Capítulo 09 • The world we know turns in the wind
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Há 3 anos e 2 meses. Aeroporto Internacional.
06:25 AM
%Annie% sentia os olhos secos irritados e pesados enquanto abraçava a mãe pelos ombros, os pais estavam de cada lado de Joe e andavam até o portão de desembarque do voo do novo soldado.
Ela já tinha chorado tanto, nem sabia como era possível seu corpo produzir tantas lágrimas e seu coração doer daquela forma.
Sentia tantas coisas ao mesmo tempo que a deixava confusa. Seu coração tinha sido quebrado, uma guerra iminente estava prestes a acontecer enquanto seu irmão estava indo para a batalha para poupar o pai.
Estava completamente triste, como se uma enorme nuvem escura estivesse pairando em sua cabeça e tudo o que tentava fazer era convencer a si mesma que tudo acabaria bem.
Na madrugada daquele mesmo dia, quando terminou tudo com %Ryan%, assim que se cansou de soluçar e sentir as lágrimas quentes, seu celular tocou. Era Lynn. Não queria conversar com a melhor amiga, ainda estava chateada com ela mesmo que entendesse os motivos para a mentira, porém não era muito comum que a amiga a ligasse naquela hora então atendeu preocupada.
Achou que teria notícias piores e estava certa, aquele dia parecia estar cercado de notícias ruins, quando a amiga avisou que %Ryan% havia se alistado e embarcaria junto com a maioria dos soldados, %Annie% perdeu a fala.
Tinha o perdido e sequer tiveram uma despedida como gostaria, até porque, terminar o que sequer tinham começado não estava em seus planos.
Bom, nem sendo enganada estava.
Não dormiu aquela noite, continuou chorando completamente destruída, já tinha sido o bastante saber que seu irmão iria para o front, descobrir que %Ryan% também e que provavelmente jamais voltaria tinha sido a gota d'água.
Ao mesmo tempo em que se convencia que era assim que as coisas tinham que acabar, uma parte de si não se conformava. E mesmo com raiva, pediu a Deus que ele ficasse bem, pelo menos vivo.
Não pedia para que ele voltasse para ela, apenas que não morresse.
Aquele dia estava atípico, era verão e a expectativa era de sol forte e céu aberto, entretanto, como se o tempo estivesse de acordo com o humor de uma grande parte da população, o céu estava carregado, já havia chovido bastante na madrugada e, mesmo dando uma amenizada pela manhã, era um dia feio. Em todos os sentidos.
%Annie% suspirou quando encontraram o portão, o que mais via no aeroporto eram soldados uniformizados e suas famílias os acompanhando, todos estavam vivendo a mesma coisa ali. A dor da despedida.
Joe demorou um tempo abraçando os pais que voltavam a chorar, desejando sorte e que o rapaz se cuidasse, foi uma tarefa bem difícil, a de se manter forte, mas Joe conseguiu segurar as lágrimas.
Quando ele virou para abraçar a irmã mais nova, ela sorriu triste e enterrou o rosto no peito dele, abraçando-o com força e medo. Mesmo sendo mais velho e às vezes implicavam por bobeira, ela o amava demais e aquela situação era a última que gostaria de ver seu irmão passar.
- Cuida dos nossos velhos - ele sussurrou para ela que concordou com a cabeça, não conseguia falar pois estava com um nó na garganta. - Eu te amo, pirralha.
- Eu também te amo - ela respondeu baixo e se afastou do irmão para poder colocar as mãos no rosto dele. - Se cuida, por favor.
Ele sorriu de leve, não queria preocupá-los.
- Eu vou escrever para vocês. - ele avisou, olhando para os pais.
Ela concordou com a cabeça. A notícia de que os soldados não poderiam levar celulares pegou todo mundo desprevenido, ninguém queria ficar sem notícias de seus entes queridos, saber que cartas seriam autorizadas era um alívio e uma preocupação ao mesmo tempo.
Porque significava que algo de muito mais sério do que tinha sido anunciado estava acontecendo.
Joe então arrumou a mala militar no ombro e a mãe o abraçou mais uma vez, ele a beijou na testa antes de se afastar, estava sendo muito mais difícil para ele. Com os ombros encolhidos, ele foi para o portão de embarque e se despediu com um aceno, %Annie% se aproximou dos pais e sorriu triste para o irmão e o viu desaparecer.
Suspirando, ela torceu a boca sem saber o que dizer, tudo o que ouvia era a despedida das outras pessoas e os soluços. Não era a melhor atmosfera para se estar.
%Annie% olhou para o lado a fim de fazer as lágrimas desaparecerem, porém seus olhos encontraram um par extremamente familiar e ela parou onde estava. Foi impossível segurar as lágrimas dessa vez, principalmente porque os olhos que a encarava firmemente estavam tristes assim como os dela, talvez até mais.
Tudo o que ela queria era correr para abraçá-lo e até mesmo chegou a dar um passo para frente para fazê-lo, mas não continuou porque seu coração apertado não deixou. Doía olhar para ele e doía ainda mais estar longe dele.
Ela desviou o olhar rapidamente, olhando para os próprios pés sem saber o que pensar e a cabeça agora rodava. Estava difícil respirar, sabia que ele ainda a olhava e estava com medo de ceder.
Não era orgulhosa, mas estava tão magoada que não queria falar com ele, já tinha tomado sua decisão. %Ryan% precisava de alguém como ele, ela nunca seria boa o bastante.
Ela respirou fundo e voltou a encará-lo, forçando o maxilar para que as lágrimas não caíssem, o olhava com tristeza e raiva. Tristeza por tudo o que não podiam mais viver e raiva por ainda estar apaixonada por ele.
Já %Ryan% tinha um olhar desesperançoso.
Ele apertou a alça da bolsa no ombro e começou a andar para o portão de embarque sem desviar o olhar de %Annie%, não era aquela a última lembrança que queria ter dela, não queria lembrar dela chorando e magoada com ele. Mas ele tinha causado aquilo então precisava lidar com a situação, mesmo que sentisse como se seu coração estivesse sendo esfaqueado ao ver a cena.
Só que mesmo longe dela e ao mesmo tempo perto, era daquela figura delicada que estava tirando forças para fazer o que estava fazendo. Era seu primeiro passo em direção a liberdade que queria e precisava ter.
Não tinha tanto medo da guerra, tinha medo de nunca mais ver %Annie%.
Tinha tanta coisa para falar para ela, tanto que se explicar mas aceitava que %Annie% não merecia perder seu tempo com ele, já tinha feito o bastante.
A troca de olhares pareceu uma eternidade mas não era o suficiente para dissipar a saudade que ambos sentiam um do outro, se sentindo a pessoa mais fraca do mundo ela apenas viu quando %Ryan% abaixou a cabeça e foi embora, levando consigo parte do coração dela.
E %Ryan% respirou fundo, se xingando um milhão de vezes de uma coisa que ele sabia que era, covarde.
%Annie% sentiu os ombros cederem e negou com a cabeça para tentar, mesmo que inutilmente, esquecer tudo o que havia acontecido naquele dia que tinha acabado de começar.
Foi a primeira vez que ela perdeu %Ryan%.
[...]
Atualmente. Departamento de Segurança.
18:08 PM.
%Annie% abriu os olhos sentindo uma lágrima solitária escorrer por seu rosto porém com uma certa dificuldade, os olhos ainda molhados doíam, sua cabeça estava pesada e o corpo parecia fraco demais. Ela tentou se sentar, mas uma mão em seu ombro a impediu.
- Não se levante. - Major falou.
Ela olhou em volta e reconheceu a sala do seu chefe, estava sentada no sofá pequeno que tinha ali, mas não entendia como tinha ido parar lá.
A última coisa que se lembrava era ter fechado os olhos com força, pedindo para que fosse levada para longe.
- O que…? O que aconteceu? - a voz saiu tão fraca e baixa que não sabia se ele tinha entendido.
Major respirou fundo e a olhou preocupado, com a testa franzida.
- Você desmaiou - ele explicou e ela forçou o corpo para poder sentar. - Não se esforce.
Ela ignorou, pareceu mais uma ordem vinda dele do que pedido, ela não queria ficar deitada ali na sala do chefe.
Não quando ainda não entendia o que tinha acontecido, ou pelo menos não aceitava o que tinha acontecido.
As imagens da missão da equipe alfa passavam em sua cabeça tão rápido que ela não conseguia organizar as ideias, ia e voltava sem parar como várias abas abertas ao mesmo tempo de um navegador.
%Annie% tentou levantar do sofá e cambaleou um pouco, Major prontamente ficou do lado dela para segurá-la, mas ela o afastou, ainda conseguia se manter de pé sozinha mesmo que a cabeça estivesse doendo pelos pensamentos acelerados.
- Quanto tempo eu apaguei? - sentiu a garganta ceder, forçando para que a voz saísse.
- Uns 20 minutos.
Ela concordou com a cabeça com uma enorme dor no peito, levou a mão para afastar o cabelo do rosto e passou a mão na testa, tentando juntar as peças do quebra cabeça.
- Qual o… o que você vai fazer? - ela perguntou ainda confusa, observando o Major.
Não sabia quais os procedimentos deveriam ser tomados naquela situação e mesmo incomodada com a presença dele ali, sua ansiedade era maior. Alguma coisa precisava ser feita.
- As coisas ficaram fora de controle, claramente era uma emboscada. - ele respirou fundo, apoiando as mãos na cintura. - Mandei que a equipe alfa voltasse imediatamente para cá.
%Annie% sentiu o coração afundar.
- Mas… mas e o %Ryan%? - ela engoliu seco a vontade de chorar.
Major pareceu pensar demais para responder e aquilo deixou-a aflita, ele se aproximou para apoiar uma mão no ombro dela e %Annie% simplesmente não sentiu nada, por isso não se afastou.
- Assim que for possível e seguro, eu irei autorizar as buscas. - ela o olhou esperançosa mas os olhos do Major não traziam nenhum tipo de conforto. - Mas eu preciso te alertar, %Annie%, a cabana onde %Ryan% entrou foi atingida por um RPG. - Ela desviou o olhar por um segundo. - Mesmo que ele sobrevivesse e estivesse entre os escombros… pode ser tarde demais quando voltarmos.
Ela voltou a encará-lo e analisou o rosto do Major, ele estava convicto daquilo e parecia bem relutante em dar uma chance a tentar trazer %Ryan% vivo.
- O que você está querendo dizer? - tentou ser firme embora qualquer um pudesse perceber o pavor em sua voz.
- Não há chances de ele estar vivo. - respondeu simplesmente em um tom frio e ela olhou para um canto qualquer na sala sentindo um bolo se formar em sua garganta.
De repente a mão do Major pareceu irradiar uma energia ruim e ela afastou silenciosamente, perdendo o contato.
Levando a mão até a boca, ela andou até o canto da sala enquanto as lágrimas inundavam seus olhos novamente.
Aquilo não podia ser verdade.
%Ryan% tinha prometido que voltaria, assim como todas as outras vezes em que voltou. Ela o conhecia, ele não ia fazer aquilo com ela.
Tinha que ter uma solução, um jeito, qualquer coisa!
- Não pode ser. Isso é impossível. - falou para si mesma.
- Eu vou buscar um calmante para você.
Ela riu, sem humor.
- Eu não quero calmante nenhum. - ela virou para encarar o Major. - Eu só quero o %Ryan%!
Ela falou alto e magoada, manteve os olhos fixos nele e o Major não desviou, encarava-a friamente, mas ela pouco se importava.
Não estava ali para ter a simpatia ou a pena dele. E ele devia uma resposta decente a ela sobre aquela situação. Era seu noivo que tinha ido para a linha de frente e ele era o responsável pela equipe alfa, mesmo que a presença do Major ali a deixasse com um gosto amargo na boca, precisava ouvir dele o que seria feito, precisava de explicações.
Uma batida de leve na porta interrompeu a troca de olhares e %Annie% limpou o rosto enquanto o Major autorizava a entrada, foi quando %Annie% viu os cabelos claros da amiga que ela se desmanchou em lágrimas, mesmo se esforçando para não chorar mais.
Lynn simplesmente correu para abraçá-la enquanto o corpo de %Annie% já fraco cedia ao contato, ela abraçou forte a amiga que soluçava.
- Eu estou aqui, amiga. - ela acariciou o cabelo de %Annie%, que enterrava o rosto no ombro da Lynn.
- Me diz que isso não é verdade, por favor. - ela implorou, tendo a voz abafada pelo abraço.
- Se acalma, %Annie%. - Lynn tentava conter as lágrimas, mas estava doendo ver a melhor amiga destruída daquele jeito.
- Ele não podia ter feito isso comigo. - ela negou com a cabeça e se afastou para encarar a amiga. - Ele não podia!
- Eu sei. - Lynn enxugou as lágrimas dela e %Annie% continuou balançando a cabeça, se negando a acreditar.
- Ele não podia ter me deixado depois de me pedir em casamento na noite anterior. - ela falou, inconformada e Lynn ficou rígida ao sentir os olhos do Major em cima delas. %Annie% soluçou e ela voltou a abraçá-la, Lynn virou para encarar o Major que estava com o olhar perdido.
- Major, será que você poderia… - apontou com a cabeça para a porta em um mudo sinal.
Ele concordou com a cabeça em silêncio e saiu em passos largos, fechando a porta em seguida em um baque surdo.
- Tudo bem, amiga. Vem, senta aqui.
Ela puxou a amiga que foi, mais se deixando levar do que propriamente controlando o próprio corpo. Assim que sentaram, %Annie% se afastou e Lynn segurou as mãos dela.
- Respira. - tentou ajudar a amiga a se acalmar da forma que podia. - Você quer uma água?
%Annie% negou com a cabeça.
- Isso não pode ser verdade. Não é justo!
Lynn afagou a mão dela, sem saber o que dizer.
- Eu sinto muito. - falou sinceramente. - O secretário me disse o que aconteceu.
- Como você… como você soube?
Lynn respirou fundo.
- O Major me ligou quando você desmaiou, eu saí correndo e vim pra cá no mesmo minuto. - ela respirou fundo antes de continuar. - Não me deixaram falar com o Connor mas eu sei que eles estão voltando para casa.
%Annie% fechou os olhos, sentindo a cabeça rodar.
- Isso é um pesadelo.
Tinha que ser, esperava que a qualquer momento acordaria nos braços do namorado e perceberia que tudo aquilo não passava de um sonho muito ruim.
- %Ryan% te disse alguma coisa? - Lynn questionou e %Annie% abriu os olhos, olhando para baixo.
- Não, você sabe que eles não podem falar sobre o trabalho.
Lynn suspirou e ficou em silêncio, não tinha o que falar para a melhor amiga. Sequer tinha digerido a notícia.
Já sabia de todo o plano do pedido de casamento e esperava fofocar com a amiga naquele dia mas agora não conseguia olhar a aliança de compromisso sem sentir um peso no coração.
%Annie% sentia a cabeça pesar com a quantidade de pensamentos que não paravam de passar, ela não tinha controle sobre nenhum deles, lembranças, teorias, ideias, tudo ao mesmo tempo que estavam deixando-a aflita por respostas.
Seu coração ainda não aceitava, tinha alguma coisa nela que dizia que aquilo não era verdade. Ela não podia acreditar que %Ryan% tinha partido até que visse com os próprios olhos, nem que ela mesma fosse buscar o corpo dele.
Ela piscou algumas vezes ao se dar conta de algo.
- O Major e o secretário estavam no corredor quando você chegou? - %Annie% perguntou, limpando o rosto molhado e fungando o nariz, fazendo a amiga franzir a testa.
- Não, estavam na sala. Estão esperando a comitiva do presidente e o ministro da Defesa, eles irão se reunir para decidir se irão declarar a 4ª emenda.
Um arrepio percorreu o corpo de %Annie% ao ouvir. A 4ª emenda era a Lei Marcial, nunca havia sido decretada após o tratado, nem mesmo quando os soldados da reserva tinham sido intimados há anos com as invasões nas fronteiras.
O estado em que viviam tinha uma autonomia diferente dos demais, por ser a capital de Shalom, mesmo com ministros de segurança e defesa, era com o secretário do departamento que todo o governo sentava para conversar.
Grande parte dos soldados, armamento e bases ficava naquela região, logo, tornava a capital em um alvo e ao mesmo tempo era muito bem protegido, diferente dos estados mais ao norte que faziam fronteira com o país vizinho.
Embora o governo federal entrasse em comum acordo com os demais estados, era naquele em que a opinião do governador era mais decisiva. Pois seria dali que toda a força do exército saía.
Então faria sentido o presidente correr para se reunir com o secretário do departamento de segurança, porque era muito provável que todo o alto escalão do estado também estivesse na mesma reunião.
- Quem te disse isso? - perguntou, preocupada.
- Secretárias falam pelos cotovelos, sabia? - Lynn respondeu e %Annie% concordou, imaginava que tinha sido a secretária do Major, considerando o que ela havia feito mais cedo por %Annie%.
%Annie% estava confusa, mas tinha sede por respostas, por isso levantou-se do sofá e foi em direção a mesa do secretário.
- %Annie%, aonde você vai? - escutou a amiga perguntar atrás mas não respondeu, sentando na cadeira.
Lynn levantou também e foi até a mesa, ficando de frente para %Annie% que mexia o mouse.
- O que foi? - Lynn perguntou, curiosa. - O que você vai fazer?
%Annie% olhou para a porta com um certo receio, e acessou a máquina informando o login e senha do secretário.
- Eu tenho acesso ao login do secretário no sistema. - informou, atentando-se a tela do computador para procurar o que queria.
- E isso significa o que exatamente?
%Annie% respirou fundo, sentindo a adrenalina percorrer seu corpo e bombear o sangue mais rápido por suas veias. Era loucura. mas precisava fazer aquilo.
- Que eu tenho acesso a informações das missões que ele autoriza junto ao exército. - olhou para a amiga que estreitou os olhos, desconfiada.
- Você não vai fazer o que eu penso que você vai fazer. - ela falou, desacreditada mas %Annie% apenas deu de ombros, já tinha entrado no sistema de qualquer forma. - Você é doida?!
- Se o exército não for buscar o %Ryan%, então eu vou. - falou convicta e Lynn riu, incrédula.
- Você bateu a cabeça quando desmaiou?
Talvez, mas alguém precisava trazê-lo de volta para casa e %Annie% era teimosa o suficiente para fazer aquilo por conta própria.
%Annie% ficou em silêncio, procurando a missão e não sabia como tinha sido nomeada, então foi pela data, abrindo o arquivo criptografado com um certo medo, as mãos tremiam assim como as pálpebras mas ela não parou.
Ela era proibida de abrir ou ler qualquer daqueles arquivos, mas não importava suas permissões agora, precisava saber o que ninguém iria lhe contar.
Queria entender o que tinha acontecido com o noivo, queria saber onde ele estava. Sabia do perigo das missões dele, mas tudo o que tinha visto e ouvido era muito diferente do pouco que sabia.
Começou a ler o arquivo confidencial, tinha informações cruciais como por exemplo, como seria e o porquê.
- %Annie%, você tá me deixando nervosa. - Lynn falou, sentando-se na cadeira, depois de um longo tempo em silêncio observando a amiga correr os olhos pela tela.
- Eu sempre achei que a equipe alfa fazia apenas missões de paz e resgate. - %Annie% olhou para a amiga. - E não missões de captura.
- Quê?
- Essa era uma missão para capturar o líder de uma célula terrorista, lembra daquele ataque no Parque das Flores em outubro há 5 anos?
- Sim, que explodiram um caminhão que levava combustível no feriado do dia das crianças.
%Annie% concordou com a cabeça. Tinha sido um dos piores ataques da história, inúmeras crianças mortas e mais centenas de feridos, embora um memorial tivesse sido erguido pelas vítimas pouco se sabia sobre o ataque.
- Lorenzo Duarte era o alvo. Ele estava se escondendo em Spero e era fortemente ativo nos ataques daqui.
- Incluindo do Parque. - Lynn adivinhou.
- Uhum. - %Annie% apoiou a mão no queixo, lendo atentamente o arquivo. - Estavam estudando ele há pelo menos uns 8 anos.
Ela então se lembrou do dia da invasão e de quando se tornou refém de Vincent e olhou para Lynn.
- Espera, então Vincent não era o líder terrorista? - %Annie% perguntou mesmo sabendo que Lynn não sabia a resposta tanto quanto ela.
- Não foi isso que a imprensa tinha estampado nos jornais durante todo aquele mês? - Lynn franziu a testa, sem entender.
Para os leigos civis de Shalom, tudo o que sabiam era o que a mídia havia contado após a morte de Vincent na invasão; que ele era o principal líder do grupo terrorista que estava há tempos atacando o país e invadindo a fronteira, assassinando inocentes e fazendo barbáries por onde passava.
%Annie% estava ainda mais confusa e muito mais perdida, agora duvidava de tudo o que havia sido exposto sobre as sequelas da invasão.
Tudo era mentira então.
Vincent não era o líder, ele era a marionete.
%Ryan% não tinha dito que ele iria para Spero, para ela era apenas uma viagem para o norte em um outro estado dentro de Shalom, e ela não sabia o que fazer com aquela informação ou o que pensar.
O quão ruim as coisas estavam para que o exército invadisse Spero em busca de um terrorista?
Engolindo seco e sem querer abusar da sorte, ela deslogou do sistema e fechou a aba, colocando o computador para hibernar e levantou da cadeira, levou uma mão na cintura e a outra no rosto.
Então era por isso que %Ryan% não havia dito como tinham terminado as investigações do ataque, porque elas nunca tinham acabado verdadeiramente. Ele sempre era muito raso com o assunto e foi um dos motivos para ela não questionar mais o amado depois de um tempo, primeiro porque ele não dava uma resposta específica e segundo, queria esquecer aquele dia.
- Ah-ah. - %Annie% voltou a atenção a Lynn, que levantava da cadeira. - Eu conheço essa cara.
%Annie% respirou fundo, desviando o olhar.
- Nem termine.
- E você nem começa. - Lynn falou, se aproximando da amiga. - Você não vai pensar em se meter nessa história. - %Annie% olhou para a amiga, convencida do que queria. - É perigoso demais, %Annie%.
Ela sorriu triste, os olhos marejando novamente.
- E o que eu tenho a perder? Eu já perdi o %Ryan%. - ela deu de ombros, fazendo Lynn se calar.
- Nós não temos certeza de nada ainda.
%Annie% assentiu. Era verdade.
- A única certeza que eu tenho é que alguém está mentindo.
[...]
%Annie% via tudo passar como um borrão bem na frente de seus olhos, fazia dois dias que não dormia direito. Depois que a adrenalina baixou e ela voltou para casa com Lynn, foi onde se deu conta de tudo o que havia acontecido.
Chorou a noite toda, se sentindo indefesa e abandonada, agarrou o colar que %Ryan% havia dado com força e fez inúmeros pedidos, mesmo sabendo que nenhum deles seria possível se tornar realidade no momento. Os pais e a melhor amiga tentaram consolá-la da forma que acharam melhor mas %Annie% estava desolada, nada do que dissessem faria diferença, por isso apenas ficaram ali do lado dela.
Não importava quantos casacos colocasse naquele dia frio, ela ainda sentiria o mesmo frio na espinha, não dava para controlar.
Major tinha prometido que ligaria para ela assim que tivesse alguma novidade, embora Lynn tivesse garantido que Connor o faria primeiro, isso fez com que %Annie% mordesse praticamente todas as unhas e cutículas dos dedos das mãos enquanto esperava.
Ela ainda tinha esperança, um fio bem frágil e fino mas ainda estava ali, se agarrando aquilo.
%Annie% estalava os dedos enquanto caminhava de um lado para o outro na sala de casa, contava os segundos em sua cabeça e nem ao menos piscava, estava mais exausta do que de costume, sentia um sono que não era dela mas imaginava que tudo aquilo fosse por causa do estresse mental que estava passando e mesmo que deitasse na cama, não conseguiria dormir.
Era madrugada e ela já não tinha como produzir mais lágrimas, nem sabia se elas conseguiriam sair dos olhos vermelhos.
Estava difícil até de respirar pelo nariz entupido.
- Filha, você vai abrir um buraco no chão desse jeito. - Alexander falou, chamando a atenção de %Annie% que tentou sorrir mas saiu mais uma careta.
- Eu não consigo parar. - explicou, sentindo os pares de olhos lhe encarando.
A mãe estava preocupada mas se mantinha em silêncio, Lynn desbloqueava a tela do celular a cada 5 minutos esperando uma notificação do marido, e o pai embora estivesse sentindo a aflição da filha tentava se manter forte por ela.
- O Connor acabou de chegar. - Lynn anunciou depois de ver o celular e antes mesmo que terminasse a frase, %Annie% saiu correndo para a porta, sendo acompanhada pela melhor amiga.
Ela abriu a porta esperançosa, não sabia o que aguardava, mas queria ter boas notícias para acalmar seu coração que agora batia mais rápido do que uma hélice de helicóptero.
Com um sorriso amarelo, ela observou Connor parado na frente da porta, ele mantinha o rosto sério e um olhar indecifrável, mas pareceu surpreso ao ver %Annie% na sua frente com o olhar tão pidão.
Lynn conseguiu ler a expressão do marido antes de %Annie% e o encarou como quem não acreditava. Connor uniu os lábios em uma linha fina e negou com a cabeça, %Annie% ainda sem querer entender deu dois passos para trás enquanto Connor estendia as mãos para ela.
Ela observou o colar de identificação que estava na palma dele e sentiu o coração afundar. Os olhos encheram de lágrimas após ler o nome de %Ryan% na corrente.
- Não! - %Annie% não conseguiu conter o grito que pareceu sair do fundo de sua alma, sequer conseguia falar alguma coisa além daquela palavra. - Não!
%Annie% abraçou o próprio corpo e sem forças nas pernas, o corpo a fez cair, sentando no chão desolada enquanto as pessoas a sua volta corriam para tentar segura-la.
- Não, não, não! - ela repetia sem parar, abraçando as próprias pernas.
Ela chorava como um bebê que tinha acabado de vir ao mundo, tentava se afundar em seu próprio aperto vazio enquanto o coração parecia ter sido destroçado por um tanque.
Tudo a sua volta não parecia existir, tudo parecia um grande e terrível pesadelo, um no qual ela sequer conseguia reagir. Não parecia real para ela.
- Levanta do chão, filha. - ouviu a voz da mãe soar bem distante, estava absorta demais na notícia.
%Annie% negou com a cabeça, nem forças para falar tinha, sentiu mãos em volta de seu braço e ela levantou a cabeça, encarando o pai.
- Vem, pequena, senta no sofá. - ele implorou e %Annie% relutou porque estava sem forças na perna.
Mas as mãos das pessoas a sua volta a ajudaram a se manter de pé enquanto soluçava, o pai a fez sentar no sofá onde ela se jogou, chorando e segurando firme o colar do noivo. Tinha a sensação de que se soltasse, estaria largando-o também.
- Respira, %Annie%. - Lynn falou, afagando o ombro da amiga.
Os pais de %Annie% sentaram ao lado dela e Connor se aproximou da esposa. Ninguém ali sabia como consolar %Annie% porque não existia palavras que pudessem diminuir a dor que sentia.
%Annie% ficou ali sentada, agarrada ao colar do noivo com o olhar perdido enquanto as horas passavam, os celulares tocavam sem parar com a notícia.
Tudo o que passava em sua cabeça era %Ryan%, o rosto dele, os beijos dele, as promessas que tinha feito a ela.
Todo o futuro que tinha perdido, que sonhara em ter com ele agora não passava disso, apenas sonhos que nunca se tornariam realidade.
Tinha perdido %Ryan% mais uma vez.
[...]
Há 7 meses. Hospital Geral.
Às 7:30 AM. Quarto 167.
- Por que você está me olhando desse jeito? - ele perguntou baixo, a garganta ainda seca e ele estava visivelmente com sono.
Também pudera, tinha praticamente acabado de acordar do coma.
%Annie% encarava %Ryan% com um sorriso contido no rosto, as mãos juntas nunca pareceram tão certas.
- Parece tudo um sonho. - admitiu, como a boba apaixonada que se sentia naquele momento.
Não que fosse conseguir parar de agir daquele jeito, afinal, %Ryan% tinha acabado de confessar que enfrentaria os pais para ficar com ela.
- Deixou de ser um sonho. - ele levou a mão dela até a boca, onde depositou um beijo de leve. - É real, %Annie%. Eu estou aqui com você e nunca mais vou embora.
Ela sentiu os olhos marejarem.
- Você me assustou, sabia? - confessou, desviando os olhos. - Quando eu vi você caindo, sangrando… - %Annie% deixou a frase morrer, a voz fraca não conseguia colocar para fora toda a adrenalina daquele momento.
- Ei. - ele chamou a atenção dela, que mordeu o lábio para não chorar. - Já passou, tá bom? Você está segura agora e eu estou bem.
- Você me promete que eu nunca mais vou te ver naquela situação de novo? - %Ryan% abriu a boca para responder. - Eu não quero te ver levando nenhum tiro, %Ryan%.
Ele respirou fundo, como dizer não àqueles olhos?
- Eu prometo.
%Annie% concordou com a cabeça.
Era o suficiente a palavra dele, não queria passar por aquela situação nunca mais em sua vida.
Ainda sentia o sangue quente de %Ryan% em suas mãos, mesmo que tivesse lavado qualquer resquício.
E graças a Cristina %Mackie%, sentia uma certa culpa.
- O que foi, %Annie%? - ele perguntou depois de analisá-la.
%Annie% quase contou a forma como a mãe dele a tratou na sala de espera do hospital, mas ponderou. Ele estava na cama do hospital e tinha acabado de recobrar a consciência.
Não era o melhor momento.
- É só… - ela deu de ombros, sem saber o que dizer.
- Não sabe o que pensar. - ele concluiu e ela sorriu de leve. De uma forma ou de outra, ele tinha entendido.
- É. - admitiu, tímida e ele riu baixo.
- Vem cá. - ele pediu e ela se aproximou.
%Ryan% levou a mão até o rosto dela e fez uma leve pressão para que ela se aproximasse mais, ela o fez e encostou as testas se desviar o olhar, ele então acariciou a pele dela e o dedo desceu até o lábio dela.
O dedão fez todo o contorno da boca de %Annie%, que apenas o encarava hipnotizada e nem se deu conta quando prendeu a respiração, vencendo o espaço que ainda os separavam ela o beijou.
%Ryan% levou a mão até a nuca dela, fazendo-a se arrepiar por completo enquanto os lábios se moldavam perfeitamente.
Não tinham pressa nenhuma, precisavam aproveitar todo o tempo que tinham e assim o fizeram.
%Annie% levou a mão até o peito de %Ryan% e ambos escutaram uma batida na porta, fazendo-os interromper o beijo abruptamente.
Ela levou a mão até a própria boca, abafando a risada tímida enquanto ele sorria largamente.
- Pode entrar! - ela falou alto, levantando-se da cama para se posicionar ao lado, tentando não parecer tão suspeita.
A enfermeira e o médico entraram juntos, sorrindo cordialmente.
- %Ryan%, como se sente? - o médico perguntou assim que se aproximou da cama.
- Pronto para ir para casa. - respondeu simplesmente, fazendo todo mundo no quarto rir.
- Tenha um pouco mais de paciência, faremos alguns exames antes de assinar a sua alta. - explicou. - Você perdeu muito sangue e embora a cirurgia tenha sido um sucesso, conseguimos tirar os projéteis do seu corpo, é preciso ter certeza que não ficou nenhuma sequela.
%Ryan% concordou, a contra gosto.
- E quanto tempo isso vai levar?
%Annie% colocou a mão no ombro dele.
- O tempo que precisar, não é doutor?
O médico riu discretamente ao ver %Ryan% em silêncio.
- Vejo que você tem alguém que irá ajudar na recuperação.
%Ryan% sorriu.
- Na verdade, ela é o motivo da minha recuperação.
%Annie% sentiu as bochechas queimarem de vergonha e precisou morder o lábio para conter o largo sorriso que ameaçava escapar.
Ainda não acreditava que tudo aquilo estava mesmo acontecendo, era bom demais.
- A propósito, você tem mais visitas.
%Annie% encarou %Ryan% que espelhou a reação.
- Tej também veio. - ela explicou e %Ryan% acariciou a mão dela que estava apoiada em seu ombro.
- Eu queria falar com ele.
%Annie% franziu a testa. Ele não falaria com os pais?
- Vamos preparar a sala do raio x. - o médico avisou a enfermeira e os dois saíram rapidamente.
- É, %Ryan%. - %Annie% se afastou para ficar de frente a ele. - Você ouviu quando eu disse que seus pais estão aqui, certo?
Ele concordou com a cabeça.
- Sim. - respondeu simplesmente e recebeu o olhar confuso de %Annie%. - Só que eu não vou falar com eles aqui no hospital.
Ela assentiu devagar, imaginava que ele tinha seus motivos.
- Eu vou chamar ele então. - avisou, apontando para a porta.
- Mas você volta, né? - pediu e ela deu de ombros.
- Só se você quiser.
- Eu não quero que você saia daqui. - confessou, fazendo-a rir de leve.
Sem dizer mais nada, %Annie% saiu do quarto e foi para a sala de espera respirando fundo várias vezes e focou em achar Tej, o que não era uma tarefa tão difícil.
- Ele quer falar com você. - avisou e Tej que estava de pé com os braços cruzados concordou.
%Annie% não queria ser mal educada e muito menos passar a impressão errada aos pais de %Ryan%, não que fosse adiantar qualquer coisa que ela falasse ou fizesse, mas não conseguia encarar o rosto de Cristina, a mulher parecia que jogava lanças afiadas só com os olhos duros em cima de %Annie%.
Foi por isso que andou na frente de Tej, refazendo o caminho do quarto de %Ryan%, sem falar absolutamente nada com os %Mackie%.
Ela juntou as mãos suadas involuntariamente e Tej percebeu a ansiedade dela, é claro, mas não disse nada. Até ele parecia incomodado com a presença dos dois.
Ela entrou no quarto primeiro, segurando a porta para que Tej entrasse e fechou a mesma quando ele já estava dentro do cômodo.
- Você tá horrível. - constatou o amigo, assim que se aproximou da cama. - Quer dizer, você é horrível, né cara.
- Cala a boca. - %Ryan% rolou os olhos, rindo.
%Annie% ficou perto da porta e cruzou as mãos atrás do corpo, observando a cena de longe para tentar dar privacidade aos dois.
- Eu ia elogiar o seu tiro, mas pelo jeito você não tá merecendo.
- Quem foi que te tirou da maior enrascada de novo? Eu!
- Você tá se achando. - reclamou e olhou para %Annie%. - Amor, vem cá.
Ela não conseguiu esconder a cara de surpresa, principalmente por ouvir aquela palavra, era como música aos ouvidos dela.
%Annie% abaixou a cabeça e se aproximou de %Ryan% e ficou ao lado da cama, perto dele.
- Como eu te conheço e sei que você não me chamou pra ver o meu rostinho lindo, desembucha. - Tej falou, cruzando os braços.
- Eu preciso que você entregue um recado aos meus pais. - %Ryan% falou firme, sentindo os olhos de ambos sobre si. %Annie% estava confusa e Tej aguardava. - Diz que eu vou conversar com eles logo que eu receber alta, na mansão.
- Tá querendo dispensar os velhos, né?
Ele respirou fundo. Parecia uma coisa horrível para se fazer depois de ter ficado em coma, mas precisava fazer aquilo. Não dava pra conversar com eles ali e agora.
- Você sabe que eles ficaram preocupados, você não deu notícias desde o seu alistamento.
%Ryan% encarou o amigo enquanto %Annie% revezava o olhar entre os dois rapazes.
%Ryan% não tinha escrito aos pais como Joe havia feito?
- E de repente eu significo alguma coisa só porque levei um tiro? - %Ryan% questionou e Tej ficou em silêncio.
Aquela relação era complicada demais para alguém entender ou julgar.
- Você é o capitão. - Tej levantou as mãos, se dando por vencido. - Precisa de mais alguma coisa? Uma coca? Um cachorro-quente? Uma massagem?
%Annie% e %Ryan% riram em uníssono.
- Eu dispenso a massagem. - ele respondeu, fazendo uma careta de nojo.
- O cachorro-quente também. - %Annie% falou. - Ou você acha que vai poder comer porcaria assim tão rápido?
Tej apontou para %Annie% como se dissesse que ela tinha razão.
- Na verdade, a massagem eu pensei na %Annie% fazer em você então. - Tej deu de ombros e %Ryan% colocou a palma da mão no rosto, negando com a cabeça enquanto %Annie% ria sem graça.
- Sai daqui. - %Ryan% pediu, soando ligeiramente envergonhado.
- Nos vemos logo, capitão. - Tej bateu continência de forma engraçada e se aproximou para apertar a mão do amigo que ria.
Antes de sair do quarto, ele deu um abraço rápido em %Annie% que o observou ir embora.
Não iria mentir, estava curiosa para saber porque %Ryan% não falaria com os pais de imediato, mas estava envergonhada demais em perguntar.
Não queria parecer invasiva.
- %Annie%.
Ela virou a cabeça para encará-lo.
- Sim?
- Eu queria te pedir uma coisa.
Ela levantou as sobrancelhas e se acomodou ao lado dele na cama.
- Pode falar, o que você quiser.
- Você vem pra casa comigo quando eu receber alta?
- É claro! - respondeu prontamente. - Você vai precisar de ajuda com isso aí! - apontou com a cabeça para a tipoia que ele estava usando no lado que foi atingido pelos tiros.
- Obrigado, eu sei que estou te pedindo muito…
- Shhh, não! - ela o interrompeu, sorrindo de leve. - Não tem outro lugar que eu queira estar se não for do seu lado. Eu só preciso avisar os meus pais.
%Ryan% engoliu seco.
- O que você contou pra eles? - perguntou, curioso.
%Annie% deu de ombros.
- Bom, toda a verdade. - confessou. - Seria muito difícil mentir sobre isso. - apontou para o próprio rosto que estava machucado, graças ao tapa que havia levado sua testa estava roxa e seu lábio com um corte vermelho escuro.
%Ryan% fez uma careta de dor, odiava ver aqueles machucados nela e imaginar a cena de Vincent batendo nela. Mesmo que o desgraçado tivesse ido parar no saco preto, ainda era pouco por ter levantado a mão para ela.
- É verdade, eu queria poder ter a mesma sorte. - torceu o lábio e %Annie% acariciou o braço dele suavemente.
- Eu sei que é um tópico sensível entre a gente. - ele franziu a testa. - A sua família. Não precisa se sentir na obrigação de me explicar nada, eu não vou te condenar.
%Ryan% sorriu e continuou olhando para %Annie%, sentindo o coração aquecer, por isso colocou a palma em cima da mão dela.
- Pra ser sincero, eu quero falar sobre isso com você. - admitiu e %Annie% o encarou surpresa. - Eu acho que já deixei você às cegas demais sobre isso.
- Eu entendo os seus motivos.
- Eu sei e eu te amo por isso! - %Annie% sorriu involuntariamente. - Tem muita coisa que eu quero falar pra eles, coisas que eu só entendi depois que me alistei, mas eu preciso estabelecer esse limite, %Annie%. Ou então eles vão infernizar a minha vida.
%Ryan% respirou fundo, queria contar toda sua vida para ela ali mesmo, como sua relação com os pais era péssima e que iria se impor, não seria mais aquele garotinho controlado pelos pais.
Tinha perdido a capacidade de ser um robô. O exército o tinha mostrado que precisava tomar as rédeas de sua vida.
E bem, se a família %Mackie% o obrigasse a escolher entre eles e %Annie%, %Ryan% estava pronto para escolher o amor de sua vida mais uma vez. Agora mais do que nunca tinha certeza de sua escolha.
Era %Annie%. Sempre foi.
Mas, o seu monólogo foi interrompido por uma batida na porta, a enfermeira estava pronta para levar %Ryan% para fazer os exames necessários para que ele pudesse finalmente ir para casa.
Ele e %Annie% tinham tanto que conversar, aquele era apenas o começo.
[...]
Atualmente. Casa da família %Madden%.
08:37 AM.
O restante da equipe alfa chegou na casa de %Annie% logo no começo da manhã, devidamente com suas parceiras que tentaram trazer algum tipo de conforto para a nova amiga, mesmo sabendo que se estivessem no lugar dela estariam da mesma forma.
Ou até pior, considerando que %Annie% não tinha se levantado do sofá para nada. Estava parada ali como uma estátua.
- Connor. - %Annie% falou baixo, a voz ardendo a garganta seca. - A mãe do %Ryan%?
Ele respirou fundo.
- Ela já está sabendo.
%Annie% assentiu em silêncio, tendo o ombro afagado pela mãe.
- Filha, toma um chá pelo menos.
- Eu não estou com vontade. - deu de ombros, sentindo a cabeça pesada.
A mãe suspirou.
Naquele dia o exército faria a cerimônia fúnebre de %Ryan%, mesmo sem vestígios do corpo, ele teria toda a honraria destinada a sua patente.
A notícia espalhou rápido e havia sido um choque para todo mundo, mesmo que aquele fosse um risco corriqueiro que %Ryan% tivesse diariamente, ninguém jamais imaginava que de fato fosse acontecer.
%Annie% tomou banho e se vestiu com a ajuda da mãe, completamente atônita a tudo o que acontecia ao seu redor. Estava anestesiada da dor que sentia, estava com forças apenas para se manter agarrada ao colar de %Ryan% que ainda estava na mão.
Se sentia tão estranha.
No caminho, observou as ruas e as pessoas que seguiam sua vida normalmente, como se aquele fosse apenas um dia como os outros.
O trânsito continuava, as pessoas caminhavam, o sol nascia e as nuvens se desfaziam.
O mundo girava como todos os outros dias, menos para ela.
Os olhos secos a obrigavam a piscar com mais frequência, mesmo que não conseguisse mais derramar nenhuma lágrima, não sentia o controle de seu corpo e tudo o que fez foi se deixar ser conduzida até o local da cerimônia.
Não se atentou às pessoas que estavam ali, todas elas estavam desfocadas o bastante para que sequer reconhecesse os rostos. Embora tivesse plena noção que todos falavam o quanto sentiam muito, ela não conseguiu desviar a atenção as condolências que lhe era destinada.
Ela sentiu a mão do pai que estava em seu ombro a apertar um pouco mais quando uma figura imponente se colocou à sua frente.
- É muita cara de pau sua aparecer agora. - ouviu a dura e fina voz cuspir as palavras mas nem ao menos tinha vontade de encará-la. - Está satisfeita agora, sua suburbana?!
%Annie% respirou fundo e levantou o olhar para encarar o rosto frio de Cristina. A mulher, mesmo com os olhos inchados e vermelhos, mantinha a pose de arrogante, o nariz mais empinado do que a própria torre Eiffel.
- Escuta, senhora %Mackie%, acho bom tomar cuidado com a sua língua. - Sandra falou baixo, dando um passo para frente de forma protetora.
Cristina a analisou de cima a baixo com o canto da boca para cima, a típica expressão de superioridade.
- Meu filho está morto por causa da sua filha. Se eu sequer tive a oportunidade de me despedir dele, ela é a responsável, sempre agarrada no pescoço dele como uma pulga.
- Você vai ver quem é pulga se continuar insultando a minha filha!
- Eu tenho autoridade de mãe para fazer isso.
- Eu também tenho em defender a minha filha.
%Annie% fechou os olhos por alguns segundos, tentando recobrar as forças para pelo menos sair dali sem nem ao menos responder.
Queria xingá-la e muito, nunca tinha sentido raiva de alguém até conhecer a ex-futura sogra, mas aquele não era o momento e nem o lugar adequado para ser humilhada.
E nem era como se tivesse cabeça para ouvir a voz de Cristina atacando-a gratuitamente.
Porém, seu corpo estava paralisado assim como seu raciocínio.
Sentia raiva, mas não reagia. Não conseguia.
- Você não respeita nem a memória do seu próprio filho. - Alexander acusou. - Que vergonha!
- Eu devia expulsar vocês todos daqui nesse exato momento!
Os pais de %Annie% a olharam ofendidos e ela apenas levantou a mão para que eles parassem onde estavam antes mesmo de darem um passo em direção a Cristina.
- Com licença, senhorita %Madden%.
A breve discussão foi interrompida por Tej, todos o olharam imediatamente.
- Nosso capitão nos deu ordens expressas para que você estendesse a bandeira. - ele explicou, esticando a bandeira dobrada para %Annie%.
Ela o encarou confusa e seus olhos desceram para as mãos dele, segurando a bandeira e o símbolo da patente de %Ryan% para ela.
Quando foi no funeral do Simpson, tinha visto que essa parte da cerimônia era feita pelos militares de forma muito sincronizada, geralmente por dois soldados.
Ela sabia que era protocolo da instituição.
Mas %Ryan% queria que ela o fizesse. Ela engoliu seco, segurando as lágrimas e encarou Tej sem saber o que dizer.
- Não faremos as honrarias sem que a senhorita estenda a bandeira.
%Annie% piscou algumas vezes, as engrenagens de sua cabeça funcionando cada vez mais devagar, e quando finalmente entendeu sentiu o coração pular pela boca ao se lembrar das palavras de %Ryan% há tempos atrás.
"Eu não quero que eles te olhem da forma que eu sei que vão, %Annie%, eu não vou embora desse mundo e deixar você sofrer nas mãos dos meus pais."
%Ryan% finalmente tinha enfrentado seus pais da forma como ela nunca tinha imaginado que ele fosse fazer.
No final das contas, ela tinha esperado por ele. E ele lutado por ela.
Ela concordou com a cabeça, recebeu o apoio dos pais que afagaram suas costas e ombros antes de sair dali segurando a bandeira.
Quando a música fúnebre começou a tocar, %Annie% colocou o símbolo da patente em cima do caixão e estendeu a bandeira da melhor forma que conseguiu sem deixar tão torta, travando o maxilar para não chorar.
Respirou fundo e deu dois passos para trás, olhando para o caixão tão vazio como ela se sentia naquele momento, era como se toda a vida tivesse sido arrancada de si.
Nem mesmo os 3 tiros que os soldados deram em homenagem a %Ryan% foram o bastante para fazê-la voltar a órbita.
Passou tão rápido como um piscar de olhos, era como se estivesse pulando um vídeo que assistia.
Connor tinha socado o símbolo para que ficasse grudado no caixão enquanto %Annie% olhava tudo em silêncio, levando uma mão abaixo do peito, em seu coração.
Mesmo não estando ali, %Ryan% ainda fazia tudo por ela. Então aquele tinha sido o último gesto de amor dele.
%Annie% chorou em silêncio, as lágrimas escorriam por seu rosto e se perdia em seu pescoço.
%Ryan% tinha dado tudo por ela e agora estava longe demais. Longe demais para que ela pudesse alcançá-lo.
%Ryan% %Mackie% tinha acabado de ser enterrado ou pelo menos tudo o que ele representava.
[...]
Entrava no apartamento sem muita vontade, nem ao menos acendeu as luzes assim que passou pela porta, tirando a blusa com capuz e a máscara preta do rosto.
Não foi surpreendente ver a figura familiar de pé com os braços cruzados.
Riu discretamente enquanto fechava a porta.
- Onde você estava?
- Você sabe onde. - respondeu simplesmente, jogando-se no sofá.
- Você é maluco? - rolou os olhos, encarando a pessoa. - E se alguém te reconhecesse?
- Não se preocupe, eu tenho meus métodos. - explicou tranquilamente, vendo a pessoa respirar fundo. - Ninguém me viu. - levantou a sobrancelha. - Você deveria saber disso melhor do que ninguém.
- E eu sei, mas… me disseram que isso não era para se tornar pessoal, lembra? Foi o que o…
- Ah dá um tempo, M. - levantou do sofá, irritado. - Você e eu sabemos que isso se tornou pessoal no momento em que te achamos. - apontou para a figura, que se calou. - Isso é tão pessoal para você, quanto para mim. Foi a sua família que começou tudo isso.
- Não diga essa palavra de novo! - rangeu os dentes. - Eu não tenho família.
- Não, M. - se aproximou. - Arrancaram-na de você e é por isso que você está aqui.
M o encarou firme, se recusava a chorar.
- Você vai ter que terminar o que começaram por você a anos atrás. - levantou os braços. - Lide com isso.
- Eu não sabia que você era tão frio assim.
- Eu não era, até cruzar com o caminho dele. - falou com ódio e M compartilhou da mesma dor, a mesma coisa tinha acontecido quando ainda era uma criança. - Você sabe o que nós estamos fazendo aqui.
Respirou fundo antes de apoiar a mão no ombro de M.
- Esse funeral não foi o último.
[...]
%Annie% estava esgotada.
Além de fisicamente e mentalmente, estava esgotada de repetir 'Eu estou bem' todos os dias após o funeral.
Ela não estava bem e todo mundo sabia disso.
Os cinco dias de luto que havia recebido do trabalho já tinham chegado ao fim, e até tinha cogitado largar o emprego - principalmente pela carga emocional que o ambiente tinha -, só que sua dor estava longe de acabar.
Na verdade, sabia que tinha apenas começado.
Ela sentia falta do noivo, a ficha ainda não tinha caído. Todos os dias olhava para a janela ou a porta esperando %Ryan% aparecer, dizer que tudo não passava de um grande e complexo mal entendido.
Ela até aceitaria a falta de explicação dele se soubesse que ele voltaria um dia.
Não tinha passado nem pelo primeiro estágio do luto, porque não aceitava que aquilo tinha acontecido.
Falar sobre aquilo com qualquer um era uma tarefa impossível, ela não queria versões de uma história que ela tinha visto com seus próprios olhos. A tag de identificação que Connor havia trazido estava pendurada na cabeceira de %Annie% e balançava conforme ela passava os dedos, suja de areia e sangue, aquela era a única coisa que havia sobrado do noivo e também a resposta de algo que ela não se conformava.
Não estava dormindo direito e quando conseguia dormir por causa do extremo cansaço, sonhava com ele.
Às vezes pensava que eram sinais de que %Ryan% ainda estava vivo, que ele vinha visitá-la em seu sono. Até acordar de madrugada, chorando e gritando no imenso vazio e escuridão de seu quarto.
Seu quarto cheirava a %Ryan%, seu corpo ainda se lembrava dos toques dele, quando fechava os olhos era o rosto dele que via.
Mesmo não tendo a presença dele, tudo o que sentia era ele. Parecia até mais forte do que antes.
Desbloqueou o celular mais uma vez, encarando a foto deles de plano de fundo, queria sorrir com a lembrança daquele dia registrado em várias fotos, mas não conseguiu porque esperava uma notificação que pudesse mudar a sua vida. Uma na qual não veio.
%Annie% tinha plena consciência que estava se torturando e se iludindo, mas era muito mais forte do que ela. Porque sentia que alguma coisa iria acontecer e muito em breve, algo que pudesse lhe dar uma direção.
Bufou quando ouviu a campainha tocar, estava irritada com aquele som estridente que tinha se tornado um hábito nos últimos dias.
Parentes, amigos, vizinhos… todos vinham prestar condolências e ver a pobre situação que %Annie% estava.
Deitada no quarto escuro, porque morria de dor de cabeça por continuar chorando e uma enorme tontura toda vez que tentava levantar da cama, vivendo um verdadeiro caos que nem tinha força para lutar contra.
Ouviu batidas na porta de seu quarto e falou um entra tão baixo que não teve certeza se a pessoa do outro lado ouviu mas a porta foi aberta e %Annie% virou-se para encarar quem quer que fosse.
Não se surpreendeu ao ver a melhor amiga entrar sem dizer uma palavra, os olhos temerosos e atentos fixados em %Annie% deitada na cama agarrada ao travesseiro.
- Oi, amiga.
- Oi.
Lynn se aproximou da cama.
- Como você está?
- Bem. - %Annie% respondeu baixo e automaticamente, fazendo Lynn bufar.
Mais um dia que ela estava ali e mais um que %Annie% continuava do mesmo jeito, foi por isso que andou em direção à janela do quarto e abriu as cortinas, deixando que a luz do dia ensolarado entrasse no quarto de %Annie%, fazendo os olhos dela arderem.
- Droga, Lynn. Fecha essa cortina. - implorou, levando as mãos até os olhos para tapar a luminosidade que ardia e a fazia lacrimejar.
- Levanta dessa cama, %Annie%. - mandou e a amiga reclamou com uma palavra desconexa.
- Fecha isso. - pediu, colocando as pernas para fora da cama, depois de ver que Lynn cruzava os braços. - É sério, meus olhos estão doendo.
%Annie% levantou da cama, mas não deu dois passos e o mundo à sua volta pareceu girar, fazendo-a tropeçar nos próprios pés.
Ela fechou os olhos para recobrar o senso de direção e respirou fundo enquanto Lynn corria para ajudá-la a se manter de pé.
- Meu Deus, %Annie%. Você está fraca. - constatou, encarando a amiga que de repente perdeu a cor nos lábios. - Quando foi a última vez que você comeu?
%Annie% não estava tendo uma boa relação com a comida como antes, porque simplesmente enjoava com tudo o que tinha um cheiro mais forte, e às vezes quando exagerava demais e comia tudo o que via pela frente acabava vomitando. A água até parava no estômago, mas logo era transformada em lágrima.
- Faz cinco minutos. - respondeu baixo, abrindo os olhos para ver se o mundo parava de rodar.
- Mentirosa. - acusou. - Eu liguei pra sua mãe e ela me disse que você não está comendo direito já tem dois dias.
- Está me dando ânsia. - explicou, fazendo o esforço para sentar na cama.
Porém, Lynn não deixou.
- Eu sei, é por isso que vim. - %Annie% franziu a testa, confusa. - Eu vou te dar duas opções, ou você vai para o hospital…
%Annie% riu, desacreditada.
- Que hospital o quê. - interrompeu, rolando os olhos. - Eu não vou para o hospital.
- Ótimo. - Lynn sorriu irônica e então abriu a bolsa que carregava e tirou uma caixa rosa, entendendo para %Annie%. - Então você vai fazer isso.
%Annie% desviou os olhos para a caixa que a amiga estendia e seu sangue congelou ao ler a embalagem.
- O que é isso? - era uma pergunta retórica porque tinha a resposta bem ali, nas mãos de Lynn.
- Um teste de gravidez.
%Annie% negou com a cabeça e olhou a amiga que agora cruzava os braços.
- Você não tá achando…
- Enjoo, vômito, muito sono, fome excessiva… - Lynn começou a enumerar os sintomas de %Annie% que a encarava perplexa. - Aliás, quando foi a sua última menstruação?
%Annie% ficou em silêncio tentando fazer as contas, mas não conseguia se lembrar; após a invasão sua menstruação tinha atrasado por questões emocionais, mas depois tinha voltado a acontecer naturalmente, como a psicóloga havia dito que aconteceria, porém agora não se lembrava quando começou a desandar novamente.
Não era possível que aquilo fosse…
- Isso é impossível. - tentou se convencer, levando a mão até a testa.
- Você e %Ryan% se preveniram?
%Annie% parou onde estava, nem ao menos piscava com a resposta automática de sua própria consciência.
Olhou para Lynn, que a encarava preocupada, e então negou com a cabeça sem forças para responder.
Nem sabia se teria voz para aquilo.
Lynn respirou fundo e pegou a mão da amiga, colocando o teste na mão dela, %Annie% segurou com medo.
- Eu vou estar aqui do seu lado, não importa o que aconteça. - garantiu e %Annie% engoliu seco, concordando com a cabeça.
Não queria lutar contra a rápida esperança que tinha se instalado em seu peito, se aquilo fosse mesmo verdade, significava muito mais do que qualquer um imaginava.
Ao mesmo tempo tinha medo de aquilo fosse apenas uma ilusão.
Lynn a puxou para um abraço forte e %Annie% sentiu vontade de chorar, até aquele momento não tinha se dado conta de como tinha passado os dias como uma verdadeira miserável. Porém agora, mesmo com medo de cogitar aquela hipótese, era como se algo dentro dela tivesse acordado.
Talvez sua vontade de viver. Voltar a viver.
Respirou fundo e segurou com firmeza o teste, se afastou de Lynn e saiu do quarto, indo para o banheiro no corredor.
%Annie% leu a embalagem pelo menos umas cinco vezes para ter certeza de que não iria errar, as mãos frias tremiam e toda sua bexiga parecia dura mas conseguiu fazer conforme as instruções.
Mas fazer o teste não foi o pior, na verdade foi até fácil, o problema era esperar aqueles longos minutos.
Ela tentou controlar a ansiedade e as pernas bambas, em vão, é claro; contou os minutos e quando a hora finalmente chegou, o medo percorreu seu corpo a ponto de fazê-la dar um passo para trás ao pegar o teste.
Muita coisa passava em sua cabeça, as vezes em que esteve com %Ryan% - desde a primeira até a última -, o sonho de ter uma família e a sua realidade de estar completamente descrente de que coisas boas aconteceriam em sua vida.
%Annie% fechou os olhos, controlando a respiração antes de ver o resultado e quando os abriu novamente sentiu o sangue de seu rosto se perder enquanto as lágrimas se formavam.
Sem forças nas pernas, %Annie% deixou o corpo escorregar até o chão enquanto segurava o teste como se fosse uma bomba.
O resultado era tão óbvio que ela se perguntou por que não pensou nisso antes, não tinha os sintomas há poucos dias, já eram semanas e ela sequer notou. Mas só ali, parada e em choque, ela se lembrava de todas as vezes que enjoou fácil ou da fome monstra que não parecia ser dela.
Ainda desnorteada, %Annie% levantou se apoiando na parede e saiu do banheiro com o teste na mão. Quando voltou para o quarto, Lynn estava sentada na cama mexendo as pernas de forma ansiosa e ao ver %Annie% entrar com uma expressão indecifrável, ela levantou.
- E então?
%Annie% olhou para a amiga e levantou o teste, os dois pauzinhos azuis estavam tão fortes que Lynn conseguiu ver de longe.
- Eu estou grávida do %Ryan%.
Nota da autora: Não era pra ser um capítulo tão grande e tão demorado, mas eu me empolgo demais, gente hahaha
Também não era pra ser tão sofrido, mas o que eu posso fazer se as novelas turcas estão me motivando a isso? 👀
Pra compensar a demora, além da playlist que eu criei, vocês também podem encontrar algumas edições no Pinterest.
Até o próximo capítulo! 😘