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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Na Hora Certa

Escrita porNyx
Editada por Lelen

CAPÍTULO 09 • Entre o Silêncio e o Toque

  POV %Isla% %Torres%

  Mônaco sempre pareceu um lugar fora da realidade. Prédios que se empilham como peças de luxo, carros que valem mais que apartamentos e aquele cheiro de dinheiro que se mistura com o sal do mar. Eu nunca me senti parte disso. Nem quando vinha a trabalho, nem quando passava correndo por alguma rua estreita a caminho do paddock.
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  Mas naquela manhã, com %Liam% ao meu lado no banco de trás do carro, agarrado ao robô como se fosse uma extensão do braço, tudo parecia diferente. Talvez porque eu não estivesse ali como engenheira. Nem como mulher que engole palavras no box. Eu estava ali como mãe. E, de algum jeito, isso mudava tudo.
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  Charles mandou a localização mais cedo, com uma mensagem curta: “Portão branco. Número 14.”
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  Achei que seria um daqueles prédios com fachada espelhada e elevador que reconhece a digital. Mas não. Era uma casa. Simples, pelo padrão monegasco. Três andares, janelas grandes, plantas bem cuidadas. Portão eletrônico discreto, nenhum carro de ostentação na entrada. Só uma bicicleta escorada no muro e o som abafado de música vindo de dentro.
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  %Liam% balançava as pernas no banco com impaciência. Eu revia mentalmente todas as formas de tornar aquela visita… segura. Leve. Sem margem para confusão.
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  Só que não era só isso. A frase que Charles tinha deixado escapar ainda ecoava — a gente não tá mais junto.
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  Não parecia recente, dava pra ver no silêncio que ele carregava.
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  Era um fato.
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  E, contra a minha vontade, meu coração tinha batido um pouco mais rápido ao saber disso.
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  — É aqui? — %Liam% perguntou, os olhos brilhando de curiosidade.
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  Assenti, soltando nossos cintos e alisando o vestido leve que tinha escolhido pra parecer relaxada. Falhei. Meu coração batia como se eu estivesse prestes a apresentar um projeto na frente da FIA.
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  Toquei o interfone. A voz dele veio em segundos.
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  — Oi. Já tô descendo.
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  %Liam% se ajeitou na minha frente e sorriu com todos os dentes.
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  E foi ali, no meio do bairro mais caro de Mônaco, com meu filho segurando o robô que Charles tinha me ajudado a entregar, que eu pensei: “Isso aqui… vai dar merda.”
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  Mas quando ele abriu o portão, com o cabelo bagunçado e o sorriso despretensioso, eu simplesmente entrei e deixei o que podia dar errado do lado de fora.
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  %Liam% disparou casa adentro como se tivesse sido acionado por um semáforo verde. Passou direto por mim e por Charles, os passos ecoando no piso claro. A casa era ampla, iluminada, cheia de detalhes que diziam muito sobre ele: quadros com fotos de corridas antigas, capacetes em prateleiras altas e troféus discretos no canto. Nada espalhafatoso. Tudo organizado demais pra ser apenas vaidade.
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  — Uau... — %Liam% exclamou de algum lugar mais ao fundo. — Mamãe! Tem um volante aqui! É de verdade?
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  Segui o som até a sala ao lado e encontrei meu filho de pé diante do simulador. Os olhos brilhavam como se tivesse encontrado o Batmóvel.
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  — Pode brincar? — perguntou ele, virando-se pra Charles com uma empolgação genuína. Charles riu, se abaixando até ficar na altura dele.
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  — Só se prometer que vai bater todos os meus recordes.
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  %Liam% fez um positivo com o polegar e já pulou pro assento, completamente imerso.
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  Ficamos alguns segundos apenas observando a cena, os dois em silêncio, enquanto %Liam% testava os botões como se fosse um engenheiro mirim. Charles apontou com a cabeça em direção aos fundos da casa.
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  — A piscina é ali. Fica à vontade.
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  Caminhei atrás dele até o quintal, ainda me sentindo… em trânsito. Como se meu corpo tivesse aceitado o convite, mas minha mente ainda estivesse discutindo com ele.
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  A piscina era bonita. Retangular, bem cuidada, com algumas espreguiçadeiras e plantas nos cantos. Nada grandioso. Mas tinha aquele ar de coisa bem-feita, pensada pra ser lar e não cenário de revista.
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  — Obrigada — falei, enfim. Charles apenas assentiu.
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  — Achei que o %Liam% ia gostar. Ele parece estar precisando de um fim de semana sem rotina.
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  — Ele tá, sim — murmurei. E depois completei: — Eu também.
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  O riso do %Liam% cortou o ar como um tiro de largada. Livre. Espontâneo. Sem filtro.
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  — Mamãe! Olha isso! — ele gritou da sala, empolgado demais pra lembrar que eu estava a dois cômodos de distância.
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  Sorri sem perceber. O som dele feliz sempre fazia isso comigo, desmontava qualquer muralha.
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  — Vai com calma aí, piloto — avisei, entrando na sala e encontrando meu filho completamente imerso no simulador, as mãos pequenas firmes no volante, os pés mal alcançando os pedais.
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  — Tô quase batendo seu tempo, Charles! — anunciou, concentrado.
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  Charles riu baixo, apoiado no batente da porta.
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  — Quero ver, então. Mas ó… — ele apontou com a cabeça para o quintal, onde o sol já brilhava alto. — A piscina tá liberada.
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  Os olhos do %Liam% se arregalaram como se alguém tivesse anunciado pole position.
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  — Sério?! — Ele largou o volante num pulo e já começou a tirar os fones. — Posso ir agora?
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  — Calma, campeão — interrompi, erguendo a mão. — Antes da piscina tem um combinado, lembra? — Ele fez aquela careta clássica de criança contrariada.
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  — Protetor… — murmurou, derrotado.
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  — Isso — confirmei, já pegando a bolsa. — É rápido.
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  — Mas eu quero ir agora… — reclamou, já andando na direção do quintal.
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  — E vai — respondi, firme. — Em dois minutos. Vem cá.
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  Ele resmungou alguma coisa, mas obedeceu. Sentei-o no sofá e passei o protetor com cuidado nos ombros, nas bochechas já levemente quentes e na ponta do nariz.
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  — Precisa de ajuda com o pequeno rebelde aí? — Charles perguntou, divertido.
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  — Tô lidando — respondi, lançando um olhar para o %Liam%, que fez careta só por esporte. — E não venha defender, ou ele vai te recrutar como cúmplice da próxima birra.
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  Charles ergueu as mãos, rendido.
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  — Tudo bem, tudo bem. Só tô do lado de quem pilota melhor o simulador. — Ele piscou para o %Liam%, que abriu um sorriso instantâneo.
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  — Mamãe pilota foguetes de verdade, tá? — rebateu, inflando o peito.
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  Antes que eu pudesse responder, ele disparou em direção ao quintal.
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  — Isso aí — murmurei, mais pra mim mesma do que pra qualquer um.
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  O sol tocava minha pele com cuidado quando o segui, quente na medida certa. %Liam% já se equilibrava na beirada da piscina, impaciente demais pra esperar qualquer coisa que não fosse água.
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  — Cuidado! — avisei, tarde demais.
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  O mergulho veio acompanhado de um respingo alto e uma gargalhada ainda maior.
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  Quando ergui o olhar, notei Charles encostado no batente da porta, observando a cena com um sorriso discreto, atento demais pra quem dizia não saber lidar com finais de semana comuns.
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  Ele caminhou até o jardim e começou a tirar a camiseta. Devagar. Naturalmente. Mas nada em mim foi natural assistindo àquilo.
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  O torso definido, a pele levemente dourada pelo sol, a barriga marcada com a precisão de quem convive com treinos, disciplina e uma genética generosa demais. Ele passou a mão pelo cabelo com aquela displicência irritante de quem não faz ideia do próprio efeito — ou talvez fizesse, e isso tornava tudo pior.
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  Charles pulou na piscina com facilidade, levantando água e riso ao mesmo tempo. %Liam% gritou de empolgação, tentando se esconder enquanto ele fingia ser um tubarão desajeitado.
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  Eu me sentei na espreguiçadeira, os óculos escuros protegendo mais o meu olhar do que do sol em si. Observava os dois: o piloto sério, acostumado a entrevistas, estratégias e números, agora brincava ali, inteiro, como se aquele papel tivesse sido feito sob medida pra ele.
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  E havia algo ali.
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  Algo na forma como Charles deixava a guarda cair perto do meu filho. Algo na leveza que ele não mostrava no paddock. Algo que me fez esquecer da planilha de torque e dos relatórios de desempenho.
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  — Você não vai entrar? — ele perguntou, nadando até a borda onde eu estava.
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  — Não. Eu… tô bem aqui — respondi, cruzando as pernas, o vestido leve caindo até a altura do joelho.
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  — Mamãe, entra! — %Liam% gritou do outro lado, batendo as mãos na água. — Você prometeu nadar comigo!
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  Suspirei. Drama em forma de gente pequena.
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  — Prometi nadar com você, não com tubarões — falei, olhando para Charles com um sorriso de canto. Ele ergueu as mãos em rendição.
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  — Prometo que me comporto. Mais ou menos. — Ri, balançando a cabeça.
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  — Tá bom. Um mergulho. Só um.
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  Levantei devagar, ajustei os óculos escuros e, num gesto rápido demais pra permitir arrependimento, tirei o vestido por cima da cabeça.
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  O biquíni era preto, simples. Pequeno o bastante pra não esconder nada.
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  A cicatriz da cesárea atravessava o baixo ventre como uma linha silenciosa. As estrias suaves na pele, a textura real das coxas, os seios mais cheios — tudo o que a maternidade deixou como lembrança permanente. Não era mais o corpo de antes, mas era o corpo que tinha carregado meu filho. O corpo que sobreviveu a tantas versões de mim.
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  Por um segundo, me senti exposta demais. E quando olhei pra frente… os olhos do Charles estavam fixos em mim.
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  Não famintos.
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  Não invasivos.
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  Apenas… presentes.
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  Como se ele estivesse vendo tudo.
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  E escolhendo ficar.
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  — Vem logo, mamãe! — %Liam% chamou, quebrando o momento.
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  Mergulhei sem pensar.
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  A água estava morna. A risada do meu filho era o som mais feliz que já ouvi. E, ali, entre braçadas e respingos, eu percebi: aquela segunda, naquela casa em Mônaco, com aquele homem e aquele menino… Era uma curva inesperada da vida. E talvez, pela primeira vez, eu estivesse disposta a deixar o carro derrapar um pouco.
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🏁🛠️

  A água da piscina fazia ondas pequenas, tranquilas, o som rítmico das risadas preenchendo o quintal como uma trilha sonora particular. Charles e %Liam% estavam mergulhados — literalmente — em uma competição que envolvia saltos, respingos e um boneco inflável que representava o "chefão da última curva".
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  Eu, sentada em uma espreguiçadeira, com o biquíni ainda úmido e os óculos escuros no rosto, observava os dois. Tinha saído da piscina há uns vinte minutos. Não porque estava com frio, mas porque… bom, era muita exposição. E porque parte de mim ainda não sabia exatamente o que fazer com aquele tipo de alegria espontânea.
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  Passei protetor solar nos ombros de novo, ajustei a canga ao redor do quadril e peguei o celular. Abri a tela, mas não digitei nada. Apenas deslizei o dedo pelas notificações, tentando me distrair — ou talvez me proteger daquela sensação de estar segura demais ali.
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  Foi quando ouvi os passos leves e molhados se aproximando.
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  — Tudo certo? — a voz dele veio baixa, quase gentil demais pro Charles que eu conheci no box semanas atrás.
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  Ergui os olhos. Ele estava com o cabelo pingando, sorriso manso e os braços apoiados na beirada da espreguiçadeira. %Liam% continuava nadando, entretido com seu mundo de foguetes imaginários.
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  — Tá — respondi, devolvendo o celular ao colo. — Só… estranho me sentir tão em paz.
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  Charles arqueou uma sobrancelha. Não perguntou mais, só ficou ali. Presente.
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  — Estranho… mas bom? — ele perguntou, com aquele meio sorriso que parecia sempre à beira de um flerte.
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  Virei o rosto um pouco para encará-lo de verdade e não precisei dizer nada. Ele entendeu no meu olhar e eu entendi que ele entendeu.
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  O sol já começava a escorregar pelo céu quando saímos da piscina. %Liam% protestou, claro — queria mais dez minutos, depois mais cinco — mas bastou a promessa de “comida feita pelo piloto” para que ele pulasse do deck enrolado na toalha como se fosse um super-herói.
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  Dentro de casa, o ar ainda carregava um cheiro suave de manjericão e alho. Um aroma que não parecia recente, mas acolhedor. Como algo que tinha sido preparado com antecedência.
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  Charles passou direto pela cozinha, foi até o fogão e acendeu uma das bocas.
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  — Tá quase pronto — comentou, levantando a tampa da panela e mexendo o molho com calma. — Só esquentar.
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  — Você já tinha cozinhado? — perguntei, erguendo uma sobrancelha enquanto ajeitava os cabelos ainda úmidos no coque improvisado.
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  Ele deu de ombros, com um meio sorriso tranquilo.
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  — Achei que a gente ia acabar com fome depois da piscina. Planejamento básico de sobrevivência.
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  Na mesa posta de forma simples — louça clara, guardanapos dobrados com cuidado — ele foi colocando os pratos. A pasta alla norma já vinha fumegante: berinjela macia, molho de tomate encorpado, manjericão fresco e queijo pecorino ralado na hora.
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  — Isso tá com um cheiro… — comecei.
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  — …de restaurante — completou %Liam%, já se sentando com os cotovelos na mesa e os olhos famintos.
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  Charles riu, servindo os pratos com uma naturalidade que quase me desarmou. Como se fosse rotina. Como se aquela cena tivesse sido ensaiada pela vida, não pela pressa.
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  — Você cozinha melhor do que alguns lugares que eu comi na Itália — comentei, depois da primeira garfada. — E olha que isso é um elogio de alguém criada com lasanha da Dona Lucía.
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  — É o maior elogio possível — %Liam% acrescentou, a boca cheia. — Mamãe come muito.
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  Revirei os olhos, mas ri. Charles também. %Liam% balançava as perninhas sob a cadeira, já com o queixo sujo de molho.
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  — Charles… como é que é ter um simulador de verdade? — perguntou, curioso. — É tipo… igual ao videogame do meu tio?
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  — Bem mais legal — ele respondeu. — Mas tem menos dragão e mais curva fechada.
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  — E dormir na casa de um piloto — continuou %Liam%, sério, como quem faz uma pergunta muito importante — dá direito a alguma carteirinha especial?
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  Charles fingiu pensar enquanto enchia o copo dele de suco.
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  — Se der, me avisa — disse. — Porque acho que a minha já venceu.
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  %Liam% gargalhou, batendo palminhas.
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  E eu observei a cena em silêncio, sentindo aquele incômodo bom de quem percebe que algo simples estava ficando… importante demais.
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  — Então eu sou o único com a carteirinha agora!
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  — Claramente o mais importante da mesa — comentei, rindo também, enquanto limpava o canto da boca dele.
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  — E mais exigente — acrescentou Charles. — Já vi críticos menos rigorosos que você.
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  — Eu sou piloto foguete, tenho que ser exigente — ele disse com a maior naturalidade do mundo.
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  E nós dois rimos. Como se aquele momento tivesse nascido pra durar.
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  De sobremesa, ele apareceu com potinhos de sorvete artesanal.
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  — Gelato, na verdade — corrigiu ele, fazendo charme.
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  — O senhor tá se esforçando demais pra ganhar pontos com o crítico aqui — falei, apontando pro %Liam%.
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  — E tá funcionando — o pequeno respondeu, já com chocolate escorrendo pelo canto da boca.
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  Eu sorri. De novo. Do tipo que escapa. Do tipo que não se segura.
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  Por um instante, pensei: é assim que é? Essa sensação de calmaria, de não precisar estar na defensiva o tempo todo? E quando nossos olhares se cruzaram de novo por cima da mesa… algo no meu peito cedeu mais um pouco.
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  Assim que terminou o último pedaço de sorvete, %Liam% já estava se contorcendo na cadeira, inquieto.
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  — Agora posso voltar pra piscina? — perguntou, já escorregando do assento antes mesmo da resposta.
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  — Não, senhor. — Cruzei os braços, com aquele tom de mãe que carrega mais ciência do que ameaça. — Você acabou de almoçar. Tem que esperar a digestão, lembra?
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  Ele parou, bufando alto, como se o mundo fosse uma conspiração contra as crianças e seus planos aquáticos.
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  — Mas eu não tô com dor! — protestou. — Meu estômago tá normal!
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  — Mesmo assim, %Liam%. É perigoso. Mais uns quarenta minutinhos e você volta, tudo bem?
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  Ele cruzou os bracinhos, emburrado, e se jogou no sofá com a mesma indignação de um piloto que perdeu a pole position por meio décimo.
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  — Pode ligar a TV pra ele? — pedi, já procurando o controle. — Um desenho qualquer, só pra distrair a revolta.
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  — Deixa comigo — Charles respondeu, pegando o controle e passando rapidamente pelos canais. — Tem algum preferido, foguete?
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  — Qualquer um que não tenha comida — murmurou %Liam%, ainda de cara fechada.
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  A TV começou a exibir um desenho animado com monstros coloridos e carros falantes. %Liam% assistia de lado, com o robô colado no peito, mas os olhos já piscavam mais devagar.
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  Charles se virou pra mim, com um meio sorriso.
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  — Ele tem personalidade. Bastante.
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  — Ele é uma força da natureza com pernas — brinquei, me recostando na cadeira. — Mas é meu caos preferido.
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  Charles se sentou de frente pra mim, apoiando os braços sobre a mesa. A tensão da manhã já parecia ter se dissolvido. O sol batia de leve na sala, refletido nas janelas amplas da casa.
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  — Me conta mais sobre os protótipos — ele disse, com a voz mais baixa, quase como se estivéssemos conspirando em meio ao silêncio da tarde. — Como era trabalhar com eles? Sempre achei essa parte meio... secreta.
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  Soltei uma risada curta.
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  — Quase uma sociedade secreta mesmo. Muita coisa não podia vazar. A gente testava sistemas que nem tinham nome ainda. Aerodinâmica, sensores, reações de materiais. Às vezes parecia que eu tava brincando de montar carros de outro planeta.
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  — E você era a comandante da nave — ele comentou, o tom suave.
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  — Algo assim. — sorri. — Mas também era a que limpava o chão depois que tudo dava errado.
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  A conversa seguiu por mais uns bons minutos. Falei dos erros mais malucos, das tentativas que renderam explosões de fumaça, dos engenheiros que apostavam café em cada simulação. Ele me ouviu com atenção, fazendo perguntas, rindo nos momentos certos, e contribuindo com pequenas histórias dele também.
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  Quando o silêncio chegou de novo, olhei para o sofá.
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  %Liam% estava deitado de lado, o robô apertado nos braços, a boca entreaberta no começo de um cochilo profundo.
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  — Apagou — murmurei, com a voz mais baixa.
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  — O que a piscina não levou, o almoço resolveu — Charles respondeu, sorrindo.
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  Me levantei devagar, observando meu filho dormindo com aquele tipo de entrega que só as crianças conhecem. O robô ainda agarrado ao peito, os cabelos cacheados colados na testa pelo calor da tarde, os cílios descansando como se o mundo fosse gentil.
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  Charles se aproximou e parou ao meu lado, com a voz baixa, quase um sussurro:
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  — Quer que eu o leve pro quarto de hóspedes? Vai dormir mais confortável lá.
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  Assenti, sem conseguir falar. Algo naquela calma me desmontava por dentro. Ele se abaixou, com cuidado, pegou %Liam% nos braços como quem segura um segredo precioso e sumiu pelo corredor.
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  Fiquei ali por alguns segundos depois que o silêncio tomou conta da casa. Então caminhei até a varanda.
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  O céu começava a se tingir de dourado, refletindo no azul profundo do mar. Mônaco se espalhava abaixo, viva, distante, quase irreal. Mas meus olhos ficaram presos na água, no movimento lento das ondas. Era como se tudo tivesse desacelerado de propósito.
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  Ouvi passos atrás de mim.
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  — Ele nem se mexeu depois que eu o coloquei na cama — a voz do Charles veio baixa, respeitosa.
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  Sorri de leve, sem virar.
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  — Ele não costuma dormir fora de casa à tarde.
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  — Pois é… — houve uma pausa. — Mas já tá bem acomodado. Levei ele pra cama do quarto de hóspedes. Cobri direitinho.
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  Aquilo… me atravessou mais do que eu esperava.
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  — Obrigada — murmurei. — Ele costuma acordar desorientado quando dorme em lugar diferente.
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  — Eu fiquei ali um pouco — ele completou. — Até ter certeza de que tava mesmo dormindo.
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  Virei o rosto, encontrando Charles parado a poucos passos de mim. Não havia pressa nele. Nem pose. Só aquele jeito atento que ele tinha quando realmente estava presente. Ele se aproximou e parou ao meu lado, apoiando os antebraços no parapeito da varanda.
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  — Ele é um garoto incrível — comentou, olhando para o horizonte. — Curioso. Esperto. E… tranquilo. Apesar de tudo.
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  — Apesar de mim? — perguntei, com um meio sorriso.
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  — Apesar do mundo — corrigiu. — Criança sente quando o mundo pesa.
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  O silêncio voltou a se instalar entre nós. Mas não era desconfortável. Era denso. Cheio.
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  — Faz tempo que minha casa não fica assim — ele disse, depois de alguns segundos.
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  — Assim como? — Ele respirou fundo antes de responder.
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  — Viva. Normal. — Engoli em seco, os olhos ainda no mar.
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  — Você vive cercado de gente.
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  — Não é a mesma coisa.
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  Ele virou levemente o rosto na minha direção, mas não me encarou de imediato.
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  — Eu não sei o que você faz… — disse, baixo, como se estivesse testando as próprias palavras. — Mas meu mundo fica mais leve quando você aparece.
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  Fechei os olhos por um instante. A frase pousou devagar, pesada e suave ao mesmo tempo. Quando falei, minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
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  — Desde quando isso mudou? Porque você me odiava. — Charles franziu o cenho e virou o rosto para mim, os olhos firmes.
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  — %Isla%… eu nunca te odiei.
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  — Parecia.
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  — Eu sei. — Ele passou a mão pelos cabelos, um gesto nervoso, honesto. — Eu fui um idiota. Medroso. Desconfiado. Você chegou num momento em que tudo estava uma bagunça na minha cabeça, mas nunca foi ódio. Eu só não sabia o que fazer com alguém como você.
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  — Alguém como eu? — perguntei, sem esconder a ironia.
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  — Que não me bajula, não espera nada de mim. Que tem uma vida real, complexa, linda… e que ainda assim faz tudo parecer simples.
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  Virei o rosto, tentando conter o turbilhão no peito, mas ele deu um passo mais perto.
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  — Você me enfrentou. Me viu. Mesmo quando eu tentei esconder tudo. E agora… — a voz dele baixou — eu olho pra você e não vejo o box, nem o carro. Eu vejo você. A mãe do %Liam%. A mulher que carrega o mundo nas costas… e ainda encontra espaço pra sorrir.
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  Demorei a responder. Porque ali, com o mar como testemunha, o mundo parecia pequeno demais.
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  — Eu não sei se isso é certo, Charles.
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  — Talvez não seja — ele murmurou, a distância entre nós diminuindo cada vez mais. — Mas parece inevitável.
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  Um segundo.
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  Dois.
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  E pela primeira vez… não parecia haver mais nada a explicar.
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  O chão da varanda parecia estreitar a cada movimento dele, e por um segundo eu me perguntei se teria força pra dizer o que precisava, mas o coração já estava batendo fora do ritmo.
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  Ele parou diante de mim. Os olhos buscando os meus, como se pedissem permissão pra entrar em território sagrado.
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  — Se eu te beijar agora… você vai embora?
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  Demorei um instante. O bastante pra sentir o peso daquela pergunta. Pra entender que, se eu respondesse errado, nada mais entre a gente seria o mesmo.
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  Engoli em seco, sem afastá-lo.
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  — Se você me beijar agora… vai ser pior pra tentar esquecer depois.
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  E ele… não se afastou.
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  Pelo contrário.
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  Se aproximou ainda mais. A mão tocando de leve a minha cintura, os dedos da outra roçando meu rosto como quem descobria um lugar novo com reverência.
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  E então aconteceu.
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  Devagar.
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  Como se o tempo estivesse nos esperando.
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  Os lábios se encontraram num beijo lento, sem pressa, mas cheio de urgência guardada. Era macio e firme ao mesmo tempo, como se os corpos conversassem numa língua antiga, que só o silêncio entendia.
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  O cheiro do fim de tarde no ar.
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  O som abafado da cidade lá embaixo.
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  As mãos dele se movendo com cuidado, me puxando mais perto, como se soubesse que qualquer movimento brusco quebraria o feitiço.
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  Minhas mãos tocaram os ombros dele, depois o pescoço, e por um segundo... eu me permiti.
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  Permiti sentir.
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  Permiti querer.
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  Permiti esquecer o mundo, só por um instante.
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  Quando nos afastamos, ele ainda tinha os olhos fechados. E eu não sabia se era medo de abrir e perceber que foi sonho… ou vontade de continuar ali.
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  — %Isla%… — ele sussurrou, como se dissesse meu nome pela primeira vez.
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  E eu apenas respirei fundo, porque não havia resposta fácil, mas o beijo… já era resposta o suficiente.
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  Ele ainda estava ali, perto demais pra que eu fingisse que não tinha acontecido nada. Longe o suficiente pra que, se eu quisesse, pudesse escapar, mas eu não queria.
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  Charles abriu os olhos devagar. E neles… não havia pressa. Nem dúvida. Só aquela vontade contida que já dizia mais do que qualquer palavra.
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  E então, ele me beijou de novo.
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  Dessa vez, sem hesitação.
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  Sem freio.
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  As mãos vieram certeiras. Uma na minha nuca, a outra na base das minhas costas, me puxando com mais firmeza. Meus dedos se fecharam no tecido da camiseta dele, como se procurassem apoio pra não cair em mim mesma.
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  O beijo era mais quente agora.
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  Molhado.
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  Urgente.
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  As bocas se buscavam como se tivessem fome, como se aquele espaço entre nós fosse tempo demais desperdiçado.
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  A mão dele subiu pela lateral do meu corpo, os dedos roçando de leve a costela, a curva do meu quadril, o tecido fino do meu vestido molhado ainda da piscina. Um arrepio percorreu minha espinha e eu deixei escapar um som baixo contra a boca dele.
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  As mãos dele exploravam com cuidado, mas também com vontade. Como se me memorizasse ali, no toque. E eu deixei. Por um segundo longo, inteiro, eu deixei.
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  Até que…
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  Parei.
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  Ofegante.
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  Com as mãos espalmadas contra o peito dele, tentando criar distância onde antes havia encaixe. Charles me olhou. Os lábios entreabertos, a respiração tão descompassada quanto a minha.
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  — %Isla%…
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  Balancei a cabeça, confusa. Os dedos ainda tocando a camiseta dele.
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  — Eu… não sei o que a gente tá fazendo.
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  — A gente tá sendo sincero.
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  — Sincero demais.
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  Ele não sorriu.
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  Só assentiu, respeitando o espaço que, naquele instante, eu ainda precisava. O silêncio entre nós voltou a se instalar. Mas era outro agora. Carregado. Elétrico. Íntimo. E mesmo com o corpo gritando pra voltar, eu dei um passo pra trás.
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  — %Liam%... eu… vou ver se ele ainda tá coberto.
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  Virei as costas antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Antes que eu mesma quisesse dizer mais alguma coisa.
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  Mas enquanto atravessava o corredor, com o gosto do beijo ainda na boca e o toque dele na pele, só uma coisa ocupava minha mente: eu tô perdida. Perdida demais.
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Lelen

NÃO TEM MAIS VOLTA E O NEGÓCIO FINALMENTE ENGATOUUUU.
E aí, como vai ficar a interação deles no trabalho depois disso, hein? E será se a Isla vai conseguir baixar a guarda de novo logo?

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