×

ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

STRAY SOULS

Escrita porLysse
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

XI • Monsters in my mind.

  imortal

  1. que não está sujeito à morte; não mortal.
  2. que dura ou parece durar infinitamente.

  Isabella Swan era humana – aquela garota humana de cheiro delicioso, pelo menos Edward imaginou isso, enquanto a garota demonstrou uma força sobrenatural que nem mesmo os mais habilidosos dos vampiros tinham quando arrastou Laurent para fora do campo de visão dos Quileutes em apenas alguns minutos. A mesma garota que tinha um sorriso tímido, falas suaves e, entre os irmãos, era a que menos gostava de Forks.
  Um bulgasal – um ser amaldiçoado ao acaso a lembrar de todas as vidas que viveu, ao mesmo tempo em que não sorriu quando o viu, parecia entristecida por alguma coisa quando cruzou as portas daquela casa cercada de pessoas que eram como ela.
  Amaldiçoados pela eternidade.
  Entre todos os novos visitantes, Isabella parecia ansiosa demais.
  Quando Isabella encarou Edward, o rapaz de 17 anos imortais encarava a garota que estava em seus pensamentos mais profundos desde que cruzaram os caminhos com ele, a qual Edward Cullen pensou que fosse a pessoa mais perigosa do planeta.
  Percebeu a pele pálida machucada e a qual era marcada pelo arroxeado sobre o braço. Isabella o encarava com olhos castanhos mais profundos, enquanto percebia a tensão que provavelmente emanava dele.
  – Eu sinto muito por mentir pra você.
  – Eu acho que estamos quites, de certa maneira, Bella – Edward riu, enquanto as informações ainda penetravam em sua linha de raciocínio, ao mesmo tempo em que ela parecia confortável e, antes que controlasse a própria língua, a pergunta escapou de seus lábios – Quantas vezes você teve 17 anos?
  – Por que as pessoas são sempre curiosas sobre esse aspecto dos bulgasais? Quando a idade se tornou um ponto irônico e hierárquico criado para subjugar os mais jovens? – ela soou irônica enquanto apenas pegava o copo de água – Algumas vezes eu cheguei aos 100 anos de idade. Foi uma longa vida em que vivi com os meus mais próximos como filhos, netos e bisnetos. Pelo menos umas 10 vezes, isso eu posso contar, mas quantas vezes eu tive 17 anos? É uma pergunta inadequada. A última vez foi em 1967, e eu morri em 1987, se você estiver pensando em fazer essa pergunta. É durante a delicada concepção que nossas almas se ligam aos novos corpos.
  – Você sabia que eu era um vampiro? – murmurou ele, em tom curioso, enquanto a garota apenas não sorriu de imediato – Como?
  – Sua espécie tem características notáveis demais, apesar da sedução e de ser um dos predadores mais perfeitos que existem, Edward – Isabella respondeu em tom suave, enquanto sorria – O cheiro, mas a tonalidade da pele é bastante comum entre os seus. Bulgasais têm olhos afiados, e somos tão discretos que quase nenhum vampiro reconhece a gente.
  Edward encarou a garota, enquanto a humana frágil movia os dedos sobre a xícara que segurava, os olhos profundos fixos na chuva constante da madrugada, as olheiras suaves embaixo dos olhos, ao mesmo tempo em que observava Edward.
  – Por que vocês?
  – Eu me fiz essa pergunta no passado, mas, como um bom sábio hippie me disse: “Viver uma vida após a outra, e isto é o que podemos fazer por incontáveis vidas” – Isabella não sorriu, enquanto as lembranças surgiam em sua mente, entre os gritos de alegria e dor – Teve uma vez em que acreditei que morreria, foi durante as Guerras Púnicas, mas eu nasci novamente num corpo novo e puro. Desisti de acreditar que a minha habilidade iria cessar um dia, assim como a sua sede jamais deveria ser subjugada.
  – Você deseja que isso acabe?
  Edward encarou Isabella Swan pela primeira vez com uma resolução sobre seus pensamentos, uma alma imortal que jamais morreria. Bella soltou uma risada enquanto imaginava o que ele estava pensando.
  – Eu não sei. Na verdade, eu gosto da minha vida. Das lembranças. Eu quero lembrar da minha mãe.
  – Sua mãe?
  – Minha primeira mãe, é um laço que nenhum de nós quer esquecer – murmurou Bella saudosa, em tom suave, ao mesmo tempo em que ria, os olhos castanhos fixos no passado como se a visse naquele momento – Eu nasci numa lua de sangue, a segunda filha do diabo, como dito nas más línguas do povo em que nasci. Éramos parte de uma tribo antes mesmo da existência do Estado de Shi, na antiga Era do Bronze, na China Antiga.
  “Minha avó estava prestes a nos matar, eu e Cassius, enquanto minha mãe começou a gritar de novo quando sentiu que deveria expulsar novamente algo de sua barriga. Era incomum para a época: gêmeos. Então, imagine três crianças nascidas numa lua de sangue? Éramos os filhos do diabo, aqueles que destruiriam a Terra. Uma das coisas engraçadas que a minha mãe disse foi que eu e Cassius paramos de chorar no momento em que %Elizabeth% foi colocada ao nosso lado. Ela era a menor dos três, a mais frágil e a que provavelmente morreria primeiro”, a voz de Isabella soou como uma antiga cantiga de ninar, enquanto os lábios se moviam contando a história. “Nossa avó estava prestes a nos matar quando a criança segurou a barra da roupa que ela usava. %Elizabeth% a encantou naquele dia.”
  – Encantou?
  – Minha irmã tem a habilidade inata de seduzir as pessoas com apenas um olhar. O cheiro, os olhos dela, tudo nela seduz as pessoas, tanto que até mesmo o mais violento dos homens poderia destruir tudo por ela – murmurou Isabella – Uma habilidade inata que causou a morte dela várias vezes antes de conseguir se defender sozinha.
  – Contando histórias de terror? – murmurou Bree em tom suave – Sua irmã seduzia pessoas desde que nasceu neste mundo. E eu fui uma delas.
  Isabella soltou uma risada. Desde pequena, a garota encantava as pessoas.
  – Nem me fale. Ela foi a ruína de vários estados. Melhor dormirmos, Bree.
  – Isabella, o que houve com seu pai?
  A curiosidade dele falou mais alto, enquanto a garota não sorriu. Os olhos ficaram afiados, entretanto, a voz que respondeu foi a amarga voz de Bree.
  – Eu o matei na minha terceira vida. O desgraçado destruiu a vida da esposa e dos filhos, os vendeu como porcos de guerra.
  – Eu o vi duas vezes antes de ele morrer no álcool. Ele morreu velho, no próprio sangue, e sua vida como meu pai morreu – murmurou Isabella em tom suave, ao mesmo tempo em que os olhos de Bree faiscavam – Eu consegui vê-lo… Uma vez como escravo nos rios do Nilo, outra vez ele nasceu como uma criança durante a guerra, e nós o resgatamos. %Elizabeth% o criou durante um tempo antes de morrer.
  – Ela sempre foi empática. Eu o teria matado no momento em que o visse – murmurou Bree, os olhos fixos nele – Mas aqueles que não têm suas memórias do passado não precisam sofrer pelos pecados do passado. Vamos, Bella?
  Bella se afastava lentamente.
  – Até logo, Edward.

X

  – Oi, pai. Nós estamos fazendo compras.
  A voz de Cassius soou falsamente animada com a tarefa enquanto bocejava, ao mesmo tempo em que a voz de Charlie Swan soava em sussurros do outro lado da linha.
  – %Elizabeth% está experimentando uns vestidos, roupas, e compramos alguns livros. E, pai, nós iremos ver sobre a competição de CTF. A Sra. Harold comentou que poderia demorar um pouco… – ele continuou enquanto tocava os cabelos, a coloração incomum sobre as unhas enquanto Alice o observava. Cassius não agia como um adolescente de 17 anos, seus olhos eram intensos e afiados, um soldado – A Sra. Harold está aqui comigo, e eu estava pensando que poderíamos voltar na segunda de manhã. %Elizabeth% irá testar alguns computadores para levarmos um para casa, para ela treinar. E você sabe como é %Elizabeth%, ela é muito chata, então podemos retornar na segunda?
  O silêncio durou alguns minutos quando os olhos dela cruzaram com os dele, enquanto Alice ainda o observava – os cabelos castanhos mais claros do que os das irmãs, enquanto os olhos eram idênticos aos de Charlie. Ele usava as roupas de Emmett, e tinha os ombros mais largos do que poderia imaginar.
  – Eu posso pedir para ela falar com o senhor, se quiser, pai. Caso não se sinta confortável, a gente volta hoje mesmo.
  Enquanto movia as pedras brilhantes em suas mãos, a manhã de sábado passou rapidamente com as horas, enquanto Bree dormia sobre o sofá segurando a mão de Isabella, que tinha as costas eretas contra o sofá onde a cabeça descansava próxima à dela.
  Frederick estava dormindo no chão, com a mão apertando a dela, enquanto %Elizabeth% observava a chuva cair com a cabeça apoiada na cadeira.
  – Ok, Bells disse que tem comida para o senhor hoje e amanhã no congelador, é só esquentar. %Elizabeth% disse que ela vai saber se o senhor comeu comida inapropriada, pai, então acho que seria bom comer o que elas cozinharam – murmurou enquanto observava o céu – E eu sei. Certo, eu te amo, pai. Até segunda.
  E fechou o celular enquanto encarava as duas –, então ouviu-se o choramingo. Ela chorava. Antes que alguém pudesse reagir, Laurent estava ao seu lado, os olhos avermelhados fixos nela.
  – Laurent.
  – Silêncio.
  A mão tocou a mente dela – Laurent ouviu a respiração pesada dela. Os dedos começaram a brilhar, a cor azul se movia, enquanto a mente turbulenta de imagens se acalmava.
  Os sonhos que preenchiam a mente eram suaves.
  – Há quanto tempo ela tem pesadelos?
  – Desde os sete anos – murmurou Cassius, enquanto os olhos dele se fixavam nele como se não se preocupasse com a aproximação repentina. Naquele segundo, Laurent suspirou profundamente – Ela tem TEPT, o que não é incomum ou raro para um de nós. Afinal, quem iria querer reviver os piores momentos da própria vida?
  – Eu estou curioso – Eleazar soou enquanto observava o homem – As suas habilidades…?
  – Eu posso manipular sonhos. Não tão bem quanto ela, mas posso modificar as lembranças de acordo com a minha vontade também. Entretanto… eu não consigo ler a mente das pessoas como ela – murmurou baixo enquanto segurava a mão dela. Cassius tinha as mãos sobre as pedras – Eu não irei machucá-la. Ela foi minha filha… Ela é minha filha. Então, deixe-a dormir sem pesadelos hoje, podemos?
  – Se você pensar em tentar matá-la, eu arrancarei a sua cabeça, Laurie. Mais de 700 anos em exércitos, e não pense que eu não teria como fazer isso ou que eu tenha qualquer compaixão, Laurie — murmurou Cassius em tom suave enquanto se sentava ao lado de Isabella e ajeitava a colcha grossa sobre ela – Ela é minha irmã mais nova, Laurie. Desde a primeira vida.
  Irina Denali tinha uma impressão profunda daqueles olhos, e o homem não desviou deles nem por um minuto, como se fosse atraído por ela. Laurent não era uma pessoa humana comum, suas habilidades de observação eram melhores do que pensou, entretanto, Irina sentiu aquela sensação estranha entrar em suas veias.
  Irina, se pudesse sentir qualquer emoção humana que transparecesse sua vergonha, provavelmente ficaria vermelha com aqueles olhos de bebê que possuíam uma expressão severa, e o som de sua respiração pesada enquanto a garota dormia tão profundamente.
  – Que tal movê-la, Laurent? Ela parece desconfortável.
  Esme sugeriu enquanto segurava uma colcha grossa, enquanto os fios caíam pelo rosto dela, e Laurent sorriu ao mesmo tempo em que se erguia.
  – Eu irei caçar. Cassius.
  – Eu irei tomar um café, e tem alguns cervos a noroeste daqui, pelo menos foi o que %Elizabeth% comentou mais cedo.
  Laurent e Irina desapareceram ao mesmo tempo em que Cassius encarava Carlisle Cullen com atenção. Ele estava sem sono enquanto bebia a xícara de café ao mesmo tempo em que ouvia os sons dos animais do lado de fora da casa. Os Quileutes ainda estavam rondando ali, como caçadores na savana. Apenas sentiu a memória muscular, e se recordava das lutas tribais que ocorriam quando lutavam pelo poder.
  Cassius não gostava daquela analogia de que eles estavam sendo caçados pelos cachorros superdotados, enquanto apenas observava pela janela. A chuva constante caía ao som dos raios e trovões que cercavam a Península Olímpica.
  – Você precisa dormir também.
  A voz de Carlisle soou enquanto o rapaz de 17 anos parecia mais velho do que deveria com o copo de café entre os dedos. O líder da família Cullen se sentou à mesa, enquanto havia corpos de crianças adormecidas numa casa em que ninguém dormia.
  Uma ironia. Cassius suspirou.
  – O que deseja, Dr. Cullen?
  – Me chame de Carlisle – murmurou o homem, os olhos castanhos escuros fixos nos dele enquanto sorria – Bulgasais… Eu gostaria de saber a história por trás de vocês.
  – Isso pode demorar, Dr. Cullen. Existem histórias curtas, mas a minha história é tão longa quanto as areias do tempo. E você ainda deseja conhecê-la?
  – Se isso não machucar você.
  – Eu nasci numa época em que o mundo ainda não entendia os dias. As pessoas contavam as noites de lua para a fertilidade, para a contagem dos anos, amaldiçoado pela minha avó quando nasci durante uma lua de sangue – ele comentou em tom ameno enquanto sorria – Se você quer saber por que nós somos bulgasais, não me pergunte. Eu passei quase 700 anos da minha existência tentando aprender o quê, como e onde. E, o mais importante, por quê? Ninguém conseguiu responder em mais de 5 mil anos de existência. Alguns acham que é uma dádiva, outros uma maldição. Estamos vivendo uma vida após a outra pelos pecados que cometemos, e as divindades acorrentaram as nossas almas neste mundo para sempre.
  – Vocês são quantos? Como se reconhecem?
  – Bulgasais são muito mais discretos do que vocês, vampiros ou lobos. Temos um cheiro único e, algumas vezes, podemos ver a alma de nossos compatriotas quando os encontramos, mas, com nossas habilidades, bulgasais são vistos de maneira diferente pelos olhos – murmurou Cassius enquanto sorria – Mais de 300 almas ganharam a habilidade de lembrar de todas as suas vidas passadas, provavelmente mais. Alguns aprenderam a viver tais vidas, com o passar dos anos, uma vida de cada vez.
  – Suas habilidades?
  – Com o passar das vidas, percebemos as mudanças na nossa mente. Aprendemos a usar o melhor do ser humano com as habilidades que adquirimos ao longo dos anos vivendo. %Elizabeth% conseguia ouvir pensamentos, e isso quase a enlouqueceu quando começou a ouvir os segredos mais obscuros da alma humana – ele bebeu um gole de café e suspirou profundamente – Eu consigo criar um escudo físico, entretanto, outras habilidades também se desenvolvem dependendo da afinidade do usuário. Odiosamente, Aro Volturi é um dos melhores leitores de mente que conheci em minha vida, apesar da tendência dele de achar que tudo gira em torno do poder, apesar de ele não ser a criatura mais perigosa que existe neste planeta.
  – Não é?
  – Existem vampiros muito mais antigos e muito mais teimosos, mas o que você faria se houvesse um bulgasal capaz de dominar o mundo? – murmurou Cassius enquanto enchia mais uma xícara de café – Mas esses deixam o mundo mundano para viver nas profundezas da China, e são raras as vezes em que saem, enquanto Hub os mantém entretidos com sangue doado. Alguns dizem que eles tiveram filhos que são bulgasais, e essa é a origem dos bulgasais, de vampiros tão antigos quanto o papiro, mas isso são boatos que não sabemos se têm fundo de verdade.
  – Doado?
  – Bulgasais doam seu sangue para eles.
  – O que houve com seus pais?
  – Nossa primeira mãe morreu depois de três vidas, em torno dos 60 anos, quando eu tinha 30 anos na minha terceira vida – murmurou ele em tom suave – Ela era jovem demais quando deu à luz a nós e nos criou pelos primeiros 12 anos de nossas vidas antes de sermos vendidos como escravos para a guerra. Nosso pai, pelas palavras de nossa avó, foi quem causou nossa maldição.
  – Seu metabolismo?
  – Richie deve saber melhor. Após séculos, ele e Nora sabem como nosso corpo funciona, afinal, eles são os experts nesse assunto – comentou de maneira branda ao mesmo tempo em que começou a bocejar – Conseguimos desenvolver algumas coisas ao longo dos séculos.
  – Carlisle, já chega dessa conversa com ele. Ele está cansado.
  A voz de Esme soou enquanto o homem percebeu o rosto cansado dele. Foi então que ele cutucou o garoto adormecido. Os cabelos negros de Fred caíam sobre os olhos enquanto ele se levantava, esticava os braços e resmungava.
  – Eu irei queimar esses cachorros superdotados.
  – Fred.
  – O quê? – ele encarou Cassius enquanto apenas respirava fundo – Não se preocupe, eu não irei matar ninguém como nas Guerras Púnicas.
  Frederick apenas se sentou enquanto movia as pedras ao redor da casa como se não fossem nada, ao som das árvores, ao mesmo tempo em que os pedaços de madeira cresciam com espinhos como rosas.
  Esme percebeu o jardim vivo e, como se fosse um aviso, Frederick seria um dos bulgasais mais perigosos que eles cruzaram.

X

  Frederick movia as plantas. Ele sentia a vida correndo por aqueles galhos, enquanto aquelas velhas amigas de outrora sorriam para ele. Entre todas as suas habilidades, ouvir a natureza era um dos dons mais pacíficos, enquanto se lembrava do som do Mar Cáspio quando era mais jovem.
  Em tempos em que ele podia sonhar com um futuro glorioso que jamais veio, o som dos pássaros soava alto, enquanto a natureza se escondia dos seres da escuridão, e as árvores ressoavam. Uma a uma, aqueles galhos se uniam; as flores que nunca nasceram naquele solo pareciam florescer sem qualquer problema, enquanto os espinhos cresciam lentamente, e a mais letal das flores se formava ali, naquele local cercado de escuridão.
  Isso não seria o suficiente, mas pelo menos impediria que aqueles cães se movessem livremente sem que ele soubesse. As raízes começaram a crescer enquanto passos suaves se aproximavam.
  O clã dos Cullen era um dos maiores que já vira depois dos Volturi, enquanto as relações sociais eram muito diferentes do que imaginara para um grupo de vampiros que se unia aos Denali. Ele sentia a curiosidade de Tanya sobre ele; os pelos de seu pescoço se eriçaram lentamente, enquanto a mulher estava sentada no chão, próxima à porta, observando suas costas.
  – Senhorita Denali – murmurou com uma falsa cortesia que faria o grande tutor imperial Wan pensar que ele sempre fora educado daquela maneira – O que deseja de mim?
  Tanya ficou longos minutos pensando. Frederick teria rido de tal curiosidade no passado, enquanto apenas se virava para ela, e a pergunta soou ingênua demais até mesmo para ele.
  – Quantos anos você tem?
  – 18 anos oficialmente – murmurou o rapaz, aquela voz baixa e grossa – Eu perguntaria a sua idade, mas acredito que tenha idade próxima à de um dos meus netos durante a Era do Bronze.
  Tanya observou-o se virar para ela, os cabelos escuros como a noite, ao mesmo tempo em que os olhos eram tão negros quanto o breu. Fred tinha um corpo encorpado, enquanto seus olhos não mudavam.
  – Me chamo Tanya.
  – Frederick – ele respondeu ao acaso, enquanto pegava a flor negra que cresceu, o dedo tocando seus espinhos – Gosta de flores?
  Frederick ofereceu a flor, enquanto observava os olhos dourados com atenção. Ela tinha um rosto fino. Uma beleza perigosa que faria o mais sensato dos homens perder a sanidade, mas Frederick já desfrutara de mais maçãs do que podia se lembrar.
  Ele sempre fora um homem promíscuo, que gostava de estar entre as pernas das pessoas quando estava livre das amarras sociais no passado, e, algumas vezes, isso lhe custou a cabeça.
  – Há quanto tempo você anda por estas terras? Você tem alguém?
  – Quase 3800 anos entre vidas e vidas – riu-se, o tom desapegado soando de sua boca – Eu vivi uma vida de prazeres, assim como muitos, mas eu me casei, se é isso que quer saber. Casei-me com %Elizabeth% mais vezes do que poderia imaginar. Ela foi minha mulher, eu fui marido dela e vice-versa. Bulgasais podem nascer com um gênero diferente a cada vida. Se um dia eu me perder na escuridão, tenho certeza de que %Elizabeth% estaria comigo.
  Ele sorriu ao pensar nisso, no rosto dela coberto pelo véu vermelho, ao mesmo tempo em que Tanya sentiu aquela sensação estranha dentro do peito, como se odiasse a resposta, enquanto Fred a observava com atenção.
  Uma curiosidade inata. Entretanto, seu coração morto e congelado por quase 3 mil anos naquela terra não valeria de nada naquele segundo.
  – Ela acordou.

Guerras Púnicas 280 a.C.

  O menino era jovem demais para estar naquele local ao qual era arrastado para uma das valas repletas de corpos de guerreiros que perderam suas vidas naquele lugar que as deidades transformaram em um campo de batalha.
  Era um menino miúdo arrancado dos seios de sua mãe para viver aquele inferno de guerra, no qual seu povo morria com falsas glórias. Ahumm observava os homens sujos do sangue de seus companheiros de armas, ouviu os lamentos daqueles que perderam a vida durante aquelas guerras sangrentas que seus líderes lutavam por uma liberdade que, pouco a pouco, era perdida.
  Jogou a terra, seguiu as tradições, enquanto ouvia os choros daqueles que perderam naquele mundo para a espada, apenas se ajeitou na rocha mais próxima enquanto apertava os lábios.
  Yehomilk estava certo sobre aquele mundo, enquanto as vidas que viveu pareciam lembranças distantes demais. Apenas observou o céu cheio de nuvens de tempestade e pedia aos deuses que terminassem aquela vida amaldiçoada.
  Mas Ahumm sabia que jamais teria seu pedido realizado, enquanto o grito soou, e mais uma vez estavam em guerra.
  Acordou daquele sonho com os dedos doloridos de uma guerra que ocorreu anos atrás. Ahumm não era ela, e ela não era ele. O sol estava alto, já na metade do dia. %Elizabeth% coçou os olhos enquanto observava os olhares curiosos sobre ela, afinal, era estranho ter tido um sonho como aquele sem gritos ou pessoas morrendo ao seu lado.
  O som do seu estômago a assustou, ao mesmo tempo em que o prato com cheiro indescritível foi colocado à sua frente. A mulher de olhos gentis e rosto em formato de coração parecia ansiosa demais.
  – Eu achei que estaria com fome.
  – Obrigada – ajeitou-se enquanto se sentava como antigamente, pegou o prato com o garfo e começou a cortar a carne que cheirava maravilhosamente bem – Laurie?
  – Ele foi caçar faz algumas horas. Seguiu seu conselho, querida – murmurou Esme de maneira amorosa, enquanto %Elizabeth% mordia a carne – Está bom?
  – Está ótimo – comentou em tom surpreso, enquanto sua fome era maior do que imaginava, ao mesmo tempo em que ouviu o som do lado de fora – Ele não desiste.
  – Acordou, docinho – a voz de Frederick soou falsamente animada, enquanto ela percebeu o rosto dele contraído em uma falsa esperança – O que acha de nocauteá-los?
  – Há quanto tempo eles estão aqui?
  – Algumas horas. Dois deles retornaram, enquanto os outros dois são bastante persistentes. Um deles é um Black, afinal, eles ainda acham que são capazes de nos matar sem baixas.
  Fred soou irritado, como se aquilo ferisse seu ego. %Elizabeth% reconhecia a teimosia dos lobos, entretanto, eles deviam temer a própria vida. %Elizabeth% apenas mordeu as batatas, enquanto Esme observava a garota que não parecia surpresa em nenhum momento, apenas respirou fundo por um segundo.
  – Diga ao Sam Uley que ele deve trazer Billy Black até aqui. Senão, a tribo dele será queimada nas profundezas do inferno, afinal, eles quebraram o primeiro pacto – o tom da voz dela era calmo, enquanto Fred ria – Leve isto com você. Isso deve dar motivo suficiente para ele saber que não tem como vencer a mim ou a você.
  Fred saiu da casa, enquanto Esme parecia torcer os dedos.
  – Isso é necessário?
  – Sra. Cullen, se eles continuarem nos rondando, tenha certeza de que uma guerra explodirá entre vampiros e quileutes – murmurou ela em tom suave, ao mesmo tempo em que colocava os talheres sobre os pratos – É um fato que eles quebraram o pacto. Não importa quais pecados cometemos, eu ainda me lembro das minhas palavras.
  – Pacto?
  – Os Quileutes tentaram matar Diego, e mesmo que ele fosse um vampiro, eles não deveriam ter encostado ou se aproximado dele – murmurou a voz sonolenta de Bree, a garota se espreguiçou – Eles não deviam ter atacado primeiro. Essa é a razão pela qual eu poderia exterminar a tribo deles.
  Esme ponderou enquanto as duas garotas se levantavam. %Elizabeth% apenas seguiu para a cozinha, lavou os pratos e organizou os mesmos em seus devidos lugares. Esme Cullen observava suas costas.
  – %Elizabeth%, quantos anos você tem?
  – 17 anos – murmurou automaticamente, enquanto a mais velha torcia os dedos observando a resposta seca – Ah, minha idade mental, certo? Tenho 3774, se fosse por essa lógica, mais ou menos. Tem algumas vidas em que eu não consegui passar da primeira infância.
  – Você então viveu…?
  – Umas 300 vidas, provavelmente – murmurou ela enquanto parava o ato – Eu nunca contei, realmente. Algumas vidas eu vivi por completo, outras eu apenas morri.
  – Você sonha com essas vidas?
  %Elizabeth% percebeu Jasper na escada, enquanto ele observava suas costas. A garota apenas não sorriu.
  – As últimas vidas que eu desejo esquecer – disse em tom solene, os olhos verdes fixos na chuva do lado de fora, ao mesmo tempo em que sentia a confusão na mente da matriarca da família Cullen – Eu tinha uma alma gêmea. Todo bulgasal possui uma soulmate, aquela que é sua metade, a chama gêmea ou cara-metade. Eu não consigo mais senti-lo. Eu o perdi para sempre em uma das minhas vidas.
  Esme percebeu o rosto dela, enquanto um sorriso melancólico surgia em sua expressão, ao mesmo tempo em que apertava o próprio pulso. A vontade de chorar, ao mesmo tempo em que sentia a mão fria sobre seu rosto, a lágrima quente descendo por sua face.
  – O que está fazendo, Jasper?
  – Eu…
  – Eu não sou Lily Davis, Hale – avisou de maneira rude, enquanto se afastava dele, os olhos em brasa enquanto Fred aparecia na porta – Eu irei vestir algo.
  Frederick encarou Jasper Hale. Atrás dele, Tanya observava a postura defensiva da garota de 17 anos, ao mesmo tempo em que o rapaz encarava o vampiro com atenção, os olhos negros fixos na postura dele.
  – Se você está vendo um fantasma, eu diria para esquecer tal fantasma.
  Ela não era Lily Davis – Lily Davis era gentil, mas geniosa feito um cavalo selvagem quando tinha uma ideia plantada na cabeça, enquanto %Elizabeth% tinha aqueles olhos verdes indiferentes a ele. Ao mesmo tempo, Jasper ficou parado no lugar quando sentiu aquela constatação.
  De que ele gostava de %Elizabeth% por aquele gênio, os olhos intensos verdes fixos no horizonte como se ela fosse desaparecer a qualquer momento, mas ele não pensou em Lily Davis nas últimas semanas como pensou que ocorreria. Talvez ele precisasse de mais tempo, afinal, %Elizabeth% Swan tinha um gênio diferente do que imaginou.
  Ela não era gentil, mas afetuosa quando queria.
  No meio da cozinha, “Eu não sou Lily Davis”, a frase escorria raiva, uma raiva que ela não transbordava, ao mesmo tempo em que ouviu o som do motor ao longe. %Elizabeth% colocou o casaco emprestado de Rosalie, os cabelos presos em um coque longo, enquanto os fios caíam pelo pescoço exposto da menina.
  Frederick observava os dois enquanto vestia a máscara japonesa sobre a cabeça, colocou a camisa de gola alta sobre a boca, ocultando parcialmente sua face. %Elizabeth% encarou sua máscara de raposa quando a colocou, ao mesmo tempo em que o som ao longe foi ouvido.
  – Ele chegou.
  – Rápido – murmurou Fred, colocando sua máscara sobre o rosto, com os olhos amarelados surgindo. Jasper estava com os olhos fixos nela – E ela é mais perigosa do que eles, então não se preocupe.
  Ao mesmo tempo em que ouviu o som das plantas se movendo do lado de fora, %Elizabeth% ouviu o som das rodas da cadeira.
  – Olá, Bill.
  A chuva diminuía drasticamente enquanto encarava as duas sombras ali perto da casa moderna no meio da floresta, na qual a primeira pessoa que viu era miúda demais para a idade. Ao mesmo tempo, Billy sentiu nos ossos aquela sensação de desespero.
  Billy Black sempre soube que havia algo de errado com os filhos de Charlie em um dos seus instintos mais profundos. Um dia, eles mudaram completamente da água para o vinho, enquanto os trigêmeos demonstraram interesses diferentes de crianças de nove anos.
  Charlie falava pelos cotovelos da genialidade dos filhos pouco tempo depois do aniversário de 10 anos. Cassius dominou judô, karatê e mais algumas artes marciais com menos de um mês de treinamento.
  De como Isabella era proficiente em francês e espanhol com poucas semanas estudando, ao mesmo tempo em que %Elizabeth% se tornava um gênio na cibersegurança, entretanto, com dons para música e artes através dos dedos.
  E todos com notas impecáveis.
  Uma genialidade que não fazia sentido, enquanto os quadros infantis se transformaram em grandes obras de arte com o passar dos anos para os aniversários de Charlie. Billy sentia nos ossos que enxergava almas velhas em corpos infantis.
  A primeira vez que os viu, talvez imaginasse que ela tivesse sido possuída pelo demônio. Ele encarou a garota com atenção quando desceu do carro com ajuda de Sam. Os temores em suas mãos o agonizavam, enquanto a conversa que teve com Jacob mais cedo soava em sua mente – filha de Charlie. Enquanto torcia o nariz ao perceber como ela estava cercada de pessoas de má índole como os Cullen, a garota tinha uma máscara sobre a cabeça em formato de raposa.
  Billy Black ouviu o som da pedra que ela chutou, as mãos sobre uma arma velha, ao qual ele não esperava que ela fosse ameaçar a vida de pessoas inocentes.
  – %Elizabeth%.
  – Olá, Billy. Como você está? Jacob se tornou um dos transformados – murmurou ela calmamente, enquanto os olhos amarelos fixos nos dele, a tonalidade completamente diferente do tom dourado dos Cullen, enquanto as marcas ao redor dos olhos dela se intensificavam à medida que ela andava em passos lentos numa linha única – Seu povo realmente gosta de brincar com a morte, afinal, vocês quebraram o pacto com os bulgasais.
  Billy ouviu a palavra enquanto a garota o encarava, os olhos amarelos fixos nele, enquanto suspirava. %Elizabeth% sentiu os olhos de todos nela, Bella e Cassius no canto, enquanto Fred e Bree estavam prontos para atacar a qualquer momento.
  O clã Cullen observava com ansiedade, ao mesmo tempo em que Irina e Laurent estavam no canto. O homem observava os movimentos dos lobos com atenção. Tanya tinha os olhos ansiosos sobre as costas do homem de máscara; Fred estava na mira deles.
  – Bulgasais são hereditários. Charlie não é um de vocês, então Renée…
  – Oh, meu Deus. Ephraim Black não explicou nada para vocês. Esse idiota… – o rosnado soou, os lábios dela sorriram – Quer me atacar, Paul?
  Paul era um dos felinos. Antes que ele pudesse se mover, Jasper se colocou na frente dela. O rosnado escapava de seus lábios.
  – Não preciso de proteção.
  – E eu não permitirei que nenhum deles se aproxime de você.
  As palavras que escaparam dos lábios dele causaram um comichão em seu estômago, enquanto %Elizabeth% sorria com aquilo de maneira estranha, ao mesmo tempo em que segurava os dedos dele como havia feito antes e estalava os dedos.
  – Vamos ao cinema.

Memória. Forks.

  – Onde nós estamos?!
  A voz masculina soou extremamente irritada, enquanto %Elizabeth% observava os três meninos lobos. Sam e Billy a observavam. Sam Uley estava prestes a se mover, enquanto %Elizabeth% apenas ria.
  – Eu estou em sua mente, garoto. Acha mesmo que eu não posso apagar toda a sua existência? – murmurou ela, os olhos fixos nele, com um sorriso diabólico – Mas eu não farei isso, porque prometi que não os mataria se não houvesse um bom motivo.
  – Não se preocupem, bebês – murmurou Bree, enquanto todos os pares de olhos se viravam para ela – Isso é chamado de memória da floresta. Todo ser vivo tem um estado de memória que sobrevive a todas as mudanças. Agora, observem. E não lutem, por favor.

  Billy os silenciou com o olhar, enquanto Jasper Hale observava aquela floresta com atenção. Era Forks em 1937. O solo coberto de musgo, as árvores que cresciam, enquanto a floresta parecia viva naquela lembrança.
  – Me sigam. Será uma longa caminhada.
  Os minutos se seguiram, enquanto ouviram o som de espadas. Dois rapazes lutavam um contra o outro com espadas samurais; em um canto, o terceiro rapaz estava entretido, observando o movimento das espadas. Os cabelos curtos, enquanto sorriam uns para os outros com falsa animação.
  – Puta merda, Joseph – a voz soou irritada, enquanto o garoto de nome Joseph parou de se mover com a espada e frustração no chão da figura que soava irritada – 500 anos, Jo. Você está trapaceando!
  A risada do terceiro elemento soou.
  – Não seja idiota, Robert – murmurou o rapaz, as roupas sujas de terra, enquanto se jogava nas costas de Joseph – Jo é muito melhor que você, e ele não precisa ler a sua mente.
  – Você quer brigar, Thomas? Só porque você é apaixonado por ele, não precisa esconder!
  Joseph suspirou, enquanto os dois começavam a discutir entre si.
  – Porque, diferente de você, eu treino – murmurou a voz masculina, e moveu a espada entre os dedos como se fizesse parte do seu corpo – Cada habilidade que adquiri, eu aperfeiçoei à perfeição.
  – Jesus, você é um mala, Jo. Eu sinto falta da Tang Xi – murmurou o rapaz de nome Robert, que tinha os cabelos loiros e os olhos azuis profundos – Eu achei que você seria mais legal nessa vida, Jo. Mas, puta merda, ainda é competitivo como na sua vida passada.
  – Qualquer pessoa é melhor que você, Bobby.
  Robert e Thomas começaram a brigar, enquanto suas risadas soavam altas. Carlisle reconheceu Robert como Diego, enquanto a risada escandalosa era uma característica dele, mesmo em diferentes corpos. Ao mesmo tempo, naquele ano, o garoto de pele branca havia aparecido do nada no pequeno hospital.
  Carlisle então encarou Joseph com mais atenção, os cabelos castanhos, enquanto os olhos claros fixavam o nada, onde ele e %Elizabeth% estavam parados. Ao mesmo tempo, a faca voou até ali, passando raspando por sua face.
  Joseph era bonito para a sua idade, aparentemente uns 20 anos.
  – O que você está fazendo aqui, Black?
  A voz soou séria e chamou a atenção dos rapazes que brigavam. Naquele segundo, Ephraim Black apareceu. O garoto segurava a espada samurai antiga em sua mão, enquanto os olhos amarelados mudavam. Billy engoliu em seco ao encarar seu ancestral tão perto de um bulgasal.
  – Eu vim conversar – a voz soou em inglês, o sotaque rude aos ouvidos, enquanto o rapaz de 20 anos o observava atentamente – Você é amigo daqueles vampiros. Eu vi ele com eles.
  Robert o observou, a espada em sua mão, enquanto o homem, que aparentava ser mais velho, observava-os, os cabelos longos, a roupa tribal, ao mesmo tempo em que Joseph e Thomas circulavam ao redor de Robert.
  – Sim, algum problema?
  – Eles…
  – O seu pacto não se aplica a nós – murmurou Joseph, os olhos amarelados fixos nos negros, enquanto Billy percebia algo: o rosto de seu avô parecia um reflexo de admiração por aquela pessoa – Não somos humanos.
  – Como vocês não…?
  A árvore cresceu no centro, a partir da mão de Thomas, e Tanya Denali reconheceu a flor que Fred lhe dera mais cedo.
  – A habilidade do meu colega é mais refinada que a minha, mas, como ele disse, não somos humanos, e o seu pacto não se aplica a nós – murmurou Thomas, enquanto sorria de maneira malévola – E as leis humanas não se aplicam a nós também. A morte não é o fim.
  – Ephraim Black, somos bulgasais, pessoas capazes de reencarnar com as nossas lembranças da vida passada – murmurou Robert em tom mais simpático, enquanto os dois rapazes pegavam suas máscaras. Naquele segundo, Jasper reconheceu Joseph – Carlisle e eu nos conhecemos há algum tempo, eu só vim visitá-lo. Mas, Ephraim, se cruzar com um dos nossos, não se envolva. Coisas terríveis acontecem com quem mexe com bulgasais, afinal, não temos qualquer problema em queimar uma vila inteira.
  – Não faremos mal à sua tribo – murmurou Joseph, os olhos amarelos fixos nele – Não desejamos interferir em seus negócios, mas avise aos seus que nenhum Quileute deve machucar ou caçar um bulgasal, e teremos paz.
  – E como vocês provam isso?
  Então, Joseph arqueou as sobrancelhas, enquanto a chama azul deslizou no ar, ao mesmo tempo em que entrava no corpo de Ephraim. O homem viu as lembranças daquela pessoa, enquanto lágrimas desciam por sua face.
  – O que é isso?
  – É um pedaço das minhas lembranças – murmurou Joseph, enquanto a marca na mão dele brilhava – Caso eu não cumpra a minha parte, apagarei as minhas memórias durante três ciclos de vida. E, caso os seus descendentes descumpram a sua parte, eu mostrarei o que mostrei a você. Acredito que não deseje que eles sintam o que eu sinto.
  – Joseph – ladrou Thomas, enquanto puxava a mão dele – O que está pensando? Você não pode fazer isso. Nas suas próximas vidas, você estará procurando o Ling Buyi.
  – Isso é uma punição justa, Ephraim Black?
  Jasper apertou os dedos dela, enquanto a puxava para seus braços. Havia certa dor naquela voz. Era um Joseph diferente de %Elizabeth%.

Meses antes. Xangai.

  – Não há necessidade de você vir aqui.
  A voz soava do outro lado da linha, o barulho da chuva constante em meados de maio, ao mesmo tempo em que Ouyang Xu pegava mais um livro em uma pilha infinita que estava nas estantes.
  – Eu acredito que devo aparecer e dar um aviso aos Cullen.
  – Diego pode dar esse aviso em breve – murmurou ela, enquanto Ouyang Xu ouvia o som baixo de violoncelo ao fundo – Você deveria continuar as suas pesquisas.
  – E o pret?
  – Ele não é importante. Não o suficiente para você mover a sua bunda até aqui – murmurou em mandarim, enquanto ele ouvia vozes em inglês – Não se preocupe, Lao Xu.
  – Como não me preocupar com a princesa? Yuze sente a sua falta.
  – Ela está bem? Vocês deveriam falar que não precisam de uma cerimônia.
  – Provavelmente, ela acha que relacionamentos com humanos são um desperdício quando podemos viver com a mesma alma pela eternidade, mas ama casamentos mais do que ninguém – murmurou ele em uma risada, ao mesmo tempo em que ouvia o sinal da escola humana que sua aprendiz frequentava – Acredito que seja hora de você agir como uma adolescente.
  – Obrigada, Lao Xu, eu tenho que ir. E não se preocupe.
  %Elizabeth% soava mais indiferente ao fato de que seus irmãos poderiam ser mortos por vampiros, entretanto, ela sempre agia daquela maneira quando tinha um plano.
  – Você tem certeza? – perguntou, os olhos negros no papiro mais antigo, com as luvas especiais – Eu posso chegar aí em instantes.
  – Desde quando Riley está disposto a sair numa viagem? – %Elizabeth% soou surpresa, enquanto havia uma ingenuidade em sua voz – Você precisa de tempo para ler, Ouyang Xu.
  – Certo, mas qualquer coisa, me mande mensagem. Eu estarei ao seu lado em dois segundos.
  – Ok, mestre. Tchau.

Algumas horas antes.

  Ouyang Xu desceu as escadas, enquanto as risadas das crianças soavam altas em um parque próximo da corporação internacional. Ao mesmo tempo, pensou que estaria no Hub naquele momento — a velha estrutura escondida no meio de toda a modernidade da China, mais antiga do que o avô dele naquela vida. O rapaz estava no canto, observando o homem de pele em tons pálidos, e o rosto contraído em uma expressão suave.
  A mulher de nome Yuze tinha os olhos límpidos em dourado pela dieta que ela sempre seguira desde os tempos antigos, enquanto criava Ouyang Xu em sua primeira vida, como se um ímã a atraísse para onde seu filho nascesse. E não importava a distância, mesmo após milhares de anos.
  Ouyang Xu se lembrava dela, antes de se tornar um frio, como Lucy o chamava pelas costas. A mulher tinha traços antigos, os cabelos negros e longos presos num coque dos antigos tempos, enquanto o penteado contrastava com sua ânsia de reviver os tempos mais antigos. Era sua primeira mãe em sua primeira vida. Ouyang Xu suspirou, ao mesmo tempo em que a mulher o observava pelo canto do olho com atenção.
  – O que deseja?
  – O que acontece com a alma de um bulgasal que se transforma em vampiro?
  Yuze não sorriu enquanto fechava o livro. Os olhos em tons dourados, e um suspiro profundo escapando de sua boca, enquanto descia da plataforma para o chão. Ao mesmo tempo, o cheiro suave de lavanda mascarava o cheiro do sangue animal.
  – Aparentemente, voltamos, afinal, aquela criança retornou ao ciclo infinito da imortalidade da alma – sorriu ela, de maneira desventurada – Decidiu finalmente viver nas sombras comigo, criança?
  – Eu tenho mais de 5 mil anos, mãe.
  – Nenhum filho será velho para sua mãe – murmurou a mais velha, enquanto suspirava, ao mesmo tempo em que contava a ele – Sua alma de bulgasal retornará ao início, como descrito pelos antigos, afinal, eu o criei para ser um bulgasal eterno, amado filho.
  – Mãe – murmurou o homem, enquanto não sorria – Eu acho que %Elizabeth% encontrou Ling Buyi de novo.
  A mulher parou, os olhos dourados fixos no nada, na capa do livro mais antigo que havia ali, como se lesse o vácuo.
  – Por que acha isso?
  – Porque, dois anos atrás, quando colocamos Loveless Curse nela, você disse que ele não estava morto – os olhos se fixaram no nada, enquanto Yuze não sorria. Ela sempre fora uma mulher sensata – O que você fez, mãe?
  Yuze apenas o encarou, ao mesmo tempo em que suspirava.
  – Eu acredito que queria dar uma chance aos seus irmãos de terem uma companheira, afinal…
  – Mãe! Você…
  – Desde que Garrett se tornou um vampiro, eu gostaria que ele tivesse uma parceira, e quem melhor do que um sangue puro como %Elizabeth%? Afinal, ela é a mais refinada das crianças, e não seria nenhuma decepção. Além disso, protegeria Garrett – murmurou ela em tom compreensivo, enquanto Ouyang Xu a encarava – Você tem Riley, é claro. Seu irmão é um tolo, ele acredita que pode achar a alma gêmea dele em bordéis. Mas Garrett não tem ninguém, eu achei que seria bom para ele.
  – Mãe, você sabe quem é Ling Buyi? Onde estão Garrett e Riley?
  Yuze se lembrava do loiro, dos olhos dourados nos sonhos de %Elizabeth%.
  – Eu os mandei para Forks, desde que soube que os Cullen estavam próximos – murmurou a mãe, e os olhos de Ouyang Xu se fecharam – Filho, a escolha é dela.
  – O que você fez?
  – Loveless Curse tem uma cura, e isso é um fato que você sabe – murmurou ela, enquanto Ouyang Xu percebia o rosto intenso dela – Se alguém tocar as raízes do coração dela, se tornará a alma gêmea dela. Justo para todos, não acha?
  Ouyang Xu apenas deu meia-volta, enquanto Yuze suspirava, ao mesmo tempo em que encarava a foto de casamento no canto superior. O quadro de mais de 300 anos lhe trazia seu amado Garrett e sua então nora, %Elizabeth%, e Yuze sempre acreditou que os deuses eram mesquinhos.
  O sorriso amado, enquanto Garrett segurava a mão da esposa antes da terrível batalha, na qual lhe foi renegado viver com a mulher por quem esperou mais de 100 anos. Afinal, Garrett e %Elizabeth% eram bulgasais e, como tal, deveriam se apaixonar um pelo outro. Entretanto, aparentemente, aqueles que estavam entre o divino pareciam determinados a fazer bulgasais viverem a eternidade em dor.
  Yuze então encarou o quadro antigo, enquanto suspirava.
  “Que as divindades os protejam.”

¹Monsters in my mind – Mads Langer.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Todos os comentários (0)
×

Comentários

Você não pode copiar o conteúdo desta página

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x