino do Pentagrama, era um fardo pesado. Liam Reid, com sua calma irritante, continuava a desdenhar das poucas pistas que surgiam, e a sensação de que estavam andando em círculos era sufocante. %Alex% precisava de um desvio, de algo que a tirasse daquele ciclo vicioso de impotência.
Foi assim que ela mergulhou de cabeça no
cold case de Emily Whitaker. A pasta, amarelada pelo tempo, com o cheiro de papel velho e mofo, tornou-se sua obsessão particular. Emily havia desaparecido décadas atrás, uma criança, e seus pais,
David e Margareth Whitaker, haviam sumido logo depois dela. O caso era um buraco negro de informações, sem corpo, sem testemunhas, apenas a memória de uma tragédia não resolvida que assombrava os registros policiais.
%Alex% passava as madrugadas em claro, sua mente afiada e intuitiva encontrando uma estranha familiaridade naqueles arquivos antigos. Ela estudava cada depoimento, cada nota da polícia da época, tentando enxergar o que os detetives de outrora não haviam visto. Havia algo naquele caso que a puxava, uma conexão quase inexplicável. Ela sentia a angústia dos pais de Emily, a dor de um desaparecimento sem respostas. Mal sabia %Alex% que essa dor era um eco distante de sua própria história, e que os nomes
David e Margareth Whitaker eram, na verdade, os nomes de seus próprios pais,
John e Lorraine %Vance%, antes que a vida os obrigasse a assumir novas identidades e enterrar um passado doloroso.
A ironia era brutal: enquanto %Alex% buscava a verdade sobre uma família desconhecida, a verdade sobre sua própria família estava ali, impressa em letras desbotadas nas páginas daquele
cold case.
Aquele mergulho nos arquivos antigos estava sendo um bálsamo para a frustração de %Alex%, um escape da rotina opressora da Divisão de Homicídios. Ela estava no meio da leitura de um relatório forense sobre as poucas evidências encontradas na casa dos Whitaker, tentando decifrar o que pareciam ser vestígios de solo incomuns no tapete da sala, quando o telefone tocou. Era
Liam.
A voz dele, geralmente tão composta, estava com um tom de urgência contida.
— %Alex%, temos outro. Parque Central. O mesmo modus operandi. Você precisa vir agora.
Um arrepio frio percorreu a espinha de %Alex%. Outro. O Assassino do Pentagrama havia atacado novamente. Ela sentiu uma mistura de pavor e uma estranha determinação. Pavor pela vida inocente perdida, determinação por saber que, agora, ela tinha uma nova chance de pegar o monstro.
Em poucos minutos, %Alex% e Liam estavam a caminho do Parque Central. A madrugada ainda era escura, mas as luzes azul e vermelha das viaturas já perfuravam a névoa, pintando o cenário com uma aura surreal. O parque, geralmente um lugar de lazer e descontração, estava transformado em uma cena de crime macabra.
O corpo, o de uma mulher loira de uns quarenta e poucos anos, estava deitado no centro de um gazebo de ferro forjado. Era um
déjà vu sinistro. A cena era quase idêntica à de Leslie Walsh: o corpo
limpo, sem uma gota de sangue aparente, envolto em
arame farpado, e, no peito, um
pentagrama perfeito desenhado com pigmento vermelho escuro. O ar carregava um cheiro quase imperceptível de ozônio, ou algo metálico, que %Alex% não conseguia identificar.
Dra. %Charlotte% Hayes já estava lá, com sua equipe da perícia, os olhos sérios, a postura profissional. Ela se inclinou sobre a vítima, examinando-a com uma lupa.
— Mesmo padrão, %Alex% — %Charlotte% confirmou, sem rodeios, enquanto %Alex% se aproximava. — Cloreto de potássio na veia jugular, parada cardíaca instantânea. Sem marcas de luta. Corpo transportado para cá depois do óbito. E a agulha... a mesma com o resíduo de polímero sintético.
%Alex% sentiu a onda de frustração. Era ele, de novo. E a impotência de antes ameaçava voltar.
— Mais uma professora de jardim de infância, %Charlotte%? — %Alex% perguntou, a voz quase um sussurro. Aquele detalhe, agora mais evidente, apertava o cerco. As duas vítimas tinham a mesma profissão. Não era coincidência.
%Charlotte% assentiu, seus olhos sérios fixos no corpo.
— Sim. Identificada como
Sarah Jenkins, 42 anos. Arquiteta. Mas a ficha dela no RH do último emprego indica que ela foi
professora de jardim de infância por 15 anos antes de mudar de carreira há uns três anos.
%Alex% sentiu um choque. O padrão era real. Duas professoras de jardim de infância. Uma ex-professora. Isso mudava tudo. O assassino tinha um critério.
— Mas tem algo diferente desta vez — %Charlotte% continuou, apontando para a mão direita da vítima. — Nenhuma digital aparente na agulha ou nos ferimentos, ele é impecável. Mas veja isso. — Ela, com luvas, moveu ligeiramente a mão da mulher. No pulso, disfarçado entre as voltas do arame farpado, havia um minúsculo entalhe. Parecia quase uma marca acidental, um arranhão superficial, se não fosse pela sua precisão geométrica. — É uma inscrição. Quase imperceptível. Tive sorte de o ângulo da luz pegar bem agora.
Liam se inclinou, seus olhos cinzentos focados no pulso da vítima. Ele não disse nada, mas %Alex% notou uma leve contração em sua mandíbula.
%Alex% se ajoelhou, ignorando o arame farpado que roçava a pele de seus joelhos sobre a calça. Ela pegou uma lupa pequena de seu kit e focou no entalhe. Não era uma letra "E", nem um símbolo matemático óbvio. Era uma forma complexa, mas distinta:
três linhas paralelas, uma delas levemente curvada no topo, e uma pequena intersecção transversal no meio, formando um quase "T" invertido sobre as linhas. Um desenho único, que parecia intencional, mas discreto.
— É a marca dele — %Alex% concluiu, a voz baixa, mas firme. Seus olhos se moveram para o pentagrama no peito, depois para a estranha marca no pulso. — Ele está evoluindo. Ou... ele está tentando nos dizer algo mais. O pentagrama pode ser uma distração, e essa é a verdadeira pista. — A cabeça de %Alex% começou a girar, conectando pontos que antes pareciam aleatórios. A precisão dos pentagramas, a limpeza dos corpos, a substância incomum. Era tudo sobre controle. E o que era controle sem uma mensagem?
A detetive sentiu uma descarga de adrenalina. A frustração que a consumia nos últimos meses começou a se transformar em uma centelha de determinação. O caso de Leslie Walsh não estava frio. Ele estava apenas aguardando a próxima peça do quebra-cabeça. E aquela pequena, quase invisível, inscrição no pulso da vítima era essa peça.
— %Charlotte%, preciso de uma ampliação de alta resolução desse entalhe. E um perfil completo da Sarah Jenkins. Liam, vamos voltar para a delegacia. Preciso da ficha de todas as vítimas recentes que se encaixem nesse perfil de professoras de jardim de infância, não apenas as do pentagrama. E quero que a gente mergulhe fundo no histórico de patentes de agulhas com polímeros sintéticos. Não importa o quão obscura seja a aplicação.
A chama da investigação se reacendeu nos olhos de %Alex%. Ela sentia que, pela primeira vez, não estava apenas correndo atrás de sombras. Havia um padrão ali, uma linha, uma... profundidade oculta. E ela estava determinada a encontrá-la. Mal sabia ela que essa "nova" pista era, na verdade, uma peça de um jogo muito maior, meticulosamente orquestrado, e que a ligava diretamente a um passado que seus pais tanto se esforçavam para enterrar. O "Assassino do Pentagrama" não era apenas um criminoso; era um mensageiro, e a mensagem estava apenas começando a se revelar.