Luminoside Noturna


Escrita porSereia Laranja
Bru ZH

Revisada por Lelen


Capítulo 1

  Príncipe %Elliot%

  Ficar entre meus lençóis ouvindo apenas o som da minha respiração ecoando pelo espaço gigantesco que era meu quarto pareceu mais animador do que enfrentar um dia inteiro no Palácio. Ser o único filho que não conseguiu dizer "não" ao rei me fazia viver dias tortuosos. Sabia perfeitamente que nasci para seguir os passos do meu pai, o que incluía me casar, ter filhos para continuar a linhagem dos reis da nossa família e liderar o povoado do Principado da Aurora Dourada.
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  Eu só queria ter a coragem do meu irmão mais velho, Charles. Desde muito jovem, ele já tinha sua vida traçada e sempre me dizia que no dia em que fosse embora, só voltaria quando nosso pai não estivesse mais vivo. Sentia tanta falta dele, mas não poderia abandonar meus deveres como sucessor do rei para me aventurar mar afora, conhecendo as criaturas místicas que se escondiam nas águas salgadas, novos reinos, as criaturas mitológicas que só vi em livros que cercavam a floresta, pessoas comuns ou com poderes mágicos... Um mundo repleto de possibilidades além dos muros do Palácio.
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  Senti um frio na barriga só de me imaginar fazendo todas essas aventuras, sentindo o perigo, o vento no rosto, o cheiro da brisa do mar, tocando outras espécies de flores, admirando as belezas da natureza e compartilhando tudo isso com alguém.
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  Mas simplesmente não podia. Minha mãe ficaria desolada se eu seguisse os passos de Charles.
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  Minha mãe era a rainha perfeita, o modelo da mulher que um dia eu deveria ter como esposa. Ela sempre concordava com o que o rei dizia, sempre sorrindo e amável, só falava quando lhe era permitido. Eu a amava, mas sentia toda a sua tristeza quando olhava em seus olhos. Nessas horas, sabia que meu destino seria igual ao dela. Ser obediente, não falar alto, sempre concordar com todos, sempre tentando agradar todos à minha volta. Uma verdadeira prisão.
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  Nosso reino era vasto, muito rico e bem estruturado. O Palácio real era impressionante, com suas fachadas majestosas e tão luxuosas quanto o interior. Ele abrigava as mais lindas coleções particulares de arte, as mais belas esculturas, móveis antigos e raros, além das mais belas joias espalhadas em sua decoração. Os jardins, com suas estátuas e fontes, decoravam o ambiente entre as flores mais exuberantes. Meu pai sempre destacava, quando me falava sobre os deveres de um rei, que levou anos para conquistarmos tudo o que tínhamos hoje. Meu bisavô foi o grande responsável por aprimorar nosso reino, transformando o reinado dos %Evermore% em um dos mais invejados.
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  Mas de que adiantava ser abraçado por esses lençóis caros, vestido com as roupas mais exuberantes do reino, usar as mais belas joias e não ser feliz?
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  Forcei minhas pernas a saírem da cama. Envolto em um dos lençóis de seda, senti meu corpo tremer com o toque suave em minha pele. Caminhei até a sacada e fui abraçado pela vista que sempre me tirava o fôlego.
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  Da minha sacada, tinha uma vista do jardim dos fundos, com sua grama sempre bem aparada, árvores podadas e as mais lindas rosas, além da fonte de água cristalina. Mas o que realmente me tirava o ar era olhar para o horizonte além dos jardins do Palácio.
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  O mar era como uma dança, sensual e atrativa. Não tinha uma visão ampla, pois ele ficava mais afastado das terras do Palácio, mas o pouco que via da minha sacada já era suficiente para me deixar entorpecido com o prazer de admirá-lo.
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  O céu tocando o mar no horizonte era como assistir ao beijo mais apaixonante que já vi. A sensação de que o amor transbordava através das ondas e das nuvens ao redor fazia meu corpo estremecer, antecipando o dia em que eu poderia sentir esse amor.
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  Amor. Uma palavra pequena, mas com um impacto enorme nos seres humanos. Perceber que talvez eu nunca sentisse amor fez uma lágrima solitária escorrer pela minha bochecha, perdendo-se em meu pescoço. Como podia encontrar o amor, amar e ser amado, se nem mesmo me casar com quem meu coração desejava era permitido?
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  Um rei precisava de uma rainha. E se eu fosse um rei que precisava de outro rei ao meu lado?
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  Senti um nó na garganta ao me lembrar das palavras do meu pai. Ele preferiria não ter mais filhos a ter uma "desonra" dessas na família real. Minha mãe, como sempre, concordou com tudo o que ele disse, e assim fui condenado aos desejos de ambos.
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  Quando descobri meus verdadeiros sentimentos por homens, compartilhei imediatamente com meus pais e meu irmão. Mas não fui bem recebido. Ouvi o rei, por horas, dizer que isso não podia acontecer, que eu precisava esquecer, que um homem precisa de uma mulher e que esse desejo jamais poderia vir a público.
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  Como se fosse simples trancar uma parte importante de quem sou. Mas era o que vinha fazendo nos últimos anos, cumprindo meu dever como o futuro rei.
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  A brisa da manhã me fez voltar à realidade, arrepiando minha pele exposta. Segurei firme o lençol que cobria parte do meu corpo e olhei uma última vez para a vista do mar. Dirigi-me ao banheiro e notei que minha cama já estava excepcionalmente arrumada. Cada almofada e travesseiro no lugar, os lençóis bem esticados e alinhados, e os tecidos do dossel presos com uma linda fita de cetim. Tudo arrumado, como nos outros dias.
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  Meu banho estava pronto também. O cheiro dos meus sais de rosa permeava o ambiente. A água, na temperatura perfeita, recebeu meu corpo como o beijo mais doce, aquecendo-me de dentro para fora, relaxando meus músculos tensos e aliviando minha respiração.
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  Sobre a água flutuavam pétalas de rosas em perfeito tom com a água rosa. Além do aroma maravilhoso e do efeito relaxante, os sais de banho mudavam a cor da água, tornando-a mais atraente e divertida.
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  A espuma em meu corpo pareceu uma fina camada de algodão. Macia. Perdi a noção do tempo, distraído com o calor da água e seu perfume, sentindo minha pele absorver o doce aroma das rosas.
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  Passei tanto tempo na água que ela começou a esfriar. Antes de me levantar, submergi meu corpo inteiro e fiquei lá embaixo o quanto meus pulmões permitiram. Gritei, vendo as bolhas saírem da minha boca. E se eu deixasse a água entrar e dominar meu corpo de dentro para fora? Isso acabaria com os planos do rei. Talvez eu pudesse fazer isso, mas faltava algo. A parte mais importante para tornar esse plano real: coragem.
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  Emergi em pânico, buscando ar, e senti um grande alívio quando ele encheu meus pulmões. Saí da água e me vesti, deixando para trás minha tristeza, afundada nas águas frias e rosadas da minha banheira.
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(...)

  Os corredores do Palácio estavam silenciosos, talvez porque todos já estivessem no grande salão, ao redor da mesa farta. Pelo caminho, encontrei alguns guardas em suas posições habituais, com espadas em punho e rostos impassíveis.
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  Segui meu caminho até passar pelas enormes e pesadas portas, avistando o Rei sentado na ponta da longa mesa, com a Rainha à sua direita. Enquanto caminhava até meu lugar, deixei meus dedos percorrerem o tecido fino da toalha de mesa. Flores bordadas com fios de ouro se destacavam no pano branco. Os castiçais e os lindos arranjos de flores complementavam a beleza da mesa em meio aos diversos pratos servidos.
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  Antes de me sentar, fiz uma reverência a ambos e notei que meu pai não estava em seus melhores dias.
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  — Está atrasado, %Elliot%. Um rei precisa ser sempre pontual — resmungou ele, mal olhando para mim.
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  — Peço desculpas pelo atraso, papai. Ficarei mais atento aos meus horários.
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  — Ótimo. Agora, vamos falar sobre o baile.
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  — Se me permite perguntar, qual baile? Não fui informado de nenhum baile.
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  — Não queria que soubesse até o momento certo. Você sempre tem uma desculpa para não participar, mas desta vez, não. Sua presença é essencial no sábado.
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  — Sábado? Mas hoje é quinta-feira.
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  Olhei para minha mãe em busca de alguma explicação, mas ela preferiu encarar seu pedaço de bolo a encontrar meus olhos.
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  Eu até gostava desses bailes, mas estava começando a me cansar deles.
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  O salão de festas era sempre ricamente decorado e iluminado em homenagem aos convidados ilustres. Os homens deviam estar vestidos elegantemente, é claro, mas as mulheres sempre se destacavam com seus belos vestidos que complementavam a ornamentação rica do ambiente. Durante o baile, eu deveria garantir que nenhuma das damas ficasse sentada sem uma dança. Era esperado que eu convidasse aquelas que ainda não haviam dançado. Em geral, todo homem convidado para um baile se levantava para dançar por cortesia básica, mas eu sempre era a "atração principal".
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  Os bailes eram magníficos encontros entre homens e mulheres, eventos coloridos, bem iluminados e repletos de possibilidades para a imaginação. Além de uma forma popular de entretenimento, eram uma oportunidade perfeita para jovens casais se aproximarem. Serviam também para criar conexões e firmar alianças sociais, mas, principalmente, proporcionavam grande diversão a todos os presentes.
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  Mas, como mencionei, eu já estava enjoado desses bailes. Sempre as mesmas músicas, as mesmas danças, as mesmas conversas entediantes, os mesmos trajes extravagantes de algumas damas. Nunca nada novo.
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  Meu pai sempre me instruía: "%Elliot%, sorria sempre, seja gentil com as damas, não fale alto, fale sobre nossa riqueza, não beba muito, planeje novas alianças futuras, elogie as conquistas dos convidados quando mencionadas, seja um bom príncipe."
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  Nos últimos bailes, consegui evitar participar. Alegava fortes dores de cabeça ou fraqueza que não me permitiam ficar de pé, mas parecia que esses truques não funcionariam desta vez, o que fez meu estômago se revirar.
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  — Esse baile será o mais importante, %Elliot%, então não me envergonhe.
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  — Posso saber qual é o motivo de tanto mistério? — perguntei, tentando esconder minha preocupação.
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  — Será nesse baile que você escolherá sua futura rainha. As mais belas princesas e damas estarão presentes.
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  Meu estômago se revirou como se alguém o torcesse com força. Tentei puxar o ar para dentro dos meus pulmões, mas veio em quantidade insuficiente e comecei a me sentir tonto. Sabia que esse dia chegaria, mas achei que demoraria mais, não aos meus 24 anos. Reuni forças de algum lugar desconhecido, forcei um sorriso e olhei para minha mãe e depois para meu pai.
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  — Certo, darei meu melhor. Com licença, estou sem fome esta manhã e vou adiantar minhas obrigações do dia.
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  — Vá. Mais tarde, quero você em minha sala. Tenho a lista de convidados e tenho certeza de que vai gostar.
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  — Claro, estarei lá. — Sorri e me levantei.
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  Fiz uma reverência e vi o sorriso nos lábios do meu pai e da minha mãe. Com esforço, me afastei o mais rápido possível deles, permitindo que as lágrimas se formassem em meus olhos.
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  Caminhei cegamente pelos corredores até me refugiar na biblioteca. Quando as portas se fecharam atrás de mim, meus joelhos cederam e bateram contra o piso polido de madeira, e o soluço que escapou dos meus lábios arrepiou até minha alma condenada. Senti-me pequeno, caído no chão daquela enorme sala, sem saída, sem opções. Queria meu irmão, queria um abraço da minha mãe, queria ter mais um irmão, queria ter outra escolha.
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  Era isso. Esse era meu destino. Enxuguei minhas lágrimas, sorri para mim mesmo, me levantei do chão, respirei fundo e olhei em volta. Todos aqueles livros, todas aquelas histórias que jamais viveria e só conheceria através das páginas. Caminhei para cumprir minhas obrigações do dia como se meu coração não estivesse despedaçado e minha vida não estivesse condenada a ser o marido de uma mulher. No sábado, eu teria um dever a cumprir e o faria com minha melhor roupa, as mais belas joias e meu melhor sorriso.
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(...)

  Meu rosto estava pálido, meus olhos em um verde opaco e sem brilho. Eu estava enjoado de olhar para mim mesmo nesse enorme espelho à minha frente, enquanto as senhoras faziam os últimos ajustes no meu traje real. As joias, a coroa e os sapatos já estavam separados, apenas esperando para serem usados na noite de hoje.
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  Eu não conseguia afastar a sensação de que estava me preparando para desfilar diante da morte. Todo o esforço para me manter focado nas minhas obrigações, todo o sorriso que forcei até agora, evaporaram como a neblina que cobre o mar.
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  Muitos convidados já haviam chegado. O Rei e a Rainha estavam em seus tronos, apreciando a festa. Mesmo do meu quarto, conseguia ouvir a música e o burburinho das vozes que enchiam o grande salão.
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  — Ai! — exclamei quando um alfinete me espetou, trazendo-me de volta à realidade.
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  — Desculpe-me, Vossa Alteza. Perdoe-me — a senhora à minha direita pediu desculpas rapidamente.
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  — Sim, está tudo bem. Já não está bom? — perguntei, já cansado de ficar em pé, sabendo que seria obrigado a dançar por horas e desejando poder sentar por um momento.
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  — Sim, Alteza. Acabamos.
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  — Excelente. Obrigado, ficou magnífico. — Sorri para ambas e as vi saindo do meu quarto.
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  Coloquei o restante dos acessórios separados e deixei meus cachos soltos sobre os ombros. Passei meu perfume de rosas e olhei uma última vez para meu reflexo no grande espelho. Eu estava lindo, apesar de tudo. Gostava de me sentir bonito, e tentei me animar com isso. Talvez esse baile não fosse tão ruim assim. Talvez eu gostasse de alguma dama, talvez eu pudesse ser feliz, talvez fosse uma noite divertida. Sim, eu faria dessa noite algo divertido.
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  Mas como me enganei. Foi a pior noite da minha vida. Já havia perdido a conta de quantas músicas dancei, e não lembrava nem metade dos nomes das damas com quem conversei. Meus pés doíam, minhas bochechas estavam com cãibras de tanto forçar um sorriso, e minha garganta seca de tanto falar, ao ponto de eu acreditar que acordaria rouco no dia seguinte.
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  Ainda faltavam algumas damas para eu me apresentar e convidar para dançar, mas eu precisava desesperadamente de uma pausa, ou corria o risco de desmaiar no meio do salão. Passei pela mesa e peguei uma taça de espumante, sentindo o líquido refrescar minha garganta ressecada. Um pequeno gemido de alívio escapou dos meus lábios.
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  — Olá, Vossa Alteza. — Levei um pequeno susto ao ouvir uma voz fina e enjoativa perto do meu ouvido. Quando me virei, dei de cara com uma princesa que eu não reconhecia.
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  — Olá, senhorita...?
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  — Ah, sim. Sou a Princesa do Reino de Constance Flower, Vossa Alteza. — Ela fez uma breve reverência, e eu a imitei. — Meu nome é Agatha Crower.
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  — Prazer em conhecê-la, Senhorita Crower. — Sorri para ela, que me analisava atentamente.
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  Ela, sem dúvida, era muito bonita com seus cabelos loiros dourados, pele clara como a minha e um sorriso largo. Mesmo assim, tentei educadamente me afastar da jovem princesa.
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  — Talvez mais tarde a senhorita me conceda uma dança?
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  — Claro, mas, na verdade, estou livre agora. — Ela piscou os longos cílios para mim, e eu precisei segurar a vontade de fazer uma careta.
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  — Bom, neste momento pretendo dar uma volta para tomar um pouco de ar fresco. — Despedi-me com uma reverência e comecei a me afastar, mas ela pareceu não ter percebido que eu queria ficar sozinho.
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  — Posso lhe acompanhar, Vossa Alteza. Também preciso de ar fresco — disse ela, caminhando ao meu lado.
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  Eu apenas sorri e tentei fazer com que sua presença não arruinasse meus poucos minutos de paz antes de voltar à cova dos leões.
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  Ao invés de seguir para o jardim, caminhei lentamente pelos corredores vazios do Palácio, respondendo à princesa quando ela me fazia perguntas. Minha taça já estava vazia, o que me deixou triste, pois eu queria mais daquela bebida espumante.
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  — Se me permite perguntar, Vossa Alteza, já escolheu sua futura esposa?
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  — Ainda tenho muitas damas para dançar esta noite, Senhorita Crower, mas acredito que até o final terei alguém em mente.
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  — Quando for tomar sua decisão, lembre-se de mim. — Agatha esfregou as costas de suas mãos nas minhas, que descansavam ao lado do meu corpo, enquanto observávamos uma bela pintura na parede.
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  Puxei minha mão rapidamente, trazendo-a para frente do corpo, evitando olhá-la. Eu podia sentir seus olhos me analisando, como se fosse me atacar. Fiquei com medo e olhei desesperado para o fim do corredor, tentando lembrar onde ele terminava. Eu precisava pensar rápido e sair de perto dela.
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  — Certamente terei muito a considerar, mas agradeço imensamente por sua adorável companhia. — Sorri amigavelmente, mas meu sorriso morreu quando ela parecia uma fera selvagem.
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  Agatha me empurrou contra a parede, fazendo um grunhido escapar dos meus lábios, tanto pelo impacto quanto pelo susto. Minha taça caiu da minha mão e eu a levei até seus ombros, tentando afastá-la. Não sei como, mas ela parecia mais forte do que eu e, num impulso, Agatha juntou seus lábios aos meus.
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  Por um segundo, achei que iria desmaiar. Respirei tão fundo pelo nariz que senti uma forte dor de cabeça. Lágrimas se formaram em meus olhos, e senti náusea quando ela tentou colocar a língua em minha boca. Entrei em completo desespero e, antes que minhas pernas falhassem e eu desmaiasse ou vomitasse, consegui empurrá-la com toda a força que ainda me restava e corri, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
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  Corri cegamente, e não sei como, mas cheguei aos jardins dos fundos. Apoiei-me em uma das árvores e não consegui segurar; meu estômago se embrulhou e, ao lembrar da língua dela, vomitei nas raízes daquela árvore.
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  Meu corpo tremia, tanto pelo ar frio da noite quanto pelo trauma do ocorrido. Limpei minha boca como pude e forcei minhas pernas até a fonte, jogando um pouco de água gelada no rosto e sentindo meu corpo se arrepiar com o contato.
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  Ouvi uma movimentação atrás de mim e pensei que fosse Agatha novamente me perseguindo. Estava pronto para expulsá-la do reino, mas quando me virei para onde vinham os passos, meu corpo congelou.
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  Não era a princesa maníaca. Eram dois homens grandes, com barbas longas e roupas que eu nunca tinha visto pessoalmente, apenas em livros. Um deles tinha um sorriso amarelo e malvado no rosto, enquanto o outro mantinha uma expressão séria, com olhos que transbordavam desprezo e maldade.
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  Com os olhos arregalados e meu corpo em choque, senti minhas pernas vacilarem, e meus joelhos bateram contra a calçada em volta da fonte, enquanto eles se aproximavam. Ao tentar me virar, percebi que havia um terceiro homem, maior ainda. Seus braços estavam cobertos de tatuagens macabras. Seu rosto era forte e cheio de cicatrizes, e só então notei que ele usava um tapa-olho do lado esquerdo.
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  Eu estava fraco e exausto. Não tinha forças para correr, gritar ou fazer qualquer coisa para escapar dos piratas. Senti o gosto salgado das lágrimas em meus lábios enquanto deixava um soluço escapar. Fechei os olhos, implorando por uma morte rápida e indolor. Puxei o ar uma última vez, mas em vez de oxigênio, senti o forte cheiro de álcool, e então minha mente apagou.
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  Um peso em meu corpo fazia até meus ossos doerem, como se eu tivesse sido atropelado por mil guardas reais. Tentei abrir os olhos, mas até minhas pálpebras pareciam pesar toneladas.
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  As lembranças de um pesadelo invadiram minha mente junto com o cheiro de água salgada. Me sentei rapidamente quando a realidade me atingiu, ignorando completamente a dor que sentia.
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  A luz que entrava por uma pequena fresta na janela oferecia uma visão parcial do quarto onde eu estava. Era claro que eu não estava mais no Palácio; nada era familiar. Parecia haver um caos do lado de fora daquele aposento. Eu conseguia ouvir homens cantando músicas que nunca tinha escutado antes, gritos para levantar âncora, e gargalhadas que faziam minha espinha gelar. Não tinha certeza se acontecia uma festa pagã ou uma guerra lá fora, mas pelo balançar que eu sentia, sabia que estava em um navio.
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  A confusão na minha mente tornou-se maior que o caos do lado de fora. Eu não conseguia entender por que haviam me mantido vivo quando podiam ter me matado, roubado ou me usado para atacar o Palácio. Uma movimentação se aproximou da porta. Vi sombras pela fresta e ouvi passos pesados sobre a madeira. As risadas se aproximavam, como se estivessem rindo por terem planejado algo terrível.
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  O som da fechadura girando de um lado para o outro era pior do que as risadas. A porta se abriu repentinamente, com violência. Me encolhi na cama, fechando os olhos, sem coragem de olhar para quem quer que estivesse caminhando até mim.
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  — Olha só quem acordou — um dos piratas debochou com um sorriso mais amarelo que o sol. — Nosso coelhinho assustado. — Gargalhou jogando a cabeça para trás e me olhou por inteiro meticulosamente.
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  Nem que eu tentasse minha voz não sairia pela minha boca, tamanho o medo que dominava meu corpo. Continuei olhando para aqueles dentes que me causavam um certo nojo, e vi quando seu semblante se fechou e uma carranca tomou conta de seu rosto por eu não ter respondido nada a ele.
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  — O gato comeu sua língua, coelhinho? — indagou se aproximando de mim e me puxando pelo tornozelo, me fazendo escorregar pelo colchão.
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  — Por favor, eu posso lhe dar todo o ouro que quiser, mas não me mate — implorei desesperadamente, sentindo o nó se formar em minha garganta.
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  Com os olhos marejados, vi o sorriso do pirata voltar a seus lábios e ele negar com a cabeça, como se minha oferta não fosse nada.
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  — E quem disse que queremos te matar? — Curvou seu tronco ficando mais próximo de mim, deixando seu rosto tão perto que pude sentir meu estômago enjoar com o hálito horrendo que tinha. — Você é um presente. — Sorriu de canto.
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  Um presente? Para quem? Isso não fazia nenhum sentido. Será que meu pai estava em guerra com algum outro reino e eu não sabia?
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  Busquei em seus olhos negros, traços de uma brincadeira de muito mal gosto, mas além da maldade que parecia fazer parte do DNA dele, encontrei apenas a verdade.
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  — Brownt, pare de assustar nosso convidado. — Outra voz surgiu atrás daquele homem, logo aparecendo outro pirata, seu semblante era melhor pelo menos.
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  — Não estou fazendo nada com ele, só o conhecendo melhor — reclamou, rolando seus olhos, aquele que descobri chamar Brownt. — Não é, coelhinho? — Virou seu rosto para mim novamente.
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  — Eu… por que vocês me querem aqui? — tentei mais uma vez, esperando que o pirata bonzinho me respondesse dessa vez.
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  — Porque você é um presente — respondeu a mesma coisa que o outro havia respondido. — Um presente para o nosso capitão.
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  Meu corpo gelou ao ouvir sua resposta, engoli em seco, tentando controlar minha vontade de chorar. Não queria parecer fraco diante deles e não iria mais mostrar o quanto eles me afetavam. Puxei o ar com força e ergui meu queixo, usando minha pose de futuro rei que aprendi com meu pai.
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  — Então eu exijo falar com seu capitão, e tenho certeza de que houve um grande erro de comunicação aqui. — Os encarei e não deixei meu olhar vacilar diante deles.
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  Ambos se entreolharam, demorando uns segundos antes de desviarem os olhares para trás da porta. O mistério que se instalou naqueles segundos pareceu transformar eles em longos minutos. No entanto, os dois voltaram a me encarar. O tal Brownt com um sorriso ainda mais maléfico em seus lábios e o outro soltou um suspiro longo.
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  — O capitão o aguarda para o jantar — me respondeu com a voz séria e podia jurar que continha um pedido de “sinto muito” no tom de voz que usou.
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  — Sinta-se privilegiado, coelhinho — Brownt murmurou rindo baixo. — Ninguém consegue jantar com o capitão %Corvane%.
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  Retornou a rir só que agora mais alto ao se afastar de mim e sair do quarto juntamente com o outro que acabou rindo por último, fechando a porta logo em seguida com a mesma força e violência que tinham aberto.
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  Era isso. Eu jantaria com o Capitão %Corvane% e resolveria toda essa confusão.
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Capítulo 1

Nota das autoras:
Leu? Então conta pra gente o que achou! 👀 ❤️ Cada comentário faz nossas autoras aqui surtarem um pouquinho mais. 😂
— Sereia & bru_ZH


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Lelen

Coitado do Elliot com esse peso de ter que ser quem o mundo precisa que ele seja. MAS VAI MUDAR, NÉ? NÉ. OBRIGADA.
E EU TÔ LOUCA PRA SABER POR QUE ELE VIROU PRESENTE PRO CAPITÃÃÃOOO Como o Elliot entrou no radar do homem, meu Deus? HAHAHAHAH

Sereia

Pobre coitado do Elliot, tadinhoo kkkkk sequestrado, o pai querendo casar com ele com mulher, e agora preso num navio pirata kkkk Massss as coisas vão melhorar sim!!

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