Capítulo Seis
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Mingi se pôs a observar o perfil marcado e bonito, de %Julieta% que encarava a multidão na frente deles. Ela parecia estar fugindo de algo, de algo não: dele.
E Mingi resolveu desviar o olhar para o chão ao pensar que estava a deixando desconcertada ou desconfortável. Ele não tinha aquele direito, não é? Ele era só um gringo sozinho experimentando o Carnaval que acabou preso á ela por uma infeliz coincidência.
Se levantou abruptamente e isso chamou a atenção de %Julieta%, que levantou o rosto e o encarou, pensando que ele parecia ainda maior sendo olhado daquele ângulo.
— Acho que já vou indo. — Saiu dos lábios dele, de forma mais baixa do que ele esperava.
%Julieta% franziu o cenho, não entendendo o que ele havia dito. Ela se levantou, ficando a poucos centímetros dele.
Mingi sentiu o olhar curioso de %Julieta% sobre ele, mas não teve coragem de encará-la de volta. Seu peito estava estranho, apertado, como se algo dentro dele tentasse encontrar um jeito de escapar.
%Julieta% se levantou, ficando a poucos centímetros dele. De perto, ele parecia ainda maior, a presença dele quase esmagadora, o cheiro misturando o perfume amadeirado com o sal do mar e o resquício da cerveja.
Os olhos dela percorreram o rosto dele, registrando detalhes que, até então, ela não tinha se permitido reparar com tanta atenção. O formato afilado do nariz, a linha bem definida da mandíbula, a maneira como os fios do cabelo caíam um pouco sobre a testa. Mingi, por sua vez, fez o mesmo. Observou o jeito como os olhos dela refletiam a luz ao redor, como os lábios estavam ligeiramente entreabertos, como uma mecha do cabelo escapava e caía sobre a lateral do rosto.
Os corações dos dois estavam acelerados, embora nenhum dos dois soubesse dizer exatamente por quê.
Mingi engoliu em seco e se inclinou levemente para mais perto, aproximando os lábios do ouvido dela.
— Eu já vou indo. — repetiu, num tom mais baixo, mais íntimo.
O arrepio que percorreu a pele de %Julieta% foi imediato, mas ela se recusou a recuar. Pelo contrário.
Ela virou o rosto de leve, de forma que seus olhos encontrassem os dele mais uma vez.
— Fica mais um pouco. — pediu, sua voz saindo quase como um sussurro.
Mingi hesitou por um segundo, mas então percebeu que não tinha escolha. Como poderia ir embora depois disso?
— Porque eu tô sentindo você estranha? — Se atreveu a perguntar, ainda com o rosto a centímetros do dela — Seja honesta %Julieta%.
%Julieta% piscou algumas vezes, tentando processar a pergunta de Mingi. Ele estava tão perto que ela conseguia sentir o calor da respiração dele contra sua pele. A forma como ele a encarava, com os olhos ligeiramente apertados e a testa franzida, indicava que não deixaria passar uma resposta qualquer.
Ela umedeceu os lábios e soltou uma risada curta, tentando aliviar o clima.
— Estranha? Você que tá vendo coisa, Mingi. Tô normal.
Ele não comprou a desculpa, e %Julieta% sabia disso. O jeito como ele continuou olhando para ela, sem desviar, deixou claro que não acreditava nem por um segundo.
— %Julieta%… — Ele chamou o nome dela devagar, num tom quase acusador.
Ela cruzou os braços e desviou o olhar para a rua movimentada, como se procurasse uma rota de fuga.
— É sério, você tá viajando. Deve ser o cansaço, a cerveja, sei lá.
Mingi inclinou a cabeça para o lado, estreitando os olhos.
— Se é só isso, então por que você não consegue me olhar nos olhos agora?
%Julieta% mordeu o lábio, sem saber o que responder. Ele a estava cercando, forçando-a a encarar o que estava sentindo.
E, no fundo, ela sabia o que era. Sabia que estava incomodada com a ideia de se envolver com alguém que logo partiria. Sabia que, mesmo tentando se convencer do contrário, sentia algo diferente quando ele segurava sua mão ou quando a olhava daquele jeito intenso.
— Mingi… — Ela começou, mas sua voz falhou.
Ele continuou olhando para ela, esperando.
%Julieta% finalmente criou coragem para encará-lo de novo e, naquele instante, percebeu o quanto estavam perto. O cheiro dele, a respiração, o olhar atento… O clima ao redor deles parecia mudar, tornando-se denso, carregado de algo que ambos vinham evitando reconhecer.
Mingi levantou a mão devagar, roçando os dedos pela lateral do rosto dela antes de pousar na sua nuca.
— Se eu estiver viajando… — Ele começou, a voz baixa, arrastada. — …então me fala para parar.
%Julieta% sentiu um arrepio percorrer sua pele. Mas ela não disse nada.
Os olhos dela caíram para os lábios dele, e Mingi percebeu. Foi o suficiente.
Ele se inclinou mais, reduzindo a distância entre os dois até que finalmente seus lábios se encontraram.
O beijo começou devagar, como se ainda estivessem testando se aquilo era real, mas rapidamente ganhou intensidade. Mingi segurou sua cintura, puxando-a para mais perto, enquanto %Julieta% envolvia os braços ao redor do pescoço dele.
Aquele momento era inevitável, e os dois sabiam disso.
Mingi suspirou contra a boca dela, e %Julieta% sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando ele aprofundou o beijo, inclinando levemente a cabeça para encaixar melhor os lábios nos dela. O toque era firme, mas ao mesmo tempo cuidadoso, como se ele quisesse saborear cada segundo daquele momento.
As mãos dele apertaram a cintura dela, puxando-a para mais perto, e %Julieta% não resistiu em deslizar os dedos pelos fios curtos na nuca dele. O toque enviou um arrepio por sua pele, e ela sentiu Mingi reagir, inclinando-se ainda mais, intensificando o beijo.
Seus lábios se moviam em um ritmo lento e envolvente, uma dança silenciosa que falava mais do que qualquer palavra que pudessem trocar. O coração de %Julieta% batia acelerado, e ela sentia o calor se espalhar por seu corpo a cada toque dele.
Os dedos de Mingi deslizaram pela lateral das costas dela, subindo até a pele exposta de sua nuca, seus polegares roçando de leve em sua mandíbula. O toque era delicado, mas cheio de intenção, como se ele quisesse gravar na memória cada detalhe daquele instante.
%Julieta% se perdeu na forma como ele a segurava, na forma como os lábios dele encaixavam-se nos dela de um jeito quase perfeito. O gosto suave da cerveja ainda estava presente, misturando-se com o sabor único dele.
Por um momento, tudo ao redor desapareceu. O barulho do Carnaval, a multidão agitada, até mesmo o receio de que aquilo não deveria estar acontecendo. Só existiam os dois, presos naquele beijo que parecia ter sido adiado por tempo demais.
Mingi deslizou a mão para o rosto dela, o polegar traçando um caminho suave pela sua bochecha antes de segurar sua mandíbula, aprofundando ainda mais o beijo. Ele queria senti-la por completo, queria memorizar o gosto, o calor, a forma como ela respondia ao toque dele.
E %Julieta%, por sua vez, se entregou. Não havia mais por que negar o que sentia.
Ela apertou os dedos na nuca dele e o trouxe ainda mais para perto, inclinando-se na direção dele como se não houvesse mais espaço suficiente entre seus corpos.
A respiração de ambos estava acelerada quando, por fim, os lábios se afastaram alguns milímetros. Mas nenhum dos dois se moveu para longe.
Mingi encostou sua testa na dela, os olhos ainda fechados, como se quisesse prolongar o momento o máximo possível.
%Julieta% abriu os olhos devagar, observando-o. O peito dele subia e descia rapidamente, e ela soube que ele estava tão afetado quanto ela.
— Isso… — Mingi começou, a voz rouca, quase um sussurro. — Isso devia ter acontecido antes.
%Julieta% sorriu de leve, mordendo o próprio lábio.
Ele abriu os olhos e a encarou, um brilho intenso neles.
E então, sem pensar muito, Mingi voltou a beijá-la, como se quisesse ter certeza de que aquilo era real.
Dessa vez, Mingi não hesitou. No instante em que os lábios se encontraram novamente, foi como se algo dentro dele se soltasse por completo. O beijo veio mais intenso, mais profundo, carregado por tudo o que os dois tinham segurado até ali.
%Julieta% sentiu o impacto imediato no corpo. Seu coração martelou no peito, e ela prendeu a respiração quando as mãos grandes de Mingi deslizaram por sua cintura, pressionando-a ainda mais contra ele. O calor do toque dele se espalhou pela sua pele como fogo, e ela se entregou, abrindo os lábios para recebê-lo da forma que ele parecia querer.
Os dedos dele subiram pelas costas dela, traçando um caminho lento e provocante até a nuca, onde ele envolveu os fios do cabelo dela entre os dedos. %Julieta% soltou um pequeno suspiro contra a boca dele quando ele puxou levemente, um arrepio percorrendo sua espinha.
Mingi se aproveitou da brecha e aprofundou ainda mais o beijo. O ritmo era envolvente, quase desesperado, como se ele quisesse marcar aquele momento na memória, como se quisesse sentir cada detalhe dela antes que o mundo ao redor os puxasse de volta à realidade.
%Julieta%, por sua vez, não ficou para trás. Suas mãos, que antes repousavam nos ombros dele, deslizaram para os braços fortes, sentindo a tensão nos músculos dele. Depois, subiram para o pescoço e finalmente para o rosto, os dedos desenhando o contorno da mandíbula marcada, da pele quente sob seus toques.
Os lábios se moviam em sintonia, explorando, testando, descobrindo um ao outro. O gosto familiar da cerveja ainda estava ali, mas agora misturado com algo mais viciante:
o próprio Mingi. Ele inclinou a cabeça para o outro lado, aprofundando o contato, e o simples gesto fez o estômago de %Julieta% revirar de um jeito que ela não esperava. Ela sentiu as pernas vacilarem, e Mingi percebeu. Em um instinto quase automático, ele apertou mais a cintura dela, sustentando-a, como se estivesse dizendo sem palavras que não a deixaria cair.
Por um momento, nada mais existiu. Nem a música alta ecoando pela rua, nem as vozes ao redor, nem a movimentação caótica do Carnaval. Era apenas o toque dele, os lábios dele, o calor do corpo dele contra o dela.
Quando se separaram, o ar parecia mais denso entre eles. As respirações estavam irregulares, os rostos ainda próximos, e os olhos de Mingi procuraram os dela, como se tentassem decifrar o que viria a seguir.
%Julieta% mordeu o próprio lábio, tentando recuperar o fôlego, mas o sorriso que se formou logo em seguida denunciou o que sentia.
Mingi, por sua vez, ainda parecia perdido no momento, como se estivesse tentando entender o que tinha acabado de acontecer. E então, sem precisar de palavras, ele apenas sorriu de volta.
Dessa vez, não havia mais dúvidas entre eles.
🎉🎉🎉
De mãos dadas os dois seguiram pelas ruas do Rio de Janeiro, até encontrarem um ponto mais tranquilo para que %Julieta% pudesse pedir seu carro.
Depois dos dois primeiros beijos, mais um aconteceu enquanto eles acompanhavam um trio elétrico que tocava axé. Depois mais um, enquanto esperavam as amigas de %Julieta% voltarem do banheiro, e assim foi o restante da noite: vários e vários beijos trocados entre os dois em qualquer oportunidade que surgia.
Enquanto esperavam pelo carro, ainda de mãos dadas, os dois trocavam olhares e sorrisinhos furtivos, enquanto as bochechas coravam, tanto pelo álcool consumido durante todo dia e noite, quanto pelos beijos trocados e pela intensidade de tudo que pareciam sentir.
Mingi não hesitou em acompanhá-la no carro de aplicativo. Durante o trajeto, os dois permaneceram próximos, as mãos ainda entrelaçadas no banco de trás. O silêncio confortável entre eles era preenchido apenas pelo som baixo da música no rádio e pela respiração mansa de ambos, ainda embalada pelos efeitos do álcool e dos beijos trocados ao longo da noite.
%Julieta% se pegou observando o perfil de Mingi sob a iluminação fraca do carro. O maxilar marcado, a pele quente pelo efeito das bebidas, os lábios ligeiramente avermelhados pelos beijos que compartilharam… Tudo nele parecia mais atraente sob a atmosfera da madrugada.
Ela desviou o olhar para suas mãos juntas e sorriu, sentindo o polegar dele traçar um carinho leve sobre sua pele.
Quando o carro finalmente parou em frente ao prédio de %Julieta%, ela olhou para Mingi antes de destravar o cinto.
— Você quer subir um pouco?
A pergunta saiu antes que ela pudesse pensar demais. Não havia segundas intenções óbvias no convite — ou talvez houvesse, mas %Julieta% não quis se aprofundar nisso naquele momento. Ela apenas queria prolongar aquela sensação boa de estar ao lado dele.
Mingi ergueu as sobrancelhas por um instante, surpreso, mas logo um pequeno sorriso se formou em seus lábios.
— Quero. — Respondeu simplesmente, sem rodeios.
E então, ainda de mãos dadas, os dois saíram do carro e seguiram para o apartamento de %Julieta%.
Assim que %Julieta% abriu a porta e acendeu as luzes, Mingi entrou logo atrás, curioso para conhecer um pouco mais sobre o espaço dela.
O apartamento não era grande, mas tinha um charme próprio. A sala era aconchegante, decorada com móveis de tons neutros e alguns toques de cor em almofadas e quadros nas paredes. Havia uma estante repleta de livros, alguns dispostos de maneira organizada, outros empilhados de forma mais desleixada, como se fossem lidos e relidos com frequência.
Mingi deixou o olhar passear pelo ambiente, notando os pequenos detalhes. Um violão encostado em um canto, algumas velas aromáticas sobre a mesa de centro, fotos com as amigas grudadas na geladeira da cozinha. Tudo ali parecia ter a essência de %Julieta%.
— Gostei do seu lugar. — Comentou, virando-se para ela com um sorriso discreto.
%Julieta% jogou a bolsa no sofá e descalçou os sapatos, suspirando de alívio.
— Obrigada. Não é grande coisa, mas é meu cantinho.
Mingi continuou observando, os olhos brilhando de curiosidade. Ele apontou para o violão.
Ela riu, indo até a cozinha para pegar um copo d’água.
— Arranho umas coisas. Mas nada impressionante.
Mingi a seguiu até a cozinha, encostando-se na bancada enquanto a observava beber a água. Ele ainda sentia a energia da noite vibrando entre eles, e o fato de estar no espaço dela só deixava tudo mais interessante.
— Você quer alguma coisa? Água, café...? — %Julieta% perguntou, tentando soar casual, mas sentindo a tensão sutil que ainda pairava entre os dois.
Mingi sorriu de lado, cruzando os braços.
— Água tá bom. Mas, na verdade… só queria continuar aqui um pouco.
Ela mordeu o lábio, sentindo o coração acelerar de novo.