Capítulo Três
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A tarde passou em um turbilhão de cores, risadas e música. %Julieta% e Mingi foram arrastados pelo Carnaval, seguindo blocos diferentes, dançando sem se preocupar com nada além do momento. Ele estava cada vez mais envolvido pela festa e pela energia contagiante que parecia fluir de %Julieta% e suas amigas.
Entre um gole e outro de caipirinha, Mingi entrou no ritmo. Primeiro, de forma tímida, apenas balançando o corpo, mas logo já tentava seguir os passos que %Julieta% demonstrava para ele, o que rendia muitas risadas do grupo. As amigas dela, depois de um pouco de estranhamento inicial, logo o acolheram como se já fosse parte da festa desde o começo. Entre um brinde e outro, o apelidaram carinhosamente de
"gringo perdido", o que o fez rir, mesmo sem entender completamente.
Eles paravam de tempos em tempos para comprar mais bebidas ou apenas para respirar, sentando-se nas calçadas enquanto viam o bloco passar. Mingi estava encantado não só com o Carnaval, mas com as pessoas. A forma como todos ali pareciam felizes, dançando sem se preocupar com o amanhã, abraçando desconhecidos e compartilhando a alegria de
simplesmente existir naquele momento.
Quando o sol começou a se pôr, o céu tingindo-se de tons
alaranjados e lilases, Mingi olhou ao redor e depois para %Julieta%, com uma expressão divertida e um pouco confusa.
— No Carnaval as pessoas não comem? — ele perguntou, inclinando-se um pouco mais perto dela para se fazer ouvir no meio do barulho.
%Julieta% piscou, como se só agora percebesse que, de fato, desde que saíram de casa, ninguém havia parado para comer nada além de alguns petiscos aleatórios.
— Boa pergunta... A gente bebe tanto que até esquece — ela riu, então olhou para as amigas. — Alguém com fome?
As meninas, que até então estavam em um papo animado sobre o bloco seguinte, pararam por um segundo, se entreolharam e então deram de ombros.
— Agora que ele falou, acho que eu comeria alguma coisa — uma delas respondeu.
— Um hambúrguer cairia bem — outra sugeriu.
— Eu topo o que tiver por perto — %Julieta% concordou, olhando para Mingi com um sorriso. — Parece que você nos salvou da desnutrição carnavalesca, gringo.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Só estou tentando sobreviver — brincou, e %Julieta%, sem pensar muito, pegou a mão dele e o puxou para o meio do grupo.
— Vem, então! Vamos achar um lugar para comer antes de continuarmos a festa!
E assim, com a cidade começando a se iluminar com as luzes da noite, eles seguiram juntos pelas ruas vibrantes do Rio, em busca de algo para comer antes da próxima aventura.
Eles encontraram uma barraquinha de comida de rua perto da praia, onde o cheiro de carne grelhada e pão quentinho misturava-se ao ar salgado do mar. O pequeno quiosque estava cheio de foliões esfomeados, mas %Julieta%, experiente no Carnaval, soube exatamente como se enfiar entre as pessoas e garantir um bom lugar na fila.
— Aqui, meu amigo, é preciso ter estratégia — ela disse, olhando para Mingi com um sorriso malandro.
Ele riu, observando como ela se movimentava com facilidade, trocando palavras rápidas com o vendedor e já pegando algumas latinhas de refrigerante para o grupo.
— Você realmente domina esse lugar — Mingi comentou, admirado.
— Anos de treino — %Julieta% piscou, pegando um hambúrguer e estendendo para ele. — Agora, vê se come. Se continuar só bebendo, daqui a pouco vai estar tropeçando por aí.
Mingi aceitou o lanche, mordendo um pedaço e arregalando os olhos.
— Nossa! Isso é muito bom!
%Julieta% soltou uma risada.
— Eu sei, né? Você acha que eu te traria para comer qualquer coisa?
Eles se sentaram em um banco próximo, com o mar ao fundo, enquanto as amigas de %Julieta% tagarelavam animadas sobre os planos para o resto da noite. Mas Mingi estava mais interessado em %Julieta%. Ele observava a forma como ela comia, distraída, os lábios sujos de molho, o jeito como gesticulava ao falar, toda a sua energia vibrante mesmo depois de horas pulando Carnaval.
— Você vem todos os anos? — ele perguntou, apoiando um dos braços no encosto do banco para ficar mais voltado para ela.
— Desde sempre. Meu Carnaval começou na infância, pulando matinês com meus pais, depois os blocos da adolescência… e agora não perco um ano sequer — ela respondeu com orgulho. — É minha época favorita do ano.
— Dá para perceber. Você brilha no meio da multidão.
A frase escapou antes que Mingi pudesse controlar, e %Julieta% parou de mastigar por um segundo, encarando-o com um pequeno sorriso.
Ela lambeu os dedos, limpando o molho antes de responder:
— E você? Gostou do seu primeiro Carnaval?
Mingi respirou fundo, olhando ao redor, absorvendo as luzes, as risadas, a alegria que parecia pairar no ar. E então voltou a olhar para %Julieta%, que o observava com curiosidade.
— Eu achei que ia ser só uma festa gigante — ele admitiu. — Mas é mais do que isso. Tem uma energia… um sentimento. Como se todo mundo pertencesse ao mesmo lugar, como se nada mais importasse além do agora.
— Exatamente. Você entendeu o espírito da coisa.
— Mas acho que o que mais me impressionou… — Mingi inclinou-se um pouco mais para ela. — Foi você.
Ela arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa.
— Nossa, que avanço! Você começou tímido, e agora já tá cheio de confiança.
Ele riu, e, sem pensar muito, pegou um guardanapo e passou delicadamente no canto da boca dela, onde ainda restava um pouco de molho. %Julieta% ficou em silêncio por um instante, sentindo o toque sutil do papel contra sua pele e a proximidade inesperada entre eles.
Ela engoliu em seco, tentando disfarçar o súbito calor que sentiu.
— Bom, já estamos alimentados. Hora de voltar pra festa, né?
Mingi deu um último sorriso antes de concordar.
— Vamos. Ainda quero ver mais desse Carnaval.
E com isso, eles se levantaram e seguiram juntos de volta para o caos vibrante da noite carioca, sem perceber que, entre confetes e multidão, algo já começava a mudar entre eles.
🎉🎉🎉
As amigas de %Julieta% começaram a desacelerar o passo, %Clara% se abanando, %Duda% e %Luísa% reclamando do cansaço acumulado. Entre risadas e resmungos, uma delas suspirou alto:
— Gente, eu amo Carnaval, mas minhas pernas não aguentam mais! Preciso de um descanso.
— Concordo! Vamos para casa, tomar um banho gelado e dormir um pouco antes da próxima rodada — outra completou, esticando os braços preguiçosamente.
%Julieta%, ainda cheia de energia, olhou para Mingi, esperando para ver se ele também desistiria da festa. Mas ele apenas deu de ombros, um sorriso curioso brincando em seus lábios.
— Vocês podem ir — disse uma das meninas, piscando para %Julieta%. — Vocês parecem estar se divertindo. A gente se encontra depois.
%Julieta% revirou os olhos para o tom sugestivo da amiga, mas não discutiu. Mingi também não pareceu se importar, apenas acenou para o grupo e seguiu ao lado de %Julieta%, os dois caminhando sem pressa pelas ruas que ainda vibravam com música e foliões.
Foi então que, no meio do trajeto, Mingi parou abruptamente, segurando %Julieta% pelo pulso. Ela virou-se para ele, surpresa.
Ele não respondeu de imediato. Seu olhar estava fixo no horizonte, onde o mar se estendia sob a luz da lua e dos postes da orla. O som das ondas quebrando na areia misturava-se à música distante dos blocos, criando um contraste hipnotizante.
— Podemos dar uma passada ali? — ele perguntou, com um tom mais calmo do que antes, apontando na direção da praia.
%Julieta% acompanhou seu olhar, sentindo uma súbita mudança na energia do momento. O barulho da festa parecia distante agora, e o mar chamava como um convite silencioso.
Eles caminharam até a areia, tirando os sapatos e segurando-os nas mãos. O chão ainda guardava um pouco do calor do dia, mas logo que se aproximaram da parte úmida, a areia tornou-se fria sob seus pés. O som das ondas quebrando e voltando para o oceano parecia ainda mais alto ali, e o vento carregava o cheiro salgado da água misturado ao resquício de perfume e suor do Carnaval.
%Julieta% olhou para o lado e percebeu que Mingi estava quase hipnotizado pela imensidão do mar. Seus olhos brilhavam sob a luz da lua, e ele parecia ter esquecido completamente do caos festivo que acontecia poucos metros atrás deles.
Ela sorriu, achando aquilo fofo.
— Você nunca viu o mar à noite? — perguntou, balançando um pouco os sapatos na mão.
Mingi piscou algumas vezes antes de responder, como se estivesse voltando à realidade.
— Já vi. Mas nunca assim.
Ele demorou um pouco antes de responder, observando as ondas irem e virem, refletindo a luz prateada do céu.
— Nunca com essa sensação de… liberdade.
%Julieta% sentiu um calor no peito. Algo na voz dele parecia carregado de mais do que apenas um simples encantamento pela paisagem. Como se, por um momento, ele estivesse realmente deixando algo para trás, se permitindo viver aquilo plenamente.
— É porque agora você tá vendo com os olhos certos — ela disse, dando um passo à frente e sentindo a água tocar seus pés.
Mingi a observou por um instante e, sem hesitar, seguiu seu exemplo, deixando a onda molhar sua pele.
— Então… isso faz parte do Carnaval também? — ele perguntou, com um pequeno sorriso.
%Julieta% riu, balançando a cabeça.
— Não exatamente. Mas o Carnaval é sobre sentir. Sobre se entregar ao momento. E agora você tá fazendo isso.
Mingi a olhou com intensidade, o vento bagunçando seus cabelos e a música distante se tornando apenas um fundo para o que realmente importava naquele instante.
— Então acho que finalmente entendi o que é o Carnaval.
Ela prendeu a respiração por um segundo, sentindo uma tensão diferente entre os dois. Mas, em vez de responder, apenas sorriu e voltou a olhar para o mar, deixando que aquele momento falasse por si.
Mingi continuava observando o mar como se estivesse diante de algo sagrado, enquanto %Julieta% deixava que a água fria molhasse seus pés e subisse um pouco pelas pernas. O vento soprava mais forte ali, bagunçando ainda mais seus cabelos, mas ela não se importava.
— Dá vontade de entrar, né? — ela comentou, lançando um olhar brincalhão para Mingi.
Ele riu, cruzando os braços.
— Com certeza. Mas não trouxemos roupas para nadar.
%Julieta% arqueou a sobrancelha e ergueu os braços de leve.
— E quem disse que isso é um problema?
Mingi piscou algumas vezes, como se estivesse tentando entender se ela falava sério. Então, vendo a expressão travessa de %Julieta%, seu sorriso se alargou.
— Você quer entrar assim mesmo?
— Por que não? — Ela deu de ombros. — É Carnaval, Mingi. Hoje a gente só diz
“sim” pras loucuras!
Antes que ele pudesse reagir, %Julieta% começou a caminhar para dentro do mar, rindo quando a água gelada subiu até seus joelhos e depois até sua cintura. Seu short jeans e o cropped logo ficaram encharcados, grudando em sua pele, mas ela não se importava. Na verdade, a sensação da água fria contrastando com o calor do dia era revigorante, quase como um abraço refrescante do mar.
— Você tá esperando o quê? — gritou para Mingi, jogando um pouco de água na direção dele.
Ele hesitou por um instante, mas então riu e balançou a cabeça, como se estivesse se rendendo à energia dela. Sem pensar muito, correu em direção ao mar e mergulhou sem cerimônia, saindo do outro lado com os cabelos grudados na testa e um sorriso imenso no rosto.
%Julieta% gargalhou ao ver sua animação.
— Isso sim é Carnaval! — ela gritou, jogando mais água nele.
Mingi retribuiu, iniciando uma guerra de respingos entre os dois. A cada risada, a cada gota d’água que voava no ar, a conexão entre eles parecia crescer ainda mais. Ali, sob o céu estrelado, no meio do mar, no calor da noite carioca, eles não eram turistas ou foliões. Apenas duas pessoas aproveitando o momento como se nada mais importasse.
🎉🎉🎉
Molhados e sem qualquer pressa de sair dali, %Julieta% e Mingi caminharam de volta para a areia e simplesmente se sentaram, sem se importar com os grãos grudando em suas roupas e na pele úmida. O vento noturno soprava contra eles, e o barulho das ondas quebrando se misturava ao som distante da folia.
%Julieta% abraçou as pernas, descansando o queixo sobre os joelhos enquanto olhava para ele com curiosidade.
— E então, de onde você é? — perguntou, finalmente percebendo que sabia tão pouco sobre ele.
Mingi sorriu de canto, olhando para o mar antes de voltar os olhos para ela.
Ela assentiu devagar, como se estivesse encaixando as peças na cabeça.
— Isso explica muita coisa. Mas… você fala português bem demais pra um turista.
Ele riu, passando a mão pelos cabelos molhados, afastando algumas mechas da testa.
— É porque eu não sou só um turista. Morei em São Paulo por alguns anos, antes de voltar para a Coreia.
%Julieta% arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— Uns três anos, mais ou menos. O suficiente pra aprender e me acostumar com a língua… e com a comida.
— Então você não está completamente perdido aqui.
— Não completamente — ele concordou, dando um sorriso leve. — Mas nunca tinha vindo ao Rio. Sempre ouvi falar da magia do Carnaval, da energia daqui… Então voltei ao Brasil para finalmente conhecer tudo isso.
%Julieta% inclinou a cabeça, observando-o.
Mingi olhou para ela por um longo momento, como se pesando a resposta. Então, um sorriso brincou em seus lábios antes de ele dizer:
— Muito mais do que eu esperava.
%Julieta% sorriu diante da resposta de Mingi, sentindo um calor diferente no peito — e não era apenas efeito do álcool ou da água salgada secando na pele.
— E o que você faz na Coreia? — ela perguntou, curiosa.
Mingi passou a mão pelos cabelos molhados novamente antes de responder:
Os olhos de %Julieta% brilharam.
— Sério? Isso é incrível! Você dança profissionalmente?
— Sim. Trabalho com uma companhia de dança, faço alguns shows e turnês. Também já trabalhei com coreografias para outros artistas.
%Julieta% arregalou os olhos.
— Isso é muito legal! Agora tudo faz sentido. Você tem porte de dançarino mesmo.
— Sou publicitária — ela respondeu, jogando os cabelos para trás. — Trabalho com marketing digital, essas coisas. Mas no Carnaval eu só trabalho sendo foliã mesmo.
— Vinte e seis — Mingi respondeu, encostando as mãos na areia para se apoiar melhor.
%Julieta% sorriu, satisfeita com a conversa fluindo tão naturalmente entre eles.
— Ok, então já sabemos o básico um sobre o outro. Agora a pergunta mais importante… — Ela estreitou os olhos em um tom brincalhão. — Qual é sua comida brasileira favorita?
— Essa é fácil:
feijoada. — Ótima escolha! — Ela ergueu a mão para um high five, e ele bateu de leve contra a dela.
— E a sua comida coreana favorita? — ele devolveu a pergunta, arriscando sobre ela saber ou não algo da cultura dele.
Mingi arqueou uma sobrancelha, impressionado.
— Já! Eu amo comida coreana.
— Isso significa que você já tomou soju também?
— Claro! Mas não sei se aguentaria soju depois de um dia inteiro de cerveja e caipirinha.
Mingi riu junto, concordando.
A conversa continuou assim, fluindo leve e divertida, entre trocas de curiosidades e risadas. O Carnaval acontecia ao redor deles, mas por um momento, parecia que o mundo tinha diminuído para apenas os dois ali, sentados na areia, conhecendo um ao outro sob o céu estrelado do Rio.
Depois de um tempo aproveitando a brisa do mar e conversando sobre tudo e nada, %Julieta% e Mingi decidiram voltar para a folia. O bloco ainda estava a todo vapor, com a música ecoando pelas ruas, e eles se deixaram levar novamente pelo ritmo contagiante do Carnaval.
Dançaram, riram, brindaram com mais uma rodada de bebidas e encontraram outros foliões tão animados quanto eles. Mingi parecia cada vez mais encantado com tudo — com a energia do Carnaval, com o calor da noite e, claro, com %Julieta%.
Mas, depois de mais algumas horas de festa, o cansaço finalmente começou a pesar. O suor misturado com a água salgada do mar deixava os corpos pegajosos, e os pés de %Julieta% já imploravam por descanso.
— Acho que eu vou indo — ela disse, depois de olhar o horário no celular.
Mingi, que estava ao lado dela, ajeitando a gola da camisa que havia secado no corpo finalmente quando ele decidiu colocá-la de novo, ergueu uma sobrancelha.
— Sim, vou pedir um carro de aplicativo — respondeu casualmente.
— A essa hora? Você tem certeza que é seguro?
%Julieta% riu, achando fofo o jeito preocupado dele.
— Eu faço isso o tempo todo, Mingi. Relaxa.
Mas ele não parecia convencido.
Ela piscou algumas vezes, surpresa.
— Eu vou com você até a sua casa — ele repetiu, dando de ombros. — Só pra garantir que você chegue bem.
%Julieta% sentiu uma onda de calor que não tinha nada a ver com o verão do Rio.
— Você não precisa fazer isso…
— Eu sei — ele sorriu de leve. — Mas eu quero.
Ela mordeu o lábio, hesitando por um momento. Mas, no fim, achou melhor não discutir.
— Tudo bem — ela cedeu. — Vamos pegar um carro então.
Mingi sorriu satisfeito, e os dois caminharam juntos para um local mais tranquilo para chamar o transporte. Enquanto aguardavam, %Julieta% se pegou observando Mingi de canto de olho. Mesmo cansado e com os cabelos bagunçados pelo vento e pelo mar, ele parecia tão bonito e sereno que ela sentiu o coração bater um pouco mais forte.
Talvez o Carnaval tivesse realmente uma magia única.
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O silêncio no carro de aplicativo era confortável. %Julieta% sentia o cansaço finalmente alcançá-la, seu corpo relaxando contra o banco enquanto a adrenalina da noite começava a se dissipar. As luzes da cidade passavam como borrões coloridos pela janela, e ela piscava devagar, tentando não se deixar levar pelo sono.
Ao seu lado, Mingi permanecia atento. Ele observava a cidade pela janela, como se quisesse absorver cada detalhe daquele momento. Seu rosto refletia uma mistura de fascínio e cansaço, os olhos atentos às ruas movimentadas, aos foliões ainda espalhados pela cidade e às ondas distantes do mar que às vezes apareciam entre os prédios.
%Julieta% se virou levemente para ele, sem dizer nada. Havia algo na forma como ele olhava para o Rio de Janeiro que a fez sorrir, mesmo que estivesse exausta. Parecia que ele estava registrando tudo, como se quisesse guardar aquela noite para sempre.
— Você está bem? — ela perguntou, a voz baixa e suave.
Ele desviou o olhar da janela e sorriu de lado.
— Sim. Só... ainda estou tentando processar tudo isso.
— O Carnaval tem esse efeito — ela murmurou, apoiando a cabeça no encosto. — A gente só percebe o quanto aproveitou quando o corpo começa a reclamar.
— Então acho que aproveitei bastante.
Ela fechou os olhos por um instante, deixando o cansaço vencer um pouco. A cidade continuava viva lá fora, mas dentro do carro, tudo parecia mais lento, mais tranquilo. %Julieta% sentiu a presença de Mingi ao seu lado e se permitiu relaxar um pouco mais.
Mesmo sem trocar mais palavras, havia algo reconfortante naquele silêncio compartilhado.
%Julieta% ficou alguns segundos apenas sentindo a respiração ritmada de Mingi ao lado dela, o silêncio confortável preenchendo o carro enquanto as luzes da cidade piscavam pela janela. Mas algo a cutucava por dentro, um pensamento insistente que não quis ignorar.
Ela abriu os olhos devagar e se virou para ele.
Ele desviou o olhar da janela para ela, como se tivesse sido puxado de volta para o presente.
— Você está aqui sozinho? Quer dizer… no Rio.
Ele inclinou a cabeça, refletindo por um segundo antes de assentir.
— Então quer dizer que você não conhece ninguém aqui?
— Além de você? — Ele sorriu de canto, e %Julieta% revirou os olhos, mas acabou sorrindo também.
— Estou falando sério — ela insistiu, cruzando os braços.
— Eu só queria ter essa experiência do Carnaval, sabe? Sempre quis conhecer o Rio de Janeiro nessa época do ano.
%Julieta% o observou por um momento, mordendo o lábio antes de perguntar:
— E… quer companhia amanhã?
Os olhos dele brilharam levemente com a pergunta.
— Minhas amigas e eu vamos sair de novo. Você pode vir com a gente, se quiser.
Mingi ergueu uma sobrancelha, claramente interessado.
— Você está me convidando?
— Estou. Mas se não quiser, tudo bem — ela deu de ombros, tentando soar casual, mas a verdade é que esperava que ele aceitasse.
Ele a olhou por um instante antes de sorrir.
%Julieta% sorriu de volta e puxou o celular do bolso.
— Então me dá seu número. Assim te avisamos onde vamos estar amanhã.
Mingi pegou o próprio celular e rapidamente desbloqueou a tela antes de entregá-lo a ela. Os dedos de %Julieta% digitavam rápido, salvando seu nome e número, e depois ele fez o mesmo no dela.
Quando os celulares foram devolvidos, Mingi olhou o contato salvo e soltou uma risada baixa.
—
“%Julieta% do Carnaval”?
— Assim você não me esquece — ela piscou, divertida.
Ele riu e balançou a cabeça.
— Acho que seria impossível.
O comentário fez algo dentro dela se aquecer, mas %Julieta% preferiu apenas sorrir. O carro continuou seu caminho pela cidade, e agora, o silêncio entre eles tinha um novo peso. Um cheio de expectativas para o dia seguinte.
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