Military Dignity – Endless War


Escrita porMaari F.
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo 02 • We're on the frontlines

Tempo estimado de leitura: 41 minutos

  A manhã foi conturbada para %Annie%, ela pediu ajuda da mãe para achar a melhor roupa para o primeiro dia no emprego novo, precisava estar o mais perfeita possível, seria secretária no departamento de segurança e não poderia ir de qualquer jeito.
  No fim, resolveu ir de forma simples, mas elegante, vestindo uma calça flare preta e uma blusa de mangas compridas branca com um salto também preto, colocou um colar simples que lhe deu um toque especial ao visual e para completar, a maquiagem não era forte, sequer precisava, mas achou melhor não chamar a atenção demais logo no primeiro dia.
  Se despediu dos pais e foi de metrô, não era longe de sua casa, precisou respirar fundo várias vezes antes de entrar no prédio. Deu bom dia aos seguranças e passou seu crachá no leitor para ter a passagem liberada, feito isso seguiu para o último andar e se apressou para ligar o computador e arrumar sua mesa conforme achava necessário.
  Não demorou muito para escutar o barulho do elevador parar em seu andar e sentiu as mãos suarem, respirou fundo e passou as palmas na calça antes que o chefe visse o quão nervosa estava.
  Assim que o senhor que aparentava ter a mesma idade de seu pai apareceu em seu campo de visão, tratou de sorrir cordialmente.
  - Bom dia, senhor Campos.
  - Bom dia, %Annie%. Tenho uma reunião particular com um grande agente agora pela manhã, me avise assim que ele chegar.
  - Sim, senhor! - assentiu e esperou o chefe entrar em sua sala para de jogar na cadeira, liberando todo o ar que tinha prendido.
  Era uma situação nova para %Annie%, sempre trabalhara em restaurantes porque sabia que era isso que queria fazer pelo resto da vida, nunca havia trabalhado em um prédio e tendo um militar como chefe.
  Seus chefes eram sempre pessoas de idade que admirava e a tratavam como uma neta.
  Campos podia ser bem mais velho, mas o fato de ser Capitão Reserva do Exército fazia suas pernas tremerem, ele era uma autoridade e da mesma patente que %Ryan%. A diferença era que %Ryan% deixava suas pernas moles porque estava apaixonada por ele.
  E Campos parecia ser um homem muito severo, não era atoa que servira na primeira guerra dos rebeldes e assumiu o cargo mais alto do departamento de segurança.
  “Chega de pensar nisso, foca no serviço!”, falou para si mesma e tratou de cumprir.
  %Annie% estava atualizando a agenda de seu chefe quando fora anunciado que o agente havia chegado para a reunião, liberou a entrada e avisou o chefe, que pediu para que ela o acompanhasse até sua sala quando subisse.
  No momento em que o elevador chegou no andar, %Annie% deixou com que a caneta que usava para marcar telefones importantes caísse no chão, se abaixou para pegar no exato momento em que o agente chegava e ia em direção a sua mesa.
  Ela tentou pegar a caneta depressa e acabou batendo a cabeça na madeira, fechou os olhos ao sentir a dor e prontamente colocou a mão no local machucado.
  Quando voltou a ficar ereta novamente, abriu o olho e desejou não ter feito isso, ficou sem fala ao ver a última pessoa que gostaria naquele momento.
  - Major Walker. - cumprimentou contra sua vontade e sentindo sua cabeça latejar.
  - %Annie%, mas que bela surpresa. - sorriu para ela, que respirou fundo. Teria que ser educada e profissional.
  - O Capitão Campos o aguarda, queira me acompanhar, por gentileza. - apontou para frente e saiu de sua mesa, sentindo que o Major a encarava fixamente enquanto o guiava.
  Sentiu um arrepio ruim passar pela espinha mas tratou de ignorar, bateu na porta e assim que escutou o chefe autorizar, a abriu e deu espaço para que o Major passasse.
  Ele o fez mas de propósito deixou que seu corpo quase tocasse o de %Annie% e a olhou enquanto sorria.
  - Obrigado. - falou baixo e ela olhou para qualquer outro lugar menos para ele.
  - Walker! Feche a porta, por favor, %Annie%. - Campos pediu.
  “Com prazer”, pensou.
  - Com licença. - o fez e praticamente saiu correndo para o banheiro.
  Parou em frente ao espelho e passou a mão no rosto, respirando fundo várias vezes. Campos havia dito que a pessoa que estava esperando era importante e que não saía do departamento, vinha conversar a respeito da segurança pública por pelo menos duas vezes por semana. O que significava que o Major era confiável e muito requisitado pelo chefe, encontraria com ele toda a semana de agora em diante e teve uma sensação horrível.
  Suspirou antes de voltar para a mesa antes que o chefe notasse que tinha saído, tudo o que queria era o abraço reconfortante de %Ryan% mas não o teria por agora.

  Aquele não foi um dia fácil para %Annie%, tudo parecia conspirar para ser um péssimo dia, típico de uma segunda. Quando achou que melhoraria ao ver a mensagem de %Ryan% no celular, um balde de água fria fora jogado em sua cabeça.

“Estou atolado de trabalho, vou chegar muito tarde.
Não sabe o quanto eu queria estar com você agora.
O dia está uma merda.”

“Bom, pelo menos nisso nós combinamos hoje.
E olha o linguajar, %Ryan% %Mackie%!”, respondeu.

“Posso ver seu bico daqui por causa da palavra feia que usei.”

“Seus pais não te deram educação não?”

“Você não reclama em certas horas ;)”

  %Annie% sorriu sem graça.

“Bobão”

“Eu te amo”

  Ela suspirou e respondeu de volta, deixando o celular de lado logo depois, precisava se concentrar e conversar com %Ryan% não iria ajudar em nada. Pelo menos, não naquele momento.
  A reunião do chefe demorou horas, %Annie% sequer podia imaginar do que se tratava e sinceramente, quem era ela para se meter naquele assunto? Pouco se importava, ainda mais sabendo que Major Walker estava ali.
  Ela tornou o dia bem produtivo, separou os compromissos mais importantes do chefe e alguns recados que deveria passar, não era um trabalho muito difícil. Quer dizer, o chefe tinha mais reunião do que qualquer outra coisa.
  %Annie% estava para fazer seu horário de almoço quando a reunião acabou, o chefe se despediu do Major e avisou a ela que ficaria na sala, dando autorização para que ela saísse. Respirou fundo ao notar que o Major havia segurado o elevador para que ela entrasse junto com ele, agradeceu com um sorriso forçado e ficou em silêncio enquanto a cabine descia, ao que parecia, mais devagar do que deveria.
  “Contanto que eu não fique presa com ele nesse cubículo”, pensou.
  A presença do Major a assustava, sabia que ele a encarava sem vergonha alguma e isso a deixava desconfortável.
  Depois do ocorrido há meses atrás, %Annie% não conseguia mais ter simpatia pelo Major, era estranho porque aparentemente ele não havia feito nada mas sentia como se ele tivesse mudado.
  Major Walker estava mais sério, seus olhos mais agressivos e sua postura mais rígida, a invasão dos rebeldes havia mudado muita coisa e a personalidade do homem estava nessa lista.
  %Annie% tentou não demonstrar a alegria que sentiu quando o elevador parou no térreo, seria indelicado demais de sua parte, segurou melhor sua bolsa e saiu dali.
  - %Annie%. - escutou seu nome e parou antes de conseguir sair do prédio.
  - Sim? - encarou o Major, ele estava atrás dela.
  - Parabéns pelo novo emprego. - congratulou.
  %Annie% reprimiu a vontade de franzir a testa.
  - Obrigada, Major. - respondeu, educada.
  - Até quarta. - sorriu para ela e foi embora, deixando-a confusa.
  Aquele dia definitivamente poderia acabar.

[...]

  - O que é isso? - perguntou, encarando a pasta já cheia de arquivos. Aquela documentação era uma bomba relógio pronta para explodir em seu colo. - Não tinha dito que não acreditava em você, só que seria impossível provar.
  - Nem tanto.
  - Quanto mais você precisa? - chiou.
  - Acho que você tem uma noção.
  - Não acredito que tenha muito tempo para isso.
  Riu, achando engraçado o desespero estampado em sua cara.
  - Se eu fosse você achava um tempinho. Vai adorar saber quem são os militares envolvidos na invasão dos rebeldes.

[...]

  O expediente acabou se tornando bem exaustivo para %Annie%, não parecia, mas andar pra lá e pra cá com aquele salto e roupas sociais enquanto acompanhava os convidados do chefe para suas respectivas reuniões era bem cansativo. E chato.
  A volta para casa a deixou ainda mais esgotada, chegou e foi direto tomar um bom banho, quando terminou colocou roupas finas para aguentar aquele calor, foi jantar o que a mãe havia preparado e conversou com seus pais sobre o primeiro dia de trabalho.
  A conversa fora breve e logo %Annie% estava na cama, mal conseguiu mandar uma mensagem para %Ryan% perguntando se ele havia chegado, assim que deitou na cama, dormiu quase que instantaneamente.

  %Annie% era arrastava para uma linha de fumaça que não saía de sua cabeça, a cena em que ela era feita de refém por Vincent era repetida inúmeras vezes como um loop, o medo que sentia e o pavor porque tinha uma arma apontada para sua cabeça, tudo estava ali de novo.
  Porém, dessa vez quando chegava perto de %Ryan%, ao invés de ficarem próximos, eram afastados mais ainda. E então, ele levava os três tiros de novo.
  %Annie% queria gritar, mas sua garganta não conseguia produzir nenhum som, estava aflita porque agora parecia que era apenas uma mera espectadora e isso não resolveria nada.
  Queria gritar. Queria correr. Queria chorar.

  %Annie% se movimentou pesadamente na cama e acordou de forma brusca, sentindo as lágrimas escorrerem pelo seu rosto e descerem da orelha para se perderem em seu cabelo. Sentia o coração bater aceleradamente e puxou o ar, notando que a nuca molhava parte do travesseiro.
  Tinha sido um sonho, só mais um daquele dia horrível que não a abandonava nunca.   Como de costume, porque os pesadelos eram frequentes - “sequela do ataque”, como %Ryan% havia dito a primeira vez -, pegou o celular ao lado da cama e desbloqueou a tela.
3:38 A.M.
  Respirou fundo antes de ligar para o namorado, sem hesitar por conta do horário, no segundo toque a ligação fora atendida.
  - Alô? - %Annie% fechou os olhos ao escutar a voz rouca de %Ryan%, precisava tanto daquilo naquele momento.
  - Sou eu, amor. - %Annie% sussurrou porque não tinha forças depois do pesadelo.
  - %Annie%… - %Ryan% despertou, a voz da amada estava fraca, sabia exatamente o que significava. - Aquele pesadelo de novo? – perguntou, mas nem precisava de uma resposta porque tinha certeza que era.
  - Sim. Eu precisava escutar sua voz pra ver que não era real.
  - Tudo bem, amor, eu estou aqui. Você está bem, está segura.
  %Annie% mordeu o lábio para conter a vontade de chorar.
  - Era tão real, tive medo… - admitiu.
  %Ryan% sentiu como se tivesse levado um tiro de novo, mas dessa vez em seu coração quando escutou a voz frágil de %Annie%. Doía tanto.
  - Não tenha medo, escute a minha voz. Eu estou bem e estou com você. Ninguém nunca vai te machucar de novo, tudo bem?
  - Uhum.
  - Agora deite na cama, - pediu e ela o fez, se aconchegando melhor. - feche os olhos e se concentre apenas na minha voz.
  %Annie% o fez, agora com a respiração voltando ao normal.
  - Queria que estivesse aqui. - ela falou um pouco sonolenta, a voz de %Ryan% era como uma canção de ninar.
  - E estou, me imagine te abraçando. Sempre estarei com você, meu amor. Para sempre.
  Ela fez isso, imaginou %Ryan% ali, seu calor envolvendo seu corpo de uma forma tão agradável. O carinho que ele geralmente fazia no braço dela poderia praticamente ser sentido. %Annie% sorriu de leve, inflando os pulmões e lembrando do cheiro dele.
  Com a voz suave dele no telefone e seu perfume em sua memória, ela adormeceu novamente. Dessa vez sem pesadelos.

[...]

  A semana se arrastou daquela forma, %Annie% e %Ryan% ocupados demais com seus respectivos empregos, geralmente telefonavam um para o outro no final do expediente, %Ryan% o fazia porque se preocupava em saber se %Annie% estava sendo assombrada por seus pesadelos novamente. Tudo o que ele queria era encontrá-la e abraçá-la tão forte que ela iria rir em seu ouvido e cutucar suavemente em seu braço para mostrar que estava sendo esmagada, não que ela reclamasse quando isso acontecia, afinal amava o abraço dele.
  Enquanto estiveram separados na semana, antes de adormecer %Ryan% relembrava o dia em que conhecera %Annie%, sorria toda vez que as memórias dominavam sua cabeça.

  Há 4 anos. Casa da Lynn.
  Por volta das 19:30 PM.

  A festa de aniversário de Lynn era para ser uma reunião pequena e sofisticada, com os amigos mais íntimos da mulher, mas %Ryan% sabia o quão exagerada a namorada do melhor amigo era então não foi surpresa nenhuma se deparar com a luxuosa casa repleta de gente.
  Ele não gostava de reuniões daquelas, especialmente porque os pais queriam que aquilo fosse sua vida, mas ele odiava ser sociável com pessoas que não se importam com o que você sente ou pensa.
  Porém era obrigado a ir nesses lugares para mostrar aos pais que estava fazendo o que queriam. E também detestava isso.
  Viver para agradar os outros, para agradar seus pais. E daí que seu pai era dono da maior multinacional de exportação do país? Não queria seguir aquela profissão, odiava ficar trancado em uma sala pequena.
  E também não queria casar com a filha patricinha nojenta do magnata advogado mais rico da cidade apenas para que os pais pudessem virar sócios, e num futuro, %Ryan% assumir todo aquele império para si.
  Bufou ao sentir sua cabeça pesar só de lembrar de todo esse rolo, vendo que não encontraria Connor tão cedo, decidiu ir até o escritório do pai de Lynn para pegar um whisky decente e encher a cara. Tinha total permissão e intimidade para aquilo, e mesmo que não tivesse, arrumaria um lugar para ficar longe de todo aquele barulho.
  Escutou uma voz no escritório e se aproximou devagar para que não chamasse atenção, imaginou que fosse um casal brigando ou fazendo outras coisas, mas parou ao ver que uma garota estava sentada no sofá com uma mão na testa, parecia um tanto quanto nervosa.
  - Não seja covarde. - falou para si mesma e respirou fundo algumas vezes. - É só um garoto, o que de errado pode acontecer?
  %Ryan% encostou no batente da porta e cruzou os braços, achou aquilo um pouco… interessante.
  - Além de eu ter pisado no pé dele com esse salto enorme e derramado vinho tinto na camiseta dele que deve valer mais do que a minha casa.
  %Annie% dialogava com si mesma sem notar a presença de %Ryan% ali, na verdade estava tão ocupada que não reparou quando ele entrou no escritório sorrateiramente ainda observando-a.
  %Annie% tinha ido até a festa porque Lynn, sua melhor amiga, havia implorado. Detestava aquelas reuniões com gente rica e mimada, mas sabia que a amiga ficaria feliz com sua presença.
  %Annie% e Lynn eram amigas desde a pré escola, embora vindo de uma família humilde - bem diferente de Lynn -, seus pais não mediram esforços para que ela e o irmão estudassem em uma boa escola particular. Com a inteligência, ambos conseguiam se manter com as bolsas de estudo em suas escolas futuras.
  Lynn mesmo vindo de uma família rica, era humilde, a única de nariz empinado que se manteve amiga de %Annie% até mesmo no ensino médio. Gostava de %Annie% porque era autêntica e sincera, não era sua amiga por suas aquisições mas porque realmente gostava dela. Isso só tornou o laço de amizade ainda mais forte.
  Lynn também havia convidado o rapaz que %Annie% estava gostando para seu aniversário naquele dia, era um rapaz da sua rede de amigos, mas %Annie% parecia bem caidinha por ele então decidiu ajudar, era a oportunidade perfeita para falar com ele.
  E teria sido, se %Annie% não tivesse ficado tão nervosa em falar um simples oi e sem querer ter pisado no pé do rapaz e batido a mão no copo de vinho tinto que ele tinha nas mãos. Fora uma cena engraçada. Constrangedora, porém engraçada.
  %Annie% então não pode fazer nada além de pedir milhares de desculpas e simplesmente… correr. Acabou indo parar no escritório do pai de Lynn, gostava daquele lugar porque além de ser o mais calmo naquela noite, era aconchegante o suficiente para se sentir um pouco melhor.
  Ela respirou fundo pela milésima vez e voltou a realidade, pronta para voltar e encarar o rapaz novamente para pedir desculpas apropriadas. E teria feito isso se seus olhos não tivessem encontrado os de %Ryan%.
  Os dois não sabiam o que tinha acontecido, mas era como se tivessem se encontrado não através do olhar, mas sim da alma.
  %Annie% não conseguiu desviar, alguma coisa a prendia em %Ryan%, não podia imaginar que era possível sentir o coração bater tão rápido e as mãos suarem frio por causa de uma só troca de olhar. Mas aconteceu e foi tão vívido que lhe faltou ar. Foi único, de fato.
  E %Ryan%, sentiu como se tivesse encontrado seu propósito. Se sentia tão perdido durante todo esse tempo, mas olhando para ela era como se tivesse achado seu caminho. Foi estranho para ele, mas um estranho tão bom que não quis interromper o momento.
  Embora nenhum dos dois tivesse essa vontade, aquela bolha invisível fora estourada quando %Annie% sentiu seu rosto corar e desviou o olhar, sorriu sem graça e precisou juntar muita força na perna para levantar do sofá e sair dali o mais rápido possível. Ou provavelmente continuaria ali, porque sinceramente ela poderia fazer aquilo pelo resto da noite.
  Nenhum dos dois disse nada, porém %Ryan% a seguiu com o olhar até perdê-la de vista, piscou algumas vezes depois que ela sumiu, tentando entender o que raios havia acontecido.

  A festa continuava animada às 21h da noite, %Ryan% não havia bebido o whisky porque nem se lembrava mais dele depois do que aconteceu, resolveu voltar para a sala em busca da garota, mas não achou. Tinha gente demais ali.
  Achou Connor e os dois começaram a conversar sobre diversos assuntos, Lynn vinha arrastando %Annie% pela mão para que se enturmasse um pouco quando viu o namorado conversar com o melhor amigo.
  - Não quero mais conhecer ninguém. - %Annie% reclamou baixinho.
  - Não vai acontecer nada. - Lynn garantiu.
  - E como você sabe que não vou quebrar o nariz de alguém sem querer? - %Annie% perguntou mas a resposta que teve foi a melhor amiga rolar os olhos.
  - Meninos! - Lynn chamou a atenção e %Ryan% virou em sua direção. - %Annie%, esse é o %Ryan%, melhor amigo do Connor. %Ryan%, essa é a %Annie%.
  Os dois se encararam de novo, %Ryan% não havia percebido quem era até olhá-la nos olhos e percebeu que a garota deixou o queixo cair de leve.
  Ele sorriu de lado, tombando um pouco a cabeça, o que %Annie% achou extremamente fofo, ela iria estender a mão quando ele se aproximou e beijou sua bochecha. Ela paralisou com o contato macio dos lábios dele em seu rosto, geralmente o que acontecia era um cumprimento bochecha com bochecha e não daquele jeito.
  %Ryan% fez de propósito, ah fez, na verdade ele queria ter feito isso no escritório mas deixou a oportunidade passar e ao ver que o destino havia colocado a garota bem na sua frente não poderia perder. Porém, quase se arrependeu ao sentir o perfume de %Annie% tão perto e perceber o quão macia era a pele dela.
  Ela sorriu de leve e desviou o olhar, tentando não demonstrar o nervosismo e como aquele momento havia a afetado tanto enquanto Lynn falava alguma coisa que nem prestou atenção.
  Ela não se aguentou e voltou a encará-lo, desejando conseguir decifrá-lo, enquanto %Ryan% não tirava os olhos e sorria para ela.
  Realmente havia encontrado seu propósito e sabia que estava ferrado, mas naquele momento concluiu que %Annie% era sua salvação.

  Naquela mesma semana. Clube de Golfe.
  Festa dos sócios. 10:30 AM.

  A agenda de %Ryan% naquela semana estava cheia graças aos compromissos dos pais. A família %Mackie% era sócia do clube de golfe, um esporte que o primogênito achava chato, mas era muito bom, naquele domingo ensolarado era a festa comemorativa para os sócios se encontrarem. %Ryan% achava aquela tradição um verdadeiro desperdício, eles ficariam ali naquele coquetel chato conversando sobre suas fortunas e como seus filhos tomarão seus lugares no futuro.
  Um porre.
  %Ryan% estava com seus pais escutando eles conversarem com um dos clientes da empresa quando a família Bittencourt se aproximou.
  - Helena, querida! - a mãe de %Ryan% foi cumprimentar a mulher que chegou.
  - Cristina, como vai? - as duas deram dois beijinhos de bochecha a bochecha, mas sem se encostarem.
  - Sérgio. - Bittencourt cumprimentou o pai de %Ryan%.
  - Raul. - os dois apenas apertaram as mãos.
  %Ryan% notou quando Helena Bittencourt o encarou.
  - Ah meu Deus, esse é seu filho? - a mulher parecia surpresa.
  - Está um homem, não? - a mãe de %Ryan% repousou uma das mãos no ombro do filho, indicando que ele cumprimentasse os recém-chegados.
  %Ryan% respirou fundo e fez a melhor cara de paisagem que conseguia, trocou a mão que segurava o copo de seu drink e se aproximou de Helena, que estendeu a mão e %Ryan% beijou as costas da mesma.
  - Como vai, senhora Bittencourt? - perguntou educadamente.
  - Muito bem, meu caro.
  %Ryan% virou sua atenção para Raul e estendeu a mão para o homem, apertando da mesma forma que seu pai o fez.
  - %Ryan%, garoto, que bom vê-lo.
  - Igualmente, senhor.
  Assim que se soltaram, uma garota da idade de %Ryan% se aproximou.
  - Creio que se recordam de minha filha, Emily. - Helena apresentou a garota.
  %Ryan% quis rolar os olhos com a animação de seus pais ao verem a garota, era óbvio que se lembravam dela, aliás mais do que isso.
  A garota ruiva, magra e alta como uma verdadeira modelo dos catálogos da Vogue ou Marie Claire era quem seus pais queriam que ele investisse em um relacionamento.
  “Não é só pelos meus negócios, é pelo seu futuro também” lembrava perfeitamente da fala de seu pai.
  %Ryan% a encarou esperando que algo nela o atraísse, Emily sorriu doce para os pais dele e quando voltou seu olhar para o herdeiro dos %Mackie%, o olhou de cima a baixo e levantou a sobrancelha, escondendo o sorriso provocativo que fez tanto efeito em %Ryan% quanto aquela festa estúpida. Nenhum.
  Foi então que se lembrou de %Annie% na festa de Lynn na quinta-feira, ainda podia sentir todo o seu coração queimar por causa do olhar daquela garota, da pele macia do rosto dela, do seu perfume que ainda estava preso no nariz dele e viajava pelo sangue como uma droga. Jamais esqueceria aquele perfume. E definitivamente, jamais esqueceria aquela troca de olhares que tiveram.
  Embora tivesse uma garota bonita e atraente na sua frente, era em %Annie% que %Ryan% pensava.
  Era sempre ela.

  Um mês depois. Casa dos pais de %Ryan%. 22:00 PM

  A rotina de %Ryan% não havia mudado, ainda estava protelando em entrar na faculdade que o pai tanto queria e seus pais continuavam enchendo sua cabeça com os mesmos assuntos.
  Ele só tinha 19 anos, tinha terminado a escola e queria fazer algum trabalho voluntário, não assumir os negócios da família, mesmo que estivesse fazendo estágio no escritório.
  A única coisa que havia mudado era o interior dele, ainda pensava em %Annie% e em como não teve uma boa oportunidade de ficar sozinho com ela, agora percebia que precisava disso.
  Suas únicas armas durante esse tempo era a internet, seguia %Annie% em suas redes sociais e passava um bom tempo admirando o perfil dela no Instagram.
  A garota tinha um cachorro pequeno, gostava de tirar foto do céu não importava como estava, nublado ou aberto, era sempre foto do céu. E claro, as selfies da garota eram maravilhosas, sorrindo, séria ou fazendo careta, ela era linda de qualquer forma.
  Claro que não passava horas stalkeando ela, seria assustador até para ele, mas o passo para criar algum tipo de laço era pelas redes sociais. Por isso, sempre curtia as fotos da garota, que sempre apareciam para ele. Isso era inteiramente culpa do algoritmo do aplicativo. E às vezes deixava um comentário.
  Lynn acabou percebendo o gesto do melhor amigo e logo fez uma chamada de vídeo para conversar sério com ele.

  - Só me passa o contato dela, não é nada sério. - respondeu depois de quase 10 minutos de conversa.
  - Se não é sério porque quer o contato? - viu Lynn fazer o bico que sempre fazia quando sabia que estava certa.
  - Pra conversar… porque eu tô te dando satisfação mesmo?
  - Porque a %Annie% é minha melhor amiga e se você a magoar eu te mato.
  - Eu não vou pedir a garota em casamento, Lynn. - ainda não. - Sabe que posso conseguir de outra forma.
  - É? Vai fazer o que, chamar ela no Messenger do Facebook?
  %Ryan% sorriu.
  - Não é uma má ideia, sabia.
  - Boa sorte, ela não responde ninguém lá.
  - Vai, Lynn, qual é me manda logo. Sabe que minhas intenções são boas. - reclamou.
  - Isso não significa que dos outros serão. - mesmo via celular, Lynn lançou o olhar que %Ryan% não queria no momento, se referindo a quem não iria gostar nada daquela história.
  - Não vem ao caso agora. - respondeu.
  - Pensa bem no que você vai fazer, %Ryan%. %Annie% odeia que mintam pra ela, e eu odeio que a destratem por não ser do “nosso mundo”.
  - Isso não vai acontecer, não na minha frente. - ele garantiu.
  Lynn respirou fundo, acreditava nele, mas sabia que seria difícil para os dois.
  - Sabe que uma hora vai.
  Os dois ficaram em silêncio.
  - Demonstra interesse, fica fácil demais eu te dar o telefone dela dessa vez.
  - Você vai ficar me devendo uma, viu. - %Ryan% avisou.
  - Vá a merda, %Mackie%.
  - Também te amo, minha querida amiga.

  Semanas depois. Shopping da cidade.
  19:30 PM.

  %Annie% subia as escadas rolantes do shopping sentindo o coração querer sair pela boca, suas mãos tremiam e as palmas estavam molhadas de suor, tentava lembrar a si mesma que não precisava ficar tão nervosa mas era em vão.
  Ora era seu primeiro encontro com um cara que sentia alguma coisa, que parecia mais do que uma simples atração, já tivera sim outros encontros com algumas paqueras, mas nunca tinha ido sozinha porque o rapaz em questão havia chamado-a, sempre ia com os amigos pra ver filme de terror - e claro, se agarrar na paquera porque morria de medo de filmes assim -, porém ela não ficou nervosa nas outras vezes. Era sempre uma saída entre amigos, uma galera, não conseguia ficar ansiosa.
  Mas agora tudo era diferente. %Ryan% era diferente.
  %Annie% não costumava entrar no Facebook e muito menos pelo notebook entretanto um dia algo nela disse para o fazer e foi uma surpresa ver na barra de notificação a solicitação de amizade de %Ryan%, o cara por quem sentiu coisas estranhas na festa da melhor amiga. Aceitou no mesmo instante sentindo o rosto ruborizar enquanto vasculhava o perfil dele, viu alguns posts de conteúdo nerd e algumas fotos, das quais demorou para passar pois quis observar com atenção.
  Suspirou e sorriu sem nem ao menos perceber, levou um susto quando viu uma janela de conversa subiu em sua tela. Sua mão começou a tremer ao notar que era ele quem havia chamado.
  %Annie% quis gritar, o sorriso bobo não saía do rosto, e eles engataram numa conversa longa e duradoura que só acabou quando %Ryan% pediu no telefone dela. A garota precisou ler mais de uma vez para ter certeza se era aquilo mesmo, mas passou de boa vontade e ele a chamou no Whatsapp.
  As horas não pareciam passar quando eles conversavam, entrava a noite, a madrugada, virava o dia e eles ainda continuavam conversando. Nenhum dos dois queria parar. Mas chegou um momento em que apenas a conversa pelo celular não era suficiente, foi aí que %Ryan% a convidou para sair, pegariam um cinema.
  E era por isso que %Annie% estava tão nervosa a ponto de tremer, viveu escutando histórias de casais em cinema, a última coisa que as amigas faziam era assistir o filme. Não estava assustada por pensar nessa situação, muito pelo contrário, ela queria tanto aquilo que não sabia o que fazer. Era uma garota inexperiente em encontros e muito menos em ficadas daquele estilo, já tinha sim beijado e foi uma experiência bem horrível, não que achasse que %Ryan% beijasse mal.
  “Para de pensar se ele vai te beijar ou não. Só curte o momento”.
  Mas %Annie% estava insegura, era um ano e meio mais nova do que ele, inexperiente e estava tremendo mais do que um Pinscher.
  Desbloqueou o celular e viu a mensagem mais recente dele:
  “Cheguei. Estou subindo.”
  Ela respirou fundo e olhou em volta, nenhum sinal dele, resolveu responder um “Tudo bem, estou aqui na frente” lembrando que haviam combinado de se encontrar no cinema do shopping.
  “Não seja covarde, não seja covarde”, falava baixinho para si mesma.
  %Annie% sentiu as pernas darem uma pequena vacilada quando viu %Ryan% caminhando em sua direção, era clichê demais porém parecia que ele estava caminhando em câmera lenta enquanto seu olhar focava nela.
  E o sorriso que deu foi o suficiente para que ela esquecesse de qualquer nervosismo ou insegurança, ela retribuiu e tombou a cabeça um pouco para o lado.
  Assim que ele estava devidamente perto, estendeu os braços e ela sem nenhum resquício de timidez, o abraçou sentindo o calor natural do corpo dele a envolver da mesma forma que agora os braços dele o faziam. Sentiu ele beijar sua bochecha e seu sorriso pareceu aumentar, até ele se afastar dela.
  - E aí, quanto tempo né?
  - Pois é.
  Era tão estranho, sentiam que se conheciam há tanto tempo, que já eram íntimos e sabiam tudo um do outro.
  - Então, você quer comer primeiro ou comprar os ingressos? - ele perguntou.
  - Ah na verdade eu não tô com tanta fome assim.
  - Legal, então podemos ir? - indicou o caminho e ela concordou.
  O cinema estava vazio, afinal era uma quarta-feira, os únicos que estavam ali eram estudantes e pessoa que queriam pagar mais barato, o que era o caso dos dois.
  - Você ainda paga meia, né? - %Ryan% puxou assunto enquanto esperavam na fila para serem atendidos.
  - Sim. - %Annie% fazia um curso técnico, então tinha esse direito, o que valia muito a pena. - Mas hoje é o dia que qualquer um paga meia, não é?
  %Ryan% assentiu.
  - Sempre venho aqui na quarta.
  - Será que eu pago a meia da meia? - %Annie% falou sério, mas ele acabou achando graça e riu de leve.
  - Ah aí eu vou querer também.
  Ela sorriu e os dois foram chamados pelo atendente.
%Ryan% tomou conta da situação, olhou para %Annie% e riu, perguntando ao atendente:
  - Escuta, ela pode pagar a meia da meia já que é estudante?
  Foi o suficiente para os três rirem, o atendente negou e terminou de fazer o pedido. %Annie% e %Ryan% trocaram um sorriso cúmplice e sorriram um para o outro, isso até o atendente falar:
  - O casal vai pagar junto?
  %Annie% sentiu a boca abrir um pouco enquanto %Ryan% a olhava em busca de uma resposta.
  - É… - ela o olhou, envergonhada.
  - Sim, vai sim. - %Ryan% tirou o dinheiro da carteira.
  %Annie% nem se opôs pois estava um tanto quanto abalada pelo fato do atendente chamá-los de casal.
  %Ryan% pegou os ingressos e ambos agradeceram o atendente que lhes desejou um bom divertimento.
%Annie% não sabia o que fazer então só ficou do lado dele com um sorriso amarelo enquanto ele guardava a carteira.
  - Então, você prefere entrar ou quer comprar alguma coisa? O horário da sessão é daqui a pouco. - ele conferiu o relógio.
  %Annie% entrelaçou as próprias mãos na frente do corpo, sem saber o que fazer. Tentou não demonstrar o nervosismo, uma tarefa bem difícil considerando que o rapaz não tirava os olhos dela, dando de ombros respondeu:
  - Acho melhor entrarmos né, tem uma fila ali. - apontou com a cabeça para a entrada.
  Os dois seguiram em silêncio, %Annie% queria puxar assunto mas sabia que sairia alguma bobagem de sua boca, era difícil controlar a língua quando estava nervosa. %Ryan% conseguia perceber a ansiedade da garota e pensou que não era apenas por causa do filme. Tudo bem, era Guardiões da Galáxia 2, por sorte %Annie% gostava de super heróis também, mas ela não podia estar tão animada por causa do filme. Ele esperava que não.
  Os assentos estavam em cima e graças ao tempo perdido na fila, as luzes já tinham apagado e começavam os primeiros trailers, %Ryan% deixou que ela foi na frente depois de falar quais os assentos que ele escolheu.
  Estava indo tudo bem para %Annie%, até ela bater a ponta do pé na escada e quase tropeçar de verdade.
  - Ai, droga! - falou baixinho mas o suficiente para %Ryan% escutar e rir de leve.
  - Tá tudo bem ai? - perguntou baixo.
  - Tá… essa escada, quase que eu caí. - %Annie% sentiu as bochechas queimarem tanto quanto sua dignidade.
  Tropeçar na frente do rapaz era só o que faltava. Ótimo jeito de chamar a atenção dele.
  Pelo menos eles conseguiram achar as poltronas e se acomodaram rapidamente, %Ryan% encarou ela com um ar brincalhão.
  - O quê? - ela perguntou tentando manter a expressão séria, porém falhou. - Olha, eu sou péssima pra subir as escadas no escuro.
  - São escadas bem estranhas.
  - Exato! - %Annie% falou um pouco mais alto e recebeu um ‘shh’ de alguém.
  Ela fez uma careta para %Ryan% que precisou segurar uma gargalhada.
  Eles voltaram a atenção para o filme que começava e as duas horas passaram voando, nas cenas mais engraçada quando ele ria alto junto com as outras pessoas %Annie% o encarava pelo canto do olho e ria junto. Tinha percebido que achava a risada dele uma gracinha. E %Ryan% via %Annie% suspirar toda vez que Peter Quill e Gamora demonstravam afeto, era fofo de se ver.
  Depois de terminar os créditos, eles sequer se mexeram do assento, decidiram comer alguma coisa fora do cinema.
  - Eu não tô com fome, você acredita? - ela respondeu depois que ele perguntou onde ela queria comer.
  “Acho que fiquei tão nervosa que minha fome passou, e nem tinha motivo!”, pensou.
  E não tinha mesmo, por enquanto havia sido um encontro bem divertido e eles só tinham trocado algumas palavras durante o filme. Tinha ido tudo bem.
  - Você gosta de pretzel?
  - Nunca comi. - ela deu de ombros. - Tem gosto de quê?
  - De pretzel. - ele respondeu no mesmo tom de brincadeira, sorrindo depois.
  %Annie% se concentrou naquilo, ele era tão bonito sorrindo.
  %Ryan% a conduziu até o stand e olhou o cardápio.
  - Quer escolher o recheio?
  Ela negou com a cabeça.
  - Escolhe você e eu pago dessa vez.
  Ele a encarou como se perguntasse se ela tinha certeza, apenas recebeu um sorriso confiante em resposta.
  Assim que o pedido estava pronto e devidamente pago, eles se acomodaram nos banquinhos, %Ryan% estendeu um garfo para %Annie%.
  Ela viu a massa com a cobertura de chocolate branco e o viu pegar um pedaço, ela o imitou e colocou na boca. Percebeu que ele a encarava enquanto experimentava o doce.
  - Gostou? - ele parecia bem curioso.
  - É muito bom! - ela se apressou para pegar outro pedaço.
  Os dois engataram em uma conversa enquanto comiam, a hora nem parecia passar, riam e haviam se esquecido completamente do mundo lá fora.
  %Annie% estava mais calma e agora estava tão à vontade na frente do rapaz que parecia que se conheciam a anos, como se fossem verdadeiramente íntimos.
  Porém nada aconteceu naquela noite, embora o abraço de despedida foi um pouco mais longo do que o normal, era como se nenhum dos dois quisessem que aquela noite acabasse.
  %Annie% voltou para casa com um sorriso tão bobo no rosto, agradeceu por ter chegado e todo mundo estar dormindo, seria difícil explicar o porquê do bom humor só por causa de uma saída com um amigo. Era o que tinha falado aos pais, mas quem visse a garota agora notaria que não era aquilo.
  %Ryan% não se sentia tão bem e livre daquele jeito há muito tempo, se jogou na cama e sentiu uma paz dominar seu corpo inteiro. Fechou os olhos e adormeceu sorrindo, sabendo que %Annie% o visitaria em seus sonhos aquela noite.
  Na verdade, estavam tão conectados de um jeito estranhamente bom, que se encontraram nos sonhos um do outro com o mesmo sentimento: ansiavam pelo próximo encontro.

  Um mês depois. No mesmo shopping.
  No mesmo horário.

  %Annie% batucava os dedos no corrimão da escada rolante do shopping enquanto ignorava seus pensamentos e também as chatas borboletas no estômago que haviam criado um ninho ali há pouco mais de um mês.
  A amizade com %Ryan% ia bem até demais, depois do primeiro encontro, tudo o que queriam era que o segundo acontecesse. Demorou um pouco, para quem queria se ver no dia seguinte um mês era uma demora, mas lá estavam eles. No mesmo shopping, no mesmo horário só que dessa vez foi %Ryan% que chegou primeiro.
  %Annie% não ligava muito para o que iriam fazer, só queria uma desculpa para vê-lo novamente, e %Ryan%... Bom, ele precisava distrair a cabeça graças aos problemas com seus pais nos últimos dias.
  Ela não demorou para achá-lo, no mesmo ponto de encontro, e nem teria como deixá-lo passar. Seus olhos só procuravam por ele, não importa o lugar na cidade, ela o via por toda a parte.
  O abraço foi caloroso, os dois escondendo seus enormes sorrisos e foram direto para a bilheteria comprar os ingressos. Desta vez, veriam Mulher-Maravilha.
  Esperaram na fila e conversaram sobre como foi a semana, %Annie% estava animada porque estava prestes a terminar o curso de gastronomia no próximo semestre, ela não parava de falar enquanto %Ryan% apenas escutava um pouco alheio.
  Depois de comprarem os ingressos, foram comer em uma hamburgueria na praça de alimentação, não pararam de conversar um minuto sequer. %Ryan% agora prestava atenção e falava coisas de sua vida para ela, eles riam e voltavam a comer, ele até dividiu as batatas fritas com ela.
  O assunto ficou um pouco pesado quando %Annie% perguntou sobre os pais dele. %Ryan% não queria assustar a garota com os problemas que tinha, também não queria demonstrar que aquele assunto o incomodava e que não conseguia simplesmente dizer que sua família era um tanto quanto chata, que eles mandavam em suas decisões, embora soubesse que %Annie% era compreensiva, não queria erradicar qualquer chance com a garota.
  Não agora que…
  %Annie% não percebeu e não demorou para que eles fossem a sala do cinema, entraram cedo, antes dos trailers começarem e as luzes apagarem, continuaram conversando até %Ryan% virar para a garota e sorrir.
  - O que foi? - ela perguntou.
  - Sabe o que eu queria fazer agora?
  %Annie% sentiu o coração acelerar.
  - O quê?
  Ele sorriu ainda mais.
  - Tirar uma foto.
  %Annie% o encarou, esperando algum sinal de que ele estava brincando como ultimamente vinha fazendo, porém não aconteceu.
  Ele falava sério.
  - Ah tudo bem, tiro do meu então. - ela respondeu e precisou lembrar a si mesma de não tremer enquanto posicionava a câmera, depois de destravar o celular.
  O sorriso dos dois foi genuíno, era a primeira recordação que teriam de seus encontros, %Ryan% ainda se atreveu a aproximar seu rosto do de %Annie%, enquanto tiravam mais de uma foto para garantir que tivessem saído direito.
  %Annie% mostrou o resultado depois para ele.
  - Ficaram boas. - olhou para ela, fazendo-a sorrir de leve.
  - É, ficaram. - %Annie% decidiu então retribuir o olhar.
  Aqueles míseros segundos pareceram horas, ambos eram mais sinceros com o olhar do que com palavras, na verdade elas nem eram necessárias naquele instante. %Annie% não sentiu vontade de desviar porque estava com vergonha, podia ficar ali para sempre admirando a íris do rapaz que parecia como um buraco negro, a puxava em uma intensidade que era difícil explicar. Para %Ryan%, ela era como um imã, a atração era forte demais. Tanto que ele não controlou seu corpo e deixou que seu rosto se aproximasse do dela, ansiando pelo momento a seguir que vinha passando em sua cabeça há um bom tempo.
  Embora estivessem prontos para aquilo, ainda não era a hora, as luzes do cinema começaram a apagar e os trailers não demoraram para iluminar a enorme tela. Eles se afastaram, %Annie% precisou piscar algumas vezes e %Ryan% encostou a cabeça na poltrona, respirando fundo para se conter, mesmo sabendo que não conseguiria fazer isso por tanto tempo.
  E não conseguiu mesmo, já que na metade do filme inventou uma desculpa para %Annie% entrelaçar seu braço junto ao dela do jeito que a poltrona permitia, em um meio abraço que não parecia suficiente. A garota precisou morder o lábio para segurar o sorriso bobo que brincava em seus lábios e sussurrou:
  - Eu tô quase dormindo no seu ombro.
  Ela escutou a risada baixa dele.
  - Pode encostar se quiser.
  Ela não conseguiu resistir e de fato nem poderia, mesmo que não quisesse deitar a cabeça no ombro dele - o que seria uma tremenda mentira -, aquela posição em que estavam abraçados logo a deixaria com dor no pescoço. E com %Ryan% dando aquela ideia bastante agradável, ela assim o fez.
  Aquele simples gesto foi o suficiente. Para ambos.
  O rapaz respirou fundo ao sentir o perfume dela invadindo suas narinas mais uma vez e apoiou a bochecha no topo da cabeça dela. Aquilo tinha sido o mais intenso de contato que haviam chegado até então, mas %Ryan% não conseguia entender a paz que tocou seu coração. Podia dizer que, pela primeira vez, havia sentido aquilo. E era tão bom.
  Eles não mexeram um músculo sequer até o final do filme, não queriam perder aquele contato, %Annie% podia dizer que aquele foi de longe o melhor encontro com %Ryan%, ficar deitada no ombro forte dele era um momento que ela não iria esquecer tão cedo.
  Saíram da sessão em silêncio, ambos reprimindo a vontade de agora entrelaçarem suas mãos, mesmo os braços se tocando várias vezes enquanto caminhavam. Um pedido mudo de seus corpos de algo que suas mentes já queriam.
  Chegaram na saída do shopping, %Ryan% ainda incerto sobre o que fazer puxou assunto com ela.
  - Você tem como ir pra casa?
  %Annie% concordou com a cabeça, sorrindo para o rapaz que parecia preocupado com ela.
  - Meu pai tá vindo me buscar.
  - Tudo bem, então eu… vou indo. - apontou para trás e se aproximou de %Annie% para abraçá-la, de uma forma tão apertada que ela só conseguiu repetir na mesma intensidade.
  Fechou os olhos ao sentir os braços dele rodeando sua cintura, não queria que aquela noite acabasse.
  %Ryan% se afastou depressa, se continuasse ali, abraçá-la não seria a única coisa que faria.
  Os dois deram um passo em direção ao portão, %Ryan% olhou para %Annie% como se perguntasse porque ela ia para fora.
  - Vou ter que esperar meu pai lá fora. - explicou.
  Foram juntos para fora do shopping e respirando fundo quando pararam lado a lado, %Ryan% a tomou em seus braços novamente, em um abraço para reprimir a vontade de fazer outra coisa.
  - Tchau. - ele falou perto do ouvido dela.
  %Annie% sentiu o coração acelerar, estavam tão perto…
  Quando os dois se afastaram e se encararam, %Ryan% ignorou a voz que o recriminava em sua cabeça.
  “Que se dane!”
  Uma das mãos do rapaz foi de encontro com a bochecha de %Annie% enquanto a outra se mantinha firme na cintura dela, ele se aproximou no que pareceu uma velocidade lenta demais e fechou os olhos quando percebeu que %Annie% tinha se entregado ao momento tanto quanto ele. %Annie% suspirou depois de fechar os olhos, sabendo o que viria depois e ansiava tanto por aquilo que só esperou sentir.
  E ela sentiu não só seus lábios se tocarem suavemente, sentiu o coração explodir em seu peito, sentiu as mãos suarem enquanto tocava os ombros dele delicadamente e sentiu o vento frio tocar em seu rosto quente.
  O beijo não fora prolongado, embora fosse justamente o oposto do que %Ryan% queria fazer, queria era tomar %Annie% em seus braços e levá-la dali, mas não podia. Não ainda.
  Ele se afastou o suficiente para poder encostar suas testas, os narizes ainda se tocando e abriu os olhos, se deparando com %Annie% recuperando o fôlego e de olhos ainda fechados.
  - Era assim que o nosso primeiro encontro devia ter acabado.


  Nota da Autora: Eu espero que vocês gostem de flashbacks porque nós teremos bastante no decorrer de miliary hahaha
  Eu garanto que teremos muito mais ação nos próximos capítulos e eu já logo aviso, acho bom vocês prepararem o coração!
  Se vocês quiserem ler Military ouvindo a playlist que eu criei no Spotify, eu aconselho 😉

Capítulo 02
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