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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Na Hora Certa

Escrita porNyx
Editada por Lelen

CAPÍTULO 07 • Entre Graxa, Luzes e Robôs

Tempo estimado de leitura: 35 minutos

  O aeroporto de Tóquio estava lotado. Gente apressada, carrinhos atravessando o caminho, anúncios em japonês ecoando pelos alto-falantes e minha cabeça… pendurada no fio da exaustão.
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  Arrastei minha mala até a fila de embarque, o celular vibrando com notificações acumuladas da equipe. Respondi três mensagens seguidas da logística, uma do Matteo com ajustes para a próxima prova e outra do Julián, perguntando se eu ia querer paella ou lasanha no almoço do dia seguinte. Nenhuma delas exigia resposta imediata, mas a sensação de urgência me acompanhava até nos ossos.
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  Balancei o ombro pra soltar a tensão da mochila, já acostumada com o peso dela. Mas quando estiquei a mão pra abrir o zíper principal, procurando o passaporte… Veio o estalo.
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  O robô.
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  Congelei por um segundo. Senti o sangue gelar.
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  Joguei a mochila no colo e abri com pressa. Revirei documentos, uma blusa amarrotada, meu fone, o grimório de anotações, uma miniatura da Ferrari que o %Liam% me deu antes de eu embarcar.
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  Nada.
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  Revirei de novo. Tirei tudo.
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  Abri até o bolso lateral onde eu nunca guardava nada útil. E o brinquedo... não estava lá.
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  Fechei os olhos.
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  A loja, a busca, a felicidade idiota de ter encontrado exatamente o modelo que ele queria. O robô com luz nos olhos. Com o braço articulado. O tal do vídeo que ele viu no tablet do Julián e comentou por dias. E agora…
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  Fechei a mochila devagar, com um nó na garganta.
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  Olhei para o relógio. Vinte minutos pro embarque. O portão já começava a chamar o meu grupo. Não dava mais tempo de voltar pro paddock. Nem pro motorhome. Nem pra nada.
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  Abaixei a cabeça e murmurei, mais para mim do que pra qualquer um:
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  — Parabéns, %Isla%. Você esqueceu o presente que prometeu.
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  Uma criança pequena sorriu pra mim do outro lado da fila, segurando um bonequinho de ação com capa de herói. A mãe dela ajeitou o chapéu do filho com carinho.
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  E eu engoli em seco.
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  Fiz o check-in, passei pelo raio-x. Sentei na poltrona da janela com o corpo imóvel e o coração... em algum lugar entre o Japão e o colo do meu filho.
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🏁🛠️

  O carro de aplicativo parou diante da casa térrea de fachada clara e portão vermelho desbotado — o mesmo que rangia desde que eu era adolescente. As janelas estavam abertas, e o cheiro de manjericão escapava pela cortina como convite.
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  Toquei a campainha e, antes mesmo do segundo toque, ouvi a voz animada da minha mãe gritando lá de dentro:
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  — Já vou, já vou! Se for você, %Isla%, tem lasanha no forno!
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  Sorri antes mesmo da porta abrir. Foi Julián quem apareceu primeiro, com o mesmo cabelo bagunçado de sempre e uma camiseta antiga dos Rolling Stones.
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  — Olha quem voltou cheirando a graxa de pódio — disse, abrindo os braços.
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  — E você continua cheirando a videogame e sarcasmo — rebati, mas fui direto pro abraço.
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  Foi quando ouvi o som que mais me fazia falta: passos apressados, baixinhos, batendo no piso da sala, seguidos de um grito entusiasmado.
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  — MAMÁ!!!
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  %Liam% surgiu como um foguete, os cachos desgrenhados e o rosto parcialmente coberto de chocolate. Se jogou no meu colo como se tivesse passado meses sem me ver.
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  — Eu contei os dias! Foram um bilhão!
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  — Um bilhão?! — apertei ele forte. — Então eu vou ter que te abraçar um bilhão de vezes.
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  Beijei o topo da cabeça dele umas cinco vezes seguidas, até ele reclamar que estava ficando com cócegas.
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  Entramos e o cheiro da lasanha invadiu o peito como um abraço de conforto. Minha mãe estava na cozinha, com o avental florido e o rosto suado de quem venceu outra batalha gastronômica.
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  — Já senta. Tá quente, tá fresca, e você precisa de energia.
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  — Ela vive à base de café, mãe — Julián comentou.
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  Revirei os olhos com o comentário dele. Nos sentamos à mesa grande da cozinha, com toalha plástica e marcas de panela do domingo passado. A lasanha estava absurdamente boa, como sempre. O suco de laranja natural, as piadas do Julián, o carinho da minha mãe, até o olhar do meu pai — sempre mais silencioso, mas presente — tudo me lembrava que, por mais veloz que a vida fosse, era naquele quintal, naquela cozinha, naquela mesa… que eu desacelerava.
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  Ele não disse nada até o segundo prato. Só então ergueu os olhos pra mim, sério e orgulhoso.
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  — Vi a corrida. Segundo lugar. Mas o carro… parecia outro. — Assenti com um sorriso pequeno.
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  — Era. E teve muito de mim naquele ajuste. — Ele brindou com água. Só isso. Mas pra mim, significava tudo.
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  Ainda estávamos rindo quando %Liam% limpou os dedos sujos na própria camiseta — que já era praticamente uma obra de arte moderna feita de chocolate, queijo e molho vermelho — e olhou pra mim com aquela expressão que misturava doçura e expectativa.
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  — Mamãe… — começou, com a boca ainda cheia de lasanha. — Cadê meu robozinho?
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  A pergunta foi simples.
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  Simples como um sopro.
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  Mas doeu como um golpe que eu não vi chegando.
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  Meu garfo parou no meio do caminho. Engoli em seco antes mesmo de responder. Minha mãe e Julián continuaram conversando entre si, alheios, mas o mundo ao redor pareceu perder um pouco da cor por alguns segundos.
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  — Então… — ajeitei o corpo na cadeira, tentando parecer natural. — Eu tive um imprevisto, amor. Mas vou resolver isso, prometo.
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  %Liam% me encarou por alguns segundos. Os olhos escuros e grandes, herdados do avô, me examinaram como se pudessem escanear a verdade por trás da voz calma. E então ele deu um sorrisinho discreto, sem dizer nada. Apenas deu de ombros e saiu correndo em direção ao quintal, onde seu caminhãozinho vermelho estava esperando por mais uma aventura.
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  Mas o olhar dele... ficou comigo.
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  Ele tinha só quatro anos, mas já entendia. Não com raiva, não com cobrança. Mas com aquele tipo de decepção silenciosa que dói mais porque não vem com palavras — só com o peso do que foi esperado e não veio.
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  Passei a mão pelo rosto, disfarçando o incômodo. Respirei fundo.
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  — Ele esperava muito por esse robô — falei, baixinho, mais pra mim mesma do que pra qualquer um.
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  Meu pai me olhou por um instante, mas não comentou. Só colocou mais suco no meu copo e apertou minha mão por baixo da mesa. Era o jeito dele de dizer: você tá fazendo o melhor que pode. E o pior? Eu sabia disso. Mas ainda assim… doía.
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  Depois do almoço, enquanto ela lavava a louça e Julián distraía %Liam% com perguntas sobre foguetes e dinossauros, me refugiei na sala com o notebook no colo, tentando responder alguns e-mails da equipe. Era difícil focar — a barriga cheia, o cheiro de alho refogado ainda no ar, o som dos passarinhos lá fora. Tudo dizia descansa, menos a aba com planilhas abertas.
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  %Liam% corria pelo quintal, com um capacete torto e uma mangueira de brinquedo que ele jurava ser um propulsor de foguete. Ria alto, tropeçava no chinelo, se erguia como se nada tivesse acontecido.
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  E foi no meio desse caos infantil e delicioso que a campainha tocou.
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  Três toques secos. Rápidos.
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  Levantei o olhar do notebook. Senti o frio no estômago vir antes mesmo de me levantar. Minha mãe também escutou e se virou da pia, os olhos estreitando como se já soubesse.
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  — Espera alguém? — ela perguntou, enxugando as mãos no pano de prato.
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  — Não — respondi, já indo em direção à porta com o coração batendo mais alto do que deveria.
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  Abri a porta e lá estava ele.
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  Caio.
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  De óculos escuros, camisa branca amassada e aquele mesmo sorriso de vitrine. O sorriso que só funcionava em tela de celular.
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  — %Isla% — disse, como se meu nome ainda fosse íntimo.
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  — Que surpresa — falei, mantendo a porta semiaberta. — Depois de um fim de semana inteiro sumido.
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  Ele tirou os óculos devagar, talvez esperando que isso bastasse para parecer arrependido.
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  — Tive uns jobs de última hora. Não deu pra encaixar.
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  — Mas deu pra postar foto com cachorro, com pizza, com helicóptero… — murmurou Julián, atrás de mim, com um copo de suco na mão.
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  Antes que qualquer um pudesse continuar, a voz mais esperada cortou o silêncio:
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  — PAPAAAA!
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  %Liam% atravessou a varanda como um raio, os cachos saltando, o rosto iluminado como se Caio tivesse voltado de um planeta distante. Se jogou nos braços dele com toda a força que só criança pequena sabia dar.
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  — Tava com saudade do seu papi?
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  — MUITA! Eu vi você no celular! Você estava com um cachorro! E no helicóptero! E comendo pizza sem mim! — Caio riu, girando ele no ar como se aquilo resolvesse tudo.
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  — A gente vai fazer tudo isso junto da próxima vez, combinado?
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  Minha mãe surgiu na porta da cozinha, com o pano de prato agora preso na cintura.
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  — Boa tarde, Caio. — A voz dela era educada, mas carregava uma ponta de gelo que só eu sabia decifrar.
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  — Oi, Dona Lucía. Tá tudo bem?
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  — Por aqui, tá — ela respondeu. — O menino, pelo menos, tá feliz de te ver.
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  Caio se ajeitou com %Liam% no colo e olhou pra mim.
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  — Posso entrar? — Respirei fundo.
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  — Só por causa dele.
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  Entramos. %Liam% correu até o sofá, puxando o pai pela mão para mostrar o desenho do “super foguete”. Julián se encostou na porta, observando de braços cruzados. Minha mãe se manteve próxima, como quem diz: não vai ter conversa torta aqui, não.
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  Foi quando meu pai apareceu no corredor, secando as mãos com um pano e com o jornal dobrado debaixo do braço.
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  — Que visita inesperada. — disse, sem disfarçar o tom neutro.
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  — Oi, seu Daniel — respondeu Caio, forçando um sorriso. — Vim ver o %Liam%.
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  — Ainda bem que alguém não precisa avisar antes de chegar — retrucou meu pai, lançando um olhar rápido pra mim. — Mas já que está aqui...
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  Fui até a cozinha fazer um café e, claro, Caio veio atrás.
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  — Você tá bem?
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  — Tentando. O que não ajuda é alguém prometer ver o filho e sumir.
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  — Eu já disse…
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  — Não, Caio. Para com isso. Jobs de última hora, mudança de planos, postagem nova no feed... Você sempre tem uma desculpa. Só não tem prioridade.
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  — Eu tô aqui agora, não tô? — respondeu ele, com aquele ar de quem acha que presença pontual resolve tudo.
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  Antes que eu retrucasse, meu pai apareceu na porta da cozinha.
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  — Estar aqui de vez em quando não é o mesmo que estar presente, Caio. — disse calmo, mas com firmeza. Caio engoliu em seco.
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  — Eu sei, seu Daniel, mas é que o trabalho—
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  — O trabalho é seu, o filho é dos dois. — interrompeu. — E enquanto você tá voando de helicóptero, ele fica perguntando por que o pai dele não vem. Eu que escuto isso no café da manhã.
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  O silêncio caiu pesado.
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  Minha mãe encostou no batente da porta, braços cruzados. Julián, da sala, fingia ver TV, mas ouvia tudo.
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  — Você sumiu, Caio. E ele ficou esperando. Ele contou os dias. E sabe o que é pior? Ele ainda fica feliz quando você aparece. — acrescentei, sentindo a voz falhar.
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  — Porque ele é meu filho, %Isla%.
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  — Então aja como pai. — meu pai cortou, seco. — Porque o que você faz hoje, ele vai lembrar amanhã.
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  — Eu tô tentando... — Caio começou, mas meu pai balançou a cabeça.
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  — Tentando não é o suficiente pra uma criança que mede amor em presença, não em curtidas.
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  %Liam% entrou correndo nesse instante, segurando o tal foguete de papel.
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  — Mama, papa disse que a gente vai construir um de verdade um dia! — Caio se agachou e sorriu.
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  — E a gente vai, campeão. Vai ser incrível.
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  — Promete?
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  — Prometo.
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  Meu pai soltou um suspiro leve, quase imperceptível, mas pesado o bastante pra cortar o ar.
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  — Promessa boa é aquela que vem com atitude, filho — disse, olhando diretamente pra Caio. — O resto é só palavra.
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  Caio desviou o olhar. Minha mãe cruzou os braços. Eu só balancei a cabeça. Ela já tinha ouvido aquela promessa antes. Eu também. Mas %Liam% ainda acreditava. E isso… partia meu coração.
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  Caio tirou a bendita selfie no jardim com %Liam% ainda grudado nele como um adesivo. Flash, sorriso treinado, legenda mental pronta. Quando devolveu o filho com um beijo rápido na testa e um “eu te ligo depois”, ninguém tentou fingir que estava feliz com aquilo.
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  Ele foi embora como chegou: rápido, superficial, eficiente no teatro.
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  Assim que o carro dele sumiu na esquina, meu pai pousou o jornal na mesa.
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  — Esse menino tem mais flash do que responsabilidade.
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  — Esse menino tem mais pose que presença. — completou minha mãe, quase para si mesma.
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  — E ainda aparece como se tivesse feito um favor. — disse Julián, cruzando os braços enquanto olhava pela janela.
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  Fiquei em silêncio, observando %Liam% no sofá, com o foguete no colo e o sorriso ainda preso no rosto. Meu pai se aproximou devagar, pousou a mão no meu ombro e disse baixo:
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  — Ele não entende o valor do que tem, filha. Mas você entende. E é isso que salva o %Liam%.
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  E, por um instante, tudo que Caio deixava cair parecia sustentado ali — entre as mãos firmes do meu pai e o amor que nunca faltava nessa casa.
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  %Liam% correu pro quintal, agora testando a velocidade de um carrinho no chão de pedras. Ainda estava rindo. Ainda acreditava que o pai voltaria no domingo seguinte. E isso partia meu coração mais do que qualquer abandono declarado.
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  A noite caiu devagar sobre a casa.
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  Depois do banho, ajeitei %Liam% no sofá com um mini quebra-cabeça de Fórmula 1 e me sentei ao lado dele, organizando a bagunça na minha mala de mão. Embalagens, adaptadores, roupas que não usaria mais até a próxima viagem.
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  Meu corpo gritava por descanso.
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  — Mamá — chamou %Liam%, apontando uma peça colorida — esse aqui vai no carro ou na pista?
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  — Na pista, amor. É o pódio.
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  — Ah, então vai ficar bem no alto! — Sorri, mesmo com os olhos ardendo.
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  Quando ele terminou de montar e encostou a cabeça no meu braço, respirei fundo e, enquanto ele brincava com os dedos, abri o aplicativo de mensagens e digitei com cautela:
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Mateo, sei que é cedo pra pedir, mas… teria alguma chance de eu levar o %Liam% pro próximo GP? Sei que envolve logística, e que estou extrapolando. Mas preciso ser mais mãe. Principalmente por ele ter um pai que só é bom no Instagram.
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  Fiquei olhando pra tela por alguns segundos antes de apertar “enviar”. E mesmo sabendo que a resposta poderia ser um “não”, a sensação de ter tentado já era algo.
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  Me levantei devagar, colei um post-it no espelho do quarto e escrevi:
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  “Comprar novo robô”
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  Depois, olhei meu reflexo. As olheiras, o cansaço, a firmeza que ainda sobrava no olhar.
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  — Eu dou conta — sussurrei, como quem selava um pacto.
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  Nem que eu precise me refazer peça por peça, nem que tenha que começar do zero.
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  De novo. E de novo.
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  Por ele.
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  Por mim.
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  Por tudo que ainda estava por vir.
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  Ainda estava de pé em frente ao espelho, o post-it recém-colado tremendo levemente por causa do ventilador da parede, quando o celular vibrou sobre a cômoda.
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  Mensagem de Matteo.
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  Abri, o coração já esperando um "precisamos conversar sobre isso com calma". Mas não. Era direto. Como sempre. Mas com uma delicadeza que ele raramente deixava à mostra:
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%Isla%, quando eu aprovei sua entrada na equipe principal, foi com currículo e histórico técnico em mãos, mas também sabendo que você é mãe. Nunca vi isso como obstáculo. E continuo não vendo.
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Sempre que quiser levar o %Liam%, vamos dar um jeito. Aqui também é seu lugar. E agora, é o dele também.
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  A garganta fechou.
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  Simples assim.
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  Sem drama, sem burocracia.
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  Apenas… acolhimento.
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  Sentei na beirada da cama com o celular nas mãos e o peito cheio de alguma coisa que parecia gratidão e peso saindo ao mesmo tempo. Respirei fundo.
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  Atrás de mim, %Liam% dormia já torto na cama, com a metade do quebra-cabeça montado encostado no peito. Levantei devagar, peguei uma coberta fina, ajeitei sobre ele e sussurrei:
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  — Vai ver você vai conhecer o Japão antes do que imagina, astronauta.
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  E apaguei a luz.
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  A manhã chegou com sol tímido e vento nos cabelos.
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  Eu vesti %Liam% com uma camiseta nova da Ferrari — presente do Julián — e calcei nele os tênis com luzinha que ele jurava serem “de piloto”.
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  No quintal da casa dos meus pais, enquanto minha mãe colocava uma garrafa térmica de chá na mochila e meu pai se despedia com aquele abraço sem pressa, eu só pensava numa coisa: ele vai comigo dessa vez.
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  Não tinha lição de casa. Nem horário de escola. Só férias e o direito de viver algo novo. Algo que era meu, mas que eu queria dividir com ele.
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  — Vai trazer ele de volta com sotaque italiano — brincou Julián, bagunçando os cachos do %Liam% antes de colocar a mochilinha do dinossauro em suas costas.
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  — Ou com o nome do Verstappen na ponta da língua, se vocês não se cuidarem — emendou minha mãe, fingindo reprovação.
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  — Eca, mamãe! Verstpen não! — %Liam% rebateu na hora, fazendo todos rirem. Segurei a mão dele com firmeza.
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  — Vamos mostrar pro mundo que a força também pode ser feita de amor, filho.
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  — Simmm! — ele completou, sério. Meu pai me deu um beijo na testa.
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  — Se cuida, filha. E aproveita.
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  Assenti, o nó na garganta já formando, mas sem cair em lágrimas. Não dessa vez.
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  Ao atravessar o portão da casa, com %Liam% saltitando ao meu lado, percebi como aquela cena parecia um começo.
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  De novo.
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  Mais um.
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  Dessa vez, com ele.
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  O voo para Mônaco foi tranquilo — ou o mais tranquilo possível com uma criança empolgada, uma mochila cheia de carrinhos e perguntas como "a Ferrari dorme num hotel também?".
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  Quando aterrissamos e seguimos até o paddock, o cheiro do mar misturado ao som distante dos motores em teste era quase como um abraço pra mim.
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  Para %Liam%, era mágica.
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  — Mamãe… é aqui que você conserta os carros que fazem barulho? — ele perguntou, os olhos arregalados, grudado na lateral do meu corpo.
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  — É aqui, meu amor.
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  — E eu posso ver?
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  — Pode ver tudo. Mas só de longe — falei, piscando.
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  — Tá bom. Mas se precisar, eu sei como mexer nas rodas, tá?
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  Sorri.
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  E ali, no meio da pista mais lendária do mundo, com a mãozinha dele apertando a minha, eu soube:
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  Estava tudo certo.
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  Ou, pelo menos, caminhando pra isso.
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  O paddock de Mônaco parecia mais apertado do que nunca — mas talvez fosse só a forma como meu coração batia com força no peito. Tudo parecia mais intenso ali. O sol refletido nos carros, o barulho dos motores sendo ajustados, o mar azul ao fundo. E agora… a mãozinha de %Liam% presa à minha.
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  Alguns técnicos pararam pra olhar.
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  Outros apenas disfarçaram, mas os cochichos estavam ali, pairando no ar como cheiro de borracha queimada.
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  Ignorei.
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  Ou tentei.
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  Matteo foi o primeiro a se aproximar. Sem rodeios, sem cerimônia. Do jeito Matteo de sempre.
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  — %Torres% — disse, com um aceno breve, os olhos já baixando para %Liam% com familiaridade. — O foguete voltou ao paddock, é? — %Liam% soltou minha mão por um instante e estufou o peito.
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  — Missão Mônaco iniciada! — anunciou, como se fosse agente secreto em miniatura. Matteo sorriu. Sincero. Raro.
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  — É bom tê-lo por aqui de novo. Parece que o desempenho da equipe melhora quando ele aparece.
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  — Concordo — falei, com um sorriso curto. — Mas aviso logo que o copiloto exige chocolate no briefing.
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  — A gente se adapta — respondeu, dando uma piscadela para %Liam%, que riu.
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  — Obrigada, Matteo. Por isso. Por tudo.
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  Ele balançou a cabeça, sério.
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  — Você não precisa me agradecer por exercer o que já faz melhor que muita gente: conciliar. Você comanda um motor de Fórmula 1, %Isla%. E ainda assim, seu filho sorri com os dois pés no chão. Isso… isso é coisa de quem sabe exatamente onde pisa.
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  Soltei um riso discreto, sentindo o nó no peito apertar, daquele tipo que vem quando você percebe que, por um breve segundo, alguém te enxergou de verdade.
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  Seguimos até meu setor. %Liam% ainda agarrado à minha perna, apontando para cada detalhe como se nunca tivesse estado em um paddock. E talvez, mesmo tendo estado… ainda fosse novo. Ainda fosse mágico.
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  Então, eu o vi.
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  Charles.
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  De pé, mais adiante, como se não soubesse se devia vir ou ficar. O olhar rápido dele passou por mim, por %Liam%, e depois… sumiu.
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  Literalmente.
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  Desapareceu no corredor.
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  Por um instante, achei que tinha imaginado. Continuei organizando meus equipamentos, distraída por perguntas de um dos engenheiros, até que uma sombra parou do meu lado.
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  Olhei.
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  Charles estendia uma sacola simples. Plástica. Com o logo colorido de uma loja de brinquedos de Tóquio, discretamente amassada nas bordas.
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  — Você esqueceu isso.
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  Parei. O peito travou por um segundo. Encarei a sacola. Devagar. Como quem reconhecia um fantasma que nunca imaginou reencontrar.
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  — Você… pegou pra mim?
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  — Eu vi no canto do motorhome. Lembrei da sua animação na loja.
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  Meu estômago apertou. Mas não deixei transparecer. Segurei a alça da sacola com cuidado, como se fosse feita de vidro.
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  — Obrigada. Eu… ia dar um jeito. — Ele deu de ombros.
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  — Já deu.
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  Foi quando %Liam% apareceu correndo atrás de um dos mecânicos, os olhos grudados na sacola em minha mão.
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  — O meu robô! — gritou, sem cerimônia, arrancando o brinquedo lá de dentro com uma felicidade que fazia tudo doer, no melhor dos sentidos.
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  Abraçou o boneco com força, como se fosse o tesouro mais importante do mundo. Charles se agachou.
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  — Ele ainda dança?
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  — Não sei — %Liam% respondeu. — Você sabe ligar?
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  Charles apertou o botão, ajeitou o bonequinho no chão de concreto, e o pequeno robô começou a se mover de um lado pro outro, com luzes nos olhos piscando. %Liam% gargalhou.
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  — Ele dançou! Mamãe, ele dançou!
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  Fiquei em silêncio. Com as mãos nos bolsos do macacão, os olhos fixos naquela cena.
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  E o coração? Batendo forte, inquieto.
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  Porque, por mais que eu fingisse, tinha alguma coisa ali começando a mudar.
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🏁🛠️

  %Liam% já dormia.
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  O pequeno corpo encolhido sob a coberta fina, os cachos espalhados no travesseiro, e o robô — aquele mesmo — brilhando ao lado dele com as luzes piscando em um azul quase hipnótico.
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  Me sentei na beirada da cama e passei os dedos com cuidado pelo cabelo dele.
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  Tinha algo de sagrado naquele instante. Algo que me lembrava que tudo isso — corridas, troféus, e até os desafios de fazer um carro cruzar a linha de chegada — não se comparavam à responsabilidade de cuidar daquele pequeno ser humano que achava que eu podia tudo.
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  E ali, no escuro, só pensei:
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  Quantas vezes mais eu vou conseguir equilibrar tudo isso?
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  Deixei um beijo na testa dele e saí do quarto devagar, como quem fechava a tampa de um segredo.
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  No corredor do hotel, o silêncio era quase acolhedor. Eu estava sem sono. O corpo exausto, mas a cabeça girando em marcha alta.
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  Peguei o celular. Hesitei.
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  Abri o grupo da equipe. Rolaram os nomes, os números. Vi o dele.
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  Toquei.
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  Privado.
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  Fiquei olhando a tela por longos segundos antes de finalmente escrever:
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%Isla%: Oi! É a %Isla%! Obrigada por ter salvo o dia do %Liam%. De verdade. Você não tem noção do quanto ele queria aquele robô. Quando eu cheguei em casa e não trouxe, ele ficou decepcionado. Por isso quis trazê-lo para Mônaco.
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  A resposta não demorou:
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Charles: Você salvou o meu. Só retribuí. Pelo brilho no olhar dele, ele com certeza estava esperando muito por isso. Fico mesmo feliz de ter ajudado nessa.
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  Sorri sozinha. O tipo de sorriso que você tentava esconder até de você mesma.
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%Isla%: Ele dormiu com o robô do lado do travesseiro. E disse que vai treinar o brinquedo pra correr também.
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Charles: Olha, se ele ganhar do Max na próxima simulação, a gente promove ele.
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  Ri.
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  E continuei digitando.
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%Isla%:Você já veio pra Mônaco de férias ou só nas temporadas?
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Charles: Nasci aqui. Tenho uma casa perto do porto. Mas mesmo quando tô em casa… nunca consigo relaxar de verdade. Sempre esqueço de desligar o ‘modo carro’.
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%Isla%:Claro, né. Casa com vista pro grid imaginário. Tudo normal.
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Charles: Não é tão exagerado assim…
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%Isla%:Charles, você provavelmente tem uma garagem mais tecnológica que o aeroporto de Narita.
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Charles: Só uma garagem funcional. E um simulador no quarto de hóspedes. Totalmente comum.
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%Isla%:Ah, sim. Simples. Igualzinho lá em casa, onde o quarto de hóspedes também serve para guardar brinquedo quebrado e roupas que eu não dobro há três semanas.
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Charles: Parece mais organizado que o meu, pra ser sincero.
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  Ri alto, sozinha, e no escuro do quarto, já havia voltado — não queria deixar o %Liam% sozinho. Estava sentada ali, com o celular na mão e o coração meio bobo.
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  O tempo começou a passar e a conversa foi se espalhando como quando você se perdia numa estrada boa demais pra querer chegar logo. Falamos de comida japonesa que nenhum de nós soube pedir direito, da vez em que ele esqueceu o passaporte no carro e perdeu um voo, e eu juro que consegui ver a cena inteira na minha cabeça.
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Charles: A equipe inteira já conhece minhas manias, mas ninguém supera a minha superstição com os tênis de treino.
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%Isla%: Você é do tipo que se perder o cadarço, acha que a corrida tá amaldiçoada?
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Charles: Exatamente esse tipo.
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%Isla%: Céus. Isso é mais específico do que imaginei.
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Charles: Você também tem uma superstição, %Isla%. Acha que ninguém viu, mas toda vez que entra no box, encosta os dedos no número do carro antes de trabalhar nele.
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  Travei por um instante.
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%Isla%: Você... notou isso?
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Charles: Claro. É o tipo de coisa que só alguém muito concentrado faz. Ou alguém que acredita que o trabalho começa com respeito. E eu vejo você fazendo isso toda vez.
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  Demorei pra responder.
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  Porque as palavras... me pegaram. E porque o jeito como ele disse, ali, digitado em silêncio, soou como um elogio que encostava onde ninguém tocava.
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  O coração já batia mais rápido.
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  O que eu tô fazendo?
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  Ele tinha uma namorada. Mesmo com o silêncio, com as ausências, com os rompantes — ela ainda existia. Era parte da vida dele. E eu… Eu estava rindo. Me abrindo. Me sentindo... vista.
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  Não podia.
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  Respirei fundo e digitei:
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%Isla%: Preciso dormir. Amanhã vai ser puxado. Boa noite, Leclerc.
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Charles: Boa noite, %Isla%. Até amanhã.
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  Bloqueei a tela.
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  Mas não os pensamentos. Me joguei na cama, os olhos no teto, e só consegui pensar: o que tá acontecendo comigo?
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  E por que… por que parece tão certo e tão errado ao mesmo tempo?
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  Nota da autora: Oi, meus amores!
  Esse capítulo mexeu comigo. %Isla% tentando ser mil em uma, o %Liam% com o coração gigante, o Daniel mostrando o que é ser pai de verdade, e o Charles… aparecendo com o robô bem na hora certa (e errado pro coração dela). Matteo continua sendo meu safe place emocional e o Caio… bom, vocês já sabem. Esse final… humm! Me contem o que estão achando!

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Lelen

Primeiramente, deixa eu falar: MATTEO. ESSE HOMEM. ELE NÃO É BABACA E NÓS AGRADECEMOS POR ISSO. T———-T PROTEJAM ESSE HOMEM DE TODO O MAL!
Agora… Caio com prioridades claramente invertidas… Aliás, não tão invertidas, né? É só que o filho dele não é uma delas 😤
E O CHARLES? O HOMEM. O HOMEM CAIU. TENTOU LUTAR, MAS CAIIIIIU.
E A ISLA AINDA TÁ LUTANDO, MAS VAI CAIR LOGO MAIS TAMBÉM. AÍ EU QUERO VER ESSES DOIS ENTENDENDO O QUE ACONTECEEEEU

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