Military Dignity – Endless War


Escrita porMaari F.
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo 11 • There could never be another you

Tempo estimado de leitura: 47 minutos

  %Annie% entrava em casa e já sentia fome, tinha passado a tarde toda no apartamento de %Ryan% e mesmo que tivesse comido lá, estava com uma vontade incontrolável de comer uva.
  Viu de relance o pai parado de costas na ponta da escada e sorriu.
  - Oi pai, nossa você nem sabe o que aconteceu. - %Annie% fechou a porta e colocou a bolsa em cima do sofá. - Sabe o amigo do… - encarou o pai que segurava a cabeça e franziu a testa. - Pai?
  Ela se aproximou, colocando a mão no braço dele e quando o pai virou devagar, viu que ele se contorcia de dor, nem ao menos abria os olhos.
  - O que foi? - perguntou, preocupada.
  - Minha cabeça… - foi tudo o que disse antes do corpo tombar para o lado.
  - Pai! - ela o segurou como conseguiu, mas ele era muito mais pesado do que ela conseguia aguentar. - Joe! Mãe!
  Em poucos segundos Joe aparecia na escada e Sandra saía do banheiro, ambos correram ao ver o pai dela caído enquanto %Annie% tentava mantê-lo de pé.
  - O que houve? - Joe perguntou enquanto apoiava o braço nas costas do pai, tirando o peso de cima da irmã.
  - Eu não sei, eu cheguei e ele só falou minha cabeça, quando eu fui ver ele já tava caindo.
  - Ontem ele tava reclamando de dor no ouvido. - a mãe avisou e os filhos trocaram olhares cúmplices.
  - De novo, não é a primeira vez que ele se queixa. - %Annie% lembrou.
  - Pega a carteira dele, nós vamos para o hospital. - Joe mandou e %Annie% concordou.
  Enquanto %Annie% pegava as coisas do pai e a sua bolsa, Joe carregava o pai até a garagem com Sandra indo na frente para abrir o carro.
  Joe assumiu o volante enquanto %Annie% ia no banco do passageiro e a mãe atrás com o marido.
  %Annie% não sabia quantos sinais vermelhos o irmão tinha atravessado, mas sinceramente, ela pouco se importava, contanto que eles chegassem ao hospital rápido e seguros.
  E foi o que aconteceu, Joe parou na entrada da emergência e nem sequer desligou o carro direito e já saltou para fora para levar o pai.
  %Annie% saiu pedindo ajuda aos funcionários do hospital enquanto a mãe ajudava Joe a abrir a porta do carro para tirar Alexander.
  Em pouco tempo uma maca saía do hospital com alguns enfermeiros e Joe colocava o pai, ele e a irmã se comunicaram através do olhar e Joe entrou com Alexander, teve esse privilégio ao dizer que era um oficial do exército.
  Já %Annie% ficou na recepção para abrir a ficha do pai com a mãe, estava com medo e seus dedos tremiam mas conseguiu informar a recepcionista as informações necessárias do pai enquanto afagava as costas da mãe.
  Depois de abrirem a ficha, %Annie% e Sandra foram para a sala de espera, aflitas por respostas, pareceu uma eternidade até Joe aparecer, também sem notícias.
  Tudo o que os médicos haviam dito era que iriam levá-lo para estabilizá-lo e fazer os exames mais complexos mas que dariam o resultado adequado.
  A família %Madden% estava agoniada, a falta de informação era muito pior e as horas não pareciam passar, o relógio se arrastava de uma forma que fazia os corações pesarem a cada longo minuto.
  %Annie% mordia as unhas que nem tinha com o olhar fixo em um ponto no chão, podia ser egoísmo de sua parte mas tudo o que pedia era que o pai ficasse bem e saísse daquele hospital, ela precisava dele. Não tinha forças para perder mais ninguém, não ia aguentar.
  Ela não conseguiria passar pela dor da perda mais uma vez.
  Com um bolo na garganta, viu o médico se aproximar e o olhou com expectativa enquanto o irmão levantava da cadeira e a mãe juntava as mãos frias.
  - Ele está estável. - os três soltaram o ar que haviam prendido. - Mas nós fizemos uma tomografia e identificamos um tumor.
  %Annie% sentiu o coração ir ao chão.
  - Um tumor? - Joe perguntou, desnorteado.
  - Está perto do aparelho auditivo, eu passei o caso para o nosso otorrinolaringologista que também é cirurgião. Ele poderá explicar melhor os detalhes sobre o caso.
  %Annie% abraçou a mãe pelos ombros.
  - Nós vamos poder ver meu pai? - %Annie% perguntou.
  - Claro, agora mesmo! Por favor, me acompanhem.
  A família %Madden% seguiu o médico, não era preciso dizer nenhuma palavra, a tensão estava ali assim como o desespero. %Annie% principalmente não conseguia tirar da cabeça a cena do pai desmaiando, o coração estava apertado e mesmo que tivesse vontade de chorar, estava se mantendo firme pela mãe que estava tão preocupada quanto ela.
  Assim que entraram no quarto, %Annie% e Sandra se dividiram para ficar ao lado de Alexander, que estava deitado na cama. Já Joe, ficou parado na frente bem ao lado do médico.
  Os três cumprimentaram o médico com um aceno de cabeça, tendo em vista que o médico parecia explicar melhor a situação para Alexander.
  %Annie% segurou uma mão do pai, vendo-o com uma agulha em seu braço, e a mãe apoiou a mão no ombro dele fazendo um afago bem sutil.
  - Meu nome é Andy, eu sou o médico cirurgião. - Joe estendeu a mão para apertar e o médico o fez. - Eu estava explicando para o Alexander como devemos agir.
  - E o que deve ser feito, doutor? - %Annie% perguntou, engolindo seco.
  - Bom, antes de mais nada, é preciso fazer uma bateria de exames para ter certeza sobre a posição, precisão do tamanho para fazermos a retirada.
  - Retirada? - Sandra perguntou, ainda tonta. - Você está falando de cirurgia?
  Dr. Andy assentiu.
  - Não tem nenhum tratamento? - Joe cruzou os braços e %Annie% franziu a testa.
  Cirurgia parecia ser tão invasiva e delicada em um momento como aquele.
  - Foi isso o que eu perguntei. - Alexander falou fraco.
  - Nós temos. - o médico respondeu. - Mas com o tipo do tumor, sendo um Schwannoma, nesse caso a cirurgia é o mais aconselhável. - %Annie% afagou a mão do pai. - Percebam, até o momento sabemos que o tumor está maior do que devia e a tendência é ele aumentar cada vez mais, como ele está muito perto do aparelho auditivo, além de já forçar o local, poderá afetar progressivamente a região.
  %Annie% sentiu os olhos marejarem e abaixou a cabeça.
  Não precisava ser uma cirurgiã para entender que aquele era um caso difícil.
  - Então faremos a cirurgia! - Joe falou firme e viu o pai torcer a boca.
  %Annie% levantou a cabeça e olhou para o irmão, não precisavam conversar para saber que aquela era a única opção, assim como não precisavam contar sobre o medo que estavam sentindo.
  Mas se aquela era a melhor solução, se o médico dizia que deveria ser assim, então seria.
  O Dr. Andy ficou no quarto um pouco mais, explicando sobre os exames seguintes e quando Joe se prontificou a levá-lo até a porta logo depois de conversarem, %Annie% entendeu o que o irmão quis fazer.
  Ele com certeza falaria de algo mais complicado, como por exemplo quais seriam as sequelas e pior, os riscos daquela cirurgia.
  Ela até queria saber também, mas naquele momento optou por ficar com os pais, sabia que precisava convencer o pai junto com sua mãe que a cirurgia precisava ser feita o quanto antes, afinal sua teimosia tinha sido herdada dele.
  Mesmo que aparentemente o pai estivesse consciente da situação, teve uma longa conversa com ele e com Sandra. Tentou tirar da cabeça dele a culpa que sentia por não ter procurado um médico antes quando começou as dores de cabeça e ouvido.
  Claro, %Annie% sabia que tinha algo estranho nos sintomas do pai mas nunca imaginou que seria algo tão sério.
  O pai, que agora estava oficialmente internado, reclamou que estava com fome e %Annie% saiu para falar com alguma enfermeira.
  Conseguiu falar com uma que andava pelo corredor, e garantiu que levaria algo para Alexander comer, %Annie% agradeceu e quando se virou para voltar ao quarto, viu o irmão sentado em uma cadeira.
  Joe estava visivelmente apreensivo, as mãos estavam juntas e os cotovelos em cima dos joelhos enquanto a cabeça estava baixa. Foi por isso que %Annie% se aproximou, colocando a mão no ombro do irmão enquanto se sentava ao lado dele, Joe olhou para ela ligeiramente surpreso.
  - Pai tá com fome. - %Annie% avisou e Joe riu, sem humor.
  - Nem nessas horas ele deixa de comer.
  %Annie% riu junto, mas o som não durou tanto tempo porque ela sentia a tensão do irmão.
  - O que você conversou com o médico? - perguntou, curiosa. Joe a encarou com as sobrancelhas levantadas.
  Parecia até espantado por ela ter perguntado aquilo.
  - Nada demais.
  - Não ouse mentir para mim. - ela suplicou, queria que a voz tivesse saído com firmeza mas aquilo era a última coisa que ela tinha agora. - Eu sei o que é.
  Joe engoliu seco e virou a cabeça para encarar a parede do hospital.
  %Annie% sabia que ele estava relutante por causa da gravidez dela e mesmo que ela não quisesse passar por aquilo, ela deveria. Não era uma porcelana.
  Por isso queria saber tudo o que o médico havia dito.
  - Existem riscos, o médico quis ser indiferente quanto a isso, mas eu percebi.
  %Annie% o olhou com atenção.
  - Percebeu o que?
  Joe suspirou antes de encarar a irmã.
  - Perda de audição, perda de memória. - Joe enumerou, dando de ombros. - Até algo mais grave. A cirurgia é delicada, %Annie%, o médico não sabe como o tumor está alojado no cérebro do pai. E se ele abrir e estiver muito maior do que a gente imagina?
  - Isso não vai acontecer. - %Annie% o abraçou pelo ombro, tentando passar algum fio de confiança ao irmão. - É pra isso que os exames serão feitos, para ter precisão sobre o caso dele.
  - É, só que o médico me disse que tem alguns exames que o convênio está se recusando a cobrir. Assim como os equipamentos para fazer a cirurgia.
  Os olhos de %Annie% marejaram.
  A família não tinha uma vida financeira confortável ou estável, conseguiam sobreviver mas era apenas isso. Não tinham nenhum fundo de emergência ou uma poupança que conseguiria cobrir aquele tipo de gasto.
  Mesmo que usasse o dinheiro que %Ryan% havia deixado para ela, não seria o suficiente, por um milagre o convênio cobria aquele hospital mas dificilmente iria arcar com todas as despesas de uma cirurgia tão grande e de alto risco.
  Poderia vender o carro e o apartamento de %Ryan% se tivesse tempo. Mas agora, não tinha outra opção.
  - Ele já está solicitando os equipamentos?
  Joe assentiu.
  - Eles estão correndo contra o tempo, alguns equipamentos vêm de fora do país e ele precisa deles o quanto antes. Ele quer adiantar tudo o que puder para não ter uma surpresa do tumor crescer mais.
  %Annie% desviou os olhos do irmão, não queria perder as esperanças porque naquele momento era a única coisa que tinha.
  Engoliu a vontade de chorar, sabia que aquilo não ajudaria em nada e precisava dar um pouco de força ao irmão, conseguia ver que Joe estava se esforçando para não demonstrar o desespero que sentia.
  - Nós vamos dar um jeito. Juntos. Como a família que somos.

[...]

  %Annie% fechou a porta da casa e acendeu a luz, a casa agora vazia a deixava confortável para finalmente chorar.
  Tinha segurado as lágrimas o quanto podia mas estar ali, em sua casa e sozinha, não precisava mais fingir que era forte ou que estava bem. Porque não estava.
  Foi até o sofá e se jogou, as lágrimas quentes escorrendo sem parar enquanto ela levantava as pernas para abraçá-las com força.
  Estava sem chão. Era incrível como sua vida tinha se tornado uma eterna montanha russa, quando tinha altos e momentos tão felizes, logo vinha os baixos e as piores notícias vinham à tona, fortes como uma batida entre carros desgovernados em uma estrada.
  Não tinha um singelo momento em que poderia estar em paz.
  Sentiu o celular vibrar na bolsa que ainda nem tinha tirado e secou o rosto para depois procurar o aparelho, estava decidida a rejeitar a ligação e desligar o celular.
  Se não tivesse visto o nome de Lynn na tela.
  - Oi. - a voz de %Annie% mal saiu ao atender a chamada de vídeo.
  - Amiga, como você está? - %Annie% quis chorar de novo ao ver Lynn do outro lado da tela.
  - Eu não sei, minha cabeça parece que vai explodir. - admitiu, rindo sem humor.
  - Eu imagino, eu fiquei em choque com a sua mensagem. E seu pai? Como ele está?
  - Estável e bem. - respirou fundo. - O médico achou melhor mantê-lo internado para monitorar o tumor.
  - Menos mal então. Olha, eu falei com a minha tia, ela trabalha no hospital e conhece o Dr. Andy, ele é cirurgião chefe. Não tem ninguém melhor do que ele para cuidar do caso do seu pai.
  %Annie% sorriu contida. Não era com isso que ela se preocupava.
  - Eu sei disso. - engoliu o real motivo de seu desespero, não queria estragar a lua de mel da melhor amiga. - A propósito, você não estava no aeroporto?
  Lynn rolou os olhos.
  - Eu ainda estou. Esse aeroporto da Itália é abarrotado, a nossa conexão já deveria ter saído mas atrasou.
  - Aproveita a sua viagem. - %Annie% tentou soar animada mas é claro que foi inútil.
  Lynn sorriu de lado para a amiga.
  - Você não precisa fingir que está tudo bem pra mim. Eu sei como você está se sentindo.
  %Annie% suspirou. Nem mesmo estando do outro lado do oceano conseguia mentir para a amiga.
  - Você está sozinha?
  %Annie% concordou com a cabeça, vendo Lynn levantar a sobrancelha.
  - Joe tinha o turno dele para cumprir, ele vai tentar pedir dispensa por alguns dias mas não podia simplesmente faltar e a minha mãe insistiu em ficar com o meu pai essa noite.
  - E você?
  %Annie% deu de ombros.
  - Não podia ficar mais de um acompanhante então o Joe me trouxe para casa. Eu até… - %Annie% parou de falar, olhando para qualquer outro lugar que não fosse a tela do celular.
  - Você até…? - Lynn instigou a continuar.
  - Pedi pra ele me levar até o apartamento do %Ryan% mas ele não deixou.
  - Eu acho que ele fez certo. - Lynn suspirou. - Você tem passado por muita coisa, ficar sozinha no apartamento do %Ryan% não ia te fazer bem.
  A parte racional de %Annie% sabia disso mas uma outra parte de si, só queria dormir na cama de %Ryan% agarrada ao travesseiro dele com a ilusão de que quando acordasse, ele estaria ao lado dela.
  - Eu sei mas eu só queria que ele estivesse aqui. - um bolo se formou na garganta de %Annie%. - Foi um dia tão longo. Parece que não vai acabar nunca.
  - Eu sei, o Tej avisou o Connor do que aconteceu com ele e com a Claire, nós já estávamos no avião a caminho da Itália, se não teríamos voltado.
  - Pois é. Tem isso, esses ataques, o fato de eu não conseguir ter pedido minha demissão, o Major ter ido atrás de mim, o tumor do meu pai…
  - Espera, %Annie%. - Lynn interrompeu a amiga. - O Major foi atrás de você?
  %Annie% respirou fundo, tinha esquecido que a amiga não sabia ainda. Não tinha contado para Lynn ainda sobre a conversa com o Major por dois motivos, o primeiro é que queria esquecer daquele pedido absurdo, o segundo era que queria que a amiga aproveitasse a lua de mel.
  Era para isso que Connor estava de férias e eles estavam indo para a Grécia.
  Pretendia contar para a amiga quando voltasse da lua de mel.
  - Foi. - mordeu o lábio. - Ele me seguiu até o apartamento do %Ryan%, disse que se sentia responsável por mim depois de tudo o que tem acontecido com a equipe alfa.
  Lynn fez cara de desconfiada.
  - E o que mais? - %Annie% fez cara de surpresa com a pergunta da amiga. - Não venha me dizer que não tem mais coisa, qual é, o Major não é bobo.
  %Annie% ponderou em falar a verdade, por fim decidiu que deveria tirar aquilo de seu peito.
  - Ele me pediu em casamento.
  %Annie% viu Lynn piscar várias vezes como se não tivesse entendido o que a amiga falou e ela quase repetiu achando que era o sinal do celular.
  - O Major fez o quê?! - a voz estridente de Lynn pôde ser ouvida a quilômetros e %Annie% teria rido ao ver a amiga levantar a cabeça e pedir desculpas a sua volta, se ela não estivesse tão incomodada com aquela situação.
  - Não grita! - a expressão no rosto dela estava longe de ser diversão ou alegria, era aflição e confusão.
  Aliás, era assim que se sentia desde que %Ryan% havia partido.
  - Foi mais forte do que eu.
  - Você ouviu. - %Annie% suspirou e viu a amiga encará-la por um tempo com a testa franzida.
  - Do nada? Ele simplesmente te seguiu e propôs casamento assim como se ele tivesse falando que tá com gripe? - questionou e %Annie% concordou com a cabeça.
  - E eu achando que não tinha como piorar. - falou ironicamente.
  - Ele tá fora da casinha completamente, é sério. - Lynn riu. - Quer dizer, ele realmente achou que você fosse dizer sim?
  %Annie% deu de ombros e abaixou a cabeça, mexendo no anel de noivado que ainda usava.
  Não conseguia se ver na posição de noiva de qualquer outra pessoa que não fosse o %Ryan%, era até estranho pensar nisso agora.
  - %Annie%. - ela levantou a cabeça para encarar a amiga do outro lado da tela. - Você não tá cogitando essa loucura, né?
  - É claro que não. - %Annie% respondeu prontamente. - Isso nem passa pela minha cabeça, eu nem consigo me ver do lado do Major.
  - É só pra ter certeza, eu sei que você já saiu com ele uma vez.
  - Pra tentar esquecer o %Ryan%. - ela lembrou. - Eu nunca tive nenhum tipo de intimidade com o Major, todas as vezes que nós conversamos era… esquisito. Eu nunca senti nada forte por ele.
  - E ele justificou esse surto dele? - Lynn questionou. - Ou foi só de momento?
  - Ele disse que ele poderia me proteger e proteger o meu bebê.
  Lynn abriu a boca chocada e antes que pudesse responder, olhou para o lado parecendo ouvir alguém falar com ela e concordou com cabeça.
  - %Annie%, eu vou ter que ir agora. Acabaram de chamar o nosso vôo.
  - Tudo bem, vai lá.
  - Se você precisar de qualquer coisa, me chama, tá? - %Annie% sorriu de leve, concordando com a cabeça.
  - Fica tranquila, vai ficar tudo bem.
  - É claro que vai. - Lynn acenou para a tela. - Tchau, amiga.
  - Tchau. Divirta-se.
  Desligaram a ligação e %Annie% colocou o celular em cima do sofá, deitando logo em seguida enquanto respirava fundo.
  Como ela queria acreditar em suas próprias palavras que tudo ficaria bem.
  Mas ter a sensação de fraqueza por não ser capaz de fazer mais do que aquilo não só estava deixando-a ainda mais triste mas como também, se sentia sozinha.
  Não podia chorar no ombro do irmão ou da mãe porque isso também os deixariam pior do que estavam, as amigas estavam preocupadas com as suas devidas questões e ela não culpava nenhuma delas, como poderia?
  A única pessoa que poderia ser seu porto seguro naquele momento estava longe demais. Separado por algo muito maior do que oceanos.
  %Ryan% não estava mais ali e ela precisava se acostumar com aquela realidade.
  Sua mão então desceu até a barriga, precisava pensar em seu bebê. O seu foco agora era apenas isso.
  O barulho da chuva forte caindo tirou %Annie% de seus devaneios e ela encarou a janela da sala com melancolia.
  Era incrível que mesmo quando não queria pensar em %Ryan%, tudo remetia a ele, até mesmo a chuva.
  Ela respirou fundo e levantou do sofá, indo até a janela e observou o vidro molhado enquanto a chuva grossa caía, lembrando-se de uma época não tão distante em que ela era completamente feliz e tinha plena noção disso.

  5 meses atrás. Casa da família %Madden%.
  16:48 PM.

  - Você tem mesmo certeza que seus pais não vão achar ruim que eu esteja aqui com você? - %Annie% riu mais uma vez.
  Já era pelo menos a quarta vez que o namorado perguntava aquilo, mesmo ela garantindo que estava tudo bem.
  Seus pais, depois de ouvirem da filha a história do casal e como ela amava %Ryan%, não só aprovaram o namoro como acolheram %Ryan%, mesmo que diretamente ainda não tinham se conhecido oficialmente.
  Não por falta de convite, apenas as agendas que não estavam batendo de verdade.
  Ela virou-se para encarar o amado, sentado na cama ele fazia algo inusitado para ambos. Ajudava %Annie% a arrumar o quarto dela.
  - Eu já te disse que sim. - ela sorriu, vendo-o torcer a boca, incerto. - Eles só não ficaram porque minha avó precisou ir ao hospital para fazer uns exames de rotina.
  - E você não quis acompanhar?
  %Annie% deu de ombros.
  - Não gosto de hospital e teria gente o suficiente para ajudá-la.
  %Ryan% concordou com a cabeça.
  - Posso te fazer uma pergunta? - ele falou depois que %Annie% voltou a guardar os sapatos no guarda roupa.
  - Claro.
  %Ryan% pegou um livro em cima da cama.
  - Você desenha desde quando?
  %Annie% parou onde estava para encarar o que o namorado mostrava e sorriu contida.
  - Eu não tenho o dom de desenhar mas teve uma época que eu gostava de passar o tempo colorindo. - apontou para o livro que ele segurava. - Faz tanto tempo que eu não via esse livro, nem lembrava que ainda estava aqui.
  %Ryan% estendeu e %Annie% pegou, folheando. Alguns dos desenhos ainda estavam em branco, ela nunca conseguiu terminar de colorir.
  - Eu tava achando coincidência demais nós dois desenharmos. - ele riu e %Annie% fez o mesmo.
  Sabia que %Ryan% desenhava desde a época em que conversavam, há muito tempo atrás. Ao contrário dela, ele era ótimo em desenhar.
  Só não sabia se ele ainda mantinha o hobby.
  - Nisso eu te garanto que somos bem diferentes. - %Annie% abriu outra porta do guarda roupa para colocar o livro.
  %Ryan% pegou mais alguns e estava a ponto de estender para a namorada quando uma folha avulsa caiu no chão.
  Ele levantou da cama para pegar e seus olhos correram para o título, “Coisas para fazer antes de morrer” escrita com a letra da namorada.
  Ele sorriu de lado ao ver brevemente a lista mas algo chamou a atenção dele e pigarrou para chama-la.
  - O que é isso? - perguntou, curioso, encarando %Annie%.
  Ela virou-se e ao olhar o que ele estendia arregalou os olhos, sentindo as bochechas queimarem.
  - Há muito tempo atrás eu fiz essa lista. - ela levantou a mão para pegar mas %Ryan% voltou a ler, bastante interessado. - Não é nada demais.
  Ele levantou as sobrancelhas.
  - Viajar para a Itália.
  - Eu tendo descendência.
  - Fazer um piquenique.
  - Eu adoro ar puro.
  - Ver o pôr do sol.
  - Gosto de uma boa vista.
  - Beijar na chuva.
  O queixo de %Annie% caiu e ela nem ao menos conseguiu pensar em uma forma de esconder a vergonha que sentia.
  Ouvir a voz de %Ryan% em alto e bom som enumerando as vontades adolescentes dela era no mínimo vergonhoso, era engraçado também mas ela não conseguia rir.
  Só queria abrir um buraco no chão e se esconder nele.
  - Eu acho que dá pra gente fazer isso.
  %Annie% piscou, desacreditada ao ver %Ryan% falar aquilo na maior naturalidade possível, e é claro que aquilo era natural mas ela ainda se sentia uma garota completamente inexperiente perto dele.
  - Co-como assim? - ele voltou a encará-la, sorrindo maroto ao ouvi-la gaguejar.
  Ele não tinha falado nada de tão absurdo e ela ainda estava tímida, a única coisa que ele pensava era o quão fofa ela estava.
  %Ryan% não disse nada, apenas apontou com a cabeça para a janela do quarto onde uma chuva grossa e pesada caía. %Annie% observou o lado de fora do seu quarto sem saber o que dizer, era uma chuva bem forte com raios e trovões, o céu estava escuro antes mesmo da noite chegar mas de alguma forma nada daquilo importava porque ela queria fazer aquilo.
  - Está chovendo. - %Ryan% falou e %Annie% concordou com a cabeça para que ele continuasse, ele então levantou da cama e caminhou até ela. - Estamos só eu e você. - chegou mais perto dela, colocando o cabelo atrás da orelha dela e tudo o que %Annie% fez foi encará-lo sem conseguir desviar. - A conta fecha, não?
  %Annie% precisou morder o lábio para conter o largo sorriso que ameaçava surgir e tal movimento não passou despercebido por %Ryan%.
  Ela concordou com a cabeça, sem força na voz e nas pernas, a forma como %Ryan% a encarava estava deixando-a sem ar antes mesmo de beijá-la.
  Ele segurou a mão dela e a puxou para fora do quarto, %Annie% largou o que quer que tinha na mão e seguiu o namorado, riu quando ele abriu a porta da casa sem acreditar que faria mesmo aquilo.
  Ele a conduziu até a calçada e no curto trajeto já se molharam o bastante, %Annie% sentiu o corpo arrepiar quando ele virou para encará-la novamente e também pela água gelada.
  O cabelo longo caía por seu rosto, não foi um problema para %Ryan% no entanto, se aproximou da namorada e afastou os fios molhados para observar melhor o rosto dela que estava com um brilho diferente nos olhos.
  - Preparada? - ele perguntou, segurando ambos os lados do rosto dela.
  Ela concordou com a cabeça, tremendo.
  - Eu tenho a sensação que vou babar. - respondeu simplesmente e quis se bater pela resposta. Não ajudava em nada a criar o clima sedutor e romântico que o momento pedia.
  Mas isso não pareceu importar para %Ryan%, ele gargalhou de um jeito gostoso e encostou as testas.
  - Esse vai ser o beijo mais molhado que você já teve, sem dúvidas.
  %Annie% sorriu, fechando os olhos. Quis rebater, dizendo que nada superaria seu primeiro beijo no ensino médio, mas não teve coragem.
  Até porque mal teve tempo para pensar nisso, %Ryan% levou os lábios gelados até os dela em um toque bem suave, %Annie% sentiu todos os poros de seu corpo arrepiarem e ela só retribuiu.
  O ritmo lento cresceu, dando espaço para um beijo mais acelerado e muito mais molhado do que ela estava acostumada, mas nada que não pudesse lidar. A sensação de ter os lábios de %Ryan% contra os seus enquanto a chuva forte lavava cada centímetro de seus corpos era algo que não dava para descrever.
  Sentia algo muito mais íntimo ali, uma conexão que nunca tinha conhecido antes.
  Se afastaram brevemente para recuperar o fôlego e %Ryan% aproveitou para levar as mãos até a cintura de %Annie%, trazendo-a para mais perto de seu corpo enquanto ela apoiava as mãos na nuca dele. E então mais um beijo começou, um no qual nem %Annie% e nem %Ryan% se lembraram do mundo à sua volta, dos raios que cortavam o céu ou dos trovões que ecoavam firmes.
  Estarem nos braços um do outro era a única coisa que importava ali, era para aquilo que tinham lutado, para redescobrir as almas que um dia estiveram separadas.
  Não importava quantas vezes fariam aquilo, sempre parecia que era a primeira vez.
  Nunca pareceu tão certo, mesmo em meio a tempestade, era ali que queriam estar.
  Ali que deveriam estar.

[...]

  Atualmente. Hospital Geral.
  Por volta das 08:30.

  %Annie% e Joe chegavam lado a lado para visitar o pai, ambos estavam com bolsas d'água gigantescas embaixo dos olhos, resultado da noite mal dormida.
  Aliás, Joe nem ao menos tinha dormido. Sua dispensa ainda não tinha sido liberada, o que significava que teria que revezar entre seus horários de serviço e os de visita ao hospital.
  Carregava uma mochila com as roupas da mãe, tanto ele quanto Sandra não queriam que %Annie% ficasse como acompanhante de Alexander por um motivo bem óbvio, a gravidez dela.
  %Annie% precisava se cuidar, se alimentar bem e dormir ainda melhor, estando na correria do hospital jamais conseguiria fazer isso.
  Estavam ansiosos para falar com o pai, ver se ele estava melhor, porém toda a onda de preocupação voltou ainda mais forte quando viram o Major Walker conversando com o médico no corredor.
  %Annie% olhou o irmão como se perguntasse porque o Major estava lá, só que Joe estava tão confuso quanto a irmã.
  - Bom dia! - Dr. Andy os cumprimentou com um sorriso contido.
  Os irmãos fizeram o mesmo, Joe em seguida bateu continência ao superior.
  - Descansar, soldado. - falou ao rapaz, e olhou para %Annie% com um sorriso de lado. - %Annie%.
  - Major. - respondeu baixo, desviando os olhos para o doutor. Ainda não sabia como reagir quando o Major estava no mesmo cômodo que ela. - Aconteceu alguma coisa?
  Dr. Andy e o Major se entreolharam brevemente.
  - Você gostaria de contar? - O doutor perguntou e o Major concordou com a cabeça.
  - Todo o equipamento necessário para a cirurgia do seu pai está a caminho do hospital.
  Joe e %Annie% encararam o Major completamente chocados.
  - Mas como? - ela perguntou, sem entender.
  - O convênio não queria liberar. - Joe lembrou.
  Major concordou, revezando o olhar entre os irmãos.
  - Eu tratei disso pessoalmente, está vindo em um dos aviões da Força Aérea. - respondeu prontamente.
  - O Major encomendou uma verdadeira força tarefa, eu nunca vi o convênio ligar tão rápido para avisar que poderíamos realizar os exames.
  Joe e %Annie% ainda tinham os queixos caídos e se entreolharam confusos.
  Era a primeira notícia boa das últimas horas, não sabiam como reagir.
  - Então o meu pai vai operar? - Joe perguntou, piscando sem parar.
  - Em breve. - o doutor garantiu.
  %Annie% suspirou aliviada enquanto Joe sorria agradecido.
  - Meus pais já sabem? - %Annie% perguntou, animada.
  Major e o doutor negaram com a cabeça.
  - Estávamos indo até lá para darmos a boa notícia.
  - Então vamos, doutor. - Joe apontou para o corredor, dando espaço para o mais velho ir na frente.
  Assim que o fez, %Annie% deu um passo para ir logo em seguida, porém o Major a segurou pelo punho, obrigando-a a parar.
  - %Annie%, espera. - ele pediu, chamando a atenção dela que o encarou confusa. - Posso conversar com você?
  %Annie% engoliu seco e olhou mais a frente, se questionando se deveria fazer aquilo agora. Não era como se fosse se tornar melhor amiga dele, mas não queria que parecesse que estava sendo mal agradecida.
  - Vai ser rápido. - Major garantiu e mesmo querendo dizer não, ela concordou brevemente com a cabeça.
  O Major indicou para que eles fossem até o final do corredor e embora não tenha entendido porque, %Annie% apenas o acompanhou, ficando de frente para ele assim que pararam.
  Ela suspirou impaciente enquanto ele se colocava muito perto dela, a ponto de conseguir apoiar a mão no ombro dela.
  - Eu já disse para a sua mãe e quero garantir a você que não precisam se preocupar com dinheiro, eu faço questão de ajudar. - %Annie% abriu a boca para recusar. - Não quero que vocês vendam o carro da família ou as joias para pagar a cirurgia, eu cuido disso.
  %Annie% sorriu amarelo.
  - Major, eu agradeço mas não é justo. Podemos conseguir um bom valor no carro se ofertarmos e nem ao menos temos joias para vendermos. - ela deu de ombros.
  Major franziu a testa e seu olhar pairou sobre o colar de %Annie%, o que fora dado por %Ryan%.
  - Bom, eu imaginei que com toda essa situação você fosse vendê-lo. - respondeu, apontando com a cabeça para o colar e %Annie% estreitou os olhos.
  - Vender? - ela levou a mão até o colar, tocando o pingente suavemente, completamente confusa. - Porque eu venderia?
  Major tombou a cabeça para o lado e levou a mão que estava no ombro dela até a própria nuca, onde coçou.
  - Espera, você não sabia?!
  - Do quê? - franziu a testa, confusa.
  Ele parecia verdadeiramente surpreso com a pergunta de %Annie%, ela não parecia ter ideia do que carregava no pescoço.
  - %Annie%, essa pedra é uma Turmalina Paraíba. - dessa vez o Major apontou a mão para o colar que %Annie% segurava. - Ela é jóia muito valiosa.
  O queixo de %Annie% caiu ao mesmo tempo em que ela sentiu a comoção lhe tomar conta, ela negou com a cabeça enquanto olhava para um canto qualquer ao se lembrar das palavras de %Ryan%.
  Ele tinha garantido que não tinha sido tão caro, tudo bem que o significado daquela palavra era diferente para eles mas, jamais imaginaria que ele daria uma joia verdadeira para ela.
  Imaginava que era só uma bijuteria!
  Ela segurava aquele colar há tanto tempo, desde que havia recebido, e não tinha a menor ideia que a solução dos problemas da família estava pendurada em seu pescoço.
  - Como você sabe que é real? - indagou, olhando perdida para o Major.
  - Eu sou um grande conhecedor de pedras preciosas, meu bisavô era joalheiro. Eu reconheço uma joia verdadeira há quilômetros.
  %Annie% concordou com a cabeça ainda surpresa, parecia que outra bomba tinha sido jogada em seu colo, só que dessa vez era uma coisa boa.
  Bom, pela parte racional era. Só precisava vender o colar e seus problemas financeiros seriam resolvidos facilmente.
  Só que ela não conseguia ouvir sua parte racional pois a parte emocional dizia que era errado se desfazer do colar que %Ryan% havia dado pouco antes de morrer.
  - Ele não me disse nada. - falou para si mesma, um pouco alto, o bastante para o Major ouvir atentamente.
  - Quem?
  %Annie% focou sua atenção no Major e o olhou triste, coberta por aquela nuvem de lembranças que nunca parecia se dissipar.
  - %Ryan%. - respondeu baixo, sentindo o famoso bolo na garganta ao falar o nome do amado.
  O Major até tentou esconder a expressão de desapontamento, mas %Annie% percebeu quando ele inflou as narinas e travou o maxilar.
  O silêncio então veio, bem desconfortável para ambos enquanto %Ryan% parecia estar entre os dois, criando um abismo ainda maior na visão do Major. Porque %Annie% só pensava se %Ryan% tinha feito aquilo de propósito, como se soubesse que talvez um dia ela fosse precisar fazer aquilo, ou pelo menos cogitar a ideia de vender o colar.
  Seu estágio de luto ainda não lhe permitia se desfazer de qualquer coisa que fosse ou tivesse vindo dele, tanto é que o apartamento de %Ryan% ainda estava intacto, do jeito que ele havia deixado.
  %Annie% respirou fundo e se mexeu desconfortável enquanto olhava para o Major, ele parecia ter perdido qualquer tipo de fala.
  - Bom, eu agradeço o que você fez pelo o meu pai, Major. - sorriu educada mas o mesmo se desfez quando o Major deu um passo para frente e segurou a mão dela com uma delicadeza que não combinava com a figura rígida e alta dele.
  - Será que algum dia você voltará a me chamar pelo meu nome? - perguntou enquanto acariciava a pele de %Annie% que o encarou na esperança de sentir qualquer coisa.
  Mas nada veio. Talvez a gratidão que sentia por ele se dispor a ajudar o pai só que era apenas isso.
  Não tinha uma pontinha do estômago que estava feliz por ele ter se aproximado ou qualquer poro da pele ansiava pelo toque dele. Era frio e sem intimidade.
  Tão distante…
  Se sentindo estranha, %Annie% afastou a mão da dele sutilmente e torceu a boca, tentando sorrir sem sucesso.
  - Quem sabe um dia. - deu de ombros, incerta. - Muito obrigada, de verdade. Nós vamos devolver todo o dinheiro o mais rápido possível.
  O Major negou com a cabeça, colocando as mãos dentro dos bolsos da calça.
  - Não tem necessidade, fiz isso porque gosto muito de você… - %Annie% desviou o olhar, incomodada. - E de toda a sua família!
  Ela concordou com a cabeça e sem ter o que dizer, se afastou indo em direção ao quarto do pai. Major não a seguiu, apenas a observou de longe desaparecer pelo corredor.
  %Annie% respirou fundo e agarrou o colar novamente, dessa vez fazendo um pedido exatamente como fez quando %Ryan% a presenteou.
  Desejou que o amado estivesse lá. Em vão.

[...]

  Os próximos cinco dias foram cruciais e seguiram a mesma rotina.
  Alexander ainda era monitorado enquanto os equipamentos restantes chegavam do exterior, Sandra não saía de perto do marido, Joe visitava o pai quando deixava seu posto na base e %Annie% revezava entre cuidar da casa e visitar o pai sempre que podia.
  Ela tinha conseguido conversar com o secretário, foi uma breve e sincera conversa, e também bem surpreendente. Ele entendia os motivos de %Annie% pedir demissão e não se opôs, essa foi a parte mais fácil.
  A mais difícil foi esperar sábado chegar, dia que a cirurgia havia sido marcada bem cedo pela manhã, ninguém conseguiu dormir na noite anterior e %Annie% se pegou fazendo algo que não fazia já tinha muito tempo. Ela rezou.
  Parecia que essa era a única coisa que podia fazer naquele momento. Pedir, implorar e prometer o que fosse que se o pai saísse daquela, ela faria qualquer coisa.
  Ela prometeu até coisas impossíveis.
  Os amigos de %Ryan% e suas respectivas parceiras, exceto Claire que realmente tinha ido para o sul, apareceram no hospital para dar força a %Annie% e a família, mas por ser uma cirurgia demorada nenhum deles ficaram, ela não os julgava, afinal eles também tinham outras coisas para fazer.
  E também porque Major tinha insistido em ficar ali com a família %Madden%. Era algo que %Annie% queria rebater, porém naquele momento tão delicado, ela não conseguiu por um único detalhe, ele estava dando força para a mãe que nem mesmo %Annie% estava conseguindo.
  O coração estava apertado e ela era monitorada de vez em quando por uma enfermeira por conta da gravidez, qualquer sinal de pressão baixa %Annie% seria medicada e isso significava ficar internada num quarto sem notícias do pai e ela não queria isso.
  Por isso se manteve firme, bem alimentada e hidratada. Tinha tantas vidas ali que dependiam de seu bem estar.
  De repente o céu claro tinha se tornado noite e ainda estavam sem notícias da cirurgia, Joe tinha acabado de chegar e procurou ficar perto da mãe enquanto Major ia até %Annie%.
  - Você quer alguma coisa? - perguntou, solícito e ela negou com a cabeça.
  %Annie% mantinha os braços cruzados e uma mão até a boca onde ela tentava arrancar uma pelinha fina da unha que estava irritando.
  - Eu estou bem, obrigada.
  A voz de %Annie% tinha uma mistura de seriedade com aflição e tudo o que Major conseguiu fazer foi sorrir contido e acariciar de leve o ombro dela, uma tentativa de transmitir força para ela.
  Não importava quantas palavras de consolo as pessoas dissessem, ela sentia todo o coração parar na boca com a falta de notícia, não conseguia não ficar agitada.
  E tudo pareceu ser o estopim quando o Dr. Andy saiu do corredor que levava a sala de cirurgia com uma cara indecifrável, fazendo com que toda a família corresse até ele completamente aflitos.
  - Doutor, como foi a cirurgia? - Joe foi o primeiro a perguntar.
  - Como está o meu pai? - %Annie% perguntou em seguida, juntando as mãos frias.
  - Ele está estável. - avisou, fazendo com que os três entoassem o mesmo suspiro aliviado. - Infelizmente não pudemos tirar todo o tumor pois os riscos seriam ainda maiores.
  %Annie% trocou olhares preocupados com a mãe e o irmão.
  - Mas é seguro, doutor? Manter o tumor? - Sandra questionou.
  - Nós iremos avaliar melhor nos próximos dias se o tumor terá alguma evolução e claro faremos um longo acompanhamento. Ele estava muito perto de nervos pequenos no aparelho auditivo, se tentássemos mexer…
  O doutor encarou %Annie% por um segundo e não precisou dizer mais nada, não só ela como todo mundo ali entendeu o que ele queria dizer.
  O risco de Alexander morrer na sala de cirurgia era maior se tivesse mexido ainda mais.
  - Por favor, não se preocupem tanto, a cirurgia foi um sucesso para o quadro dele e ele não estará sozinho.
  A família %Madden% concordou, um pouco mais aliviada.
  - Quando poderemos vê-lo? - Joe perguntou, abraçando a mãe pelos ombros.
  - Ele está na UTI por protocolo, assim que for liberado para o quarto vocês poderão entrar. - o doutor avisou.
  Joe agradeceu o médico enquanto %Annie% sentia todo o medo e pavor evaporarem por seu corpo de forma que deixou as pernas mais fracas, não sabia o quão tensa estava até ter a notícia que queria ouvir.
  O pai estava bem. Vivo.
  %Annie% sentiu uma mão larga em sua coluna e virou-se com lágrimas nos olhos para encarar o dono, ficou surpresa ao ver o rosto do Major, nem ao menos se lembrava dele estar ali.
  Ele sorriu de leve para ela que apenas suspirou, em um impulso ele a segurou em um abraço desajeitado e quase tímido e ela permitiu, sem saber como recuar.
  Na verdade, tudo o que mais precisava naquele momento era de um abraço.
  Um abraço e a promessa de que tudo ficaria bem dali em diante.
  Ela nem ao menos percebeu quando Joe levou a mãe para longe, deixando Major e %Annie% sozinhos, ou as lágrimas quentes que escorriam por seus olhos que estavam fechados.
  Ela tremia de um misto de emoções que nem o Major soube o que fazer ou dizer, e apenas permaneceu ali com medo da pobre mulher cair sem forças no chão.
  %Annie% segurou o casaco de Major com uma força sobre humana, não sabia porque estava chorando tanto, se era de alívio ou de pânico mas ela não conseguiu parar.
  Parecia que uma tonelada tinha saído de suas costas, como se seus pulmões estivessem finalmente limpos.
  Major se afastou quando sentiu a respiração dela começar a voltar ao normal e levou uma mão até o rosto quente e molhado dela.
  - %Annie%, calma, por favor. - pediu baixo e a encarou, ela ainda manteve os olhos fechados enquanto tentava controlar a respiração. - O pior já passou.
  - Eu sei. - ela soluçou e abriu os olhos mas mal enxergava um palmo pois os olhos continuavam marejados, foi por isso que ela não se tocou o quão perto Major estava dela.
  - Olha pra mim. - ele aproveitou para segurá-la pela cintura a ponto de dar mais firmeza a ela. - Respira fundo.
  %Annie% o fez, olhando para cima para que todas as lágrimas caíssem de uma vez e deixasse a sua visão mais clara.
  - Ele está bem, já passou.
  Ela concordou com a cabeça.
  - Ele está bem! - repetiu, garantindo a si mesma.
  Ela levou a mão para o rosto, secando toda a trilha molhada e só quando colocou os olhos em Major percebeu que ele estava perto demais.
  Perto o suficiente para que ela enxergasse profundamente os olhos claros dele, Major estava praticamente curvado sobre ela graças a diferença de altura e mesmo que estivesse se sentindo sufocada, ela não pôde desviar os olhos.
  Porque Major tinha a prendido ali, com a carícia gelada em seu rosto e os olhos ardendo por ela de um fogo que ela não conseguia retribuir naquele momento.
  Era óbvio para ela o que ele pensava, o que ele queria fazer e o silêncio de %Annie% deu a ele uma interpretação dúbia.
  Major molhou os próprios lábios com a língua e seus olhos desceram para a boca de %Annie% que permaneceu parada como uma estátua, era como se toda a sua força tivesse dissipado mesmo que ela quisesse reagir.
  E precisava porque Major estava deixando muito claro e óbvio que ele iria beijá-la naquele momento se ela não recusasse.
  Por um breve segundo ela quis saber como seria, o que sentiria mas a dúvida foi sanada no momento em que o perfume dele invadiu as narinas de %Annie% e uma coceira insuportável apareceu ali.
  Não era aquele perfume que ela estava acostumada, não era aquele calor que ela queria.
  Antes que os lábios dele pudessem tocar os dela, %Annie% virou o rosto completamente sem graça e levou a mão para o rosto mais uma vez de uma forma desajeitada. A recusa fez com que Major parasse e se afastasse o suficiente para que ela pudesse respirar novamente.
  Se sentindo culpada, ela deu um passo para trás e desfez o contato com o Major, os braços dele caíram ao lado de seu corpo inerte e se deu por vencido.
  %Annie% não queria que o clima entre eles ficasse ainda pior, mas era óbvio que tinha ficado.
  Não tinha nenhum desejo recíproco ali.
  Mesmo ele sendo um homem atraente, simplesmente não conseguia fazer aquilo ali e nem agora. Não quando outro rosto perambulava em sua mente.
  - Me desculpe… - ele começou, visivelmente incomodado.
  - Não, Major, eu é quem sinto muito. - %Annie% nem sabia porque estava pedindo desculpas.
  Por não desejá-lo? Por rejeitá-lo?
  - Eu não quis forçá-la.
  Ela sorriu nervosa.
  - Eu sei.
  Novamente o silêncio perturbador ficou entre eles, dessa vez era muito mais constrangedor do que antes.
  %Annie% queria se enfiar em algum buraco no chão e não sair mais, o olhar de tristeza dele estava deixando-a ainda mais culpada. Mesmo tendo plena consciência que não deveria se sentir daquela forma.
  Mesmo que um dia beijasse o Major, e nem cogitava isso, aquele não era o momento.
  - Fique com a sua família, eu não quero atrapalhar. - Major falou e %Annie% abriu a boca para responder mesmo sem saber o que. - Estou aliviado pela cirurgia ter sido um sucesso.
  Ela concordou com a cabeça e ele se afastou devagar, com os ombros para baixo como se tivesse perdido a batalha e %Annie% o encarou até respirar fundo e o chamar, ele se virou o suficiente apenas para retribuir o olhar.
- Obrigada.
Ela sorriu de leve, verdadeiramente agradecida e viu o lampejo de felicidade nos olhos dele por aquele simples gesto.
  Seria tão ruim se quebrasse só um pouquinho o gelo que estava ao redor deles?


  Nota da Autora: Eu confesso, era para esse capítulo sair muito antes, mas é claro que eu tive que ter um bloqueio criativo justo agora 🤡 isso que dá escrever mais de uma história ao mesmo tempo enquanto eu estou de mudança. Mas finalmente eu fui agraciada com a volta da minha inspiração então estou com esse capítulo gigantesco em forma de desculpa pelo meu atraso.
  Eu espero que vocês aproveitem porque eu não vejo a hora de vocês lerem o que ainda está por vir.
  Até o próximo capítulo 😘

Capítulo 11
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Todos os comentários (7)
×

Comentários

×

ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Você não pode copiar o conteúdo desta página

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x