Capítulo 8
ANOS DEPOIS...
O sol ainda pairava alto no céu anil quando Isisnofret e Bintankt atravessaram os portões policromados do palácio de Mênfis. O ar quente do deserto entranhava-se em cada vestimenta leve e perfumada de óleo de lótus, enquanto as colunas de calcário reluziam aos reflexos dourados dos raios solares. As duas irmãs, tão diferentes em personalidade, moviam-se lado a lado pelo longo corredor que as levaria ao grande salão onde se realizaria hoje um torneio de Senet, promovido pelo príncipe herdeiro Merenptah, em celebração à partida dos hebreus.
Isisnofret, com seu porte suave e olhar sereno, observava cada detalhe com curiosidade.
— Repara no entalhe dos barquinhos sobre as vigas, Bintankt. Dizem que o príncipe mandou vir aqueles blocos de granito especialmente do deserto oriental. — Sua voz tinha o tom justo do encanto diante da arte.
Bintankt, a irmã mais nova, franzia ligeiramente a testa, absorvendo o perfume adocicado das tâmaras secas expostas em bandejas de prata.
— Gosto mais deste aroma… faz-me lembrar nosso jardim em Tebas. Mas confesso que estou ansiosa para ver de perto como se joga Senet numa corte real.
As damas de companhia guiaram-nas até o centro do grande salão, onde um tablado de madeira escura reluzia sob as tochas. Ali, largas mesas estavam dispostas em círculo, cada uma acomodando quatro jogadores e suas escravas com taças de vinho de tâmaras. O príncipe Merenptah surgiu em seguida, vestindo um quális bordado de linho fino, cintilante como a areia do deserto ao entardecer. Seu olhar era maroto, o sorriso, indulgente; ao lado dele, serviçais depositavam os bastões de contagem e as peças de ébano e marfim.
— Bem-vindas, nobres senhoritas — anunciou ele, ladeado por eunucos que cuidadosamente afastavam a mobília para abrir espaço. — Se quiserem, posso lhes oferecer um lugar neste jogo. Nada como a companhia de moças admiráveis para adoçar a tarde.
Isisnofret recebeu o convite com elegância: curvou-se levemente e sorriu, estendendo a mão.
— Será uma honra, príncipe Merenptah. A sabedoria de Isisnofret, quem sabe, se alia à coragem de Bintankt e surpreende as tabuinhas do destino!
Bintankt permaneceu um instante em silêncio, os olhos fixos na expressão divertida do príncipe. Por fim, murmurou:
— Aceitamos, majestade, com gratidão. Mas confesso que minhas mãos trêmulas raramente conduzem a sorte.
Merenptah soltou uma risada baixa, quase musical.
— Respeitável honestidade. Mas aprendi que, no Senet, o mais importante não é só conduzir as peças, e sim ler os cartões do coração. Hahaha!
Alocadas na mesa de número três, as irmãs trocaram olhares cúmplices. Isisnofret retirou alguns bastõezinhos de ébano, explicou a Bintankt o movimento de cada peça, detalhando em suas palavras claras e firmes como se alinhavam os tronos e as casas de passagem. A irmã mais nova aprendeu rápido, embora mantivesse uma postura contida, sempre calculando as jogadas antes de lançar os bastões.
O primeiro lance que fora de Bintankt foi surpreendentemente audacioso: um avanço triunfante pela “Estrada do Caminho da Água”, levando-a a arredondar a última curva em posição de fuga. A plateia murmurou, contida de espanto. Isisnofret bateu palmas suavemente, com aquele riso delicado que sempre encontrava a nota justa de alegria.
— Bem jogado, Bintankt! — exclamou ela, como quem descobre um segredo.
Merenptah ergueu a taça de vinho e brindou:
— À coragem de princesas! Mas observem que, no Senet, os placares mudam como dunas ao vento do deserto. Deixem o rei do jogo mostrar-lhes um truque.
E, num piscar de olhos, ele posicionou suas peças de forma a bloquear ambos os tabuleiros, sussurrando instruções à sua assistente, que conduziu umas poucas palavras em tom discreto a Isisnofret. A princesa calou-se, contente com a cumplicidade no leve movimento de sobrancelha da irmã. O jogo prosseguiu entre ares de leveza e risos contidos.
No intervalo entre as partidas, Isisnofret e Bintankt puderam desfrutar de tantas iguarias quantas permitia a etiqueta: tâmaras recheadas com mel de flores de acácia, pães macios de cevada, pedaços de figo cobertos por pistaches moídos. O príncipe aproximou-se de novo, estendeu o braço em gesto cavalheiresco e as convidou para examinar um tabuleiro ornamentado em laca azul, presente raro do reino de Kush.
— Minhas senhoritas, venham, pois desejo mostrar-lhes este exemplar de Senet — disse ele, falando tão perto de Bintankt que as fragrâncias do óleo de jasmim em seus cabelos se misturaram. Ela corou, sentindo um formigar de ansiedade; Isisnofret sorriu com leveza, enaltecendo o interesse de ambas:
— É magnífico, príncipe. Os entalhes relatam cenas de vitória sobre as águas do Nilo.
Enquanto isso, Merenptah explicava que, segundo velhos sábios, quem dominasse aquele tabuleiro poderia até travar amizade com as divindades do Submundo. Falava de mitologia, falava de sedução… e, sempre que voltava o olhar para Bintankt, seus olhos brilhavam com malícia doce. A irmã mais nova sentiu-se cativada, presa entre a reserva habitual e um encanto novo, distinto.
O torneio foi retomado. No ato decisivo, quando Merenptah estava prestes a derrotar todas as oponentes, Isisnofret interferiu com um conselho magistral, sugerindo a Bintankt que trocasse um bastão de contagem — um movimento arriscado, porém possível de inverter o jogo. Bintankt hesitou, ergueu a cabeça e, com firmeza, levou a peça no quadrado exato. O estalo do ébano sobre a madeira ecoou pelo salão. Todas as peças avançaram, e… empate.
Houve aplausos. Merenptah, despido de qualquer ofuscação, fez uma reverência:
— Então ficou claro quem aqui detém maior sabedoria. Mas confesso, adoraria um recomeço desta partida ao pôr do sol, à beira do Nilo. Quem se arrisca a me acompanhar?
Isisnofret, com seu sorriso sempre presente, inclinou-se respeitosa:
— Agradeço o convite, Alteza, mas prometi ajudar nossa mãe na organização dos pães para o banquete desta noite.
Bintankt, que até então se mantinha calada, ergueu o queixo e, decidida:
— Eu irei, príncipe. Quero ver se desta vez consigo vencer por completo, sem ajudas — afirmou, surpreendendo a todos com o tom firme.
Merenptah estendeu-lhe a mão.
— Aceito o desafio, então. À tardinha, procurarei a barca do príncipe ancorada junto ao cais de lótus. Lá, todos os mistérios do Senet se revelam.
E assim, enquanto o sol começava a descer no horizonte, tingindo o céu de tons cor-de-lua e púrpura, as duas irmãs se despediram do príncipe herdeiro. Isisnofret contemplava a irmã, consciente de que algo novo estava brotando no coração de Bintankt. A jovem, por sua vez, sentia-se acalentada pela ousadia que crescera ao longo do dia, e uma ponta de excitação lhe percorria as veias — como se, naquela partida de Senet, ela não apenas desafiara o príncipe, mas desvendara um enigma de si mesma.
Num prelúdio de sussurros e promessas, o grande salão mergulhou em sombras suaves, deixando para trás o eco de risadas, murmúrios de vitória e a certeza de que, na corte de Mênfis, nada jamais seria tão simples quanto uma simples partida de um antigo jogo.
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No rio Nilo, enquanto Merenptah tomava um banho de rio, Bintanhkt o observou, Merenptah parecia realmente belo enquanto se banhava no rio... Era um momento como nenhum outro. Ver as águas do rio Nilo, e a água que Merenptah tomava no rio Nilo, colocavam as perspectivas em foco.
Ver Merenptah tomando banho no rio Nilo deixava a jovem Bintankt corada. Era impressionante como o príncipe era bonito. Ele tinha seu jeito divertido e travesso, mas era uma boa companhia. Enquanto sentia as águas do rio Nilo cruzarem suas mãos, o príncipe que voltava do banho, voltou sua atenção para a bela Bintankt. Ela era realmente bonita...