Capítulo 2
Capitão %Corvane%
Observava o cartográfico disposto sobre a elegante mesa de mogno há um intervalo considerável. Desprezava a algazarra exterior, ciente de que meus subalternos ansiavam pelas incursões em reinos suntuosos, conforme eles próprios exaltavam. Éramos, afinal, uma horda de libertinos em busca de indulgências, essa sempre foi nossa única incumbência. Contudo, agora persistia um libertino, porém destituído de qualquer deleite.
Aquela detestável feiticeira. Antevia o remorso por ter-me aventurado a forjar algum contrato com ela, as lendas provavam ser verídicas. Pactuar com a morte estava fadado ao fracasso, no entanto, de alguma forma, surtiu efeito em parte. O navio fora engolido por uma criatura que dominava as águas do oriente mediterrâneo. Todavia, meus companheiros subsistiam em torno da embarcação, unicamente ligados a ela, e perder o navio equivaleria a despojá-los de seu lar. Isso, por minha vontade, jamais ocorreria, ainda que eu tivesse de confrontar todas as adversidades até meu derradeiro alento.
Foi exatamente o que fiz, fui até aquela terra de seres mortos e desalmados pedir o nosso lar novamente. Sorte minha que eu ainda tinha algo a oferecer em troca, só não tinha noção de que aquilo iria custar exatamente minha vida. Viver sem alma, era exatamente como um corpo seco, não sentia o sabor da comida, o calor do sol, a vontade de nadar nas águas mais cristalinas. Nem o sexo era prazeroso. Nada era agradável aos meus olhos, tudo era sem cor e sem sentido.
Meus piratas diziam que não tinha mudado em nada, pois eu ainda estava do mesmo jeito para eles, só que nenhum conseguia me entender de fato. Não estavam dentro de mim para entender que não sentir nada não era um tipo de benção, era, sim, uma maldição. Por isso, quando eles menos esperavam eu retornei àquela maldita feiticeira da morte e implorei para que eu pudesse sentir mais uma
porra de vez.
Ela me incumbiu de uma busca, que inicialmente pareceu uma mera peça de humor divino, pois consistia em encontrar um ser tão pleno de emoções que poderia até dar sentimentos a mim e a ela. Eu duvidei da existência de tal criatura, não confiei em uma sílaba sequer de suas palavras, mas, ainda assim, aceitei o desafio. Dirigi-me ao reino por ela indicado, sorrindo com ironia ao descobrir que se tratava do príncipe. Na festividade em que ele supostamente encontraria o amor, aprenderia a acolher aquela sensação tão menosprezada, que apenas existia nos contos de fadas. Nem mesmo as fadas se deixavam persuadir por essa tolice.
Fui despertado dos meus pensamentos ao ver alguém bater na porta, suspirei alto e com o tédio absoluto que sempre se apossava de mim, a cada segundo que eu respirava era apenas tédio que invadia meu corpo, mente e…
Ah, não tinha mais alma. — O que quer? — questionei com a voz baixa e séria.
— O coelhinho assustado acordou, Capitão — Brownt me avisou, abrindo um pouco da porta para falar.
— Ótimo — murmurei e me levantei, ajeitando o casaco preto que cobria todo meu corpo por cima daquela camisa escarlate que tinha os botões fechados até metade do meu peito apenas. — Preparem a mesa de jantar e depois o encaminhem até lá — ordenei.
— Certo, Capitão — obedeceu prontamente.
— Brownt — chamei antes que fosse embora. — Não dê apelidos ao que é
meu — mandei com a voz áspera, vendo o homem encolher seus ombros.
— Como desejar, Capitão. Peço perdão — disse rapidamente e saiu correndo, fechando a porta.
Inclinei os olhos e alinhei a lapela do sobretudo negro, mantendo-o entreaberto enquanto meu olhar percorria toda a minha imagem refletida naquele espelho. Meu cabelo, tão escuro quanto a noite no Vale das Sombras, destacava meus tons amendoados, conferindo um brilho dourado ao meu olhar. Meu pai costumava murmurar que meus olhos buscavam ouro, e com razão: nenhum outro capitão havia desvendado tantos tesouros quanto eu.
Mordi o lábio ao contemplar os anéis de ouro em meus dedos, em cada junta. Em seguida, tracejei meus dedos pela minha vasta cabeleira escura e a empurrei para trás, vendo-a retornar quase instantaneamente ao lugar. Lancei um último olhar à minha imagem no espelho antes de recolher o mapa da mesa e guardá-lo na gaveta, dirigindo-me então à sala de jantar.
Deslizei para fora da minha cabine, cruzando o convés de madeira, testemunhando os marinheiros interromperem suas brincadeiras, suas canções, e tudo o mais que estivessem fazendo, para retirar os chapéus e curvarem-se reverentemente enquanto eu avançava apressadamente. Os murmúrios de saudação enchiam meus ouvidos, cada um reconhecendo minha presença de sua maneira. Apenas inclinei a cabeça em resposta para alguns, sem desviar minha atenção do objetivo. Naveguei até o mastro dianteiro do navio, onde se encontravam a cozinha, a sala de jantar e a enfermaria. No mastro principal, localizavam-se minha cabine e o quarto onde repousava, o meu santuário pessoal. Enquanto isso, no mastro traseiro, repousavam os alojamentos de toda a tripulação.
Detive-me abruptamente diante da imponente porta que se abriria para a sala de jantar, ciente de que o tal príncipe aguardava do outro lado. Poderia então constatar se as palavras da feiticeira eram verídicas, embora minhas dúvidas persistissem. Inspirei profundamente, enchendo meus pulmões de ar, antes de envolver a maçaneta de prata com firmeza e girá-la, permitindo que a porta se abrisse diante de mim. Meus olhos percorreram a longa mesa repleta de iguarias, até que finalmente se fixaram em tons verdes esmeraldas que me encaravam do outro lado.
Deixei que a porta fosse fechada atrás de mim, nos deixando completamente sozinhos. Meus olhos não saíam dos seus por nenhum segundo, por mais que estivesse curioso para olhá-lo inteiramente. Não podia negar que tinha gostado do verde intenso que seus olhos eram; me lembravam de inúmeras coisas que costumava gostar antigamente. O verde das folhas caindo ao redor da cachoeira perto do vilarejo dos meus pais. Assim como o verde da pedra que reis e rainhas usavam em dias mais comuns. Somente nos seus olhos eu conseguia deleitar na natureza mais pura, mas também selvagem, assim como na luxúria da riqueza.
Puxei a cadeira à minha frente, me sentando nela e abrindo meu casaco ao me deixar confortável já sentado. Peguei a jarra de barro com vinho e despejei na minha taça, conseguinte, empurrei pela mesa para mais perto dele.
— Você bebe,
Alteza? — Senti a rouquidão da minha voz se apossar quando pronunciei aquele título.
— Sim, Capitão, mas acredito que, antes de mais nada, deveríamos esclarecer alguns pontos. — Ele tentou manter sua voz calma, mas senti o temor em seu tom.
Mordi minha bochecha internamente, levando a taça até meus lábios, bebendo um bom gole mesmo que o sabor não tivesse efeito algum em mim. Era como se eu estivesse bebendo
nada. — Hmm… quais pontos? — Ergui uma sobrancelha em questionamento.
— Acredito que houve um engano e lhe trouxeram a pessoa errada — falou, e se serviu com um pouco de vinho, levando a taça até seus lábios rosados. — Talvez eu seja o príncipe errado, Capitão.
— O príncipe errado? — Quis rir daquela expressão, porque não existia certo ou errado. Por mim, a feiticeira tinha feito uma piada e ele tinha sido escolhido por azar mesmo. — Por que pensa isso? O que te faz pensar que é o errado?
— O Principado da Aurora Dourada tem muitos aliados. Somos um reino amigável, embora saiba que por sermos muito bem estruturados, mais que outros, eventualmente temos alguns inimigos invejosos, mas nada que leve alguém a contratar os serviços de piratas a me manterem em um navio. — Sua postura não vacilou, mas seus olhos entregaram seu medo.
Permiti dessa vez que meu olhar pudesse percorrer todo seu rosto, prestando atenção nos detalhes que a luz me permitia ver. As maçãs do rosto levemente rosadas, porém o maxilar era bem-marcado em um desenho que o deixava bem único.
— Não é por causa do seu reino que está nesse navio — comentei umedecendo os meus lábios ao retornar meu olhar ao seu. — Não fomos contratados para te sequestrar. Minha tripulação não é de obedecer a qualquer um, na verdade, eles só obedecem a mim.
Então me levantei, pegando uma maçã verde no meio da mesa, mordendo conforme me aproximava dele. Puxei a cadeira ao seu lado e me sentei ali, podendo enxergar melhor cada traço de seu rosto.
— Você está aqui porque a feiticeira da morte o quer — sussurrei como um segredo.
— Mas… quem? — Seu semblante era ingênuo e confuso. Ele percorreu meu rosto com seus olhos verdes, tentando entender sobre o que eu falava. — Eu nunca fiz nada contra… ninguém — sussurrou a última palavra.
— Ainda assim ela o quer — respondi erguendo um ombro. — Ela tem algo que pertence a mim e disse que só me devolveria se eu te levasse até ela. Então… — Estalei a língua no céu da boca. — Não é nada pessoal.
— Não importa o que ela pegou de você, eu posso te dar em dobro — tentou barganhar comigo. Ele estava em pânico e a postura de durão já o havia deixado. — Você não precisa fazer isso. É só me falar o que você quer e eu lhe darei. — Seus olhos estavam marejados e ele buscava por misericórdia em meu olhar.
Respirei fundo, sabendo que mesmo se tivesse minha alma e pudesse sentir qualquer coisa, misericórdia não era uma coisa que eu costumava sentir. Mordi mais um pedaço da maçã, suspirando por não sentir o sabor que eu costumava gostar tanto.
— Não há nada que você possa me dar que eu já não tenha,
%Elliot% — pronunciei seu nome pela primeira vez, gostando de como soava na minha voz. — Tesouros? Eu tenho todos. Joias? Até mesmo as mágicas dos vales élficos eu possuo. Títulos? Eu sou o capitão de todos os mares, nenhum outro ousa cruzar meu caminho. Então espero que você aproveite a viagem, príncipe.
Levantei-me dali e voltei para a outra parte da mesa, sem olhá-lo dessa vez.
— Eu não entendo! — falou mais alto, sua voz estava trêmula. — O que eu fiz? O que eu posso fazer para mudar isso? — Poderia até rir do desespero dele, mas, em vez disso, bebi o restante do vinho em minha taça.
— Guarde esses questionamentos à bruxa que o quer — repliquei, porque não tinha aquelas respostas e pouco me importava também. — Agora coma, Alteza, você não está no seu castelo. Em alto mar não sabemos quando será nossa próxima refeição. — Usei um tom de ordem mesmo, apenas por diversão.
— Certo. Mas… — %Elliot% encarou as opções em sua frente e pegou apenas saladas e uma maçã.
Esperei pelo resto de sua fala, mas ele abaixou a cabeça e começou a comer. Uni minhas sobrancelhas, encarando aquilo curiosamente.
— Qual o problema do peixe e do frango? — Quis saber.
— Eu não como carne, nenhum tipo — falou em tom baixo, sem mais explicações.
— Isso vai ser um problema, príncipe. — Torci os lábios. — A não ser que você mergulhe no mar para pegar algas — comentei em sugestão porque não tinha como plantar nada em um navio.
— Tudo bem, eu não preciso de muito. — Em segundos, ele mudou totalmente. De apavorado, agora parecia estar derrotado, conformado.
Fiquei assistindo-o comer, vendo o tanto de emoções que ele demonstrou sentir na minha frente e mais uma vez invejei mais uma pessoa. Apesar de ele estar sentindo coisas ruins, ainda assim o invejava por conseguir sentir qualquer coisa.
— Vou pedir para que guardem todas as frutas para você — murmurei e cocei a garganta. — Não quero te matar de fome pela viagem. A feiticeira o quer vivo.
— Obrigado — murmurou tão baixo que, se não estivéssemos em silêncio, jamais o teria ouvido.
Pude ver que ele estava cabisbaixo, não tinha mais aquela pose que tinha antes, a pose que os príncipes tinham sempre que iam negociar algo. Sabia que não duraria muito, nunca durava mesmo. Pessoas da realeza não sabiam lidar com quem não aceitavam suas ordens e barganhas, porque achavam que podiam comprar todos com seus ouros e fortunas.
No entanto, o destino daquele rapaz à minha frente não parecia mesmo certo. Ele tinha uma certa ingenuidade e inocência que todos poderiam perceber ao olhar bem para ele. Poderia estar errado, mas eu não costumava errar ao ler as pessoas.
Então mantive o silêncio, mas não deixei de olhar pra ele em nenhum momento. Ainda estava intrigado no que a feiticeira queria com ele. O que ele tinha de tão especial assim?
Quando notei que tinha parado de comer, foi perceptível que encarava qualquer ponto daquela cabine menos os meus olhos. Aquilo me incomodava, porque fui ensinado que olhar nos olhos de qualquer criatura era demonstrar orgulho.
— Spike — chamei alto, esperando alguns segundos para que a porta fosse aberta e o pirata entrasse. — Leve o príncipe para o seu aposento — ordenei.
Spike assentiu e olhou para o príncipe meio incerto do que fazer. Odiava aquele moleque frouxo tinha hora.
— Não preciso de babá, já sei o caminho e consigo chegar lá sozinho — falou, sem nem me olhar, mas notei que olhou para Spike.
Ergui ambas as sobrancelhas para tamanha ousadia. Por que Spike era mais digno de ser olhado do que a mim? Tudo aquilo era medo de me encarar? Quase questionei o príncipe sobre aquele desrespeito, mas decidi me manter em silêncio.
— Obrigado pelo jantar, Capitão. — Assim ele passou pela porta, sendo seguido de perto por Spike.
Soltei um riso nasalado, negando com a cabeça e deixando pra lá. Afinal, teríamos uma grande viagem pela frente porque onde a feiticeira ficava era quase do outro lado do mundo. Tínhamos que atravessar quase todos os sete mares para chegar. Aquilo levaria meses, isso se déssemos sorte, porque tinha águas turbulentas pela frente. Coisas que fariam aquele rapaz chorar de saudades do conforto do seu castelo.
Aquilo seria no mínimo interessante de assistir. Será que eu iria poder me divertir?
Sorri enviesado e me levantei, ordenando que dessem toda aquela comida ao resto da tripulação, incluindo as frutas também…
ops.
(…)
Minha mão esquerda estava bem posicionada no timão, meus olhos no horizonte vendo que viria tempestade pela frente. Meus homens corriam pelo navio, sabendo que eu iria preferir passar pela tempestade do que desviá-la. O tempo era curto, queria chegar naquela feiticeira o mais rápido possível mesmo sabendo que ainda assim a viagem seria bem longa. Também sabia que para desviar teria que passar pela Baía do Horizonte Infinito. Apesar do nome bonito, era apenas para enganar os estúpidos.
Além do povo canibal que vivia naquela ilha, ainda havia o perigo maior que era a serpente roxa. Dizia a lenda que a serpente antes fora uma deusa para aquele povo, no entanto, ingratos e famintos, vendo que quanto mais sacrifícios faziam pela deusa ainda continuavam morrendo de fome, eles decidiram que o próximo sacrifício seria a própria deusa. Onde a mataram e comeram algumas partes, as outras jogaram ao mar para que seu espírito ficasse longe daquela terra. Todavia, o mar fez com que aquelas partes virasse uma serpente que tinha o dobro do tamanho da ilha. Nenhum deles poderia sair de lá, nem quem pisasse naquela terra teria a sorte de sair, pois a serpente jamais permitiria.
Não sabia se a história por trás daquele monstro roxo era de fato verdadeira, mas o monstro era real, pois eu mesmo já o tinha visto. Meus homens e eu tivemos o infortúnio de cair naquelas águas anos atrás e, para sair de lá, foi onde perdemos o nosso lar, nosso navio. Então não queria ter que enfrentar aquele monstro mais uma vez, por isso meus olhos encaravam aquelas nuvens cinzas que estavam bem mais a frente, porém na nossa direção.
Os lábios úmidos, observei Spike emergir de seus aposentos com nossa tão aguardada encomenda. Minha atenção se desviou completamente da feroz tempestade lá fora, enquanto meus olhos se fixavam no jovem. Ele parecia tão jovem, não apenas em sua aparência, mas em suas experiências também. Seus olhos verdes, embora assustados, brilhavam com curiosidade diante de tudo o que o rodeava. Meus companheiros piratas o observavam como se fosse um tesouro recém-descoberto, algo nunca antes visto em suas vidas — e, de fato, jamais tinham visto algo assim.
Um sorriso irônico se formou em meus lábios enquanto observava Spike interagir com ele de maneira descontraída, como se o príncipe estivesse à vontade ao lado daquele marinheiro desleixado. Vi o jovem pirata olhar para o horizonte, sobressaltando-se com as cores do céu que se aproximavam ameaçadoramente. Em seguida, seus olhos buscaram por mim, e quando me avistou no leme, prontamente tirou seu chapéu em sinal de respeito, fazendo uma reverência.
— Capitão… — Seu tom era receoso. — Vamos passar pela tempestade?
Arqueei levemente uma sobrancelha conforme o encarava sério.
— Tem medo de se molhar, Spike?
O jovem pirata arregalou seus olhos e negou com a cabeça rapidamente.
— Mas parece que será… bem, pelo céu — gaguejou ainda receoso.
— Vou perguntar mais uma vez, Spike — aumentei o tom de voz, antes de continuar: — Tem medo de se molhar?
Spike encolheu seus ombros, demorando mais uns segundos para responder dessa vez.
— Não, senhor. — Dessa vez, sua voz adquiriu uma firmeza maior, porém ainda percebi uma hesitação e um leve tremor em algumas sílabas proferidas.
Assenti com a cabeça, virando um pouco o barco para a esquerda e meus tons amendoados foram até o príncipe que, dessa vez, devolvia meu olhar.
— E você, Alteza, tem medo de se molhar?
— Nem um pouco, Capitão! — Sua voz estava mais firme desde a última vez que nos falamos. — Precisaria de muito mais para me deixar com medo.
Faltou pouco para que eu não abrisse o sorriso no canto dos meus lábios, gostando daquela resposta. Mas me limitei a balançar a cabeça para cima e para baixo, em concordância.
— Parece que você tem muito o que aprender com o príncipe, Spike — comentei sem olhar para nenhum deles dessa vez, claramente zombando do jovem pirata.
Ouvi sua risada sem graça ser solta, esperando que me respondesse mais algumas coisa, só que ficou por isso mesmo.
— Nunca vi ninguém navegar um navio, Capitão, sempre fiquei em terra firme, apesar de sempre apreciar os navios e o mar do meu quarto — o príncipe falou como se fossemos grandes amigos, e quis mandar ele calar a boca. — Posso me aproximar e ver você conduzir o navio?
— Para alguém que nem queria me encarar nos olhos ontem à noite e agora quer me ver conduzir o navio? — questionei aprofundando meu olhar nos seus, curioso para ser sincero.
— Me desculpe por ontem. Estava emocionalmente cansado. — Soltou um suspiro pesado, devolvendo o olhar intensamente. — Mas hoje me sinto melhor, não vou dizer que simpatizo com o que está me acontecendo, mas pretendo aproveitar o passeio. — Sorriu até covinhas se formarem em suas bochechas. — Então posso ver você navegar?
O encarava como se ele fosse uma linha perdida de um mapa que eu jamais tinha visto antes, o qual ele também não parecia fazer parte. Não entendia aquele sorriso quando ele era claramente um prisioneiro indo em direção à morte, literalmente, porque a feiticeira era a própria deusa da morte em carne e osso — mais osso do que carne —, e, ainda assim, lá estava ele sorrindo, querendo aproveitar o passeio.
— Suba aqui, Alteza — decidi por fim.
— Obrigado. Prometo ficar quietinho e não atrapalhar. — Faltou saltitar, tamanha alegria que o príncipe ficou com minha resposta. — Pra que serve isso? — falou apontando as cordas das velas.
— As velas desempenham um papel crucial na geração de propulsão de duas maneiras distintas: a primeira, consiste em capturar o vento que passa e avançar na mesma direção que ele, agindo de forma semelhante a um "protetor ao sol", mas impulsionando o barco à frente — tentei explicar ao apontar uma das cordas. — No segundo modo, a propulsão acontece quando a vela se move de lado em relação à direção do vento. Devido ao formato aerodinâmico da vela, o ar viaja por uma distância maior de um dos lados da vela, criando uma diferença de pressão entre os lados, com mais pressão no lado curvo. Isso faz com que a vela seja empurrada em uma direção, semelhante ao que acontece com uma asa.
Desviei meu olhar das cordas, apontando as velas acima de nós e então o encarei logo em seguida.
— Genial! — exclamou com olhos brilhantes e sorriso largo. — Posso segurar também no “volante”? — A história do “vou ficar quietinho” só durou até ele chegar do meu lado. Parecia a porra do papagaio do Griffin.
— Timão ou leme — corrigi e relutei por alguns longos segundos, olhando em volta ao ver que alguns piratas me encaravam em expectativas para ver se eu permitiria. — O mar está bravo, Alteza. Não é um bom dia para assumir a navegação.
Segurei na madeira com mais firmeza, encarando de fato as ondas mais fortes que balançavam o navio. Ainda assim, respirei fundo e encarei o príncipe perto de mim.
— Vem cá e segure com firmeza — sibilei, torcendo os lábios e dando um pequeno espaço para ele.
— Será que conseguirei? Você vai me ajudar? — Seus olhos continham expectativa e alegria ao mesmo tempo.
Ainda não estava muito certo de deixá-lo, mas sua animação me fez não ter tempo de mudar de ideia. Ele se aproximou, ficando bem próximo a mim, fazendo com que eu sentisse que ele realmente ainda tinha cheiro de flores, como lírios do campo. Balancei a cabeça para os lados, desviando aquele pensamento absurdo e ridículo. Então ajudei-o a se posicionar ao meu lado, separei suas pernas usando meu pé mesmo para afastá-las.
— Eu não acredito! Estou navegando, eu seria um bom pirata, não acha? — falou quando seus dedos seguraram o timão e me olhou com olhos brilhantes.
— Você gostaria de ser um pirata, Alteza? — perguntei com certo humor e segurei sua mão que estava no timão, a posicionando do lugar certo para que ele não perdesse para a força que empurraria para o outro lado.
— Na verdade eu não deveria estar pensando nisso. — Seu tom saiu baixinho e assisti de perto sua alegria deixar, não só seus olhos, como seu corpo todo. — Eu deveria estar focado no que está prestes a me acontecer e não em sonhos bobos. Sinto muito. — Sua mão vacilou e seu corpo ficou tenso.
— %Elliot% — o chamei, esperando que me olhasse. Seus olhos pareciam mais verdes ainda, assim como continha umas linhas douradas entre o verde quando se olhava assim mais de perto. — Você está em um navio pirata onde não há regras, aliás, odiamos regras. Então não tem essa de “deve ou não deve”. Pense, sonhe, faça o que quiser fazer enquanto pode.
— Pode parecer fácil falar. Você sempre viveu desta forma, mas eu cresci tendo que aprender a ser o que os outros esperam de mim. Não é como se eu pudesse deixar de ser assim. — Incrível como em uma simples conversa ele demonstrava tantas emoções. — Como eu deixo de ser como sou, Capitão?
Respirei um pouco mais forte e me aproximei um pouco mais dele como se fosse lhe contar um segredo. Meus olhos descerem por todo seu rosto antes de retornar aos seus olhos esmeraldas.
— Você vai deixar de ser como é quando aprender a se importar apenas com o que deseja, Alteza — sussurrei ouvindo meu tom sair mais rouco. — Não precisamos viver as expectativas de ninguém. Esse é o segredo da felicidade. — Pisquei um olho para ele e me afastei um pouco, deslizando minha mão da sua até seu antebraço para que ficasse bem flexionado.
— Mesmo se o que eu desejo for o oposto do que esperam de mim? — Seus olhos passearam por todo meu rosto até ele encontrar meus tons dourados. — Meu irmão nasceu com coragem, não eu.
— Será? — Ergui as sobrancelhas. — Estamos prestes a enfrentar uma tempestade em alto mar e você mesmo me respondeu minutos atrás de que precisava mais do que isso para te deixar com medo. Já tivemos prisioneiros antes e nenhum deles sorria para mim como você sorriu. Isso não é coragem, então o que é?
— Talvez eu apenas tenha conseguido te enganar muito bem. — Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios, enquanto deu de ombros para mim.
Estreitei meus olhos em sua direção como se fosse lhe dar uma bronca por conta daquilo, mas acabei soltando um riso nasalado, prestes a fazer uma brincadeira com ele, mas não tivemos tempo pois a onda que ricocheteou no barco fez com que ele balançasse forte. Automaticamente, segurei a cintura do príncipe para que não caísse e aquilo fez nossos corpos se colarem imediatamente e como previsto molhasse todos que estavam do lado de fora, assim como nós.
— Parece que alcançamos a tempestade — murmurei para o príncipe, enquanto observava a água deslizar em seu rosto, e fui desfazendo da força das minhas mãos em sua cintura aos poucos.
— Acho melhor eu me recolher, então — sussurrou, intercalando seu olhar, entre meus olhos e lábios. — Sabe o que acabei de perceber, Capitão?
Mantive meus olhos nos seus, esperando que me respondesse.
— Você já me chamou pelo meu nome, duas ou três vezes, mas ainda não sei o seu, a não ser que te chamam de Capitão %Corvane%.
— Quanto menos você souber sobre mim, será melhor…
%Elliot% — ditei seu nome mais uma vez e me distanciei abruptamente. — Vá se proteger da tempestade agora — disse em tom de ordem.
— Como desejar, Capitão — pronunciou meu título em um tom arrastado e rouco e saiu com um sorriso de canto em seus lábios.
Deslizei a língua pelo lábio superior ao vê-lo percorrer o chão molhado, deixando meus olhos seguir cada passo. Deveria confessar que aquele jovem estava despertando em mim uma intriga sem precedentes. Embora possuísse uma ingenuidade cativante, uma inocência que me surpreendia, havia nele algo mais profundo do que simples curiosidade; era um anseio ardente por experiências.
Era verdadeiramente fascinante para alguém que, até então, havia experimentado um vazio emocional. Afinal, o desejo de descobrir mais sobre ele era, por si só, uma emoção.
Talvez, de fato, a feiticeira estivera certa sobre ele. Nota das autoras:
Leu? Então conta pra gente o que achou! 👀 ❤️ Cada comentário faz nossas autoras aqui surtarem um pouquinho mais. 😂
— Sereia & bru_ZH
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