Peça 04 • A Confrontação com a Irmã
A luz suave do final de tarde invadiu a casa de %Claire%, refletindo-se nas paredes antigas e nos móveis simples, mas aconchegantes. O clima quente e familiar contrastava com a tensão palpável no ar, uma tensão que %Claire% sentia profundamente. Sua irmã mais velha, Isis, havia voltado para casa após um longo período afastada dos palcos e do mundo da música, algo sempre delicado entre elas. Isis havia a chamado para ir até lá, e %Claire% não sabia o que esperar daquele encontro.
A casa estava silenciosa, preenchida apenas pelo som distante do vento nas janelas e os passos leves de %Claire% pelo corredor. Ela passara horas ensaiando, tentando controlar a peça que parecia fugir de seus dedos a cada tentativa. Isis estava sentada no sofá, com a xícara de chá já fria em suas mãos. Seu olhar fixo na lareira denunciava um pensamento distante, mas %Claire% sabia que sua presença ali não era acidental.
Jessica não estava em casa, pois precisou viajar devido a problemas com sua irmã mais velha, Doroth. Por isso, naquela tarde, eram apenas as duas na casa. %Claire% entrou hesitante na sala. Cada troca de palavras com Isis sempre se transformava em algo mais profundo, algo que tocava em partes de si mesma que ela preferia evitar.
— Pude escutar você tocando hoje à tarde, %Claire%. Você evoluiu muito, mas... — começou Isis, mas %Claire% a interrompeu com um sorriso forçado.
— Mas sempre há um "mas", não é? — A tensão era visível no rosto dela, apesar da tentativa de suavizar.
— Sim, %Claire%. Sempre há. Você soa bem, mas não é só sobre técnica ou beleza. Faltam emoções na sua música. É como... como se você estivesse lendo um discurso que não acredita. — Isis desviou o olhar, buscando as palavras certas.
— E o que te faz pensar que pode julgar o que eu sinto? Ou o que toco? Você mal me conhece, Isis. — A raiva começou a crescer em %Claire%, e ela se levantou do sofá, os braços cruzados.
— Eu sei mais do que você imagina. Sei o que é carregar expectativas esmagadoras. Sei o que é tocar para ser ouvida, para provar algo a todos... menos a você mesma. E sei o quanto isso dói. — Isis se manteve calma, mas sua voz carregava firmeza, como a de uma irmã mais velha que acreditava saber o que é melhor.
— Você não sabe nada sobre mim! Só porque você desistiu, não significa que pode aparecer aqui e me dizer o que estou fazendo errado. Você se afastou, Isis. Me deixou aqui, sozinha, lidando com tudo isso! — %Claire% sentiu a raiva ferver, sua voz embargada.
— Eu não desisti, %Claire%. Eu sobrevivi. E sobreviver significava me afastar. Não havia mais nada de mim na música que eu tocava. Eu perdi o controle da minha vida, deixando que os outros decidissem quem eu deveria ser. E agora, vejo você fazendo o mesmo. — A dor passou pelo rosto de Isis, mas logo se disfarçou.
Isis largou a música porque ela havia se transformado de paixão para uma obrigação sufocante. Desde jovem, foi celebrada como prodígio, mas com a fama vieram expectativas implacáveis. Todos, incluindo sua mãe e professores, queriam que ela fosse uma coisa que ela não podia ser. Ela cedeu, e a música deixou de ser uma forma de expressão, tornando-se uma prisão.
Com 22 anos, mesma idade de %Claire%, Isis já acumulava incontáveis premiações. Aos 31, porém, havia se afastado, sentindo-se vazia por dentro. A música, que antes era sua paixão, havia perdido todo o sentido. A pressão constante apagou sua chama, e foi só após deixar os palcos que ela percebeu o quanto estava perdida. Abandonar a música foi doloroso, mas necessário para sua sobrevivência. Agora, ela temia que sua irmã seguisse o mesmo caminho.
— Talvez eu esteja tentando. Talvez eu não queira ser como você, Isis. Talvez eu não queira carregar esse peso que você carrega — falou %Claire% com os olhos marejados, o tom desafiador.
— Você acha que é fácil para mim te ver passar por isso? Acha que quero que você carregue esse peso? Eu só quero que você perceba, antes que seja tarde demais, que a música precisa ser sua, %Claire%. Não nossa, não dos professores, nem dos críticos. Sua. Ou você vai acabar como eu. — A expressão de Isis suavizou, ela se levantou e se aproximou de %Claire% com um olhar vulnerável.
— Você se perdeu, não foi? — perguntou %Claire%, a voz baixa.
— Sim. E é a pior sensação do mundo. Porque quando você percebe, já construiu uma vida que não te pertence mais. Tudo parece vazio. E eu não quero isso para você. — A resposta de Isis veio cheia de melancolia.
— Você acha que ainda há tempo para mim? — %Claire% finalmente olhou para sua irmã, sentindo o peso das palavras dela.
— Sempre há tempo, %Claire%. Mas você precisa decidir o que quer. Não o que esperam de você. O que você quer ser, quem você quer ser. E essa, minha irmã, é a parte mais difícil. — Isis sorriu levemente, com tristeza, mas também com uma ponta de esperança.
— Eu... não sei. Não sei quem eu quero ser. — %Claire% soltou um suspiro profundo, como se algo se aliviasse de seu peito.
— Então comece por aí. Descubra. E, enquanto isso, toque. Toque porque você ama, não porque precisa. — Isis tocou o ombro da irmã com um gesto carinhoso.
O silêncio se estendeu entre elas, mas era confortável. Ambas entendiam que lidavam com feridas semelhantes, mas que cada uma precisaria encontrar seu próprio caminho para a cura.
— Você já pensou em voltar a tocar? — perguntou %Claire%, com os olhos fixos nas expressões de Isis.
— Já... algumas vezes. Mas não sei se tenho coragem de enfrentar tudo de novo. — A resposta de Isis foi lenta, como se tivesse sido pega de surpresa.
— Não sente falta? De estar no palco, de sentir a música fluindo?
— Sinto falta da música. Mas o palco... não. Às vezes é difícil separar uma coisa da outra. — Isis abriu um sorriso melancólico.
— Eu consigo te compreender. — %Claire% segurou a mão da irmã, oferecendo conforto.
O silêncio confortável voltou a se instalar, e %Claire% refletia profundamente sobre tudo o que sua irmã havia lhe dito. A casa, antes apertada e carregada de tensão, agora parecia um pouco mais acolhedora.
🎻🎹
Após mais um ensaio intenso, %Claire% e %Gabriel% saíram da sala de música, ainda absortos nas complexidades da peça de Schubert. %Gabriel%, como sempre, mantinha a expressão impassível, mas havia algo em seu comportamento naquele dia que parecia mais suave. %Claire%, por sua vez, estava visivelmente cansada, mas um pouco mais relaxada do que de costume, talvez por finalmente conseguir acompanhar %Gabriel% em alguns momentos da música.
Ao final do corredor, onde os dois normalmente se separariam para seguir caminhos diferentes, algo se alterou. %Gabriel% tinha a intenção de fazer diferente naquele dia.
— %Claire%, você gostaria de tomar um café comigo? — perguntou ele. %Claire% colocou as mãos sobre a boca, surpresa.
%Claire%, surpreendida, apenas acenou com a cabeça, incapaz de formular uma frase naquele momento. Juntos, caminharam até o Coffee Melody, um pequeno café próximo ao Conservatório Saint-Helena. Sentaram-se na mesa mais afastada, em silêncio, como se estivessem ainda digerindo o que havia acontecido durante o ensaio e, agora, o convite inesperado de %Gabriel%.
O Coffee Melody era acolhedor, com uma luz suave filtrada pelas janelas de vidro. As mesas, de madeira escura, criavam uma atmosfera tranquila e quase isolada do mundo exterior. A música ambiente era suave, oferecendo um refúgio longe da rigidez da academia e das pressões do dia a dia. Pela janela, as árvores se moviam suavemente com a brisa, suas folhas dançando ao ritmo do vento.
%Claire% observava o menu à sua frente, mas seus olhos estavam distantes, como se hesitasse em processar o que sentia. Quando finalmente quebrou o silêncio, sua voz era suave, carregada de uma vulnerabilidade rara.
— Por que decidiu me convidar? — perguntou ela. %Gabriel% deu de ombros, ainda com os olhos fixos no menu.
— Acho que depois de quase um mês te vendo todos os dias, não seria estranho te convidar para um café, não? — respondeu ele, e então olhou para ela. — Por quê? Não estou cumprindo meu papel de príncipe do gelo?
— %Gabriel%, como você... — %Claire% riu baixo, surpresa por vê-lo rir pela primeira vez.
— As pessoas não são discretas. Não me importo com o apelido. Acho que, no fundo, há um pouco de verdade nele.
%Claire% não sabia o que dizer, mas sua risada baixinha se misturou com a de %Gabriel%. A tensão na mesa, antes palpável, começou a dissipar. Ele estava a surpreendendo positivamente.
— Você me causa curiosidade, %Claire%. Gostaria de te perguntar algo.
— Eu? Nossa… bom, pode perguntar. — %Gabriel% chamou a garçonete e fez os pedidos para ambos, antes de continuar.
— Pode me dizer por que é tão insegura? — perguntou ele, com uma leveza no tom. %Claire% ficou atônita, sem palavras.
Ela abriu e fechou a boca, tentando encontrar uma resposta. Por fim, falou, hesitante.
— Minha irmã é um prodígio, assim como você. Ela tocava aqui antes de mim. Todos esperam que eu seja como ela, e isso me deixa insegura, por não conseguir corresponder às expectativas que colocam sobre mim.
Ela suspirou, como se cada palavra fosse um peso. Seu olhar se desviou, perdida em seus pensamentos. A comparação estava sempre ali, em cada olhar, cada comentário dos alunos, dos professores, ou de sua família.
— E o que você espera de si mesma? — perguntou %Gabriel%, com uma sensibilidade que a surpreendeu.
A pergunta, simples, mas profunda, parecia ecoar em sua mente, como se fosse algo que ela mesma tivesse medo de responder. %Claire% ficou em silêncio, o som ambiente do café desaparecendo enquanto ela ponderava sobre a questão.
A garçonete os despertou naquele momento, entregando as bebidas: um Mocaccino para %Claire% e um Cappuccino para %Gabriel%.
— Eu ainda não sei — disse %Claire%, a voz baixa, quase um suspiro. Ela olhou para o copo e, pela primeira vez, levantou os olhos para %Gabriel%.
— Eu também não sei por que continuo tocando. Às vezes, parece que a música não é mais minha — falou %Gabriel% com uma leveza na voz, embora seu olhar fosse sério. Ele suspirou. — Não sei se você sabe, mas sou neto do proprietário da gravadora %Irvine%. As pessoas pensam que minha vida é fácil, que já tenho uma carreira consolidada aos 22 anos. Mas, na verdade, sou só um produto nas mãos da gravadora.
%Claire% ficou quieta, sentindo a dor que ele tentava esconder.
— Eu não imaginava que você passava por tudo isso, %Gabriel%. Agora entendo por que você toca de forma tão mecânica. Eu sinto muito, de verdade. — %Claire% segurou as mãos dele, sem pensar. %Gabriel% a encarou e, sem hesitar, segurou as mãos dela de volta. Elas estavam quentes, e isso, de alguma forma, acalentava seu coração.
Por um momento, as palavras pareciam desnecessárias. A troca de olhares entre eles era silenciosa, mas carregada de significado. Ambos estavam vulneráveis, compartilhando um peso emocional comum. %Claire% percebeu que %Gabriel% não era o príncipe de gelo que ela imaginava. Ele, assim como ela, carregava uma pressão constante de atender a expectativas que não eram suas.
%Claire% sorriu, timidamente, mas com sinceridade. Não era um sorriso de felicidade plena, mas de alívio, como se tivesse encontrado um espelho em %Gabriel%. Ele retribuiu com um sorriso pequeno, também sincero, algo que raramente surgia em seu rosto.
— Acho que essa foi a primeira vez que você sorriu de verdade desde que te conheci. — disse %Claire%, brincando, mas com um tom suave.
— Você está exagerando. — Ele arqueou a sobrancelha, tentando manter a seriedade.
— Talvez. Mas é bom saber que você não é uma máquina. — %Claire% riu brevemente.
— Aparentemente, não sou tão intimidador quanto você pensava, certo? — Ele deu de ombros.
— Ah, intimidador você ainda é. Mas agora sei que existe uma pessoa aí, príncipe de gelo. — %Claire% gargalhou.
— Touché. — %Gabriel% riu, olhando para o seu Cappuccino. — E você? Achei que fosse a garota que sempre hesita, mas agora vejo que tem mais força do que parece.
%Claire% o encarou, pensativa.
— Força? Talvez. Ou só teimosia. É difícil desistir quando tudo o que você conhece é tentar.
— Eu entendo. Às vezes, tentar é tudo o que resta. Mas tentar não significa que precisamos fazer tudo sozinhos. — O tom de %Gabriel% era reflexivo.
— Você realmente acredita nisso? Porque, até agora, você parece o tipo de pessoa que prefere enfrentar o mundo sozinho — comentou %Claire%, surpresa.
Ele sorriu, mas o olhar ainda era sério.
— Não sei se acredito, mas talvez seja hora de tentar. Você é a primeira pessoa que me fez pensar sobre isso.
— Bom, acho que somos dois. Nunca imaginei que poderia aprender algo com alguém tão… distante. — Ela sorriu de forma hesitante, mas sincera.
— Distante? É assim que me descreve? — %Gabriel% arqueou a sobrancelha, fingindo indignação.
— Completamente. Mas agora vejo que é só uma fachada. Talvez você não seja tão distante quanto quer parecer.
— Talvez você esteja certa. Mas você também tem uma fachada, sabia? Essa ideia de que precisa ser perfeita para todos... é exaustiva só de olhar. — Ele a encarou com um leve suspiro.
— É. Mas acho que... talvez eu não precise mais carregar tudo sozinha. Não, se você estiver disposto a dividir um pouco do peso. — %Claire% desarmou-se, com as bochechas quentes, tocada pela honestidade dele.
— Se você conseguir me aguentar, acho que posso tentar — respondeu %Gabriel% com um tom mais tranquilo.
Eles trocaram um olhar longo e significativo, onde as palavras se tornaram desnecessárias. Havia algo mais profundo entre eles agora, uma promessa silenciosa de apoio mútuo.
— Acho que conseguimos sobreviver a mais um ensaio juntos, não é? — %Claire% terminou seu Mocaccino e se levantou com um sorriso encorajador. %Gabriel% fez o mesmo.
— Por enquanto. Vamos ver se a peça de Schubert sobrevive a nós dois. — Eles riram juntos.
— Se não sobreviver, pelo menos podemos dizer que tentamos. — %Claire% começou a caminhar em direção ao caixa. Ela pegou a carteira, mas %Gabriel% segurou suas mãos.
— Eu convidei, eu pago. — Ele passou à frente e fez o pagamento. %Claire% sorriu.
Depois de pagar, %Gabriel% e %Claire% saíram juntos do café, lado a lado. O peso de suas inseguranças parecia mais leve agora, e, pela primeira vez, ambos sentiram que talvez não estivessem tão sozinhos quanto imaginavam.
Nota da autora: Essa conversa entre as irmãs foi muito profunda, né? Agora as coisas vão melhorar entre eles? Vamos acompanhar <3