Capítulo 14 • The whole world is watching
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- Você entendeu o que eu acabei de pedir? - a voz firme e imponente ecoou pela sala. Não era bem uma pergunta que teria uma resposta negativa.
Tinha sido claro o suficiente.
- É claro que sim. - o mais novo sorriu ao ter a resposta que queria. - Eu só estou um pouco confuso.
- Com o quê? - perguntou, impaciente.
- Achei que seu plano acabava quando a equipe alfa fosse desfeita por completo. - levantou a pasta que fora entregue pelo mais novo. - Isso não é da equipe alfa.
O mais novo apoiou as mãos na grande mesa de mogno e sorriu largamente.
- Mas é uma peça fundamental no meu jogo de xadrez. - explicou, com uma tranquilidade que não combinava com sua postura durona. - E digamos que eu preciso longe o bastante para que eu possa agir.
O mais velho franziu a testa sem entender.
Com ele era sempre assim enigmas e códigos que ele não entendia. Muito menos que queria obedecer.
Não que tivesse alguma escolha.
- Está ponderando? - questionou, rindo ironicamente. - Ora, sabe não deveria negar um pedido meu. - o tom ameaçador apareceu e qualquer um sabia o que acontecia com as ameaças dele. Não eram só ameaças. - Não é mesmo, Senador?
O mais velho o encarou, dessa vez com raiva.
- Você é um moleque atrevido…
- Não! - interrompeu, com um brilho nos olhos que beirava a loucura. - Não sou atrevido, apenas luto para conseguir o que quero.
O Senador respirou fundo, não tinha poder de barganha com ele.
Ou era do jeito que ele queria ou…
- A não ser que você queira que a sua esposa descubra o que foi fazer na Conferência de Genebra. - deu de ombros e recostou na cadeira. - Quando não teve conferência. - levantou as sobrancelhas, ele exalava poder não só em suas palavras.
Isso ficou nítido quando o Senador o encarou amedrontado.
- Ela sabe sobre os dois filhos fora do casamento que você tem? E que mandou a sua amante para a Europa com uma pensão bem gorda em troca de silêncio?
O Senador engoliu seco e as palavras não saíram, algo que deixou o mais novo muito satisfeito.
Aquela história era algo estritamente sigiloso, apenas seu assessor sabia de seu caso extraconjugal e este era seu fiel escudeiro há mais de 20 anos e não acreditava que havia dito a alguém.
Mas se ele sabia então era perigoso.
Uma pessoa como ele tinha poder não só para acabar com a sua vida pública mas também seu matrimônio.
- Considere o seu pedido feito.
[...]
%Annie% ainda buscava um jeito de preparar a família, sem o baque vir de surpresa quando fossem para o evento no final de semana, oficializando o noivado. O pai já estava em casa e ela esperava o momento certo, na verdade estava mais era criando coragem para contar a novidade.
E precisava de alguma artimanha para que a família não desconfiasse do noivado repentino.
Ok, a família sabia que Walker estava interessado nela há algum tempo e isso ficou nítido quando Walker e o seu superior na época foram comer na casa da família %Madden% há quase dois anos atrás.
Mas depois de tudo o que tinha vivido com %Ryan%, aparecer do nada noiva de Walker levantaria suspeitas.
Então, ela teria que amaciar todo mundo.
E não conhecia outro jeito.
%Annie% já tinha feito o ultrassom morfológico 3D e Joe tinha acompanhado-a, e agora estavam com os pais reunidos para mostrar o rostinho de Angelina.
- Eu tenho duas notícias. - ela avisou.
Os pais se entreolharam, curiosos.
- Ah não, aquele negócio de boa e má notícia não. - Joe reclamou.
- São boas. -
ou quase, ela pensou. - Uma é melhor.
- Então diga a melhor. - o pai falou.
%Annie% estendeu o exame para os pais, a mãe pegou e abriu o envelope, tirando a foto do rosto de Angelina sorrindo de leve.
%Annie% sorriu largamente quando os pais olharam o ultrassom e começaram a se emocionar.
- Ela é tão delicada, filha. - Sandra falou, levando a mão até o peito.
- O sorriso é igual ao seu. - Alexander apontou.
- Joe chorou. - %Annie% acusou o irmão que a olhou ofendido.
- Mentira! - todo mundo olhou para ele, %Annie% com a sobrancelha levantada e os pais com um olhar suspeito. - Eu estava suando.
- Pelos olhos?! - %Annie% riu.
A família gargalhou enquanto as orelhas de Joe ficaram vermelhas.
- Ah tá bom! - se deu por vencido. - É a minha sobrinha, afinal. Queriam o quê?
- Eu sempre soube que você tinha coração. - %Annie% brincou, abraçando- o pelo ombro.
Joe olhou para ela fingindo estar irritado e apoiou a cabeça na dela.
Eles tinham uma boa relação de irmãos, mesmo tendo provocações como qualquer pessoa.
Ele não era o único feliz ali.
Angelina parecia que tinha vindo com a missão de trazer alegria para a família.
%Annie% conversou com a família sobre todos os detalhes do exame, o que a médica tinha dito e o que ela tinha sentido na hora.
Os pais deram conselhos para ela, afinal entendiam de bebês melhor do que %Annie%, mas ela sabia que poderia contar com os pais sempre que pudesse.
Joe se prontificou em terminar de montar as coisas da sobrinha no quarto de %Annie% e isso virou uma longa discussão com o pai que insistia em dizer que ele daria conta a tempo.
- Você disse que tinha outra notícia. - Alexander lembrou.
%Annie% ficou um pouco mais rígida, tirando os braços do irmão e de repente suas mãos suaram frio.
- Ah é, agora eu tô curioso. - Joe cruzou os braços, olhando atento para a irmã que parecia ter encolhido. - Eu acho que essa eu não sei. Sei?
- É que - ela respirou fundo, colocando o cabelo atrás da orelha. Parecia ser muito mais fácil em sua cabeça. - o Major me pediu em casamento.
A família só piscava para %Annie% que começava a morder a pele de dentro da bochecha.
Porque parecia que ela tinha 5 anos novamente e levaria uma bronca daquela dos pais? A sensação era a mesma.
- Ok, e…? - Joe instigou, vendo que os pais só observavam %Annie%.
Pior, observavam de um jeito que era uma completa incógnita.
- Eu aceitei. - ela despejou de uma vez.
As reações eram exatamente como previa, a mãe levantou as sobrancelhas, o pai franziu o cenho e Joe estava com a boca aberta.
Todos demonstraram surpresa com a resposta de %Annie%.
A proposta de casamento não era tão chocante, e sim a resposta positiva de %Annie%.
- Bom, é claro que notamos a aproximação de vocês nos últimos dias - Sandra falou, colocando a mão no ombro do marido. Ele compartilhava da mesma opinião. - mas não imaginávamos que fosse tão sério.
Ela tinha preparado todo o discurso, todo o roteiro em sua cabeça e agora sua mente tinha dado tela preta. Não sabia como iria argumentar com eles e fazê-los entender algo que não sentia de verdade.
Essa era a consequência de ter pais atentos e presentes, eles liam através do rosto dela.
- Filha, você é tão nova. Não precisa ter pressa. - o pai continuou.
Com %Ryan% ela tinha uma história e até já pareciam casados. Já com o Major…
Ela quis chorar. Sabia que seria difícil convencer os pais, só que concordava com eles.
Ainda era muito jovem para se casar assim às pressas, porém, ela não tinha outra opção.
O casamento traria segurança para ela e todos a sua volta, de muitas formas, tinha que acontecer.
- Eu sei, pai. É que… só… parece certo agora.
Sandra e Alexander trocaram olhares, se comunicando mentalmente enquanto Joe observava em silêncio atentamente.
- Você tem certeza disso? - Sandra perguntou.
A única certeza que tinha era de sua motivação.
- Nós vamos te apoiar, sabe disso. - Alexander lembrou, fazendo a filha sorrir de leve.
Sem forçar %Annie%, os pais não falaram mais nada sobre o assunto casamento e ela agradeceu mentalmente por aquilo.
Não poderia mentir para os pais então quanto menos soubessem, melhor.
Sem questionamentos, sem julgamentos, sem suspeitas.
Conversaram um pouco mais até %Annie% sair do quarto para pegar alguma coisa para o pai comer sendo acompanhada pelo irmão.
- Você não me engana. - ele disse assim que chegaram na cozinha.
%Annie% virou para encará-lo, perdida.
- Você não ama o Major. - não era uma pergunta e Joe parecia bem convicto.
- Você pode tentar enganar os nossos pais, mas não a mim. - interrompeu, sério. - Eu não sei por que você está fazendo isso.
Ah se ele soubesse, faria %Annie% voltar com a cabeça baixa para o quarto dos pais e confessar tudo como se fosse uma criança.
- Eu passei a gostar dele. - não era uma completa mentira. Tinha se acostumado com a presença dele.
Mas gostar não parecia bem a palavra ainda. Era muito forte.
- Se isso fosse verdade, você não estaria usando o anel que o %Ryan% te deu.
%Annie% escondeu a mão que carregava a aliança de %Ryan% atrás do corpo e abaixou o olhar.
Ela detestava ser mais transparente do que deveria, mas era meio óbvio que existia algum motivo por trás.
A família não era besta, tinha percebido.
Onde estava com a cabeça quando decidiu propor aquele absurdo ao Major?
E tudo porque não conseguia esconder o amor que ainda sentia por %Ryan%.
- Eu preciso refazer a minha vida sem ele, Joe. - tentou manter a voz um pouco mais firme. - Eu queria que ele entrasse por essa porta. - ela engoliu as lágrimas, não iria mais chorar por isso. - Mas ele não vai! Então será que é pedir muito o apoio do meu irmão?
Joe respirou fundo e se aproximou da irmã, abraçando-a firmemente.
- Eu realmente espero que você saiba o que está fazendo, irmã. - beijou o topo da cabeça dela.
%Annie% suspirou. Ela esperava o mesmo.
- A propósito, não é só você que tem uma boa notícia.
Ela se afastou para encarar o rosto do irmão que tinha um ar misterioso.
- O que você quer dizer com isso? - ela perguntou. - Você está aprontando alguma?
- Fique para o jantar e vai saber. - Joe deu de ombros e desfez o abraço, indo para outro cômodo enquanto %Annie% ria.
Era hora da família ter boas novas.
%Annie% ajudou o pai no que pôde naquela tarde e ele acabou descansando depois, Joe continuava mantendo segredo que nem a mãe entendeu. Ele ficou responsável pelo jantar naquela noite e sem ter o que fazer, %Annie% foi para seu quarto guardar os exames e aproveitou para se desfazer de algumas tranqueiras perdidas em seu guarda roupa.
Acabou achando um caderno que havia comprado para estudar mas acabou não usando e ao ver a foto do ultrassom 3D teve a ideia de anotar sua experiência materna ali.
Suspirou ao perceber que em sua cabeça tudo o que vinha era %Ryan%, em como ele teria ficado feliz em saber da existência de Angelina, dos planos que %Annie% estava fazendo, de tudo o que ela estava descobrindo com a gravidez.
Foi então que em um impulso escreveu tudo para ele, como se um dia ele fosse ler aquele diário, desde o dia em que descobriu que estava grávida até aquela ultrassom, colocando aquela foto e outras nas páginas.
Talvez Angelina ficaria feliz de ler também a perspectiva da mãe, o amor que ela ainda sentia por %Ryan% naquelas páginas. Afinal, esse era o plano para sua filha.
Enchê-la de amor, mostrar a ela o quanto ela amada por todos e inclusive pelo pai, mesmo ele não estando mais ali.
%Annie% ficou um bom tempo ali, agora relembrar tudo o que havia vivido com o noivo não doía tanto quanto antes.
Ainda sentia falta dele, é claro, mas estava mais agradecida pelo fato dele ter deixado o presente mais precioso para ela antes de ter partido.
Quando se deu por conta, Joe já estava apressando-a para tomar banho antes que ele pudesse explicar o porquê daquela surpresa.
Ainda confusa ela se arrumou com roupas confortáveis, não sabia do que se tratava a surpresa do irmão então usou suas roupas de casa, e foi para o quarto dos pais. A mãe e o pai estavam ali, ela ajudou o pai a tomar o remédio.
- Está bom? - perguntou após arrumar o travesseiro atrás da cabeça dele.
- Está, filhota. - o pai sorriu agradecido e ela se sentou ao lado dele enquanto a mãe saia momentaneamente.
Alexander segurou a mão da filha e fez um carinho, fazendo-a sorrir de leve.
- Eu fiz uma coisa que acho que você vai gostar. - %Annie% começou a contar.
- Um diário sobre a maternidade. - ela suspirou. - Pra Angelina ler um dia.
Precisou se segurar para não mencionar %Ryan%. Ou então o pai ficaria mais desconfiado.
- É uma ótima ideia. - ela retribuiu o carinho na mão do pai. - Vai ser bom ela crescer sabendo o quão amada ela é desde sempre.
Estava positiva desde que souberam da gravidez, parecia que todo o fardo que carregava tinha se tornado menor mesmo que soubesse a tremenda responsabilidade que tinha de agora em diante.
Mas se sentia pronta para aquilo.
- Joe pediu para avisar que o jantar está pronto. - Sandra entrou no quarto, rindo.
- Espera, ninguém está achando estranho o comportamento dele? - %Annie% revezou o olhar entre os pais. - Joe está cozinhando. Sem querer nada em troca.
- Estranho é, eu só espero que seja um estranho bom. - a mãe torceu.
- Vocês querem apostar quanto que isso é sobre relacionamento? - ele perguntou e %Annie% levantou a sobrancelha.
Joe não era o homem mais mulherengo do mundo, mas ela sabia que ele também não era o mais tímido, não como ela, afinal ele era bonito e chamava atenção. Só que ele nunca foi de ficar levando namoradas para casa, lembrava-se apenas de uma que era dentista, mas que não durou muito.
%Annie% sabia que depois da invasão e o alistamento do irmão, ele tinha se tornado um pouco mais sério. Relacionamento não parecia ser prioridade em sua vida agora.
Joe e %Annie% não se metiam na vida amorosa um do outro.
Mas se era isso, então o negócio era sério. Ele não traria qualquer pessoa para casa.
Curiosos, os três desceram até o primeiro andar. Alexander teve ajuda da filha e da esposa já que ainda estava fraco, tinha se tornado costume na verdade sair do quarto ao lado de uma das duas já que o médico havia dito que ele deveria levantar da cama com mais frequência do que antes para evitar outra trombose.
Quando chegaram na sala, Joe estava com um sorriso contido e a mão na porta, tendo a testa franzida de todos os membros de sua família como resposta a campainha tocou.
Assim que abriu, todo mundo pôde ver a figura feminina sorrir de forma contagiante enquanto Joe dava espaço para ela entrar.
Ele a segurou pela cintura quando ela o fez e beijou sua bochecha.
- Família, essa é a Michelle, minha namorada. - anunciou, recebendo a mesma reação de choque de todos ali.
- É um prazer conhecê-los oficialmente. - ela disse em um tom delicado.
Michelle era uma mulher alta, quase do tamanho de Joe, esguia e elegante. Trajava um macacão azul longo e um salto alto preto, os cabelos escuros estavam perfeitamente penteados para o lado. Ela trazia consigo duas coisas: um vaso de flores e uma sacola.
- Seja bem-vinda, querida. - Sandra falou primeiro, se afastando do marido para poder cumprimentá-la com um rápido abraço.
- Obrigada, senhora %Madden%. - agradeceu educada e quando Sandra a soltou, ela estendeu o vaso - Joe me disse que a senhora gosta de flores, eu trouxe orquídeas.
Sandra segurou as flores com um largo sorriso.
- Obrigada. É muita gentileza sua. - Sandra virou para mostrar as flores ao marido e à filha, que aprovaram com a cabeça. - Ficarão lindas na mesa.
Michelle concordou e encarou Alexander.
- Eu sinto muito pelos trajes. - ele olhou para si mesmo, vestia um pijama confortável e meias hospitalares para evitar o risco de outra trombose. - Se esse cabeçudo tivesse me avisado, eu teria me arrumado melhor.
Michelle o olhou empática.
- Não se desculpe, por favor, estou feliz que o senhor esteja melhor e se recuperando. - ele sorriu agradecido.
- Eu também trouxe algo para o senhor, espero que goste. - Ela tirou uma camiseta tricolor da sacola, do time de futebol que ele era fã.
- É oficial? - ele perguntou, perplexo enquanto %Annie% estendia a mão para segurar para o pai. - Estava esgotada no site.
- Digamos que eu tenho alguns contatos. - ela riu, e Alexander sorriu como podia.
%Annie% sorriu ao ver o brilho nos olhos do pai.
- E %Annie%, - Michelle tirou mais uma coisa da sacola. - Joe me disse que você pode comer doce então trouxe torta de limão, é a sua favorita, não é?
%Annie% sentiu a boca salivar ao ver a torta na sua frente.
- Com merengue? - ela segurou o pacote de torta e concordou com a cabeça. - Obrigada, Michelle! - a mais nova cunhada sorriu de leve. - Você pode se sentar naquela parte do sofá, é a mais confortável.
%Annie% arrancou uma risada da família e outra um pouco contida de Michelle, que foi levada por Joe até o sofá.
- Se você quiser ir para a cozinha, Michelle, fique à vontade. - Sandra disse depois de Alexander se sentar no sofá. - Vou ajudar o meu marido a comer e depois posso me juntar a vocês.
- O meu pai ainda não consegue comer na cozinha e nem sozinho. - Joe explicou.
Michelle encarou o casal mais velho, embora Alexander já estivesse com a cor do rosto quase ao normal, ele ainda parecia cansado e debilitado, levemente inchado na cabeça.
Ela então encarou o namorado, que a olhou esperando uma resposta.
- Então eu me junto a vocês na sala. - ela disse simplesmente.
O sorriso de Joe aumentou, ele olhava maravilhado para a namorada e prontamente levantou para pegar o prato dela.
%Annie% foi junto, levando a torta enquanto o irmão levava o vaso de flores até a cozinha.
A comida de Joe cheirava tão bem que o estômago de %Annie% roncou assim que sentiu o cheiro do salmão assado.
Eles não falaram nada mas ao olhar para o irmão, %Annie% pôde ver algo que não via nele há muito tempo: felicidade.
E foi por isso que ela afagou as costas dele como um mudo sinal de que tudo estava bem e que ele não precisava se preocupar.
Quando voltaram para sala, %Annie% se prontificou a ajudar o pai a comer, mas Sandra foi categórica com ela, dizendo que faria aquilo e que a filha poderia ir comer antes que passasse mal.
Com todos devidamente com seus pratos para saborear a comida de Joe, exceto a mãe que garantiu que comeria após ajudar o marido, eles engataram em mais uma breve conversa.
O clima da casa estava agradável e %Annie% revezava o olhar entre Michelle e Joe, estava curiosa demais para controlar a língua.
- Eu sei que todo mundo quer saber, então eu vou perguntar. - ela disse depois que o assunto acabou e olhou para Joe, e depois para Michelle. - Como vocês se conheceram?
Ambos se entreolharam e sorriram, inundados pela memória.
Todos os pratos já estavam vazios e sobre a mesinha de centro.
- É uma história um tanto quanto engraçada. - Joe começou.
- E romântica. - Michelle levou uma mão para afagar o braço de Joe, um gesto discreto, mas que passava segurança a ele.
%Annie% encarou os dois com expectativa, assim como os pais.
- Eu sou arquiteta, bom, agora na verdade eu trabalho mais com design de interiores, mas eu sou formada em arquitetura. - ela explicou. - Eu estava saindo do metrô, tinha acabado de visitar um cliente e estava chovendo muito, e ventando demais também então estava difícil me manter firme no chão com o salto alto que eu tive que usar. - ela riu, negando com a cabeça. - Meu salto acabou prendendo no bueiro e eu não conseguia sair, agora imaginem a cena patética: eu segurando um guarda-chuva, a minha bolsa e a minha pasta enquanto tentava tirar o meu salto do bueiro, lutando contra a chuva e o vento.
Joe riu contido e %Annie% sorriu, a voz de Michelle era tão serena que ela se sentiu imersa na história.
Conseguia imaginar a cena perfeitamente.
- Foi quando Joe apareceu. - ela o encarou, os olhos brilhando. - E como o cavalheiro que é, colocou um guarda-chuva ainda maior em cima de mim e me ajudou a sair.
- Só que não foi tão fácil assim. - ele lembrou, sem desviar os olhos dela. - Eu estava tentando não segurar a perna dela porque eu respeito as pessoas mas o salto não saía de jeito nenhum então eu fui obrigado a puxar a perna dela, deu certo só que ela acabou caindo em cima de mim.
- Era isso ou eu acabar perdendo o resto da minha dignidade e voltar pra casa descalça de um pé!
Eles riram em sintonia e encararam a família %Madden%, Sandra olhava com um sorriso orgulhoso enquanto Alexander segurava a risada, já %Annie% encarava os dois como se estivesse vendo uma cena de Dorama.
- E depois? - o pai perguntou, curioso.
- Eu disse a ela que daria uma carona pra casa, eu estava com a picape do exército na frente.
- Mas eu relutei, não sabia se ele era um psicopata ou algo do tipo. - Michelle colocou a mão na testa, com vergonha.
- Só que não adiantou muito porque nós dois estávamos encharcados e sujos.
- Acabou que eu cedi e nem lembro em que momento trocamos o telefone. - ela franziu a testa, encarando o namorado.
- Você não disse que era do exército, filho? - Sandra perguntou.
- Não deu tempo, mãe! - ele respondeu. - Eu estava com a cabeça na lua por causa da cirurgia do pai que até esqueci.
- Espera. - %Annie% falou. - Isso aconteceu na noite em que saímos do hospital?
Joe concordou com a cabeça.
- Que eu te deixei em casa e eu estava indo para o QG. Nem fardado eu estava.
- Eu só descobri que ele era do exército depois de alguns dias.
O queixo de %Annie% caiu. Era muito recente mas do jeito que eles se olhavam era como se estivessem juntos há anos.
Tinha uma sintonia ali fora do normal.
- Você não ficou se vangloriando do fato de ser um soldado pra ela? - ela cruzou os braços, na dúvida.
Aquilo era tão típico dele. Joe vivia fazendo isso no ensino médio, quando era meia do time de futebol.
%Annie% ainda se lembrava como todas as colegas de sala suspiravam ao vê-lo passar com o uniforme do time, ele se sentia a última bolacha do pacote.
- E eu precisava disso? Olha só pra mim. - ele fez cara de metido, arrancando risadas de todo mundo.
%Annie% e Joe então começaram uma disputa saudável e fraternal. Michelle observava com um sorriso contido enquanto os pais se divertiam.
Pouco depois, Alexander anunciou que iria se retirar considerando que seus remédios ainda o deixavam um pouco grogue e Sandra o ajudou, ambos se despediram e deixaram os filhos fazendo companhia a Michelle.
Joe respirou fundo e acariciou a mão da namorada.
- Parece preocupado, o que foi? - %Annie% perguntou ao ver a sobrancelha franzida do irmão.
O olhar turbulento não passou despercebido por ela.
- Eu estava achando um jeito de falar com a mãe e o pai. - Ele começou. - Eu vou ter que viajar.
%Annie% o olhou temerosa.
- A trabalho. Querem que eu treine mais recrutas no oeste do país. - ele coçou a nuca e %Annie% encarou Michelle, ela estava tão séria quanto o namorado.
- Você não parece feliz. - %Annie% constatou.
Era uma oportunidade única, em tanto tempo de carreira aquela era a primeira vez que ele poderia ter uma promoção à vista, considerando que sair do front não foi bem uma promoção e sim mais um remanejamento.
- Não é o melhor momento. - ele lembrou. - O pai precisa fazer fisioterapia, manter as consultas com o médico e fora os remédios que ainda deixam ele fraco. E tem você e a mãe.
%Annie% o olhou compadecida de sua preocupação. Ela entendia os motivos dele.
- Eu sei, Joe, mas não parece que é uma oferta que você pode recusar.
- Não é uma oferta, é uma ordem. - ele respondeu a contragosto.
%Annie% respirou fundo. Realmente o timing não era o melhor, mas se não tinha escolha, o que poderiam fazer?
- Então eu acho que está na hora de eu tirar a minha carteira de motorista. - ela deu de ombros.
- Você só está esquecendo de um detalhe. - ele apontou para a barriga dela.
- Tô grávida, não tô doente. - ela cruzou os braços como uma criança de cinco anos.
- Só que você sozinha não conseguiria andar com o pai por aí. - ela abriu a boca para retrucar, mas Joe continuou - Ia levar tempo pra tirar a sua carteira e eu viajo essa semana.
%Annie% sentiu o queixo cair. Tão repentino?
- E quanto tempo você vai ficar? - perguntou, já temendo a resposta.
Agora %Annie% entendia por que o irmão estava tão relutante. Era tempo demais. Rápido demais.
Não gostou daquela história, no fundo sabia que tinha algo a mais.
- Eu tenho uma saída pra isso. - Michelle falou, sutilmente, fazendo os dois encará-la. - Eu posso levar o seu pai sempre que puder.
- Escutem. - ela interrompeu os dois. - Eu trabalho em casa, tenho um horário flexível e posso ajudar. Não só posso, eu
quero ajudar.
O tom de Michelle era firme e convincente, foi por isso que os irmãos se encararam conversando silenciosamente.
- Só se não te atrapalhar. - %Annie% disse por fim.
- Eu faço com muito gosto. - respondeu.
Joe levou uma mão até o queixo dela, fazendo-a encará-lo profundamente.
- É por isso que eu não resisto a você. - ele disse antes de aproximar o rosto e beijar a namorada de forma suave.
%Annie% desviou o olhar, tímida por ver aquela cena íntima e também para dar um pouco mais de liberdade ao casal.
Então o olhar dela se perdeu em um ponto fixo no chão da sala, lembrando da época em que ela estava tão apaixonada como o irmão parecia agora.
Se perguntou se era daquele jeito que ela e %Ryan% demonstravam ser na frente das pessoas, devotos um ao outro, exalando confiança e companheirismo.
Sentiu falta daquilo. Daquela sensação de ter alguém com quem contar, alguém que a segurasse e a fizesse garantir que tudo ficaria bem.
Ela negou com a cabeça para afastar aqueles pensamentos e ao ver como os dois estavam tão perdidos um no outro, decidiu sair para que ficassem mais confortáveis.
%Annie% foi para a cozinha e ao notar que não era mais vista, colocou a mão na barriga enquanto seus olhos enchiam de lágrimas.
Não deveria sentir falta dele, não mais. Mas ainda sentia. Parecia que aquele vazio nunca seria preenchido.
Ela olhou para a barriga e acariciou.
- Parece que é a minha vez de ser seu porto seguro.
Suspirou. Agora não tinha ninguém mais importante do que Angelina e se ela tivesse que espremer seu coração para que a coragem falasse mais alto, então era isso que faria.
Mesmo que isso signifique ela se tornar mais fria.
- %Annie%, não come toda a torta. Eu quero um pedaço!!
[...]
Acendeu o cigarro despretensiosamente enquanto encarava a cena de guerra bem na sua frente, uma voz ao seu lado tagarelava desculpas esfarrapadas e mesmo assim seu semblante continuava rígido do mesmo jeito que estava desde que entrou no lugar. Não demonstrava a fúria que sentia, embora seus olhos mostrassem exatamente o redemoinho de emoções que passava.
Nem ao menos demonstrou nojo ao sentir o cheiro dos cadáveres se decompondo com insetos rodeando.
Esperou a figura ao seu lado usar a frase que estava esperando
‘eu não imaginei’ e quando escutou, virou-se devagar.
- Cala a boca. - ordenou em um tom frio que foi prontamente obedecido. - Foi por isso que eu mandei você instalar câmeras nessa pocilga. Porque era óbvio que viriam atrás da
cobaia.
Deu um trago e abriu os braços, apontando para os corpos.
- Esses idiotas estão mortos há meses, seu energúmeno. - constatou e a outra figura engoliu seco.
Achava até engraçado como homens que bancavam bandidos poderosos tremiam como garotinhas na sua frente.
Só que hoje não tinha motivo para rir.
Respirou fundo e sem controlar a voz, berrou.
- O sinal que manipularam para que fosse enviado toda semana como você mandou que esses imbecis fizessem? - perguntou, rindo ironicamente e se aproximou do homem que se manteve em silêncio. - Usa o único neurônio que tem na sua cabeça. - usou o dedo da mão livre para forçar contra a cabeça do homem, quem sabe assim ele pensasse direito. - Fizeram uma força tarefa para resgatar a cobaia, mataram seus subalternos e ainda continuaram mandando o sinal do GPS para que você, seu idiota, pensasse que estava tudo bem.
Era tão óbvio e pior, tinha avisado que aquilo aconteceria. Tinha uma joia raríssima demais em suas mãos, naquele galpão afastado do mundo e no final de uma rua abandonada, antes que ao menos pudesse finalmente olhar para a cobaia, a resgataram.
Agora estava de volta à estaca zero.
- Chefe, isso não vai mais acontecer… - levantou a mão para que o homem ficasse em silêncio e virou-se de costas.
Terminou seu cigarro em um silêncio aterrorizante enquanto observava os corpos.
Uma equipe bem treinada e esperta tinha entrado ali, em um lugar que tinha feito questão de que fosse impossível de rastrear.
Era por isso que não podia mais confiar seu trabalho a terceiros, todos eram burros. Não entendiam o que estava fazendo ali.
- Eu vou achar a cobaia novamente. Eu já fiz isso uma vez, faço de novo. - falou mais para si. - Você pelo menos conseguiu descobrir de onde veio o sinal?
- Hã, na verdade, sim. - respondeu em pânico e confuso também. Quando não obteve resposta, entendeu o sinal. - Estava há 100 metros da sua casa.
Levantou a sobrancelha, sua cabeça já começando a criar teorias e planos.
Estavam querendo brincar então?
- Sabe, de uma coisa você está certo. - jogou fora o cigarro e pisou em cima, olhando para seus próprios sapatos escuros esmagando-o. - Isso não vai acontecer novamente.
Olhou para o homem que concordou com a cabeça, abrindo a boca para dar mais uma desculpa esfarrapada.
- Porque você não estará vivo para isso. - finalizou dizendo e antes mesmo que o homem entendesse, levantou a arma e apertou o gatilho.
A mira perfeita acertou o meio da testa do homem que caiu em um baque alto já sem vida.
Coçou a testa com a mão livre. Olhou o ambiente, cheio de corpos e sua cabeça latejou ao pensar no trabalho que teria para trazer a gasolina que estava no porta malas de seu carro para queimar aquele lugar e não deixar rastros.
Foi então que riu diabolicamente e começou a sair dali.
Quem iria se preocupar em achar um bando de vagabundos sem parente ou amigos?
Até porque, quando encontrassem aquele lugar e aqueles corpos, todos os bichos já teriam terminado o seu serviço.
Agora tinha um assunto muito mais importante para resolver.
[...]
A presença de Michelle não supria a falta que Joe fazia para a família %Madden%, mas foi a âncora que precisaram nas últimas semanas.
Ela se fez presente e de forma tão natural que em certo momento a família já a considerava de casa. Sandra até propôs que ela ficasse no quarto de Joe enquanto ele estivesse viajando, para que ela não precisasse ir e vir o tempo todo, ajudaria também com o trabalho dela. Michelle aceitou e passou a ser um membro oficial da casa.
%Annie% gostava de Michelle, ela era uma mulher forte, decidida e independente. Tinha muito em que se espelhar nela.
Ela até mesmo ajudou %Annie% a ir em suas consultas semanais no médico, o que foi ótimo considerando que %Annie% ainda tinha receio de sair de casa sozinha por causa do assalto, e embora não tenha contado a sua história para a cunhada, era previsível que o irmão tivesse comentado já que ela nunca perguntou nada. Mesmo que os olhos atentos pareciam perguntar silenciosamente o que %Annie% não tinha coragem de falar.
Em um piscar de olhos o tão temido evento da alta sociedade havia chegado e com ele indicava que o natal seria em apenas 5 dias, deixando %Annie% com um frio na espinha que ela não conseguia identificar se era bom ou ruim.
Major havia enviado uma mensagem avisando que chegaria às 18h em ponto mas eram quase 16h e ela sequer tinha tomado banho ainda.
Não era só porque não estava com a menor vontade de ir mas porque naquele dia em específico Alexander estava com dor. Embora a fisioterapia estivesse ajudando o suficiente e os remédios estavam diminuindo gradativamente a dosagem, os pontos recém-fechados na cabeça ainda doíam.
Principalmente quando o clima mudava drasticamente como naquele dia.
%Annie% até cogitou trocar a roupa que havia comprado para aquele evento, o vestido vermelho parecia aberto demais para a brisa gelada que estava fazendo e a chuva forte que caía. Porém ao perceber que não tinha nada melhor do que aquilo para vestir, optou por seguir com o mesmo plano.
- O senhor tem certeza de que está bem? - ela perguntou pela quinta vez ao pai, observando-o com atenção deitado na cama.
Ele tinha os olhos fechados e o braço apoiado na testa para inibir um pouco da luz que irritava seus olhos.
- Eu acho melhor eu ficar em casa e…
- Não. - ele respondeu baixo, mas firme, abriu os olhos e viu %Annie% abrir a boca para rebater. - Filha, você fica em casa todos os dias por minha causa, se tem uma oportunidade de sair por poucas horas, eu prefiro que você aproveite.
- Filhota. - %Annie% se calou com a forma carinhosa que ele a chamou. - Vá se divertir. Por mim.
Ela respirou fundo, se dando por vencida.
Foi se arrumar sem tentar argumentar novamente, mas não fez nada muito elaborado, colocou o vestido e um scarpin nem tão alto que Mia havia emprestado, fez uma maquiagem bem simples e caprichou um pouco mais no delineado. Colocou seus brincos e deixou o cabelo recém lavado solto, não estava com paciência muito menos tinha cabeça para tentar fazer um penteado mais elaborado.
Parou um tempo em frente ao espelho encarando e acariciando a barriga, ainda faltava muito para ficar redondinha e grande, mas se colocasse uma roupa mais apertada ficaria visível. O que não era o caso daquele vestido ainda, se o usasse no mês que vem com certeza ficaria diferente de agora.
Sorriu de leve enquanto conversava mentalmente com Angelina, não precisava de mais nada quando a filha estava ali.
Quando estava guardando tudo na pequena bolsa que levaria, viu que o Major mandou mensagem avisando que chegaria em poucos minutos. Pontual, como ele havia avisado.
Se apressou para se despedir dos pais que estavam no quarto do casal depois de ter passado perfume, assim que desceu para o primeiro andar Michelle estava subindo com a garrafa de água de Alexander.
%Annie% sorriu nervosa para ela que a olhou cúmplice.
- Fica tranquila, eu cuido deles. - Michelle garantiu antes que %Annie% pudesse abrir a boca para falar qualquer coisa.
Ela sabia disso, confiava na cunhada. Aliás, essa nem era a sua preocupação.
Ela riu baixo em resposta. Estava com uma vontade louca e repentina de furar com o Major, só de imaginar o evento chato em que estaria e como iria preferir ficar em casa. Não queria ir.
Porém, respirou fundo. Tinha que fazer aquilo de um jeito ou de outro, melhor que fosse agora.
- Se você precisar de qualquer coisa…
- Eu sei. - a cunhada sorriu de leve. - Eu te ligo no mesmo minuto.
%Annie% concordou com a cabeça e se despediu, saindo da casa com as chaves na mão no mesmo instante em que Major estacionava o carro na frente de sua casa.
Engolindo seco ela esperou que ele parasse o carro e estava pronta para entrar, se ele não tivesse descido antes.
Ela não se lembrava da última vez que tinha visto o Major sem a farda, então vê-lo de terno cinza escuro foi uma grande surpresa.
Ele quase poderia passar despercebido como um civil comum, se não fosse por seu porte físico. Um homem alto daquele chamava a atenção em qualquer lugar.
Entretanto, ela não foi a única. Major a olhou de cima a baixo, mesmo simples estava elegante o suficiente para fazer qualquer homem suspirar. Do jeito que ele precisou se controlar para não fazer.
Só que mesmo assim o largo sorriso dele não pôde ser contido.
- Você está linda! - ele disse assim que se aproximou dela.
- Obrigada. - apertou a bolsa ainda mais.
É, ela ainda não conseguia se acostumar com a intensidade dos olhos dele, não quando a atenção era voltada inteiramente a ela.
- E você acertou a cor. - falou enquanto mexia no bolso da calça, fazendo-a franzir a testa. - Vai combinar com isso.
Ele tirou a caixinha preta de veludo e ela prendeu a respiração, mas o queixo só caiu quando ela viu o anel que tinha um diamante vermelho bem grande.
Ela duvidava que aquela fosse uma joia falsa, uma simples bijuteria como o brinco que usava.
Abriu a boca para falar, mas tudo o que fez foi gaguejar.
Tinha esquecido que o combo daquele noivado falso também incluía o anel.
- Posso? - Major perguntou, apontando com a cabeça para a mão dela.
%Annie% engoliu seco e estendeu a mão receosa, principalmente porque ainda usava o anel que %Ryan% havia dado e ele estava ali solitário e visível para a atenção do Major.
Ela desviou os olhos e perdeu a expressão magoada e ressentida de Walker ao encarar o anel no dedo dela.
Ela não iria tirar aquele anel tão fácil, mas tudo bem, ele esperaria o tempo que fosse.
- Eu gostaria que fosse em circunstâncias diferentes. - ele estendeu a mão livre para pegar a de %Annie%, que travou o maxilar quando a palma gelada tocou a dela. - Que eu estivesse fazendo isso na frente dos seus pais, com a aprovação deles. - deslizou o anel pelo dedo de %Annie% e embora a sua vontade fosse arrancar o outro que estava ali, ele apenas respirou fundo, vendo o contraste dos dois. - Mas só de ver como combinou com você, é o suficiente pra mim.
%Annie% respirou fundo e olhou para a própria mão que ele ainda segurava, as duas alianças em seu dedo traziam mais do que realmente representavam. Eram as provas de como a sua vida tinha virado de cabeça para baixo desde então.
De uma %Annie% que ela já foi, e de uma que ela estava sendo obrigada a ser.
Olhou com tristeza para a aliança que %Ryan% havia dado a ela, só se lembrava daquela noite mágica em que estiveram nos braços um do outro pela última vez. E dessa vez, lembrar disso doía.
Doía porque ela sabia que nunca mais teria momentos como aquele.
Ela piscou algumas vezes para afastar as lágrimas e forçou um sorriso enquanto afastava a mão, perdendo o contato gelado com a de Walker.
- Você não precisava ter gastado… - ela começou, sentindo o anel pesar mais do que realmente pesava.
- Não gastei nada, na verdade. - %Annie% o encarou curiosa. - Era da minha mãe. Joia de família.
Se %Annie% estava se sentindo um monstro, aquelas palavras do Major tornaram tudo ainda pior.
O coração dela afundou e ela nem ao menos conseguiu esconder a expressão.
Deus, o que ela estava fazendo?
- O que foi, %Annie%? - ele perguntou e %Annie% se questionou se ele estava se fazendo de bobo ou não tinha realmente entendido.
- É que… - ela coçou a nuca, incomodada. - Eu vi uma notícia sua, você estava numa joalheria. - falou rápido demais.
Era melhor mudar de assunto antes que sua razão falasse mais alto e ela desistisse de uma vez.
Ele riu, divertido. Não sabia que %Annie% ficava lendo coisas sobre ele na internet.
- É verdade, eu estava disposto a gastar, mas nenhuma daquelas joias pareciam a sua altura. - ele deu de ombros.
Ela não desviou os olhos, ele não só parecia falar sério como soou verdadeiro.
Pigarreando, ela decidiu não responder nada porque simplesmente não tinha o que falar.
Nem ao menos queria uma nova aliança, quem dirá uma joia.
Mas não iria contrariá-lo, afinal era o início daquele teatro que tinha se colocado.
De repente, sentiu as pernas tremerem e o coração palpitar só de lembrar o que estavam prestes a fazer.
Como é que ela iria convencer a todos que estava com o Major se nem ela conseguia acreditar naquilo?
Como iria agir normalmente quando a nova rubi em seu dedo parecia estar no lugar errado? Com a pessoa errada?
Aquela fantasia parecia fácil demais na ficção, mas na realidade ela estava se sentindo a pior das pessoas.
- Então, vamos? - Major estendeu o braço, despertando %Annie% de seus devaneios que concordou em silêncio.
Ele colocou a palma da mão na cintura de %Annie%, que conteve o pulo de susto, e foram para o carro.
Ele foi cavalheiro e a ajudou a entrar no lado do passageiro e fechou a porta enquanto %Annie% colocava o cinto, assim que Walker entrou do outro lado e o carro deu a partida, %Annie% respirou fundo agarrando a bolsa em seu colo.
- Os meus pais pediram para te convidar para a ceia de Natal. - ela disse depois de um tempo em silêncio. - Se você não tiver compromisso, é claro.
Ainda lembrava da conversa que tivera com os pais logo depois de Joe viajar. A casa vazia era uma ótima desculpa para chamar o Major, além do fato de que ele era noivo dela, ou seja, parte da família.
- Agradeça o convite por mim, infelizmente não estarei no estado nesta semana.
%Annie% levantou as sobrancelhas, surpresa.
- Não, vou a trabalho, tenho uma reunião com alguns generais para discutirmos sobre a Lei Marcial. - o tom de Walker se tornou duro e %Annie% sentiu um frio na espinha.
Com tudo o que aconteceu nos últimos tempos, ela nem ao menos tinha se lembrado disso.
- Não foi instaurada, né? - perguntou, apoiando a cabeça no banco.
Aquele assunto dava enxaqueca.
Major negou com a cabeça.
- O presidente estava receoso quando… - ele parou e a encarou de relance, escolhendo as melhores palavras enquanto %Annie% o olhava de rabo de olho sem uma expressão definida. -
Naquele dia. É complicado, com a Lei Marcial vários setores da sociedade serão prejudicados.
- Mas…? - %Annie% instigou. Sentia que tinha algo a mais.
- Parece inevitável. - explicou. - Quando a guerra começou, há quase três anos, o que poderíamos fazer era chamar os reservistas e atrair voluntários.
%Annie% se lembrava disso vividamente, principalmente porque Joe tinha se voluntariado no lugar do pai que era reservista há anos quando fez seu alistamento obrigatório ainda jovem.
- Mas as questões políticas e o cotidiano das pessoas continuaram mesmo com as invasões. Lidamos com isso, muito bem aliás, só que agora…
- É diferente. - ela concluiu quando viu que Walker deixou a frase no ar.
- Sim. Ele não quer que tenha toque de recolher, ou que as eleições sejam adiadas para depois porque não temos certeza de quanto tempo a Lei Marcial ficará em vigor. Pode demorar meses ou anos. Isso iria implodir o país de um jeito que talvez não tenha volta.
%Annie% engoliu seco e olhou para a rua, pensativa.
Nunca tinha estendido esse assunto por tanto tempo, claro que conversava com o pai sobre já que eram apenas leigos e suas opiniões não iriam mudar a realidade, só que agora ela conversava com alguém que não só entendia do assunto como vivia ele todos os dias.
- Walker. - ela chamou a atenção dele que apenas a encarou rapidamente antes de voltar a atenção a rua. - O quão ruim é a situação?
Era uma pergunta que ela sempre quis ter feito a %Ryan% mas sabia que ele nunca responderia por dois motivos: para não a preocupar e porque não tinha autorização.
Mas Walker parecia disposto a conversar com ela sobre aquilo. Se ele estava disposto, então talvez pudesse ser mais claro e objetivo.
Ela queria respostas, mais do que antes. Porque na verdade não estava inserida no problema como agora. Quando decidiu dar uma chance ao Major há tempos, as coisas não pareciam tão complicadas como estavam agora.
Ela o observou, percebendo que ele media as palavras com ela.
- O bastante para que outros países comecem a intervir.
A resposta foi o suficiente para deixá-la em silêncio, %Annie% não era burra e sabia o que isso significava.
Sanções.
Era isso que o Major queria dizer quando falou sobre setores da sociedade serem prejudicados. Tudo podia piorar.
Ela não fazia ideia de quantas pessoas deram suas vidas por isso, ela tinha sido afetada de todas as formas por causa da guerra, afinal tinha perdido a pessoa que mais amava, mas de um jeito ou de outro aquilo tinha que acabar ou sabe-se lá quantas sobrariam daquele caos.
Se é que iria sobrar alguém.
O clima no carro ficou ainda mais pesado.
Agora, %Annie% parecia alcançar a gravidade daquele enorme problema. Quando reencontrou %Ryan%, nem se preocupava com isso, parecia tão pequeno comparado a felicidade que sentia e depois durante seu luto, parecia que estava em órbita em relação a situação do país em que vivia.
Nem sequer se importava, perdida demais em sua própria dor.
Ela se sentia inserida nisso agora, mais do que sequer imaginava.
O resto do caminho foi silencioso, %Annie% até queria perguntar o que Major realmente achava de tudo aquilo, mas não teve coragem pois estava ocupada demais se preocupando com o seu próprio futuro.
E tudo pareceu ficar ainda mais preocupante quando Major estacionou o carro na frente do salão de festas chiquérrimo. Era uma cena típica de novela, os carros caros parados em frente a enorme fonte que ficava na entrada do salão prontos para serem retirados dali pelos manobristas que vinham abrir as portas de ambos os lados.
A atmosfera daquele lugar gritava luxo e riqueza, %Annie% podia ver aquilo através dos convidados que desciam dos carros e ela sentiu uma onda de nervosismo se apossar de seu corpo.
Ela já imaginava que iria se sentir menor perto daquelas pessoas, estava tentando trabalhar seu cérebro a não se rebaixar perante a presença dos demais convidados mas não tinha como não se sentir deslocada, ela não pertencia a aquele lugar.
Um dos manobristas abriu a porta para ela e estendeu a mão para ajudá-la a sair do carro.
- Boa noite. - ela retribuiu com um sorriso educado e ficou confusa quando o rapaz pareceu surpreso por ela ter respondido.
Parecia até que isso nunca tinha acontecido antes.
Antes que ela pudesse ao menos pensar, Major apareceu na sua frente abotoando o paletó e estendeu o braço para ela que o envolveu com o seu braço livre, que não segurava a bolsa.
- Pronta? - ele perguntou, observando-a.
Ela sentiu um frio na espinha e concordou com a cabeça nervosa, sem ter forças para falar ou então Major provavelmente perceberia que ela não se sentia pronta coisa nenhuma.
Ele a conduziu para a entrada, assim como os demais convidados, e %Annie% começou a se perguntar onde estavam os paparazzis porém teve a sua resposta quando entrou no salão.
Não eram paparazzis, mas sim fotógrafos profissionais contratados para aquele evento, ela mal conseguiu admirar o enorme salão já que flashes a cegaram momentaneamente.
- Major, uma foto, por favor. - um deles pediu e Walker parou onde estava. - E a senhorita…?
- %Annie%, minha noiva. - ele respondeu simplesmente, fazendo com que flashes fossem disparados no mesmo momento em que um coro de ‘oh’ era pronunciado pelos fotógrafos.
Ela respirou fundo e tentou sorrir para uma das câmeras, mas ela estava assustada com tantas pessoas em cima deles. Walker acariciou a mão dela que agarrava o braço dele com força, fazendo-a encará-lo rapidamente.
Ele tentou passar um pouco de conforto para ela mas não foi o suficiente, a palma da mão dele continuava gelada e mesmo que estivesse fazendo um carinho sutil ainda assim não a fez acalmar o coração.
Vendo que era o bastante, Walker a levou para o hall principal, bem longe dos fotógrafos da entrada e foi então que %Annie% pôde ter uma ampla visão do local.
Estava cheio, como Mia havia previsto era um coquetel. Com mesas altas e sem cadeiras para sentar-se, os garçons já passavam pelos corredores com as bandejas de bebidas e a decoração era elegante, bem como todos os convidados que conversavam de forma discreta enquanto uma música ambiente soava pelo hall.
Ela conteve uma cara feia ao perceber que pelo menos ali não iria achar um bom lugar para sentar e continuar sendo a introvertida que era. Teria que socializar.
Major a levou para cumprimentar algumas pessoas que pra ser sincera, ela nem ao menos decorou os nomes, apenas sabia que eram pessoas importantes. Diplomatas, magnatas, empresários… todos com sobrenomes conhecidos e influentes.
E com cada pessoa que falava, ela sentia os olhares curiosos. Major a apresentava como noiva e eles eram educados o bastante para não perguntarem como e porque ela nunca tinha sido apresentada antes nas festas, só que ela sabia que era exatamente esse o questionamento que faziam silenciosamente.
Na verdade, os detalhes importantes daquela
relação entre os dois não tinham sido discutidos. Por isso que %Annie% deixou que Major falasse o que quisesse, ele sabia como conduzir aquela situação melhor do que ela. E pouco importava a versão que ele diria aos outros.
Continuaria sendo mentira de qualquer jeito.
Se ele quisesse inventar que tinha salvado %Annie% enquanto montava um cavalo alado, ela apenas iria concordar com a cabeça sem paciência para inventar alguma coisa ou argumentar.
Não tinha passado nem uma hora ali e já estava com dor de cabeça, nem os sucos que tinha tomado tinham aliviado a tensão que sentia.
- Jason, que surpresa vê-lo aqui. - uma voz feminina chamou a atenção de ambos assim que ficaram sozinhos em uma mesa um pouco mais afastada.
%Annie% virou a cabeça para encarar quem quer que fosse e seu queixo caiu.
- Liz, como está? - Walker iria cumprimentar com um beijo rápido na bochecha dela, se ela não tivesse abraçado-o de forma íntima. - Deixe que eu apresente a minha…
- Noiva. - ela interrompeu com um sorriso ligeiramente amargo, que não passou despercebido por %Annie%. - A festa inteira está comentando sobre vocês dois. - ela analisou %Annie% de cima a baixo, deixando-a desconfortável. - É um prazer conhecer a mulher que Walker se custou a apresentar.
%Annie% a observou com atenção. Estava achando aquilo um tanto quanto… interessante e estranho.
- %Annie%, essa é a Liz Fonseca. - Major ignorou o comentário.
- Eu sei. - %Annie% respondeu, estendendo a mão para a mulher que segurou. - Eu assisti quase todas as suas novelas, minha mãe adora o seu trabalho.
Liz sorriu agradecida, ela com certeza estava acostumada em ouvir aquilo, mas %Annie% definitivamente não estava acostumada em conhecer artistas.
Muito menos a atriz mais famosa do país.
Agora seu interesse tinha sido verdadeiramente despertado, estava aí uma novidade que ela não fazia ideia que iria encontrar naquele evento. Walker amigo de uma atriz.
- Agradeça o carinho por mim. - ela pediu e voltou a olhar para Walker. - Eu não esperava que você viesse. Afinal, faz tanto tempo que não nos vemos.
%Annie% observou em silêncio com o seu sinal de alerta ligado, Liz estava inclinada em direção ao Major, ela queria dar toda a sua atenção a ele que por sua vez parecia ligeiramente constrangido.
O modo como ela o olhava era diferente das outras pessoas que tinha conhecido até então, as pessoas olhavam Walker com respeito e admiração, beirava a bajulação na verdade, mas Liz não queria só bajulá-lo.
Tinha um brilho em seus olhos, um no qual não era
só de amizade.
- Surpreendentemente, nem eu. - Walker sorriu brevemente, tentando se aproximar um pouco mais de %Annie% mas Liz estava deixando essa tarefa quase impossível. - Mas achei que seria bom para %Annie%.
Liz olhou para %Annie% de relance e naquela milésima fração de segundos o seu olhar mudou, tinha um pouco de ciúmes ali. Até mesmo inveja.
- Você continua o mesmo, Jason, não mudou nada. Eu senti falta disso. Da gente juntos.
%Annie% não sabia se ficava impressionada ou pasma quando entendeu exatamente o que acontecia à sua frente e uma onda de vergonha tomou conta de si, já era o bastante sentir que era um peixe fora d'água ali naquele lugar, não precisava ver outra mulher flertar com o Major na sua frente.
Porque era exatamente isso que Liz fazia, nas entrelinhas e na forma como a sua voz ficava dócil quando era direcionada a ele.
Carregava sentimento. E era nítido.
Não sabia se ela estava fazendo de propósito, mas claramente parecia já que ela ignorava a presença de %Annie% com um talento nato.
E ela nem poderia dizer que estava incomodada pelo fato de Liz dar em cima do Major na sua frente, na verdade o que estava deixando-a com vergonha alheia era que tinha que presenciar aquilo.
%Annie% olhou para o lado, querendo sumir dali e deixá-los sozinhos. Se ao menos tivesse intimidade com alguém, poderia simplesmente dar uma desculpa qualquer e correr dali.
Pensou em ir até o banheiro, mas não chegou a anunciar pois um homem se aproximou.
- Amor, eu estava te procurando. - ele disse a Liz, beijando sua bochecha enquanto a abraçava pela cintura que ficou espantada.
- Vim cumprimentar o Major e a sua linda noiva, %Annie%. - ela avisou ao mesmo tempo em que os apresentava, fazendo %Annie% levantar uma sobrancelha discretamente. - Vocês conhecem o meu marido, Pietro?
O tom dela mudou drasticamente e %Annie% quis rir.
Ela se sentia ofendida mas não pela mudança de comportamento para com ela ou porque tinha presenciado alguém dar em cima de seu noivo de mentira e sim pelo homem recém chegado que não fazia ideia do que tinha acabado de acontecer ali.
Mais cinco minutos e %Annie% provavelmente teria visto Liz se jogar nos braços de Walker, literalmente.
- Como vão? - ele estendeu a mão para cumprimentar Walker que retribuiu.
%Annie% fez o mesmo, sorrindo educada, mas se manteve calada.
Ela sentia cheiro de um problema mal resolvido que tinha se tornado em um triângulo amoroso.
- Porque vocês não vem para a nossa casa no litoral um final de semana? - Liz deu a ideia, visivelmente animada, e apoiou as mãos no ombro do marido que assentiu. - Temos tanto que conversar.
Ela parecia empenhada em demonstrar carinho com o marido na frente de Walker e %Annie% sabia que era proposital, via isso nos olhos dela.
Então Liz estava querendo fazer Walker sentir o que ela mesma sentia,
ciúmes.
- Claro, seria uma ótima ideia. Não acham? - ele direcionou a pergunta ao Major que apenas encarou %Annie% em busca de uma resposta que não veio.
Encontro duplo? Mas nem ferrando.
- Podemos ir de helicóptero! - Liz sugeriu. - Você já andou de helicóptero, %Annie% querida?
%Annie% a encarou séria. Bom, uma coisa ela precisava admitir, ela era realmente uma ótima atriz.
De repente ela tinha inserido %Annie% na conversa como se não a tivesse ignorado completamente minutos atrás.
Só que %Annie% tinha anos de experiência com o tom venenoso das pessoas da alta sociedade, ela reconheceria qualquer mísera nota de soberba há quilômetros de distância e era exatamente esse o tom que Liz usava com ela.
Disfarçado de simpatia, claro, ela não daria bandeira na frente do marido.
- Não. Eu só andei de ônibus. - respondeu, tentando ao máximo não ser sarcástica.
A resposta teve uma reação inusitada dos três, Pietro segurava uma risada enquanto Major coçava a nuca rindo de lado e Liz… bem, ela parecia estar com dificuldade de manter a máscara de amiguinha.
- Você irá gostar, se não tiver medo. - ela levantou a sobrancelha, fazendo %Annie% respirar fundo.
Ok, agora ela estava começando a irritá-la.
- %Annie% não pode andar de helicóptero. - Major falou alto e imponente enquanto %Annie% abria a boca para responder.
- Ah não? - Liz fingindo uma expressão de choque, até colocando a mão livre no peito. - E por quê?
Aquele tom de falso interesse tinha sido a gota d'água.
- Porque eu estou grávida. - %Annie% respondeu rápido demais.
A reação de Liz foi exatamente a que ela esperava, espanto misturado com mágoa.
Foi o que a fez ficar em silêncio por segundos bem observados por %Annie%, Liz vacilou e seus olhos revezaram entre o Major e %Annie%.
Se ela conseguisse ler a mente de Liz, não ouviria coisas nada boas sobre ela e Walker.
- Que ótima notícia, parabéns! - Pietro sorriu para os dois, completamente aéreo a reação da mulher ao seu lado.
Liz estava petrificada, nem ao menos piscava tentando disfarçar as lágrimas.
- Obrigado. - Major colocou a mão no ombro de %Annie% que embora tenha sentido vontade de repelir, continuou parada encarando Liz que agora a fulminava com os olhos. - Como vocês sabem, existe um certo risco e preferimos evitar.
Pietro e Walker continuaram a conversa sobre helicópteros e gravidez enquanto %Annie% e Liz apenas se encaravam.
Ela não estava ali para marcar território, se Liz quisesse o Major poderia tê-lo à vontade só que ela não seria tratada com desprezo por mais ninguém da alta sociedade de novo.
- Se me derem licença, eu preciso ir ao toalete. - %Annie% disse assim que se cansou do olhar raivoso de Liz sobre si.
Ela precisava de alguns minutos de paz e sozinha.
- Eu te espero aqui. - Major avisou, fazendo-a concordar com a cabeça em silêncio.
Ela saiu dali em passos largos e rápidos tanto quanto podia em cima daqueles saltos, sentindo olhares sobre si que foram completamente ignorados e não foi tão difícil encontrar o banheiro.
%Annie% prendeu um suspiro assim que viu que não era a única a estar ali, uma senhora alta estava parada na frente de uma das pias e as duas mãos tentavam alcançar alguma coisa em suas costas.
- Com licença, a senhora precisa de ajuda? - perguntou em um tom baixo ao ver que a mulher estava tendo dificuldade.
- Por favor, minha cara. - ela apontou, manteve uma mão nas costas enquanto %Annie% se aproximava. - Tem alguma coisa me espetando.
%Annie% analisou o vestido elegante minuciosamente e sorriu de lado ao encontrar o objeto no tecido. Ela tirou com cuidado para não machucar a senhora que se mantinha parada e levantou o alfinete para que ela olhasse.
A mulher virou para encarar %Annie% e pegou o alfinete, negando com a cabeça.
- É o que acontece quando você não pode provar o vestido feito sob medida antes. - ela respirou fundo. - Sabe como é, viagem ocupa muito a nossa cabeça.
%Annie% sorriu amarelo. Na verdade, ela não sabia não.
- Obrigada, minha querida. - ela sorriu contida para %Annie% que concordou com a cabeça. - Finalmente posso andar sem sentir como se uma abelha estivesse me picando.
- A senhora está muito elegante.
A mulher pareceu vacilar por um momento, sendo pega de surpresa. E algo na forma como ela franziu o cenho pareceu muito familiar para %Annie%.
- Você é muito gentil. Aproveite a festa.
Isso ela duvidava que iria acontecer, mas sorriu mesmo assim para a mulher.
- Com licença. - %Annie% disse antes de ir até a cabine para finalmente aliviar sua bexiga.
Ela não tinha se dado conta da quantidade de suco que tinha tomado até ter que fazer xixi.
- Finalmente te encontrei.
%Annie% sentiu a nuca arrepiar ao reconhecer a voz de Cristina %Mackie%, automaticamente parou onde estava, sentada no vaso sem mover um centímetro.
Mas não era possível que nem no banheiro ela ia ter paz.
- Não deveria ter perdido seu tempo me procurando, Cristina. - a senhora respondeu, seu tom de voz mudando drasticamente para um bem mais frio e severo. - Eu acho que isso te pertence.
%Annie% ficou quieta, como se não estivesse ali, nem ao menos respirava direito.
- Você não consegue fazer nada direito, não é? Nem ao menos encomendar um simples vestido para a sua sogra.
O queixo de %Annie% caiu e ela levou a mão até a boca para evitar que o som de seu espanto saísse.
- Como eu poderia imaginar? - A voz de Cristina não parecia mais tão firme.
A senhora riu sarcasticamente.
- Exatamente, esse é o problema. Você nunca imagina, nunca sabe, nunca adivinha. Se não fosse uma estranha muito bondosa que acabei de conhecer no banheiro, eu provavelmente ficaria com esse alfinete nas minhas costas até chegar em casa. - silêncio. Mas %Annie% conseguia imaginar a cara de contrariada que Cristina estava fazendo. - Mas você iria gostar disso, não é? Não duvido que tenha feito de propósito.
- Poupe meu tempo e sua saliva, Cristina. Você pode manter o teatro para o meu filho, ele acredita nisso há quase 30 anos.
%Annie% ouviu os saltos contra o mármore ecoarem até a saída do banheiro e pela forma como Cristina bufou em seguida, imaginou que a sogra tinha deixado-a falando sozinha.
Ela só levantou da privada e deu descarga quando ouviu mais passos saindo do banheiro, tendo certeza que tinha sido Cristina quando abriu a porta e colocou a cabeça para fora, encontrando o banheiro vazio.
%Annie% lavou a mão e encarou o próprio reflexo no espelho. Ela não sabia se estava em choque ou aliviada, uma pequena parte de si estava ligeiramente alegre. Quase poderia dizer que tinha sido vingada.
Quem diria, Cristina %Mackie% também tinha problemas com a sogra. E tinha sido colocada em seu lugar.
Ah sim, e ela também tinha acabado de conhecer a avó de %Ryan%.
Não era como se ela soubesse os mínimos detalhes de cada parente dele, a família %Mackie% não era bem o assunto preferido entre os dois, e particularmente se aquela era a viúva do ex-governador então %Annie% não a reconheceria mesmo.
Desde que o marido morreu, ela tinha se mudado para o exterior para viver na terra de sua família materna.
Piscou algumas vezes antes de secar as mãos, faria de tudo para não cruzar com nenhuma delas e até tentaria convencer Major de irem embora o mais rápido possível.
Ela saiu do banheiro e deu um passo para frente, mas foi parada quando Cristina surgiu do nada em seu campo de visão, bloqueando sua passagem.
- Eu sabia. - falou, rindo maldosa e cruzou os braços. - Eu achei estranho demais uma desconhecida ser tão gentil com a Antonieta, ninguém jamais ousaria falar com ela. - %Annie% engoliu seco e suas pernas não a obedeceram.
Ela deveria sair dali, sabia o que estava por vir e ser insultada por Cristina não era o que queria ouvir. Aliás, nem queria estar na presença dela.
- Você tinha que achar um jeito de vir, no aniversário da avó
dele.
%Annie% quis rolar os olhos. Como se ela realmente tivesse procurado aquela situação.
Ela nem ao menos sabia que aquele evento era para comemorar o aniversário da avó de %Ryan%.
- Eu não tenho por que ficar aqui e ouvir a senhora. - ela respondeu baixo, segurando a bolsa com força e deu dois passos para frente.
- Mas você vai! - Cristina falou mais alto e %Annie% parou, virando para encará-la.
O que mais ela queria de %Annie%? Já não tinha se divertido o suficiente às custas dela?
- Me humilhar vai fazê-la se sentir melhor? - indagou firme.
- Eu nunca vou me sentir melhor. - respondeu, rindo sem humor. - Se o meu filho não tivesse te conhecido, ele não teria tido a ideia idiota de ir ao exército e ele estaria vivo agora!
%Annie% sentiu as mãos formigarem enquanto ódio se instalava em suas veias.
Ela não se cansava daquilo? Jogar a culpa de todas as desgraças do mundo nos ombros de %Annie%?
- Só de corpo. Porque ele estaria morto por dentro. - ela não sabia como estava mantendo a voz sem vacilar. - Casado com uma pessoa que ele jamais amaria sem seu próprio consentimento.
Cristina não esperava que %Annie% a rebatesse por isso demorou segundos para destilar seu veneno.
%Annie% negou com a cabeça, sentindo seus olhos a arderem, mas se recusaria a derramar uma só lágrima. Ainda mais na frente dela.
Não daria esse gostinho a ela.
- Como a senhora pode ser tão egoísta?
Nem se passasse 100 anos ela entenderia tamanha falta de respeito e consideração para com os sentimentos de %Ryan%. Ele não era um objeto, uma simples peça de xadrez.
- E como você pode ser tão interesseira? - Cristina deu um passo à frente, impondo não só sua presença, mas seu status, fazendo %Annie% se sentir minúscula. - Quem foi o imbecil que você seduziu dessa vez?
%Annie% abriu a boca para responder completamente ofendida, se não tivesse sido interrompida.
- Senhora %Mackie% está assustando minha noiva. - Walker apareceu de repente, apoiando a mão no ombro de %Annie% e fazendo Cristina se calar e dar dois passos para trás.
Cristina revezou o olhar entre os dois, visivelmente surpresa e levantou o queixo para tentar disfarçar, já %Annie% abaixava o olhar para conter as lágrimas.
- Por favor, peço que não fale assim com %Annie%. Era prejudicar o bebê.
%Annie% engoliu seco e então levantando a cabeça, os olhos de Cristina encontraram com os dela e foi preciso um mísero segundo para que %Annie% entendesse muito bem.
Cristina estava perplexa e tinha entendido muito bem o que aquilo significava.
Embora a troca de olhares tenha durado pouco tempo, foi o suficiente para mudar drasticamente o comportamento de Cristina.
Ela parecia ter perdido a voz e até mesmo a força, piscando algumas vezes, ela simplesmente saiu dali em passos largos e em um completo silêncio que assustou %Annie%, que encolheu os ombros involuntariamente.
Ela não queria que Cristina tivesse descoberto. Não era hora e muito menos o lugar.
- Você está bem? - Major perguntou, analisando-a.
%Annie% tinha uma expressão vazia no rosto que não indicava o que de fato passava na cabeça dela.
Ela apenas concordou com a cabeça, sem saber a resposta para aquela pergunta.
Parecia que uma bomba tinha sido jogada em sua cabeça.
- Me desculpe, eu sei que não devia ter falado, mas… - Major respirou profundamente. - foi o único jeito que encontrei de fazer com que ela te deixasse em paz.
Ela piscou mais do que deveria para afastar as lágrimas de vez. Realmente, não era direito do Major expor algo que eles nem havia ao menos conversado antes, porém o ocorrido com Liz deu uma brecha e não era como se ela pudesse esconder para sempre.
Uma hora a família %Mackie% descobriria.
- Ela ia acabar descobrindo mesmo. - ela deu de ombros, passando a mão no rosto sem se importar com a maquiagem. - A propósito, por que você veio até aqui?
- Você estava demorando. - ele explicou. - Achei que tinha acontecido alguma coisa grave.
%Annie% levantou uma sobrancelha.
- E se tivesse, você iria simplesmente entrar no banheiro feminino?
Major não respondeu, mas ela enxergou no rosto dele a resposta.
- Eu preciso fazer uma ligação, tudo bem se você me esperar aqui dentro?
Ela concordou com a cabeça. Talvez fosse uma ótima hora para voltar ao banheiro e se trancar ali até irem embora.
- Depois podemos ir embora? - %Annie% pediu, fazendo-o a olhar com a testa franzida. - Estou com dor de cabeça e esses saltos estão me matando.
Não era totalmente mentira, mas ela ainda poderia aguentar mais algumas horas naquele salto, só que ela não queria ficar ali mais nem um segundo.
E ter a infelicidade de encontrar Cristina? Ou até mesmo Liz?
Não, obrigada. Tinha tido o suficiente da alta sociedade por hoje.
- É claro. - ele sorriu de leve. - Eu já volto.
Major saiu rapidamente e %Annie% cedeu os ombros, bufando ao lembrar de que iria voltar para o hall principal.
Ela demorou uns bons minutos respirando fundo e mentalizando que não iria encontrar com ninguém que não quisesse, ela seria a introvertida que era.
Iria observar de longe, sem manter contato com aquelas pessoas que não faziam parte de sua vida enquanto se questionava - e ela mesma daria a resposta - do que raios estava fazendo ali.
Foi exatamente isso o que fez. Evitando até mesmo olhar em direção a família %Mackie%, ela nem ao menos viu que os olhos de Cristina estavam perdidos no nada completamente indiferente a presença do amigo magnata de seu marido bem a sua frente.
Nos primeiros vinte minutos %Annie% até conseguiu, todavia ao perceber que o Major estava demorando demais ela decidiu procurá-lo.
Andou por todos os cantos do lado de dentro do salão e quando não o encontrou, foi para o lado de fora. Acabou encontrando uma sacada ligeiramente grande que cobria o segundo andar inteiro, que quase não estava sendo usado naquele evento, bem de longe ouviu a voz de Walker e se guiou através disso, encontrando- o de costas para ela bem próximo de uma outra porta de vidro.
- Sim, eu sei disso. - Major parou para rir e %Annie% estava prestes a chamá-lo, ela já levantava a mão para tocar gentilmente em seu ombro. - E por que eu diria a %Annie% que eu parei as investigações da morte do %Mackie%? Ela não pode saber.
%Annie% arregalou os olhos e foi como se todo o mundo tivesse parado de girar momentaneamente, sua mão parada no ar se retraiu gradativamente enquanto o chão parecia sumir de seus pés.
Ela deu passos para trás enquanto Walker continuava sua conversa sem se dar conta que ela estava ali, ela tinha sido sorrateira e ele estava ocupado demais falando alto.
%Annie% sentiu o ar lhe faltar os pulmões enquanto de repente o mundo girava em uma velocidade fora do normal, sua cabeça doía e ela estava perdendo não só o equilíbrio como também a consciência, foi o suficiente para que ela tropeçasse e tentasse se apoiar em algum lugar.
Acabou batendo a mão em um vaso que estava em cima da varanda, fazendo-o com que caísse no chão e seus milhares de pedaços chamassem a atenção de Walker que agora virava com os ombros rígidos.
Ao perceber que era %Annie%, sua expressão mudou para preocupação ao vê-la segurar a cabeça de olhos fechados enquanto balançava para cá e para lá.
- %Annie%, o que foi? Você estava… - ele apontou para o celular e deu um passo receoso a frente.
Ela engoliu seco e suas pernas ficaram ainda mais moles.
- Eu não estou passando muito bem. - a voz dela estava tão fraca que sequer passou de um sussurro.
- O que você tem? - ele a segurou pelos ombros e embora seu toque tenha queimado a pele de %Annie%, suas pernas não respondiam. Ela precisava sair dali. - Vamos para o hospital.
Foi tudo o que ela escutou antes de fechar os olhos e sentir o corpo cada vez mais distante.
[...]
%Annie% havia recuperado a consciência assim que chegou na recepção do hospital com Major carregando-a no colo desesperado. A chuva tinha retornado forte e assustadora, tinha molhado os dois quando Walker parou o carro na porta da emergência, a água gelada e a brisa fria tinha feito com que %Annie% acordasse sem saber como tinha ido parar nos braços do Major.
Ela só foi entender direito o que tinha acontecido quando o médico a examinou, o mesmo médico que havia anunciado a sua gravidez, estava um pouco desnorteada e tudo vinha em um turbilhão a deixando ainda um pouco tonta.
Major tinha parado as investigações da morte de %Ryan%.
Ela evitou encarar o Major enquanto o médico realizava a ultrassom, porque não conseguiria esconder a expressão de desgosto, não depois de ouvir ele mesmo confessar que tinha parado de investigar a morte de %Ryan%.
Ela queria respostas? Absolutamente.
Achava o melhor momento para questionar? Com certeza não.
E ela nem ainda tinha considerado o fato dele ter levado-a até o aniversário da avó de %Ryan% sem que ela soubesse.
No fundo ela sabia o que ele diria, %Annie% jamais aceitaria ir até aquele bendito evento se soubesse que era da família %Mackie%. E ele estava certo se chegou a essa conclusão.
- Doutor… - %Annie% falou enquanto colocava o cabelo atrás da orelha, a voz ainda estava fraca. - A minha filha.
O médico sorriu de leve enquanto se afastava, %Annie% estava deitada na maca e Walker estava de pé do outro lado com os braços cruzados e bastante atento.
- Está tudo bem com ela. - garantiu. - Os sinais vitais estão ótimos e a ultrassom indica que ela continua perfeita. Não há com o que se preocupar.
- E a %Annie%? - Walker perguntou, aflito.
O médico revezou o olhar entre os dois.
- Bom, medimos a pressão e ela estava muito alta. - %Annie% sentiu os ombros cederem enquanto agarrava o avental que usava, ainda sentia vestígios do gel em sua barriga. - É possível constatar que você está com hipertensão gestacional.
- Mas isso é grave? - Walker fez a pergunta por %Annie% que tinha ficado em silêncio, absorvendo o que o médico havia dito.
- Existem riscos sim, para a mãe e o bebê, por isso é necessário fazer um acompanhamento. - ele explicou e voltou a olhar para ela. - Como está o seu pré-natal?
- Eu estou fazendo com o médico que o senhor havia indicado. - ela respondeu, ganhando um sorriso discreto dele.
- Ótimo, %Annie%. Eu vou deixar um pedido para a realização de alguns exames. - ele disse enquanto ia para a mesa, escrevendo algo no bloco que estava ali. - São de rotina. - ele respondeu antes que Walker fizesse menção de falar. - Mas essenciais para que o seu médico tenha uma noção melhor. Eu também irei avisar a ele o que aconteceu hoje, para que ele já esteja pronto para a sua próxima consulta.
%Annie% apenas concordou com a cabeça enquanto ele escrevia, assim que terminou se levantou e foi até a %Annie%, entregando o papel.
Ela o segurou e o encarou, visivelmente preocupada.
- Se você não passar nenhum estresse então vocês ficarão bem.
%Annie% sorriu ainda incerta.
Estresse… Sua vida tinha se transformado em uma montanha russa, daquelas que quando você espera parar simplesmente volta todo percurso por trás com uma intensidade maior. Ela não podia prometer que não iria mais passar estresse, porém faria de tudo para que aquilo não acontecesse de novo.
Ela sabia dos riscos e não colocaria a vida da filha em perigo novamente. Tinha dado sorte que nada mais grave aconteceu, mas não pagaria pra ver.
Acabou se lembrando das palavras do médico da última vez que esteve ali.
- Já podemos ir então? - ele perguntou em um tom sério demais, quase de forma rude fazendo %Annie% engolir seco.
- Claro, %Annie% pode se trocar e está liberada. - ele estendeu a mão para ela que segurou. - Se cuida e se precisar, pode voltar a me procurar.
- Obrigada, doutor. - ela agradeceu enquanto apertavam a mão um do outro e ele se afastou assim que %Annie% fez menção de sair da maca, indo em direção a sua roupa e saltos.
Major apenas o cumprimentou com um aceno de cabeça e praticamente escoltou %Annie% para fora enquanto ela segurava o vestido contra seu próprio corpo e os saltos dançavam em sua outra mão.
Ela parou no corredor perto da porta do banheiro, brincando com o tecido do vestido enquanto olhava para o chão.
- Eu vou te esperar aqui fora. - Walker garantiu de forma seca e polida, fazendo-a apenas concordar com a cabeça.
%Annie% colocou o vestido rapidamente e deixou o avental no cesto que estava dentro do banheiro, antes tirou todo o vestígio do gel que o médico havia passado em sua barriga, e depois calçou seus saltos.
Assim que saiu, o Major continuava na mesma posição e no mesmo lugar.
Os braços cruzados, a expressão fria e o corpo rígido. Ela não sabia o porquê dele agir daquela forma, mas sequer ousou perguntar.
%Annie% mordia a parte interna da bochecha e Walker se colocou ao lado dela enquanto caminhavam em direção à saída do hospital.
Ela estava com o olhar perdido, tanta coisa se passava em sua cabeça que ela nem ao menos sabia por onde começar e o que fazer.
Pararam na frente do carro de Walker, que abriu a porta para ela.
Ah caramba… os pais dela.
- Não, por favor. - suplicou e o Major a encarou confuso.
Ela respirou fundo e entrou no carro, fazendo com que ele fechasse a porta com a testa franzida.
Um mudo sinal de que falariam sobre o assunto dentro do carro.
Quando ele entrou do outro lado, ela disparou.
- Eu não posso ir pra casa. Não assim. - ela passou a mão no cabelo molhado enquanto Walker a observava atentamente. - Não quero preocupar meus pais mais ainda. Eles já estão chateados porque o Joe não vai passar o natal em casa, se eu chegar lá hoje desse jeito eles vão… surtar. - explicou.
- Você não vai falar sobre a sua gravidez ser de risco? - questionou e ela retribuiu o olhar.
- Vou, mas não pode ser agora. - ela respondeu prontamente.
Até porque ela teria que omitir metade do que havia acontecido naquela noite. Então a melhor forma para evitar contar sobre, era não voltar para casa pelo menos não hoje.
Ela não mentia para os pais, sempre foi muito próxima deles a ponto de contar tudo, mas a situação agora era outra.
Se eles soubessem metade das coisas que estavam acontecendo, seria perigoso.
Por enquanto, teria que lidar com aquilo sozinha.
- Então eu sugiro que você vá pra minha casa.
Walker falou de forma despretensiosa, dando de ombros enquanto %Annie% arregalava os olhos e gaguejava.
- Eu não sei. - coçou a nuca, desviando o olhar do dele.
Tentou pensar em qualquer outro lugar que pudesse passar a noite, mas não encontrou nenhum. Lynn não tinha voltado, na verdade elas quase não estavam se falando porque %Annie% não queria estragar a lua de mel dela, Michelle estava hospedada em sua casa, Claire não estava na cidade e naquele horário seria impossível contatar qualquer uma das parceiras dos membros da equipe alfa, mesmo que todas elas já tivessem deixado claro que %Annie% poderia procurá-las quando precisasse.
E seria apenas uma noite. Uma única noite. Não queria incomodar ninguém por causa de uma noite.
- Seus pais não vão desconfiar. - ele acrescentou, tentando convencê-la. - Eu te levarei de volta pela manhã, podemos dizer que voltamos muito tarde e achei mais prudente te levar para a minha casa, já que seu pai está se recuperando.
%Annie% ponderou. Era uma ótima desculpa, que os pais provavelmente não iriam engolir, mas era.
O Major era o álibi perfeito.
- Depois você decide como vai contar a eles sobre a sua gravidez.
O tom de voz de Walker era extremamente convincente e %Annie% acabou por ceder, concordando com a cabeça em silêncio.
Convencendo a si mesma que seria apenas aquela noite enquanto o Major ligava o carro.
Ele pegou o caminho contrário do que ela estava acostumada, indo para a parte nobre da cidade, e ela apenas abraçou o próprio corpo observando a paisagem do lado de fora passar como um borrão.
Ela estava cansada, fisicamente e mentalmente, e só não dormiu no carro porque o Major decidiu falar sobre o que ela queria esquecer.
- Você tem certeza que quer dar o nome %Mackie% a Angelina?
%Annie% virou o pescoço tão rápido para encará-lo que fez um barulho.
- Porque diz isso? - perguntou, passando a mão pelo braço gelado.
Major deu de ombros, mantendo os olhos na rua.
- Pela cena que a Cristina fez, acho que ela não vai gostar de dividir a fortuna com a sua filha.
%Annie% ficou em silêncio por um tempo.
Ela também acreditava nisso mas tinha uma parte de si que dizia que Cristina não tornaria a sua vida um inferno como antes, foi isso o que ela sentiu naquela troca de olhares.
Cristina sabia muito bem que %Annie% carregava a filha de %Ryan%.
Agora o que ela faria com essa informação era uma incógnita.
- E o que sugere? Mentir? - %Annie% quase riu sem humor.
Major não respondeu prontamente, parecia receoso, mas quando disse fez com que %Annie% prendesse a respiração.
- Dê o meu nome a ela. Você ficará segura.
Ela engoliu seco, dessa vez desviando o olhar para qualquer lugar que não fosse o rosto esperançoso de Walker.
Ela já tinha se metido em uma mentira que estava puxando muitas outras, só que uma dessa proporção não seria justo com ninguém.
Muito menos com a filha. Nem mesmo com a memória de %Ryan%.
- Não, Major. - ela respondeu firme. - Eu não posso basear a vida da minha filha em uma mentira.
- Eu só quero que você saiba que você tem opções. - ela pôde notar o tom de desapontamento, mas se agarrou a sua razão, que dessa vez dava ouvidos ao seu coração.
Angelina era filha de %Ryan%, nada jamais mudaria isso. Fosse um papel qualquer ou até mesmo a família %Mackie%.
- Eu agradeço. - procurou as palavras certas para não magoá-lo. - Mas eu prefiro que seja assim. Eu posso lidar com a Cristina depois.
Major não disse nada e nem %Annie% estendeu o assunto, virando o rosto para observar o vidro do carro novamente.
Ela sabia que estava fazendo a coisa certa, mesmo que significasse travar uma luta com a família %Mackie% no futuro, mas para isso tinha o advogado de %Ryan%. Ele saberia conduzir a situação melhor do que ela no momento exato.
Sequer pensou muito sobre a breve conversa que tiveram, logo o Major estava estacionando na garagem do apartamento de luxo. Ela poderia ter admirado o subsolo e o elevador que eram bem diferentes do que estava acostumada, mas não estava se importando com isso agora, não quando o sono começava a tomar posse de seu corpo bem como o frio voltava para arrepiar sua pele. Seu cabelo ainda estava molhado e mesmo que Walker tivesse ligado o ar quente do carro, ambos ainda estavam molhados.
Porém, foi quase impossível não observar o apartamento dele assim que ele abriu a porta e deixou espaço para que ela fosse primeiro.
Era exatamente como se poderia imaginar a casa dele, uma cobertura em tons escuros, minimalista e chique. E um tanto quanto gelado.
Até mesmo o lustre na entrada combinava com a figura imponente dele.
A luz estava acesa e uma mulher mais velha estava parada com um sorriso amigável.
- %Annie%, esta é Magda, minha governanta. - Walker apresentou, fechando a porta.
%Annie% sorriu de leve para ela, estava prestes a cumprimentá-la e chegou a dar um passo à frente para isso mas acanhada, Magda apenas a cumprimentou com a cabeça.
Ah é, ela se esquecia da parte que empregados da alta sociedade evitavam contato físico.
Quantas vezes abraçou os empregados da casa da família de Lynn sem querer e ria sem graça ao vê-los chocados.
- É um prazer. - ela disse enquanto abraçava o próprio corpo frio.
Magda concordou com a cabeça e antes que pudesse dizer algo, Walker o fez primeiro.
- Magda, por favor, mostre a %Annie% o quarto de hóspedes. E também, dê a ela roupas secas. - ele ordenou em um tom calmo.
- É claro, senhor. - ela respondeu prontamente e indicou para que %Annie% a seguisse até a escada. - Por favor, senhora.
Ela olhou para Walker que colocava as mãos nos bolsos da calça.
- Obrigada, Walker. - sorriu sincera e ele apenas negou com a cabeça como quem diz que não era nada.
Magda a conduziu até o quarto no segundo andar da cobertura, terceira porta do extenso corredor e assim que entrou seu queixo caiu.
Não sabia nem como descrever aquele quarto elegante, era melhor e maior do que qualquer um dos que já tinha visto em anúncios de hotéis de 5 estrelas.
Ela se sentia minúscula naquele cômodo.
- Caso a senhora queira se aquecer, o banheiro fica nesta porta. - Magda informou, apontando para a porta a direita e %Annie% concordou com a cabeça. - E tem roupas secas no guarda-roupa. - ela apontou para a outra parede do quarto. - Eu ajudo em algo mais, senhora?
Ah sim, tinha uma coisa que ela precisava muito.
- Na verdade, sim. - disse e viu que Magda esperou para que continuasse. - Não me chame de senhora, por favor.
Magda piscou algumas vezes, surpresa.
- Senhorita? - sugeriu, confusa e %Annie% negou com a cabeça.
- Apenas %Annie% ou você. - pediu com gentileza, sorrindo em seguida.
- Como a senhora… - %Annie% levantou a sobrancelha. -
você quiser.
- Obrigada. - agradeceu não apenas por ter trazido-a até o quarto.
Magda saiu rapidamente do quarto e %Annie% foi até o banheiro, precisava de um banho urgente antes que ficasse doente. E como todo o quarto, o banheiro era igualmente grande e luxuoso só que pelo cansaço sequer aproveitou a banheira - até porque mal sabia como ligar - lavou o cabelo e nem deveria ter ficado surpresa por ter produtos femininos ali.
Walker provavelmente tinha cuidado para que aquilo fosse providenciado, ou então pertenciam a outra pessoa.
Tomou um breve banho, secou o cabelo com o secador que estava cuidadosamente em cima da pia e até havia lenços demaquilantes ali, ela aproveitou para retirar o resquício de maquiagem.
Colocou o roupão que estava pendurado e foi para o quarto, em busca de uma roupa confortável, abriu o guarda roupa e seu queixo caiu quando viu que não tinha apenas roupas para dormir. Sapatos, jeans, casacos…
E a sua dúvida foi sanada no momento em que viu as etiquetas, não pertenciam a ninguém. Eram recém compradas.
Prontas para alguém usar.
%Annie% respirou fundo e ignorou por enquanto a parte de si que dizia que aquilo não era nada bom, tinha sido premeditado, e pegou um conjunto preto que era bem diferente do que ela costumava vestir.
Era sexy demais. O típico pijama de gente rica.
Assim que se vestiu e devolveu o roupão para o banheiro, voltou para o quarto e apagou todas as luzes.
%Annie% se deitou na cama larga, puxando o edredom fofo até o pescoço e se ajeitou na melhor posição que conseguia para dormir.
Fechou os olhos e tentou por um momento esquecer tudo o que lhe rodeava, todas as dificuldades e lembranças.
Uma tarefa que seu subconsciente ignorou completamente.
Nota da autora: Desculpem pelo enorme capítulo, era para compensar esse tempo todo sem atualização mas acabou ficando maior do que eu imaginava hahaha
Chegamos no meio da história e eu não vejo a hora de mostrar o resto para vocês, eu espero que não demore tanto assim como dessa vez.
Vejo vocês no próximo capítulo!