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Na Hora Certa

Escrita porNyx
Editada por Lelen

CAPÍTULO 06 • “Entre Voltas e Variáveis”

Tempo estimado de leitura: 26 minutos

  Por Charles Leclerc

  Acordei antes do despertador. De novo. O teto do quarto do hotel me encarava como se soubesse que eu estava fingindo estar em paz.
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  Respirei fundo. O corpo ainda. A cabeça, não.
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  Passei a mão no rosto, tentando espantar o cansaço que nem devia estar ali — dormi cedo, comi direito, fiz tudo que um piloto de elite faz antes do dia da corrida. Mas, ainda assim, algo estava desalinhado. Como uma peça minúscula fora do lugar que faz o carro inteiro vibrar.
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  Me vesti em silêncio. Moletom da equipe, tênis, fone no ouvido com uma música instrumental que não ajudava em nada. Desci pro café, dei bom dia que não veio do estômago, e me sentei na mesa de sempre. Frutas, proteína, café preto.
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  Tudo no mesmo lugar, tudo no piloto automático.
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  Mas eu não estava no mesmo lugar.
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  Pensei na %Isla%.
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  Na forma como ela explodiu dois dias atrás, com o telefone na mão e a voz embargada, falando com o pai do filho. Na forma como ela voltou pro trabalho no minuto seguinte, como se não tivesse rachado por dentro. Como se juntar os pedaços fosse mais uma tarefa na lista do dia.
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  Eu não sei por que aquilo não saiu da minha cabeça. Talvez porque me deu raiva. Ou talvez porque… não era sobre ela. Era sobre mim. Sobre o fato de que, mesmo trabalhando com ela tão de perto, eu não sabia nada além do nome.
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  %Isla% %Torres%. Engenheira. Mãe. Coração blindado. E, por algum motivo que eu não queria investigar agora, isso me incomodava.
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  Peguei o celular. Nenhuma mensagem nova. Ótimo. Abri o grupo técnico da equipe e digitei:
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  "Estarei nos boxes mais cedo. Quero revisar a curva 9 antes do primeiro stint."
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  Mensagem enviada. Lida segundos depois.
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  Fechei o celular, deixei o café pela metade, e levantei com aquela sensação familiar de que o dia seria longo, e que eu precisava vencer mais do que uma corrida.
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  Enquanto atravessava o saguão do hotel, pensei: hoje é dia de correr. E, com sorte… de esquecer. O paddock já respirava velocidade.
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  Caminhei entre os containers e tendas como sempre fazia: passos firmes, olhar focado, expressão que ninguém ousava atravessar. Mas, por dentro, tudo estava mais barulhento do que deveria.
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  Cumprimentei dois engenheiros com um aceno rápido e segui para o box. O ambiente ali dentro era mais leve do que o de costume — talvez pela vitória na última corrida, talvez porque Lewis parecia invencível de novo. As pessoas relaxavam quando sabiam quem ia vencer.
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  Mas eu não.
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  Não depois de sábado.
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  P2. De novo.
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  Olhei para a tela com os dados ainda fixos na classificação:
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  Lewis em P1.
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  Eu em P2.
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  Max em P3.
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  Como um padrão que se repete e arranha por dentro.
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  Passei os olhos pelo box e a vi. %Isla%. De pé ao lado do Matteo, prancheta em mãos, concentrada em algo que parecia mais importante do que o mundo. Ela falava pouco. Anotava muito. Checava os dados com os olhos e com o corpo — como se respirasse o carro. Como se escutasse algo que ninguém mais ouvia.
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  Ela não me viu ou fingiu que não me viu, mas meu olhar ficou nela por mais tempo do que deveria.
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  E eu soube.
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  Ela estava sendo impecável e aquilo me irritava mais do que eu gostaria de admitir.
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  Não pelos resultados, ela era, com folga, a engenheira mais precisa que passou pelo meu carro nos últimos dois anos. Mas porque… ela fazia parecer fácil. Como se manter tudo funcionando fosse só questão de atenção. Como se segurar o próprio mundo nas costas não exigisse esforço.
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  Respirei fundo.
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  Revisei a estratégia pré-corrida. De novo. Fui até minha bancada e abri o tablet com os gráficos dela — as sugestões, os mapas de torque, os ajustes de telemetria. Tudo certo, tudo técnico. E, pior, tudo eficiente.
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  Não tinha o que criticar.
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  Fechei o tablet. Passei pelas ferramentas. Por ela.
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  Não falei nada.
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  Ela também não.
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  Fui até a sala de concentração. A porta fechou atrás de mim com um baque seco, abafando o resto do mundo. Entrei no modo piloto.
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  Porque era domingo e, no domingo, eu não pensava em mais nada.
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  Só que, naquele dia, eu pensei…
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🏁🛠️

  Suzuka.
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  As luzes do grid apagaram e, por um segundo, tudo ficou em branco. Depois, foi barulho. Foi corpo. Foi instinto.
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  Arranquei bem. Segui colado no rastro do carro do Lewis desde a primeira curva, tentando forçar um erro, uma brecha, um centímetro de hesitação.
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  Mas ele não cedia. Nenhum dos dois cedia. Max vinha atrás, como uma sombra agressiva e impaciente, mas, por enquanto, era entre eu e Lewis.
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  Volta 3.
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  Volta 6.
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  Volta 9.
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  No rádio, a voz. Aquela voz. Reta, limpa, exata:
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  — "Curva 9 está perfeita. Leitura limpa."
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  Não disseram o nome dela, mas eu soube.
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  Ajuste de suspensão, torque lateral. Pressão de acoplamento. O toque dela. O trabalho dela. A resposta saiu quase automática, seca:
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  — "Carro responde bem."
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  E era verdade.
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  O carro estava firme. Preciso. Como não ficava há tempos. As curvas médias, antes instáveis, agora fluíam com naturalidade, era como correr sobre trilhos. Quase.
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  Mas quase… não é o suficiente.
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  Voltas finais. Pneu médio. A asa traseira de Lewis ainda à minha frente. Tentei uma aproximação na chicane. Não deu. Tentei outra na curva Spoon. Também não. Ele segurava tudo com a frieza de quem já correu com o mundo nas costas — e venceu.
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  Quando cruzei a linha de chegada, o P2 piscando no painel foi como um soco no estômago. Soltei o volante devagar, a respiração presa na garganta. As mãos firmes, mas o peito… vazio.
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  No rádio, a voz da equipe:
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  — "Boa prova. Limpa. Sólida."
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  Silêncio.
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  Depois:
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  — "...o carro tava no ponto."
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  Mais um segundo de silêncio. Então acrescentei, com a voz baixa, sem pensar:
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  — "Diz isso pra %Torres%."
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  E fechei os olhos.
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  Não era sobre a curva, nem sobre o carro. Era sobre ela estar certa, mais uma vez.
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  A cerimônia foi como todas as outras. Flashs. Mãos erguidas. Garrafas de champagne estourando antes mesmo do hino acabar. Lewis comemorava com classe. Sempre soube como fazer isso. Max forçou um sorriso, o tipo que não alcançava os olhos. E eu?
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  Sorri também, mas sem alma. Sem peso real. Como quem treinava o rosto para parecer inteiro mesmo quando sabe que alguma coisa trincou por dentro.
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  — Parabéns, Lewis. — falei, com um aperto de mão firme, ainda sob os aplausos.
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  — Vocês estavam colados. Foi uma bela corrida. — ele respondeu com um sorriso verdadeiro. — Ainda bem que eu dormi bem essa noite.
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  Max bufou ao lado, tirando o boné com certo exagero teatral.
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  — Duas corridas seguidas perdendo pra Ferrari. — comentou, com o tom carregado de provocação leve. — Não vai ter uma terceira.
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  — Pode tentar. — respondi, sem conseguir tirar o gosto de quase da boca.
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  — Tentar? Leclerc, você já corre como se estivesse devendo vitória pra alguém.
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  Ri de canto, por instinto. Mas não era riso, era só sobrevivência. Max se afastou para as fotos. Lewis foi cercado pelos repórteres. E eu fiquei ali, com o troféu na mão e um nome martelando na cabeça.
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  %Torres%.
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  A medalha de prata pesava no peito, mas o que pesava mais era a sensação de que… de novo, não bastou.
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  Alix apareceu no instante em que o protocolo terminou. Surgiu como sempre surgia: impecável, segura de si, perfeita para a foto. Me puxou pela gola do macacão, beijou meu rosto e virou-se para os fotógrafos com a postura de quem entendia o show.
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  Eu a segurei pela cintura. Mecânico. Ensaísta. Vazio.
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  E ali, com o barulho ao redor, a música ainda ecoando e o gosto metálico da corrida na boca, eu soube. Não tava funcionando. Não nós dois, não esse teatro em que ela fingia que ainda fazia parte do meu mundo e eu fingia que não me importava com o incômodo disso.
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  Depois do pódio, fui direto pro motorhome. Tirei o macacão até a cintura, lavei o rosto na pia gelada e encarei o espelho. O reflexo parecia cansado demais pra ter acabado de conquistar um segundo lugar. Tomei um gole longo de água e encostei na bancada.
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  E, como um eco que me atravessou sem pedir licença, veio a frase: “Você está nas minhas mãos. Quer goste disso ou não.”
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  %Isla%.
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  Na curva 9.
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  No rádio.
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  Na cabeça.
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  Sorri. Pequeno. Quase imperceptível. E foi aí que a porta se abriu.
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  Alix.
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  O salto firme no piso, as taças de champanhe nas mãos, o perfume forte, o olhar cheio de significado.
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  — Vai me dizer que nem um brindezinho você vai me dar? — perguntou, depositando as taças na bancada. — Você ficou lindo nas fotos. A imprensa tá babando. “Charles Leclerc ao lado da namorada deslumbrante.” — Fez aspas com os dedos e sorriu, satisfeita. — Fecha o ciclo da Ferrari com perfeição.
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  Suspirei.
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  — Alix, o que você tá fazendo aqui? — Ela piscou, confusa, como se a pergunta não fizesse sentido.
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  — O quê? Eu vim te ver. Pra te apoiar.
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  — Eu pedi pra você não vir mais ao paddock. — Minha voz saiu firme, sem margem pra mal-entendido. — A gente não tá junto, Alix. E eu não quero mais esse tipo de confusão.
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  O sorriso dela murchou, mas não a postura.
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  — Confusão? Eu apareço pra te parabenizar e isso é confusão? — Ela deu um passo à frente. — Eu estive com você em tudo. Quando ninguém acreditava, quando você era só o garoto promissor de Mônaco. E agora eu sou o quê? Um problema de imagem?
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  — Eu tô dizendo que acabou. — Olhei nos olhos dela, firme. — Eu não quero mais você aqui. Nem nas corridas, nem nos bastidores. Isso precisa parar.
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  O riso que ela soltou foi baixo, incrédulo, quase histérico.
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  — Você acha mesmo que pode me desligar assim, Charles? Como se eu fosse só mais um acessório do carro?
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  — Eu não acho. Eu decidi. — Cruzei os braços. — Você não faz mais parte da minha vida. E eu não vou mais admitir que apareça como se fizesse.
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  Ela respirou fundo, o orgulho tentando conter o tremor da voz.
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  — Então é isso? Você vai fingir que eu nunca existi?
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  — Não. Eu só não vou fingir que ainda existe “a gente”. — Os olhos dela brilharam, não de ternura, mas de raiva.
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  — É por causa dela, né?
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  Travei.
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  — Quê?
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  — Da engenheira. A %Torres%. — A voz dela endureceu. — Eu sabia que isso ia acontecer. Desde o dia em que vi o jeito que você olhava pra ela.
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  — Alix, isso não tem nada a ver.
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  — Tem, sim! — cortou, agora gritando. — Você acha que eu sou idiota? Eu vejo o jeito como você fica quando ela tá por perto. O respeito. A tensão. O silêncio. Você nunca me olhou assim!
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  — Eu não vou discutir isso.
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  — Claro que não. Porque é verdade! — Ela riu, amarga. — Você tá apaixonado por ela.
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  — Eu não tô apaixonado por ninguém. — Falei mais baixo, mas firme. — Só quero paz. E você precisa entender que o que existiu entre nós... acabou.
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  Ela ficou me olhando por alguns segundos, como se procurasse um traço de dúvida em mim. Não encontrou.
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  — Você vai se arrepender. — A voz dela tremia agora, entre o orgulho e o ressentimento. — Eu sempre soube que você era bom demais pra ser de alguém por inteiro.
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  Pegou a bolsa da poltrona, os dedos trêmulos, e abriu a porta com força.
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  — Boa sorte com a sua engenheira — disse por fim, cuspindo a palavra como ofensa. — Ela vai precisar ter o dobro de paciência que eu tive.
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  A porta bateu com força. O som ecoou pelo motorhome.
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  Fiquei parado, por alguns segundos, com o peito apertado e o barulho do paddock distante. O silêncio que restou não era o de fim de discussão — era o som exato de um ciclo se encerrando.
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  E ainda assim, por baixo de toda a exaustão, algo ecoava como um sussurro incômodo:você está apaixonado por ela.
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  Neguei, baixinho, mas o coração não acreditou.
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  Lembrei dos olhos da %Isla% sobre os gráficos. Da firmeza da voz dela no box. Da forma como ela não abaixava a cabeça — nem mesmo quando tudo dizia pra ela se calar. Do %Liam%, com o carrinho vermelho na mão e aquela frase que me desarmou no meio de tudo:
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  Mamãe disse que você grita muito no rádio.
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  Eu ri. Lembrei disso agora, e ri de novo, sem querer.
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  Mas então sacudi a cabeça.
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  Não, pelo amor de Deus, isso é loucura. É coisa da Alix. Paranoia, ciúme mal resolvido. Ela quis atacar onde doía. Só isso.
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  Peguei a garrafa de água e bebi como quem tentava afogar um pensamento. Mas o pensamento… não afundou.
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  Voltei a ouvir o barulho dos flashes, da cerimônia, da multidão lá fora.
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  E, no meio do ruído todo, o nome dela ficou.
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  Preso.
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  Firme.
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  %Torres%.
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  Já era noite em Suzuka. O paddock, antes barulhento e fervilhando, agora parecia respirar devagar, como um animal cansado. Eu caminhava sem rumo definido, com o zumbido da corrida ainda ressoando nos ouvidos.
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  Foi aí que ouvi.
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  A voz da %Isla%, baixa, mas firme, do outro lado de uma pilastra, conversando com alguém da equipe de logística.
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  — É um robozinho pequeno, com luz no olho… é o que ele viu no vídeo. Eu só queria trazer igual. Mas se não der tempo de passar na loja…
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  Ela estava ansiosa. Aquilo me surpreendeu.
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  %Isla% %Torres%. A mulher que desmontava um eixo sob pressão como se estivesse organizando um fichário. Que lidava com comentários machistas sem perder o ritmo das mãos. E ali… insegura por causa de um brinquedo.
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  Hesitei. Depois me aproximei devagar.
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  — É um robô pro %Liam%? — Ela virou na mesma hora, ligeiramente tensa, mas não surpresa.
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  — Você estava ouvindo?
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  — Sem querer. Ou… mais ou menos.
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  — Eu vou fingir que acredito.
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  — Quer ajuda? — Ela arqueou uma sobrancelha.
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  — Para comprar um brinquedo no Japão?
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  — Você já ajustou minha curva nove. Acho justo eu retribuir com um robô de luz no olho.
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  Ela encarou por um segundo, tentando entender se era ironia ou gentileza genuína. Talvez fosse os dois.
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  — Certo. Mas se ele vier dançando, o crédito é todo seu.
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  — Justo.
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  Saímos do paddock poucos minutos depois. Eu com um boné puxado até a sobrancelha e um moletom com o capuz levantado. Ela prendeu o cabelo em um coque improvisado e trocou o uniforme por uma jaqueta leve e calça jeans.
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  Ninguém nos reconheceu.
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  As luzes da cidade dançavam nos vidros das vitrines e no asfalto ainda úmido. O Japão à noite era outro mundo — calmo, limpo, quase silencioso. Caminhamos por ruas estreitas cheias de lojinhas e placas coloridas, enquanto a %Isla% ia olhando vitrines com os olhos de alguém que queria acertar.
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  — Quantas vezes você já esteve aqui? — ela perguntou, sem me encarar diretamente.
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  — Algumas. Corridas, eventos… nunca por muito tempo. Mas eu gosto daqui.
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  — Dá pra sentir. — Ela parou em frente a uma vitrine e sorriu. — É tipo o oposto do paddock. Aqui ninguém precisa provar nada.
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  Entramos em uma das lojas. Pequena, abarrotada de brinquedos e bonecos eletrônicos com olhos que acendiam em azul, verde e vermelho. Levamos uns bons dez minutos até que ela, finalmente, apontou com o dedo e os olhos brilhando.
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  — É ele! É esse! Olha, o olho pisca igualzinho ao vídeo!
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  Ela deu dois pulinhos curtos, quase imperceptíveis, mas que me fizeram sorrir como um idiota. Pegou o robô com o maior cuidado do mundo, como se fosse feito de cristal, e se virou pra mim com aquele mesmo brilho nos olhos:
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  — Será que ele vai gostar?
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  — Vai amar. — respondi sem hesitar. — Você comprou o robô. Mas vai entregar o mundo pra ele.
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  Ela ficou em silêncio por alguns segundos, segurando a caixa com as duas mãos.
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  — Obrigada por isso.
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  — Não fiz nada demais.
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  — Fez sim. Você me ajudou a presentear a pessoa mais importante da minha vida.
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  — E agora?
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  Ela olhou ao redor, depois pra mim.
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  Sorriu.
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  Um sorriso de verdade. Um daqueles que vem quando a cabeça ainda está tentando entender o que o coração já sentiu.
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  — Agora... agora eu só espero que ele durma com esse robô abraçado.
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  — E se ele não dormir?
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  — Bom… — ela deu de ombros, andando à frente com a caixa nos braços — Aí o Charles Leclerc vai ter que descobrir como consertar um robô quebrado por excesso de amor.
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  Eu ri.
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  E não percebi que tinha parado de pensar no pódio, na equipe, no que Alix disse. Por uma noite, o mundo parecia mais simples e ela... mais próxima.
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  Mais tarde, já de volta ao motorhome da equipe, me juntei ao lounge com alguns rostos familiares.
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  Daniel, o piloto reserva da Red Bull, estava jogado numa das poltronas como se tivesse corrido duas provas seguidas. O fisioterapeuta da equipe revisava um relatório no tablet sem realmente ler, e o Pierre Gasly apareceu com uma latinha de energético, rindo de algo que eu perdi no começo.
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  — Mano, aquela curva 11 quase me jogou na caixa de brita — comentou Daniel, já gesticulando. — Achei que fosse terminar a corrida em Tóquio central.
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  — Foi a mesma que o Max quase perdeu o carro ontem, não foi? — Pierre perguntou.
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  — Sim! Ele tava tipo "não, eu controlo tudo", e de repente o carro tava sambando — riu o fisioterapeuta.
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  Todo mundo gargalhou. Eu também, um pouco. Mas por dentro… eu ainda estava em outra pista.
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  Até que o assunto mudou. E ficou… mais próximo.
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  — Aliás — comentou Daniel, como quem jogava algo aleatório no ar — vocês viram a engenheira nova da Ferrari? %Torres%? Trabalhou com os protótipos antes.
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  O fisioterapeuta assentiu, mexendo no tablet.
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  — Vi, sim. Discreta, mas afiada. Dizem que foi ela que fez os ajustes do carro do Charles.
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  Fingi que não ouvi, continuei bebendo água, devagar. Nem ergui os olhos. Mas claro que eles não iam parar ali.
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  — E como ela é, Charles? — perguntou Pierre, com aquele sorriso que sempre vinha antes de provocação.
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  Demorei um segundo antes de responder. Mas respondi.
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  — Perfeccionista. Discreta. Técnica. — Respirei fundo. — Modesta também. Nunca assume o crédito. Mas… ela entende o carro. De verdade. Você fala e ela já está dois passos à frente.
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  Pierre me olhou de lado, divertido.
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  — Competente… e bonita, vai. Aquela calma dela tem alguma coisa.
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  — Ela tem cara de quem desmonta um motor inteiro e ainda te dá um fora educado — emendou Daniel, rindo.
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  Deixei escapar um sorriso de canto, mas não comentei nada. Encostei o copo na mesa, me recostei no sofá e deixei o nome dela rodar pela minha cabeça mais tempo do que gostaria.
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  %Torres%. %Isla% %Torres%.
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  Bonita, nunca pensei nela assim, não com esse adjetivo primeiro.
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  Mas agora que falaram...
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  Me veio o cabelo cacheado preso com pressa, o rosto suado sob o boné da equipe, a expressão concentrada no box. Pensei nas mãos dela — ágeis, firmes, sem hesitação. No jeito como ela me enfrentou naquela noite no box, sem abaixar o olhar nem por um segundo.
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  E no outro lado dela. A %Isla% que falou do robozinho, que sorriu com os olhos. Que pulou de leve quando encontrou o brinquedo na prateleira da loja escondida. A %Isla% mãe. A %Isla% mulher.
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  E eu ali.
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  Tentando não pensar mais do que devia.
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  Mas já pensando demais.
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  Nota da autora: Charles em Suzuka, mas a cabeça bem longe da pista. Alix apareceu achando que ainda tinha chance… e ele deu o basta (finalmente!).
  O rolê do robô do %Liam% foi puro respiro no meio da bagunça (e eu amo essa cena 🥺).
  Próximo capítulo promete consequências, suspiros e talvez mais do que ele tá pronto pra sentir 👀

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