Capítulo 05 • In the middle of the war
Tempo estimado de leitura: 41 minutos
%Annie% tirou os saltos altos no mesmo instante que pisou na sala de casa, deixando a porta aberta para que %Ryan% também entrasse, ele passaria o final de semana na casa da namorada já que o encanamento de seu apartamento precisou ser trocado.
Bom, pelo menos foi isso o que disse para ela.
%Annie% trancou a porta da casa e guiou o namorado até seu quarto, assim que chegaram no cômodo começaram a tirar o excesso de roupa formal. %Ryan% havia trazido uma mochila para passar os dias ali, não que fosse necessário já que algumas de suas peças de roupa já estavam no guarda roupa da namorada.
%Annie% começou a tirar a jaqueta e os brincos enquanto achava um de seus pijamas mais confortáveis, estava indo para o banheiro se trocar quando fora interrompida por %Ryan%.
- Nós já não passamos dessa fase de ter vergonha de se trocar na frente do outro? - sorriu de lado vendo a namorada o olhar confusa e tímida.
- É só pra não despertar nenhuma - %Annie% viu %Ryan% tirar a camiseta de forma tão rápida que a fez perder o raciocínio por um tempo. - vontade.
Ele levantou as sobrancelhas e ela entendeu perfeitamente o que queria dizer.
- Eu sei, vontade a gente tem sempre, mas estou exausta hoje.
%Annie% continuou seu caminho até o banheiro não apenas para se trocar, mas também para tirar a maquiagem e escovar os dentes, quando voltou %Ryan% depositava sua arma na mesinha ao lado da cama dela.
- Precisa mesmo deixar isso aí? - perguntou, vendo-o caminhar em sua direção.
- Você sabe a resposta. - ele beijou sua testa e caminhou para o banheiro.
%Annie% não gostava daquela mania de %Ryan% estar armado até mesmo dormindo, ou mantinha sua pistola do seu lado ou uma faca debaixo do colchão, entendia que era precaução e costume, mas por muitas vezes se sentia apavorada só de pensar em ele ser obrigado a usar de novo na sua frente. Não porque tinha medo dele, muito pelo contrário, mas sim de pensar nas ocasiões que podiam fazê-lo querer manuseá-la.
Quando %Ryan% voltou, já com os dentes também escovados, apagou a luz do quarto e se deitou junto a %Annie%. A cama era menor do que de costume do casal, porém nada disso era ruim, na verdade até gostavam.
Podiam ficar ainda mais juntos, %Annie% se sentia protegida toda vez que dormia abraçada com %Ryan%, e ele mais seguro de que ela permanecia ali.
%Annie% estava de costas para o namorado enquanto ele a enrolava em seus braços de uma forma protetora e gostosa.
- Gostei de ter conhecido seus amigos.
%Ryan% sorriu.
- E eles gostaram de você também, principalmente as meninas.
Ela riu, tinha se identificado bastante com elas.
- Foi uma festa muito bonita, né? - %Annie% perguntou, já sentindo os olhos pesarem de sono.
- Foi sim, Lynn sabe como causar boa impressão. - respondeu, dando um beijo de leve na orelha dela.
O casal permaneceu em silêncio, apreciando seus corpos juntos, um momento agradável de paz que levaram-nos a adormecer em questão de minutos.
Até os sonhos de %Ryan% se inundarem de escuridão e medo.
O rapaz estava acorrentado nos calcanhares e punhos em um cômodo sujo e pouco iluminado, sentia o rosto latejar e uma certa dormência em seus membros superiores. Piscava de vez em quando, sem saber se acordava segundos ou horas depois. Tinha perdido a noção do tempo e espaço.
Fechou os olhos novamente, tentando ignorar a garganta seca e o corte que ardia em suas costelas, percebeu que uma porta se abriu e o lugar ficou repentinamente mais claro.
Quando voltou seu olhar para frente, precisou forçar as pálpebras já cansadas que doíam com a luz. Viu duas figuras entrarem no cômodo.
Uma era mais alta que arrastava a outra de um jeito grosseiro.
A porta fechou e a escuridão voltou a reinar, porém dessa vez o homem já estava acostumado com a mesma, mesmo com dificuldade de enxergar conseguiu aos poucos identificar quem tinha entrado.
O homem mau e alto sorria de forma psicótica, carregava uma arma que era apontada para a testa de uma mulher.
%Annie%.
%Ryan% sentiu todo o corpo tremer de medo e a adrenalina correr por suas veias, uma força sobrenatural o fez esquecer suas dores físicas e suas necessidades básicas. Nem sequer lembrava das correntes que o seguravam ali parado, porque era apenas por causa delas que não tinha avançado no homem alto e feito toda a munição da pistola com silenciador perfurar o crânio do desgraçado.
- Eu avisei que te machucaria de uma forma que nunca tinha imaginado. - a voz firme ecoou por todo o cômodo vazio logo depois uma risada maquiavélica. - Todos os meus sonhos se tornarão seus pesadelos.
%Ryan% se concentrou em %Annie%, que não falava nada, apenas chorava e balançava a cabeça.
Ela não estava olhando pra ele.
Por que ela não olhava pra ele?
Queria dizer que os tiraria dali, que a protegeria. Tudo ficaria bem.
- Por favor… - ela suplicou com a voz tão fraca que %Ryan% sentiu como se o corte em sua costela tivesse aberto ainda mais.
O homem alto riu outra vez, destravando a arma.
O coração de %Ryan% acelerou.
Só que ele não conseguia falar nada, queria gritar, esmurrar e matar aquele verme.
Mas estava paralisado não só pelas correntes.
- Socorro! - um grito esganiçado de %Annie%.
O coração de %Ryan% acelerou mais.
Um choro abafado atrás de %Ryan%, não era de %Annie% e muito menos do homem.
- Adeus.
O coração de %Ryan% parou.
Um tiro e fechou os olhos com a luz branca ardendo seus olhos, a única coisa que escutou foi um último chamado.
- Papai!
- Amor!
%Ryan% acordou repentinamente, enxergando a namorada o olhar assustada enquanto mantinha a palma da mão no coração dele.
Tão acelerado como no sonho.
Ele respirou fundo, perdido completamente e sem o que fazer, puxou %Annie% em um abraço forte. Fechou os olhos e sentiu o perfume dos cabelos dela invadirem seu nariz.
Tinha sido um sonho. Ela estava ali.
- Você estava gemendo e chamando meu nome. - escutou %Annie% falar baixo, a voz abafada.
- Pesadelo. - foi tudo o que disse.
A namorada, sabendo como ele se sentia, depositou um beijo no peito desnudo do namorado e se afastou o suficiente para enxergar seu rosto, sem desfazer o abraço.
Ela encarou bem o namorado, passou o polegar embaixo do olho dele pensando ser suor, mas não era.
Não podia...
- Você chorou…? - não sabia se tinha perguntado ou avisado.
Foi? Ele nem tinha percebido.
Na verdade, pesadelos eram constantes, mas chorar enquanto os tinha era difícil, nem se lembrava quando foi a última vez.
- Foi assustador.
%Annie% se impressionou. O namorado não falava muito sobre seus medos, sabia que essa era uma barreira que ela dificilmente conseguiria quebrar, mas vê-lo chorar e admitir que se apavorou? Nunca tinha imaginado.
- Está tudo bem agora. Estou aqui. - ela se aproximou para beijar a ponta do nariz dele.
- É o que me acalma.
[...]
Já era cedo quando %Ryan% levantou, não podia dizer que tinha dormido, pois mal conseguiu pregar os olhos. Sequer conseguia esquecer o pesadelo que tivera, tinha sido mais do que real, por isso estava em modo de alerta. Se sentia em constante ameaça e sua única preocupação era proteger %Annie%.
Respirou fundo ao ver que ela dormia tão serenamente, se aproximou da cama e pegou a arma da mesinha, guardando-a no cós da calça. Depositou um beijo na testa da namorada e saiu do quarto depois de pegar sua carteira, seu celular, a chave da casa de %Annie% e a do carro.
Trancou a casa enquanto observava o movimento do quarteirão, repetiu o processo até chegar em seu carro. Desbloqueou o celular e visualizou a mensagem que havia acabado de receber: “Encomenda pronta para retirada”.
Sentiu a ansiedade tomar conta do corpo e sua mente viajar para o momento em que tudo havia mudado.
Há 3 anos e 4 meses. Fazenda dos Alcântara.
11:25 AM.
Era verão.
%Annie% estava na festa de aniversário do irmão de Lynn, que duraria praticamente o dia todo. Afinal, uma festa dos Alcântara não era qualquer coisa. Mesmo que Matheus, o irmão mais novo da amiga, estivesse completando apenas 5 anos era de se esperar que toda aquela comemoração saísse nas revistas da elite.
Desde o buffet até os brinquedos contratados, tudo tinha seu requinte.
%Annie% decidiu ir com um vestido florido sem mangas que ia até o meio da canela em tons das cores do outono, um cinto marrom fino, um colar longo e um salto alto com tiras em um tom nude bem claro. Passou uma maquiagem bem leve e deixou os longos cabelos soltos.
Havia pegado uma carona com Lynn, já que tinha ajudado a amiga com algumas coisas da festa, e se arrumado na fazenda dos avós dela. O estilo neoclássico da casa com dois andares e características europeias a fazia se sentir longe de todos os problemas e preocupações, era como se estivesse em uma outra época. Fantasiava como uma pré adolescente.
A parte de trás da fazenda tinha sido decorada de forma rústica, com mesas de madeira extensas e bancos acompanhado e as flores em tons claros. A mesa do bolo era mais decorada, até porque uma festa de criança sem um tema não era uma festa. O pequeno Matheus, assim como todo menino de sua idade, era obcecado por super-heróis.
%Annie% estava começando a ficar cansada de estar sentada em uma das mesas esperando a amiga voltar, decidiu então ir ao banheiro e dar uma volta pela fazenda, e teria feito isso se não tivesse esbarrado em alguém enquanto levantava da cadeira. Fechou os olhos por segundos se xingando mentalmente por ser tão desastrada e quando virou para pedir desculpas, ficou sem fala.
Talvez porque o homem que esbarrou tivesse apoiado a mão em sua cintura ou era apenas porque o homem em questão era ninguém menos que %Ryan%, engoliu seco ao perceber o quão perto ele estava. Não tinham conversado sobre como agiriam quando estivessem em lugares como aquele, cheio de pessoas que queriam evitar e que não entendiam o que acontecia entre eles.
Tudo bem que não tinham necessariamente combinado em esconder o relacionamento, mas não era como se fossem aparecer de mãos dadas publicamente.
Porém, ficava difícil para %Annie% agir normalmente quando ele estava ali tão perto e sorrindo daquele jeito.
- %Annie%. - a mão dele escorregou pela cintura dela até o toque sumir.
- Oi. - ela sorriu, colocando o cabelo atrás da orelha.
- O que você faz aqui? - perguntou curioso.
- O Matheus me convidou, ele gosta muito de mim. - gabou-se em tom de brincadeira. - E você?
- Esqueceu que eu sou amigo da família?
- Ah é verdade. - ela sorriu amarelo.
O casal se encarou profundamente em completo silêncio, ainda não sabiam como agir quando estavam em público. Não tinham conversado sobre esse tópico em específico, na verdade sequer tinham estado publicamente juntos.
%Ryan% respirou fundo e deu um passo à frente.
- %Annie%, eu…
- Tia!
Ambos se afastaram ao escutar a voz do pequeno Matheus.
%Annie% virou sorrindo enquanto %Ryan% se assustava em ver uma galera acompanhando a criança.
Ok, não era bem uma galera.
Apenas Lynn e o namorado junto com um bando de fotógrafos.
- Oi, meu pequeno. - %Annie% agachou para poder abraçar Matheus, que se jogou em seus braços. Ela o ajeitou melhor em seu colo e levantou. - Feliz aniversário! Sabia que você tá crescendo muito rápido?
- Eu tô chegando no seu tamanho!
- Tá sim. - ela beijou a bochecha dele.
Matheus percebeu a presença de %Ryan% e estendeu um braço para poder abraçá-lo, o movimento fez com que %Annie% desse um passo para trás e batesse as costas contra o peitoral de %Ryan%.
Ela tentou esconder o sorriso, mas era praticamente impossível não reagir quando estava tocando-o ainda que sem querer, já %Ryan% pôde sorrir enquanto era agarrado pela criança. Todos pensariam que era apenas pela demonstração de carinho de Matheus, porém não era o único motivo.
- Você também veio, tio!
- Parabéns, moleque! - retribuiu o abraço como conseguia. - Logo eu te levo pro campo de futebol pra te encher de barro, do jeito que sua irmã adora.
- Você nem se atreva, %Mackie%. - Lynn alertou. %Ryan% rolou o olhos teatralmente, acabaria com aquela mania dos Alcântara de ensinar o menino a jogar golf ao invés de futebol só porque era mais “fino”.
- Vocês podiam tirar uma foto com o Matheus, né? - Connor falou, chamando a atenção dos dois.
%Annie% e %Ryan% se olharam rapidamente, sorrindo cúmplices e concordaram.
O fotógrafo aproveitou que %Ryan% fazia cócegas em Matheus enquanto %Annie% gargalhava para tirar várias fotos, depois de uma quase sessão de fotos o aniversariante correu para ver os amiguinhos que chegavam enquanto os mais velhos se olhavam.
%Annie% viu a melhor amiga sorrir como se entendesse tudo e ela abaixou a cabeça tímida.
- %Ryan%, será que eu posso roubar a minha amiga um pouco? - Lynn segurou a mão da amiga. - Nós temos que trocar de roupa para jogarmos o futebol de sabão.
- Eu já te disse que sou péssima em esportes. - %Annie% lembrou.
- Lynn, você vai jogar futebol? - %Ryan% riu.
Ela parou e colocou as mãos na cintura.
- É pelo meu irmão. - %Ryan% levantou a sobrancelha e Lynn sabia exatamente o que ele estava questionando. - Tá achando que eu tenho medo de sabão?
- Amor… - Connor tentou falar alguma coisa, mas foi interrompido pela namorada.
- Vamos apostar então, meninas contra meninos. Quem perder paga um jantar. - Lynn sugeriu.
- Feito. - %Ryan% concordou.
Lynn saiu com %Annie% em direção a casa dos avós.
%Annie% não falou nada, sabia como a amiga era teimosa e muito orgulhosa, mesmo que %Ryan% estivesse certo ela jamais iria admitir. As duas se trocaram rapidamente no quarto de hóspedes que %Annie% ficaria naquele final de semana, ela podia ver a determinação estampada nos olhos da amiga.
Quando voltaram para a festa o brinquedo já estava montado e os técnicos terminavam de prepará-lo para a diversão, todos os adultos pareciam mais empolgados do que as crianças com a estrutura montada, os olhos chegavam a brilhar.
%Annie% sentiu o rosto queimar quando viu que %Ryan% tirou a camiseta enquanto se preparava para subir, ela mordeu o lábio para não deixar que o sorriso de felicidade aparecesse já ele sorriu de lado ao ver que ela estava vestindo uma camiseta larga do Star Wars e um shortinho preto curto.
Sem demora, os casais subiram e combinaram que os times não teriam um goleiro para a brincadeira ficar mais divertida. Feito isso, o jogo começou.
Os meninos eram mais habilidosos, é verdade, mas as meninas marcavam de todos os jeitos possíveis que ficava difícil de fazer o primeiro gol. Por um tempo eles seguiram desse jeito, mas depois tudo passou a ser mais divertido e o sabão estava cumprindo a sua função de derrubá-los, foi então que eles decidiram brincar sujo. Connor abraçava a namorada e caía com ela enquanto %Ryan% segurava %Annie% pela cintura e a levantava, virando-a do lado oposto da bola.
Quando eles marcaram o gol comemoraram com as pessoas que assistiam e as meninas não estavam propriamente bravas, elas gargalhavam, mas tinham uma estratégia para empatar.
Lynn pulou nas costas do namorado e tapou os olhos dele com as mãos para que %Annie% pudesse tirar a vantagem de chutar a bola por debaixo das pernas de %Ryan%, ela chutou um pouco torto, mas conseguiu o gol. Novamente a plateia vibrou.
Agora para desempatar, Lynn marcava %Ryan% de um jeito que estava fazendo o rapaz rir e %Annie% se preparava para chutar quando Connor deu um carrinho sem muita força nela, a bola voou para fora e %Annie% caiu rindo, mas parou quando sentiu o olho arder quando o sabão entrou em contato.
- Ai caramba! - fechou o olho e automaticamente levou a mão até o local.
- %Annie%? - virou para Connor que estava caído do seu lado.
- Tá tudo bem? - escutou Lynn falar mais atrás.
- Caiu sabão no meu olho. - reclamou e viu os três ficarem preocupados.
%Annie% forçou para abrir o olho, mas além de coçar demais estava tão irritado que não conseguia mantê-lo aberto.
Ela sentiu uma mão segurar a sua livre e outra encostar em sua cintura, olhou para o lado e %Ryan% estava lá tentando ajudá-la a levantar.
- Desculpa, %Annie%, foi sem querer! - Connor se desculpou e ela sorriu para garantir que estava tudo bem.
- Não foi nada demais, sério. - garantiu.
- Precisa jogar água com abundância. - Lynn lembrou
- Eu te ajudo. - %Ryan% se prontificou e os dois saíram juntos do brinquedo.
Ele foi cuidadoso com ela o caminho todo e nem se importava se as pessoas estavam comentando, a única coisa que queria era poder ajudá-la o mais rápido possível. %Ryan% ajudou-a a encontrar o primeiro banheiro que acharam e %Annie% não demorou muito para colocar a cara debaixo da torneira e molhar o olho.
- Porcaria! - reclamou quando o olho ardeu mais ainda e voltou a fechar o olho.
%Ryan% chegou mais perto e colocou o cabelo dela para trás enquanto fazia uma conchinha com a mão e ajudava a levar até o olho de %Annie%, ficaram assim por poucos minutos.
- Melhorou? - perguntou visivelmente preocupado.
%Annie% tirou o rosto da água e ele estendeu uma toalha para ela se secar.
- Sim, só tá coçando. - ele percebeu que ela estava esfregando o olho com a toalha e segurou a mão dela, obrigando-a a parar.
- Não esfrega que piora, eu acho que vai ter que fazer uma compressa com água gelada.
Ele afastou a toalha e segurou o rosto de %Annie% com as duas mãos para enxergar melhor o olho vermelho dela, o braço de %Annie% caiu do lado do corpo devagar ao perceber o quão perto ele estava.
- Não precisa, eu não vou ficar cega. - brincou, piscando várias vezes para afastar aquela sensação de coceira.
“Eu ainda consigo ver o quão bonito você é”, pensou.
%Ryan% notou que estava exatamente do jeito que queria estar com %Annie% desde o momento em que a viu na festa, estavam sozinhos e não precisavam esconder o que sentiam com medo de que alguém notasse.
Ele afagou a bochecha dela com o dedão e sorriu aliviado.
- Que bom, porque o seu tombo foi muito engraçado. - riu e ela fez o mesmo.
- Foi jogo sujo, eu ia desempatar aquela bagaça e agora eu estou aqui com o olho inchado, vermelho, coçando e com o cabelo duro cheio de sabão.
- Você continua linda. - garantiu, fazendo-a sorrir tímida.
%Annie% abaixou a cabeça com vergonha e sem saber o que dizer, quando respirou fundo e voltou a olhar %Ryan%, ele a encarava ternamente.
- Eu vou ficar com vergonha desse jeito. - %Annie% sentiu as famosas borboletas no estômago subindo por todo o peito.
Ele não disse nada, apenas aproximou o corpo do dela ainda encarando-a, não sabia o que estava acontecendo, mas o elogio era sincero.
%Annie% realmente continuava linda, mais do que qualquer garota que ele tivesse encontrado em sua vida.
E então, de repente ele sentiu o suficiente.
Estando ali no banheiro com ela da forma mais natural possível e bagunçada também, soube exatamente o que estava acontecendo.
Ele a amava.
Agora conseguia enxergar seus sentimentos e admitir para si mesmo o que provavelmente vinha tentando esconder há um tempo.
Ele riu, achando graça do fato de não ter se tocado antes, %Annie% o acompanhou ainda sem saber o motivo.
- O que foi? - estava curiosa, ele parecia tão feliz.
%Ryan% negou com a cabeça, sem conseguir externar aquilo e aproximou o rosto do dela para que seus lábios se encontrassem de uma forma doce. Ela fechou os olhos com o toque e apoiou as mãos no ombro dele.
%Ryan% queria fazer mais do que dizer que a amava, queria mostrar a admiração e o imenso amor que estava sentindo naquele momento, achava que não iria conseguir descrever com palavras então talvez pudesse demonstrar.
Ele se afastou e olhou %Annie% bem de perto, vendo-a sorrir sem graça, observou cada centímetro do rosto dela com carinho e depois a abraçou repentinamente, enterrando o rosto na nuca dela.
%Annie% retribuiu, é claro, e sorriu largamente sem que ele visse. %Ryan% esperava que ela tivesse entendido o recado, mas ele não tinha certeza se foi muito claro.
Mal sabia ele que %Annie% tinha entendido tudo.
[...]
Mais tarde naquele dia, depois da festa de aniversário de Matheus, apenas a família e os amigos mais íntimos ficaram na fazenda para aproveitar o restante do final de semana. %Annie% tomou um banho quente e não deixava de sorrir que nem uma boba enquanto se lembrava do tempo que passou com %Ryan% e todas as coisas que ele disse, após o momento íntimo no banheiro, ele parecia menos inibido durante a festa. Não saía do lado dela, puxava assunto, sorria e a olhava de um jeito que fazia suas pernas tremerem, parecia menos preocupado com o que as pessoas achariam.
Pelo menos foi como ela interpretou.
Lynn havia convidado a amiga para o “luau” que fariam depois que as crianças dormissem, aquela noite era propícia a isso. A temperatura havia caído consideravelmente, o pai de Lynn já havia feito a fogueira e o chocolate quente seria servido em breve.
%Annie% colocou uma blusa preta básica, jeans escuros e um tênis preto, prendeu o cabelo com um rabo de cavalo e saiu para os fundos da casa.
Encontrou a amiga e o namorado sentados juntos em um dos sofás da área externa, sentou no outro e olhou discretamente para os lados em busca de %Ryan%.
- Ele já tá vindo. - Lynn avisou, rindo da amiga.
- Eu nem falei nada. - Respondeu, dando de ombros.
Não era para ficar tão na cara, ela tinha que disfarçar um pouco.
Viu a melhor amiga negar com a cabeça e não falou mais nada pois %Ryan% chegava com um cajon na mão e um vilão nas costas.
- Um luau não é um luau sem música. - falou enquanto entregava o cajon para Connor.
%Ryan% sentou ao lado de %Annie%, porém um pouco mais afastado do que queria já que iria tocar o violão.
- Tem em mente alguma? - Connor perguntou.
%Ryan% deu de ombros.
- As meninas têm alguma sugestão? - %Ryan% olhou primeiro para Lynn que começou a pensar e depois para %Annie%, que sorriu para ele sem parecer muito óbvia.
- Eu amo Lifehouse então qualquer uma que vocês tocarem já está ótimo.
- Sim, por favor. Toquem Lifehouse! - Lynn concordou.
- Canta essa então, Lynn. - %Ryan% começou a tocar os primeiros acordes de Easier to be que %Annie% reconheceu rapidamente, Connor o acompanhou com o cajon.
Lynn tinha uma voz afinada e tudo pareceu fluir quando ela começou a cantar, %Annie% apenas sorriu, pois aquela era uma de suas músicas favoritas da banda porém não cantou em voz alta como a melhor amiga.
Era tímida demais para fazer aquilo na frente de %Ryan%, já que aquela música era perfeita para o momento em que os dois viviam.
Ela ficou mais sem graça ainda quando notou que %Ryan% tocava sem tirar os olhos dela, em um certo momento não conseguiu desviar.
Ele queria poder expressar o porquê de ter escolhido justo aquela música que tanto descrevia o que ele sentia quando estava perto dela. Era uma música pessoal e ele queria que %Annie% pudesse entender que se tratava dela.
Que ela tornava mais fácil %Ryan% ser quem realmente era quando estava com ela e era exatamente como cada trecho era cantado, eles não precisavam de palavras, conversavam com os olhos em um silêncio que os levava para um lugar só deles, que ninguém entenderia ou conseguiria entrar. Agora tinham se tornado a mesma frequência, a mesma batida de coração.
Já era madrugada quando os dois casais decidiram acabar com o luau, Lynn estava dormindo no colo do namorado e Connor como o cavalheiro que era fez questão de carregá-la até a cama, deixando a manta fina que dividiam com os dois que decidiram ficar apreciando a companhia um do outro.
Quando Connor já estava distante, %Ryan% se aproximou mais de %Annie% para compartilharem juntos a manta enquanto sorria, ela se ajeitou melhor no sofá e sentiu o coração bater mais forte quando os braços se tocaram assim que ele deitou ao seu lado.
Se aquilo fosse um filme, com certeza a música mais clichê e romântica estaria tocando naquele momento.
- Você está com cara de quem está com sono. - %Ryan% falou e viu %Annie% sorrir cansada, ainda sem olhar para ele.
Com a lua cheia e brilhante, o céu mais estrelado do que costumava estar na cidade grande e a fogueira perto dos dois, não queria ceder ao sono e perder a oportunidade de viver aquele cenário com ele.
- Eu não quero que essa noite acabe. - confessou, ela tomou coragem e o encarou. %Ryan% ficou feliz em ouvir aquilo pois ele sentia o mesmo.
- Eu também não.
Ele sentiu a necessidade de falar a tempestade que vivia por dentro, todos os pensamentos que o atormentavam mas não achou que aquele fosse o melhor momento. Uma parte de si tinha medo que %Annie% não entendesse sua explicação e ficasse chateada com a situação em que se encontrava.
Como explicar a ela que a alta sociedade o via como um produto a ser negociado sem parecer um babaca? Que já tinha tentado se impor mas ainda assim era um covarde pois nunca tinha dito ‘não’ às vontades dos pais?
A última coisa que queria ver na vida era %Annie% ficar magoada por causa disso.
Ele então, para afastar todo o medo, colocou a mão na bochecha dela.
- Eu sei que talvez esteja pedindo muito, mas nós podemos esquecer o resto do mundo neste final de semana e sermos apenas… nós? - pediu. Precisava viver em seu próprio mundo junto com %Annie% antes de voltar à vida real.
%Annie% sorriu largamente, era tudo o que mais queria.
- Eu gosto dessa visão.
%Ryan% respirou mais aliviado e roubou um beijo que acabou virando dois, três, quatro e muitos outros.
Quando eles se afastaram, %Ryan% por um impulso quis dizer exatamente o que sentia.
- %Annie%, eu… - seu corpo travou, queria gritar, mas tinha alguma coisa impedindo que as simples três palavras saíssem.
Como sempre, era um covarde.
Mas %Annie% sabia, talvez ela o conhecesse melhor do que imaginava, então colocou uma das mãos no peito dele bem em cima de seu coração e sorriu doce.
- Eu sei, acredite. - falou olhando no fundo dos olhos dele.
%Ryan% sentiu os ombros cederem e abraçou %Annie% forte, enquanto ela apoiava a cabeça em seu pescoço e retribuindo com o mesmo calor.
Não era o bastante que %Annie% soubesse, ele precisava falar. Mas seria o suficiente por agora, acharia um jeito de dizer o quanto a amava com a coragem certa para admitir que não podia mais viver sem ela.
Atualmente.
Casa dos %Madden%. 9:45 AM
%Annie% acordou subitamente ao ouvir a porta do andar de baixo fechando e não sentiu o calor de %Ryan%, foi isso que a fez levantar da cama e ir até a janela.
O carro do namorado e nem ele estavam ali então ficou em alerta, vasculhou o quarto rapidamente e pegou o abajur ao lado da cama, usaria como arma se precisasse se defender.
Sentiu o coração na boca enquanto ouvia passos subindo as escadas e segurou com mais força o objeto, pronta para arremessá-lo. Porém não foi necessário.
%Ryan% entrou no quarto com uma bandeja de café da manhã, procurando %Annie% no cômodo e a encontrou no chão ao lado da cama.
- Bom d… o que está fazendo aí? - riu quando se aproximou e colocou a bandeja em cima da cama. – Por que você tá segurando o abajur com tanta força?
%Annie% olhou para a própria mão e riu sem graça, levantando do chão e sentando na cama na frente do namorado.
- Eu ouvi um barulho e não vi o seu carro então… - ela deu de ombros e %Ryan% tirou o abajur da mão dela, devolvendo para o seu lugar de origem.
- Decidiu me atacar com o abajur há 4 metros de distância. - ele brincou assim que voltou para a cama.
- Agora meu plano pareceu idiota. - %Annie% rolou os olhos e só então reparou melhor na bandeja. - Onde estava?
- Preparando seu café, bom dia. - ele se aproximou e roubou um selinho dela. %Annie% achou o gesto muito adorável.
- Eu ouvi a porta lá embaixo, você saiu? - pegou a caneca e bebeu um pouco de leite.
- Fui buscar meu uniforme.
- Emergência? - perguntou receosa. Sabia que %Ryan% poderia ser chamado a qualquer hora mas torcia para que não, aquele era o final de semana deles.
- Ainda não, mas nunca se sabe. - a resposta era curta e %Annie% não estendeu o assunto.
Ela continuou comendo enquanto %Ryan% a encarava, às vezes beliscava algumas coisas e %Annie% insistia para ele comer com ela, mas ele recusava.
Estava tão ansioso que não tinha fome, comia apenas para tentar espantar o nervoso.
- Obrigada pelo café, estava uma delícia. - %Annie% levantou e deu um beijo em %Ryan%, pegou a bandeja e estava prestes a sair do quarto quando o ouviu dizer:
- Não seria bom se todos os dias fossem assim?
Ela parou e voltou a olhá-lo com a testa franzida.
- Como?
%Ryan% saiu da cama e fui até %Annie%, sentindo o coração acelerar ainda mais.
- Todos os dias eu te trazendo café na cama, você acordando nos meus braços, nós dois conversando sobre detalhes bobos.
%Ryan% acariciou o rosto de %Annie% que estava com a boca aberta sem conseguir responder. Tinha sido pega desprevenida.
- O que você está querendo dizer? - perguntou, confusa.
- Vem cá. - ele retirou a bandeja da mão de %Annie%, colocou em cima da cama e puxou a namorada pela mão até os dois estarem sentados.
%Annie% sentia o coração bater tão rápido que a ponta de seus dedos chegavam a latejar.
- Por que você não vem morar comigo? - %Ryan% falou de uma vez, antes que perdesse a coragem.
Esperava que a amada fosse pular de alegria e embora ela estivesse feliz, demonstrava estar mais desapontada.
- Nossa, eu não pensei que você fosse falar isso. - Dessa vez, foi %Ryan% quem olhou confuso para ela. - Amor, morar com você é o que eu mais quero só que…
- Só que…?
- Eu estava esperando um outro pedido, pra ser sincera. - %Annie% deu de ombros e vendo que ele ainda não entendia, segurou uma das mãos dele. - Eu não quero apenas morar com você. Entende?
%Ryan% tinha entendido perfeitamente, estavam de volta falando sobre a palavrinha mágica que até então nenhum dos dois tinha dito.
Casamento.
- Eu também não quero te pressionar a fazer algo que não é da sua vontade.
Ele sorriu e levou a mão da amada que estava entrelaçada com a dele até os lábios e depositou um beijo suave de conforto.
- Nunca mais pense que eu não quero me casar com você, é a coisa que eu mais quero na vida. - %Annie% até tentou conter o sorriso largo, mas foi impossível e então esmagou o namorado em um abraço apertado.
Um filme passou na cabeça de %Ryan% e um aperto no peito, tinha pensado tanto no rumo que sua vida estava tomando que a única pensava era que deveria fazer %Annie% feliz enquanto estivesse por perto.
Mas também sentia um pouco de medo, pois já que teria que fazer tudo conforme manda a tradição, teria que pedir a permissão do sogro e do cunhado. E isso provavelmente era muito mais assustador do que suas missões no extremo da fronteira.
[...]
%Annie% já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha olhado para o relógio em seu punho, o seu expediente tinha terminado há pelo menos uma hora atrás e todo o prédio já tinha ido embora, exceto pelo chefe e o Major Walker que estavam em uma reunião desde a hora do almoço. Ela precisava da assinatura em um simples papel e não podia entrar na sala para deixar com o chefe, era o único motivo de não ter ido para casa ainda, já que todo o seu trabalho estava adiantado.
Quando pensou que teria que pedir seu jantar ali mesmo, o chefe finalmente a chamou. %Annie% levantou rapidamente da cadeira, sentindo dor nas costas de tanto ficar sentada, e foi até lá.
- Precisa de mim para alguma coisa? - ele perguntou e %Annie% deixou o papel em cima da mesa, sendo observada pelo Major Walker.
- Sim, senhor, o jurídico precisa que assine isso ainda hoje e amanhã bem cedo eles virão buscar.
- Certo. - o chefe voltou a atenção para o Major e ela permaneceu parada, esperando alguma ordem. - Bom, ficamos assim então, Major. Acredito que é o suficiente por hoje. - estendeu a mão e o mais novo apertou com força.
- Perfeito, Secretário. Nos vemos em breve.
- Até, Major. - o chefe se despediu e olhou para %Annie%. - Pode ir também, %Madden%. Boa noite.
- Boa noite, senhor. - respondeu e saiu na frente, porém sentiu o Major logo atrás dela, mesmo que a sua estratégia de colocar a bolsa na ponta da mesa para que pudesse apanhá-la enquanto caminhava e assim ir ao elevador o mais rápido possível, parece que Walker tinha a mesma pressa que ela.
Ele a acompanhou até a saída do prédio, exatamente do jeito que ela não queria, seu plano era ir até o metrô sozinha e muito rápido.
%Annie% debateu consigo mesma se deveria ser educada com o Major e desejou boa noite que mais saiu como um sussurro e foi na direção contrária dele, não queria escutar se ele tinha respondido e estava quase comemorando por conseguir ir embora até o Major chamá-la.
Ela parou na calçada e virou, vendo-o caminhar até ela.
- Eu queria te dizer que fico muito feliz em vê-la trabalhando.
%Annie% sorriu amarelo.
- Obrigada, Major. - apertou mais a bolsa, pronta para virar e sair dali.
- Já era hora do Secretário ter alguém competente. - ele sorriu, mas %Annie% permaneceu séria.
Não era apenas o que o Major falou, mas também a forma, pelo tanto que trabalhava imaginava o quanto os ex-funcionários tinham ralado e não achava justo falar deles daquele jeito.
- Se for só isso, Major, eu tenho que ir antes que fique tarde. - mais ainda, pensou.
Deu as costas mas sentiu a mão enorme dele segurar seu braço, mesmo estando com um vestido de manga longa conseguia sentir como era fria e aquilo fez um arrepio estranho percorrer sua espinha. Não era nem de longe o tipo de arrepio que %Ryan% causava, aliás muito pelo contrário, era uma sensação muito esquisita.
- %Annie%, espera… - Walker parecia não saber o que dizer já que olhava para todos os lados.
Incomodada com o aperto, ela afastou o braço em um mudo sinal para que ele soltasse e funcionou.
Esperou que ele dissesse alguma coisa e um relógio começou a tocar em sua cabeça.
Tic.
- Eu queria te pedir desculpas.
- Pelo o quê? - ela franziu a testa.
- Pelo meu comportamento nos últimos tempos, eu sei que você não fica muito confortável quando estou no mesmo cômodo. - ele riu triste. - Mas eu já aceitei que não é a mim que você ama e eu…
%Annie% quis que um buraco abrisse naquele momento, achava impossível o convívio com Walker ficar mais constrangedor, mas aparentemente podia piorar. Aquele era o último assunto que pretendia conversar com ele.
Tac.
- Major, por favor. - interrompeu, passando a mão no rosto sem se importar com a maquiagem. - Isso é uma história antiga e encerrada. Não tem porque falarmos disso agora.
Tic.
- %Annie%, você mal consegue me olhar. Nós precisamos resolver isso já que vamos continuar nos esbarrando.
Ela ficou em silêncio sem conseguir achar as palavras certas para dizer que não era por causa do quase relacionamento deles que não conseguia encara-lo e sim pelo modo como ele a olhava, como se fosse uma presa.
Tic-tac.
E não tinha gostado da forma como disse que continuariam se encontrando, soou como se aquilo fosse de propósito.
Tic-tac.
%Annie% o olhou, dessa vez sem desviar, para que pudesse ser direta.
- Major, eu amo o %Ryan%. - Walker não demonstrou nenhum sentimento, nenhuma emoção. - E aqui, nós precisamos apenas manter uma relação profissional com muito respeito. - ela percebeu quando ele juntou as sobrancelhas e olhou para o lado. - Se nós simplesmente esquecermos o que aconteceu, acho que podemos muito bem seguirmos em frente e…
Walker fez sinal de silêncio e %Annie% o olhou ofendida. Ele estava mandando ela calar a boca?
- Você está ouvindo isso? - perguntou e ela ficou sem entender.
- O quê?
O Major não respondeu, olhou em volta e de repente se voltou para o carro estacionado na calçada do lado deles, ele estava ali quando chegou cedo e ainda permanecia. Achou estranho, se aproximou e tentou enxergar através do vidro preto porém não conseguiu, o insulfilm era escuro demais e imaginava que fosse de propósito. Encostou então o ouvido para escutar se o barulho estava vindo dali.
%Annie% não teve tempo de entender o que estava acontecendo, no mesmo instante que levantava a mão para perguntar o Major assumiu uma postura rígida e se aproximou em passos largos, segurando seu braço e a puxando consigo.
- Precisamos nos afastar. - agora a voz dele era fria e séria.
%Annie% mal conseguiu balbuciar alguma coisa enquanto ele a arrastava para longe rapidamente, foi preciso muito esforço para não tropeçar no salto que usava já que ele praticamente corria com ela.
- Major, o que foi? - perguntou ofegante.
- Eu acho que tem uma… - os segundos seguintes foram ensurdecedores.
De repente, o carro explodiu. O impacto fez com que Walker se jogasse em cima de %Annie% em posição de proteção, segurou a cabeça dela com as duas mãos enquanto projetava o corpo para baixo, os dois caíram e %Annie% apenas tapou os ouvidos com as mãos quando escutou o estrondo. Fechou os olhos quando a claridade queimou seus olhos e seu coração foi na boca quando sentiu o calor do fogo tão perto.
Quando Walker pôde ter certeza que não haviam sido atingidos, se afastou o suficiente para enxergá-la melhor. %Annie% estava tão chocada que sequer sentiu as lágrimas escorrerem pelos olhos arregalados, assim que o Major saiu do seu campo de visão conseguiu ver o que havia restado do carro ainda em chamas.
- Você está bem? - ele perguntou, sua voz parecia estranhamente normal para quem tinha acabado de ver um carro explodir do nada.
%Annie% teria rido do pensamento se fosse outra situação, claro que ele estava normal diante daquilo, vivia coisas piores no exército.
Sem conseguir responder, por não achar força na voz, apenas assentiu e viu Walker levantar enquanto enfiava a mão no bolso da calça.
- Aqui é o Major Walker, tivemos um novo atentado no departamento de segurança. Eu preciso da minha equipe aqui. Agora.
%Annie% desviou o olhar para o Major e só então conseguiu entender o que havia acontecido.
Parece que nenhum lugar do país era suficientemente seguro agora.
Em poucos minutos escutou as sirenes se aproximando de onde estava, os moradores mais próximos já se aproximavam assim como os carros da imprensa.
%Annie% estava sentada no meio fio da calçada com o blazer do Major nas costas, a temperatura havia caído mas não era por causa do vento que ela tremia. E sim de pensar no que havia acontecido. Se não fosse pelo Major, provavelmente não seria apenas o carro o único a ser incinerado ali. Tinha apenas ralado o cotovelo e batido o joelho de lado durante a queda, mas isso era o de menos. Estava viva. Sobreviveu a um atentado com bomba.
Walker ainda estava no telefone, mas do lado dela, talvez para ter certeza que não fosse desmaiar a qualquer momento.
%Annie% viu o caminhão do corpo de bombeiros chegar primeiro, atrás um 4x4 do exército, uma ambulância e um outro carro, todo mundo saiu às pressas dos veículos e vieram em direção aos dois. Entretanto, ela reconheceu um soldado, sem uniforme dessa vez, que caminhava com mais pressa do que os demais.
Esquecendo qualquer protocolo de hierarquia, ela se levantou e deixou o blazer cair no chão enquanto corria até %Ryan% que enxergava apenas a mulher assustada à sua frente.
%Annie% se jogou nos braços dele e sentiu o corpo amolecer, uma súbita vontade de chorar - que não foi contida - e a sensação de estar finalmente segura. Enterrou o rosto no pescoço dele e respirou fundo, sentindo a mão dele afagar seu cabelo.
- Eu tinha acabado de sair do QG quando soube, vim o mais rápido que pude. - ele falou, preocupado. Só Deus sabia o medo que sentiu quando ouviu sobre o atentado próximo ao prédio, e sabe-se lá quantas multas havia tomado por ter passado no sinal vermelho.
%Ryan% se afastou de %Annie% contra a vontade e sua mão segurou o rosto dela, analisou minuciosamente dos pés a cabeça e notou o joelho machucado e a manga do vestido rasgada, além é claro da expressão assustada dela.
- Vem, os paramédicos precisam ver esses ferimentos.
- Eu estou bem. - a voz trêmula não enganou o namorado que sem precisar falar mais nada, levou-a até a ambulância.
%Annie% mal sentia as pernas por causa do susto, então quando os paramédicos deixaram-na sentar na ambulância deixou o corpo se render.
Um paramédico a analisou enquanto outro corria para verificar o Major, %Annie% fez os procedimentos básicos e logo depois limparam seus ferimentos, nada preocupante. Fisicamente estava ótima para uma sobrevivente de um atentado.
%Ryan% observava tudo em silêncio e com muita atenção, sabia de suas obrigações como soldado porém não as realizaria até ter certeza que ela estivesse bem. Deu uma olhada para trás, vendo os companheiros e o Major ocupados demais para lembrarem que estava ali.
- Se sentir tontura ou dor de cabeça nas próximas horas, tome um analgésico. Não teve trauma na cabeça ou algo do tipo então você vai ficar bem. - ela sorriu fraco para o paramédico.
- Valeu, Sid. - %Ryan% agradeceu e apertou a mão do homem, ele retribuiu e saiu com a prancheta em direção ao parceiro.
%Ryan% sentou ao lado da namorada, vendo-a olhar para o nada, ele passou o braço em volta da cintura dela, sentindo-a encostar em seu ombro.
- Você devia ir ao hospital e fazer um raio x. – disse, mas ela negou com a cabeça.
- Eu já disse que estou bem, amor. - o problema não foi a queda e sim o trauma. Ela se afastou dele depois de olhar para os soldados mais a frente, %Ryan% franziu a testa e estava pronto para questioná-la, mas %Annie% foi mais rápida: - Devia bater continência ao Major, não quero que te puna por minha causa de novo.
- Eu não vou sair do seu lado essa noite. - ela sorriu. É claro que não iria, mas acima dela, ele tinha um dever.
%Annie% o olhou com compreensão.
- Eu sei. - colocou uma mão no rosto dele e o acariciou. - Mas é melhor, vai lá. Eu não vou nem me mexer, prometo.
%Ryan% relutou, ainda enxergava pavor nos olhos dela, mas de certa forma, %Annie% tinha razão. Depois de alguns minutos lutando internamente, ele levantou e tirou a jaqueta que usava, colocou na namorada e deu um beijo suave nos lábios dela.
- Eu não demoro. - avisou, depositou um beijo na testa dela e saiu.
Nos minutos seguintes, %Ryan% cumpriu sua função como soldado do exército, conversou com os colegas, com o Major, analisaram minuciosamente o local e trocaram informações importantes.
Todos estavam convictos de uma coisa: aquele atentado tinha um único destino, o departamento e todos os que trabalhavam ali.
%Ryan% acreditava que os rebeldes não iriam matar o secretário daquela forma, o que queriam era a atenção. Mostrar que quando estivessem prontos e quando quisessem, fariam um estrago muito maior. Já conseguia imaginar as cenas de terror e caos mais uma vez por todas as cidades, seu sangue fervia só de pensar em todos aqueles bandidos tomando as ruas de seu país.
Teriam muito trabalho para que isso não acontecesse, o exército não permitiria, não com uma ameaça como aquela.
Não se preocupava em apenas proteger os civis, isso era sua obrigação, mas %Annie% também.
Precisava deixá-la segura de qualquer forma. A qualquer custo.
Nota da Autora: Hmmm, as coisas estão começando a pegar fogo né (ai gente desculpa a piadinha infame hahaha parei). Mas vou ter que avisar que tudo isso aqui é só o começo 👀 FUI.
Até o próximo capítulo!
Se vocês quiserem ler Military ouvindo a playlist que eu criei no Spotify, eu aconselho 😉