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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Fear

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

03 • Bailarina

Tempo estimado de leitura: 41 minutos

POINTE-SHOES | 1951.
  Leningrado, União Soviética.

  O silêncio ensurdecedor só foi quebrado após longos vinte minutos.
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  Os olhos %cinzaprateados% dela se ergueram lentamente dos dedos longos e repletos de cicatrizes, as unhas fincando-se instintivamente e meio à parte de sua mente ansiosa, em algumas cicatrizes mais fundas, delineando a estranha profundidade que desfigura seus dedos. Ela não se lembrava de onde as havia conquistado, mas sabia que, em alguns raros momentos, quando ela estava prestes a pegar no sono, ou distraída demais com sua própria mente para perceber de imediato, ela poderia sentir o toque fantasma ali. Dedos ásperos que não lhe pertenciam, traçando gentilmente as cicatrizes das mãos dela, até chegar no interior de seu pulso esquerdo. Ela raramente retirava o pequeno bracelete feito de veludo escuro, vermelho, e com um brasão antigo, provavelmente de sua família, onde uma numeração marcava a parte interna de seu pulso. Uma tatuagem, antiga. A essa altura, a tinta desgastada agora tinha uma tonalidade meio azulada nas extremidades, revelando um passado que %Anya% %Petrovych% não conseguia se lembrar de ter existido, mas que, com provas físicas, era inegável.
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  Disseram que ela havia sido capturada pelos nazistas próximos das fronteiras da Áustria, em um dos fronts russos. Disseram que a haviam encontrado desacordada, mal respirando direito, quando o Exército Vermelho retomou as fronteiras, que foi uma das poucas sobreviventes dos experimentos em campos de concentração. Disseram a ela que era uma reação natural de seu cérebro, após experienciar um evento traumático como aquele, perder a memória ou esquecer-se do que havia acontecido lá. Disseram que ela estava em casa novamente, segura e que um renomado e confiável médico iria ajuda-la. Mas %Anya% não se sentia em casa, e muito menos segura: não com os pesadelos constantes. Não com os ecos de imagens que invadiam sua mente, com frequência. Ainda assim, ela estava se esforçando para progredir, pelo bem de %Masha%, mas igualmente porque se ela não fizesse... o quanto de sua mente ainda poderia ser considerado sã quando ela não tinha ideia do que estava vendo, sentindo, ouvindo era real, e quando não era?
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  Se seus sentidos poderiam tão facilmente enganá-la, então, o que era de fato a realidade?
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  — Ouça, eu sei que pode ser difícil encontrar as palavras certas, ou sequer mesmo palavras para se expressar. Todos nós temos limitações que nos impedem de expor algo, e isso é normal — Fennhoff começou a dizer, finalmente quebrando o silêncio após longos minutos, mas %Anya% não conseguiu respondê-lo. Não é que ela não queira, ela simplesmente não conseguiu dizer. %Petrovych% tinha aquela estranha sensação de estar sendo amordaçada vinte e quatro horas por dia, como se algo estivesse impedindo-a de falar alguma coisa, como se algo estivesse preso em sua boca, profundamente enroscado em seu esôfago, impedindo-a de falar. Fennhoff havia dito que aquilo era normal: algumas pessoas após sofrerem algum evento profundamente traumático poderiam acabar experienciando a perda da fala. Ainda assim, %Anya% não conseguia deixar de sentir-se desconfortável ao ver que Fennhoff, por uma fração de segundos, em todas as sessões esperava que ela falasse. Uma progressão, qualquer que fosse, e %Anya%, todavia, só conseguia sentir-se estagnada. Presa no lugar. Era sufocante. Sentia que estava enlouquecendo. — Essa resistência é natural, especialmente tendo em vista o que você passou. Veja, querida, você não está mais em perigo. Eu não estou aqui para ditar normas ou te repreender. Não há certo ou errado. Estou aqui apenas para ouvir o que você tem a dizer. — Fennhoff fez uma pausa, e %Anya% engoliu em seco, recostando-se contra o estofado macio do sofá dele. %Petrovych% precisou conter o impulso de deixar-se escorregar até que estivesse no chão, sentindo a estranha sensação de que, se apoiasse mais peso do que deveria em seu corpo ali, ela iria acabar caindo para trás, acabaria sendo absorvida pela poltrona e desapareceria em um mundo permeado apenas pela escuridão e o silêncio. Ela umedeceu o lábio inferior, assentindo lentamente para o que Fennhoff diz, mas ainda em completo silêncio. — Preciso que diga algo, %Anya%, do contrário, não vou poder te ajudar.
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  Quando %Anya% não respondeu, outra vez, Fennhoff anotou alguma coisa em seu sketchbook vermelho, a caneta deslizando pela superfície porosa do papel grosso, soando como um pequeno farfalhar que fez %Anya% se tencionar um pouco. Ela não estava com medo, mas por que diabos estaria? Era só uma folha, uma caneta, e o barulho quase silencioso demais para ser percebido com clareza de alguém escrevendo. Mas seu coração ainda estava pulsando rápido demais em seu peito, e suas mãos ainda se fecharam com força enquanto ela tinha aquela maldita sensação de dejavu outra vez.
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  — Tudo bem, certo, por que não começamos por um tópico mais simples? Me fale um pouco de como foi a sua semana? Como está a preparação para sua estreia? Como tem se sentido? — Fennhoff tentou, e %Anya% inspirou fundo, assentindo lentamente para o doutor.
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  Os olhos %cinzaprateados% de %Anya% se desviaram do rosto do médico, e repousaram na janela à sua esquerda, observando sem exatamente querer muito, o mundo do lado de fora daquela sala pequena, porém confortável.
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  Sentiu-se como se estivesse dentro de um globo de neve. Estava nevando àquela altura, mas não era uma tempestade, ao menos, não ainda, manchando os telhados e as estruturas de cimento que envolviam a cidade. Por um breve momento a neve pareceu simplesmente parada no ar, como se estivesse estática. %Anya% piscou os olhos, abaixando-os rapidamente, unindo as sobrancelhas enquanto apertava os lábios em uma linha.
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  — Estou nervosa — %Anya% gesticulou por fim. Não era melhor do que escrever, já que, nem todos eram capazes de entende-la quando ela usava linguagem de sinais para se comunicar, mas Fennhoff havia estabelecido uma maneira de comunicação alternativa desde o começo com %Anya% para que ela pudesse se expressar, sem precisar escrever ou ao menos ter uma segunda alternativa. Além disso, nem sempre %Anya% estaria com um bloquinho de notas para escrever o que estava pensando, logo teria que ter uma segunda e talvez até mesmo uma terceira maneira de se comunicar claramente.
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  %Anya% voltou a linha de seu olhar para o chão, observando os veios de madeira impecavelmente encerados e organizados, sentindo uma pequena ponta de desconforto quando os olhos dela localizaram para uma estranha fissura entre duas tábuas. %Anya% uniu as sobrancelhas, confusa, ao perceber que, por baixo das madeiras do assoalho, havia cimento queimado — o que não fazia sentido algum, uma vez que estavam em um prédio antigo, logo, a estrutura deveria ser apenas de alvenaria.
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  Um pigarro de Fennhoff a despertou de sua distração outra vez. %Anya% tentou não se encolher quando, por uma fração de segundos, os olhos dela se encontraram com o rosto dele, mas tudo o que ela viu foi apenas um crânio putrefato. Larvas escorriam por entre os orifícios de seus olhos e nariz, a mandíbula pendia pela esquerda, sem o músculo para sustenta-la. %Anya% inspirou fundo uma vez antes de desviar seu olhar para suas mãos de novo.
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  — %Masha% não tem parado de falar sobre isso. Disse que quer ser uma bailarina também, por causa dos tutus e das pedrarias, tem usado todas as tiaras, até mesmo para dormir. Acho que está mais ansiosa do que eu — %Anya% gesticulou para Fennhoff que assentiu lentamente, em um pequeno incentivo para que ela continuasse falando, uma aprovação discreta de que ela estava indo pelo caminho certo. %Anya% hesitou por um breve momento, sem saber o que mais dizer. Sabia que existia ali um vínculo de confiança, e Fennhoff nunca a havia feito desconfiar de suas intenções por trás da ajuda que ele oferecia. Ela sabia que estava no caminho certo, por que diabos não estaria? Mas não era confortável. Por algum motivo, ao fundo de sua mente, havia alguma coisa estranha. Algo que estava fora do lugar. E ela não conseguia entender exatamente por que o fazia. O que ela não estava vendo desta vez? Onde ela estava errando agora? Por que ela estava sempre errando? O que ela não estava vendo...Os ensaios têm ajudado bastante a manter minha cabeça no lugar, é mais fácil focar quando tenho algo em mãos, e %Masha% também tem sido um desafio bem-vindo, depois de tudo... quer dizer, eu não sei se estou sendo uma boa... figura materna para ela, mas... estou tentando...
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  Ela parou de gesticular sem saber aonde queria chegar. Sem saber o que dizer. %Anya% uniu as sobrancelhas, voltando a encarar suas mãos outra vez, esfregando o polegar ao longo de seu indicador, ansiosamente, deixando o canto de sua unha percorrer a profundidade grotesca da cicatriz, fazendo-a se arrepender de não ter usado luvas aquele dia. Havia tentado tomar um risco, aceitar uma mudança e fazer um salto de fé. Deus, como ela havia fracassado. Havia achado que conseguia passar o dia sem as luvas, seu único consolo era a pequena pulseira de tecido envolvendo seu pulso esquerdo para esconder a numeração de quando estivera no campo de concentração. Mas... mas ela não era assim tão forte. E odiava a sensação. Odiava ter que olhar para suas próprias mãos e...
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  — Não sinto que meu corpo me pertence — confessou %Anya% por fim, fechando os olhos, sem conseguir encará-lo. Ela não queria ver a pena no olhar de Fennhoff, não queria ver alguém sentir-se mal por ela porque piorava tudo. Ela não merecia aquilo... se ela tivesse sido melhor, mais rápida, se ela não fosse tão... tão ela, talvez sua família estivesse viva, talvez os amigos que haviam sido capturados e mortos no front Austríaco estivessem em casa, talvez %Masha% tivesse uma infância tranquila e feliz com os pais de verdade. Se ela pudesse ter trocado de lugar. Se ela pudesse voltar no tempo. Céus, ela tinha nojo de si mesma. Por que sempre sentia que havia algo de errado com ela, porque, se todos a olhavam de maneira diferente, então, certamente, havia algo de errado com ela, não é? Quando uma pessoa lhe encarava com nojo, talvez, e apenas talvez, poderia ser um problema relacionado apenas à pessoa que lhe encarava, mas o que significava quando muitas lhe encaravam da mesma maneira? Certamente todas elas não estariam erradas também, não é? Não... não poderiam estar... — É como se eu não estivesse dentro do meu corpo, como se fosse uma estranha encarando-me de volta no espelho, como se nada em mim... fosse mesmo meu... não sou eu... sinto que sou uma estranha... não sei quem sou...
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  %Anya% ficou em silêncio por alguns minutos, tentando absorver sua própria confissão a Fennhoff, e, ao mesmo tempo, esperando uma resposta vinda do médico, mas a resposta dele nunca chegou. Hesitantemente, ela se obrigou a abrir os olhos, franzindo o cenho em confusão.
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  Fennhoff tinha momentos de silêncio. Momentos ofertados para que %Anya% absorvesse o que havia acabado de dizer e refletisse sobre, mas... nunca havia sido um completo silêncio. Nunca havia sido apenas a pulsação alta em seus ouvidos, sua única companhia. O que...
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  Ela estava sozinha.
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  %Anya% franziu o cenho ainda desorientada com toda a situação, observando agitadamente o consultório. Ela prendeu a respiração instintivamente, ignorando a parte de seu corpo que sempre reclamava pela atitude, hesitando, mas sentando-se na beira do divã, observando o consultório, desorientada. Ela engoliu em seco, franzindo o cenho, enquanto as mãos dela repousavam na lateral do divã, seus dedos fincando-se contra o estofado macio, tentando encontrar uma maneira de manter-se naquele momento, uma maneira de certificar-se de que aquilo era real, que estava realmente acontecendo.
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  Ela pensou em chamar pelo nome de Fennhoff, mas sua voz não saía.
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  %Anya% colocou-se de pé, devagar, prendendo a respiração, os olhos %cinzaprateados%, agora arregalados, enquanto tremor aumentava, não somente por suas mãos como igualmente por seu corpo inteiro. Sua garganta estava dolorida, e o gosto de sangue era pungente, atingindo sua língua de forma desconfortável, antes de voltar a engolir, os dentes cerrados pareciam travados. As paredes do consultório de Fennhoff eram familiares. Eram compostas por uma faixa bege suave que compunha o teto, e madeira revestindo metade da parede com desenhos quase semelhantes aos da porta, retângulos largos seguidos de quadrados pequenos, com o verniz impecável deixando a madeira ainda mais escura do que de fato era. O piso de alvenaria estava encerado, e %Anya% quase poderia ver seu reflexo se ela se concentrasse bastante. Um tapete grosso se espalhava abaixo da poltrona de Fennhoff e o divã que ela estava sentada. Abajures estavam dispostos, um sobre uma mesa de mogno antiga, com apenas uma gaveta ao centro, e onde ele havia repousado pequenos livros e decoração, como estatuas de bronze e até mesmo um quadro com paisagem desconhecida de montanhas nevadas, enquanto os outros dois, maiores, encontravam-se no canto da sala. Persianas meio abertas evidenciavam a neve que tingia a cidade do lado de fora, mas a iluminação precária não possuía aquela tonalidade amarelada que ela estava acostumada, pelo contrário.
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  Agora pareciam cintilar em azul.
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  %Anya% franziu o cenho ainda mais, fechando suas mãos em punhos firmes enquanto buscava pela porta de saída do consultório de Fennhoff, mas não havia porta alguma. Apenas duas janelas com as trancas de ferro fechadas, e estantes repletas de livros. As estantes são feitas de madeira, e estavam dispostas paralelamente ao lado da parede esquerda, com certificados presos na madeira como um lembrete da especialidade de Fennhoff. Ainda assim, parecia errado. Os olhos de %Petrovych% se desviam para o chão, momentaneamente, observando manchas no assoalho, riscos de algo sendo arrastado. Mas era impossível...
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  Glitch.
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  A parede de cimento queimado do consultório de Fennhoff levava a apenas uma estante naquele lugar, de metal, revestida por uma camada descascada de tinta especificamente para a superfície, mas que deveria ter sido pintada há bastante tempo, uma vez que estava descascando. Tremendo, %Anya% se aproximou da estante, lançando um olhar ansioso na direção da porta dupla trancada, observando brevemente o aviso da tranca por reconhecimento digital suavemente piscar em meio à penumbra do espaço, antes dela voltar-se para a estante. Tremendo, ela usa toda a força de seu corpo para empurrar a estante para o lado.
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  O rangido alto do metal em contato com o concreto queimado envia arrepios pelo corpo de %Anya%, uma sensação estrangeira e igualmente familiar a envolvendo enquanto novas marcas surgiam no chão. O mesmo padrão, o mesmo caminho, ela não percebe, mas ela não havia sido a primeira a fazer aquilo.
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  Sua respiração torna-se mais pesada e irregular, o ar invade seus pulmões agora de forma brusca e demanda por espaço, o peito expandindo e contraindo-se enquanto sua garganta está desconfortável, seca, raspando. Ela instintivamente leva sua mão esquerda em direção a seu pescoço, como se pudesse fincar suas unhas ali e arrancar a sensação de desconforto, mas no máximo ela apenas usa para convencer-se de que não estava sonhando outra vez. Porque à frente dela há um elevador.
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  Estranho, de metal revestido, lustroso, e com um brilho azulado intenso nas extremidades. São portas duplas, logo o elevador deveria ser industrial, ou, ao menos, preparado para carregar mais peso e coisas do que pessoas. Há algumas manchas de graxa no painel, os botões parecem em perfeito estado, indo do zero ao nove, e então do S1 ao S9. Ela não percebeu os números acima, no pequeno painel de aviso em que andar o elevador poderia estar parado, começar a diminuir aos poucos, anunciando que o elevador estava se movendo outra vez. Os olhos dela estavam fixos no painel, nos botões, que agora estavam começando a sangrar.
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  Ping. %Anya% prendeu a respiração, voltando seu rosto imediatamente para as portas que se abriram a sua frente, sentindo seu corpo gritar para que ela se movesse, para que ela corresse daquele lugar, para que ela fizesse alguma coisa embora estivesse congelada no lugar. Os olhos %cinzaprateados% se encontram momentaneamente com os azuis esverdeados, os cabelos longos e a máscara que envolvia a parte inferior do rosto do soldado cobrindo-o ao ponto de impedir sua identificação.
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  — %Anya%?! %Anya%! — Ela piscou rapidamente, os olhos obscurecendo sua realidade por uma fração de segundo, e quando ela abriu novamente, imediatamente se encontraram com o rosto desdenhoso e divertido de Lyubov. %Anya% engoliu em seco, dando um passo para trás, chocando-se contra uma parede de concreto queimado, confusa. Onde ela...? Quando...? Por que ela estava com tanto medo...?%Anya%! — Lyubov estalou os dedos a frente de seu rosto, agora, parecendo um pouco mais impaciente.
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  A outra bailarina já estava vestida com suas roupas de apresentação. O corpete delicadamente costurado a mão com os padrões florais que poderiam parecer delicados, mas que a intenção era puramente refletir algo assombrado, um padrão delicado mas que ainda assim passasse a mensagem de forma efetiva:
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  — Onde está Natasha? — %Anya% arriscou-se a perguntar, fazendo uma careta ao sentir o gosto de sangue pungente se espalhar ainda mais por sua boca e garganta. Ela segurou novamente sua garganta, praguejando baixo, arrependida de ter usado sua voz, mas então, ela não tinha certeza de que estava realmente falando. Era como se ela tivesse exposto para Lyubov apenas uma intenção, ou ao menos, tentado falar tal coisa, mas ela não estava ouvindo sua própria voz. Por que seus ouvidos estavam tão abafados agora? E por que sua garganta estava doendo tanto aquele dia? Que dia era...?
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  — %Anya%! — A voz de Lyubov ecoou pelos ouvidos de %Anya% de novo, em meio a um risinho baixo de outras duas bailarinas que só poderiam ser Katerina e Darya. %Anya% tentou buscar em sua mente por que diabos Katerina e Darya não gostavam dela, mas a verdade é que ela só encontrou uma lacuna . — Kudrin resolveu mudar os papeis, você agora é um dos fantasmas, não Giselle.
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  %Anya% franziu o cenho. Como assim? Mas ela estava treinando tão duro, tinha decorado a coreografia e ensaiado por... por... meses?... %Anya% desviou os olhos do rosto divertido e desdenhoso de Lyubov, e encarou o véu que ela tinha em suas mãos, tocando-o com uma ponta estranha de letargia. Seus dedos percorreram o tecido, mas sentiu como se estivesse amortecida, seus dedos percorreram a extensão do pano delicado, observando o véu apenas criar uma nota esbranquiçada em sua pele, enquanto farfalhava suavemente, os cantos das unhas dela enroscando-se perigosamente no material, ameaçando desfiá-lo por acidente. Mas ela apenas conseguia encarar sua mão... não eram suas...
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  Ela fechou e as abriu, sentindo o tecido se enrugar e contrair contra a palma de suas mãos, mas a sensação ainda era estrangeira. Os ouvidos dela estavam pulsando agora, as vozes desaparecendo ao longe enquanto soavam abafadas como se ela estivesse de baixo d’água. Sua respiração era o único som que reverberava alto o suficiente para que ela conseguisse escutar de fato. Seu estômago contraiu, de novo, e de novo, e de novo, e ela sentiu a estranha sensação do suor começar a se formar em suas costas e pescoço, gélido. %Anya% abriu e fechou a sua mão, respirando pesado, sua visão, de repente parecendo estar saturada, desconexa, estava mais vivida, mas igualmente embaçada. Por mais que %Anya% tentasse focar seu olhar sobre algo, ela não conseguia de fato, parecia apenas... estrangeiro.
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  Ela ofegou, desorientada. Lyubov ainda estava falando alguma coisa. Tirando sarro das sapatilhas de %Anya% ou comentando algo sobre como Natasha iria ser melhor no papel de Giselle com um tom condescendente, e, bem, bom para Natasha, certo? Mas %Anya% não conseguia livrar-se daquele maldito loop. Sabia que deveria se arrumar o mais rápido possível que ela conseguisse, mas a sensação desesperadora de estar fora de seu corpo, amortecia tudo ao seu redor, diminuía a prioridade e ela não sabia dizer ao certo se sequer conseguiria se concentrar em outra coisa no momento. Mas o show precisava continuar.
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  Então, a passos rápidos, ela caminha em direção ao camarim, virando à esquerda, e descendo rapidamente a escadaria de madeira, apoiando-se contra a parede enquanto tateava seu caminho cegamente. Ela prendeu a respiração com força, assim que conseguiu alcançar a porta certa, agarrando-se à maçaneta de metal da porta, tentando de forma desesperada abrir a maldita porta e falhando miseravelmente. %Anya% lançou-se contra a porta emperrada, sua visão embaçada demais para conseguir enxergar direito o que estava à sua frente, girando com mais força a maçaneta, até conseguir, usando seu próprio peso, empurrar a porta.
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  %Anya% se desequilibrou, desabando no chão com um alto thud.
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  A luz a ofuscou. %Anya% franziu o cenho, desorientada, sua respiração agora transformava-se em um pesado ofegar, irregular, e escapando mais rápido do que deveria por entre os lábios entreabertos dela. %Anya% ergueu o braço esquerdo em direção ao seu rosto, a fim de proteger seus olhos da intensidade do holofote focalizado em seu rosto. %Anya% franziu o cenho, lançando um olhar ao seu redor, os olhos %cinzaprateados% dela cintilando com as lágrimas que começavam a se acumular, escorrendo por suas maçãs do rosto sem que ela sequer as sentisse.
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  Tecido agitava-se ao seu redor. O ruído das sapatilhas era alto o suficiente para que ela pudesse ouvir apesar dos ouvidos abafados por sua pulsação, enquanto as outras bailarinas disparavam ao seu redor, seguindo a coreografia. O véu cobrindo seu rosto apenas piorava a situação, seu coração martelava dolorosamente contra sua caixa torácica, a adrenalina amortecendo a dor de seu calcanhar direito que ela provavelmente deveria ter torcido com a queda.
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  Levou alguns breves minutos até que ela percebesse o que estava acontecendo ao seu redor. %Anya% tentou se levantar o mais rápido que conseguia, tremendo, mas seus músculos estavam travados. Em cima do palco, ela podia sentir os olhares surpresos, e até mesmo condescendentes da plateia voltados para ela. Soldados, sua maioria eram soldados de alta patente do exército vermelho, acompanhados de suas famílias é claro, ou apenas sentados juntos com seus amigos. Soldados... por que diabos soldados estariam ali? %Anya% tentou pedir por ajuda, voltando seu rosto na direção de Lyubov ou até mesmo Natasha, mas foi somente quando seu rosto capturou todos os espaços do palco que ela percebeu, em pânico, que estava sozinha.
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  A saia de sua roupa de apresentação farfalhou, o tecido, mesmo que fino e delicado, a fim de oferecer um ar etéreo para a apresentação, arranhou sua pele de maneira desconfortável. Sua garganta estava doendo ainda mais, desta vez, sufocando-a enquanto ela tentava se lembrar de como se respirava. Ela poderia se arrastar para fora do palco, mas a imagem seria humilhante. Ela poderia tentar se levantar, mas não sabia por quanto tempo conseguiria se manter em pé: seu tornozelo estava latejando pela queda, provavelmente torcido, e ela tinha a sensação sufocante de que algo grosso, encorpado e líquido escorria por seus ombros e sua nuca. O que estava acontecendo? O que ela não estava vendo? O que estava falhando em perceber?
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  %Anya% piscou uma, duas, três, quatro vezes, balançando sua cabeça e tentando desesperadamente arrancar de seu rosto o véu que cobria suas feições. As unhas se fincaram em sua pele, deixando para trás marcas avermelhadas, o tremor de seu corpo agora era mais violento, e ela tinha a sensação terrível de estar caindo sem ter lugar algum para se apoiar. Ela arrancou o véu de seu rosto, ofegante, e então, os olhos %cinzaprateados% dela se encontraram com uma plateia vazia, apenas um soldado presente.
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  — Não... não, por favor... por favor... — sussurrou %Anya% em pânico, observando-o, não caminhar em sua direção, mas a arma que ele empunhava. A máscara preta cobria como uma mordaça a parte inferior do rosto dele, ocultando suas feições enquanto o braço biônico esquerdo reluzia de forma esporádica conforme a luz dos refletores se encontrava com ele, projetando mais sombras em seu corpo e rosto, obscurecendo os olhos azuis esverdeados do homem. Os cabelos castanhos escuros, consideravelmente longos, pendiam por seu rosto, mas era a tinta preta espalhada ao redor de seus olhos que havia incomodado %Anya%. Camuflagem. — Por favor, você não precisa... — %Anya% começou a implorar, deixando-se cair para trás, e então, usando toda a sua força para tentar se arrastar para longe dele.
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  Sabia que não poderia fugir do disparo se ele apertasse o gatilho, mas ainda assim, vã e tola era sua esperança de ao menos manter uma distância possível entre si mesma, e seu provável assassino. Ela soluçou baixo, as lágrimas agora pingavam a frente do corpete com pedras delicadas compondo sua fantasia branca, acompanhado pelo sangue que escapava de sua boca. O vermelho pungente do sangue dela escorreu por seu pescoço, rapidamente tingindo a frente de seu corpete branco em uma imagem nojenta, como se tinta tivesse sido acidentalmente derramada no tecido, fazendo-o pesar contra a pele dela, cálido, encorpado, horrível.
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  Algo pulsou dentro dela, acompanhando seu coração.
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  O Soldado destravou a arma com um clic clac, subindo no palco. Suas botas pesadas, deixando um rastro de neve e sangue enquanto caminhava na direção de %Anya%. Ela pensou em implorar novamente, mas desta vez, sua voz não saiu de sua garganta. As costas dela se chocam com a parede de concreto queimado, e ela não percebe que bateu a cabeça contra a superfície. Ela ofega, piscando algumas vezes quando seus olhos novamente ficam embaçados demais para que ela percebesse qualquer coisa à sua frente, tremendo com força. Outra pulsação, reverberando por seus ossos, e por seu corpo, intensa.
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  %Anya% apoiou as duas mãos contra a parede de concreto queimado, agora seu chão, enquanto as botas do soldado paravam a poucos centímetros de distância de seu rosto. %Anya% congelou no lugar, suas unhas fincando com mais força contra o concreto, quebrando-as, unindo suas sobrancelhas, tossindo com força, a dor insuportável em sua coluna revelava o buraco em seu estômago aberto onde o primeiro disparo havia a acertado. Sangue tingiu o chão a sua frente enquanto ela tentava se afastar dele. Não que ela fosse conseguir, de qualquer forma.
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  — Por favor... — implorou %Anya%, soluçando baixo.
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  E o Soldado Invernal hesitou.
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  Por uma fração de segundos, %Anya% encontrou com os olhos azuis esverdeados do homem, e em meio ao silêncio, por breves impossíveis segundos, quase havia tido compreensão ali. %Anya% viu surpresa, confusão e algo estranhamente vago como assombro, e ela tinha certeza que ele não iria apertar o gatilho, embora o tenha feito antes. Por uma fração de segundos, ela quase teve certeza que ele teria a ouvido, mas então, algo mudou em sua expressão, e os olhos azuis esverdeados tornaram-se mais obscurecidos, ameaçadores.
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  O Soldado Invernal usou a ponta de sua bota para empurrar o corpo de %Anya% para trás fazendo-a virar a barriga para cima antes, antes de apontar a arma na direção da cabeça dela. %Anya% tentou negar com a cabeça, implorando para que ele não o fizesse, implorando por sua vida, implorando para que ele não fizesse...
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  Ele apertou o gatilho.
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  %Anya% acordou com um grito preso em sua garganta.
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  Estava suando o suficiente para ter feito com que a fronha de seu travesseiro tivesse ficado umedecida enquanto o vento gélido invernal russo adentrava pela janela parcialmente aberta. %Anya% piscou algumas vezes, tentando entender onde estava e como havia parado ali. Os olhos %cinzaprateados% dela se arregalam enquanto ela observava as mãos dela, os braços, buscando por pistas, buscando pelo sangue que havia manchado o concreto. %Anya% tocou seu tronco, verificando seu abdômen e sua cabeça, buscando pelos buracos dos disparos, mas a pele estava lisa. Ela passou os dedos por seus cabelos suados, tentando afastá-los de seu rosto quando a porta de seu quarto foi aberta com força.
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  %Anya% havia se preparado para defender-se, mas os olhos grandes, animados da garotinha, cintilando com animação e uma mistura de inocência infantil que chegava a ser dolorosa. Ela tentou forçar um sorriso para %Marya% enquanto a garotinha corria em direção a sua cama, com um sorriso largo, deixando à mostra as covinhas adoráveis que ela tinha em suas bochechas gorduchas e rosadas, rindo baixo, enquanto carregava Alpine em seus bracinhos.
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  Sestra! Sestra! Olha! Olha! Olhaaaa! %Marya% riu baixinho, no ápice de sua animação infantil, esticando Alpine na direção de %Anya%, a fim de mostrar o gato velho, branco e ranzinza vestido como um maldito elfo natalino, parecendo estar no limite de sua tolerância com a garotinha rindo de sua arte. — Posso levar comigo hoje?
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  Papa deixou você fazer isso? %Masha%, tá machucando ele, por que fez isso? %Anya% resmungou com uma ponta de paciência, mas, ao mesmo tempo, entendendo que a garotinha era apenas uma garotinha, e a responsabilidade de cuidar dela era de %Anya%.
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  %Anya% apertou os lábios com força, lançando um olhar breve na direção de %Marya% que ainda estava rindo como a garotinha travessa que era, jogando-se em sua cama e se enrolando com o lençol de %Anya%, se aninhando como um pacotinho antes de sentar novamente, balançando as perninhas para frente e para trás, animadamente. Alpine rosnou baixo, deixando os dentinhos a mostra enquanto %Anya% tentava retirar a fantasia que %Marya% havia colocado no pobre gato.
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  Você vai hoje mesmo? %Marya% questionou baixinho, encarando %Anya% com um olhar sentido, e %Anya% sentiu algo dentro de seu peito partir-se ao olhar o rostinho de sua irmã mais nova, e por um momento, as palavras fogem de sua boca. %Anya% engoliu em seco, franzindo o cenho consigo mesma, terminando de retirar as roupinhas de crochê que ela havia feito para as bonecas de %Masha%, e não o maldito gato, e repousá-lo no chão, antes de voltar-se para a menininha, alçando-a com cuidado, e colocando-a sentada em seu colo, tentando abrir um pouco o lençol que ela havia se enroscado. — Não quero que você vá embora...
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  Eu sei, eu sei, mas eu não estou indo embora, eu só estou indo ajudar Papa, hm? %Anya% tentou dizer da forma mais suave que ela conseguia, afastando uma mecha do cabelo desgrenhado de %Masha% com cuidado, observando o rostinho da irmã mais nova com uma ponta de pesar. %Anya% tinha quase certeza que não iria vê-lo mais, ainda assim, forçou um sorriso gentil, assentindo para a menina, tentando tranquilizá-la da forma que podia. — O papai vai voltar logo para casa, e a senhora Olga já disse que vai gostar de ter você com os pequenos dela, você mesma disse que gostava de brincar com Dima e Aliocha. E assim que me liberarem do treinamento, eu ainda vou poder voltar para visitar você antes de ir para o front.
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  %Marya% fungou baixinho, se encolhendo contra %Anya% enquanto mantinha a cabeça baixa, encarando os pezinhos com um beicinho triste. %Anya% suspirou suavemente, apoiando o queixo sobre a cabeça da garotinha enquanto acariciava a costinha da menina, tentando reconfortar a irmã mais nova.
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  Você não vai voltar %Marya% sussurrou, acusatória, e %Anya% pressionou os lábios um pouco mais, inspirando fundo e tentando controlar suas próprias emoções. %Marya% poderia ser uma criança pequena e ter preocupações simples como atormentar Alpine e esconder doces debaixo de sua cama, ainda assim, não estava protegida das manchetes de jornal e das estações de rádio. %Anya% havia tentado o máximo que conseguia deixá-la a salvo das notícias que chegavam dos fronts, afirmando que seu pai teria mandado uma carta informando se algo ruim tivesse acontecido. %Anya% sabia, todavia, que isso era uma mentira, e que muitos dos soldados que estavam lutando nos fronts naquele momento, afim de tentar parar a ameaça alemã, não voltariam para casa. Muitos destes já deveriam estar mortos, e %Anya% seria, por consequência, mais um nome. — Por que você vai me deixar sozinha? Você não vai voltar, e eu não quero ficar sozinha...
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  %Anya% inspirou fundo, beijando a têmpora da garotinha, incapaz de dizer mais alguma coisa, especialmente, porque ela sabia que seria uma mentira.
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  Você não está nem mesmo aqui agora %Marya% acusou, e %Anya% franziu o cenho, confusa, o que diabos...? — Você não está aqui, %Anya%. Você precisa acordar. Acorda %Anya%.
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  Acorda.
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•••

SNOW| AGORA
  Graz, Áustria.

  O corpo dela desabou no chão com força, esparramando-se pelo concreto queimado com espasmos.
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  Ela rolou no chão, suas costas nuas pressionadas contra a superfície sólida e gélida quando seu corpo novamente recebeu um espasmo, suas costas se curvaram, a garganta dela trancando por um momento enquanto ela buscava por mais ar. Os olhos rodaram por suas órbitas em convulsão. O cheiro pungente de carne queimada invadia suas narinas, o ruído elétrico ecoando por seus ouvidos, amortecendo-os por um breve momento, antes de conseguir registrar o que diabos estava acontecendo ao seu redor. Ela se engasgou, arfando por ar, a tosse rompeu por sua garganta e boca, como garras dilacerando-a de dentro para fora. O sangue estava acumulando-se ao seu redor, a sensação elétrica que percorria sua pele não apenas reverberava por seus dentes. O ruído em seus ouvidos, altos e desorientador aos poucos começam a diminuir, enquanto os olhos dela, finalmente, conseguem se focar em algo.
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  Ela congelou no lugar.
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  %Anya% virou o rosto para o lado, suas pupilas contraindo-se e descontraindo-se, focalizando na presença de diversos sapatos agora parados à sua frente. Ofegante, %Anya% tentou se levantar, mas a dor em sua cabeça foi lacerante, pulsando, arrastando-se lentamente ao fundo de sua mente, destruindo e corroendo tudo o que encontrava pelo caminho. Ela tentou se levantar, mas seu corpo não estava respondendo, não estava obedecendo. As lágrimas outrora presas, agora fluíam por seu rosto livremente, pingando contra o chão de concreto queimado, manchando-o, misturando-se com seu próprio sangue. Tudo doía, tudo pulsava e ela não tinha ideia do porquê!
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  Os músculos do corpo dela, doloridos, permeavam-se por câimbras. Seu coração estava martelando de maneira errônea, acelerando subitamente e então pulsando devagar, fazendo com que a respiração dela se perdesse por sua garganta, soluços desesperados escapando por entre seus lábios entreabertos e o sangue que escorria por seu queixo. Era como se o próprio cérebro rejeitasse seu corpo, e uma parte de %Anya% desejou desesperadamente arrastar-se para fora de sua própria pele, desejou desfazer-se de cada músculo, de cada tez até que lhe restasse apenas seus ossos, se isso fosse ao menos lhe dar o conforto breve de um segundo de paz.
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  A luzes pálidas da sala eram ofuscantes e momentaneamente a cegaram.
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  Então mãos a agarram com força, dedos fincando-se com brutalidade em seus braços e ombros doloridos, unhas lhe cortando a pele, puxando-a para trás com força, colocando-a de joelhos. Estava completamente nua, coberta por alguma coisa viscosa que não parecia apenas água que escorria por seu corpo de forma nauseante. Mechas de seus cabelos pendiam por seu rosto, grudando contra sua pele, alguns fios adentrando em seus olhos, fazendo-os arder enquanto ela piscava inúmeras vezes para afastá-los de seu rosto. Os olhos ainda embaçados, identificando quase silhuetas, mas não feições, não características relevantes. Ela tentou se soltar das mãos que a seguravam, mas sentiu as unhas rasgarem sua pele com uma dor afiada, aguda o suficiente para mantê-la no lugar.
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  Ela prendeu a respiração com força quando a silhueta que se aproximava dela finalmente tomou forma. Os olhos %cinzaprateados% de %Anya% então encontraram-se com o rosto austero e estarrecido do homem. Os lábios finos apertados em uma linha fina, os olhos, penetrantes e intensos, com aquele tom amendoado nem verde, nem cinzento, fazendo com que ficassem mais escuros do que realmente eram apesar das luzes de led ofuscantes que envolvia o espaço. Os cabelos dele estavam perfeitamente alinhados, penteados, com mechas grisalhas pontuando os cabelos vermelhos. Os olhos dela repousaram em um pequeno crachá pendendo a frente do corpo do homem estranho, ainda, familiar, de certa forma.
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  J. Fennhoff.
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  %Anya% franziu o cenho confusa, com a sensação aterrorizante de que já havia o visto em algum lugar, ou em algum momento, mas sem saber ao certo de onde ela o conhecia, porque ela o reconhecia afinal.
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  Por uma fração de segundos, ele não havia feito nada, apenas a encarado em completo silêncio. De pé, parecia surpreendentemente mais alto do que ela gostaria que ele fosse, mais imponente do que deveria, o alarme de perigo retumbando pelos ouvidos de %Petrovych%, os instintos dela suplicando por uma reação, para que ela fugisse dali, mas foi somente quando ele se colocou de cócoras a frente dela, a fim de fazer com que seu olhar estivesse na mesma altura que o dela, analisando com cuidado a expressão de %Petrovych%. %Anya% inspirou bruscamente, trincando os dentes com força, encarando-o embora seu corpo inteiro gritasse para que ela simplesmente saísse correndo o mais rápido que ela conseguisse.  Ela tinha a estranha sensação de que já havia o visto em algum momento, em algum lugar, mas sem saber ao certo de onde ela o conhecia, por que o reconhecia...
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  — Por favor… me deixa ir... — implorou ela.
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  Sua voz não havia passado sequer de um sussurro. Rouca, áspera, baixa demais para ela sequer ouvir o que estava dizendo, a súplica havia escapado incoerente, um arfar doentio de alguém que não sabia identificar mais o que era realidade e o que não era. Uma prisioneira, em seu próprio corpo, ou talvez, em sua própria mente.
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  — Senhorita %Petrovych%? %Anya%? %Anya%, querida, está me ouvindo? — Ela engasgou, prendendo sua respiração enquanto fechava seus olhos com força. Seu instinto é se afastar de Fennhoff, se debatendo contra os braços que a prendia no lugar, tentando criar o máximo de distância entre ela e o toque dele, mas os dedos dele ainda repousavam em seu queixo, eles ainda se fincavam em sua pele. Ela soluçou, o ato escapando alto e inconscientemente por seu corpo, enquanto ele a forçava a encará-lo novamente. Os olhos amendoados de Fennhoff eram implacáveis, e por um breve momento, ela apenas o encarou, incapaz de reagir.
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  Houve então uma estranha calmaria, como se sua pulsação estivesse diminuindo, mas aquela onda que reverberava por seu corpo inteiro, pulsante e gélida, continuou.
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  — Por favor... eu só quero voltar para casa... me deixa voltar para casa... — implorou ela novamente, mas, como todas as outras vezes, sua voz foi completamente emudecida.
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  Um dos soldados puxou a parte de trás da cabeça de %Anya%, fazendo-a por uma fração de segundos encontrar com os olhos castanhos escuros do homem, e então, ele prendeu no rosto dela uma máscara.
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  A máscara em questão era feita de um material resistente, maleável como tecido, mas firme como metal, fincava-se na pele da parte inferior do rosto de %Anya% com força o suficiente para marcar e deixar vergões vermelhos, até mesmo cortar, mas acima de tudo funcionava como uma bem posta mordaça silenciando-a completamente. Sua respiração, agora escapava com arfares baixos, pesados, por entre os pequenos buracos de sua máscara, um pouco mais alto do que deveria. Outra pulsação percorreu pelo corpo dela, e desta vez, pareceu reverberar em Fennhoff e os outros soldados ao seu lado. Por uma fração de segundos, ela os sentiu.
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  Corações. Pulsando. Ritmados com os dela.
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  — Você está ficando nervosa novamente, querida, preciso que inspire fundo e se acalme — comandou Fennhoff com um tom de voz suave, aveludado, até mesmo convidativo, mas por que aquele homem havia deixado o corpo dela em completo estado de alerta e feito seu sangue percorrer suas veias como lascas de gelo? Ela estava tremendo, e não era porque estava nua, ou molhada, era ele. — Você está em casa, %Anya%, querida — sussurrou Fennhoff, desta vez, limpando as lágrimas do rosto dela, a digital áspera enviando uma onda de náusea involuntária para o corpo dela, o tremor aumentando, uma parte de sua mente, uma parte branca e repletas de lacunas, instintivamente implorando para se mover, para reagir. Gritava, esperneava com o perigo à sua frente. Mas... ela estava em casa. Por que ela teria medo de casa? — Abra os olhos, %Anya%, olhe para mim — comandou Fennhoff, e %Anya%, acatou.
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  Ela abriu os olhos, mesmo contra sua própria vontade, mesmo com seu corpo implorando para que ela fizesse de tudo para escapar, para correr para longe de Fennhoff, e das mãos do soldado que a mantinha no chão. Mesmo quando seus instintos segundos atrás eram resistir, revidar, %Anya% obedeceu. Ela olhou para ele, uma parte de sua mente aos poucos relaxando, involuntariamente aceitando as palavras dele. Mas, por que...?
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  — Você está a salvo. Somos uma família, eu e você, somos um time, uma parceria, você não tem que ter medo de mim, eu estou aqui para te ajudar, eu sou seu amigo. Ela estava a salvo. Eles eram uma família, ela e ele, tudo o que ela queria naquele momento, alguém que pudesse ajuda-la a se lembrar, um apoio, ele era sua família, ele estava ali para ajudá-la, era seu amigo! Ela não tinha que ter medo, por que diabos estava com medo?
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  Não, não somos...
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  O eco desapareceu ao fundo de sua mente, enquanto os olhos %cinzaprateados% de %Anya% se encontraram com os de Fennhoff, bem devagar, quase congelada no lugar, ela assentia a ele. Por um breve momento, %Anya% tem a percepção horrenda de não estar conseguindo controlar seus movimentos, como se seu corpo não lhe pertencesse, como se ele tivesse um comando próprio, um dono próprio. Como se ele pertencesse a... Fennhoff.
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  — Essa é minha garota — Fennhoff disse categoricamente, e %Anya% percebeu que ela era a garota dele. Ela fazia o que ele mandava. Ela não pertencia a si, mas a ele. Ela obedecia.Você vai me ajudar também, não vai?%Anya% balançou a cabeça, concordando. — Bom, muito bom. Você quer saber por que eu despertei você? %Anya% assentiu novamente. Eu quero que você encontre o Soldado Invernal, e eu quero que você o traga para mim. Você consegue fazer isso para mim, querida?
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  — Sim, mestre.
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  NOTA DA AUTORA: de todos os personagens que eu já escrevi sobre, Johann Fennhoff é o que mais me perturba.

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Lelen

Gente, a cabeça desse povo todo é UMA BAGUNÇA, HELP IAODNAOIDN
Passado, presente, futuro do presente, tá tudo indo e vindo e aí eu fico tipo “será se é confusão mental ou será se tão viajando no tempo mesmo, hein?” HAHAHAHAH
Já vimos Bucky como Bucky e como o Soldado Invernal aka com o cérebro lavado, tô até com medo de descobrir o que ele fez com a Anya nesse estado. E o que rolou com Masha, por que ela menina tava com tanto medo? Era uma lembrança real da Anya? Foi implantada? Era dela mesmo a lembrança? Tantas perguntas… INASOPDNAPOD

Soldada

KKSKSKSKSKSKSKS tudo confusão mental, pra conseguir controlar a Hydra tem que tirar toda a segurança deles, tornar vulnerável e dependente, isso INCLUI também a percepção de tempo deles. Mulher, nem te conto, tem uns babados fortíssimos pro que ele fez, tadinho, tava sendo controlado né, mas ainda assim, dois lados da mesma moeda. A Masha é o ponto fraco da Anya, é justamente o que desestabiliza ela, só isso que digo o resto vem com as próximas atts

Lelen

Ok, essa atualização trouxe ainda mais questões para a cabeça IHASIODAIDOO
Essas “lembranças” todas, um turbilhão de confusão, e agora temos um cara que controla a boa vontade das pessoas, achei ofensivo isso aí HAHAH
Vamos ter o embate da Anya com o Bucky em breve? :O

Soldada

Vai sim, próximo capítulo se não me engano ksksksksks AÍ a coisa desanda de vez, especialmente pra Masha

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