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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Fear

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

TW: A cena a seguir contém menções de ABUSO PSICOLÓGICO e FÍSICO perpetrados por uma FIGURA PARENTAL, causados por ALCOOLISMO e ESTRESSE PÓS TRAUMÁTICO. Pule para próxima sessão do texto “PORCELAIN” caso não se sinta confortável em ler.

06 • A GAROTINHA 00

Tempo estimado de leitura: 48 minutos

MOUSE | 1950
Stalingrado, União Soviética.

  Os gritos furiosos e o amontoado de xingamentos seguidos a despertou de sua soneca.
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  Piscou algumas vezes, tentando livrar-se da letargia causada pelo torpor do sono e uma noite repleta de sonhos confusos e anseios enterrados, para deparar-se com o quarto apertado e cheirando a mofo do apartamento no centro da cidade. Era diferente do casarão no interior, com quartos maiores, cheirando a cera e até mesmo umidade, com pomares de romãs grandes a serem escalados e espaço o suficiente para correr descalça até que pudesse simplesmente ceder ao cansaço e largar-se deitada por entre a relva vivida e verde, aproveitando o calor suave do sol sob sua pele. O apartamento era quase sufocante, fedia a mofo e naftalina, e em alguns pontos ela sempre encontrava algum rato morto. Tinha vontade de revirar seus olhos, mas sabia que, ao menos, Alpine estava tentando mantê-los vivos da forma felina dele de ser.
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  Com um grunhido baixo, exasperado, ela se espreguiçou, coçando a lateral de sua cabeça antes de agarrar o pequeno frasco com as pílulas receitadas pelo médico do exército vermelho. Calmantes, aparentemente. %Marya% supôs, com toda a sua sabedoria de uma garota de doze anos, que isso era comum para os soldados que retornavam da guerra; eles nunca realmente retornavam para casa. Fosse fisicamente ou emocionalmente, havia sempre um pedaço faltando ali. Seu pai não havia sido uma exceção, pelo contrário.
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  Era de se assumir que uma vez que o Coronel se aposentar, ele encontraria a paz pelo trabalho feito e se permitiria a aproveitar a vida que havia lutado para proteger. Que ao menos deixaria o dever nas mãos dos soldados que havia treinado para serem seus sucessores. Todavia, não foi isso quando ocorreu quando Illya %Petrovych% retornou para casa após a Guerra contra os Alemães. Ele já estava deteriorando quando voltou para casa. Aos poucos, agora, escapava por entre seus dedos, como água. Não havia como impedir, por mais que tentasse fechar a mão para agarrar-se a algo, no final, não sobrava nada. Era um jogo doloroso e perdido a essa altura. E esta certeza apenas aumentava durante manhãs como aquelas.
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  Quando ele, ainda dormindo, entrava em um estado de pânico e fúria cega, lutando contra inimigos invisíveis; fantasmas de um passado que o acorrentava no lugar. Quando se debatia e empurrava moveis com violência para fora do caminho. Quando gritava, fosse de dor ou ira e o som de sua voz reverberava pelas paredes do apartamento. E quando avançava na direção de %Marya%, confundindo-a com o monstro que via em seus pesadelos, muito envolvido em sua própria dor para reconhecer os pedidos desesperados e assustados para que ele a soltasse. Para que ele parasse.
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  Havia levado certo tempo até que ela compreendesse, mas eventualmente, a verdade tornou-se inescapável. Aquele não era mais seu pai — se um dia viera a ser. Fosse fisicamente ou emocionalmente, haveria sempre um pedaço faltando ali. Seu pai não havia sido uma exceção, pelo contrário. Era de se assumir que uma vez que o Coronel se aposentar, ele encontraria a paz e se permitiria aproveitar a vida que havia lutado para proteger, que deixaria o dever — como ele costumava a dizer tão orgulhosamente — nas mãos dos soldados que treinou, em seus sucessores. Quando isso não ocorreu, %Marya% percebeu como Illya estava deteriorando. Aos poucos, escapava por entre seus dedos, como um pequeno montante de areia, não havia como impedir, por mais que tentasse fechar as mãos, por mais que tentasse se agarrar aquela vã esperança de que talvez, apenas talvez, desta vez, poderia ser diferente. Era um jogo doloroso; não porque criava feridas diariamente, não porque os esforços eram em vão, mas porque era perdido. Doloroso porque não estava lutando por uma vitória, mas apenas uma chance de protelar a perda eminente.
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  E eram durante aquelas manhãs, manhas em que Illya se perdia em seus próprios monstros e traumas, que %Marya% o ressentia. Que %Marya% fechava os olhos e amaldiçoava aquela realidade. Que percebia com amargor que não havia restado nada. Não havia perdido apenas %Anya% para aquela maldita guerra, não havia sido abandonado por sua própria mãe a própria sorte, não estava apenas acorrentada a cuidar de um monstro que porventura compartilhava parte de seu DNA. Ela estava presa. Se ela ao menos pudesse trocar; se ela pudesse ao menos barganhar com a morte e implorar para que no lugar de %Anya% tivesse levado Illya...
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  Inspirou fundo, uma, duas vezes, engolindo em seco o nó que se formava em sua garganta. Era quente, arranhava-a de dentro para fora e fazia sua garganta parecer ainda mais contraída. Questionou-se porventura se ainda teria voz para dizer alguma coisa, mas não fez questão. Não adiantava, o resultado sempre seria o mesmo. Então colocou-se sentada outra vez, seus pés a pequenos centímetros de distância do chão, flutuando sem suporte, as mãos agarraram com mais força a lateral da cama enquanto o colchão afundava um pouco mais com o peso que permitia-se soltar, um crack suave indicando sua movimentação e atraindo de imediato os olhos de Alpine.
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  Puta merda, se ela não odiava aquele maldito gato. Gordo, velho, com um pelo pesado esbranquiçado, um rosto achatado e enrugado, sempre de aparência mal humorada, e olhos azuis brilhantes que pareciam por vezes a fazia ter certeza que estava julgando-a até seu cerne. Era de %Anya%, sabe-se Deus lá por que diabos %Anya% o havia adotado, já o tinha antes mesmo de %Marya% nascer; antes de partir, sua irmã mais velha havia lhe pedido uma única coisa, para que cuidasse da maldita bola de pelos e era o que %Marya% havia feito. Bem, mais ou menos, Alpine também parecia ser bem recíproco com seus desgostos em relação a mais nova. Se %Anya% o visse agora, certamente ficaria horrorizada e iria repreender %Marya% pelo o que havia feito com Alpine: transformando-o em uma bola de pelos obesa e acomodada. Soltou um risinho baixo, meio amargo, meio saudoso, bem feito, quem mandou %Anya% a deixar para trás? Servia-lhe bem.
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  Alpine espreguiçou-se, bocejando e deixando à mostra aqueles dentinhos malignos que sempre roíam, por despeito, as barras de seus vestidos apenas para irritá-la, antes de a encarar com o fantasma de uma expressão imperiosa. Um comando silencioso: “vá resolver o problema”, e %Marya% estreitou os olhos.
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  — Maldito gato, um dia ainda te vendo no açougue, vou ganhar uns bons rublos com o tanto de banha que você tem, isso aí, fica rosnando para mim para você ver o que acontece — %Marya% murmurou, mais consigo mesma do que para Alpine, antes de empurrar-se para frente, saltando da cama e então pegando as primeiras roupas que encontrou por seu caminho, vestindo-se rapidamente antes de caminhar pelo corredor estreito em direção ao quarto em que seu pai dormia.
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  Ficava ao final do corredor, no cômodo mais afastado do apartamento. A porta de madeira envernizada para ficar escura, possuía claros sinais das agressões que lhe foram deferidas durante o decorrer dos anos desde que haviam se mudado para lá. Marcas de chutes, manchas obscurecidas de sangue seco, até mesmo a maçaneta estava um pouco entortada, sabe-se lá com que desespero seu pai havia tentado quebrá-la, mas certamente era um bom lembrete da força que ele possuía. %Marya% engoliu em seco, parando na frente da porta e hesitando.
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  Desejou, mais uma vez, em vão, que %Anya% atravessasse pela porta de entrada. Que ela largasse a mala na entrada e então olhasse para %Marya% com as sobrancelhas angulosas unidas e as mãos nos quadris, exasperada. “O que diabos pensa que está fazendo? Não deveria estar se arrumando para ir para escola?”, diria com aquele tom sabichão. %Marya% então reviraria os olhos e lhe daria a língua, murmurando: “preciso mesmo ir hoje?”, mas não se demoraria muito na petulância com o olhar que %Anya% então lhe lançaria. Não era zangado, nem mesmo exasperado, mas um olhar gentil, afetuoso que parecia gritar “eu te conheço bem” evidenciando que, por mais que %Marya% estivesse tentada a convencer a mais velha a deixá-la ficar em casa aquele dia, não funcionaria. Mas a porta de entrada do apartamento continuou fechada, intocada.
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  E seu pai continuou a gritar.
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  Tomando o máximo de coragem que poderia encontrar em seu ser de 12 anos, ela empurrou a porta, unindo as sobrancelhas, concentrada, ao tentar caminhar de forma leve e tentar parecer o mais inofensiva possível.
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  — Papa? — %Marya% chamou suavemente, hesitante, tentando encontrar alguma forma de acordá-lo sem que ele saltasse outra vez em seu pescoço. A última vez, havia lhe rendido um olho roxo que levou quase três semanas para começar a ficar amarelado, e a vez anterior a esta, ele havia quebrado dois dedos dela acidentalmente. Era como estar de frente a uma arma, ciente de que haviam balas ali, estava engatilhada, e assim torce para que ela emperrasse quando o gatilho fosse puxado. O problema era que nunca emperrava.
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  Sua garganta pareceu ficar ainda mais seca, os olhos se arregalaram ao percorrer o quarto, observando a destruição causada pela bebida na noite anterior. O cheiro do lugar já lhe era familiar, uma mistura nojenta de suor pungente, com vomito e álcool, muito álcool, mas Illya por vezes costumava arrumar a bagunça que fazia. Exceto que, naquelas últimas semanas, havia parado, agora haviam papeis e arquivos confidenciais de sua época do exército espalhados por todo o espaço, haviam garrafas quebradas espalhadas pelo chão e até mesmo uma poça de vômito seca, próximo da janela. Até o guarda roupa exibia uma ou duas portas pendendo, arrancadas e então postas de volta no lugar.
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  No centro de tudo, estava Illya, ainda dormindo, ainda preso no pesadelo de sua própria criação, debatendo-se contra a cama, como se estivesse acorrentado ao espaço, mesmo que seus pulsos e tornozelos estivessem livres. A blusa regata branca que usava por baixo de suas roupas costumeiras estava suja, manchas amareladas do suor e até mesmo sangue seco espalhavam-se no tecido. Não havia se dado ao trabalho de tirar os suspensórios e tampouco a calça. Estava fedendo, a pele engordurada pelo suor e estresse, os cabelos emplastados ao redor de suas têmporas e pescoço, a barba, outrora cuidadosamente bem feita para evidenciar sua autoridade, agora esticava-se um pouco abaixo de seu queixo, densa, cobrindo a parte inferior de seu rosto, desleixado.
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  %Marya% lançou um olhar incerto na direção da porta, considerando fugir antes de obrigar-se a dar um passo, e então mais outro, na direção de seu pai. Tentou pensar em uma forma de chama-lo sem atrair sua fúria para si. Considerou imitar a voz de %Anya%, como lembrava-se de ser, ou pegar uma das pernas da cadeira quebrada e cutuca-lo a distância. Talvez devesse se mover de volta para a porta e de lá arremessar alguma coisa, soava mais seguro. Mas a pressão de seu pé direito contra o assoalho de madeira envelhecido e desgastado estalou, e Illya despertou, quase imediatamente, em alerta.
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  Uma mistura de grunhido animalesco e um gemido baixo, engasgado de dor rompeu da garganta de seu pai. Os olhos, %cinzaprateados%, cintilando com o que parecia ser lágrimas de dor contidas, enevoados por seu próprio tormento, antes de finalmente repousar no rosto hesitante e, até mesmo assustado, de %Marya%. Ela se encolheu, esperando pelo tapa, mas dessa vez, ao menos, Illya exalou, como se estivesse tentando aliviar a pressão de sua própria dor, e uma mão áspera, calejada pelos anos em combate, se estendeu em direção a seu rosto. %Marya% congelou no lugar, em choque, quando o pai gentilmente acariciou a bochecha dela. O olhar do mais velho se suavizou, um afeto gritante surgiu pela carranca ranzinza, e ela enxergou algo que nunca havia visto antes no rosto do velho Coronel.
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  Vulnerabilidade.
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  %Marya% não conseguiu se mexer. Não conseguiu dizer nada, sequer poderia dizer que estava respirando direito ao prender sua respiração com força. Esta era uma nova visão, uma visão que nunca foi lhe apresentada de Illya %Petrovych%. E de alguma forma estranha, doeu muito mais do que a visão costumeira que o hábito havia feito.
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  — %Anya%? %Anya%, é você? — A voz estrangu lada de Illya reverberou pelo quarto e %Marya% sentiu a pressão das lágrimas por trás de seus olhos, a garganta ardeu, como se estivesse em chamas com as palavras que ela jamais diria em voz alta. Ele sempre chamava por ela; ele sempre confundia %Marya% com %Anya%. Sua voz sempre suavizava quando ele a confundia, tornando-se mais pesarosa e gentil. Tomou-lhe nos braços, abraçando-a apertado, uma mão apoiando sua nuca enquanto a outra a mantinha no lugar. — Ah, minha querida, eu sinto muito, muito… eu nunca deveria ter deixado que você fosse. Por favor, meu amor, me perdoe, minha garotinha, me perdoe… — implorou com a voz quebradiça e %Marya% teve vontade de gritar com ele.
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  Desejou gritar que ela era sua filha também! Que %Anya% não voltaria para casa! Que estava enterrada em uma sepultura ridícula no memorial disposto para os soldados que morreram durante a Guerra com a Alemanha, e que por culpa dele estava caindo aos pedaços. Desejou poder gritar como estava fazendo de tudo para conseguir dinheiro o suficiente, para manter o remédio dele, e comprar comida, como Logan havia se disposto a ajudá-la quando deveria ser ele a fazer alguma coisa. Mas mesmo quando tentou abrir sua boca, mesmo quando tentou forçar as palavras para fora de seus lábios, o choro pesado de seu pai, em seu ombro, a impediu. %Marya% havia perdido sua irmã, mas ainda tinha uma mãe parcialmente ciente de sua existência em algum lugar do Bolshoi, e mesmo que tivesse uma outra família, enviava dinheiro o suficiente para que %Marya% conseguisse se virar com os trabalhos menores, ajudando Lyubov na quitanda, ou Olga em sua floricultura, e até mesmo ajudando Logan com o que ele precisasse. Seu pai, bem… ele havia perdido tudo, não? Quer dizer, %Marya% não sabia da história completa, mas sabia que a primeira esposa dele, havia sido morta por sua culpa — segundo Logan —, e se os resmungos de sua mãe valiam de algo, ele nunca havia superado a mulher morta.
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  É claro que %Marya% se irritava em respeito à sua mãe com isso. Que mulherzinha nojenta poderia ocupar tanto espaço, mesmo estando morta, que deveria ser de sua mãe e deles? Mas se o que Logan dizia era verdade, e a primeira esposa de seu pai fosse apenas só um pouquinho como sua irmã havia sido… então %Marya% não poderia culpar seu pai por não a esquecer, certo? Porque %Marya% também não conseguia esquecer sua irmã mais velha. Sua pedra, seu forte, o abraço cálido e talvez a única criatura que realmente a havia amado. Que lhe contava histórias para dormir, que comprava os bolinhos que gostava e que havia prometido voltar. Que havia pedido com um tom sério para que %Marya% cuidasse de Alpine, o gato branco mal humorado que definitivamente não gostava da mais nova, e que a compensaria levando-a para tomar sorvete e até mesmo em uma viagem para Moscou para visitar a mãe de %Marya% quando retornasse. Mesmo Sonja, a mãe de %Marya%, havia sentido o pesar pela morte de %Anya%.
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  Ainda assim, doía, toda vez que tentava ajudar seu pai a sair de um daqueles estados histéricos entre o medo e o passado, ser confundida com sua irmã mais velha. Deixava um gosto amargo em sua boca, e seu peito latejava. Porque %Anya% havia ido embora, e mesmo que tenha quebrado sua promessa, %Marya% estava começando a fazer as pazes com a ideia de que ela havia morrido, que tinha ido para sempre e o buraco que havia deixado em seu peito, jamais se curaria. Teria para sempre a forma dela, e não havia o que a garota pudesse fazer, se não apenas aceitar a condição imposta pelo destino e a realidade. Mas ela ainda estava ali. Ela ainda era filha de Illya! Ela merecia também aquele afeto! Ela queria também; não era justo que %Marya% tivesse que lidar só com as partes ruins do pai.
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  — Papa… — %Marya% tentou dizer, sua voz soando mais fina e irregular do que gostaria de admitir para si, mas a pressão das lágrimas que estava lutando bravamente para não deixar escorrer por seu rosto, estava à fazendo soar mais aguda e afiada do que realmente era. Quebradiça. — Papa… sou eu… — As palavras escaparam com um quase soluço contido, dolorosas o suficiente para dificultar que ela as pronunciassem. Quase não queria quebrar o encanto, mesmo que soubesse que deveria. Seu pai só era carinhoso com ela, naqueles momentos. — Sou eu… %Marya%… — Seu queixo tremeu com o ressentimento e a própria tristeza, mas ela se esforçou para não chorar quando seu pai a encarou.
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  Primeiro ele pareceu confuso, como se tivesse dito algum tipo de absurdo, que os céus estavam caindo, e as flores do jardim haviam virado ouriços com alfinetes, mas então… então ela viu aquele olhar familiar que Illya lhe oferecia. Quando percebeu que %Marya% não era %Anya%, a garota engoliu o choro com dificuldade, respirando pesado, e se encolhendo um pouco para longe do mais velho, ao ver seus olhos se endurecerem lentamente. O rosto tornou-se menos amigável e mais reservado, e os olhos cinza prateados permaneceram fixos no semblante temeroso dela. Abaixou a cabeça, desejando que o pai não visse a dor que causava deliberadamente em si, mas ao mesmo tempo, envergonhada por não ser o que ele esperava que ela fosse. Por não ser %Anya%, por não ser como a irmã mais velha. E no fundo de tudo, bem ali, enroscado como vinhas espinhosas em seu coração, e permeado pelo vazio sufocante que o luto havia lhe deixado, havia a profunda tristeza por perceber que, se ela pudesse, ela também faria a mesma escolha que Illya provavelmente estaria contemplando ao olhar para ela.
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  Se fosse sua escolha? %Marya% também faria de tudo para trocar Illya por %Anya%. Para que fosse Illya a pessoa enterrada agora, e não %Anya%. Teria sido bem mais fácil.
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  — Estava gritando de novo. Tendo um pesadelo — informou com um tom de voz baixa, dando alguns passos para trás e agarrando com força a barra de sua blusa, girando-a em busca de algum respingo de alívio, enquanto voltava-se na direção da escrivaninha de seu pai. Os papeis oficiais, as pastas e até mesmo insígnias e cartas oficiais ainda estavam ali. Nem mesmo o despache do corpo de %Anya% ele havia se dado ao trabalho de assinar, %Marya% percebeu com uma ponta de frustração, então foi por isso que demorou tanto para que eles a trouxessem de volta para casa. %Marya% cruzou os braços sobre o corpo, tentando encontrar uma forma de se proteger de seu próprio pai, alçando o copo de água e jogando-a pela janela. Então pegou água nova da torneira do banheiro, ignorando os resmungos baixos de seu pai que se reduziram apenas murmúrios de “sim” e “não”, e ofereceu o copo acompanhado dos remédios. — Doutor Fennhoff disse que você deveria tomar dois por dia… para, você sabe…
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  — %Marya%, chega! Está me dando dor de cabeça — ralhou seu pai, e ela se encolheu instintivamente. Esperou pelo golpe, que, é claro, nunca veio, mas a tensão ainda assim pairou entre os dois como um elástico sendo puxado, mais e mais, até seu limite. Era uma questão de tempo até que se quebrasse e voltasse para acertá-los com violência. Illya encarou o rosto da filha mais nova, por um momento, irritado, mas então, ele desviou os olhos, exalando baixo, com frustração. Levou a mão direita em seu rosto, esfregando-o impaciente. %Marya% sabia que não ouviria desculpas de seu pai por sua típica explosão, mas ao menos ele pareceu culpado, ou no mínimo, incomodado, pelo o que havia dito. — Deixe o remédio aqui, irei tomar depois, não se preocupe.
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  Era mentira, e ela sabia.
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  Ele não iria tomar seu remédio, como muito frequentemente não o fazia se não tivesse supervisão. Iria largá-lo sobre a mesa de cabeceira, e o esqueceria ali, ao em vez disso, buscaria por quaisquer gavetas que encontrasse pelo caminho, alguma garrafa, qualquer garrafa que pudesse encontrar, fosse de vodca ou samogon e então a consumiria por completo, e então outra, e mais outra, e mais uma, até que estivesse inconsciente no chão outra vez, sufocando em seu próprio vômito. %Marya% teria que arrastá-lo para sua cama, teria que o limpar e verificar seus sinais vitais, e assim que o tivesse disposto ali, teria que correr pelos corredores do prédio em busca de Doutor Fennhoff para que ele pudesse ajudá-la com seu pai, para que ele pudesse dizer-lhe com certeza que Illya não morreria com o alto volume de álcool que havia ingerido. E então, quando ele despertasse, ela tentaria oferecer os remédios novamente, e o ciclo se repetiria.
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  — Papa, por favor… — tentou insistir, mas se calou no segundo que a cabeça dele girou bruscamente em sua direção. Uma mão erguida no ar, o impulso de acertá-la com um tapa no rosto, mesmo que fosse somente para silenciá-la. Engolindo suas lágrimas e o nó que se formava em sua garganta, %Marya% assentiu, sem dizer mais nada, deixando os comprimidos sobre a mesa de cabeceira dele, junto com o copo de água e então colocou as duas mãos para trás de si. — É aniversário dela hoje… — arriscou, e arrependeu-se quando o olhar afiado de Illya a fuzilou com impaciência. Mas ali no fundo, ela pode ver a dor compartilhada, e talvez isso fizesse doer mais. — Consegui comprar as flores que ela gostava, vou levá-las agora de manhã e depois ajudarei Lyubov, prometo que volto antes do almoço.
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  Illya não respondeu. %Marya% sentiu novamente aquele impulso de cobrá-lo, de gritar com ele, de atingi-lo de alguma forma. Queria que ele a olhasse, que a reconhecesse, mas sabia que era inútil. Uma pessoa não faria algo que não desejava. Illya %Petrovych% não era assim, e jamais mudaria. Moveu sua mandíbula, assentindo outra vez, para si mesma antes de caminhar, ainda incerta para fora do quarto. Ainda buscou o olhar do pai algumas vezes, mas o mais velho havia se retirado novamente para seus próprios pensamentos, os cotovelos apoiados em seus joelhos, a cabeça repousando em suas mãos, os olhos perdidos em sua culpa.
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  Se o destino fosse justo, teria lhe trazido de volta %Anya%, e levado consigo Illya. Era uma piada que ele continuasse respirando, e era um triste infortúnio que coubesse a %Marya% cuidar dele.
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  Apressou-se pela casa, quase atropelando Alpine pelo caminho e ganhando mais um arranhão em sua panturrilha. Lembrou-se, com um chiado entre dentes do que precisava fazer antes de sair de casa: fechar as janelas, verificar se a sua caixinha com o dinheiro que vinha economizando ainda estava no lugar correto, e então colocar comida e o leite do maldito gato de %Anya% — e sua única companhia em casa. Desde que haviam recebido a confirmação do Exército Vermelho que %Anya% estava entre os mortos do Front Austríaco, uma sombra pairava na vida da garota, ela viu lentamente as cores desaparecem ao seu redor, e o mundo ficar mais frio, esperava que o gato também sentisse o pesar, mas estranhamente, Alpine, com os olhos azuis vibrantes e a pelagem branca impecável, não parecia estar nem um pouco incomodado. %Marya% ressentia-se do gato; queria poder sentir-se como ele, anestesiado e indiferente para tudo que não fosse suas próprias necessidades, e todavia, também, queria que o gato se sentisse como ela. %Anya% amava aquele gato esquisito e mal humorado, era simplesmente triste observar que a falta dela não o afetava.
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  Heh, como se ele pudesse sentir %Anya% vagando ainda por aí. Não acreditava muito daquilo, mas não deixava de ser uma esperança de certa forma, a ideia de ter um mínimo resquício de %Anya%, ali, observando-a, esperando-a, era o suficiente para que %Marya% se sentisse egoísta; para que a garota desejasse que ela estivesse presa no plano terreno, junto consigo, pela promessa quebrada que havia feito.
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  Na ponta dos pés, ela abriu os armários retirando as duas tigelas que havia passado a usar para alimentar o gato. Em uma, colocou o atum enlatado — porque Alpine só comia atum, e recusava-se a tentar comer qualquer outra coisa —, usando os próprios dedos para desfiá-los e facilitar a mastigação do animal, e na outra, colocou o restante do leite. Suspirou pesado, observando a garrafa fazia que compunha as cinco coisas que ainda restavam ali. Alguns ovos, um pedaço de pão que começava a mofar, duas maçãs e um resto de queijo. Sentiu a raiva inflamar suas veias outra vez, sentiu o nó em sua garganta aumentar e o desejo de gritar com Illya soava mais do que tentador, mas obrigou-se a engolir, fechando a porta da geladeira e colocando-o no cantinho entre a porta de entrada e os armários. Enquanto Alpine se deleitava com seu banquete, %Marya% alçou seu cachecol pendurado ao lado da porta, e vestiu seus sapatos. Estavam desgastados, é claro, a cor branca do couro não era polida já um tempo dando uma impressão amarelada e descascando de sua superfície, mas ela havia tomado cuidado para mantê-lo intacto por tempo o suficiente até que ela conseguisse comprar novos.
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  Com um olhar breve, hesitante na direção do corredor e o quarto ao fundo do apartamento, %Marya% inspirou fundo obrigando-se a mover. Illya ainda estaria ali quando ela chegasse, quisesse ou não, tudo estaria ali a esperando, não havia porque ter pressa. Encolheu-se um pouco no casaco vermelho que havia ganhado de presente de Logan ainda naquele ano, descendo as escadarias do prédio, e acenando com um sorriso divertido, quase leve para Doutor Fennhoff e Babushka Nadezhda, com o lenço escuro amarrado a sua cabeça, e o casaco pesado tricotado. Empurrou a porta dupla, sentindo o tempo ameno outonal que precedia o inverno soviético atingir seu rosto, fazendo suas bochechas corarem, e seu nariz arder, mas o dia, surpreendentemente, estava agradável.
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  Ou talvez fosse apenas a liberdade de deixar sua casa para trás que o tivesse feito melhorar. Pendeu a cabeça para trás por um momento, permitindo-se admirar os céus límpidos e com o sol alto, estreitando os olhos pensativa, antes de pegar sua bicicleta, e guiá-la até a esquina antes de saltar e pedalar por entre as ruas com familiaridade. %Anya% teria gritado com ela, teria a advertido por sua imprudência nata em não ter nenhuma consideração por sua própria segurança, e então teriam apostado corrida. Deixaria %Marya% vencer, é claro, a garota agora percebia, mas ignoraria sua própria imprudência com um sorrisinho petulante no rosto quando %Marya% lhe apontasse sua hipocrisia. %Anya% iria rir, abaixar-se o suficiente para que a garota pulasse em suas costas, e a carregaria para dentro da loja ou do instituto que estudavam. E %Marya% teria certeza que o dia seria perfeito.
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  Agora eram apenas vazios.
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  Desviou de alguns pedestres, inclinou o corpo para o lado a fim de recuperar o equilíbrio quando quase acidentalmente atropelou um padre, e então seguiu em direção ao centro da cidade. Parou alguns minutos em Lyubov, recebendo um murmúrio gentil e entristecido da mulher pelo significado da data para %Marya%, e então, retirando o buquê que havia comprado fiado, direcionou-se primeiro para o quartel militar que Logan estava hospedado. Deixou a bicicleta no cantinho escuro, próximo do beco na parte de trás do casarão como sempre o fazia, certificou-se de ocultar as flores que havia comprado para o túmulo de %Anya%, fazendo uma nota mental de não se demorar muito para não arriscar que alguém Casanova se atrevesse a roubá-las para oferecer a alguma dama que estivesse pela praça à frente do quartel. Ajeitou sua jaqueta vermelha e então, disparou pela entrada.
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  Não era muito difícil localizar Logan, era só buscar pelo espaço mais reservado, distante de movimento humano e com a maior quantidade de whisky disponível que poderia haver; as vezes, só precisava seguir o aroma pungente de charuto. Estava, aquele dia na sala de descanso do quarto, um pouco mais ao fundo, próximo da cafeteria, braços cruzados sobre o peito, e expressão carrancuda como sempre. Olhava para algo além, a sua frente, com frustração, e %Marya% talvez tivesse hesitado se percebesse a expressão e o resmungo irritado do mutante, mas perdida em seus próprios pensamentos, e animada para compartilhá-los com a única pessoa que havia restado naquele mundo que parecia se importar com ela, %Marya% simplesmente entrou no espaço.
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  Não viu quando a expressão de Logan, por uma fração de segundos empalideceu-se e revelou uma ponta de horror, antes de retornar a uma neutralidade fria calculada. Sequer reparou como o corpo do mutante se projetou para frente, as mãos repousando sobre o colo, fechadas em punhos trêmulos, mas sem expor suas garras. Porque os olhos de %Marya% se fixaram imediatamente na figura acompanhada de dois soldados soviético pouco amigáveis que se punha do outro lado da sala, elegantemente analisando uma bússola com desdenho em sua mão elegante, longa e quase esquelética.
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  Uma mulher.
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  Mas não qualquer mulher, a mulher mais assustadora que %Marya% poderia ter jurado ter visto em toda sua vida. Tinha algo de errado com ela, algo que despertava o vale da estranheza e a deixava em um limbo entre ser extremamente bonita, e, ao mesmo tempo, terrivelmente assustadora. Como se fosse construída em porcelana. Traços finos, elegantes e austeros compunham seu rosto severo, silencioso, quase esculpido. Lábios finos tingidos de vermelho intenso, destacando-se em sua pele pálida como neve. Mas eram os cabelos que chamavam atenção, de um loiro tão pálido, que quase parecia ser branco se a luz não revelasse o leve amarelado areia das mechas. Estavam presos em um coque alto, impecável, e usava roupas refinadas, pretas. Tirando pelas luvas vermelhas como sangue, todo o resto era um contraste entre preto e branco. %Marya% engoliu em seco, congelando no lugar, sem saber como reagir quando os olhos frios e observadores da mulher se fixaram em seu rosto.
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  Por um segundo, houve uma ponta de irritação ali. Um tremor percorreu o corpo de %Marya% que esperou pelo momento que ouviria os gritos em desaprovação e teria que sair correndo dali antes que a situação escalasse, mas então, algo estranho ocorreu. O semblante severo da mulher pareceu se iluminar, não com curiosidade ou divertimento, mas sim, reconhecimento. E talvez isso tenha sido pior. %Marya% engoliu em seco, lançando um olhar agitado na direção de Logan, buscando por auxílio, mas para sua surpresa, Logan mantinha o rosto fixado a frente, em um ponto vazio. A mandíbula tensionada fazendo uma veia em sua têmpora surgir. As mãos fechadas em punhos firmes ao ponto dos nós dos dedos esbranquiçar.
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  — Tsc, Logan, Logan — a mulher murmurou, sua voz tinha um sotaque esquisito, ainda soava russo, mas um russo elegante, como se falasse com a propriedade de uma realeza. — Achei que tivesse me dito que ela estava morta.
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  %Marya% franziu o cenho, confusa. Morta? Quem diabos havia morrido agora? Do que estavam falando?
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  — Morta? Logan, o que...? — %Marya% começou a questionar, assustada. Lançou um olhar ansioso na direção da mulher cujos os olhos não se desviavam de seu rosto, tentando aproximar-se de Logan, mas Logan apenas levantou-se bruscamente com um chiado baixo, entre dentes. %Marya% sentiu uma pontada de dor ao observar a sua pessoa favorita naquele mundo, a única que lhe restara dar-lhe as costas ao aproximar-se da janela. Assumiu que algo deveria estar sobrecarregando os sentidos dele, como às vezes acontecia, para justificar sua súbita necessidade de afastamento, mas algo no fundo de seu peito, algo que reconhecia aquele tipo de reação, sabia que deveria estar mentindo para si mesma. Ainda assim, queria tanto acreditar…
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  — Você deve ser %Marya% %Petrovych%, certo? — a mulher recitou com um tom de voz baixo, perigoso. Foi impossível para %Marya% não assimilar a mulher a uma cobra. Engoliu em seco outra vez, olhando assustada para Logan, antes de focar na mulher. — Lyudmila Kudrin, sou uma amiga muito próxima da sua irmã, é um prazer finalmente te conhecer, querida. — %Marya% arregalou os olhos brevemente, surpresa e desconfiada. Porque ela havia dito “sou” e não “fui”? E por que diabos %Marya% havia se apegado àquela palavra e não no perigo eminente ao estender sua mão na direção da mulher e aceitar seu aperto de mão.
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  O couro estalou suavemente conforme esticou-se pela pele da mulher ao envolver a mão de %Marya%, o anel preso em seu dedo anelar esquerdo possuía um rubi estilizado ao centro, e %Marya% prendeu a respiração, onde havia visto aquele símbolo antes? %Marya% tinha quase certeza de que havia visto em um dos papeis de seu pai… mas… quando? Algo afiado rompeu a pele da menina, fincando-se no músculo de sua palma. A dor repentina fez a garota saltar para trás, prendendo a respiração e puxando sua mão para o mais longe do toque de Lyudmila Kudrin. Quando a mais velha retornou a falar, já não mais se direcionava a %Marya%, mas sim, para os soldados que a escoltavam-na.
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  — Levem-na para a base. Sejam discretos. E quanto a você, Logan, termine o que foi contratado para fazer. Antes dessa noite, Illya %Petrovych% deve estar enterrado, entendeu?
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  As pálpebras de %Marya% começaram a pesar, mas a garota, em pânico, grunhiu obrigando-se a correr. Mal havia alcançado a porta. De sua garganta apertada e agora sufocada pelo o que quer que a mulher havia injetado em seu corpo, gritos de puro desespero e súplica escapavam, implorando a Logan para que lhe ajudasse. Lágrimas embaçaram seus olhos ainda mais, soluços percorreram por seu corpo, e o peso começou a tornar-se demasiado para ser carregado, para lutar-se contra. Mal sentiu quando um dos soldados a alcançou, a dolorosa percepção de que Logan não faria nada para impedir aquilo aos poucos, fazendo-se presente enquanto a escuridão a envolvia. Logan não olhou para ela, sequer disse algo que não fosse uma baixa concordância. %Marya% percebeu, tardiamente, qual deveria ser a sensação que atormentava seu pai naquele momento; entendeu pela primeira vez o que era ser traída por alguém que considerava parte de sua família.
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  Gritos de puro desespero, sibilos implorando por ajuda cederam ao peso da inconsciência forçada. Tudo desapareceu quando a menina acordou, deitada em um chão frio de cimento queimado, e com alguma coisa presa em seu pescoço, a primeira coisa que %Marya% viu, foi um rosto familiar.
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  %Anya% a encarava, em choque.
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•••

PORCELAIN | AGORA
Las Vegas, EUA.

  Wolverine avançou sem misericórdia na direção de Bucky Barnes.
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  Sangue tingiu o chão e a parede quando as garras de adamantium dilaceraram a carne protegida pelo kevlar. O grito de Barnes soou inesperado, escapando de sua garganta antes mesmo que pudesse conter-se, a dor, intensa e aguda, pareceu o cegar para tudo o que não fosse o ponto central em suas costelas, o rosto contorcido em uma máscara de pura agonia, tornou-se mais sombrio, quando uma fúria crescente, encontraram-se com os dela. O peso da acusação em seus olhos tampouco amoleceram ou a fez sentir-se culpada. %Marya% assistiu, indiferente, quando Barnes tentou impedir o mutante de ganhar mais espaço do que já havia conseguido. Agarrou com violência os pulsos de Logan, usando o braço metálico de vibranium para, com um crack audível que se alastrou pela adega, implacável, quebrar o pulso do mutante. Logan soltou um grito gutural, animalesco, quando seu pulso foi entortado para trás com força, o osso de adamantium se projetou para fora, expondo o osso envolto pelo metal. A pele pendurou-se ao redor do pulso, flácida e coberta de sangue, e Wolverine gritou, tal qual um animal.
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  %Marya% bufou, desdenhosa. A melhor parte de tudo aquilo era que não precisava de muito para destruir uma pessoa que havia, deliberadamente, machucado você, tudo o que você precisava fazer era apenas esperar, na maioria das vezes, estes se destruírem sozinhos. Era essa a graça de tudo aquilo. Era essa a diferença entre eles e ela. Percebeu, com um vazio alastrando-se por seu peito, denso e sufocante, de que o resultado tampouco lhe importava. Bucky ou Logan, não importava quem se mantivesse em pé. Ela os tinha onde queria, agora, iria deixar que se destruíssem. Seu trabalho estava feito, então, sem muita cerimônia, tratou de agarrar a garrafa de whisky descartada no chão, e caminhar para fora da adega. Deixou que Logan e Bucky aceitassem suas próprias contas, deixou que ambos fossem suas próprias companhias miseráveis até que a autodestruição não lhe oferecesse nada se não a morte, e caminhou para fora do bar, seguindo as escadas para o segundo andar, desviando de pessoas que estavam jogando nas mesas de apostas, ou apenas bebendo até esquecer-se de seu próprio nome. Deixou-se sentar contra a balaustrada virando a garrafa de whisky de uma vez, fechando os olhos.
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  Por mais que o líquido queimasse sua garganta não encontrava consolo ali. Percebeu com uma nota amarga na boca que não havia consolo para si. Não ali, nunca. A bebida cresceu em sua boca, e %Marya% não conseguiu engolir, obrigando-se a cuspir em um vaso de planta disposto contra uma das colunas de concreto queimado do lugar. Acabou jogando a garrafa para longe, antes de enterrar o rosto em suas mãos trêmulas, passando os dedos pelas mechas embaraçadas de seus cabelos. Por tanto tempo ela havia desejado apenas ter uma chance de vingar-se de Barnes, de vingar-se de Logan, e todos aqueles que haviam a abandonado ao vazio existencial que a morte de %Anya% havia lhe causado. Por tanto tempo ela havia desejado apenas destruir aqueles que tentaram destruir, com o consolo de que a satisfação que se seguiria ao menos justificaria a dor que havia sentido. Mas a verdade amarga disso, é que a satisfação não era o suficiente para silenciar o buraco que havia sido deixado para trás, nem quitar as dívidas que os dois tinham com ela.
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  Porra, se Bucky e Logan morressem, não acalentaria nada. Exalou baixo, deixando suas mãos caírem de seu rosto, encarando um ponto invisível à sua frente, com frustração e exaustão. Era hora de voltar a mover-se, então. Mudar de país, mais uma vez, desaparecer entre multidões e torcer para que ela pudesse usar suas pobres habilidades como agente e talvez até como mutante para conseguir algum dinheiro apenas para sobreviver. Não se arrependia do desfecho daquela noite, mas igualmente, não encontrava paz nisso.
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  Percebeu apenas que estava encarando um par de botas marrom desgastadas quando ouviu o estalo de língua familiar ecoar por seus ouvidos, a fazendo estreitar os olhos, e piscar, voltando a si. Não fez menção alguma de pronunciar-se ou questionar o que ele iria fazer com ela agora que tinha colocado Logan para matar o Soldado Invernal, apenas ergueu a linha de seu olhar para encarar o rosto bonito, e desconfiado de Gambit, observando-a com cautela. O sorriso de canto, característico do cajun estava presente, é claro, mas eram as íris avermelhadas que lhe atraíram a atenção: havia um pesar ali, uma preocupação enviesada de tranquilidade desdenhosa, e ela odiou que ele a olhasse daquela forma.
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  — Cher, tsc, com uma expressão dessas é de se assumir que está tendo um péssimo dia. — a voz de LeBeau ecoou por seus ouvidos com uma ponta familiar de sarcasmo. Ela quase sorriu, mas voltou a encarar os dedos, esfregando-os sem sentir. Havia tantas cicatrizes que ela não se lembrava de como havia as ganhado: se eram os campos de força que projetava que lhe cortavam a pele acidentalmente ou se foi os anos de treinamentos para controlá-los. — Você conseguiu o que queria, oui, cher? Tá livre agora, por que tá agindo como se alguém tivesse acabado de enfiar um cajado na tua bunda?
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  %Marya% bufou, lançando um olhar enviesado para Remy, cínica.
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  — Até porque esse foi a porra de um comentário inocente e figurativo, certo? — Ela cuspiu com desprezo, mas isso apenas fez Remy sorrir um pouco mais. Umedeceu seus lábios secos, grunhindo baixo, mais pela frustração do que qualquer outra coisa, colocando-se de pé novamente e virando na direção da balaustrada, observando as outras pessoas que se espalhavam pelo “Princess’s bar”. Sabia que, a essa altura, Steve Rogers, e Sam Wilson já deveriam ter percebido o que havia acontecido. Céus, se ela fosse esperta, iria sair dali o quanto antes, mas então… para onde ela iria? E então havia Remy, que não iria deixá-la sair ilesa dali. Não importava o quanto ela esperasse Remy LeBeau, o cajun de alguma forma, sempre grudava e não desaparecia. Talvez ela devesse se livrar dele também.
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  — Você nunca reclamou de nada que eu tenha feito, não tenta fingir agora que não gostava — Remy pontuou, desviando o olhar do rosto de %Marya% e então encarando algum ponto entre os corpos que se moviam pelas mesas de jogatinas e pista de dança.
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  Steve Rogers estava em disparada, empurrando pessoas para fora do caminho, tentando alcançar Bucky Barnes na luta sangrenta com Wolverine. O frenesi não demora para se tornar um pandemônio de taças caindo no chão, e pessoas gritando em desespero para sair dali. Remy apertou os lábios voltando a encarar %Marya%, inclinando-se um pouco mais na direção dela até que estivesse a centímetros de distância. Ele cheirava a líquor e pimenta. %Marya% tensiona sua mandíbula, erguendo o queixo, desafiador, sustentando o olhar dele, mas não se afastou. Não dele pelo menos.
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  — Diz para mim que você não tá trabalhando para mais ninguém, %Masha%, diz para mim que isso tudo que você fez foi pelo desespero do luto que sente, e não porque alguém te deu dinheiro o suficiente para destruir os dois. — Embora fosse uma acusação, a voz de Remy havia soado mais suave, um quase pedido implorado abaixo de sua respiração.
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  — Onde está Mikhail, Remy? — questionou ela baixo, os olhos movendo-se para acompanhar atentamente os dele. Remy tensionou a mandíbula, mas não respondeu.
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  — O que sua irmã diria a você se a visse agora? — ele retorquiu com outra pergunta, e %Marya% trincou os dentes. Não era a primeira vez que alguém dizia aquelas palavras para ela, e embora ainda pudesse cravar-se profundamente no ferimento exposto que era a morte de %Anya%, não mais afetava-a com a mesma intensidade.
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  Ela abriu um sorriso desdenhoso, sarcástico.
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  — Ela não está aqui para dizer alguma coisa, está? — %Marya% pronunciou com um desafio velado e o rosto de Remy se suavizou por um breve momento. Ela o viu hesitar por um momento, como se estivesse calculando o que deveria fazer, e então, bem devagar, como alguém que não desejava assustar um animalzinho selvagem ferido, Remy tocou a lateral do rosto dela. As pontas de seus dígitos gélidas contrastaram com a temperatura cálida da pele dela, deslizaram pela lateral de sua maçã do rosto, delineando com cuidado sua mandíbula bem pronunciada. Não era um gesto afetuoso, mas um aviso silencioso. Remy podia explodir qualquer coisa que tocasse; qualquer material, incluindo ela. — Se vai me matar, faça logo, porque se hesitar, eu vou matar você, Remy — avisou %Marya%.
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  Mas Remy não fez nada, deixou apenas sua mão cair de volta à lateral de seu corpo, unindo as sobrancelhas ao observar o rosto da russa por um longo momento.
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  — Professor Charles ainda aceitaria você se retornasse agora, %Masha%. Ainda não é tarde o suficiente, por favor, venha comigo, o que mais você tem a restar por aqui? Já não se torturou o suficiente? Não é hora apenas de aceitar que sua irmã não vai voltar e seguir em frente? Não dá para viver se apegando ao passado assim — Remy ofereceu, e pela primeira vez em toda sua vida, %Marya% sentiu-se terrivelmente tentada a aceitar a oferta. Pela primeira vez, com o fantasma de Bucky Barnes e Logan apagados ao fundo de sua mente, %Marya% sentiu aquele desespero por apegar-se a algo, por menor que fosse, que a mantivesse sobre a superfície do oceano que ameaçava puxá-la para suas profundezas. Pela primeira vez em muito tempo, considerou a ideia de que, talvez, apenas talvez, ele estivesse certo. Mas ela ainda não poderia sair dali. Não sem ter certeza de que Mikhail jamais veria outro dia; o que quer que Barnes estivesse procurando, %Marya% não o deixaria encontrar. Por puro despeito. — Por favor, %Masha%, se não por mim, por sua irmã, por você mesma… — pediu Remy.
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  %Marya% não o respondeu, e algo cruzou o rosto dele. O cajun pareceu quase pesaroso, como se estivesse enxergando um caminho que %Marya% ainda não havia percebido que se direcionava, mas que estava ali, presente, estendendo-se a sua frente enquanto ela o seguia cegamente. Mas tão rápido quanto havia surgido, desapareceu. Remy deu um passo para trás endireitando os ombros, ao indicar com a cabeça na direção do escritório onde Logan deveria ficar aos finais de noite, mas que raramente ficava.
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  — No escritório, bêbado como um gambá — foi tudo o que Gambit disse, girando o cajado outra vez, um arco gracioso que viera repousar sobre seus ombros, antes de observá-la em silêncio, recostando-se contra a balaustrada atrás de si. %Marya% o ignorou, começando a caminhar em direção ao escritório, quando algo estranho aconteceu.
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  Um empuxo, discreto, mas presente pareceu percorrer o espaço como o pulsar de um batimento cardíaco. A porta à sua frente do escritório de Logan pareceu estremecer por um breve momento, enquanto %Marya% sentiu algo dentro de si tremer. Franziu o cenho, confusa com a sensação, uma onda de adrenalina percorrendo seu corpo como pura eletricidade, tensionando os músculos de seu corpo, deixando-a em alerta. Os olhos, surpresos, de %Marya% se encontraram com os de Remy, trocando uma conversa silenciosa, antes de estender o braço para abrir a porta do escritório.
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  Remy que provavelmente havia sentido o pulsar também, em alguns segundos havia vencido a distância entre %Marya% e si mesmo, agarrando o braço direito dela com força, os dedos fincando-se instintivamente na pele macia do ombro dela, ao puxá-la com força para trás, afastando-a da porta quando esta explodiu. Mikhail, olhos arregalados, rosto empalidecido, e sem uma mão, esvaindo-se em sangue, projetou-se para fora, desabando com violência contra o chão. %Marya% arregalou os olhos, tentando se mover em direção ao homem agonizando e contorcendo-se contra o piso de linóleo do bar, mas a mão de Remy se estreitou com mais força em seu braço. Um ruído percorreu seu ouvido, doloroso, acompanhado por sua pulsação acelerada, e %Marya% fechou os olhos com força. Ela sentiu outra vez aquele estranho pulsar percorrer por seu corpo inteiro, seu coração falhando um batimento antes de sentir algo denso, quente e pegajoso escorrer de sua narina esquerda.
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  Chacoalhando sua cabeça, tentando se livrar do próprio torpor, %Marya% obrigou-se a abrir os olhos, levando o interior de seu pulso esquerdo contra o nariz, limpando-o. O interior de seu pulso retornou avermelhado, manchado com seu próprio sangue. Sua garganta ficou estranhamente seca, sua respiração perdeu-se em algum lugar distante de seu peito, quando ela voltou a linha de seu olhar para Mikhail. Não teve muito tempo para reagir, apenas assistiu o homem se colocar de joelhos no que parecia ser um profundo surto psicótico causado por algo apavorante que apenas ele estava vendo, então, ele congelou no lugar. %Marya% tentou dar um passo na direção de Mikhail, seus olhos encontrando-se com o antigo agente KGB, mas já era tarde demais.
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  Mikhail explodiu.
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  Sangue atingiu Remy e %Marya% antes que ambos pudessem se proteger, cobrindo-os como um banho viscoso, pegajoso e cálido. Pedaços de órgãos e músculos dilacerados escorreram junto com o sangue que agora os cobriam, fragmentos pequenos de ossos fincaram-se como pequenos projéteis nos braços e pernas dos dois. Não profundo o suficiente para causar danos perigosos, mas não raso o suficiente para serem despercebidos, arranhões formaram-se em suas peles onde os ossos de Mikhail haviam atingido. Tudo pareceu emudecer, pulsando ao ritmo de seus corações, martelando com intensidade contra a caixa torácica, erráticos, enquanto uma onda gélida de medo percorria suas veias.
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  — %MASHA%… — Remy estava prestes a gritar quando o eco silencioso se espalhou pelo espaço. %Marya% arregalou os olhos, agarrando à frente da blusa de LeBeau, obrigando-o a mover-se, empurrando-o instintivamente para trás. Choque, assombro e puro terror coloriram o rosto de %Marya% quando os olhos dela repousaram na criatura, levemente curvada, endireitando-se com um estalar debaixo de ossos caminhando para fora do escritório de Logan, em direção a eles.
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  O pulsar retornou, desta vez, mais intenso. A vibração momentânea que pareceu sincronizar-se com o ritmo de seu coração, foi mais dolorosa, como se tivesse obrigado seu coração esticar-se além do que deveria em seu peito, e então contrair-se com violência. Doloroso, seu sangue parecia correr por suas veias mais rápido do que seu cérebro era capaz de registrar, criando uma mistura de estado de alerta e instinto de fuga, como se %Marya% tivesse acabado de se deparar com a própria morte, mas fosse lenta demais para compreendê-la ainda. Como se estivesse com um atraso de segundos entre compreensão e instinto. Mas então, tudo pareceu desaparecer ao seu redor quando a criatura ergueu a linha de seu olhar, os olhos do monstro, fixando-se nos seus.
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  Olhos %cinzaprateados% fixaram-se no rosto de %Marya%. Inexpressivos. E para seu completo choque, ela os conhecia melhor do que a si mesma. Os assombrava desde que ela escapou da Sala Vermelha. Sua garganta se apertou, os olhos marejaram, embaçados os cantos, enquanto seu ar era roubado, não por um golpe, mas pela a emoção que a paralisou no lugar. Não soube dizer se havia gritado, sussurrado ou apenas pensado no nome, a única coisa que sabia era que estava ali, que era real, repetindo-se em espiral, um crescente desespero atroz, e ao mesmo tempo, a pura incredulidade do alívio.
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  — %Anya%?
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  Nota da Autora: nessa fic ninguém tem paz. Os TWs estão sempre avisados no começo dos capítulos, e a partir de agora a gente entra na minha trope preferida que é: Doomed Siblings, prepara o lencinho que vai doer.

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Lelen

Meu Deus, o Logan e o Bucky SE MATANDO LÁ ATRÁS, e a gente recebendo a BOMBA da Anya surgindo DO ALÉM quase literalmente.
TEM TANTA COISA PRA GENTE SABER AINDA DESSE PASSADO, MEU JESUS AMADO. E a Marya e a Anya são irmãs de mães diferentes? Mas pelo menos antes da “primeira” morte parecia que as duas tinham uma boa relação, né?
BORA QUE EU TÔ PRONTA PRO EMBATE DE IRMÃS. E ALGUÉM PARA O LOGAN E O BUCKY, POR FAVOR. E DEEM MAIS HOLOFOTE PRO GAMBIT, AMO DEMAIS <3

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