19 • Recomeço
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Milão, primavera de 2021
Dizem que a vida se torna imprevisível quando estamos diante de uma catástrofe mundial. Com a pandemia forçando o isolamento social por mais de um ano, %Clarice%, mesmo não querendo, obteve mais tempo para aperfeiçoar suas peças da coleção de estreia e organizar minuciosamente seu evento de estreia. Após a autorização de %Giovanni%, finalmente ela pôde continuar seus preparativos com esta nova data. Assim a primavera retornou em sua vida, após meses sombrios de reclusão apenas contando com a companhia de seu segurança.
— Salvatore, não acha que está demorando demais para pegar uma encomenda?! — reclamou ela ao descer as escadas para sala e encontrar o segurança conversando com um rapaz. — Quem é?
— Tommaso, este é %Nicolai% Messina — apresentou %Vincenzo%, voltando a atenção para ela. — Um dos funcionários do Moretti, responsável pela família Magnus.
— De motorista a entregador — brincou o rapaz, levando um olhar de repreensão do segurança. — Bom dia, senhorita Tommaso, trouxe os documentos enviados pela senhora Marie Magnus.
— Agradeço a agilidade — disse a jovem ao terminar de descer os degraus e pegar o envelope das mãos do funcionário do ano. — Finalmente poderei lançar minha coleção onde mais ansiava.
— A senhora Magnus conseguiu o
Galpão Armani?! — indagou %Vincenzo%, demonstrando contentamento pela conquista da moça.
— Sim, mesmo não sendo minha sogra, ela sempre gostou de mim e me apoiou com o mobiliário. — %Clarice% voltou seu olhar orgulhoso para o funcionário. — Agradeço sua rapidez e quero que entregue o convite do lançamento em mãos para ela.
A jovem deu alguns passos até a mesa de centro e, pegando o convite, o entregou ao funcionário.
— Ainda hoje — pediu ela.
— Sim, senhora — assentiu %Nicolai%.
— Vou acompanhá-lo até a porta — disse %Vincenzo%, mostrando a saída dos funcionários.
Aproveitando a atenção de Tommaso nos documentos contidos no envelope, o segurança desceu o elevador de carga juntamente com o rapaz entregador. Como um profissional de anos, ele ainda temia alguém tão inexperiente trabalhando para uma organização tão perigosa como a máfia.
— Prometi a seu pai que ficaria de olho em você, então, mantenha a discrição — disse %Vincenzo%, assim que chegaram ao carro que o rapaz dirigia. — Não posso te ajudar estando longe da casa Magnus.
— Não se preocupe, Salvatore, eu sei me cuidar — disse o rapaz, se chateando com a repreensão do outro. — A senhorita Tommaso parece ser gentil.
— Ela é. — O segurança deixou transparecer um sorriso apaixonado.
O que menos poderia ter-lhe acontecido. Contudo, o coração de %Vincenzo% já havia sido conquistado pela designer de móveis.
— Como estão as coisas na mansão? — indagou %Vincenzo%, curioso pelas movimentações do primogênito.
— Rigorosas como sempre — respondeu o rapaz. — Don %Giovanni% tem mantido ela trancada essa semana e todos os empregados longe, apenas a senhorita Vernice tem acesso ao chalé.
— Chalé? — %Vincenzo% olhou intrigado, pelo que lembrava da propriedade, aquilo era novidade.
— Sim, ele derrubou o escritório e fez um jardim no lugar, ao sul da propriedade construiu um chalé para ela — contou %Nicolai%, as novidades. — Um dos privilégios de se morar em um lugar tão grande e afastada do centro comercial.
— E como está ela? — %Vincenzo% desviou seu olhar para um morador que estava retornando do trabalho, se tratava de um médico do hospital universitário.
— Não sei dizer… Em um ano %Alice% tentou fugir umas quatro vezes, mesmo com os perigos da pandemia — respondeu Messina ao se lembrar das muitas vezes que saiu de carro para ajudar nas buscas. — Ouvi uma das criadas comentando que suas desculpas eram sempre referentes a querer ver a mãe.
— Ele a deixa ter contato com Rosalia e Matteo? — %Vincenzo% manteve a atenção no médico adentrando o prédio.
— Não que eu saiba — respondeu.
— Os amigos moram em um prédio no centro de Florença, a mãe… Pelo que sei, está em uma ilha particular próximo a Sicília, com o pai dele — comentou o segurança — com um acesso muito restrito.
— Então ela não terá nenhuma chance de vê-la — constatou %Nicolai%, soltando um suspiro cansado, havia feito muitas viagens de entrega pelo país naquela semana.
— A menos que ela comece a barganhar — sugeriu %Vincenzo%.
Um breve silêncio reflexivo pairou entre eles, até que %Nicolai% se locomoveu para entrar no carro e partir.
— Continue com os olhos abertos e mantendo a discrição, entraremos na fase dois a partir do evento da Tommaso — anunciou %Vincenzo%, já calculando os próximos passos do rapaz na mansão. — Descubra a localização exata da mãe dela.
Messina assentiu com precisão e deu a partida no carro. Assim que sumiu em seu campo de visão, %Vincenzo% retornou ao apartamento, ao chegar, se deparou com %Clarice% lendo uma notícia no jornal online em seu notebook.
— Sacrificamos a economia italiana a curto prazo, para salvá-la da devastação do vírus a longo prazo — disse ela ao ler a declaração de um dos envolvidos na reportagem.
O país havia sido o primeiro país a decretar
lockdown a nível nacional.
— Essa frase de efeito é bem a cara do %Giovanni% — sussurrou para si.
— O que importa é que tudo está voltando ao normal — comentou %Vincenzo% ao se aproximar da moça e abraçá-la por trás. — Ou pelo menos quase tudo.
— Por que demorou? — indagou ela, sendo sempre perceptiva.
— Fiquei preocupado que ele não encontrasse o caminho — respondeu dando a primeira desculpa que lhe passou a mente. — Me pareceu um garoto bem curioso.
— Nem todos têm o talento de serem funcionários do ano — brincou ela ao se virar e lhe roubar um selinho.
— Como está sua lista de convidados? — indagou ele com um sorriso de canto.
— Inicialmente seriam cinquenta, mas %Giovanni% embargou e tive que reduzir para trinta e cinco — explicou %Clarice% com o olhar chateado. — Cinco jornalistas, sete celebridades, quatro elites, três políticos e o restante da família.
Ele sabia que família significava a máfia italiana.
— Ainda planeja convidar Matteo Ricci? — perguntou ele, curioso pela resposta.
— Claro, ele foi eleito o melhor jogador da Itália por quatro anos consecutivos, agora que assinou contrato com o Chelsea, ficou ainda mais famoso no país — contou ela, o ponto chave de sua decisão. — Por que o espanto?
— Ele é amigo dela — respondeu, mencionando %Alice%.
— E o que tem? — %Clarice% soltou um suspiro fraco. — Acha mesmo que vou usar meu evento para causar com o %Giovanni%?
%Vincenzo% virou o olhar para o lado.
— Está com ciúmes? — Ela o observou em silêncio. — Quem cala consente.
Com uma risada boba, %Clarice% tocou no rosto do rapaz para que a olhasse e lhe beijou com doçura e suavidade, fazendo-o retribuir sem esforço algum.
— A vida de %Giovanni% não me importa mais — afirmou ela com segurança. — Minha lista foi selecionada apenas pensando no sucesso da minha marca.
Ele sorriu de canto assentindo as palavras dela.
— Virá comigo para Londres depois do evento? — perguntou ela ao envolver seus braços no pescoço dele.
— Sabe que sim. — Ele a beijou com mais veemência. — Vamos para Londres…
Com ousadia, %Vincenzo% a pegou no colo e deitou seu corpo sobre o sofá da sala, suas intenções maliciosas foram percebidas de imediato por Tommaso que assentiu as investidas. Ela sabia que seu retorno ao ateliê não seria tão cedo quanto planejava.
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Noite de lançamento da marca de mobiliário Franci.
Um evento seleto o qual %Clarice% havia passado noites em claro preparando. Finalmente seu sonho de se tornar a melhor designer de móveis do país estava iniciando em grande estilo. Com o apoio da família e presença de pessoas influentes, o Galpão de Armani apresentava as mais belas peças de sua primeira coleção intitulada Liberdade. O sentimento que tinha após meses de isolamento social.
— %Clari%, está tudo impecável — disse Diana ao abraçá-la animada. — Estou encantada com sua forma de apresentação das peças.
— Todo designer precisa ter sua assinatura — comentou Mancini, ao lado da esposa, imaginando a estratégia da cunhada.
— Disse sabiamente, senhor Mancini, todo designer precisa ter uma assinatura forte e memorável. — Ela olhou para uma das peças próxima ao hall de entrada. — E fazer a miniatura do móvel para acompanhá-lo é a minha.
— Devo parabenizá-la pelo evento, assim como Diana. — Mancini ergueu a taça de champanhe em sua mão. — Já fiz minha encomenda da noite.
— Agradeço o apoio. — %Clarice% sorriu gentilmente ao procurar seu segurança com o olhar. — Preciso verificar uma coisa, com licença.
A jovem se afastou deles, seguindo em direção à sala de segurança. O lugar mais óbvio para encontrá-lo, porém, não obteve sorte. Por alguns segundos controlou a ansiedade e frustração por não ter por perto a pessoa que tanto lhe deu força e incentivo naqueles meses de preparação.
— Não deveria estar concentrada em mim, apenas em seus convidados. — A voz de %Vincenzo% atrás dela a assustou de imediato.
— Você sumiu — disse ela num tom baixo. — Não que eu seja uma mulher possessiva, mas… Fiquei receosa que tivesse algum problema com a segurança.
— Não temos nenhum problema, aproveite sua noite, trabalhou para isso — assegurou ele.
— Você também — retrucou ela.
— Você é a Tommaso — argumentou, deixando-a sem reação, e olhando para um dos seguranças à frente. — O Magnus chegou, precisa cumprimentar seu convidado especial.
Ela assentiu com a cabeça e se afastou dele.
Chegando ao hall de entrada, abriu um singelo sorriso no rosto e foi cumprimentar o amigo que, pela primeira vez, havia aparecido em público acompanhado de sua esposa. %Alice%, vestida como uma lady moderna, tinha em seu pescoço uma sinuosa gargantilha de diamantes que se destacava em meio ao seu look básico com o vestido preto da Versace.
— É uma honra receber o casal Magnus em meu lançamento — disse %Clarice% ao abraçá-lo sem cerimônias e olhando para a jovem ao seu lado. — Boa noite, %Alice%.
— Boa noite, senhorita Tommaso. — O olhar de %Alice% abaixou, parecia envergonhada pelo encontro.
— Por favor, somos família agora, pode me chamar de %Clarice% — pediu a designer, com o olhar gentil. — Eu e %Giovanni% já fomos noivos, mas ainda somos melhores amigos e você é a esposa dele.
%Alice% a olhou e assentiu com um sorriso tímido.
— Parabéns pelo lançamento — disse %Giovanni%, orgulhoso da amiga. — Tenho certeza que levará a Feira de Milão a outro nível.
— Estou contando com isso! — A voz de %Luigi% soou atrás deles, fazendo a amiga ir lhe abraçar também.
— Que bom que veio! — disse ela, sorrindo para ele e olhando para o lado. — E quem é…
— Ah! — %Luigi% olhou para o lado, controlando suas expressões faciais diante da mulher que o acompanhava. — Esta é minha médica, dra. %Aurora% Segre.
— Prazer — disse %Clarice%, surpresa. — A famosa psicóloga.
— Não gostaria de ser famosa assim — disse %Aurora%, ao apertar sua mão. — E não sou mais a médica dele, fui demitida há anos, mas ele sempre esquece esse detalhe.
— Achei que já tivéssemos superado isso — brincou %Luigi%, fazendo parecer uma DR de casal, o que resultou numa gargalhada boba de todos que estavam perto.
— Espero que se sintam à vontade, há muitas peças espalhadas pelo galpão — informou %Clarice%, já se afastando deles.
%Aurora% voltou sua atenção para %Alice%. Ambas já haviam tido um curto contato antes, em um jantar na mansão Magnus, e vendo o silêncio acompanhado do olhar triste e amedrontado, a médica se mantinha ainda mais intrigada.
— Cavalheiros, acho que nós, damas, necessitamos de alguns minutos no toilette — disse %Aurora%, esticando a mão para %Alice%. — Me acompanha?
%Alice% voltou seu olhar para %Giovanni%, que permaneceu inexpressivo.
— Claro — disse a jovem em um ato involuntário.
O primogênito Magnus manteve sua atenção na esposa que se afastava cada vez mais, tentando controlar sua inquietação interna.
— Deixe de ser possessivo — disse %Luigi%, num tom descontraído. — Elas apenas vão ao banheiro e tem muitos seguranças aqui, não tem como ela fugir.
— Da última vez, ela foi atropelada e passou três dias desacordada — disse %Giovanni%, mantendo a frieza na voz. — Não sei o que farei se acontecer novamente.
— Não vai, deixe de ser pessimista, ela não te prometeu que iria se comportar? — %Luigi% voltou sua atenção para dois rostos conhecidos que chegavam ao evento. — Mas saiba que a culpa foi sua, você prometeu que ela veria a mãe dela.
%Giovanni% virou o olhar para a mesma direção que o irmão, reconhecendo Rosalia e Matteo.
— Não deixa os amigos a visitarem, está fazendo com ela o mesmo que o papai fez com a Lídia. — %Luigi% se virou para ele. — Acha mesmo que existe alguma diferença entre o escritório destruído e aquele chalé?
— Aonde quer chegar, %Luigi%? — indagou ele, se mostrando sem paciência.
— Quero chegar ao lado racional do meu irmão, que foi cegado por esse amor doentio. — As palavras sinceras do caçula trouxeram um gosto amargo no irmão. — Seja um pouco mais empático com ela, e quem sabe assim pelo menos o afeto você conquista.
%Luigi% afastou-se dele e seguiu em direção aos amigos de %Alice%. Mesmo sabendo que o irmão curiosamente tinha razão, %Giovanni% nutria o medo de perdê-la mais uma vez. Com chances de nunca mais encontrá-la. Ainda retocando a maquiagem no banheiro, %Aurora% parou por um momento e ficou observando a jovem diante dela.
— Está tudo bem, %Alice%? — indagou ela.
— Sim, na medida do possível. — A jovem voltou o olhar para o espelho, focando na gargantilha de diamantes em seu pescoço. — Muitas se matariam para estar em meu lugar.
— Imagino… Mas também sei as circunstâncias pelas quais essa aliança está em seu dedo e o alto preço disso — confessou %Aurora%, seu grau de conhecimento sobre os dramas da família. — Quer desabafar?
— Eu não sei nem mesmo como estou me sentindo — disse %Alice%, sentando-se em uma poltrona ao lado do espelho, no ambiente de espera que tinha no local. — Ele diz que me ama e morreria se me perdesse, mas…
— Não quer sentir o mesmo — supôs a doutora.
— Ao mesmo tempo que ele é carinhoso e compreensivo, ele se transforma de uma forma assustadora quando me recuso a ser tocada por ele — continuou %Alice% seus relatos. — E me sinto tão sufocada com tudo isso.
— Se houver algo que eu possa fazer para ajudar… — %Aurora% deixou-se à disposição.
As horas de evento foram passando com os convidados se divertindo, em meio a programação proposta por %Clarice%, que já se sentia vitoriosa pelo sucesso de sua marca. Pouco antes do final da noite, ao perceber uma pequena distração de %Giovanni%, %Alice% mais uma vez agarrou a oportunidade de fugir. Agora, sendo um pouco mais cautelosa nos locais de passagem, para não levantar suspeitas da direção em que seguia.
— Onde ela está?! — A voz grossa de %Giovanni% surgiu, seguida de um soco forte em Matteo, que estava conversando com a senadora Donatella Bernini.
— %Giovanni%! — %Luigi% o segurou com certa dificuldade, para que ele não continuasse seus atos de agressão. — O que está fazendo?
— Diga logo, jogador, onde ela está?! — gritou Magnus, não se importando com o ambiente em que estava. — Ou vai se arrepender.
— Do que está falando? — indagou Matteo ao sentir dores em seu maxilar, sendo auxiliado por Rosalia.
— %Alice%, onde ela está? — disse o primogênito com mais clareza.
— A esposa é sua e essas pobres pessoas são obrigadas a saber? — o tom irônico vindo de Massimo Rivera, fez seu sangue ferver ainda mais.
— Já disse para não mencionar ela. — %Giovanni% conseguiu se soltar do irmão, encarando o Don de Siena.
— %Giovanni%, volte à razão e refaça os passos dela — aconselhou %Luigi%, novamente segurando-o e o puxando para longe. — Não se perca pelo desespero.
— Vou até a segurança e… — Voltando a si, começou a pensar com mais clareza.
— Por mais que tenha câmeras pelo galpão, há muitos pontos cego — disse %Clarice% ao se aproximar dele. — E apesar de estar chateada com a situação, pedirei a %Vincenzo% para ajudá-lo com as câmeras.
Acompanhando o irmão até a sala de segurança, %Luigi% voltou seu olhar rapidamente para %Aurora%, que se mostrava apática ao ocorrido. Ela podia enganar a todos com seu olhar inocente de alguém que não está acostumado com o mundo da máfia, mas ele sabia que sua médica havia sido a pessoa que ajudou %Alice% naquela noite. E torcia para que as câmeras não a tenham capturado.
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Em meio às ruas de Milão, %Alice% se viu sem direção a seguir, até que um rosto conhecido parou o carro em sua frente, fazendo-a cair no susto.
— Senhora Magnus?! — A voz de %Nicolai% surgiu de dentro, que abriu a porta e saiu com agilidade para ajudá-la a se levantar. — O que está fazendo aqui?
— Você é o motorista entregador, não é? — perguntou ela, apoiando-se a ele. — Messina.
— Sim, senhora — disse ele, virando para conduzi-la até o carro.
— Não — disse ela, em recusa. — Eu não vou voltar, não vou entrar naquele carro.
Ela se afastou do rapaz, temendo que seu plano de fuga pudesse dar errado.
— Para onde a senhora deseja ir? — indagou ele, se mostrando solidário. — Posso levá-la.
— Siena… — pediu ela. — O único lugar que ele não me procuraria.
A ideia de %Alice% era louca, suicida e ao mesmo tempo estratégica. Nada como o território do maior inimigo de Magnus para se esconder. Após três horas e meia de carro, finalmente %Nicolai% havia chegado a Siena, e sendo reconhecido como o entregador da família Magnus, não obteve dificuldade para entrar na cidade.
— Obrigada por me ajudar — disse %Alice%, assim que entraram no quarto que o rapaz havia alugado em uma pensão para ela.
— Não precisa agradecer, senhora — disse %Nicolai% ao se certificar que ela estaria em segurança. — Vou voltar à recepção para dar algumas orientações à senhorinha que nos atendeu, para que diga que não a conhece.
— Sim, claro — assentiu ela, acreditando nele.
Aquela seria a oportunidade única para %Nicolai% garantir a confiança de Magnus, e aproveitando o momento, assim que saiu do quarto, pegou o celular e fez a ligação. Após as horas de deslocamento, Magnus chegou acompanhado de seu irmão, e mesmo estando em território inimigo, não se intimidou pela urgência do momento.
— Ela não está aqui, onde ela está!? — gritou %Giovanni%, avançando contra o rapaz.
— Eu não sei, senhor, eu a deixei aqui, a senhorinha é minha testemunha, fiquei do lado de fora no carro observando a entrada e esperando o senhor — contou o rapaz, se mostrando leal a ele.
— Ela deve estar perambulando pela cidade — disse %Luigi%, concluindo o caso. — %Giovanni%, Siena não é tão segura quanto nossa casa.
As palavras do caçula o fizeram temer pela integridade física de sua esposa, e em sua mente logo veio a memória do dia em que a salvou de três homens quando era mais nova.
— Vamos nos dividir — ordenou %Giovanni%, sendo mais sensato e estratégico, como era sua característica principal. — O primeiro que encontrar, liga para o outro.
Três era melhor que apenas um procurando. E assim foram eles pelas ruas de Siena, à procura da jovem esposa Magnus. Muitas ruas depois, corridas que pareciam não ter fim e um coração que se afligia cada vez mais, %Giovanni% começou a ouvir de longe um grito abafado de socorro. Com o resgate do passado ainda fixo em sua memória, ele continuou correndo na direção distinguida. Ao chegar, se deparou com sua esposa ao chão se debatendo e lutando contra um homem robusto, enquanto continuava a gritar por socorro o nome do marido.
Com os olhos regados à fúria, o primogênito Magnus lançou-se contra o homem e o arrastou para longe dela, socando-o como se não houvesse amanhã. Não somente pela ousadia do homem de tentar agredir uma mulher, principalmente sendo sua esposa, contudo, parte da alta agressividade de %Giovanni% era a liberação de sua raiva pela fuga dela.
— %Giovanni%! — A voz de %Luigi% surgiu atrás dele, vendo o estado inacreditável que o irmão se encontrava. — %Giovanni%, para! Está assustando ela ainda mais.
Foi neste instante que o primogênito se lembrou que a esposa estava presenciando toda a cena. Então ele parou e retirando um lenço do bolso do terno, limpou sua mão ensanguentada, enquanto caminhava para perto dela.
— Vou te levar para casa. — Seu tom era brando e suave, tanto que fez sua esposa sentir calafrio pelo espanto.
%Alice% se encolheu, demonstrando não conseguir se levantar, então %Giovanni% a pegou precisamente no colo e voltou a direção dos seus passos para a rua. Todo o caminho até o hotel Village, pertencente à família Ginevra, foi silencioso entre o casal. Sem a necessidade de fazer o check-in, pois se tratava dos irmãos Magnus, o Don apenas pegou a chave da suíte master e continuou até chegar ao quarto. Levando sua esposa até o banheiro, finalmente apoiou %Alice% ao chão, ajudando-a a se manter de pé.
— Não vai brigar comigo? — sussurrou ela, com o olhar baixo.
— Não — respondeu ele, com um gosto amargo na boca. — Apenas estou grato por tê-la encontrado.
Ele virou de costas para sair do banheiro.
— Aonde vai? — perguntou ela, internamente ainda assustada com tudo o que tinha vivido em um curto espaço de horas.
— Tome um banho, estarei no quarto — respondeu ele, saindo do ambiente.
%Alice% respirou fundo, com sua memória voltando à cena da chegada de %Giovanni% para lhe resgatar. Naquele momento ela percebeu que não importava como, ele certamente iria até o final do mundo por ela, para estar com ela e de fato tê-la. Logo a jovem sentiu-se cansada de tudo aquilo, de todas as fugas que lhe renderam diversas situações de perigo.
Talvez, ela precisasse apenas aceitar sua realidade.
— Sua roupa está suja de sangue — pontuou ela assim que saiu do banheiro e o encarou por um tempo.
— Eu sei. — Ele controlou seu olhar para ela, pois a jovem estava apenas com uma toalha enrolada ao corpo. — Mandei que lhe trouxessem roupas limpas.
— Obrigada. — %Alice% manteve sua voz baixa, além do natural.
Com alguns passos até a cama, pegou a roupa e começou a vesti-la ali mesmo, em sua frente. Outro respiro profundo e o homem virou-se de costas para ela e entrou no banheiro para se banhar. Como aquela suíte era sempre reservada ao Don Magnus, no closet havia algumas peças de roupas que costumava usar quando passava dias na cidade, à negócios. Retornando ao quarto já limpo e trajado, ele encontrou a esposa deitada na cama, envolvida pelas cobertas.
— Descanse, amanhã voltaremos para Florença — disse ele, contendo o tom de ordem.
Quando o primogênito deu o primeiro passo para se retirar do quarto…
— %Giovanni% — ela o chamou pelo nome, fazendo-o parar.
Voltando-se para sua direção, a olhou com seriedade, porém o rosto suave.
— Não quero ficar sozinha — sussurrou ela, com o olhar de criança abandonada.
Ele se pegou sem reação a princípio, então, caminhando até a cama, deitou ao seu lado, observando-a se aninhar em seus braços. Em pouco mais de um ano de casado, era a primeira vez que experimentava a experiência de sua esposa tão perto por vontade própria.
— Ficarei até que adormeça — assentiu ele, controlando os muitos pensamentos que perturbavam sua mente.
— Mas… Se eu acordar no meio da noite?! — Ela o olhou, seus olhos ficaram marejados.
— Você não faz ideia do que está me causando agora… Não é? — comentou ele, rindo de nervoso.
— Desculpa. — A sinceridade soou em sua voz. — Eu só quero que fique aqui, comigo.
Mesmo sabendo que aquele pedido lhe causaria dor.
— Tudo bem. — Assentiu ele, confortando-a com o olhar protetor.
— Obrigada. — %Alice% sorriu com sutileza, e erguendo um pouco o corpo, encostou seus lábios no rosto do marido, no canto de sua boca.
— %Alice%. — Ele virou seu corpo e a encarou. — Não deveria fazer isso.
— Uma esposa não pode dar um beijo de boa noite no marido? — Sua pergunta parecia inocente para quem visse de fora, contudo...
— O que você deseja com isso, %Alice% Magnus? — indagou %Giovanni%, sentindo-se confuso com as ações dela.
— Você! — disse ela, clara e precisamente.
Sua declaração causou um arrepio involuntário no corpo do marido, que foi percebido pela esposa. E sem pensar em nada mais além do desejo que ele estava sentindo por ela há anos, %Giovanni% a beijou com toda a intensidade que guardava no seu interior. Com a entrega e aceitação de %Alice%, os muitos pensamentos maliciosos que tinha com ela, não o machucaria mais, pelo contrário…
Naquela noite, todos seriam concretizados.
Oh, ela me quer
Oh, ela me tem
Oh, ela me machuca
Ok, estou ansiando por mais.
- Overdose / EXO