Fear


Escrita porSoldada
Revisada por Lelen


PARTE UM • CREATURE

Capítulo 1

“(...) Nunca vi criatura mais interessante; os olhos têm geralmente uma expressão de selvageria, e até loucura, mas há momentos em que, se alguém tem um ato de bondade para com ele ou lhe oferece um serviço insignificante toda sua fisionomia se ilumina com um raio de benevolência e doçura que nunca vi igual. Mas no geral é melancólico e desesperado; e às vezes range os dentes como se impaciente pelo senso dos infortúnios que o oprimem”.
  — SHELLEY, M. Frankenstein ou o Prometeu Moderno.

  • ARQUIVO 107 • 1948.

  RELATÓRIO FINAL, KRASNYY KUKLA¹, 6.023: (...) nós não tivemos escolha (pausa longa) quando Schmidt decidiu que a melhor linha de ação era o assassinato de Erskine, tivemos certeza de que caminho estaríamos fadados a seguir (pausa longa, seguida de exalo) não havia outra maneira. Com a eliminação do criador, tínhamos um subjeto limitado, só havia um espécime com a fórmula correta, e, é claro, eles não iriam hesitar em protegê-la, nós sabíamos que isso não iria acabar bem (pausa longa). Não tinha como chegar até ele. Com Erskine morto, perdemos a fórmula finalizada, mas a fórmula original ainda estava em mãos de Schmidt, então, focamos nisso (pausa). Nós enviamos Howlett para os fronts, um agente infiltrado, queríamos que ele ficasse de olho no espécime americano, e quando a oportunidade surgisse, ele deveria trazer-nos uma amostra do sangue, nós iríamos analisá-lo e iríamos descobrir o componente-chave que permitiu o sucesso (pausa longa seguida de exalo) não precisamos da amostra. Encontramos a resposta em Majdanek².
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  Havia acabado de chegar uma nova leva de prisioneiros. Os soldados, todos eles, variavam entre 39 anos a 15 anos. Soviéticos, capturados no front Austríaco. Homens e mulheres de Pavlichenko³ (pausa longa seguida de exalo) lembro-me deles, é claro que me lembro. Estive no processo seletivo, antes da guerra estourar, havia pelo menos três remessas por sala de aula de potenciais soldados, mas dois se destacavam. Tão novos, não deveriam ter sequer chegado à maioridade quando foram enviados para o front. Snipers excelentes de ação, estavam lá, quando enviamos nosso esquadrão de operações (pausa) era sangue [CORTE]
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  (Exalo longo, seguido de pausa) a chave para estabilizar os componentes que compunham o soro SuperSoldado encontravam-se no sangue de um dos prisioneiros. (Pausa longa) nunca vi algo assim [CORTE] (Tosse) não era nada que já tivéssemos visto antes. Sempre soubemos que essas… coisas poderiam ser criadas. Nós já havíamos tentado anteriormente, mas eram (pausa longa) frágeis demais, não sobreviviam ao segundo teste, e quando muito, tornavam-se apenas cascas. Essas… coisas agiam como humanos, pareciam humanos, mas não eram, podíamos sentir, pairava no ar como veneno, nos infectava. (Pausa longa seguida de exalo) a equipe Delta encontrou três, e a Beta dois, nós não sabíamos qual deles poderia ser a criatura em questão, então trouxemos todos. Nunca tivemos interesse nos experimentos de Zola, mas antes que pudéssemos saber que havia mais prisioneiros sendo testados, os americanos invadiram, tudo tornou-se um caos [CORTE]
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  (Tosse seguido de inspiro) era uma coisinha ridícula o espécime. Patético e jovem. Sabia seu nome, havia conhecido seu pai, o treinador, sequer contava que fosse digna de atenção. Mas o que podíamos fazer (pausa longa) nós deveríamos ter esperado que seria um desastre. Deus sabe que eu tentei avisá-los! Mas ninguém estava ouvindo. Ninguém se importava. Progresso e ordem, uma resposta comunista para os malditos capitalistas do ocidente (pausa) Dois subjetos morreram na noite que chegaram a base. Estávamos na Sibéria, localização confidencial, mas qualquer idiota sabia que era Minsk. No meio do nada, coberto por árvores e gelo. Era a porra de um sacrifício. As noites pareciam longas demais, os dias, não eram suficientes. Vi homens bons morrerem enquanto dormiam durante a vigília noturna. Mas nós precisávamos do gelo. Era isso que mantinha a criatura sob controle (pausa longa). Não foi o frio que matou os subjetos, foi aquela… coisa (pausa longa).
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  Começou pequeno, 10 dos nossos, dois subjetos, 12 ao total. Essa foi só a primeira noite (tosse seguida de pigarro) a segunda, foram 32. A terceira 65. A quarta foram 298 baixas (pausa longa) comandei que nossas melhores armas fossem enviadas para conter aquele monstro, mas era impossível matar. Dois soldados, na época de outros projetos, haviam conseguido matar a coisa, eles cortaram, pedaço por pedaço, e espalharam pela sala. Levaríamos para lugares opostos, na época, havia um certo interesse em encontrar aquelas criaturas vivas. Nós não podíamos deixar que eles soubessem que tínhamos um dos seus. Haveria respostas, questionamentos, estávamos protegidos, a maioria infiltrada no governo americano, o restante espalhado no mundo, infestando-o como veneno. (Pausa longa) O corpo remendou-se sozinho.
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  O sangue pulsava no ar, girava como flocos de neve, mas não se movia. Tinha esse… (pausa) esse padrão esquisito, como se estivesse vivo. Era como assistir à atração de dois ímãs, como se aquele… aquela coisa reconhecesse a si mesma (pausa longa) se montou sozinho (pausa longa) em toda minha vida eu (pausa longa seguido de exalo) que Deus nos perdoe pelo que fizemos aquele dia [CORTE] (barulho de respiração pesada seguido por pausa) Sem a morte, restou-nos a única solução viável para lidar com aquela coisa (pausa) nós destruímos sua mente. Pedaço por pedaço, fragmentamos o consciente, moldamos o inconsciente para que respostas instintivas seguissem nossos comandos, instalamos programações, palavras-chaves para que a mente agora fragmentada pudesse compreender apenas o comando, funcionou, durante um tempo (pausa longa seguida de exalo) nós só não esperávamos que a quebra de sua mente criaria o monstro.
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  (Pausa longa seguida de pigarro) com o projeto Soldado Invernal, e a instabilidade do primeiro subjeto, tivemos que construir uma ala abaixo do subsolo dos laboratórios onde as câmaras de criogenia encontravam-se. Nós prendemos o primeiro subjeto do projeto Soldado Invernal na primeira câmara de criogenia, e os subsequentes em uma sala posterior a dele. As câmaras consomem bastante energia, dentro do gelo, o corpo atrofia, e a passagem de tempo pode causar danos irreversíveis, então esporadicamente os espécimes do projeto eram realocados, reintroduzidos como soldados dormentes na sociedade (pausa longa) eles sequer saberiam quem de fato eram, até que fossem acionados. Nós desconfiávamos que havia agentes infiltrados nas bases, sabíamos que em algum momento, não demorariam para se virarem contra nós (pausa longa) a única base que não esvaziamos foi a da Sibéria. (Pausa longa) Não havia escolha, não podíamos nos dar ao luxo de desligar aquela base, porque (pausa longa) nós prendemos a criatura ali [CORTE]
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  (Tosse seguida de pigarro) Nós (tosse) nós (tosses) [CORTE] (barulho alto de respiração) não tenho muito mais tempo. Como procedimento padrão, nós éramos envenenados todos os dias, e ao final de cada dia o antídoto era oferecido, era uma maneira de conter o que era feito naqueles laboratórios, dentro do laboratório, agora que tudo está acabado (tosse) receio que meu sistema não tenha se adaptado a quantidade ingerida. Sei que estou morrendo, mas admito que o faço com egoísmo (tosse seguida por pausa longa) não quero estar em um mundo onde essa verdade venha à tona. Não quero viver em um mundo onde essa criatura esteja viva (pausa) porque ela estará. [CORTE] (chiado alto) preciso que (chiado alto) não a liberte! (tosse) [CORTE] (respiração pesada, sons de engasgo) sei que pode (tosse seguido de pausa) não pode soltar (tosse seguido por chiado) não pode controlar (chiado) [CORTE] gelo corta a (chiado) parasita (tosse) [CORTE]
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  Krasnyy, Rzhavchina, Mishen’, Sneg, Gorenjy, Farfor, Dublikat, Sderzhivaniye, Granat4 (chiado) Krasnyy, Rzhavchina, Mishen’, (chiado) Sneg, Gorenjy, Farfor, Dublikat, Sderzhivaniye, Granat (chiado) Krasnyy…
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  A voz desapareceu no segundo que os dedos apertaram com mais força o gravador. Fincaram-se na peça com violência, usando de toda sua força para esmagar seus componentes. Peças se soltaram, caindo no chão como uma pequena chuva superficial, espalhando-se pelo assoalho de madeira e a poça escura que se formava causada pelo pingar contínuo do sangue que deslizava pela toalha de mesa. A quebra do gravador foi acompanhada pelo sangue dele, mas não parecia sequer incomodar-se com. O olhar impenetrável, permanecia fixo no chão, perdido entre os próprios pensamentos, reluziram com um brilho esquisito, anormal. As orbes estavam completamente obscurecidas de um preto pungente, mas as íris cintilavam com um tom vermelho intenso, como sangue. Veias projetavam-se pela pele, pulsando visivelmente.
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  Deixou o gravador cair no chão, indiferente. O que não havia conseguido quebrar com a mão, quebrou com o contato de sua bota contra o objeto. Caminhou, meio arrastado, pelo espaço, por um momento, absorvendo a cozinha. Simples ao olhar, com nada demais, um fogão moderno, e uma geladeira de duas portas. Prateleira com pratos e talheres, e uma gaveta cheia de temperos a esquerda. Uma escultura de madeira com o formato de uma ovelha permeada por facas. Fez uma careta pelo mal gosto, caminhando meio cambaleante em direção ao objeto e então retirando um cutelo dali. Girou-os por suas mãos, por uma fração de segundos, seus olhos registraram, desfocados e erráticos, o rosto que o metal refletiu. Diferente da barba por fazer, o sangue que escorria pelos olhos, os cabelos escuros, e a pele morena, o que surgiu contra o metal da faca era um rosto empalidecido, lábios ressecados, e cabelos de um vermelho escuro, desalinhados pendendo à frente de seu rosto. A imagem sumiu tão rápido quanto apareceu, quando ele levou o cutelo para trás, e acertou em cheio no pulso esquerdo.
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  Não houve grito. Não houve dor. Observou, inexpressivo, quando o membro desabou no chão com um baque molhado. Do corte, sangue esvaía-se em demasia, amontoando-se aos pés em uma poça, deslizando pelo assoalho como uma corrente de água, delineando as interseções e conexões da madeira, encontrando-se com a poça de sangue que se acumulava à mesa de jantar mal posta. Um pulsar pareceu percorrer com o toque dos dois líquidos da mesma matéria. Um vibrar que o fez cristalizar no ar momentaneamente, antes de voltar ao normal. Pulsando em um ritmo semelhante ao de um coração. Então algo aconteceu.
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  O sangue que escorria do corpo que jazia sobre a mesa retrocedeu. Não mais pingava contra o assoalho, misturando-se com o do invasor, deslizou pelo ar até onde o buraco de tiro abria-se na testa. Gota por gota retornou para dentro do corpo, a cor retornando perturbadoramente para a pele outrora necrosada. O processo foi lento, mas quando acabou, o corpo do invasor desabou contra o chão, inerte, enquanto o do idoso retornou a vida com um arfar audível de dor. Os olhos embaçados piscaram, por uma fração de segundos, enxergou escuridão, cabos e fios grossos, e um vidro espesso, coberto por gelo. Piscou, e então estava de volta à cozinha. Mais algumas piscadas e sua visão ao menos havia se clareado. O comando de seu corpo estava precário, a bala alojada no cérebro impediu a reconstrução do mesmo por completo, então a movimentação agora não passava de um arrastar cansado. Observou as próprias mãos, envelhecidas pelo tempo e trêmulas, antes de apoiá-las sobre a mesa, empurrando-se para cima com um grunhido.
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  Arrastou-se, cego, pelo espaço. Esbarrou com cadeiras, quinas e móveis dispostos pelo caminho. Cambaleou, apoiando a mão contra a parede, as unhas fincando-se contra o drywall, tentando guiar-se até o quarto. Lá, empurrou quadros da parede e tirou gavetas do lugar, até que encontrou o cofre escondido na parede. Não sabia a senha, então fincou as unhas ali, agarrou-a e puxou com mais e mais força, até que as unhas se quebrassem, e sangue escorresse pelas pontas dos dedos. Este, pairou pelo ar, pulsando com um ritmo estável, vibrando ao formar pequenas pontas afiadas antes de voltar a seu estado natural. Deslizou pelas trancas, enroscando-se contra o metal. Ele se afastou alguns passos quando a vibração pareceu percorrer seu corpo inteiro, ao ritmo de um coração que não lhe pertencia. Pulsou uma vez, então duas, então, na terceira, a porta explodiu. O metal cortou o ar com violência, enterrando-se na parede à sua esquerda, decepando parte de seu rosto. Mas não importava.
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  Cambaleando para frente, alçou de dentro do cofre o que precisava. Não era o dinheiro, tampouco as joias, sequer o brasão com a caveira e tentáculos enterrada ao fundo do baú. Agarrou o pedaço de plástico com cuidado, girando-o em seus dedos, limpando com o polegar o sangue que se espalhava ali. O rosto enrugado e os cabelos grisalhos familiares, mas não tanto. As chaves estavam sobre a cabeceira da cama, o carro era um Chevrolet antiquado, da década de 80, movido a álcool, levou quarenta minutos para que a ignição funcionasse, quando deixou a garagem, foi acompanhado pelo cheiro de etanol queimado.
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  Dirigiu em uma linha reta, o caminho, familiar como sua própria respiração, em direção a usina nuclear abandonada. Quando parou na frente do porteiro, não fez movimento algum, apenas virou o rosto e aguardou que o homem se aproximasse. Não ouviu o ruído alto que o porteiro deixou escapar ao encará-lo, ou como havia agarrado o comunicador pedindo por reforços quase no mesmo segundo, os dedos tornando-se esbranquiçados tamanha força imprimia no gesto. Apenas encarou-o sem vê-lo de fato. Os dedos enrugados, sangrentos, enroscaram-se com mais força contra o couro envelhecido do volante. Um pequeno estalo ecoou pelos ouvidos emudecidos enquanto o único olho bom permaneceu fixo no guarda. Um pulso correu por seu corpo inteiro, parecendo ser espelhado pelo do guarda.
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  O homem, desorientado, pareceu engasgar-se, ao levar as duas mãos em direção à própria garganta. Agarrou-se ali, unhas arranhando e cortando a pele, rasgando-a em desespero, enquanto sangue começava a obscurecer e tomar para si os orbes de seus olhos. Gorgolejos desorientados escapavam do fundo da garganta do guarda, engasgando-se com o próprio sangue quando o mesmo escorreu por entre os lábios entreabertos, escorreu por entre as narinas. Mais uma pulsação. Mais intensa, mais violenta. O carro só seguiu caminho após o corpo do guarda explodir, de dentro para fora. Uma mancha grotesca se formou na parede, pedaços de órgãos e ossos foram arrastados e esmagados pelas rodas do carro, criando uma linha grotesca vermelha sobre o chão empalidecido pela neve.
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  Desceu do carro ainda em movimento. O mesmo atingiu uma parede antes de parar. Mancou para dentro da usina abandonada, o cheiro pungente de ferrugem, mofo e poeira espalhava-se pelo ar como uma estática sufocante, as luzes oscilavam irregularmente, mas não fazia diferença alguma. As solas dos sapatos ecoaram pelos corredores vazios, chocando-se contra poças de água parada, ao direcionar-se para uma parede ao final do andar. A frente da parede, buscou pela estante correta onde, abaixo do objeto, puxou a alavanca que abriu a porta grossa do laboratório no subsolo.
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  Não usou o elevador, foi de escada. Degrau por degrau, o ar parecia tornar-se mais denso, frio, quanto mais chegava ao seu destino final. Cabos grossos enroscavam-se por entre paredes de cimento queimado, câmaras entreabertas revelavam sangue e marcas de lutas que deveriam ter ocorrido ali. Um pedaço de metal dourado e forjado com a logo Indústrias Stark, foi chutado para longe do caminho, ao parar novamente em frente a uma parede qualquer. Desta vez, o que alcançou foi uma caixa de eletricidade, arrancou o painel com toda a força que possuía em suas mãos, derrubando as peças e alguns dedos pelo caminho, antes de alçar um pequeno monitor. Estendeu o chip do cartão, enfiando-o por um pequeno buraco para a leitura e liberação, e então afastou-se alguns passos cambaleados, voltando seu rosto na direção de onde a porta grossa com várias camadas de tranca e pressão abriu-se. Desceu os cinco degraus de metal que compunham a passarela que levava para dentro da gaiola e parou na frente do scanner. Ali, inclinou-se para frente, em direção à identificação de retina. Por um momento, apenas piscou o único olho, tentando livrar-se do que tingia seus olhos, como o esvair de uma água, o olho preto e vermelho voltou ao normal por uma fração de segundos, revelando os tons %prateados% para o scanner, antes de voltar a cobri-lo outra vez como uma névoa. Piscou novamente, esperando que a porta interna fosse destravada, mas tudo o que fez foi acionar o alarme.
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  Inexpressivo, ele encarou o lugar no momento em que a porta que havia passado se fechou com um estalo alto que reverberou pelas paredes, estremeceu o chão. Luzes avermelhadas acenderam-se enquanto os laboratórios entravam em quarentena. Ele tremeu. Um grito inumano escapou de sua garganta, arrebentando o restante de suas cordas vocais, destruindo a traqueia ao avançar em direção ao acesso para a parte inferior da passarela fechada pela porta com tranca de identificação ocular. Acertou com toda a força de seu corpo a porta, mas de nada adiantou. O anúncio de quarentena ecoou alto e ensurdecedor enquanto os alarmes tornavam-se um ruído contínuo que desaparecia no cenário. Acertou novamente, o sangue explodiu, manchando a porta de metal reforçada. Ele tremeu outra vez. Acertou mais uma vez, e então mais uma, até que ele explodiu.
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  A chuva de órgãos e estilhaços de ossos que se espalhou pelo espaço não foi acompanhada pelo sangue, este pairou, pulsando em formas variadas pelo ar, antes de deslizar em direção a porta. Tomou-lhe pelas laterais, pelas frestas e pequenos espaços possíveis, deslizando lentamente, mas certamente, para dentro da câmara. Mesmo um fino buraco seria o suficiente para que se guiasse em direção ao que desejava. Espiralou pelo ar como um gás perigoso, refletindo a iluminação baixa e ritmada das telas que cintilavam o sistema interno de segurança. Deslizou, como uma serpente sobre o termostato da câmara, aos 54 graus abaixo de zero, levou segundos para que o sangue que pulsava, rastejando e deslizando em direção ao centro da sala, se tornasse igual aos demais. Cresciam e espiralavam pelo ar como galhos, formavam padrões como folhas, e cintilavam, individualmente, como flocos de neve, cobrindo a sala inteira com o sangue desconhecido. Levou ainda menos para que as últimas gotas a se congelarem, pulsassem, girando e transformando-se novamente em um fragmento afiado.
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  Com a velocidade de um disparo, o fragmento de gelo atingiu em cheio o painel de controle da câmara. Foi congelado antes que pudesse infiltrar-se na parafernalha. Algo estranho, todavia, não tardou a acontecer. A gota congelada que recaiu sobre o painel, desta vez, havia conseguido ser rápida o suficiente para se enroscar nos teclados, infiltrando-se por entre a fiação. A fiação envelhecida pelos anos de uso e a falta de troca dos últimos nove, começou a sobreaquecer quando o gelo que envolvia o sangue derreteu sobre os mesmos. Um curto circuito não tardou a pulsar, desligando o painel que sobrecarregou o sistema e travou o termostato. O termômetro preso na parede coberto pelo sangue congelado, começou a marcar a numeração, outrora decrescente, agora, movia-se crescente, mais e mais a cada minuto que passava.
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  Como uma chuva, o sangue que pairava no ar, desabou no chão, movendo-se como se tivesse vida própria, espiralando e pulsando. Veios afiados projetavam-se para cima, enquanto o líquido escorria por entre as extremidades e laterais da porta, devido à quantidade exorbitante. Acompanhado ao sangue, em meio aos fios grossos, suspensos no ar, aos canos de criogenia, e mordaça, as amarras e mesmo o explosivo preso à cabeça, a criatura encurvada em posição fetal, pela primeira vez em muito tempo, respirou.
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  Olhos com órbitas pretas e íris vermelhas como sangue, abriram-se, furiosos.
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Capítulo 1
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