O autor do meu caos

Escrita porNatashia Kitamura
Revisada/Editada por Natashia Kitamura

Capítulo 3

  Profissionalismo. Essa é a palavra do ano. Sou uma mulher muito profissional. Nunca me envolvi com ninguém do trabalho, nem com nenhum cliente. Nunca dei bola para ninguém e sempre fui pontual em tudo; aos prazos, aos horários de entrada (mas nunca os de saída); e até paguei do meu próprio dinheiro algumas lembranças de parabenização pelas vendas para autores que fiquei mais próxima. Sou muito profissional. Raquel não disse todas aquelas palavras para %Lucas% no primeiro dia da boca para fora. Dei motivos para ser elogiada assim.
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  Então por que me sinto sendo tão testada?
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  Estou sentada na cadeira da sala de reuniões dois meses e meio após nosso segundo (e desastroso) encontro. Limitei nossa conversa naquele dia - e todos os seguintes - puramente ao livro e ao enredo. Fingi mesmo que aquela não era uma história sobre nós dois e dei tudo de mim para transformá-la em algo de ainda mais sucesso.
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  Mas %Lucas% quase não fez alteração nenhuma.
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  Após quase três meses, meu autor está muito atrasado no prazo de entrega, afinal, se ele não consegue corrigir algumas coisas necessárias em cima de algo que já está pronto, o que dirá dos novos capítulos que não foram publicados. Se quisermos seguir com o cronograma de lançamento para daqui a 6 meses, precisamos que a história esteja pronta para ser impressa em pelo menos 2 meses.
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  Meu autor caótico não está nem perto de finalizar o livro.
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  – %Lucas%, sei que parecem muitas alterações, mas %Ana% possui argumentos muito convincentes. Estive acompanhando todos os e-mails…
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  – Não estou aborrecido sobre as mudanças - ele corta Raquel, que ergue a sobrancelha. Ela não está muito acostumada a ser interrompida –, mas parece que elas são infinitas.
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  “Parece porque você não fez nenhuma das correções", é o que tenho vontade de dizer, mas me abstenho.
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  – Vamos lá - abro o bolo de folhas sulfites que imprimi o manuscrito e entrego para ele, que está sentado logo à minha frente –, na última vez que conversamos, concordamos que a relação do Théo com os pais de Mariana parecia fria demais, ainda que você narrasse que os dois lados se davam muito bem. Uma ideia que tivemos, foi que houvesse uma cena em que a relação de sogros/genro pudesse ser exposta de forma mais leve e divertida. Não houve nenhuma cena nova, e isso faz duas semanas.
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  – Não consegui pensar em nada que pudesse justificar uma relação parceira entre eles. Talvez porque não houvesse… - ele olha para mim e sei que a conversa passa a ser mais pessoal. - Talvez os pais de Mariana não goste muito do Théo.
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  “O quê?” Quero gritar. "Você quer dizer que toda a greve de silêncio e olhares de desaprovação que sofri dos meus pais após o nosso término foi porque eles não gostavam de você? Ah, me poupe!”
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  Respiro fundo.
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  – Tudo bem. Então, nesse caso, que tal colocarmos uma cena que justifique essa animosidade. Existe algo que os pais dela possam fazer para que isso fique claro?
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  %Lucas% fica um bom tempo em silêncio e vejo-o procurar por alguma inspiração.
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  "Boa sorte em achar, otário. Meus pais gostam de você mais até do que de mim.”
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  – Não consigo pensar em nada agora.
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  – Então talvez isso seja uma interpretação pessoal do Théo, e não algo que de fato seja real?
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  – Está chamando o Théo de dramático e mentiroso?
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  – Estou só dizendo que, se não houver algo que justifique essa conclusão, então, sim, é isso o que pode parecer para os leitores.
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  Ergo o queixo em um movimento para que ele ouse me contrariar. O silêncio dentro da sala se torna gritante, até que Raquel nos interrompe:
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  – Bem… que tal discutirmos sobre a arte da capa? Daniela enviou algumas opções na semana passada. Você conseguiu dar uma olhada?
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  E assim, do nada, a expressão séria de %Lucas% muda para outra completamente diferente. Para Daniela ele envia sorrisos e parece compreender perfeitamente tudo o que ela quer dizer; todas as sugestões recebem elogios em troca e em menos de vinte minutos, a capa está quase decidida, dependendo somente do teste de impressão como cartada final.
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  A reunião acaba como sempre: um fracasso para mim.
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  Me despeço de %Lucas% e digo que irei fazer uma nova visita para que possamos tentar alinhar mais uma vez o que pode ser alterado ou não na história e ele apenas assente antes de acenar e ir embora, mas não sem antes trocar beijos com Raquel e Daniela.
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  – %Ana% - ouço a voz de Raquel quando estou prestes a voltar para minha mesa. Olho para minha chefe e sei que não vem coisa boa por aí –, minha sala.
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  Os primeiros cinco minutos passam voando. Raquel comenta sobre todos os e-mails, sobre o que poderia ter sido diferente e o que foi bom. Ela me deu a oportunidade de expressar minha opinião sobre a experiência com %Lucas% e o que poderia ser feito para que as coisas dessem mais certo.
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  Até que, de repente, a bomba surge:
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  – Sei que você tem dado o seu melhor, mas acredito que talvez eu tenha criado muita expectativa e você ainda não está pronta para liderar um projeto desse porte sozinha.
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  Abro a boca, mas nada sai. Não consigo dizer para ela que a culpa não é minha, mas não posso expor %Lucas% e nem a mim, e, para ser sincera, assim funciona a vida. Ele é o cliente, e ele raramente está errado. Se algo não está dando certo, então eu não fui boa o suficiente.
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  – Talvez algo menor primeiro - ela diz, claramente desapontada. Um enorme aperto na boca do meu estômago me faz querer chorar –, não se sinta mal, %Ana%, faz anos que trabalhamos juntas e sei do seu potencial. Mas, quem sabe, você precise de um pouco mais de tempo para conseguir tocar um projeto desse sozinha.
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  – Tirando a história, todo o resto está fluindo muito bem, Raquel. Se você permitir, sentarei pessoalmente com o %Lucas% até que tudo esteja perfeito…
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  Raquel ergueu uma mão, me interrompendo.
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  – Isso é algo que deveria ter sido feito há semanas, %Ana%. Estamos há mais de um mês atrasados. A obra deveria estar para ser finalizada; parte do manuscrito deveria estar em fase de revisão textual. Acredito que você tenha feito o suficiente com base no que tem para oferecer. Vamos tentar novamente uma próxima vez, com algo menor.
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  E então sou dispensada.
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  Caminho lentamente até minha mesa e não ouso olhar para ninguém. Sei que todo mundo já sabe o que aconteceu, afinal, ninguém é chamado com tanta frequência na sala da chefe e não perde algo. Quando a coisa é boa, Raquel vai pessoalmente até a mesa da pessoa, e não o contrário.
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  Permaneço calada fazendo o meu trabalho em modo automático até o fim do expediente. Pela primeira vez no ano, decidi sair no horário. Ninguém me chamou para um happy hour ou fez um comentário brincalhão sobre minha saída no horário certo, principalmente porque o e-mail de uma nova designação do editor chefe no projeto do livro de %Lucas% foi enviado por Raquel a toda a equipe envolvida pouco tempo depois de eu ter saído de sua sala.
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  %Lucas%, inclusive, estava copiado no e-mail.
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  Humilhação. Vergonha. Raiva de mim. Durante todo esse tempo eu acreditava ser ótima no que fazia. Dediquei dias e horas da minha vida para finalmente ter a oportunidade de ouro. Tudo para ser jogado no lixo por conta de um ex idiota que – eu não sabia – queria se vingar de mim.
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  Olhei para meu celular e vi algumas mensagens de Dani tentando me animar, mas não queria ser animada. Queria mergulhar em auto-piedade e odiar a pessoa que tem divulgado indiretamente o quanto eu sou ridícula para milhões de pessoas em todo o país.
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  Talvez Dani esteja certa. Talvez eu deva, sim, processar %Lucas% por difamação.
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  Abro minha agenda e digito um lembrete: falar com advogado, mesmo sabendo que jamais farei isso.
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  Será que eu sou mesmo a víbora que ele pintou? Será que a culpa é de fato minha pelo término? Quer dizer, sim, fui eu quem tomei a iniciativa, mas a decisão foi mútua. Ele nunca veio atrás de mim para tentar reatar. Nossos amigos sempre disseram que ele estava lidando com o término da maneira dele, mas que estava vendo outras pessoas e se divertindo.
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  Achei que a história fosse apenas uma maneira de desabafar. Quem sabe uma sugestão de algum terapeuta para ele colocar para fora o que não deve ficar dentro de si.
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  Sei que não fui a namorada perfeita. Que surtei quando não deveria e que fiz muito caso por pouco motivo. Mas nunca fui infiel. Sempre pedia desculpas quando estava errada. Admiti meus erros quando os enxergava. Cuidava dele e me preocupava com ele. Por que ele não me vê assim? Por que a versão que ele passa para todo mundo, é a de uma garota louca, narcisista e ninfomaníaca?
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  Quando estava chegando em casa, senti meus olhos marejados. Minha garganta doía porque queria gritar, mas não poderia fazer isso do nada em público.
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  Virei a esquina do prédio onde morava, doida para entrar, ligar o chuveiro e colocar para fora toda a frustração que estava sentindo. Então sairia e pediria comida, algo bem gorduroso enquanto assisto a alguma série de comédia. Tudo para conseguir esquecer do pesadelo que foi o dia de hoje.
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  – %Ana% Moura? - o porteiro me chama e olho para ele, mesmo querendo ignorá-lo. O homem, no entanto, sempre foi tão educado comigo que não tenho coragem de destratar alguém que não merece.
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  – Sim?
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  – A senhorita tem visita. - ele aponta com a cabeça para o conjunto de sofás que tem no hall de entrada. Viro para trás e vejo %Lucas% se levantando da poltrona em que estava sentado.
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  Merda.
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Capítulo 3
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