Capítulo 10 • A hope in hell
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- Você está melhor? - Lynn perguntou, observando o rosto da melhor amiga.
O rosto de %Annie% estava voltando a cor normal, depois de Lynn caçar um pacote de bolacha salgada para %Annie% que quase desfaleceu com o teste de gravidez na mão.
- Estou, de verdade. - %Annie% garantiu, passando a mão pela testa suada. - Acho que a minha pressão caiu.
- É sério, %Annie%, eu vou te levar ao hospital.
%Annie% reclamou.
- Eu não quero. - se arrumou melhor na cama, vendo Lynn colocar as mãos na cintura.
- Eu não estou pedindo. - Lynn falou firme e %Annie% bufou. - Você sabe que se eu tiver que te levar amarrada, eu vou fazer isso.
Lynn era muito mais teimosa do que ela e naquela situação, não teria como discutir ou até mesmo brigar com a amiga.
- Me fala a verdade, quando foi a última vez que você comeu?
- Hoje de madrugada, tinha umas frutas na geladeira.
- Você não acha que é melhor fazer o exame de sangue e ter certeza da sua gravidez? Afinal, você precisa de cuidados.
%Annie% ficou em silêncio, os olhos e as mãos descendo até a barriga de forma protetora. Não queria perder aquilo.
Claro que os sintomas eram óbvios, mas e se fosse mentira? E se aquele sopro de esperança fosse arrancado dela assim tão depressa?
Ela não conseguiria lidar com mais uma perda.
Sem ter como retrucar, suspirou e concordou em silêncio.
Sentindo o estômago pesado e arrotando basicamente nada, Lynn separou um vestido para %Annie% e a amiga trocou de roupa lentamente para que a ânsia não aumentasse e acabasse vomitando no quarto.
%Annie% pegou um óculos escuro grande e amarrou o cabelo sujo em um rabo alto, sabia que sua cara estava pálida e inchada mas nada poderia fazer, e sua bolsa com os documentos.
Antes de saírem, Lynn sugeriu que a amiga comesse mais alguma coisa para ficar mais disposta a sair e ela prontamente concordou.
Embora fosse sua vontade devorar tudo o que tinha na geladeira, ela se limitou a comer um pão.
Ainda pensativa, %Annie% entrou no carro da amiga e logo estavam arrancando da entrada da casa da família %Madden%.
Tentando se manter na realidade antes que ela se perdesse em seus devaneios durante o trajeto, %Annie% decidiu achar um assunto que a distraísse por um curto tempo.
- E a lua de mel? Não é amanhã que vocês iam viajar?
Lynn pareceu um pouco relutante em responder.
- Nós íamos para uma praia, mas agora com as férias prolongadas do Connor, ele decidiu que quer algo mais longe.
%Annie% levantou as sobrancelhas.
- Férias prolongadas?
- Pois é, foi um choque pra mim também. - riu baixo. - Eu fiquei mais chocada ainda quando ele me disse que foi uma decisão do Major.
- O quê? - %Annie% não conseguiu esconder a surpresa. - Porque?
- O Major disse que os membros da equipe alfa precisavam disso, se afastar por um tempo. - Lynn explicou, olhando de relance para %Annie%.
Ela ficou em silêncio, digerindo tudo aquilo.
Ela queria poder fazer isso, se afastar para um lugar que não pudesse sentir mais a dor que sentia.
- Vocês nem conseguiram aproveitar a lua de mel direito né. - %Annie% tentou sorrir, embora não tenha conseguido, Lynn gostou de ver a amiga se esforçando para conversar.
- Não, você sabe que na verdade eu sempre quis passar a minha lua de mel na Grécia. - %Annie% concordou com a cabeça.
- Então vocês precisam aproveitar e ir logo.
Lynn suspirou.
- Na verdade, eu não sei se seria uma boa ideia.
%Annie% cruzou os braços, analisando a amiga.
Sabia que aquele era o sonho de Lynn e embora estivesse fora de órbita nos últimos dias, ela não era burra.
- Lynn Alcântara. - a chamou um pouco mais firme e a amiga respirou fundo antes de olhá-la rapidamente de rabo de olho. - Se você disser que está adiando a sua lua de mel por minha causa, eu vou te bater.
- %Annie%, não é só por isso… - a amiga a encarou desconfiada. - Tá bom, mas que tipo de amiga eu seria se deixasse você aqui sozinha em uma situação como essa?
Os olhos de %Annie% marejaram. Lynn realmente a considerava uma irmã de verdade e aquilo era o suficiente para %Annie%, aquela consideração era a força que precisava naquele momento.
Só que não era justo.
- Eu fico muito feliz em saber que você se importa comigo, mas você sabe que eu jamais poderia concordar com isso.
- %Annie%…
- Não, me escuta. - suplicou, levantando a mão para fazê-la parar de falar. - Você não pode parar a sua vida porque eu estou de luto, Lynn. - %Annie% engoliu o bolo que se formou em sua garganta. - Vai doer a vida toda e o que você vai fazer? Adiar a sua felicidade por minha causa? Nem você e nem o Connor merecem isso.
- Eu não quero te deixar sozinha.
- Eu não estou sozinha.
%Annie% entrelaçou os dedos e colocou sobre a barriga, pensativa.
A dor que sentia não devia ser motivo para que as pessoas à sua volta, as pessoas que amava e que queria bem, parassem de viver porque ela tinha perdido o amor da sua vida.
Não seria egoísta a esse ponto, até porque era o tipo de coisa que %Ryan% não iria querer.
Ela retomaria sua vida aos poucos um dia de qualquer forma e por mais difícil e estranho que era admitir ainda tão cedo, não se sentia mais sozinha.
Se sua vontade se concretizasse, %Ryan% estava mais vivo do que nunca dentro dela.
Sabia que um dia a dor iria amenizar, não sumir por completo porque sabia que isso seria impossível, mas um dia aprenderia a lidar com aquela falta que sentia.
E pelo bebê teria que reagir, precisava se blindar de alguma forma.
Chegaram no hospital e conversaram um pouco mais depois que %Annie% fez a ficha e esperavam o médico chamar, Lynn conseguia ver nos olhos de %Annie% a pequena chama de esperança e entendia a ansiedade da amiga.
Se para ela estava sendo agoniante esperar o médico, imaginava como estava sendo para %Annie%.
Quando o médico chamou, Lynn fez questão de acompanhar a amiga para poder explicar ao médico o que estava acontecendo, porque segundo ela %Annie% não falaria tudo o que tinha que falar.
Na verdade, %Annie% até agradeceu porque ter que explicar toda a sua situação, uma noiva viúva de um soldado morto em ação com sintomas de gravidez, ainda era doloroso.
O médico a examinou e fez a coleta de exame de sangue.
Depois de esperarem o tempo necessário, %Annie% roendo todas as unhas possíveis enquanto o coração doía de tanto que pulsava de ansiedade, voltaram para a sala do médico e Lynn parecia mais aflita do que %Annie%.
- Qual o resultado? - %Annie% perguntou ansiosa.
- O exame de sangue também deu positivo e está tudo mais do que bem. - ela prendeu a respiração. - Parabéns, %Annie%, você está grávida.
Ela sentiu os olhos encherem de água e não conteve as lágrimas, um filme de tudo o que tinha vivido com %Ryan% passava em sua cabeça, desde a primeira vez que se olharam até a última.
- Quanto tempo? - soluçou, sentindo Lynn afagar suas costas.
- Você está próximo de completar três meses, na verdade.
- Três meses… - falou para si mesma, o olhar perdido em um ponto fixo.
Sentia uma força inumana, seu coração ainda doía pelo luto mas dentro dela crescia um bebê que era a única coisa que tinha restado de %Ryan%.
Era o bem mais precioso que ele tinha deixado para ela e ouvir aquilo, o medo sumindo feito poeira, fez com que o corpo e a mente dela acordassem do coma momentâneo que estava vivendo.
Ela seria mãe. De um bebê do %Ryan%.
- Doutor, e agora? - Lynn perguntou pela amiga.
- Bom, o próximo passo é fazer exames mais complexos e detalhados. Ultrassom, morfológico. Eu sugiro que o pré natal seja feito aqui, - o médico tirou um papel e escreveu algumas coisas antes de estender para Lynn - essa é uma das melhores maternidades, o Dr. Paulo é um amigo pessoal meu e um ótimo obstetra. Ele auxiliará em todas as dúvidas.
Lynn olhou para o papel e concordou com a cabeça, virando para encarar a amiga que estava com o olhar perdido.
- %Annie%, me perdoe a intromissão. - o médico falou, chamando a atenção dela que o encarou aflita. - Eu sinto muito pela sua perda, sequer imagino o que você está passando - os olhos dela desceram para a aliança que ele usava. Talvez ele tivesse noção do medo que era perder quem amava. - mas encare isso como um sinal.
Ela franziu a testa e o encarou novamente.
- Um sinal?
- De que agora você deve viver pelo amor que sente pelo seu noivo, o bebê representa isso.
%Annie% sentiu o nariz pinicar e engoliu mais um soluço, sem ter o que dizer ela apenas assentiu.
- Obrigada, doutor.
Ela e Lynn se despediram e brevemente saíram da sala, os olhos marejados de %Annie% preocuparam Lynn, que a abraçou pelos ombros.
- Você quer alguma coisa?
%Annie% concordou com a cabeça.
- Eu tô com vontade de comer coxinha de frango. - ela riu baixo e a amiga sorriu.
- Vem, eu sei pra onde te levar.
Lynn a levou para uma padaria bem próxima do hospital, ainda estava preocupada com %Annie%, mesmo que parecesse mais firme para caminhar, seu rosto estava pálido.
Mas a preocupação diminuiu quando viu %Annie% comer bem a coxinha de frango e tomar o suco de laranja, Lynn se contentou com uma torta e café.
Ela até sugeriu que %Annie% pegasse um pedaço da torta para si já que não tirava os olhos do prato de Lynn, %Annie% sequer conseguiu negar pois as mãos responderam antes.
- Você quer conversar? - Lynn perguntou depois que %Annie% mastigou a última garfada da torta.
%Annie% respirou fundo, colocando o talher no prato e levando a mão para massagear a nuca.
- Eu ainda… tô confusa. - admitiu, dando de ombros.
Lynn entendia, é claro, até ela estava um pouco tonta.
- Mas você sabe o que quer fazer?
%Annie% sorriu de leve e olhou para a própria barriga, estava extasiada com a notícia de que tinha um bebê ali e agradecida por não ter perdido essa esperança.
Em uma semana parecia que tinha perdido tudo e então tinha ganhado tudo de volta.
Era realmente uma montanha russa de emoções.
- Eu preciso falar com os meus pais.
Lynn concordou.
- Eu sei que eles vão te apoiar.
%Annie% encarou a amiga.
- Não é essa a minha preocupação. - falou séria e a amiga esperou que continuasse. - Como eu vou me tornar mãe em tão pouco tempo? Lynn e se eu não conseguir?
- Ei, não fala isso. - ela esticou a mão para que %Annie% segurasse, quando o fez apertou a mão dela com firmeza. - Você é a pessoa mais forte que eu conheço e vai conseguir dar tudo o que essa criança precisa. Você está rodeada de amor, o que mais poderia ter?
- O %Ryan%. - %Annie% falou baixo, com os olhos se enchendo de lágrimas.
Lynn suspirou, afagando a mão de %Annie%.
- Onde quer que ele esteja, ele também acredita em você.
%Annie% sorriu, emocionada e secou o rosto com a mão livre quando uma lágrima solitária escorreu.
- Eu preciso voltar a trabalhar também.
- Com o secretário? - %Annie% concordou com a cabeça. - E se você procurasse outro emprego?
- Eu não tenho tempo pra isso, Lynn, posso até fazer em paralelo mas por enquanto eu vou ter que me esforçar. - deu de ombros, não era como se quisesse mas precisava do emprego mais do que nunca.
- Você sabe que se precisar de qualquer coisa, eu estou aqui!
- Eu sei, obrigada! - sorriu genuinamente para a amiga, que retribuiu.
Saíram da mesa rapidamente e pagaram as comidas, quando estavam para voltar ao carro, o celular de Lynn tocou.
- Oi, amor. - ela sorriu e %Annie% soube que era Connor. - Não, na verdade eu estou com ela agora. - olhou para %Annie% que a encarou curiosa, Lynn escutou em silêncio e %Annie% estranhou. - O quê? Tipo, agora? - %Annie% a olhou desconfiada, vendo a amiga coçar a cabeça. - Tudo bem, eu faço isso. Eu sei. Tá bom, beijo. Te amo.
Lynn desligou o celular e destravou o carro, %Annie% entrou no mesmo minuto que a amiga e continuou a olhando.
- O Connor me pediu pra te levar até a base. - Lynn falou de uma vez e %Annie% estreitou os olhos, colocando o cinto.
- A base? Do exército, você quer dizer? - perguntou, confusa e viu a amiga concordar. - Porque?
- Ele disse que tem uma pessoa esperando por você lá. É importante.
%Annie% franziu a testa, sem entender.
- Bom, tudo bem. - cruzou os braços, sentindo a ansiedade se instalar na ponta de seu estômago de novo.
- Você tem certeza? - Lynn perguntou preocupada. - Você teve emoções demais por hoje.
%Annie% concordou, piscando mais do que o comum. Ainda sentia as pernas moles com a notícia de que seria mãe mas ela não podia mais fugir do mundo, o fato de ter um bebê crescendo dentro dela dizia isso.
- Tem um motivo para o Connor querer que eu vá até lá. - respirou fundo. Só tinha ido até a base uma vez, no julgamento de %Ryan% então não tinha memórias tão alegres. - E eu quero saber o motivo.
Lynn suspirou e ligou o carro, embora tivesse percebido o tom ansioso na voz da amiga, também percebeu a determinação e não iria discutir com ela.
Era sua missão há dias fazer com que a amiga ao menos saísse de casa.
%Annie% até poderia tentar esconder a ansiedade mas convencer de que aquela palpitação não estava comendo-a viva durante todo o caminho era impossível, principalmente porque tudo o que pensava era o bebê que estava dentro de sua barriga. Como o criaria sem um pai, sem deixar lhe faltar nada, principalmente amor e segurança.
Queria fazer aquilo não por si mesma, mas pelo o amor que sentia pelo bebê e por %Ryan%, aquela era a última ligação entre eles e ela queria que desse certo.
Não importava o quão quebrado o seu coração estivesse, a notícia da gravidez tinha dado um sopro de ânimo a ela, pois sabia que teria que se esforçar.
Respirou fundo ao ver o portão da base se aproximar, as lembranças do dia que tinha acompanhado %Ryan% há meses atrás ameaçaram inundar sua mente e foi preciso muito autocontrole para não deixar isso acontecer.
Tinha que focar no agora.
Engoliu seco e entraram depois da liberação dos soldados na cancela, Lynn estacionou e saiu do carro, %Annie% fez o mesmo enquanto observava a base.
Parecia bem mais quieta do que lembrava.
Foram para a entrada principal e Connor se aproximava da porta, %Annie% riu de leve ao ver Lynn se aproximar para beijar Connor de leve na boca.
Ele estava tão surpreso que nem conseguiu desviar.
- O quê? - ela perguntou inocente enquanto ele a encarava.
- Amor, eu estou em serviço. - ele alertou, olhando para os lados.
Lynn sorriu, cobrindo a boca com a mão.
- Opa!
- A gente conversa em casa. - ele piscou para ela de forma divertida e ela levantou as mãos em sinal de rendição. - Oi, %Annie%.
- Oi, Connor. - cumprimentou ele com um sorriso amarelo e juntou as mãos suadas.
- Vem, me acompanhem. - ele pediu, dando espaço para as duas irem na frente.
Já dentro da base, Connor as direcionou para uma das salas no segundo andar, %Annie% sentia o coração tão bater rápido que pulsava em sua orelha. Ficou confusa quando viu um homem de terno sentado em uma cadeira, não conhecia o rosto, devia ser um pouco mais velho do que %Ryan%.
- %Annie%, é um prazer conhecê-la. - estendeu a mão e ela segurou, apertando levemente, ainda com a testa franzida. - Eu sou Nicolas, advogado do %Ryan%.
%Annie% sentiu o queixo cair.
Ela tinha ouvido mesmo aquela palavra?
- Advogado? - ela encarou Connor, que estava com os braços atrás do corpo.
- Senta. - ele pediu, apontando para a outra cadeira, ao lado da cadeira que o advogado estava.
%Annie% o fez, esperando uma resposta.
- Eu vim para a leitura do testamento.
%Annie% piscou incontáveis vezes e levantou a mão.
- Que testamento? - perguntou, surpresa.
- Do %Ryan%. - Nicolas respondeu, analisando o rosto de %Annie%, a confusão estampada na cara dela e então trocou um olhar rápido com Connor. - Ele não te disse que fez um testamento?
- Não, eu nem sabia que ele tinha um advogado.
Ele sorriu contido, pegando o envelope na mesa.
- Trabalhei com %Ryan% na empresa do pai dele, quando eu fui demitido no período das invasões, %Ryan% me contratou como advogado particular dele. - olhou para o envelope. - Depois que ele ficou no hospital, me pediu para que redigisse esse testamento. - %Annie% não sabia o que dizer pois não fazia ideia de nada daquilo, o namorado nunca tinha comentado nada e não era tão recém assim. - Ele me deu instruções para que eu lesse primeiro para você aqui na base, era como se…
- Ele soubesse que alguma coisa ia acontecer. - ela concluiu, vendo-o concordar com a cabeça.
- Eu sinto muito, de verdade. - falou sincero e ela sorriu educada. - Nós já temos as duas testemunhas então, podemos começar?
%Annie% concordou com a cabeça, receosa.
A última coisa que pensava era no que %Ryan% poderia ter deixado para ela de bens materiais. A única coisa que ele podia ter dado, estava crescendo dentro dela.
Porém, foi impossível o queixo não cair ao ouvir que todos bens dele agora eram de propriedade de %Annie%, o carro, o apartamento, todo o dinheiro que tinha em sua conta no banco, não era uma quantia exorbitante mas era o bastante para conseguir se manter enquanto arrumava outro emprego.
%Annie% engoliu seco, sentindo o mundo à sua volta rodar e só se deu conta que estava prestes a desfalecer quando Lynn se aproximou.
- %Annie%?
- Eu estou bem. - garantiu, segurando a mão da amiga.
- Não tá nada, sua boca tá branca. - %Annie% queria retrucar mas não tinha forças. - Doutor, acho que é uma boa hora para dizer que a %Annie% está grávida do %Ryan%.
Nicolas abriu a boca, surpreso.
- Isso é uma boa notícia! Bom, de qualquer jeito %Annie% será responsável pelos bens do %Ryan% e quanto a herança, não se preocupe que eu cuidarei disso quando chegar a hora.
%Annie% o encarou ainda tonta.
- Herança?
- %Annie%, seu bebê é herdeiro legítimo de tudo o que a família %Mackie% tem, afinal é tudo do %Ryan%.
%Annie% levantou rapidamente e riu desacreditada. Tudo aquilo era demais para ela.
- Eu preciso de um ar, será que eu posso…? - apontou para a porta.
Nicolas concordou.
- Claro, já terminamos a leitura.
- Você está bem mesmo? - Lynn perguntou, preocupada.
- Estou. - garantiu. - Eu só preciso de cinco minutos sozinha.
%Annie% afagou a mão da amiga que sorriu de leve para ela antes de %Annie% sair da sala que parecia sufocá-la.
%Annie% fechou a porta e andou pelo corredor até encostar as costas na parede e fechou os olhos, respirando fundo.
Ela não sabia o que pensar primeiro.
A última coisa que queria era ter que lidar com a família %Mackie%, não queria o dinheiro deles, não queria nada!
Aliás, a única coisa que queria era distância. E era exatamente o que faria, se manteria longe o bastante para proteger seu bebê.
Levou a mão até a barriga, prometendo mentalmente que ninguém o machucaria, nem que ela tivesse que lutar com todas as forças para nadar contra a correnteza chamada Cristina.
Sentindo o sangue queimar por suas veias, ela abriu os olhos e deu de cara com Major Walker se aproximando dela, parecia preocupado e surpreso.
- %Annie%, o que faz aqui? Você está bem? - levantou as mãos para segurá-la pelos braços mas %Annie% se afastou sorrateiramente, um claro sinal para que ele se mantivesse longe.
- Connor me chamou, tinha algo importante para falar comigo. - foi vaga na resposta e isso não o pareceu convencer.
- Você está bem? - perguntou mais uma vez, firme.
Ela conteve a risada irônica.
Não era óbvio pelo estado dela? E porque ele agia como se ele realmente se importasse?
- O que você acha, Major?
%Annie% não deu tempo para ele responder, até porque ele provavelmente conseguia adivinhar a resposta, e saiu dali para voltar para a sala, sentindo os olhos de águia dele a seguirem até que ela estivesse longe.
Dentro da sala, %Annie% respirou fundo e forçou um sorriso para os três.
- %Annie%, por favor, se tiver alguma dúvida ou precisar de qualquer coisa, me ligue. - Nicolas estendeu um cartão para ela que o pegou prontamente.
- Claro, obrigada!
Ele se despediu e deixou Lynn, Connor e %Annie% na sala se encarando.
- A propósito, - Connor foi até a mesa e pegou 3 agendas escuras e um envelope. - %Annie% isso é seu. - estendeu para ela que encarou aquilo confusa.
- O que é?
Connor respirou fundo, encarando a esposa que o incentivou a continuar.
- Do %Ryan%. - ela o encarou no mesmo instante, apertando as agendas com força. - São os diários dele, %Ryan% escrevia todos os dias desde que entrou no exército e a carta… faz parte do protocolo escrever uma em todas as nossas missões caso aconteça algo conosco.
%Annie% encarou o envelope e os diários, eram incrivelmente pesados.
- Achei que você iria gostar de ficar.
%Annie% sorriu triste e levou os diários junto ao corpo.
- Obrigada, Connor.
Agora teria acesso ao ponto de vista do amado, mesmo que fosse tarde demais.
Mas pelo menos saberia as últimas palavras dele, de um jeito teria a sua despedida com %Ryan%.
Ela só não sabia se estava pronta para aquilo.
[...]
%Annie% fechou a porta da sala, sentindo um peso nos ombros e foi para o sofá da sala. Sua cabeça rodava e Lynn foi compreensiva o bastante para deixar a amiga em silêncio durante o trajeto de volta para casa, até tentou insistir em ficar com %Annie% enquanto os pais dela não chegavam, mas a amiga negou.
Tinha ocupado tempo demais de Lynn, afinal a amiga tinha uma viagem para fazer, e ela precisava ficar sozinha com o que %Ryan% tinha escrito.
Não sabia o que ler primeiro, e estava com um certo medo porque era a despedida que não tiveram, mas a sua ansiedade em saber o que estava escrito dizia que ela tinha que ler a carta primeiro.
Então em um impulso pegou o envelope, as mãos trêmulas e frias tiraram o papel e os olhos apressados correram pela letra familiar.
Não seria exagero dizer que na primeira palavra, os olhos dela se encheram de água, foi uma tarefa complicada ler enquanto chorava silenciosamente, tentou evitar que as lágrimas molhassem o papel mas uma delas chegou a fazer isso quando estava no final da carta.
Ela trincou os dentes para conter o soluço e suas mãos afastaram a carta devagar assim que terminou de ler, encarou o nada enquanto absorvia as últimas palavras de %Ryan%.
Doía saber que ela não estava do lado dele, fez planos para que o dia da morte dele fosse dali há pelo menos uns 60 anos, que ela estaria ao lado dele segurando a mão depois de terem vivido toda uma vida completa.
Se ele pelo menos soubesse que ela estava esperando um filho dele antes de partir…
Agora tudo o que segurava era a carta, as últimas palavras dele direcionadas a ela.
Não reparou quando os pais entraram na casa e dando de cara com %Annie% chorando copiosamente na sala, ambos se aproximaram rapidamente, abraçando-a pelos ombros.
- Filha, o que foi? - a mãe perguntou, acariciando o rosto dela para secar as lágrimas.
- É a última carta do %Ryan%. - estendeu o papel e o pai pegou, lendo brevemente.
Ele fez uma careta de tristeza pela filha e deixou a carta em cima da mesinha de centro da sala antes de beijar o tipo da cabeça da filha.
- Eu sei, machuca tanto que parece que nunca vai passar. - acariciou os cabelos dela, que cedeu com o carinho. - Viva o seu luto, princesa, chora o que você tiver que chorar mas lembre-se que você precisa se levantar. %Ryan% não iria querer que você ficasse assim.
Ela concordou com a cabeça limpando o rosto e encarou os pais.
Ela tinha muita sorte de tê-los ao lado dela, sabia que podia contar com eles em qualquer situação, o fato de terem rodeado-a de amor nos últimos dias provava isso.
Não sabia como dar a notícia para eles, bom, as notícias, mas sabia que não poderia e nem queria esconder ou fazer rodeios então optou por falar de uma vez.
- Eu estou grávida dele. - falou baixo, sem força na voz.
O pai engasgou com a própria saliva e a mãe arregalou os olhos.
- O quê? - ela perguntou, sem acreditar. - Você tem certeza?
%Annie% assentiu.
- Eu fiz o exame de sangue e não tem erro. - ela levou a mão até a barriga.
A sala ficou em silêncio por pouco tempo, mas foi o bastante para preocupar %Annie%.
Sempre considerou os pais os mais compreensíveis que tinha visto mas tinha uma pontinha de medo da reação deles, não era bem o futuro que %Annie% ou eles haviam planejado para ela porém não dava para simplesmente negar que aquilo estava acontecendo.
- Eu sempre quis ser avô, só não imaginei que fosse tão rápido. - ele riu.
- É uma loucura, eu sei… - %Annie% começou mas foi interrompida pela mão da mãe sobre a sua.
- Mas é uma dádiva, filha. - olhou para a barriga de %Annie% completamente maravilhada. - %Ryan% deixou um pedacinho dele para você, em meio a tanta dor você tem pelo o que lutar.
Os olhos de %Annie% encheram de lágrimas.
- Nós estamos aqui, por você e pela minha neta. - Alexander levou a mão sobre a da esposa, os três acariciando a barriga de %Annie%.
%Annie% o olhou confusa.
- Espera pai, eu ainda não sei se é menina ou menino.
- Eu sei que é menina.
- Eu não sei, querido. %Annie% andou muito enjoada essa semana, deve ser um menino. - %Annie% encarou a mãe. - Eu fiquei muito enjoada quando estava grávida do seu irmão.
- Vocês… vocês já sabiam? - gaguejou, confusa com a reação tão calma dos dois.
Alexander e Sandra se entreolharam, sorrindo cúmplices.
- Estávamos desconfiados há um tempo. - ela sorriu, fazendo %Annie% piscar algumas vezes.
- Só estávamos respeitando o seu luto, sabíamos que ia chegar a hora de você descobrir. - ele deu de ombros. - Ah, precisamos achar um cantinho para o bebê no quarto da %Annie%. - levantou do sofá. - Eu vou pegar a fita métrica.
%Annie% riu ao ver o pai ir em direção a escada.
- Onde você vai?
- Medir o espaço para colocar o berço. - respondeu com obviedade.
- Pai, eu estou para fazer três meses. - explicou. - Tem tempo ainda.
- Explica para a sua filha como funciona!
- Minha princesa, nós temos que correr, pode acreditar. - Sandra levantou do sofá e a puxou levemente para fazer o mesmo. - Temos muita coisa para fazer até lá, abre o computador que eu te falo tudo.
%Annie% concordou e saiu da sala rindo da pressa dos pais, como se o bebê fosse nascer amanhã, mas não iria discutir pois era mãe de primeira viagem.
Confiava nos pais e deixaria que eles a guiasse, afinal ninguém melhor do que eles para ensinar como ser uma mãe de verdade.
Para trás, deixou os diários ainda fechados de %Ryan% e a carta.
%Annie%,
Meu amor, minha luz.
Por favor, me perdoe se um dia esse envelope chegar até você. Significa que eu não consegui cumprir a única promessa que realmente valia para mim.
Que eu voltaria para você.
Me odeie o quanto quiser porque eu mereço, embora eu saiba que você jamais o fará porque é pura de coração.
Todas as vezes que escrevo esse tipo de carta para você, fico com medo. Não é medo da missão, eu não tenho medo de fuzis ou bombas, mas medo de te deixar indefesa e ferida.
Eu sei que abri um buraco no seu coração que nunca vou reparar e não estava nos meus planos fazer isso uma segunda vez.
Saiba que eu me odiei todas as vezes que lembrei das lágrimas que você derramou por mim e me odeio agora por fazê-la sofrer de novo pela minha partida.
Eu tentei lutar contra isso, acredite em mim, mas tem coisas que eu não posso te explicar e são elas que me levaram para longe.
Me perdoe.
E saiba que você nunca me perderá, %Annie%, você sempre teve e sempre vai ter o meu coração. Não importa para onde eu vá ou esteja, você sempre me terá vivo dentro de você.
Eu espero que o meu amor por você tenha sido o bastante para convencê-la disso, de que você é a pessoa mais importante para mim, é a única pela qual eu morreria.
Você sabe disso, não é?
Por favor, não chore tanto por mim, não consigo ter essa imagem de você sem me sentir culpado.
Não se esqueça de você mesma. Viva o seu sonho, meu amor, seja lá qual for. De um jeito ou de outro eu vou te ajudar.
Eu sempre acreditei em você.
Você consegue conquistar tudo o que quiser.
Me perdoe mais uma vez.
Nunca se esqueça do quanto eu te amo.
Eternamente e muito além disso,
O seu %Ryan%.
[...]
%Annie% tamborilava os dedos contra a mesa à espera do secretário, que estava atrasado.
Depois de muito conversar com os pais e pensar, tinha decidido pedir demissão para seguir a carreira de cozinheira.
O trabalho no departamento era bom e ganhava um salário razoável mas nada daquilo valia sua saúde mental, não conseguia desvencilhar aquele lugar do fatídico dia da missão de %Ryan% e aquilo estava fazendo mal a ela, sequer teve vontade de levantar para ir.
E agora tudo o que pensava era no bebê que esperava, precisava estar bem para que o bebê também estivesse.
Depois que pedisse demissão, iria até o apartamento do %Ryan%. Decidiria o que levaria para casa consigo, o que doaria e principalmente, o que faria com o apartamento.
Mas para isso precisava de um tempo sozinha.
Arrumou a posição ao ouvir o elevador chegar e se levantou, vendo o secretário chegar apressado.
- Bom dia, %Annie%.
- Bom dia, senhor. - o acompanhou até a sala, sentindo as pernas bambas. - Poderia falar com o senhor por cinco minutos?
O secretário parou por um minuto, analisando o rosto dela.
- Claro, sente-se. - indicou para a cadeira e %Annie% entrou atrás dele, fazendo o que ele disse.
O secretário sentou-se em sua cadeira, apoiando as mãos entrelaçadas em cima da mesa, e olhou para %Annie% esperando que ela falasse.
Ela estava nervosa, é claro, nunca tinha pedido demissão antes e não sabia como o secretário iria reagir, não tinha medo dele mas estava sim receosa.
- Senhor, eu só queria dizer que agradeço por toda a experiência que adquiri aqui nos últimos tempos e pelo o que o senhor fez quando… quando o %Ryan% se foi.
Ela era grata pela consideração do secretário, ele teve a empatia de deixar que %Annie% decidisse o seu tempo, que ela decidisse quando se sentia apta a voltar. E também porque o funeral tinha sido organizado por ele.
- Não se preocupe, %Annie%, você não foi a única a perder alguém nessa situação.
%Annie% suspirou. A primeira esposa do secretário tinha sido morta em um assalto a mão armada, ele salvou o filho mas não pôde salvar a mulher.
Só conhecia o caso pelo o que tinha lido, nunca tinha conversado com ele sobre, até porque o secretário não era um homem tão aberto a conversas.
- Por isso eu queria agradecer antes de qualquer coisa. - ela sorriu de leve e ele estreitou os olhos.
- Tem algo a mais, não?
%Annie% respirou fundo.
- Eu estou grávida. - o secretário levantou as sobrancelhas, surpreso. - E bom, na verdade eu…
%Annie% foi interrompida pelo celular do secretário, ele bufou antes de tirar do paletó e ver quem era.
- Desculpe, eu preciso atender. Retomamos em um minuto. - disse antes de atender, - Pronto, Walker.
%Annie% sentiu um arrepio estranho na espinha ao ouvir o nome do Major.
- O quê?! Quando? - o secretário passou a mão pelo rosto. - Certo, eu estou indo para aí.
Assim que desligou o celular, se levantou.
- %Annie%, teremos que conversar mais tarde, me desculpe.
- Ah, tudo bem. - ela levantou e o secretário começou a sair da sala, fazendo-a segui-lo.
- Por favor, no caminho ligue para o governador, precisaremos de uma reunião urgente.
- No caminho? De quê?
- Até o prédio de um dos membros da equipe alfa. - %Annie% sentiu o sangue gelar. - Tivemos mais um ataque, dessa vez envolvendo civis.
%Annie% arregalou os olhos e correu para pegar sua bolsa antes de ir com o secretário até o elevador.
Até então não tinha acompanhado o secretário em ação, até porque a maioria das tarefas eram realizadas ali no prédio, o Major quase não saía porque aquilo era função do exército mas agora as coisas pareciam fora do controle, e ela sentiu a diferença quando entrou no carro blindado.
Ligou para o governador enquanto o carro corria em alta velocidade pelas ruas, se ela não tivesse colocado o cinto seria jogada de um lado para o outro. Toda a atmosfera do lugar indicava pressa e aflição, o secretário conversava com o comandante da polícia militar pelo telefone, estava visivelmente incomodado com aquela situação.
Estavam atacando o exército a luz do dia no meio da rua!
Se aquilo não era um atentado, então o que era?
%Annie% não estava raciocinando direito, ela não conseguia acompanhar o próprio pensamento.
Estavam indo atrás da equipe alfa, mas porque?
Assim que o carro parou, ela desceu logo depois do secretário e andou ao lado dele até o local do ataque que estava sendo isolado pela polícia.
%Annie% observou com atenção e horrorizada, viu os bombeiros trabalharem na carcaça de um carro que pegava fogo na calçada, exatamente como daquela vez no atentado ao departamento, vários policiais estavam em volta e ela viu duas pessoas conhecidas, uma sentada no meio fio e a outra de pé ao lado.
- Claire!
%Annie% viu a esposa de Tej levantar a cabeça para encará-la e se levantou para abraçá -la forte.
%Annie% sentia Claire tremer, ela não estava chorando mas estava em pânico, qualquer um percebia aquilo. Qualquer um no lugar dela estaria da mesma forma.
- Meu Deus, você está bem? Está ferida? - %Annie% perguntou, preocupada e se afastou para observá-la.
- Estou bem. - a voz trêmula indicava exatamente o contrário do que tinha dito. - Foi um susto.
%Annie% encarou Tej, ele conversava com o policial e o secretário, e mesmo mantendo a postura rígida a expressão dele era de puro ódio.
- O que houve? - afagou o braço gelado de Claire.
- Estávamos saindo para trabalhar, o Thiago já tinha colocado a chave no carro quando eu lembrei que tinha esquecido meu carregador, quando ele deu um passo para trás percebeu que tinha algo errado, ele veio correndo e só deu tempo de abaixarmos antes do carro explodir.
%Annie% a encarou apreensiva. O padrão era o mesmo do ataque ao lado do prédio.
- Confesso que não sei o que vamos fazer. - Claire deu de ombros. - Já passamos por situações perigosas antes, mas nunca assim.
%Annie% observou o que sobrou do carro mais a frente.
Primeiro o departamento, depois %Ryan% e agora Tej… parecia bem claro para ela.
Estavam caçando a equipe alfa.
- Vocês não podem ficar aqui. - %Annie% falou e Claire concordou.
- Talvez eu vá para a casa dos pais do Thiago no sul. - falou incerta, olhando para o marido. - Eu sei que lá estarei segura.
- E o Tej?
Claire riu de leve.
- Ele não vai sair da cidade até encontrar quem precisa. - respondeu com convicção. - Estão mexendo com a equipe errada.
%Annie% suspirou, sem saber o que dizer.
Se perguntou quantas vezes %Ryan% tinha sofrido um ataque e nunca comentou com ela, porque não era possível que aquilo estivesse acontecendo apenas agora.
“Mas tem coisas que eu não posso te explicar e são elas que me levaram para longe.” será que era isso que ele se referia na carta?
Será que %Ryan% sabia quem estava indo atrás do exército?
A invasão no apartamento de %Ryan% tinha relação com aqueles ataques?
Bom, só existia um jeito de saber a resposta, ler os diários de %Ryan% que estavam em sua bolsa.
Tinha planejado uma manhã bem diferente para aquele dia.
%Annie% ficou do lado de Claire enquanto Tej dava seu depoimento e explicava tudo à polícia e depois quando a equipe alfa chegou.
Ela não sabia o que aconteceria dali para frente, por isso abraçou Claire antes da amiga subir para fazer sua mala, Tej acompanhou a esposa e sorriu contido para %Annie% em agradecimento.
Quando viu o Major Walker mais a frente, decidiu falar com o secretário, tecnicamente não tinha voltado a trabalhar naquele dia, afinal ia pedir demissão, então por hora só pediria dispensa.
- O senhor precisa de mim para alguma coisa? - perguntou, assim que o policial que conversava com ele saiu.
- Não, %Annie%, pode ir para casa. No seu estado, - apontou para a barriga dela. - esse tipo de agitação não fará bem para você ou o bebê.
Ela sorriu de leve, agradecida e aliviada.
- Terminamos a nossa conversa amanhã, tudo bem? Venha no período da tarde. - pediu e ela concordou com a cabeça.
- Obrigada, senhor. - agradeceu verdadeiramente e ele assentiu.
%Annie% respirou fundo antes de ir em direção ao carro que tinha levado-a até lá para pegar sua bolsa, pegaria um táxi para levá-la até o apartamento de %Ryan%.
Olhou uma última vez para a cena do atentado e engoliu seco com o estranho paralelo que estava vivendo ali, mais um carro queimado que tinha um alvo certo.
Quando aquilo iria parar? Porque estavam fazendo aquilo e o principal, quem estava por trás dos ataques?
Ela piscou ao perceber que seu olhar tinha se perdido na carcaça do carro e então sentiu-se observada, não precisou procurar demais pois o Major Walker estava um pouco mais atrás do que havia restado do carro encarando-a intensamente.
%Annie% não gostava da forma como ele a olhava, era assustador, exatamente como uma cobra que olhava sua presa prestes a dar o bote. Ela não só se sentia incomodada como também se sentia pequena e vulnerável.
Ela afastou o olhar, segurando a bolsa com mais firmeza e se afastando daquela cena que não estava lhe causando nada além de apavoro.
Pegou o táxi no outro quarteirão por causa do isolamento e sua cabeça vagou pelas perguntas que a carta de %Ryan% havia deixado.
Involuntariamente começou a morder a pelinha da boca, mesmo que o caminho não fosse tão longo parecia que estava naquele carro há horas.
Quando o táxi parou em frente ao prédio e ela pagou a corrida, ao sair do carro sentiu um vento gelado contra seu corpo no mesmo momento que seu coração afundava.
Mesmo que tivesse um carinho especial pelo lugar, não podia deixar que as lembranças amargas inundassem sua cabeça enquanto entrava no prédio.
O corredor do andar do apartamento de %Ryan% parecia mais vazio e escuro do que de costume e abriu a bolsa para pegar o molho de chaves.
Suspirou antes de abrir a porta e mordeu o lábio para conter a vontade súbita de chorar ao sentir o cheiro de %Ryan%.
Foi uma sensação estranha entrar sozinha, sabendo que o amado não estaria ali esperando-a no final do corredor como acontecia.
Tudo ainda estava como %Ryan% havia deixado, o controle da tv em cima do sofá e as cortinas abertas, %Annie% observou o apartamento com atenção, tentando se prender a cada detalhe.
Não sabia por quanto tempo ainda ficaria daquele jeito, do jeito que %Ryan% gostava, nem sabia o que faria com o imóvel.
Deixou a bolsa em cima do sofá e tirou os sapatos, indo para o quarto. Observou a cama feita, flashes de todas as vezes que dividiram aquela cama iam e vinham, negou com a cabeça para tentar voltar a realidade e olhou para o guarda roupa.
Sem conseguir se conter, foi até lá e abriu as portas, o perfume de %Ryan% estava impregnado em tudo e %Annie% tocou as roupas do amado enquanto sorria triste.
Estava em uma batalha interna, queria chorar mas se lembrava do pedido de %Ryan% na carta. Não parecia suficiente todas as lágrimas que havia derramado, mas não parecia justo ficar ali só chorando.
Não queria que seus dias se resumissem a isso, mesmo estando sozinha ali e tendo a liberdade para soltar o grito que estava preso em sua garganta, ela não queria continuar sofrendo.
Não era isso que ele tinha pedido.
%Annie% fungou o nariz e fechou as portas do guarda-roupa, respirando fundo antes de sair do quarto.
Foi para a sala e se jogou no sofá, tirando os diários da bolsa, viu que estavam marcados com números então começou pelo ‘1’.
Primeiro dia.
Eu não sei porque achei que fosse uma boa ideia começar a escrever mas foi a única forma de colocar para fora tudo o que está preso aqui. Já que estou sem amigos e sem família para conversar.
Estou no avião a caminho da base, só consigo ver novatos como eu, alguns esperançosos e outros parecem prontos para morrer.
E tem eu.
Que já estou morto por dentro, pelo menos hoje.
Vi a %Annie% no aeroporto e foi muito pior do que se eu tivesse levado um tiro, a cara dela de tristeza está presa na minha cabeça.
O que me matou é saber que eu tornei as coisas ainda piores na noite anterior.
Talvez eu mereça o ódio que ela deve sentir por mim, eu também me odeio por isso.
Eu não queria que as coisas tivessem acabado dessa maneira, eu nem queria que tivesse acabado.
Eu poderia facilmente ter sido dispensado da convocação com a influência do meu pai, se a minha família não fosse tão mesquinha.
Mas vendo os rostos dos soldados aqui, eu tenho cada vez mais certeza do meu impulso. Seria justo eu viver a minha vida normalmente enquanto outros sacrificam as suas para proteger o que eu conheço?
Talvez ser um pouco altruísta como a %Annie% vá me fazer bem, de um jeito vai acabar me aproximando dela mesmo que nós estejamos tão distantes um do outro.
Por culpa inteiramente minha.
Ouvi alguns superiores dizerem para aproveitarmos o tempo do voo para dormir porque não faremos isso na base e nem no front.
Mas eu não acho que alguém aqui vai conseguir dormir.
Eu deveria tentar mas desde que eu e %Annie% terminamos parece que não tenho controle sobre as minhas vontades, eu sempre volto para a cena dela chorando na minha frente.
Eu não sei o que o futuro vai me reservar, mas se eu pudesse ter uma última chance com ela, nem que fosse um dia só… eu daria a minha vida por isso.
%Annie% pulou de susto quando a campainha estridente furou a bolha em que estava, o coração foi na boca e ela encarou a porta.
Desconfiada, afinal apenas seus pais sabiam que ela estava lá, não pensou duas vezes antes de puxar a sua arma da bolsa, sentindo a adrenalina percorrer seu corpo quando a campainha tocou mais uma vez.
Levantou do sofá e em passos lentos foi até a porta, segurando a arma com mais firmeza, respirou fundo antes de olhar pelo olho mágico da porta, mas quem quer que fosse não estava no campo de visão.
Destravou a arma como %Ryan% havia ensinado e deixou atrás do corpo antes de abrir a porta e ela quase sacou a arma se não tivesse visto o Major Walker parado ao lado do batente da porta.
Não levantou a arma por causa do susto.
- Major, o que faz aqui? - perguntou, sentindo a adrenalina cair ligeiramente.
- Posso entrar? - perguntou, pidão, os olhos praticamente suplicando.
%Annie% ponderou, queria muito dizer que não, mas queria saber o que ele estava fazendo ali e como sabia que ela estava lá.
Por fim, concordou com a cabeça e deu espaço para ele entrar, colocando a arma no cós da calça enquanto o Major ia para o meio da sala parecendo visivelmente apreensivo.
E pareceu piorar quando ele observou os diários em cima do sofá.
- Então, Major. - %Annie% chamou atenção dele, cruzando os braços. - O que veio fazer aqui?
- Eu fiquei preocupado quando vi você sair de lá sozinha, depois de tudo o que tem acontecido com a equipe alfa, me senti responsável por você…
%Annie% franziu a testa.
- Como você sabia que eu estaria aqui?
Major engoliu a resposta que daria e %Annie% o observou com atenção.
- Eu não tive outra alternativa, %Annie%.
Ela riu, incrédula.
- Você me seguiu?!
Major não parecia nem um pouco abalado com a acusação e foi o suficiente para %Annie% entender a resposta. Ele era cheio de dedos para dar as respostas do que ela perguntava mas ele era fácil de ler.
Na verdade, as intenções dele eram cristalinas. Sempre foram.
- Foi necessário. - se justificou e ela negou com a cabeça.
- Eu sei me defender!
- Não, você não sabe! - ele falou firme e ela abriu a boca para retrucar. - Você não sabe com quem estamos lidando e ainda mais com a sua atual situação. - ele apontou para ela.
%Annie% parou onde estava, os braços caindo ao lado do corpo.
- Minha situação?
O Major respirou fundo e a encarou, meio magoado.
- Eu sei que você está grávida. - %Annie% o encarou surpresa e ficou sem resposta. - O secretário me disse depois que você foi embora mas eu já desconfiava.
- Como? - ela perguntou baixo.
Ele sorriu triste.
- Não é difícil de perceber, %Annie%, qualquer pessoa que te observe por mais de 5 minutos pode notar. Você está brilhando, está mais bonita, parece que ganhou a vida novamente. - ela abaixou a cabeça, sem saber o que dizer e ele aproveitou a deixa para dar um passo em direção a ela. - Por isso eu vim aqui, eu precisava saber que você estava bem e segura. Atacaram a esposa do Tej e ele a luz do dia, imagina o que fariam com você.
%Annie% engoliu seco, sentindo um gosto amargo na boca e um arrepio pela espinha. Não gostava nem de pensar nisso.
- Eu estou bem, como você pode ver.
%Annie% deu um passo para se afastar mas não chegou a fazer já que o Major a segurou pelo braço.
- Mas pode ficar melhor, %Annie%.
Ela o encarou, estreitando os olhos.
- O que quer dizer?
Major levou a outra mão para segurar o outro lado do corpo de %Annie%, sem desviar os olhos dos dela.
- Me deixe protegê-la, me deixe cuidar de você.
%Annie% negou com a cabeça.
- Major…
- Case-se comigo. - pediu e %Annie% prendeu a respiração involuntariamente.
Ela sentiu o corpo enrijecer e o anel que %Ryan% havia dado queimava em seu dedo, piscava sem parar como se não acreditasse que tivesse ouvido aquilo.
E de fato, não acreditava.
Talvez tivesse ficado surda momentaneamente e tivesse entendido errado.
- Como é? - ela perguntou, desacreditada. - Eu acho que entendi errado…
- Não, %Annie%, você escutou muito bem. - Major aproximou o tronco do corpo de %Annie% e quase a tocou. - Quero que case comigo. Eu posso proteger você e o seu bebê.
Ela sentiu o mundo rodar a sua volta e o aperto do Major não parecia certo, por isso ela colocou os punhos contra o peito dele e se afastou, virando de costas para afagar a própria testa.
- Eu não posso… - sussurrou mas ele não pareceu escutar.
- Você sabe que eu nunca te esqueci e eu continuei te amando apesar de tudo.
%Annie% colocou as mãos nos ouvidos e fechou os olhos, não era do Major que queria ouvir aquelas palavras, não quando os diários de %Ryan% estavam no sofá bem ali, ao lado deles.
- %Annie%… - o Major se aproximou, virando-a de frente para ele e ela abriu os olhos.
- Eu não posso me casar com você. - respondeu, apoiando as mãos nos braços do Major.
- E por que não? - questionou, sério. %Annie% estava pronta para mostrar a aliança que ainda usava, mas ele não deu tempo dela responder. - %Ryan% está morto e você corre perigo, o seu filho corre perigo!
Ela quis chorar, principalmente porque não podia negar que aquilo era verdade.
Mas como poderia casar com o Major se não o amava?
Claro, ele poderia protegê-la mas não era justo. Era tudo tão recente, não tinha dado nem uma semana que %Ryan% tinha partido e ela já teve que tomar grandes decisões.
Mas abrir seu coração para o amor novamente… ela não sabia se tinha essa capacidade de se apaixonar, quem dirá amar alguém como amava %Ryan%.
Porque no fundo sabia que nunca amaria ninguém como o amava.
- Eu preciso pensar. - respondeu, fraca, sentindo um enjoo na ponta de sua barriga.
- %Annie%, por favor…
- Major, essa não é uma resposta que eu consigo te dar agora. - falou um pouco mais firme, encarando-o. - Eu preciso de um tempo para organizar as minhas ideias. Eu ainda amo o %Ryan%.
As mãos do Major soltaram %Annie% devagar ao ouvir a última frase e os olhos dele cederam, desviando dos de %Annie%.
- Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e eu preciso pensar no meu bebê antes de qualquer coisa.
Ele sorriu triste.
- Eu espero o tempo que for.
%Annie% suspirou, assentindo.
Era possível que ele esperasse mais tempo do que imaginava.
Nota da Autora: Olha eu aqui de novo 👀
Eu queria poder avisar de uma forma diferente, mas eu gosto de puxar o curativo logo de uma vez para não prolongar a dor hahah talvez eu não consiga mais atualizar tão rápido assim os capítulos como eu estava querendo, mesmo adiantando tudo, eu terei uma MEGA mudança no segundo semestre desse ano que vai me consumir por inteira.
Calma, eu não vou abandonar a história!!! Nem se eu fosse muito louca, fala sério eu tô com esse plot preso na minha cabeça tem 4 anos.
É temporário, juro. Eu vou continuar escrevendo, vocês terão capítulos novos que irão se estender até 2025 provavelmente.
Sim, eu planejava finalizar agora esse ano, mas é claro que eu tinha que deixar tudo mais emocionante 😆
Então, esperem por mim porque eu não vou sumir do mapa e deixar vocês teorizando sobre qual seria o final (experiência própria porque eu ainda faço isso com as minhas fanfics favoritas).
Vou tentar correr para não deixar vocês esperando por tanto tempo assim.
Até o próximo capítulo ❤️