22 • Estocolmo
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Estocolmo, outono de 2015
Um escritor japonês chamado Kobo Abe, uma vez disse:
A liberdade não consiste só em seguir a sua própria vontade, mas às vezes também em fugir dela. %Alice% estava seguindo seu desejo de desaparecer dos olhares de um Magnus, entretanto, não imaginava que sua vontade poderia no futuro não a conduzir de fato à verdadeira liberdade.
Suas pernas se mostravam cansadas de tanto correr, e, parando por alguns segundos, respirou fundo para retomar o fôlego. Internamente não conseguia acreditar nos seus atos, menos ainda que o caçula Magnus, que passou uma temporada lhe assombrando, havia ajudado em sua fuga repentina. Ela estava zonza pela corrida, confusa pela falta de planejamento e temerosa pelo que poderia acontecer caso não desse certo.
Foi quando a solução se mostrou diante dela.
— %Alice% Miller. — A voz de um rapaz chamou sua atenção por saber seu nome completo.
Com o coração acelerado e aflito, ela olhou para o lado. No primeiro momento não o reconheceu, mas ao ver a ponta de uma tatuagem no braço direito, sendo levemente escondida pela blusa de moletom, lembrou-se da voz com quem conversava ao telefone.
— Estou feliz que tenha conseguido sair de lá — disse ele, com um sorriso de canto reconfortante. — E surpreso por ter enfrentado seus medos e deixado sua mãe para trás.
Ela abaixou o olhar, sentindo-se culpada ao lembrar das lágrimas da mãe em sua última discussão.
— Eu apenas não queria mais ficar naquela casa — respondeu num tom baixo, com a voz quase falha. — Você vai mesmo me ajudar?
— Claro. — Assentiu o rapaz. — Estou aqui para te levar para um lugar seguro, tem uma pessoa que está ansiosa para vê-la.
Ela assentiu com a cabeça. Mesmo com medo de poder ser uma armadilha ou algo do tipo, ela seguiu o rapaz até o carro, cobrindo o rosto com o capuz da blusa em seu corpo. Foram longos e aparentemente intermináveis quilômetros se deslocando em um clássico
Chevy Impala 67, pouco mais de vinte e seis horas depois e paradas estratégicas em três países europeus do percurso, ao norte de Estocolmo, na ilha de Norra Djurgården, se localizava a nova base de preparação da agência de Durand, que ansiosamente aguardava a chegada da garota.
— Chegamos — disse o rapaz ao estacionar o carro em frente a um galpão e descer. — Pode descer agora.
A garota respirou fundo, não tinha mais como voltar atrás.
Descendo do carro, olhou para as altas árvores que circulavam o lugar, nunca havia estado em um local tão aberto que se fundia à natureza. Tamanha beleza a fez contemplar por alguns minutos, se esquecendo do rapaz que a olhava admirado. Seu desejo era ter sua mãe ali, para viver aquele momento com ela.
— Vamos? — perguntou ele ao despertá-la de seu devaneio.
Ela assentiu e seguiu atrás dele para dentro do galpão. As instalações lhe surpreenderam a nível de estrutura e organização, com uma tecnologia moderada, havia um espaço reservado a computadores mais à frente, ao lado, uma escada que dava acesso ao mezanino, em que ficavam os dormitórios. A cozinha se localizava mais aos fundos do galpão, juntamente com o vestiário e banheiros.
— %Ally%! — a voz de Durand soou atrás dela, chamando-a pelo apelido.
Estranhando alguém lhe chamar de forma tão íntima, ela se virou. Sua mente paralisou a princípio, seu corpo estático e muitos questionamentos internos lhe invadiram, não acreditando no que estava vendo.
— Tio Louis. — Ela ficou emocionada.
Por mais que ainda fosse uma criança nas raras vezes que viu o irmão gêmeo do pai, ainda se lembrava daquele sorriso afetuoso que aparecia nos dias de Ação de Graças, para lhe dar um abraço quentinho e contar suas histórias das muitas aventuras de agente secreto. Antes que a primeira lágrima rolasse em seu rosto, a garota correu ao seu encontro e o abraçou com emoção e se deixando ser preenchida pela saudade do pai e das muitas lembranças boas do passado.
— Minha querida… — Ele retribuiu o abraço com carinho e afeição, sussurrando: — Eu não deveria tê-los deixado sozinhos em Siena.
Durand sentiu-se comovido pelas lágrimas da sobrinha.
— Mas estou aqui agora e nada de ruim vai lhe acontecer — assegurou ele, convicto de que iria cumprir aquela promessa. — Me perdoa por não ter chegado a tempo, por minha demora.
— O senhor está aqui agora — sussurrou ela em lágrimas.
Durand se afastou um pouco e com um sorriso no rosto, enxugou suas lágrimas. Por mais que %Alice% soubesse que o homem em sua frente não era seu pai, e poderia ver os pequenos traços que os diferenciavam, ela estava no ápice de sua felicidade em ver aquele rosto novamente.
Em sentir que havia esperança.
— Acho que já conhece o Liam — disse o tio, apresentando formalmente o rapaz que a resgatou. — É meu enteado, filho da minha esposa Amber.
— Sim, o conheço. — Assentiu ela, voltando o olhar para o rapaz.
Foram meses trocando mensagens com Liam incentivando-a a fugir. E nada melhor que a noite de coroação de %Giovanni%, uma ocasião perfeita em que todos estariam longe e ocupados. O plano inicial era o resgate de ambas, mãe e filha, entretanto, Lídia estava submersa demais em seu medo que não se via mais longe dos olhares de Francesco. Após anos debaixo de sua “aparente proteção”, a mãe já tinha se entregado à sua realidade e desistido de um futuro melhor, aceitando a condição que vivia todos os dias na mansão Magnus.
— Precisamos salvar a mamãe daquele lugar — pediu %Alice%, aflita por deixá-la sozinha.
— Nós vamos, querida, mais não podemos agora — disse Durand, percebendo que teria que ajustar uma nova estratégia para a missão. — Mesmo tirando sua mãe de lá, não será o bastante, precisamos destronar os Magnus, e isso demanda tempo.
— Hum. — %Alice% não entendia bem o significado de suas palavras, mas assentiu.
— Não se preocupe, %Alice%, sua mãe também ficará livre.
O primeiro passo já tinha sido dado e o resgate de sua sobrinha declarado um sucesso, agora vinha a parte dois: Se preparar para a guerra.
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Com o passar de um ano, %Alice% vivendo em liberdade, começou a desfrutar de uma vida em família de verdade, alegrando-se com as datas comemorativas e criando laços de amizade com Liam e sua mãe. Contudo, algo em seu íntimo lhe acusava de estar vivendo uma vida calorosa enquanto sua mãe era mantida escrava de um Magnus. O ponto central que a motivou a fazer uma proposta para o tio.
— %Alice%, o que faz aqui? — indagou Durand ao ver a presença da sobrinha no galpão.
Morando com ele, na casa que tinham no centro comercial de Estocolmo, ela havia aprendido o caminho para o galpão com a maior facilidade, por uma única vez que passou por ele.
— Quero ajudar — disse ela, segura de sua decisão.
Assim como sua mãe se sacrificou por ela há anos, no fundo a garota sentia que deveria fazer o mesmo por ela.
— O quê?! — Durand a olhou confuso.
— Ajudar em que, %Alice%? — Liam, que estava digitando algumas informações no computador, parou de repente e a olhou.
— Quero ajudar a derrubar os Magnus — disse ela com mais clareza.
— %Ally%… É perigoso demais, e não vou colocá-la em risco desnecessariamente — disse Durand em recusa.
— Desnecessariamente? — Ela se mostrou inconformada. — Tio Durand, o senhor levou nove anos para nos achar e apenas eu saí de lá… Sozinha e com a ajuda de um deles, em quanto tempo vai livrar a minha mãe? Ela não vai sair sozinha, não tem forças para isso.
— Tem certeza que é isso que quer? — O homem se levantou da cadeira que estava sentado e deu alguns passos até a sobrinha. — Se começar, não poderá parar.
— Tenho — disse ela, consciente dos perigos. — E o senhor sabe que a forma mais fácil de ter acesso ao Magnus é por mim… O ouvi dizendo no telefone que %Giovanni% está me procurando como um louco, mesmo após um ano longe.
— Muito bem, Liam vai lhe dar o mesmo treinamento que dei a ele, sem descanso, sem pegar leve e o mais cruel possível — argumentou o tio, tentando fazê-la desistir. — Acha que consegue?
— Não vai ser apenas treinamento físico, vamos te levar ao limite do desgaste emocional e psicológico — insistiu ele.
— Eu sou uma Miller, vou aguentar. — A segurança estava nítida em seu olhar. — Não há desgaste emocional pior do que ver sua mãe sendo trancada todas as noites em um escritório.
Com as palavras sinceras da sobrinha sobre o que ocorria a Lídia, o coração de Durand se apertou. O agente também se sentia culpado por não ter protegido o irmão e sua família como deveria.
— Então volte para casa e descanse essa noite, amanhã seu treinamento com Liam começa ao amanhecer — ordenou ele, voltando seu olhar para o enteado. — Leve-a para casa.
%Alice% assentiu e se retirou do lugar. Em seu interior estava um misto de ansiedade e receio do que estava por vir, porém, tinha que ser forte e corajosa para ajudar a mãe. Seus treinos iniciaram ao nascer do sol, com uma extensa corrida pela reserva para testar sua resistência física. Mesmo se afeiçoando a garota, Liam tinha ordens expressas de Durand para ser o mais carrasco possível com ela, pois se tratando da máfia, ela precisava estar preparada para qualquer ataque ou eventualidade, e principalmente as prováveis manipulações e pressões psicológicas que o primogênito Magnus pudesse fazer a ela.
E os meses foram passando…
— Direita… Esquerda… Abaixa… — Liam gritava para ela os movimentos que deveria realizar de acordo com seus ataques.
Um treino de luta corpo a corpo já era considerado difícil pela sua complexidade de entender a força do inimigo e usá-la a seu favor, para %Alice%, esta técnica era mais do que necessária para se aprender, afinal, seus adversários seriam sempre mais fortes e robustos que ela.
— E… — Liam fez um movimento repentino com a perna, derrubando-a no chão, e se jogando em cima dela no processo — te derrubei novamente.
— Estou cansada — disse ela, com seus pulsos sendo presos pelas mãos pesadas dele, ela tentou se mexer, sem sucesso.
Seu corpo dolorido pela semana pesada de treinos não a deixava raciocinar e menos ainda ter forças para lutar contra a opressão dele. Ela apenas desejava se render e ir para casa tomar um banho relaxante e dormir.
— Você precisa se concentrar — disse Liam com o tom duro. — Não vou te deixar sair daqui, não sem me vencer ao menos uma vez.
— Ficaremos aqui para sempre — sussurrou ela, segurando o emocional já abalado.
— Foi você quem escolheu por isso — argumentou ele, devolvendo a realidade a ela. — Se eu pegar leve com você, sou eu quem vou apanhar depois.
Com um tom de brincadeira, ele continuou a encarando, mantendo os pulsos da garota presos.
— Vai, tenta se soltar de mim — incentivou ele, confiando que ela conseguiria.
— Eu não consigo — confessou ela, nem mesmo tentando.
— E como acha que vai vencer assim?! — indagou Liam, pouco chateado pela desistência fácil dela.
— Não sei. — Com a voz falha, ela já não conseguia segurar as lágrimas no canto dos olhos.
E para não chorar ela fechou os olhos.
— Imagine que eu sou o %Giovanni% e você está sendo oprimida por ele, como vai se livrar disso? — indagou o rapaz, criando uma situação. — Pense, %Alice%, você conhece seu adversário melhor do que todos, analise a situação, encontre o ponto fraco dele.
Após minutos de silêncio pensando no que poderia fazer numa situação daquela, a garota finalmente abriu os olhos ao chegar a uma conclusão. E o encarando de leve, transformou seu olhar amedrontado em suave e gentil.
— Me beije! — pediu ela, com segurança na voz.
Liam, esquecendo-se que era apenas um treino, desligou seu lado racional e seguindo o pedido da garota, a beijou no calor do momento, sentindo a doçura e delicadeza transmitida por ela.
— Xeque-mate — disse %Alice%, ao fazer um movimento simples e preciso para desequilibra-lo, derrubando-o ao chão e, desta vez, ficando em cima dele. — Eu sou o ponto fraco de %Giovanni% Magnus.
Liam sorriu de canto, orgulhoso não somente por sua aprendiz sagaz, como também por ter avançado um passo, em sua proximidade a ela.
— Meus parabéns, %Ally%. — A voz de Durand quebrou o clima intenso que pairava entre os jovens. — Está pronta para começarmos nossa operação.
— Pronta?! — Liam o olhou, pouco envergonhado por seu padrasto o ver beijando a sobrinha, porém confuso com o anúncio enquanto se soltava de garota e levantava.
— Sim, vamos começar a fase um de nossa missão. — Durand deu alguns passos até eles, com uma pasta na mão, tinha novidades para compartilhar. — Seu retorno à Toscana não pode ser de qualquer jeito, quero que estude sobre este homem e se prepare para colocar em prática o que aprendeu.
Ele esticou a pasta para a sobrinha.
— Hum. — %Alice% levantando do chão, pegou a pasta e a abriu, logo leu o nome da pessoa referente. — Tomás Coimbra.
— Quem é?! — indagou Liam, chateado pela mudança de planos.
— Um estudante universitário de veterinária, português — informou Louis, certo de seus métodos em relação à obsessão de Magnus pela sobrinha. — Na pasta há todas as informações necessárias para se aproximar dele.
— O que ele tem a ver com nossa missão? — perguntou %Alice%, voltando a atenção ao tio.
— Daqui quatro anos, estará noiva dele — revelou Durand — É assim que vai retornar a Florença, com uma aliança de noivado para convidar seus amigos para serem padrinhos.
%Alice% assentiu, intrigada de como iria executar sua parte.
— Não entendo, pai — questionou Liam — Por que envolver outra pessoa? Não combinamos que seria eu a realizar esse papel?
— Tenho outros planos para você, filho, mais precisos — enfatizou o homem, a importância da atuação de Liam na missão. — Amanhã, viajará para Veneza, seu contato de chama %Vincenzo% Salvatore, atualmente ele trabalha para a família Tommaso como segurança particular de %Clarice%.
— Ela é noiva do %Giovanni% — disse %Alice%, lembrando-se do jantar de noivado.
— Não mais — contou Durand, grato pela notícia. — Tenho um contato na Interpol, Valerie Lispector, ela é diretora do setor sete, trabalha com as operações de disfarce e neutralização de agentes infiltrados.
— Ele vai nos ajudar? — perguntou Liam, receoso com mais envolvidos.
— Sim, está executando uma tarefa especial solicitada ao departamento, que vai nos beneficiar muito em nosso objetivo.
— E qual será a minha tarefa? — continuou Liam, atento ao assunto.
— Você será o novo motorista da família Magnus — revelou Durand, controlando suas preocupações internas —, %Nicolai% Messina.
Liam assentiu, não muito confortável com a ideia, porém, não queria desapontá-lo e menos ainda deixar %Alice% perceber a ponta de ciúmes que surgiu internamente.
A fase um estava ativa e operante.
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O que sabemos sobre o tempo é que ele passa em um piscar de olhos. Assim foram as estações até que o inverno decisivo chegou e com ele, a viagem de %Alice% para Toscana. Com um pequeno desvio em Milão, ela se encontrou com o tio, acompanhado de Liam e o misterioso agente Salvatore. No subsolo de um edifício comercial que pertencia ocultamente a Interpol, bem ao centro da cidade, numa localização pontual.
— Boa filha à casa torna. — A voz de %Alice% soou do ditado, seus passos seguros e precisos até os cavalheiros que a esperavam.
Reunidos na sala mais bem equipada e acústica do lugar, à portas fechadas e muitos ajustes a serem feitos.
— Não gosto da ideia de te dar boas-vindas a Milão — disse %Vincenzo%, ainda desconfiado de que o plano funcionaria. — Mas confio nas palavras de Durand, quando disse estar preparada para tudo.
Havia muita coisa em jogo e o emocional da jovem poderia comprometer toda a operação.
— %Giovanni% Magnus perceberá que tem apenas um ponto fraco — respondeu a jovem, confiante. — Eu… E vou conduzi-lo à queda.
— %Alice% é bem focada, pude notar isso enquanto a treinava — Liam a defendeu, prontamente.
— O que o preocupa, agente Vanguard? — indagou Durand, incomodado com as especulações do homem.
— Já trabalhei com muitas agentes que tinham anos de experiência e acabaram sendo seduzidas por mafiosos como o Magnus. — Ele fixou o olhar em %Alice%. — Você pode achar que o conhece, mas o mesmo tempo que passou para ele longe de você, assim aconteceu desse lado, seu retorno será uma faca de dois gumes e o alvo não vai descansar enquanto não garantir controle total sobre você, e principalmente seus sentimentos.
— Não sou tão indefesa quanto imagina — assegurou ela ao puxar uma cadeira para se sentar. — E sei exatamente o que farei quando retornar àquela casa.
— Satisfeito? — perguntou Durand.
%Alice% mantinha o foco em sua mãe.
— Precisará conquistar a confiança cega dele. — %Vincenzo% manteve suas indagações a ela como se a testasse naquele momento. — Como pretende fazer isso?
— Não posso chegar cedendo às vontades do %Giovanni% logo de cara, vou precisar de um ano para colocar meus métodos em jogo, e alguns auxílios pelo percurso — iniciou ela, sua narrativa.
— O que propõe? — Desta vez Liam, se mostrando curioso.
Passaram quatro anos desde que a viu pela última vez.
— Serei a noiva apaixonada capaz de tudo por quem ama, mas vou precisar fugir algumas vezes e Liam… — ela o olhou — Terá que me dar cobertura.
— E depois? — %Vincenzo%, interessado, começou a imaginar as situações em sua mente.
— Depois, virei com a carta coringa que me dará toda a atenção e confiança do Magnus. — continuou ela, com a explicação do plano meticuloso que passou os últimos anos arquitetando. — Darei a ele aquilo que um homem apaixonado e possessivo mais deseja.
— O quê? — perguntaram %Vincenzo% e Liam, como um coral.
Uns instantes de mistério.
— O privilégio de ser o primeiro e aparentemente o único na vida de uma mulher — explicou ela, de forma fria e calculista.
Um breve silêncio entre os cavalheiros, que pareciam refletir o assunto.
— Não acredito que chegamos ao ponto de expor a virgindade da minha sobrinha em uma missão. — O tom de desabafo de Durand mostrou que eles haviam entendido a incógnita.
O que irritou Liam, internamente. Contudo, a declaração final da jovem foi o suficiente para finalizar as perguntas de %Vincenzo% e lhe garantir a certeza do comprometimento dela com a missão. Assim que finalizaram os últimos detalhes, %Alice% foi acompanhada por Liam até a passagem pela qual entrou, para uma singela despedida.
— E quando poderei te tirar de lá? — indagou Liam.
— Ao final de um ano e seis meses, %Giovanni% terá que acreditar na sua lealdade a ele, assim, poderei reivindicar meu direito de ir e vir na primeira oportunidade… — %Alice% continuou sua explicação. — Te darei o sinal.
— E qual seria? — indagou.
— %Nicolai%. — respondeu ela — Enquanto estiver no personagem, serei formal a todo momento, mas quando eu disser o nome, saberá que acabou.
Ela deu um passo para seguir.
— Não me passa pela garganta que fará isso — disse ele, antes dela partir.
— Isso o quê? — Ela o olhou sem entender.
— Você nem gosta dele, e está se guardando para… — O rapaz se mostrou inconformado.
Então finalmente %Alice% entendeu sua chateação.
— Está com ciúmes? — indagou ela.
— O que acha? — retrucou ele.
— Eu disse que no meu coração não haveria espaços para romance — relembrou ela. — Disse para não se apaixonar por mim, meu foco é minha mãe.
— Não consegui. — Ele tocou de leve em sua cintura, puxando-a para perto. — Eu te amo, %Alice%… Não vou desistir de você.
Com o olhar sério, ela deu um sorriso de canto discreto.
— Estou contando com isso — sussurrou com leveza, e erguendo o corpo lhe deu um beijo doce e suave.
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Provença, primavera de 2023
Nada como o desabrochar das flores na primavera para perfumar e colorir uma cidade cinzenta. A manhã estava refrescante, %Alice% se deu a liberdade de acordar um pouco mais tarde naquele dia, afinal, o pequeno Jeremy havia passado a noite chorando por causa de um resfriado. Conciliar o trabalho de diagramador no jornal local com a vida materna não estava sendo fácil, porém, podia contar com a ajuda da mãe.
A jovem realmente provou de fato o quanto a vida é imprevisível quando descobriu a gravidez logo após o enterro de %Giovanni%. Um fruto daquele casamento não estava em seus planos, contudo, aceitou de bom grado a notícia e viveu toda a experiência da gestação na companhia de sua mãe. Ainda que Liam se disponibilizasse para estar ao seu lado e assumir a criança como dele, %Alice% não achou correto aceitar. Então, pediu ao amigo um tempo para ela processar tudo que havia lhe acontecido.
Seu desejo era apenas curtir sua nova realidade e a liberdade da mãe. Com a queda dos Dons, Francesco Magnus obteve o final que merecia, preso em uma cela úmida e fria, doente crônico e chorando o filho amado que perdeu, sabendo que %Luigi% havia sobrevivido. Já Marie, a última notícia que se teve, com a perda da fortuna da família, foi reconhecida por Liz, perambulando entre os mendigos de Siena, com suas roupas esfarrapadas.
— Bom dia, mamãe! — disse %Alice% ao adentrar a cozinha.
— Olha lá, Jeremy, quem acordou. — Lidia, que estava com o pequeno no colo, virou-o para ela. — A mamãe!
O brilho nos olhos da mãe fez %Alice% sorrir alegremente.
— Dormiu bem? — indagou Lídia.
— Não muito, depois que o colocamos para dormir ainda fiquei trabalhando um pouco por perder o sono — explicou, indo até o armário para pegar um copo.
— Eu li o relatório de notícias que seu tio te mandou — iniciou a mulher, o assunto.
— Qual deles? — indagou ela ao olhar a mãe.
— Sobre a %Clarice% e o %Luigi% — esclareceu.
— Hum… — %Alice% deu de ombros. — %Clarice% tem sido um sucesso como designer de móveis, e parece que %Vincenzo% tem usado ela como seu disfarce perfeito para suas missões da Interpol.
%Alice% nunca quis o mal de Tommaso.
— Ainda me pergunto por que deixaram %Luigi% ir — disse Lídia. — Ele é um Magnus.
Lídia não sabia de toda a história.
— Não… Não é. — %Alice% respirou fundo ao se lembrar do que seu falecido havia lhe contado. — Além de me ajudar por duas vezes, %Luigi% foi tão vítima daquela família quanto nós… Ele mereceu ter um recomeço com a %Aurora%.
— Eu li que eles se mudaram para o Brasil — comentou Lídia.
— Sim, estão morando em São Paulo, no bairro Mooca. — completou %Alice%, a informação. — Parece que o avô da dra. Segre era italiano e a família mora neste bairro.
— O que importa é que ele está longe de nós. — Lídia finalizou o assunto.
%Alice% concordou com o olhar e se voltou para a geladeira, assim que retirou uma jarra de vidro de suco de laranja, sentiu o celular vibrando no bolso.
— Buongiorno, senhora Magnus. — Uma voz masculina soou do outro lado da linha deixando a jovem estática.
Logo sentiu seu corpo estremecer com um calafrio interno, sua mão direita que segurava a garrafa falhou na força, soltando o objeto que caiu se partindo em pedaços.
O coração de %Alice% acelerou, enquanto o silêncio tomou conta da chamada, permitindo que ela ouvisse a respiração do homem no outro lado da linha.
Ela conhecia aquela entonação, por muitas vezes que ele a pressionava contra parede…
Era ele… %Giovanni%
Magnus.
Mas as minhas lágrimas podem ser vistas claramente
Por que eu amo você? Por que você?
Por que eu não consigo te deixar?
- I Need U / BTS
"Vida: A falta de perdão é como um frasco de veneno, em que você toma, esperando que o outro morra." [Lucas 6:37] - Pâms
Fim