Capítulo 1 • O Refúgio e o Cheiro de Terra Molhada
O som da chuva caindo pesado contra a copa densa das árvores era o único barulho capaz de abafar o eco distante dos tambores de guerra. A água escorria pelas folhas largas e retorcidas da floresta ancestral, caindo em gotas grossas que se misturavam ao solo batido, criando poças de lama escura ao redor das raízes expostas de uma árvore. Ali, exatamente no limite invisível onde a floresta densa do clã Senju encontrava as fronteiras fluviais e sinuosas do território Uzumaki, o mundo parecia ter parado no tempo. Era uma zona neutra, um canto esquecido pelos patrulheiros de ambos os lados, banhado por um silêncio tenso que só a tempestade conseguia quebrar.
%Sora%, aos seus onze anos de idade, estava sentada sobre a madeira úmida e gélida de uma grande raiz. Seus longos e vibrantes cabelos vermelhos — a marca inconfundível do sangue nobre e antigo do clã Uzumaki — estavam completamente encharcados, grudando na testa e na gola da roupa simples de treino. O vento frio da noite fazia sua pele arrepiar, mas ela ignorava o desconforto. Suas mãos pequenas, embora já calejadas pelo manuseio precoce de armas, trabalhavam com uma habilidade impressionante para enrolar uma atadura limpa em torno do próprio antebraço direito.
Não era um ferimento grave, apenas um rasgo raso deixado por uma lâmina cega durante um exercício militar sob a supervisão rigorosa dos anciãos de seu clã. Naquela época, o mundo não dava margem para infâncias longas; cada criança aprendia a moldar chakra antes mesmo de aprender a ler com perfeição. No entanto, a verdadeira dor que pesava no peito da garota não vinha daquele corte. Vinha da fumaça que às vezes podia ver no horizonte, das orações silenciosas das mães ao amanhecer e do medo constante de ver o nome de seus parentes esculpido em pedras funerárias.
Um barulho de passos desajeitados e pesados rompeu a sinfonia monótona da tempestade. Folhas secas e galhos quebraram sob o peso de alguém que caminhava sem qualquer cuidado com a furtividade. %Sora% nem sequer se deu ao trabalho de sacar a
kunai presa à sua cintura. Ela conhecia aquele ritmo vacilante, a assinatura de chakra que, embora jovem, já transbordava uma densidade anormal e quente.
— Você demorou, Hashi — disse ela baixinho, a voz doce cortando o ruído dos pingos de chuva.
Hashirama, carregando a mesma idade, surgiu de entre as sombras dos arbustos altos. Ele não vestia a armadura pesada que os guerreiros adultos ostentavam nas linhas de frente; usava apenas o traje escuro de pano e o protetor de peito simplificado do clã Senju, que agora estava completamente manchado de lama e terra escura. Seu rosto oval estava limpo pelas gotas grossas da chuva, mas seus olhos castanhos transbordavam uma dor devastadora, profunda e totalmente incompatível com uma criança de onze anos.
Ele não disse absolutamente nada ao vê-la. Apenas deu dois passos cambaleantes para a frente, com os joelhos fraquejando, e simplesmente se deixou cair na terra molhada. Ele apoiou a cabeça no colo de %Sora%, escondendo o rosto no tecido áspero da saia dela. Quase instantaneamente, os ombros largos do menino começaram a tremer. Era um choro sufocado, doído, que ele passou o dia inteiro segurando diante do olhar rígido de seu pai e do resto do clã Senju.
%Sora% sentiu o peito se contorcer em uma dor física. Sem fazer perguntas, ela pousou a mão pequena sobre os cabelos castanhos e úmidos dele, acariciando os fios compridos com a paciência e o carinho que ele jamais encontraria no ambiente militar do próprio acampamento.
— O Kawarama... — a voz de Hashirama saiu abafada contra o tecido da roupa dela, rasgada por soluços amargos. — Ele era só meu irmãozinho, %Sora%... Ele não tinha nem idade para segurar uma lâmina direito! Ele estava assustado! E o meu pai... o meu pai disse na frente de todo mundo que ele morreu como um shinobi digno. Como se perder um filho fosse algo natural! Como se o valor de uma criança fosse medido por quantas batalhas ela aguenta antes de ser enterrada na lama!
O choro dele se intensificou, um desabafo rasgado de quem via a moralidade do próprio pai colidir violentamente contra o seu próprio coração sensível. %Sora% continuou acariciando seus cabelos, sentindo o calor da febre emocional que queimava no garoto.
— Eu não aguento mais isso — continuou Hashirama, levantando o rosto banhado por uma mistura de lágrimas e água da chuva. Seus olhos castanhos procuravam os dela desorientadamente. — Eu conversei com um garoto no rio outro dia, no limite da floresta. O nome dele é Madara. Ele é do clã Uchiha, %Sora%... o nosso maior inimigo. Mas quando a gente conversou, ele pensava exatamente como eu! Nós jogamos pedras na água e sonhamos com um lugar onde as crianças não precisassem lutar, onde existisse uma vila protegida, onde ninguém mais precisasse ver os próprios irmãos morrerem... Mas o meu pai descobriu! Ele me usou para tentar emboscar o Madara! O meu mundo tá ruindo, %Sora%. Meus irmãos estão morrendo e o sistema quer me forçar a odiar a única pessoa que entendeu a minha dor!
Hashirama segurou o tecido da roupa de %Sora% com força, os nós dos seus dedos ficando brancos pelo esforço. Ele parecia um naufragado se agarrando à última tábua de salvação em meio a uma tempestade sem fim.
%Sora% não hesitou. Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, ignorando a lama nas bochechas do garoto, e obrigou-o a olhar diretamente para ela. O brilho vermelho e inabalável dos olhos da garota Uzumaki refletia a determinação de um povo que recusava a dobrar os joelhos diante do desespero.
— Escuta aqui, Hashirama — disse ela com uma firmeza que fez o menino prender a respiração. — Esse sonho não é uma loucura. Não importa o que o seu pai diga, não importa o que os anciãos do meu clã ou do clã Uchiha pensem. O mundo lá fora pode estar queimando em ódio e se matando por terra, mas enquanto essa ideia continuar viva dentro de você, a guerra não venceu. Você vai construir essa vila, Hashi. Você vai mudar essas regras idiotas. Eu sei que vai.
Hashirama piscou devagar, a respiração aos poucos desacelerando à medida que o calor das mãos dela parecia dissipar o frio congelante do seu desespero.
— Você... você realmente jura que acredita nisso? — ele sussurrou, a voz falhada, buscando uma âncora para a própria sanidade.
— Eu juro pela minha própria vida — %Sora% respondeu sem piscar, dando um sorriso pequeno e corajoso que iluminou aquele canto sombrio da mata. — E eu vou estar ao seu lado até que essa paz aconteça. Vou ser o seu escudo e a sua voz quando você achar que não tem mais forças. Nem que eu tenha que te arrastar até essa tal vila.
Pela primeira vez naquele dia nefasto, uma fresta do sorriso bobo e sincero de Hashirama surgiu no canto dos seus lábios, quebrando a rigidez de sua dor. Ele fechou os olhos e recostou a testa no ombro dela, agradecendo em silêncio pela existência de %Sora% Uzumaki.
Anos Depois
O barulho da chuva caindo contra o mesmo tronco de árvore secular serviu como uma ponte invisível através do tempo. As gotas batiam na casca grossa com a mesma cadência, mas o mundo ao redor havia se transformado de maneira irreversível.
Sete anos haviam se passado desde aquela noite.
%Sora% agora tinha dezoito anos. A garotinha que tentava estancar os próprios cortes com ataduras simples havia dado lugar a uma mulher de presença marcante e habilidades formidáveis. Suas mãos não tremiam mais. Enquanto aguardava no mesmo ponto de encontro, suas palmas brilhavam com uma aura suave e esverdeada de chakra médico, aplicando um selo sutil no próprio ombro para fechar um desgaste muscular decorrente de horas seguidas de patrulhamento.
As roupas simples de infância haviam sido substituídas pelo traje tático completo do clã Uzumaki: a cota de malha flexível, as proteções reforçadas nos antebraços e coxas, e a espiral vermelha proeminente bordada no tecido que cobria suas costas. Ela era agora uma das kunoichis e especialistas em
Fūinjutsu mais respeitadas de seu clã, uma guerreira cujas cadeias de chakra eram capazes de imobilizar invocações inteiras. Mas, apesar da maturidade e da armadura, seus olhos vermelhos continuavam guardando a mesma chama inquebrável da infância.
O farfalhar da folhagem se fez ouvir novamente. O estalar de galhos secos não trazia mais os passos incertos de uma criança, mas a pisada pesada, calculada e absurdamente densa de um adulto exercendo o topo de sua forma física.
%Sora% ergueu o olhar. O menino franzino da memória havia se tornado um homem de estatura imponente, com ombros largos e uma presença espiritual que fazia o próprio ar ao redor parecer mais denso. A lendária armadura vermelha de placas de ferro do clã Senju que ele ostentava estava coberta de marcas profundas — ranhuras de espadas Uchiha, queimaduras de estilo fogo e crostas espessas de lama e sangue seco. O nome de Hashirama Senju já ressoava como uma lenda temida por todo o continente, o "Deus dos Shinobi" cuja arte do
Mokuton podia remodelar campos de batalha inteiros.
Contudo, para %Sora%, o homem que caminhava a passos lentos até ela não era uma lenda imortal. Era o mesmo rapaz que carregava as cicatrizes de uma guerra infinita na alma.
Hashirama parou a poucos metros de distância. A chuva escorria pela ponta das suas longas mechas de cabelo castanho, caindo sobre o peitoral de ferro. A sua expressão era de uma exaustão monumental, o olhar distante de quem tinha passado as últimas doze horas contemplando a carnificina de mais um vale tingido de vermelho.
— Mais um confronto no Vale das Fronteiras — a voz dele ressoou grave, rouca pelo uso prolongado e pelo grito de comandos no meio do caos. — O Madara e eu... nós nos enfrentamos diretamente hoje, %Sora%. As florestas que eu criei foram queimadas pelo
Katon dele em questão de segundos. Toda vez que nossas lâminas se cruzam, a ideia daquela vila parece uma ilusão infantil de dois garotos que não entendiam a gravidade do mundo.
%Sora% se levantou da raiz da árvore, a postura ereta e graciosa. Ela não disse uma palavra imediata. Caminhou lentamente na direção dele, encurtando a distância até estar a um passo do peito largo coberto pela armadura de placas. Sem se importar com o sangue frio que sujava o metal ou com a lama congelante que cobria os braços dele, %Sora% deu um passo à frente e envolveu a cintura de Hashirama em um abraço apertado e protetor.
Hashirama estancou, surpreso, antes de deixar soltar um longo suspiro que pareceu esvaziar todos os seus pulmões. Ele envolveu os braços fortes ao redor das costas dela, enterrando o rosto na curvatura do pescoço de %Sora%, exalando o ar quente contra a pele dela. O cheiro familiar de terra molhada, misturado ao calor reconfortante e à energia vital sem fim que fluía do chakra Uzumaki dela, agiu como o único bálsamo capaz de desacelerar o ritmo frenético do seu coração e acalmar a mente atormentada do líder Senju.
— Não é uma ilusão — sussurrou %Sora% firme perto do ouvido dele, sentindo as placas de ferro da armadura dele frias contra o seu peito. — O garoto do rio continua bem aí dentro, Hashirama. E você não está sozinho nessa luta. Nunca esteve.
Hashirama afastou o rosto devagar, o suficiente para conseguir encará-la nos olhos. O carinho e a cumplicidade da infância há muito haviam se transformado em algo imensamente mais profundo, mais intenso e urgente. Ele observou os traços maduros do rosto dela, a coragem estampada nos lábios e o brilho dos seus olhos.
— Eu não sei o que restaria de mim se você não estivesse aqui, %Sora% — ele confessou, a voz caindo para um tom íntimo e vulnerável. Ele ergueu a mão grande e calejada, tocando a curva do rosto dela com uma delicadeza quase inacreditável para alguém com tanto poder destrutivo. — Você é a única âncora que me impede de me afundar nesse mar de sangue. Quando tudo ao redor cheira a morte, você é a minha única certeza de vida.
A tempestade finalmente começou a dar trégua, abrandando para uma garoa fina e constante que trazia o perfume fresco das folhas lavadas e do solo fértil. A névoa baixa subia do chão da floresta, cobrindo os pés dos dois enquanto a luz prateada da lua cheia conseguia, enfim, romper a camada de nuvens escuras, iluminando a clareira com um brilho suave e misterioso.
Hashirama mantinha a palma da mão quente encostada na bochecha de %Sora%, os polegares acariciando a pele macia dela. A distância ínfima entre seus corpos estava impregnada de uma tensão silenciosa, acumulada ao longo de anos de encontros furtivos, olhares trocados em reuniões de aliança e o medo constante de que qualquer um daqueles dias pudesse ser o último.
— O meu pai se foi, mas os anciãos do clã continuam pensando apenas em retaliação e domínio — Hashirama voltou a falar, sua voz era um murmuro abafado pela noite. — Eles olham para o clã Uchiha e não conseguem enxergar seres humanos que também choram por seus mortos. Eles só veem alvos. E o Madara... o Madara está se afundando cada vez mais nessa escuridão, cego pela perda dos próprios irmãos. Às vezes, quando o meu
Mokuton emerge da terra e esmaga as linhas inimigas, eu sinto uma dor insuportável no peito. Eu me pergunto se não estou apenas alimentando a mesma roda de ódio que matou o Kawarama.
%Sora% levou sua mão livre até a dele, cobrindo os dedos grandes e calosos de Hashirama. Ela deslizou seus dedos entre os dele, entrelaçando-os com uma força que demonstrava que nada naquele mundo seria capaz de separá-los.
— Eles enxergam a guerra porque nasceram e foram moldados por ela. Eles são incapazes de ver qualquer coisa além das muralhas dos próprios acampamentos — disse %Sora%, encarando-o sem vacilar. — Mas você é diferente, Hashi. O seu
Mokuton não é um jutsu feito simplesmente para a destruição. Ele traz a vida, ele faz árvores gigantescas e florestas inteiras nascerem onde antes só existia terra estéril e cinzas de queimadas. O seu poder é um símbolo de criação. Se você que é a esperança deixar a peteca cair e desistir, aí sim o ciclo de dor venceu para sempre.
Hashirama deixou escapar uma risada curta e soprada, um som rouco que misturava um alívio gigante com a habitual ironia que ele reservava para si mesmo. Ele deu um passo à frente, encostando a própria testa na dela, fechando os olhos para absorver a sensação de paz que a presença de %Sora% emanava. O chakra dela, denso e acolhedor, parecia envolver o dele em uma dança harmoniosa — a vitalidade dos Uzumaki nutrindo as raízes dos Senju.
— Você sempre fala como se fosse a coisa mais fácil do mundo... mesmo quando a terra tá tremendo e o mundo tá caindo aos pedaços ao nosso redor.
— Não é fácil. Nunca foi e nunca vai ser — %Sora% respondeu num sussurro, sentindo a respiração quente e pausada dele roçar seus lábios. — É só a verdade. E eu vou continuar aqui, do seu lado, para te lembrar dessa verdade quantas centenas de vezes forem necessárias.
Quando Hashirama abriu os olhos novamente, a sombra de dúvida e o cansaço esmagador haviam sido completamente varridos de sua feição. No lugar, queimava uma determinação feroz e apaixonada. Ele não recuou um milímetro. Em vez disso, segurou a cintura dela com mais firmeza e encurtou a fresta de espaço que restava entre eles, selando seus lábios nos de %Sora% em um beijo profundo, lento e carregado com todo o peso dos anos de espera.
Não houve qualquer hesitação. O toque de suas bocas trouxe a confirmação definitiva de que a ligação entre eles há muito tempo tinha deixado de ser apenas a cumplicidade de dois garotos que brincavam nas margens de um rio. Era um amor moldado na dor, temperado pelo aço das batalhas e fortalecido por um propósito inabalável. O beijo era uma promessa viva de resistência contra a barbárie do mundo shinobi.
Quando se separaram lentamente, buscando o ar, a respiração de ambos estava descompassada. Hashirama mantinha os braços ao redor dela, recusando-se a soltá-la, como se temesse que %Sora% pudesse se dissipar feito fumaça na névoa da floresta.
— Naquela vila... — Hashirama começou a dizer, a voz grave e embargada por uma emoção genuína, enquanto seus olhos brilhavam sob a luz da lua. — Quando nós finalmente fizermos aquela trégua e a paz se tornar realidade... eu não quero que você esteja lá apenas como uma guerreira ou uma aliada do clã Uzumaki. Eu quero você ao meu lado diante de todos. Quero que você seja a minha esposa, %Sora%.
%Sora% sentiu o coração dar um salto violento contra as costelas, um calor intenso subindo por seu rosto em meio ao ar gelado da madrugada. Um sorriso radiante e verdadeiro — o mesmo sorriso confiante que tinha sido a luz do Senju desde a infância — se abriu em seus lábios. Ela ergueu a mão e deu um tapa brincalhão na placa de ferro da armadura do peito dele, antes de puxá-lo pelo colarinho de pano para mais um beijo rápido e estalado.
— Trate de não ser atingido por nenhuma flecha Uchiha e sobreviva às próximas batalhas primeiro, seu garoto do rio — provocou ela com os olhos brilhando de carinho. — Depois que a vila estiver de pé, eu penso no seu pedido de casamento.
Hashirama jogou a cabeça para trás e soltou aquela sua risada alta, aberta e contagiante — a gargalhada expansiva que a guerra tinha tentado calar, mas que %Sora% sempre conseguia resgatar. Naquele momento, sob a copa da árvore secular e o céu prateado, eles sabiam que, não importava o quão sangrento fosse o amanhã, o futuro deles já estava entrelaçado.
Nota da Autora: Olá, gente, é um prazer estar nesse mundo de fanfics de animes novamente. Essa história tem estado na minha cabeça há ANOS e finalmente consegui desenvolver, espero que vocês gostem de ler da mesma forma que eu estou amando escrever. Deixem um comentário para eu saber o que estão achando, beijooos!