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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Fear

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

00 • O Idiota

Tempo estimado de leitura: 29 minutos

DIVORCED | AGORA
Graz, Áustria.

  Vladimir estava tendo um péssimo dia.
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  Primeiro, ele havia acordado atrasado após seu celular ter descarregado no meio da noite, ainda preso no loop de um vídeo pornô, já que ele tinha praticamente apagado na noite anterior, cansado demais para bater uma. Então ele se confundiu com suas roupas, na pressa de se vestir, e só percebeu que estava usando as roupas sujas quando foi erguer seu braço para pegar o maldito pó de café na prateleira de cima do armário da copa ao lado da sala de segurança em que trabalhava, e sentiu o cheiro pungente de suor de sua axila. Mas foi só trinta minutos depois, após ouvir uma longa reclamação de seu chefe, Leonid, e finalmente colocar seu celular para carregar, que seu mundo efetivamente desabou. Uma mensagem apenas do advogado de Martha, sua esposa: os papeis de divórcio.
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  Assinados.
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  Merda! Porra! Vladimir desejou chorar no mesmo segundo, mas se orgulhou ao conseguir ocultar dos olhares curiosos de seus outros colegas. A verdade era que Vladimir sequer se importava com Martha em si. Claro, ele deveria ter se apaixonado por ela em algum dos seis primeiros meses, mas puta merda, ela falava tanto! E sempre havia alguma coisa nova para resolver, alguma merda que ele tinha feito e a deixava mal humorada. Ou então era simplesmente tão grudenta, tão ciumenta, tão irracional! Mas quer dizer, ela era uma puta gostosa quando eles se conheceram, e tinha uma bunda incrível, além disso, os amigos de Vladimir adoravam dizer como ele era sortudo por ter conseguido fisgar alguém como Martha. Vladimir era a porra de um herói. E não importava o que ele fizesse, Martha sempre voltava. Ela era segura. Estável. Foi por isso que ele havia se casado com ela. E por uns seis meses, ele realmente achou que estava com a mulher de sua vida, mas bem... ele tinha necessidades, e detestava a ideia de ficar limitado. Seus amigos enfatizavam que Vladimir era muito novo para ficar limitado a apenas uma mulher, e muito bonito para descartar suas outras opções.
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  E bem, não era como se as mulheres fossem inocentes também.
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  Mas ele havia sido fiel. O tempo inteiro. Durante todo aquele tempo, ele não havia se apaixonado por nenhuma outra mulher: nem mesmo Lydia, Carol, Nilce, Ksenya... não! E olha que haviam melhores, muito melhores do que Martha! Vladimir só queria variedade, era uma coisa de homem! Só isso, ele não queria fazer! Mas Martha ainda descobriu, e Vladimir tinha completa certeza de que a mulher o perdoaria, que eles iriam superar aquela fase ruim do casamento deles, até agora.
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  Depois de tudo o que ele havia feito por ela! Como ela podia fazer aquilo com ele? Como podia ser tão baixa e mesquinha ao ponto de largá-lo assim? De assinar aqueles malditos papeis! Era uma puta mesmo, deveria o estar traindo também, e estava usando o erro dele para conseguir a desculpa perfeita para sair como vítima, mas ele sabia a víbora que ela era. E se Martha achava que ele deixaria barato...
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  — Para a porra de um autointitulado segurança, eu não faço ideia do que mantém seu emprego aqui, Vorobyov, mas definitivamente não é a inteligência — resmungou Leonid Novokov com um tom de voz afiado, ameaçador.
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  Vladimir se tencionou, praguejando baixo ao perceber que não havia ouvido, outra vez, Leonid se aproximar. Ele bloqueou a tela de seu celular, se endireitando, assumindo sua postura mais profissional e durona ao encarar o moreno, mas algo no fundo de sua mente o deteve. Que Vladimir adoraria cortar a garganta de Leonid, isso não era dúvida, mas puta que pariu, se Vladimir não tinha medo do desgraçado, no fim das contas.
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  Leonid estreitou o olhar, observando-o em completo silêncio. Havia algo perigoso em Leonid, algo que soava... insano. Os olhos escuros como a noite pareciam sempre alertas, observando, absorvendo, como se ele fosse capaz de ler a todos, mas ninguém, simplesmente ninguém sabia o que se passava por sua mente. Até onde Vladimir sabia, Leonid era um completo mistério. Não falava muito. Não tinha amigos ali. Passava a maior parte do tempo calado, e ninguém sabia se ele tinha família, pais, irmãos, inferno, nem uma stripper o filho da puta havia sido capaz de foder como qualquer outro homem normal. A única coisa que ele dizia, era que havia sido casado antes, mas a esposa havia morrido há alguns anos. A maioria do Departamento especulava que Leonid provavelmente a havia matado, era a ideia mais lógica e provável considerando que o cara parecia ter saído de uma página policial de procurados. Leonid tinha aquele tipo de olhar. Mas Vladimir acreditava piamente que a esposa morta dele deveria ter se suicidado. Porra, ele também se suicidaria se tivesse que conviver vinte e quatro horas com Leonid.
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  — Vou precisar dizer mais devagar para que você entenda, Vorobyov?
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  Vladimir tencionou a mandíbula com força, negando lentamente com a cabeça antes de voltar sua atenção para as pastas nas mãos de Novokov. Uma sensação de incerteza atingiu o fundo de seu estômago, mas ele habilidosamente conseguiu mascarar suas emoções antes que o olhar cortante de Leonid pudesse perceber mais do que deveria.
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  Por um breve segundo, Vladimir sentiu uma confusão de emoções. Ele sabia que ele estava ali para fazer o trabalho, não era uma questão, e durante todo aquele tempo ele tinha feito. Sem questionar, sem tremer ou hesitar. Mas sempre que Vladimir via as pastas novas que chegavam – e sempre chegavam pastas novas – e ele lia os nomes impressos no material, sempre que ele via as fichas, algo dentro de seu peito apodrecia mais e mais. Era impossível não se sentir sujo ao observar as fotografias. Elas eram tão pequenas... tão frágeis... algumas sequer tinham mais do que 4 anos!
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  Mas antes elas do que ele.
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  No fim do dia, infelizmente, ele não tinha escolha. Não havia muita coisa que Vladimir pudesse fazer, havia? Estavam condenadas. Era o que era. Quer dizer, é claro que ele se sentia culpado. Ele não era um monstro! Seu coração doía por elas, mas era assim que o Departamento X funcionava. Era assim que as coisas ali funcionavam. O laboratório demandava novas cobaias, e as meninas eram trazidas conforme a demanda pedia. Havia sempre mais de onde aquelas vinham. Ele sentia muito pelas garotinhas, mas era melhor elas pagarem o preço do que ele. Ninguém merecia ser tratado daquela forma! Absolutamente ninguém.
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  — Quantas dessa vez? — questionou Vladimir, tentando mascarar o tremor em seu tom de voz e manter a postura profissional e indiferente que Leonid sempre exibia.
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  Vladimir soltou um pigarro, unindo as sobrancelhas, enquanto tomava das mãos de Leonid Novokov as pastas, erguendo preguiçosamente uma sobrancelha para convir desinteresse. Vinte e nove pastas. Vinte e nove garotinhas. As idades variavam entre 6 anos a 13 anos.
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  — Dezessete. Lyudmila deixou claro que não quer nenhuma maior de 8 anos. São mais difíceis de controlar, maior o risco de resistência — respondeu Novokov com um tom de voz baixo, sua voz, gutural, raspando os ouvidos de Vladimir como unhas agressivas. Mas era clara. Estupidamente clara, desprovida de quaisquer espaços para dúvidas. Direta, como sempre. E assustadora. Puta que pariu... os dedos de Vladimir seguraram com mais intensidade as pastas, engolindo em seco.
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  Merda, porra, cacete! Ele não consegue olhar, ele não consegue olhar, ele não consegue olhar...
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  Vladimir obrigou-se a voltar seu olhar para as pastas, assentindo sem dizer mais nenhuma palavra a Novokov enquanto repousava as pastas sobre as mesas. Sentia-se travado. Como se seus músculos estivessem se transformando lentamente em meras placas de metal, enferrujadas e enroscadas entre si, que o impossibilitavam de se mover. Como se houvesse gelo percorrendo sua corrente sanguínea, prendendo-o no lugar. Mas ele precisa se mover. Demonstrar franqueza na frente de Leonid seria pior. Demonstrar que estava sendo afetado por tudo aquilo seria condenar a si mesmo a um destino cruel. Um destino o qual ele não merecia. Aquelas garotinhas estavam condenadas. Fizeram por onde, deveriam culpar a si mesmas. Elas haviam confiado nas pessoas erradas. Elas estavam vulneráveis. Elas estavam no lugar erado, na hora errada! Não era culpa dele. Não era culpa dele. Não era culpa dele! Não era culpa dele! Não. Era. Culpa. Dele! Não era culpa dele!
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  NÃO ERA CULPA DELE!!
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  Dezessete. Dezessete garotinhas entre 6 a 8 anos foram selecionadas por Vladimir. O restante é descartado em uma pilha e entregue a Leonid novamente. Leonid sequer parecia reagir às pastas, eram como nada mais do que apenas trabalho tedioso. O que era esperado. Ele sequer piscou ou hesitou. Não. Leonid Novokov era incapaz de exibir quaisquer sinais de humanidade em sua expressão, mesmo se fosse necessário. Mesmo se sua vida dependesse disso.
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  Um arrepio desconfortável percorreu a espinha de Vladimir que percebia, pela primeira vez em toda sua vida, que a implacabilidade de Leonid não era, exatamente, algo a que deveria se admirar, mas sim, ser observada com atenção. Se ele era tão insensível assim àquelas pastas, então, o quão fácil seria para ele...
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  Click, clack.
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  Leonid engatilhou sua arma, estreitando o olhar enquanto se aproximava das pastas descartadas, os olhos escuros percorrendo-as rapidamente. Não estava lendo as fichas, muito menos os nomes, estava memorizando as fotografias. Os rostos das garotinhas que haviam sido trazidas para a base e que em breve seriam descartadas. Não era culpa dele. Não era culpa dele. Não era culpa dele. Não era culpa dele...
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  — Convoque o restante do esquadrão. Feche os portões no Leste e Norte, avise que a ordem é para que nenhuma escape. Se tiver que caçar, irá caçá-las. Fui claro? — A voz de Leonid era autoritária, mas estranhamente neutra, e por um segundo Vladimir não souve dizer se era capaz de respondê-lo ou não.
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  Era fácil deixar-se levar pela raiva e frustração quando se tratava de Novokov. Era fácil deixar-se convencer de que ele era apenas um esquisitão que não se encaixava em nenhum espaço, que tinha aquele maldito olhar de Vale da Estranheza. Mas então, em pequenos momentos, momentos como aquele, Vladimir era relembrado dolorosamente que de fato: ele não sabia nada de Leonid. Leonid era a porra de um livro codificado e Vladimir mal sabia ler. Era sempre um choque ser lembrado disso.
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  Vladimir forçou um pigarro, endireitando-se, desesperado para manter sua postura de profissional, desesperado para manter as rachaduras ocultadas dos olhos de Novokov, então ele apenas assentiu lentamente.
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  — Onde está a porra da sua arma, Vorobyov?
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  Vladimir arregalou os olhos praguejando entre dentes, e assentindo para Novokov outra vez, incapaz de dizer quaisquer palavras. Ele tocou o rádio preso em seu uniforme, esperando ouvir a resposta de Kuznetsov ou Sokolov antes de repassar as ordens de Novokov, avisando o restante dos esquadrões do comando “Código Azul”.
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  Vladimir se aproximou das mesas um pouco mais ao fundo da sala de segurança, onde alguns servidores estavam, junto com geradores de energia reservas que funcionavam como uma terceira assistência caso a energia principal e os primeiros geradores fossem cortados durante a algum ataque ou incidente. Ele havia deixado sua arma ali quando havia chegado aquela manhã. Merda, onde ele havia colocado? Porra, era por isso que ele tinha que deixar sua arma dentro do coldre, toda vez ele se esquecia de colocá-la de volta no lugar!
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  Os olhos dele percorreram as mesas um pouco mais ao fundo da sala, prendendo, instintivamente, a própria respiração, sem sequer perceber o que fazia. Havia algo de estranho dentro de seu peito. Uma agitação que ele costumava decodificar como reação à Martha, toda vez que sua esposa – bem, ex-esposa agora – parecia estar perto de clicar no botão errado de seu celular e abrir acidentalmente alguma conversa com alguma das outras mulheres com que Vladimir a havia traído.
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  Sua garganta estava estranhamente seca, fazendo com que o gesto de engolir sua própria saliva se tornasse desconfortável. Sua respiração parecia curta e superficial, visivelmente controlada, escapava por suas narinas, mas o oxigênio nunca parecia entrar, como se ele estivesse em algum tipo de estado permanente de falta de ar – e crescente.
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  Então, Vladimir encontrou a merda de sua arma no canto que ele havia deixado, como sempre, mas havia se esquecido porque estava mais desesperado para carregar o celular do que prestar atenção em alguma outra coisa. Vladimir avançou para pegar a arma, destravando-a e retirando o pente com a munição, verificando quantas balas tinha disponíveis. Doze. Um pente inteiro. Engolindo em seco, Vladimir se obrigou a retornar o pente de novo na arma, engatilhando-a, mas suas mãos estavam trêmulas demais.
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  Ele não sabia por que estava tremendo, mas era impossível conter.
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  Tinha a estranha sensação de suas mãos estarem começando a formigar, amortecidas, por algum motivo, quando Vladimir conseguiu, finalmente, destravar e engatilhar sua arma. Seu coração nunca esteve tão acelerado. Sua pulsação nunca esteve tão alta aos seus próprios ouvidos. Não, não era medo, não podia ser medo. E, todavia, era inegável. O martelar intenso de seu coração contra sua caixa torácica começava a se tornar desconfortável, doloroso ao seu peito, enquanto sua corrente sanguínea estava afundando-se em adrenalina e mais adrenalina.
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  Vladimir se voltou, hesitante, na direção de Novokov, como se estivesse determinado a perguntar se ele também estava sentido aquela estranha sensação. Como um sussurro, suave e convidativo na nuca, como se seu sangue estivesse começando a queimar dentro das veias, como um oceano agitando-se em frente à tempestade. Mas da boca de Vladimir, não saiu nada.
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  Novokov não parecia estar prestando atenção. Porra, sequer parecia estar ouvindo alguma coisa. Os olhos escuros estavam fixos no chão, com aquele maldito ar de Vale da Estranheza que ele sempre adquiria quando ficava muito tempo em completo silêncio. Como se estivesse fora de seu corpo ou fosse a porra de um boneco e nada mais. Nunca nada mais humano que isso.
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  Por um breve momento, Vladimir se permitiu observar Leonid Novokov sem preocupação alguma de acionar o lado perigoso ou ser intimidado pelo homem. Os dedos de Vladimir agarraram o punho da arma com tamanha força que o metal gélido machucou a palma da mão dele. Leonid Novokov era estupidamente bom no que fazia. Ele era o melhor entre todos que tinha ali. Ninguém sabia de onde ele vinha, claro, sequer poderiam dizer se ele era humano, mas havia algo que eles não poderiam negar, era a eficiência de Novokov em quaisquer situações. Um super soldado – talvez, melhor.
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  Leonid Novokov era um soldado estoico, impossível de ser lido, mas naquele momento, os olhos dele cintilavam com alguma coisa incompreensível. Leonid virou-se instintivamente na direção de uma das telas de monitoramento, como se tivesse alguém e não a porra de um dos laboratórios. Ele pareceu estar prestes a fazer algo, os músculos de seu corpo se tencionando enquanto as mãos se fecharam em punhos firmes. As sobrancelhas se arquearam em uma expressão que não era vulnerável, mas explicitava uma dúvida, uma mínima, quase imperceptível, hesitação. Os olhos dele buscando alguém... alguma coisa... do outro lado da tela. As mãos de Leonid começaram a sangrar, as unhas entrando nas palmas e as cortando.
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  Vladimir se tencionou. Não, não estava com medo, longe disso! Vladimir não sentia medo de nada, era apenas... apenas precaução. Pura e somente precaução. Eles não podiam falhar em seus trabalhos e Leonid claramente não estava concentrado no que estava fazendo, encarando a porra de tela como se estivesse em algum tipo de transe, acabando de se lembrar de alguém amado que estava esperando-o do outro lado, ou seja lá o que aquela porra de homem poderia ter em sua mente que fosse assim tão digno de nota. Mas então, os olhos de Vladimir registraram algo esquisito, grotesco, começar a acontecer. Da narina direita, uma grossa gota de sangue escorreu, deslizando por entre o lábio superior de Novokov e desabando de seu queixo, pingando sobre a mesa de metal à frente das telas de monitoramento. O brilho azul das telas deixou o sangue de Novokov mais escuro do que de fato era.
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  Vladimir engoliu em seco. Nunca em sua vida havia acreditado que Leonid Novokov era sobre-humano, longe disso. O cara era o mais esquisito que ele já havia conhecido, mas com toda certeza era humano. Mas para Vladimir, Novokov sempre havia sido intocável. Impenetrável. Até agora... o coração de Vladimir se acelerou ainda mais, e ele se questionava se iria infartar a qualquer momento, ao mesmo tempo que a outra parte de sua mente, uma parte traiçoeira e desesperada, começava a espiralar a ideia que tinha em mãos. A oportunidade. Novokov estava vulnerável agora. Completamente e indubitavelmente vulnerável. Leonid Novokov nunca veria o que o havia acertado, tudo o que Vladimir precisava ter era coragem o suficiente para erguer seu braço e puxar o gatilho. Tudo o que ele precisava fazer era erguer sua arma e disparar, e ele nunca mais precisaria se preocupar com Leonid Novokov outra vez. Ele estaria seguro e tranquilo, talvez até ganhasse uma promoção. Com Leonid Novokov fora de seu caminho, Vladimir era o único que sabia como lidar com toda a merda daquele lugar, talvez Vladimir soubesse mais. Tudo o que ele precisava fazer era erguer a porra da arma...
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  Mas ele estava paralisado.
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  Porque se algo conseguia afetar Leonid, então... o que não faria com ele?
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  O momento se esvaiu com um piscar de olhos. Novokov pareceu voltar a si mesmo com uma inspiração funda e afiada, levando a mão esquerda imediatamente na direção de seu nariz e limpando o sangue que fluía dali com uma expressão mais sombria que o normal. Vladimir se esforçava, com muita dificuldade, para manter uma expressão cínica e desprovida de quaisquer outros questionamentos que não fosse apenas um: “e aí? Vai ficar parado?”, sentindo o olhar penetrante de Novokov quase expor sua alma, nua e crua, a seus pés. O que esse cara tinha de tão errado dentro de si? Vladimir já havia conhecido muita gente merda, mas aquilo... aquilo não era normal.
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  — Se mexe.  — É tudo o que Novokov diz e Vladimir não é burro o suficiente para contestar.
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  Inspirando fundo, tentando acalmar sua pulsação cardíaca desenfreada e obrigar a seus músculos tensos a se moverem, Vladimir engoliu em seco, seguindo a alguns passos atrás de Novokov na direção onde as garotinhas deveriam estar esperando.
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  Os corredores que seguiam para a parte subterrânea dos laboratórios, alguns consideráveis níveis abaixo da terra, eram estranhamente organizados e sufocantes. Pálidos, e esterilizados, nada parecia fora do lugar, nem mesmo uma gota de sangue. Os elevadores pesados, com portas duplas, eram revestidos e à prova de balas, mais parecidos com cofres de segurança do que elevadores em si, altamente tecnológicos, funcionavam com base em voz e reconhecimento ocular. Ainda assim, dos três elevadores, um possuía marcas de mãos perturbadoras, como alguém que havia tentado abri-las a força. Mas era impossível para que um humano o tivesse feito. O mito era que havia sido Wolverine o culpado por fazer aquilo quando escapou, mas Vladimir não tinha muita certeza. Toda vez que eles eram obrigados a descerem até aquela parte da base, nos níveis subterrâneos, era sempre perturbador. Havia uma estática estranha que pairava no ar. Uma tensão invisível que carregava o espaço e o fazia parecer sufocante. Branco demais, limpo demais, silencioso demais.
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  Por entre as celas e capsulas de contenção, havia monstro por todos os lados. Acorrentados até a boca e contidos contra a parede, suspensos no ar, aprisionados dentro de máquinas de contenção que estalavam com o eco de choques elétricos ou então submersos em um estado de coma induzido. Trancas pesadas impediam que pessoas de fora acessassem aquele lugar, nem mesmo Vladimir possuía acesso ali, apenas o alto escalão o tinha, e dentre eles, estava, é claro, Novokov.
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  Vladimir ignorou a sensação de desconforto que começou a emergir e inundar seus pensamentos, ignorando o tremor que percorria todo o seu corpo, engolindo em seco, e preparando-se para o que estava por vir, ouvindo alguns gritinhos desesperados de garotinhas sendo arrastadas de uma das salas para outra, separando-as das mais velhas, quando um movimento em sua visão periférica chamou sua atenção.
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  Vladimir uniu as sobrancelhas, virando-se na direção de onde a mancha havia chamado sua atenção, hesitando. Não, ele não deveria se afastar de Novokov. As ordens eram claras, seguir o que Novokov dizia, não fazer perguntas, esquecer o que acontecia ali embaixo. Vladimir não era exatamente a pessoa certa para arriscar sua vida por pura curiosidade. Então ele tentou ignorar, mas bastou seus olhos encontrarem os dela que tudo desapareceu.
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  Por um breve segundo, Vladimir só conseguiu encará-la, estupefato.
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  Ela era a criatura mais linda que ele já havia visto em toda sua vida. Nem mesmo em seus sonhos mais selvagens, nem mesmo quando ele viu Ksenya de joelhos, entre suas pernas, engolindo praticamente tudo, seria o suficiente para compará-la. Ela era completamente de tirar o fôlego. Cabelos %vermelhosescuros% pendendo delicadamente por seus ombros, olhos %cinzaprateados%, intensos, fixos no rosto dele com uma mistura de inocência e medo, e algo dentro de seu peito se aperta para chegar até ela para protegê-la. Vestida de bailarina, impecavelmente. Escondendo-se atrás de uma das paredes, e encarando-o... encarando-o como se ele fosse o único que pudesse salvá-la.
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  A respiração de Vladimir se perdeu em sua garganta, e então ele tomou sua decisão. Ele iria salvar ela. Não importava o que acontecesse, ele iria salvar ela. Seu coração martelava dolorosamente contra seu peito, com uma crescente arritmia, descompassado e amortecendo suas mãos de leve. Vladimir engoliu em seco, lançando um breve olhar para as costas de Novokov, antes de disparar na direção contrária da qual deveria seguir, em direção à mulher. Ele precisava alcança-la. Ele iria salvá-la.
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  Custasse o que custasse, ele iria salvá-la.
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  Mas a mulher soltou um chiado baixo, desprovidos de qualquer som possível, arregalando os olhos quando ele a flagrou, e imediatamente começou a correr, em desespero. Vladimir sentiu o desespero aumentar por seu peito enquanto ele se obrigava a correr mais rápido que seu corpo permitia. Por que ela estava fugindo dele? Ele não era um monstro ali! Ele só queria ajudar! Ele iria ajudá-la! E então ela ficaria grata pelo que ele havia feito, e eles seriam felizes. Era assim que funcionava. Era assim que sempre funcionaria.
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  Os cabelos %vermelhosescuros% dela deslizaram pelo ar suavemente, pareciam ser tão macios, tão sedosos ao toque. As pernas elegantes de bailarina se moveram com surpreendente força, velocidade, para alguém tão frágil como ela. Como ela havia entrado ali? Quem era ela? As perguntas espiralavam pela mente de Vladimir enquanto ele tentava alcança-la, descendo escadas, e virando em corredores pálidos e mais pálidos, em um labirinto de celas que se tornavam mais grossas e mais antigas do que deveriam, os números gravados nas portas quase desaparecendo, enquanto o espaço adquiria um ar esquisito de ter sido esquecido pela passagem do tempo, um ar de contenção proibida e restrita que nem mesmo alguns do alto nível pareciam parecer e, todavia, lá estava, as portas estranhamente abertas, com manchas de sangue obscurecidas, secas e antigas demais para que ele se preocupasse com sua própria segurança.
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  — Espera! Eu... eu só quero...! — Vladimir balbuciou sem fôlego, quase implorando para que a mulher parasse de correr, para que a linda mulher não tivesse medo dele. Ele não era um monstro, ele estava ali para ajudá-la. Ela deveria parar de fugir dele!
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  Mas tudo o que ela fez foi olhar por cima do ombro, encarando-o com uma ponta de horror, os olhos %cinzaprateados%, doceis e frágeis, exibindo uma nítida vulnerabilidade, como se ela fosse quebrar a qualquer momento, o que fez Vladimir querer abraça-la e protegê-la. Pior, o fez querer mantê-la somente para si mesmo. Pureza. Era isso que Vladimir havia buscado sua vida inteira. Pureza. Não a merda que ele havia encontrado em todas as outras mulheres com quem ele havia estado, que caíam tão fácil, desesperadas por atenção, vadias e corruptas. Não, era alguém como ela. Pura. Intocada. Delicada como uma brisa.
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  Vladimir piscou, e então a mulher desapareceu completamente.
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  Por um breve momento ele encarou o vazio à sua frente completamente estupefato e em choque. Para onde ela havia ido? Ela estava à sua frente não fazia nem mesmo dois segundos! Mas então os olhos dele repousaram na entrada de uma sala ampla, obscurecida pelas luzes apagadas e coberta por uma camada densa de poeira, enquanto um ruído contínuo, elétrico, ecoava pelo espaço. Uma escadaria feita de cimento queimado se abriu à sua frente quando ele se aproximou das portas que deveriam ter pelo menos 70 centímetros de grossura, em uma mistura de metais poderosos e vibranium. As trancas, antigas e renovadas, altamente tecnológicas, estavam quebradas, havia um glitch continuo em um dos painéis com o vidro trincado, piscando em um alerta que Vladimir não conseguia ler direito devido às fissuras e do cristal líquido das telas. Havia um cheiro intenso de borracha e carne queimadas espalhando-se pelo ar enquanto os olhos dele absorviam o espaço com uma expressão assustada.
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  Câmaras de criogenia.
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  Em sua maioria estavam vazias, exceto por uma. Ao centro da sala, um pouco mais ao fundo, enterrada entre o chão e escorada por inúmeros tubos e fios vindos do teto com estrutura industrial. Pilhas e pilhas de papéis estavam espalhados pelo chão, esquecidos e abandonados, enquanto ele se aproximava de onde a câmara de criogenia estava. Um arrepio percorreu o corpo inteiro de Vladimir enquanto seu coração martelava de maneira intensa contra sua caixa torácica, o peito dele a essa altura estava dolorido e incômodo, mas ele sequer prestou atenção nisso. Não. Os olhos dele estavam fixos no rosto da mulher presa entre os tubos, praticamente congelada, dentro da câmara de criogenia. Lá estava ela, presa pelos cabos e inconsciente, sequer parecia estar viva, os cabelos %vermelhosescuros% emoldurando o rosto dela, flutuando ao redor de si, os cílios tremendo suavemente e o peito subindo e descendo fracamente sendo a única indicação de que ela estava, na verdade, viva. Provavelmente em um estado de hibernação profundo, se fosse considerar a quantidade de fios que a enroscavam no lugar.
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  Vladimir prendeu a respiração sem conseguir desviar os olhos dela. Ele precisa fazer alguma coisa, qualquer coisa.
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  Ela se moveu.
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  Vladimir arregalou os olhos prendendo a respiração ao observá-la esticar a mão na direção dele, os olhos %cinzaprateados%, tão vulneráveis, tão assustados. Vladimir não percebeu que ele havia dado um passo na direção dela, quase que instintivamente, sentindo em seu peito o aperto de alguém que finalmente havia tomado uma decisão – ele iria salvá-la; se ele fosse seu salvador, então ela seria sua.
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  A mão de Vladimir tocou o vidro gélido e espesso, hipnotizado, sequer capaz de perceber que sangue fluía, agora, de seu nariz com mais intensidade, pingando na frente de seu uniforme e no chão à sua frente, tudo o que ele conseguia pensar era na mulher. Na maneira com que ela parecia estar se sufocando, desesperada para alcançá-lo.
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  Então, a mão dela tocou o vidro no mesmo lugar em que a mão de Vladimir estava, e ele soltou uma exclamação baixa, encantado. A mão dela era tão delicada, mesmo coberta por camadas de gelo que deveriam estar doendo para porra. Ele nunca quis tocar uma mulher em toda sua vida. Ele quase podia senti-la. Quente, macia, adoravelmente frágil em suas mãos... porra, ele estava ficando duro só de pensar.
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  Os olhos de Vladimir voltaram a se encontrar com os %cinzaprateados% dela, mas o sorriso de Vladimir desapareceu, dando espaço para uma expressão de horror. Nos olhos %cinzaprateados% havia nada senão apenas pura fúria. Um monstro. Era isso que ela era. Um completo monstro. Mas é tarde demais para Vladimir. As unhas dela fincaram-se contra o vidro espesso, com as manchas do sangue onde as pontas dos dedos dela haviam sido completamente esmagadas com a violência que ela tentou agarrá-lo. O rosto contorcido por dor, e alguma coisa impossível de compreender, mas que chegava próximo a apenas fúria. Uma violência profunda e enraizada profunda demais dentro de si mesma. Mas era tarde dema...
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  Vladimir explodiu.
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  Nota da Autora: sim, descobri recentemente que minha trope PREFERIDA é: Doomed Siblings Angst, não to bem. The Line do Twenty One Pilots, da série Arcane, é uma boa música para servir como soundtrack desse capítulo. Sim, desculpa, mas vai ficar pior. Esta fic é escrita de madrugada, quando estou sobrecarregada com estímulos externos e preciso de uma forma de me regular, portanto perdão antecipado por incoerências, erros gramaticais e algumas confusões, meu e-mail está sempre aberto para discussões e opiniões.

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