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Na Hora Certa

Escrita porNyx
Editada por Lelen

CAPÍTULO 04 • Em Ponto Morto Também se Acelera

Tempo estimado de leitura: 29 minutos

  Pov Charles Leclerc

  Comecei o dia suando, não porque quis, mas porque precisava. A academia do hotel ainda estava vazia quando cheguei. Os primeiros raios de sol entravam pelas janelas altas, tingindo tudo de um dourado calmo, o tipo de calma que eu não sentia há dias.
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  Coloquei os fones, escolhi uma playlist aleatória e aumentei o volume no máximo. Subi na esteira e corri. Quilômetro após quilômetro. Como se cada passo fosse capaz de esmagar a irritação que crescia no peito.
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  Mas não funcionava.
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  Porque toda vez que meu corpo queria entrar em automático, minha cabeça fazia questão de lembrar. O jeito que ela olhou pra mim. Firme, sem recuar, como se eu não fosse ninguém especial.
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  Como se eu fosse só mais um problema na prancheta dela. Eu passei a vida sendo observado. Mas ela? Ela olhava como quem dizia “eu não tô aqui pra te agradar”. E isso… isso me desconcertava mais do que eu gostaria de admitir.
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  Aumentei a velocidade da esteira.
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  O suor escorria pelo rosto, grudando na camiseta da equipe. Minhas pernas começavam a pesar. Mas a cabeça? Ainda no box. Na frase dela.
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  "Você está nas minhas mãos. Quer goste disso ou não."
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  Saí da esteira, respirei fundo e fui direto pras barras.
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  Treino de força.
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  Carga alta.
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  Movimentos precisos.
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  Se eu focasse só nos músculos, talvez parasse de pensar nela, mas era impossível. Porque ela não se impunha com gritos. Nem com carisma, ela se impunha com silêncio. Com olhar. Com resultados.
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  E isso me irritava. Porque não era só respeito que ela estava arrancando — era território. Eu puxava o ferro com mais força do que devia, até os braços tremerem.
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  Tentei me convencer de que era só orgulho ferido, mas era mais do que isso. Era uma curiosidade desconfortável. Ela não se encaixava nas categorias que eu costumava usar, e talvez por isso… eu não soubesse onde colocá-la. Ainda.
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  Tomei um banho rápido, deixando a água quente cair direto na nuca. Como se pudesse derreter a raiva ali, mas ela não derreteu. Ao sair, ouvi um barulho vindo do quarto. Não esperava ninguém. E, certamente, não esperava ela.
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  Alix estava encostada na bancada, o celular nas mãos, como se não tivesse acabado de entrar sem pedir.
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  — Você não parece feliz em me ver — disse, baixo, quase um suspiro.
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  — Porque eu não esperava você aqui.
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  — Achei que a gente podia conversar.
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  — Conversar? Depois de dias sem se falar, você aparece no meu quarto sem avisar? — Ela deu um meio sorriso cansado.
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  — Vai dizer que não pensou em mim nenhuma vez?
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  — A gente terminou, Alix.
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  — Eu sei. — Ela deu de ombros, mas a voz embargou. — Eu só não aprendi a lidar com isso ainda.
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  Suspirei, esfregando a nuca.
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  — Então veio aqui pra quê? Pra gente se machucar mais?
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  — Pra te ver. Pra lembrar que ainda sei quando você tá prestes a desabar. — O olhar dela se estreitou. — E… pra perguntar se essa engenheira nova tem alguma coisa a ver com o jeito que você anda.
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  — Você não faz ideia do que tá falando.
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  — Talvez não, mas eu sei de uma coisa que você vai gostar…
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  Quando as mãos dela tocaram meus ombros, eu não recuei. Pelo contrário. O corpo respondeu antes da cabeça, como sempre. O beijo foi rápido, urgente, e dessa vez eu correspondi sem pensar muito. Talvez porque fosse mais fácil sentir do que pensar.
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  A gente caiu na cama com pressa, sem medir, sem freio. E no meio do calor, eu deixei acontecer. Cada toque, cada gemido, cada segundo me distraía da bagunça na minha cabeça. Por alguns minutos, parecia bom. Parecia simples. Parecia suficiente.
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  Mas quando tudo terminou, o silêncio voltou mais pesado do que antes. Ela virou pro lado, como se ainda tivesse espaço ali. Eu fiquei olhando pro teto, com o peito subindo e descendo devagar, e a sensação me atingiu como um acidente em curva seca: não era saudade, não era amor. Era só instinto.
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  E junto dele, o arrependimento. As rachaduras que acabaram com a gente nunca deixaram de existir — e agora estavam mais visíveis do que nunca. Eu podia até ter cedido no corpo, mas a cabeça sabia a verdade: o que sobrou entre nós era vazio.
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  Fechei os olhos, mas o sono não veio. Só uma pergunta insistente: por que eu ainda deixava essa porta entreaberta?
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🏁🛠

  O box já estava pulsando. Engenheiros andando rápido, Matteo dando instruções, o barulho de parafusadeiras se misturando ao chiado dos pneus frios sendo montados.
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  Era um sábado comum, ou deveria ser, mas meu olhar foi puxado por uma cena que não combinava com a rotina cronometrada da equipe: uma criança.
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  Pequeno, devia ter uns quatro anos. Tinha o moletom vermelho da Ferrari amassado nos cotovelos e uma mini prancheta de brinquedo nas mãos. O cabelo castanho cacheado caía desordenado sobre a testa, e os olhos? Os olhos brilhavam.
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  Ele estava de pé ao lado da %Isla%, falando baixo, encantado com o carro. Sorri de canto. Pensei que fosse filho de alguém da equipe, mas então ele falou, com toda naturalidade do mundo:
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  — Mamãe, posso tocar no volante?
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  Parei.
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  O sorriso sumiu.
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  Mamãe.
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  Ele chamou ela de mamãe.
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  Demorei um segundo para associar. Não fazia sentido na minha cabeça. A %Isla% que eu conhecia — ou achava que conhecia — era obstinada, fria, completamente entregue ao trabalho.
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  E agora… aquilo?
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  Olhei de novo para o menino. A curvatura do sorriso, o formato dos olhos, até o jeito atento de observar… havia algo ali que lembrava muito a %Isla%. Era sutil, mas impossível de ignorar. Ela abaixou um pouco pra falar com o menino, apontando alguma coisa no carro. Estava sorrindo. Um sorriso tão leve que parecia quase… improvável vindo dela.
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  O menino assentiu, animado, e logo depois foi conduzido por uma mulher com uniforme de staff, uma assistente da equipe de apoio que provavelmente tinha recebido instruções claras da própria %Isla%.
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  Era óbvio que ela tinha se virado sozinha. Tinha providenciado tudo. Organizado cada detalhe para que o filho ficasse em segurança, mesmo enquanto o mundo ao redor exigia que ela estivesse cem por cento concentrada em sensores, dados e desempenho.
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  E eu continuei olhando.
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  Atordoado.
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  Como se tivesse descoberto uma variável nova que mudava toda a equação.
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  Esperei alguns minutos, depois me aproximei. Ela estava de pé em frente à bancada, digitando no monitor de análise com a precisão de sempre. Mas as mãos dela… pareciam mais firmes do que nunca.
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  — Então... — comecei, tentando parecer casual — você tem um filho. — Ela não se virou, nem hesitou.
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  — Tenho. — Fiquei em silêncio por dois segundos. Depois soltei, sem pensar:
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  — Não parece.
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  Dessa vez, ela parou de digitar.
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  Devagar.
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  Virou o rosto na minha direção. O olhar era diferente, mais fundo. Mais duro.
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  — O que exatamente não parece, Leclerc? — a voz dela veio baixa, mas firme. — Que alguém como eu pode ser mãe? Ou que uma mãe pode estar aqui?
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  — Não foi isso que eu quis dizer — recuei, tentando desfazer o tom.
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  — Então reformula, porque do jeito que você falou, pareceu exatamente isso.
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  Engoli seco.
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  Ela cruzou os braços, como se já tivesse vivido essa conversa mil vezes antes, e soubesse exatamente onde ela ia terminar.
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  — Você tá surpreso, né? Achou que sabia quem eu era. A engenheira que trabalha em silêncio, que não sorri, ou não erra. Mas eu tenho um filho, Leclerc. Um filho que dorme com um carrinho vermelho na mão e pergunta todo dia quando vai me ver de novo.
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  — %Isla%, eu só…
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  — Você só pensou o que todo mundo pensa. Que eu devo ter largado alguma coisa pra estar aqui, que eu não dou conta, ou que tem algo errado comigo.
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  — Eu não disse isso.
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  — Mas pensou, tá no seu olhar.
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  O silêncio entre a gente ficou espesso. Ela soltou um suspiro pesado, e o tom mudou. Menos raiva. Mais verdade.
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  — Eu não sou uma variável, Leclerc. E o %Liam% não é um obstáculo, ele é o motivo de tudo.
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  Fiquei ali. Sem saber o que responder. Porque naquele momento… ela não era só uma engenheira. Ela era mãe e era também profissional. E era as duas coisas com a mesma força.
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  E isso… isso me desmontou.
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  Entrei no carro com a cabeça longe do traçado. Ainda conseguia ver os olhos do menino brilhando diante do volante. Ainda ouvia a forma natural como ele a chamou de “mamãe”. Ainda sentia o impacto da resposta dela: "ele é o motivo de tudo."
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  Tentei sacudir aquilo como se fosse só poeira emocional, mas não era. A %Isla% tinha me desmontado sem levantar a voz. Sem fazer cena. Apenas sendo tudo o que disseram que ela não podia ser, ali, naquele lugar.
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  Agora eu precisava focar e entregar, porque no fim das contas, era isso que me restava: ser impecável na pista.
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  Pisei fundo.
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  O treino classificatório começou e o carro… respondeu.
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  Pisei fundo.
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  As primeiras voltas foram de aquecimento. Levei o carro com cautela, sentindo cada ponto de contato com o asfalto, mas logo, o instinto assumiu o comando.
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  Na curva três, segurei firme. Na curva quatro, testei o limite de frenagem.
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  E então veio ela.
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  Curva cinco.
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  A mesma que vinha me tirando segundos nas últimas três etapas. A mesma que parecia devorar estabilidade, arrancar a traseira do carro e cuspir o tempo no cronômetro. Mas não hoje.
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  Hoje, ela veio lisa.
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  Suave.
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  Precisa.
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  Como se, pela primeira vez em muito tempo, o carro estivesse... do meu lado.
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  Respirei fundo, voltei pros boxes, ouvi a análise, fiz ajustes e voltei pra pista.
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  A cada volta, o tempo baixava. A cada volta, o carro confirmava o que eu já sabia, mas ainda não queria admitir: %Isla% acertou.
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  Do lado de fora, a vi de relance. De pé, ao lado da bancada de análise. Fones no ouvido, prancheta na mão, olhar fixo nos dados. Inabalável.
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  Ela não me olhou, mas eu sabia que ela sabia.
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  Última volta.
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  Tudo encaixado. As engrenagens, os sensores, meu corpo, minha raiva contida. Quando cruzei a linha, o tempo piscou na tela.
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  P2.
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  Max na pole, mas eu estava colado. Três décimos.
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  A equipe comemorou.
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  Tapas nas costas, sorrisos, anotações frenéticas. E %Isla%? Ela só assentiu. Não sorriu, não buscou reconhecimento, só registrou o tempo com a frieza de quem sabia exatamente o que fez, e o que ainda vai fazer. Saí do carro sentindo o suor escorrer pelas costas. Mas o peito? Carregado de outra coisa.
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  Não era só alívio, ou adrenalina.
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  Era respeito.
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  E talvez… um pouco de dívida.
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🏁🛠

  Mais tarde, depois da reunião técnica, saí por uns minutos, fingindo que precisava respirar, quando, na verdade, só queria silenciar o mundo por meia hora. E foi aí que vi os dois. %Isla%, andando com passos curtos, prancheta em uma mão, mochila infantil na outra. E ao lado dela, o garotinho de moletom vermelho e tênis com luzinha nas solas.
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  Ele pulava a cada três passos, como se o paddock fosse um parque de diversões gigante. Com o suquinho na mão e os olhos escaneando tudo com atenção, parecia em missão secreta.
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  Não percebi que tinha parado até o menino me ver. Ele me apontou com o canudo ainda na boca, sem filtro algum:
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  — Você é o cara do carro vermelho! — gritou, orgulhoso da própria descoberta. — Mamãe disse que você grita muito no rádio!
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  Travei.
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  Sério, engasguei no ar. %Isla% parou como se alguém tivesse puxado o freio de mão.
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  — %Liam%! — ela sussurrou, os olhos arregalados. — Não fala assim com os outros, cariño
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  Mas o menino já estava vindo na minha direção. A curiosidade era mais forte que qualquer tentativa materna de controle.
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  — Você tem botão de turbo? — ele perguntou, agora a dois passos de mim. Pisquei.
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  — Não exatamente, mas gostaria de ter — respondi, tentando manter a seriedade.
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  — O carro da mamãe é muito barulhento? — ele encostou no meu braço com a naturalidade de quem não entendia de limites sociais, só de interesse genuíno.
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  — O carro da sua mãe é uma máquina de precisão. Eu só grito mais.
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  — Achei que fosse um videogame gigante! — ele disse, já olhando pro meu relógio. — Esse botão é pra lançar banana, igual no Mario Kart?
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  Tive que rir. Mais do que isso: eu quis rir.
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  — Não, esse é só pra ver as horas mesmo. Mas se eu tivesse um botão de banana, prometo que usava na largada.
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  — Mamãe ia descobrir e dizer que é falta de ética. — Ele deu de ombros com a sabedoria de um velho de 70 anos. — Ela é brava com isso.
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  Olhei pra %Isla%. Ela estava a dois metros, os braços cruzados, a expressão tensa… Mas os olhos? Estavam cheios de algo que não era raiva, era cuidado, atenção, algo parecido com orgulho.
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  — Você vai ganhar amanhã? — %Liam% perguntou. Me abaixei um pouco, ficando na altura dele.
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  — Vou tentar, mas só se você torcer por mim. — Ele estendeu a mão como se selasse um acordo.
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  — Só se você parar de gritar no rádio. — Toquei a mão dele, rindo de novo.
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  — Negócio fechado.
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  Ele correu de volta pra %Isla%, satisfeito. E quando ela se virou pra mim, pronta pra se desculpar, eu fui mais rápido:
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  — Não precisa dizer nada. Ele é ótimo. — Ela hesitou.
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  — Ele é tudo.
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  E naquele instante, eu soube. Não era só ela que me desconcertava. Era o mundo inteiro que ela carregava com uma mão, enquanto apertava parafusos com a outra.
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🏁🛠️

  O despertador tocou antes da luz do sol entrar.
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  Domingo.
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  O dia da corrida sempre começava com silêncio, mas não o silêncio calmo, o outro. O carregado. O que vem antes de algo que pôde mudar tudo ou reafirmar o que você já temia.
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  Me vesti no automático, roupa térmica, tênis, relógio. Me olhei no espelho por um segundo a mais. Não sei se era pra me reconhecer ou pra lembrar que já estive ali antes. Mil vezes.
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  Mas aquela manhã parecia diferente.
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  E eu sabia o motivo.
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  Desci para o paddock mais cedo. Os boxes ainda estavam meio vazios, gente ajustando os últimos detalhes, algumas câmeras espiando comedidas. E foi ali, no canto, encostada em um dos containers, que eu a vi.
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  %Isla%.
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  Ajoelhada no chão, com o joelho apoiado numa toalha dobrada. Colocava fones de ouvido infantis na cabeça do %Liam%, que tentava fugir das mãos dela como um peixinho escorregadio.
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  — Você vai usar sim, %Liam%. Vai ter barulho demais lá embaixo.
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  — Mas eu quero ouvir o grito do seu carro! — ele protestou, com a convicção de quem já é fã da mãe e da máquina.
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  Ela riu.
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  De verdade.
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  Uma risada leve, desprevenida e bonita.
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  %Liam% finalmente cedeu e levantou os braços, permitindo que ela ajustasse os fones. Os cachinhos dele estavam rebeldes, escapando pela lateral do arco, como se tivessem vida própria.
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  %Isla% passou a mão com cuidado, ajeitando a franja enroladinha com aquele gesto automático de quem já fez aquilo mil vezes. Depois, beijou o topo da cabeça dele, com um carinho que parecia tão íntimo quanto poderoso.
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  Aquela cena… A %Isla% que parecia feita de aço, agora ali, de joelhos diante do filho.
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  E pela primeira vez, entendi: ela não dividia a vida entre o box e a maternidade, vivia as duas ao mesmo tempo, com a mesma intensidade e firmeza. E isso… Era mais do que qualquer vitória.
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  Matteo apareceu pouco depois, os passos rápidos, a prancheta sob o braço.
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  — Último briefing. Setores dois e três estão respondendo bem, mas cuidado na largada. A Red Bull Racing pode jogar o Verstappen pra cima de você logo na primeira curva.
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  Assenti com a cabeça. Ele falou mais — números, estratégias, combustível — mas parte de mim já tinha saído da sala.
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  Meu corpo estava ali, mas a cabeça… já estava no cockpit.
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  Sentei no carro como quem voltava para uma versão de si que só existia ali. Capacete, luvas, rádio no ouvido. Fechei os olhos por um segundo. Só um.
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  Vi tudo.
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  Todos.
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  Jornalistas esperando o erro, engenheiros esperando explicações e torcedores esperando mágica. Vi até %Isla%, com os braços cruzados, o olhar clínico e um menino de fones gigantes assistindo ao mundo com a inocência de quem ainda achava que tudo terminava bem.
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  Respirei fundo.
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  Pisei na embreagem.
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  Luzes vermelhas e silêncio absoluto.
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  E então: verde.
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  A largada foi limpa.
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  Verstappen tomou a ponta, eu fui atrás. As voltas se sucederam em ritmo alucinante. O rádio falava, mas eu só escutava o motor. O carro respondia.
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  Na curva cinco — a maldita curva cinco — a traseira se manteve firme. Nada de vibração. Nada de instabilidade. Ela funcionava. O ajuste dela funcionava. No setor dois, a aproximação. No setor três, a tensão. Últimas voltas. Max defendia com agressividade, mas eu conhecia o traçado. Conhecia o carro. E, dessa vez… o carro me conhecia de volta.
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  Ultrapassei.
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  Justo na curva cinco.
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  Justo onde o erro costumava morar.
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  Pisei fundo na saída, retas finais. O barulho ensurdecedor, bandeira quadriculada. Primeiro lugar. A adrenalina me rasgava por dentro. O suor grudava nas costelas, mas eu só conseguia pensar em uma coisa.
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  Apertei o botão do rádio.
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  — Bom trabalho. — falei, sem pensar. — O carro estava perfeito.
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  Silêncio.
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  E então:
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  — Diz isso pra %Torres%.
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  As palavras ainda ecoavam na minha cabeça quando os flashes começaram a disparar. O pódio parecia ainda mais alto naquele dia. Não porque era o topo, mas porque eu sabia exatamente o que me custou chegar ali.
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  Max em segundo.
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  Norris em terceiro.
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  Os três de pé, braços erguidos. Champagne voando, flashs disparando como uma rajada de vento. Gritos da torcida, fogos subindo no céu do circuito. O hino da vitória ecoava, mas eu não conseguia focar no som, só no que havia por trás.
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  A curva cinco.
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  O ajuste.
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  O silêncio dela.
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  Desci do pódio com o macacão encharcado e o rosto dividido entre exaustão e êxtase. No meio da aglomeração atrás da barreira de seguranças, um rosto conhecido me fez travar o passo. Alix. Não deveria estar ali. Mas estava, com um sorriso que parecia mais um pedido de espaço do que uma celebração, cercada por fotógrafos prontos para capturar qualquer gesto.
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  — Eu sabia que você ia ganhar… — ela disse, alto o bastante para que todos ouvissem, avançando antes que eu pudesse pensar em recuar. Estendeu os braços e, por reflexo, segurei o troféu mais firme, inclinando o corpo para o lado numa tentativa de evitar o contato.
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  Não adiantou. Ela se aproximou rápido e puxou meu rosto para um beijo. Foi breve, mas o suficiente para os flashes dispararem em sequência. Um retrato perfeito para os jornais, e o pior retrato possível daquilo que nós éramos agora.
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  Os aplausos e gritos ao redor eram barulho de fundo. E, enquanto tudo isso acontecia, parte de mim… ainda estava no box.
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  Assim que desci da área do pódio e consegui escapar da multidão, segurei no braço da Alix, firme, sem dar espaço pra resistência.
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  — Vem. — minha voz saiu seca, quase dura.
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  Ela arqueou a sobrancelha, surpresa, mas deixou que eu a conduzisse até um corredor lateral, longe dos fotógrafos e do barulho da celebração. Quando a porta se fechou atrás de nós, o silêncio caiu pesado.
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  — O que você tá fazendo aqui, Alix? — perguntei, ainda segurando o troféu como se fosse um escudo.
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  — Vim te ver. Te parabenizar. E porque… — ela respirou fundo, a voz embargada. — Porque eu ainda sinto sua falta, Charles. A gente podia tentar de novo.
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  Balancei a cabeça, frustrado, sem conseguir esconder a exaustão.
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  — Não, Alix. A gente já tentou. E não funcionou.
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  — Mas eu sei que ainda existe algo entre nós. Eu vi como você não me afastou lá fora… — ela deu um passo à frente, buscando o mínimo de abertura. — Só mais uma chance.
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  — Não. — minha resposta foi firme, sem espaço pra discussão.
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  Ela desviou o olhar, mordendo o lábio, como quem buscava outra saída.
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  — Então… talvez a gente não precise de rótulos. Sem compromisso, sem cobrança. Só nós dois, quando você quiser, quando precisar.
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  Suspirei, fechando os olhos por um instante. A ideia poderia ser tentadora, mas só porque era fácil.
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  — Você não merece isso. — falei, devagar, olhando direto nos olhos dela. — Eu não vou te usar pra tapar um vazio que eu não sei preencher.
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  — Não seria usar, Charles. Seria escolha. Minha também. — a voz dela soava quase suplicante.
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  — Não. — repeti, mais baixo dessa vez. — O que você precisa é se amar mais do que me ama. Se dar mais valor do que dá pra essa ideia de nós dois que já não existe.
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  O silêncio ficou entre nós, carregado. Ela engoliu em seco, tentando manter a postura, mas os olhos marejados a entregavam.
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  — Você fala como se fosse tão simples.
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  — Nunca foi simples. Esse é o problema.
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  Ela respirou fundo, virou-se sem mais nada dizer, e saiu. A porta se fechou atrás dela com um clique seco.
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  Fiquei ali, sozinho no corredor, ainda com o troféu na mão e uma sensação amarga no peito. Vencer naquela pista deveria bastar… mas, de repente, tudo parecia menos do que suficiente.
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🏁🛠️

  Voltei aos bastidores quando a equipe já estava dispersando.
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  Foi ali que a vi.
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  %Isla%.
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  No canto, encostada perto da bancada de análise, sem prancheta, fone, ou pose. Ela só me olhou por um segundo.
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  Rápido.
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  Mas o suficiente pra saber que tinha visto tudo. Me aproximei devagar, ainda com o zumbido da corrida dentro da cabeça. Ela não se mexeu.
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  — Aquela curva... — comecei, a voz mais baixa do que eu queria admitir. — Foi sua.
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  Ela ergueu uma sobrancelha, sem ironia.
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  — Foi do carro. Eu só ouvi o que ele tava dizendo.
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  Assenti, quase sorrindo.
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  Olhei pro lado e lá estava ele, o garotinho de fones gigantes, dançando em volta da caixa de ferramentas como se também tivesse vencido.
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  — Ele tem sorte. — comentei, sem pensar. %Isla% não hesitou.
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  — Ele tem mãe.
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  E aquilo… Aquilo pesou mais que o troféu nas minhas mãos.
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  Nota da autora: E aí, gente, o que foi esse capítulo, hein? 🏎️ Charles até levou a vitória, mas dá pra ver que nem pódio salva a bagunça que ele carrega por dentro. O %Liam% apareceu e roubou a cena do jeitinho dele (porque claro, né, criança fofa sempre ganha da corrida 😂), e a Alix… ah, a Alix. A relação deles é aquela ferida que já devia ter cicatrizado, mas insiste em arder. A gente sente o peso do que eles já foram, e o incômodo de ainda não ter um ponto final definitivo. Me contem aí: vocês acham que essa porta vai continuar entreaberta ou o Charles finalmente vai trancar de vez?

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Lelen

Primeiramente, alguém esfrega essa curva na cara do Charles, obrigada.
Segundamente, eu já tava julgando tanto ele (apesar de ter comentado que às vezes bate a empatia kkkkk) que já tava pronta pra virar a mão na cara dele se ele fosse ranzinza com o Liam IOHBASODINASOID
Mas é uma criança. E uma criança adorável, NÃO TINHA COMO.
Vamos ver se as coisas vão se encaixar (acho que não tão cedo kkkk) agora.

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