Fear


Escrita porSoldada
Revisada por Lelen


Prólogo

TWs: a cena a seguir possuí menções de ABUSO FÍSICO, e PSICOLÓGICO além de VIOLÊNCIA GRÁFICA, pule para o próximo capítulo caso sinta-se desconfortável.

SOLDADO INVERNAL

  Um emaranhado de cachos vermelhos escuros se espalhava por ombros franzinos quase raquíticos. Ossos pontudos projetavam-se pela pele pálida machucada. Acobertavam o rosto, agora, quase esquelético, permeado por marcas arroxeadas, formas de dedos marcavam sua mandíbula, com força o suficiente que havia afundado o osso para dentro, travando não apenas a mandíbula, mas sua boca. Não ocultava, todavia, os olhos %prateados%, aterrorizados.
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  Acompanhado pelo ritmo irregular das gotas que se projetavam de infiltrações abaixo do concreto queimado das celas, o ruído alto e áspero do metal riscando o chão ao ser arrastado foi o suficiente para fazer com que ele sentisse o impulso de encolher-se. Despontou brusco, como uma adaga atravessando-lhe os ouvidos, revirando-se para o melhor desapontamento e raspagem do órgão; pulsando, real e bruto, pelo restante do silêncio que envolvia o corredor vazio. Os olhos azuis esverdeados do homem desviaram-se do semblante maltratado e abusado da criatura pequena que se encolhia à sua frente, e por uma fração de segundos, voltou-se para a entrada do corredor. Parou ali, por um momento, apenas ouvindo. Passos pesados das botas dos soldados ecoavam a distância deslocando-se para as outras celas que aguardavam verificação; a movimentação agitada entre solas feitas de madeira espalhava-se com um zumbido de cientistas atrapalhados, braços repletos de papeis tentando escapar dali, mas sem obter quaisquer sucessos possíveis. Cliques mecânicos espalhavam-se pelo espaço da cela, câmeras erguiam-se de onde estavam cuidadosamente acopladas nas paredes, ocultadas da visão imediata, registrando quaisquer mínimos movimentos feitos. Sentiu o pescoço rígido, a sensação desconfortável do músculo tensionado pareceu aumentar gradativamente ao voltar seu rosto outra vez para a criatura acovardada contra a parede suja de sangue seco. Marcas agressivas tingiam o cimento queimado, formando padrões abstratos, mas que não ocultavam o formato de seus dedos, de suas tentativas de escapar daquela cela. Algo pareceu obscurecer-se em seus olhos, uma expressão impossível de ser lida ao analisar os padrões, e então repousar nos braços da criatura. A tinta fresca imprimia uma nova numeração na lateral do antebraço, evidenciava uma transferência de setor, que encobria o número deixado para trás pelo campo de concentração no interior de seu pulso.
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  A mordaça em formato de máscara que envolvia seu rosto pareceu fincar-se um pouco mais contra a pele e os ossos de seu rosto ao inclinar a cabeça para frente. Os olhos azuis esverdeados acompanharam o movimento atentamente, sem piscar, quase vidrados. Não foi o terror em seu rosto machucado que agitou a estranha composição de estilhaços que parecia jazer em seu peito; foi como ela encolheu-se. Mas ele apenas continuou encarando-a. Ao fundo de sua mente fragmentada, houve uma estranha sensação de reconhecimento, porventura, efêmera e incerta, mas não menos real. Talvez fosse a maneira com que os olhos %prateados% cintilavam, ariscos e incertos, ou talvez fosse a marca de uma mão pressionada o suficiente contra sua pele que havia afundado parte de seu ombro que o fez parar, mas algo ali estava perturbadoramente errado.
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  Deu um passo na direção dela, a sola emborrachada do coturno estalou abaixo de si com a pressão de seu peso contra o assoalho de cimento queimado; ruído baixo, desconfortável, tão artificial quanto as paredes que compunham sua jaula especial. Reverberou potente, afiado pelo silencio sepulcral que os envolviam, a fez encolher-se por instinto. Um murmúrio inteligível escapou por seus lábios duramente cerrados devido à quebra da mandíbula, mas ecoou por seus ouvidos como um pequeno fungado — um choro discreto, sequer percebido, uma súplica por misericórdia que nunca seria atendida. Isso o fez inclinar a cabeça para o lado, curioso com a criatura à sua frente. Havia algo de terrivelmente familiar naquela criatura miserável, algo que parecia reverberar por seu peito como pequenas ondas de choque ao atirar-se uma pedra em um lago estático; a memória muscular era instintiva, percebeu-se inclinando-se em sua direção, tentando alcançá-la de alguma forma, tentando ignorar o instinto protetor que parecia ter despertado nos fragmentos abandonados em seu peito. Suas ordens eram expressas, nítidas e inquestionáveis. Mas os olhos azuis esverdeados dele não conseguiam obrigar-se a desviar do semblante dela.
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  Sob o toque da luz pálida, os ferimentos pareciam perigosamente piores. A tonalidade arroxeada era profunda, quase preta, com a exceção de pequenas marcas vermelhas profundas de onde o sangue havia coagulado, pequenas protuberâncias formavam-se ao redor de sua mão, evidenciando uma regeneração má formativa em sua mão direita; os ossos quebrados deveriam ter se curado da forma errada, era visível a dor pelos espasmos que o membro fazia. Os músculos que pareciam visíveis sob sua pele, quase translúcida agora, tensionaram-se com o movimento, por mero instinto; abruptos, selvagens. Algo nos olhos %prateados% parecia alertar a falta de sua racionalidade. O fez pausar outra vez, questionando-se o que aquela criatura era, e o que diabos poderiam ter feito. Foi quando uma onda pungente e potente de dor percorreu pela espinha dele. Espalhou-se com a precisão de um disparo, rápida demais para preparo, deliberada demais para que ele pudesse ignorá-la. Disparou por sua coluna e então acertou seu cérebro com violência; um disparo elétrico. O choque pulsou por seu cérebro de forma agonizante, obstruindo sua visão, fazendo tudo ao seu redor desvanecer em uma névoa escura desorientadora.
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  Por um longo momento, houvera apenas dor.
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  Uma advertência silenciosa de seus superiores, uma reprimenda severa por sua hesitação e o desvio de sua missão imediata. Amorteceu seu corpo, tornou-o estranhamente rígido, os músculos espasmódicos tensionando-se e relaxando, congelando-o no lugar. Seu ouvido esquerdo pareceu emudecer, um zumbido crescente espalhando-se pela lateral de seu rosto enquanto os olhos desnorteados corriam pela jaula sem conseguir focar em nenhum ponto específico. Dor, lancinante e pungente espalhou-se por todo seu corpo, tão profunda que fizera seu estômago revirar, o gosto amargo da bile retornou à sua língua, e por uma fração de segundos, sua garganta se contraiu na ameaça de vomitar; mas o Soldado não havia comido nada naquela manhã. Nem abrir sua boca poderia fazer, a mordaça que envolvia a parte de baixo de seu rosto, ocultando o queixo, lábios e nariz de olhares alheios, o impedia sequer de respirar corretamente, as laterais fincando-se em sua pele, marcando-a com severidade, cortando superficialmente.
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  Obrigou-se a engolir em seco, sua respiração, pesada e irregular, escapou ruidosa pelo filtro da mordaça, até que ele focasse outra vez sua visão no rosto da criatura acovardada no canto da jaula. Os olhos azuis esverdeados dilataram-se por uma fração de segundos, registrando as íris prateadas arregaladas antes de voltar a contrair-se, o semblante, desprovido de quaisquer emoções, atentou-se ao prático em questão. Músculos atrofiados, magreza exacerbada, tensionavam-se por baixo da pele delicada e frágil da jovem, as mãos espasmódicas se contorciam em um reflexo impossível, tentando agarrar-se às paredes, os dedos fincavam-se contra a superfície com tamanha força que deixava para trás marcas de sangue de onde as unhas rompiam-se. Veias projetavam-se evidenciando a desidratação. Os lábios ressecados exibiam ferimentos discretos, o sangue não mais escorria, mas pareciam infeccionados. Ele deu mais um passo na direção dela, então mais um, até agarrá-la pelo braço. Seus dedos fincaram-se na pele delicada com mais força do que o necessário, mas algo pareceu cintilar por trás do silêncio que pairava em seus olhos.
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  Por uma breve e efêmera fração de segundos, o Soldado hesitou, encarando-a com piedade. Algo humano e intrínseco pulsou pelas íris azuis esverdeadas, transformando seu rosto de uma máscara fria para uma súplica — se por ajuda ou perdão, pouco poderia saber o que se passara. Mas então, tão rápido quanto viera, desapareceu, como uma névoa em plena matina. Uma lufada de ar escapou de onde sua mordaça constringia seu rosto, e então, de supetão, com mais força do que o necessário, ele a forçou a ficar de pé. Ela tentou gritar, debatendo-se contra ele, tentando empurrar seu toque para longe, mas o Soldado atentou-se apenas às ordens que havia recebido. Os ossos frágeis pareceram protestar abaixo de seu toque de ferro, e ele sentiu quando as pernas dela fraquejaram, quando o peso pareceu ser maior do que as forças que ainda lhe restavam e a criatura miserável envergou-se para frente, desabando com um eco molhado pelo corredor silencioso.
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  O Soldado não parou. Seguindo ordens, apenas a arrastou em direção a grande área reservada especificamente para o descarte de criaturas como ela. Podia ouvi-la chorar, baixinho, lágrimas grossas escorrendo pela pele manchada, os olhos fechados, aterrorizada. Sabia que aquela imagem estaria gravada em sua mente por um bom tempo, mas não poderia dizer ao certo por que a visão de seu sofrimento o incomodava tanto assim. Ela era apenas um subjeto. Um subjeto falho, e agora, seria descartada. Essas foram ordens diretas dos responsáveis pelo projeto. Depois daquela noite, as demais celas seriam esvaziadas, os corpos seriam queimados e descartados, parte iria para o forno, onde de lá sairiam como cinzas mais simples de serem descartadas, outros seriam enviados para poços abaixo do solo, onde camadas de concreto impediriam que fossem localizados outra vez. Os arquivos e vídeos das pesquisas seriam eliminados, destruídos permanentemente — incluindo cientistas que estiveram envolvidos no projeto. A falha era uma marca amarga para o Comando, e recaía sobre os ombros do Soldado o trabalho de limpar o desastre que haviam causado.
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  Mas ainda assim, não pesou menos do que um montante de titanium sobre sua mente a visão da criatura debatendo-se, implorando para que ele parasse. A mandíbula quebrada a impedia de falar, deveria tê-la silenciado, mas ela ainda estava tentando. Escapava de maneira esquisita, um gorgolejo sem fôlego, mais grito desesperado do que pedido permeado por desalento, mas não eram menos verdadeiros: “por favor, não!” repetia, desolada. Mesmo através de uma mandíbula que deveria tê-la silenciado, mesmo através da dor que deveria tê-la imobilizado e destruído quaisquer resquícios de sua própria alma. Ela deveria ser, agora, nada mais do que apenas um fragmento, um receptáculo vazio, mas ainda assim, ainda assim, parecia estar determinada a lutar por uma última vez. Então o Soldado a ouviu implorar, os ecos em russo de sua voz reverberavam pelos corredores como uma acusação incriminatória, de alguma forma, haviam conseguido atravessar a armadura de ferro que revestia sua mente e algo dentro os fragmentos de seu peito se agitou com o peso insuportável de algo o puxando para baixo. Culpa, percebeu, mas pelo quê? Sequer lembrava-se de quem ela havia sido, como poderia sentir-se culpado por algo…?
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  Movida pela própria urgência de seu desalento, a criatura debateu-se, usando os resquícios de sua própria força para forçar uma resistência que sequer poderia salvá-la. O crack sonoro revirou o estômago do Soldado que arregalou os olhos ao vê-la quebrar, propositalmente, o próprio braço. Não gritou, ensandecida pela dor, como ele havia esperado, pelo contrário, movida pelo puro instinto e o desespero por sua própria sobrevivência, o Soldado assistiu-a disparar pelo corredor. Passos cambaleantes, desesperados, solas descalças de seus pés chocando-se contra o chão com um barulho molhado, desastroso, deixando para trás as marcas de seus pés, imprimidas contra a alvura do piso, em um vermelho profundo de seu próprio sangue. Por uma fração de segundos, uma onda gélida de medo espalhou-se pelas veias do Soldado que congelou no lugar, os olhos arregalaram-se, movendo-se para acompanhar a disparada dela. Cabelos %escarlates% chicoteavam o espaço atrás de si, o corpo raquítico chocava-se violentamente contra as paredes, e algo estranho a acompanhava como um fantasma.
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  Uma pulsação. A princípio, meramente um pequeno espasmo, quase imperceptível, mas então, pareceu crescer, até que a figura dela se tornasse um borrão. Pulsava de duas em duas vezes, com espaçamentos que se assemelhavam com um coração. Antes que ela conseguisse alcançar a porta dupla para fora do corredor, os olhos %prateados% dela voltaram-se em sua direção e prenderam-se com os seus. Por uma fração de segundos, o Soldado a reconheceu.
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  Um rosto gentil em meio a lama fria, escorada contra o front austríaco. Um amontoado de cabelos %escarlates% flutuando sob a superfície do lago congelado, agarrando a frente de seu uniforme, tentando mantê-lo sob a superfície. O cheiro de pólvora queimada e algo floral, dela. Olhos %prateados% cintilando com uma mistura de medo e firmeza que o fizera ter certeza que poderia confiar nela. Que ela não o deixaria para trás, que os dois poderiam sobreviver ao inferno… mas então os segundos passaram, e antes que pudesse impedir-se ou sequer questionar a motivação por tal atitude, o Soldado puxou a arma que repousava presa em suas costas. Agarrou-a com força, empunhando a arma pesada, mantendo-a na mira. Os olhos %prateados% arregalaram-se ainda mais ao perceber o que aconteceria, o Soldado viu os lábios feridos e ressecados se partirem com uma força que só poderia ser descrita como dolorosa ao passo que sua garganta se contraiu com um grito que nunca escapou.
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  O disparo a atingiu primeiro do que seu grito. O repuxo da arma foi amortecido pelo ombro normal do Soldado, que estabilizou o peso do objeto com o seu biônico, estalidos responsivos ecoaram por seus ouvidos quando ele abaixou o braço, inspirando pesado ao vê-la desabar no chão, inerte. Seu coração martelou contra sua caixa torácica, a estranha percepção nauseante de que ele havia acabado de cometer um erro cruel e irreversível. Por um longo momento apenas conseguiu encarar o corpo da criatura. Projetava-se desengonçado para frente, no chão, uma mancha grotesca de sangue começava a formar uma poça espalhando-se pelos entremeios e vincos dos pisos, mas ela não se moveu. Os olhos %prateados% pareceram vidrados, fixos em um ponto para além de sua compreensão; os lábios entreabertos foram tomados pelo sangue que escorria pela lateral de seu rosto, as mãos espasmódicas agora estavam imóveis, e bem ao centro de sua testa, um buraco profundo de onde a bala havia atravessado. O gosto de sangue pareceu permear por sua língua, o cheiro profuso e nauseante o invadindo tal qual um golpe por suas narinas, queimando-as enquanto a adrenalina enviava um estranho tremor por seu corpo.
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  Ele não poderia dizer exatamente o porquê, mas podia sentir que havia algo errado. Profundamente errado. Tentou recordar-se por que tal reação ao disparo lhe causaria tamanho desconforto, mas sua mente estava vazia, completamente em branco. Seus olhos azuis esverdeados dispararam ao redor, como se buscasse por alguma coisa que pudesse servir de ajuda. Não havia desespero, havia uma nota de frustração; ele sabia quais eram suas ordens, era projetado para compelir e executá-las com perfeição, mas algo dentro do emaranhado estranho de nós e fragmentos, algo que parecia enterrado para além de sua própria percepção, pareceu partir-se ainda mais. O Soldado não era ninguém; não possuía alma, sequer desejos, era o que era, uma ferramenta de seus superiores e não deveria desejar nada. O lembrete de suas transgressões eram os pequenos choques de advertência que recebia, choques estes que tendiam a amortecer e afugentar as névoas de seus próprios questionamentos e incertezas para que apenas o foco de executar suas ordens permanecesse. Mas encarando-a ali, tão pequena, frágil e quebrada, algo pareceu sufocá-lo.
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  Espalhou-se de dentro para fora em seu peito, como vinhas permeadas por espinhos, enredando-se por seu corpo, fincando-se por sua pele e dilacerando até que apenas carne e sangue estivessem expostos. Sentiu o peso que se projetava em seus ombros triplicar, e por um longo momento, sequer tivera certeza que poderia se mover. Sua própria pulsação martelava, selvagem e errática, por seus ouvidos, amortecendo e abafando a voz de seus superiores. Obrigando-se a se mover, o Soldado caminhou, um passo à frente do outro, em direção a pobre criatura abatida. De sangue desfazia-se, tão pequena e raquítica parecia impossível que ainda tivesse tanto para ser desperdiçado, e todavia, ali estava ela. Uma dor desconhecida pesou ao centro de seu peito, e o Soldado quase ofegou. Não esperava encontrar algo assim, não com uma missão para finalizar. Mas então, mais uma vez, o momento passou.
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  Um estalo escapou de seu braço biônico quando ele voltou a arma para as costas, agachando-se apenas para agarrá-la pelos cabelos e então arrastá-la caminho de volta, em direção ao poço que se abria dentro da sala de descarte.
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  O cheiro pungente de cobre e ferrugem espalhava-se como um peso pelo ar, o aroma misturava-se com a desgostosa fumaça e carne queimada. Outros soldados ficaram imóveis quando o Soldado Invernal atravessou a sala em direção ao buraco ao centro do lugar. Olhos prenderam-se em seu rosto com temeridade, acompanhando cada mínimo gesto, cada neutralidade de sua expressão gélida, tentando decodificar suas próprias ações. Alguns até mesmo pararam seus trabalhos para assistir a cena perturbadora. O Soldado arrastando pelos cabelos %escarlates% a figura inerte do que havia sido um dos espécimes mais problemáticos que já havia lidado ali. Ninguém ousou dizer nada, sequer expelir uma palavra.
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  Abaixo do buraco que se abria no chão, uma remessa de corpos descartados aguardava-os. Pelo menos cinquenta e sete fora casualidades, alguns desmembrados, amontoados em uma gosma avermelhada que poderia ser descrita apenas como carne triturada, outros intactos, mas igualmente inertes. Poucos pareciam ainda conscientes, implorando por misericórdia, mas não iria demorar muito para que a morte os alcançassem. Por um longo momento, o Soldado apenas encarou o fundo daquele poço sem expressão alguma. A imagem que tinha do fundo era o de um pesadelo vivo, difícil de compreender, sequer decodificar o que havia sido um corpo ali, e o que não era senão apenas carne e ossos desmembrados, mas então o comando ecoou pelo comunicador preso em sua orelha direita, e o Soldado agiu. Com um movimento rápido e preciso, econômico, ele arremessou a criatura para dentro do poço, observando-a cair, quase em câmera lenta, destacando-se como um dedão podre entre a massa de sangue e ossos. O baque molhado ecoou pelo espaço de forma nauseante, mas eram seus olhos que o perturbavam.
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  Vidrados, inertes, mas estranhamente vivos.
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  Fechou os olhos, tentando eliminar a imagem de sua mente, sem obter sucesso algum. Uma descarga elétrica, violenta e dolorosa percorreu sua coluna, acertando de supetão seu cérebro que pareceu queimar. O arfar que escapou por seus lábios silenciados pela mordaça metálica de sua máscara tornou-se uma vibração potente por seu corpo. O tremor espalhou-se como uma avalanche encobrindo seus sentidos por um momento, e a sensação claustrofóbica de estar sendo amordaçado pela máscara, quase o fez tentar arrancá-la. Outro disparo elétrico percorreu seu corpo, e ele não teve outra escolha senão aceitá-la. Os olhos azuis esverdeados focaram-se uma última vez no corpo da criatura, antes de virar-se para os soldados em silêncio, observando-os temerosos.
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  — Queimem — ordenou, baixo, controlado e frio como o inverno que envolvia aquelas terras. Não havia espaço para negociações, não havia outra alternativa senão a obediência imediata. Mesmo que estivesse dizendo isso para si mesmo.
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  Os outros soldados agitaram-se em seus uniformes esverdeados escuros, com o símbolo da caveira com tentáculos impresso nos ombros e em seus próprios cintos, discretos demais para serem perceptíveis, uma lembrança vívida, todavia, para que não fossem esquecidas. O Soldado marchou em direção a porta, pronto para repassar o relatório, a mão biônica pairou pela maçaneta quando algo aconteceu. Sua mão feita de carne tremeu. Não um tremor vindo de seu próprio corpo, mas involuntário, como uma pulsação de um coração. Um, dois, um, dois, um, dois… gritos assustados ecoaram pelo espaço inteiro enquanto os soldados o chamavam, comandando sua presença de volta para verificar alguma coisa dentro do poço, mas os olhos azuis esverdeados do Soldado estavam fixos em outra coisa.
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  Gotas de sangue pairavam pelo ar, girando como flocos de neve, pulsando com o mesmo padrão que tomara conta de sua mão humana. Formavam pequenas pontas afiadas no dois, antes de espiralar, maleável e com vida própria, no um. Os olhos do Soldado se arregalaram, analisando de onde aquele fenômeno esquecido partia, apenas para perceber que vinha da trilha de sangue que a criatura havia deixado para trás. Imediatamente, agindo por impulso, puxou sua arma de volta, pronto para empunhá-la ao voltar-se na direção do poço que a havia jogado. Mas já era tarde demais.
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  Quando a criatura se projetou para fora do poço, coberta por sangue, os olhos, outrora %prateados%, se encontraram com os dele, vivos, aterrorizantes. As órbitas estavam completamente pretas, como se pinche tivesse se espalhado pelo tecido interno, e as íris, outrora prateadas, agora tornavam-se vermelhas como o sangue que a cobria. Sangue este que não lhe pertencia. Alguns soldados, aterrorizados, dispararam na direção da criatura que se arrastou para fora do poço, desabando no chão com um baque molhado nojento. Os disparos alvejaram-na com precisão. Deveriam tê-la matado, e por um longo momento, pareceu que o havia feito, mas o Soldado não acreditava na segurança do silêncio o suficiente para ter certeza de que haviam apenas arranhado a superfície; não demorou muito para que a criatura voltasse a vida, um ofego desesperado por ar, antes de um grito furioso, uma mistura profunda de ódio e dor que percorreu pela pele do Soldado como correntes elétricas gélidas. Ele travou a mira, mas desta vez, não conseguiu mover-se. Tudo pareceu ficar estático enquanto uma mancha de sangue, pulsando em ritmo com ela, se ergueu ao seu redor, espiralou pelo ar como flocos de neve, e enroscou-se nos primeiros homens mais próximos. Gritos contidos escaparam de suas gargantas antes de algo parecer clicar ao redor da criatura. Os soldados tocados pelo sangue que pairava no ar se silenciaram, apenas encarando-se com olhos vidrados, a mancha de sangue aumentando ao tocar-lhes a pele, até que seus olhos estivessem completamente vermelhos.
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  Então, de dentro para fora, um por um dos soldados explodiu.
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