Capítulo Nove
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A luz do sol entrou devagar pelo quarto, filtrada pelas cortinas fechadas. Não havia mais a música dos blocos nem os gritos das ruas — apenas o silêncio delicado de um apartamento em repouso, e dois corpos entrelaçados sob lençois amassados.
%Julieta% foi a primeira a despertar. Abriu os olhos devagar, como se seu corpo já soubesse que não precisava de pressa. A primeira coisa que sentiu foi o calor do corpo de Mingi ao lado. A respiração dele ainda era profunda, lenta, e a expressão serena no rosto deixava claro que ele dormia profundamente.
Ela sorriu sem perceber, com o rosto virado para ele no travesseiro. Um sorriso pequeno, silencioso, mas cheio de sentimento.
Seus olhos passearam pelo peito nu dele, depois pela clavícula marcada e pelos lábios levemente entreabertos. O cabelo estava um pouco bagunçado, e uma das mãos repousava solta no lençol, enquanto a outra ainda tocava suavemente a cintura dela, como se mesmo dormindo ele quisesse mantê-la ali.
%Julieta% se aninhou um pouco mais perto, e por alguns segundos, deixou-se ficar apenas sentindo. O cheiro dele, o calor, o conforto. Tudo parecia
assustadoramente... certo. E isso, mais do que qualquer coisa, foi o que a fez sentir um leve aperto no peito.
E se isso acabar logo? E se for só um momento bonito preso num verão passageiro? Ela desviou o olhar, encarando o teto, lutando com o que sentia e com o que não queria sentir. Mas foi interrompida por um movimento sutil ao lado.
Ele abriu os olhos devagar, piscando algumas vezes antes de focar nela. Quando seus olhares se encontraram, ele sorriu — ainda sonolento, ainda vulnerável, mas tão genuíno que o coração de %Julieta% tropeçou.
— Bom dia. — ele murmurou, a voz rouca, carregada da noite anterior.
— Bom dia. — ela respondeu num sussurro, o sorriso agora mais visível.
Ele ergueu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, os dedos traçando com carinho a lateral da bochecha.
— Você tá com essa cara de quem tá pensando muito. — ele comentou, o tom leve, mas atento.
%Julieta% hesitou, depois deu de ombros.
— Acho que tô tentando entender tudo isso.
Mingi a puxou mais para perto, colando seus corpos outra vez, o olhar firme nos olhos dela.
— A gente não precisa entender agora. Só sentir.
Ela ficou em silêncio, mas não se afastou. Apenas fechou os olhos, escondendo o rosto no pescoço dele, inspirando devagar.
Talvez ele estivesse certo. Talvez sentir fosse tudo o que podiam — e deviam — fazer agora.
E assim, abraçados sob o sol da manhã, %Julieta% e Mingi começaram o novo dia não como dois estranhos que se encontraram por acaso no meio do carnaval, mas como dois corações em plena construção de algo que, dia após dia, beijo após beijo, já não era mais só passageiro.
E assustadoramente... bonito demais para ser ignorado.
🎉🎉🎉
Mais tarde naquela manhã, depois de um banho rápido e preguiçoso que terminaram com mais beijos e risos abafados contra os azulejos, %Julieta% preparava um café simples enquanto Mingi vasculhava a geladeira como se morasse ali há anos.
O clima estava leve, quase doméstico, com os dois se esbarrando na cozinha pequena, rindo por não encontrarem colherinhas, por ele não saber como se usava a cafeteira direito, e por ela implicar com a forma como ele cortava o pão.
— Você teria futuro aqui, sabia? — %Julieta% brincou, encostada na bancada enquanto ele passava manteiga de forma desajeitada.
— Aqui onde? No Rio? Ou nesse apartamento? — ele perguntou, erguendo uma sobrancelha, com aquele sorriso fácil que já era perigoso demais para ela.
Ela riu, mas desviou os olhos.
Mingi parou por um segundo. Não porque ela tinha dito algo pesado, mas porque havia uma verdade ali, mesmo que dita com humor. A mesma verdade que ele sentia crescendo dentro dele sem saber o que fazer com isso.
Sentaram-se à mesa da cozinha, com os pés descalços se tocando sob a madeira e o som da cidade começando a crescer do lado de fora. Comiam em silêncio, até que Mingi, encarando a xícara entre os dedos, soltou:
— Meu voo para o México é daqui a seis dias.
%Julieta% sentiu o peito comprimir.
Ela não respondeu de imediato. Só olhou para ele, procurando algum sinal no rosto dele que dissesse
“mas eu posso mudar isso” ou
“ainda não sei se vou” — mas ele apenas a olhava de volta, esperando a reação dela.
— Você já tem tudo certo por lá? — ela perguntou, tentando manter o tom casual, mesmo com a garganta apertada.
— Sim. Contrato fechado, passagens compradas, hospedagem organizada… — ele suspirou. — Mas agora nada parece tão certo assim.
%Julieta% desviou o olhar, encarando o fundo da própria xícara.
— Eu sabia que isso ia acontecer. Desde o começo.
— Eu também. — ele respondeu, calmo, mas com o mesmo incômodo crescendo nos olhos.
— Mas saber não ajuda muito, né?
Ele estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos dela sobre a mesa.
— Não. Mas talvez ajude a gente a aproveitar o que ainda temos.
Ela o olhou de novo, e por um segundo, o mundo ficou silencioso de novo.
— Então vamos viver esses seis dias como se fossem cem. — ela sussurrou. — Mesmo que doa depois. Mesmo que bagunce tudo.
Mingi apertou a mão dela.
— Já tá bagunçando. Mas eu não quero parar.
E naquele acordo silencioso, selado por um beijo leve no meio da cozinha e um toque mais demorado do que deveria, eles prometeram, mesmo sem palavras, que cada um daqueles dias contaria.
Mesmo que fosse para doer depois.
🎉🎉🎉
Depois do café, %Julieta% recolheu as xícaras enquanto Mingi se encostava no batente da porta da cozinha, observando cada pequeno gesto dela como se gravasse em silêncio tudo o que pudesse: os ombros descobertos pelo tecido leve da blusa, o jeito como ela franzia o nariz ao secar as mãos, até o som dos passos descalços no chão.
Ela o notou ali, quieto, e sorriu de lado.
— Tô guardando... — ele respondeu simplesmente.
Ela não perguntou o quê. Ela sabia.
Por alguns minutos, ficaram em silêncio na sala, até %Julieta% se sentar no sofá, puxando os joelhos e abraçando as pernas com os braços.
— A gente devia fazer algo só nosso hoje. — disse, olhando para ele com um brilho que misturava leveza e urgência. — Algo pra lembrar depois. Não só mais um bloco, ou bar, ou praia. Algo diferente.
Mingi se aproximou e se sentou ao lado dela, virando-se para encará-la melhor.
— Tipo o quê? — perguntou, tocando de leve a ponta do pé dela com o dele.
— Não sei ainda. Mas quero fugir da cidade hoje. Nem que seja por algumas horas. Quero ir pra algum lugar onde eu possa te olhar sem gente em volta. Sem barulho. Sem pensar que daqui a pouco você vai embora.
Ele a observou por um segundo e depois assentiu devagar, com um meio sorriso.
— Vamos fazer um passeio então. Só nosso. Onde não tenha carnaval. Só silêncio. E você.
— E você. — ela completou.
Mingi se inclinou, tocando os lábios dela com suavidade, um beijo sem pressa, sem promessa — apenas cheio de intenção.
— Escolhe o lugar. Qualquer um. Eu dirijo. Ou ando. Ou nado. Se for com você, eu topo.
%Julieta% riu, mas o sorriso logo foi tomado por algo mais profundo.
— Eu quero ir pra onde o tempo parece andar mais devagar. Pra onde a gente possa ficar deitado na grama ou areia e esquecer que tem relógio.
— Fechado. — ele disse, e estendeu a mão. — Vamos viver nossos cem dias.
Ela a segurou com força, sem dizer nada.
E ali, entre os lençois amassados da noite anterior e os planos improvisados de uma tarde a dois, os dois sabiam: aquele seria o dia deles.
O mais íntimo. O mais intenso. O mais lembrado.
Nota da autora: Oi chuchus, capítulo bem curtinho, diferente dos que costumo trazer para vocês, né? Mas como estamos caminhando também para o final da história, resolvi deixar esse capítulo assim pequenininho mesmo para no próximo trazer mais coisas, tá?