Epílogo
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Imprecava incessantemente pelo filho da puta do juiz ter remarcado a audiência para sábado de manhã e o amaldiçoava pelo atraso de quase duas horas.
Agora, na casa dos quarenta anos, sua aparência era diferente. A barba crescera um pouco e deixara os cabelos ao natural, com seus pequenos cachos fartos.
A vida dele mudou radicalmente em virtude da adoção das crianças. Amou a nova rotina e o ser humano quem se tornou junto a Rafael no papel de pais.
Não era fácil a responsabilidade paternal. Alguns precoces fios brancos eram exemplos perfeitos disso. As travessuras foram inúmeras. Descobrira que o problema não era quando a casa estava barulhenta com gritos, risos, palmas ou falas. O problema era quando o silêncio existia. Foi assim como comprou um sofá novo. Em questão de minutos Luciana foi capaz de derramar um litro de óleo de cozinha no piso da sala para brincar de escorregar. Completamente melada, usava o sofá como apoio para se equilibrar – e, é claro, o encharcando com óleo vegetal também.
De outra feita, o bebê, quando começou andar, sabe-se lá Deus como, conseguiu escalar um móvel numa altura fatal caso caísse. Kalisto, empalidecido, o retirou de lá sem fazer movimentos bruscos para não assustá-lo.
Como se não fosse o suficiente, o casal encontrou Luciana brincando com o irmão de pintar. Nada de demais. O problema foi que usaram não apenas tinta guache, mas também as maquiagens de Rafael. Para tentar se limpar das sombras, rímel e lápis de olho – tudo com uma forte pigmentação preta – encontrou uma toalha branca intacta a manchando.
Ao ver a cena, o susto do ruivo foi tão grande que pulou soltando um berro de olhos arregalados.
Depois desse episódio, comprou diversas maquiagens infantis. Pelo menos, dessa maneira, não lidaria com o prejuízo de quase setecentos reais, inclusive porque algumas sequer usara ainda.
Na última semana, enquanto agradecia aos céus por não haver fortes assombros das crianças, Kalisto assistia a TV tranquilamente. O marido fora ao mercado com a filha, então estava sozinho com Gabriel, agora com cinco anos. Infelizmente, seu momento de sossego durou nem dez segundos.
O menino veio do banheiro saltitando. Parou na frente do pai falando:
- Papai, eu bem vi um vídeo de um moço dando mortal. Deixa eu ver se é assim.
O moreno sequer teve tempo de emitir som. Pôde jurar que o coração falhou algumas batidas ao ver o filho reproduzindo um mortal pra trás perfeito sem jamais antes ter realizado o movimento ou, pelo menos, treinado com o auxílio de alguém.
- Consegui! – comemorou o pequeno.
Trêmulo, suando e sentindo fraqueza, Kalisto foi para a cozinha o levando junto para evitar um possível ataque cardíaco. Bem, pelo menos foi uma prova concreta do quão bem seu coração funcionava. Colocou uma pitada de sal embaixo da língua pela pressão ter abaixado subitamente.
Os trâmites legais correram rápido para conseguirem a autorização necessária para ficarem com Luciana e Gabriel. No único problema ocorrido, o qual deixou toda a família em pavorosa, apenas ouvira de Bianca, quem se aborreceu com a situação:
- Ah, mas essa porra será solucionada, sim! Nem que pra isso eu tenha que dar o nome de cada um de vocês pra Maria Padilha quando for conversar com ela no terreiro que meu irmão vai.
Jamais saberiam se Mia honrou sua palavra porque, no dia em questão da gira, Princess teve um show para ir. Porém, em menos de cinco dias o problema foi solucionado e as coisas se encaminhariam.
Apesar da correria cotidiana, seu menino conseguia tempo hábil para aproveitar com os pequenos. Se divertiu quando as laces foram encontradas guardadas no armário. Não era incomum vê-los com suas perucas ou passando maquiagens – agora, maquiagens infantis, bem diferente das suas em consequência da travessura citada anteriormente.
As crianças cresciam com dignidade. Tinham acesso à saúde, educação, atividades extras, vestimentas adequadas... Os pais se alegravam em proporcionar festas de aniversário, passeios, viagens e diversos momentos de alegria os quais eram registrados pelos familiares. E, é claro, assim como toda e qualquer criança, de vez em quando se deparavam com o que não deveria.
Foram obrigados a guardas alguns produtos indevidos para menores de idade – mais especificamente, o lubrificante. Na noite de uma terça-feira, Mia quase arrancou os cabelos do irmão. Batia incessantemente nele com o travesseiro dentro do quarto do casal, bem longe das vistas das crianças.
- Guarda direito as suas coisas, cacete! – pedia entredentes – Nem sei qual foi a história doida que inventei pra explicar o que era o KY pra Lulu!
- Você falou que era pra passar no cú?! – Rafael berrou petrificado.
Ao se dar conta da frase, Mia teve um acesso de riso e o irmão gritou diversas vezes em pleno desespero:
- Cozido! Cozido do almoço! É pra temperar a carne pro cozido pra comer depois.
- Teoricamente você não está errado. – Mia mal conseguia soar compreensível de tanto rir.
Estacionou o carro na rua faltando duas quadras para alcançar o teatro pelo engarrafamento horroroso, então chegou ao teatro sem fôlego de tanto correr.
Se localizou em meio à multidão com a ajuda do marido, quem sacudia a mão para se aproximar.
A aparência de Rafael também sofrera alterações. Deixou o cabelo crescer caindo em ondas macias contornando o rosto – e escolhia cortar alguns poucos centímetros quando atingiam os ombros. Colocou piercing no nariz e o gosto por maquiagens leves para realçarem a beleza permaneceu. Agora, completamente confiante, acordava bem cedo para malhar durante a semana. Se perguntassem o motivo de não aproveitar mais algumas horas de sono, respondia a mesma frase:
- Tenho um marido exemplar, dois filhos maravilhosos, amigos incríveis, um emprego que adoro e uma família que me ama pra cacete! Não tenho tempo pra perder correndo o risco de ter uma crise de ansiedade por causa de estresse.
Hoje não malhava por inseguranças com o corpo ou pra perder peso – assim como André queria quando eram namorados. Malhava para controlar a ansiedade com o auxílio do exercício físico.
- Que demora da porra foi essa, amor?
Deu um selinho nele, se acomodando na cadeira ao seu lado.
- Foi uma merda. – sussurrava aproveitando a troca de turmas pra explicar – O trânsito está um cú, o juiz se atrasou... – cansado, afrouxava a gravata – Corri igual um filho da puta. – apanhou a garrafinha de água estendida pela mãe, tomando o líquido em longas goladas.
- Ainda bem que chegou. Do contrário eu ficaria puto contigo de um jeito que nem sei.
Kalisto sabia. Sabia, sim. E como sabia.
Da primeira e última vez que se atrasou para um evento das crianças, nesse caso na escola, passou quase três meses sem transar. Quando finalmente o coração de Rafael amoleceu por compreender que a culpa não foi do moreno, já que houvera um acidente envolvendo pessoas feridas na estrada, o que ocasionou um engarrafamento terrível, deixaram os filhos com uma das avós durante o dia. Quando retornaram, o ruivo caminhava de uma maneira um pouco desengonçada com semblantes bem tranquilos, além de passarem o resto do mês num bom-humor admirável.
Agora, estavam sentados com sua família no teatro para assistirem à apresentação de jazz de Luciana, quem completara seus oito anos. Os pais eram doidos para vê-la com o figurino adorável de ballet, entretanto a menina detestava aquela modalidade.
- Pai... – reclamou ao ouvir pela quinta vez o quanto ficaria fofa naquela roupa – Olha pra mim. Aonde que eu faria ballet por pura e espontânea vontade? Tem nada a ver comigo, poxa.
A personalidade da menina não combinava com a modalidade. Era teimosa – como Kalisto –, forte, costumava falar alto sem notar – assim como Rafael. Não gostava de nada excessivamente delicado ou rosa demais. Além disso, praticava capoeira desde os seis anos. Capoeira, jazz e sapateado se alinhavam bem mais na sua personalidade, bastante diferente do ballet.
Micaela seguiu os avisos passados pelo filho sobre a causa que entrara em julgamento, influenciado pela moça. Conseguira provar legalmente que não foi ressarcida pelo seu acidente, então recebeu um alto montante pelos anos sem receber o salário devido além do custo extra pelo crime cometido pelo ex chefe. E, devido a outros trâmites, pelo INSS, ganhava um valor extra todo mês. Por causa disso, conseguiu reformar a casa, comprar roupas melhores e ter uma melhor qualidade de vida junto com a filha, agora na faculdade de Psicologia. Pelo salário, aproveitou para pagar uma atividade extracurricular de cada neto.
Observando as crianças, deu-se conta de como era ruim para elas passarem o dia inteiro em casa depois da escola. Então, foram matriculados em outras atividades para não ficarem em ócio. Canalizavam a energia e a atenção em outras áreas, como dança, luta e a aprendizagem de outro idioma, mais especificamente inglês. Como energia não falta na infância, os pais adoravam quando chegavam sonolentas no período da noite.
Gabriel, com cinco anos, estava no colo da avó. Costumava assistir aos ensaios de outras turmas – dentre elas a infantil que se apresentaria após a da irmã – enquanto aguardava junto com Micaela, Mia, o avô ou Lisandra a irmã sair das aulas. Por causa disso, logo notou a falta de um menino, quem havia passado mal e não pudera ir. Como havia sequências em dupla, uma menina ficaria sem par – e era nítido como a menina estava triste com isso.
- Vovó, quero fazer xixi. – pediu com outros planos em mente.
Aproveitou a distração de Lisandra, quem entregara a bolsa para a filha. Pulou do colo e correu para o palco. Os pais só o viram quando se aproximava do palco, então não tiveram tempo de alcança-lo. Porém, ao verem a cena, Kalisto abraçou Rafael por trás, lutando contra as lágrimas de emoção.
Gabriel, por conhecer a coreografia simples, a dançou, fazendo par com a menina de quatro anos. A cena sensibilizou o público, isso sem mencionar Rafael cujas lágrimas desciam embora tivesse um largo sorriso no rosto e o marido beijasse o topo de sua cabeça.
No encerramento do espetáculo de dança Gabriel se distraiu com uma borboleta. A acompanhou voando, se distanciando cada vez mais da família. Muitos foram parabeniza-los pelo comportamento doce do menino, então foi fácil sair das vistas deles.
A ampla área externa estava vazia, exceto por ele. Brincava tentando pegar a borboleta cuja cor das asas era amarela – a sua favorita.
Uma figura o observava ao longe cheia de amor maternal.
Agora, Lúcia estava recuperada. Trajava um volumoso vestido preto cujo corpete vinho delineava a cintura. Por sempre gostar de flores, era comum vê-la com uma rosa vermelha nos cabelos fartos. Havia se fortalecido, já trabalhando para ajudar meninas como quem ela fora – e seu trabalho era maravilhoso.
A mulher começou a entoar um cântico para atrair a voz do filho.
“Papai, me mande um balão
Mas com todas crianças que têm lá no céu
Papai, me mande um balão
Mas com todas crianças que tem lá no céu Tem doce, papai
Tem doce, mamãe
Tem doce lá no jardim Tem doce, papai
Tem doce, mamãe
Tem doce lá no jardim” Por ouvir a música seguiu a voz feminina até encontrar a sua origem. Não teve medo da desconhecida ao se deparar com ela. Os sentimentos de Lúcia eram tão fortes, leves e verdadeiros que essa energia era emanada até ele, o atingindo.
- Meu anjinho. – se agachou ficando na altura dele – Você está tão bonito, tão bem cuidado, tratado... Fico feliz por estar tão bem.
A mãe fez um muxoxo pelo título.
- Eu me sinto muito velha sendo chamada de tia.
- Ah, não tem problema. Pode me chamar de moça. Tudo bem?
- Então, respondendo a sua pergunta. Eu sou uma amiga. Ajudo a cuidar de você e da sua irmã.
- É, mesmo? – os olhinhos brilharam com a informação.
- É. E o que está fazendo aqui fora?
Apontou para o inseto repousado numa flor branca.
- Eu também, mas aqui fora está vazio. Por que não me acompanha? Seus pais devem estar te procurando.
- Se meus papais perguntarem de você, o que eu falo?
- Avisa pro seu papai baixinho que ele não poderia cumprir melhor a promessa que fez pra mim há muito tempo.
- Cuidar de você e da sua irmã. – se pôs de pé – Vamos?
E assim, a mãe o levou até os seus pais de coração.
Agarrado na perna de Lisandra, acenava para a mãe, rindo com as caretas engraçadas feitas por ela para diverti-lo.
- O que foi, Gabriel? – indagou Rafael observando o filho.
- A tia, papai. Quero dizer, moça. Ali, olha.
Apontou para um ponto onde não havia ninguém.
- Ela é muito bonita. – comentou batendo palmas se divertindo por vê-la girar algumas vezes com uma mão na cintura.
- Ah, é? – intrigado, se agachou ao lado da criança – Quem é ela?
- Me contou que é uma amiga. Protege eu e a Lulu.
- Não te contou mais nada?
- Só que você está cumprindo bem a promessa de cuidar da gente.
Mesmo sem ver, sentiu o olhar carregado de agradecimento de Lúcia, quem seria eternamente grata.
Após colocar Gabriel para dormir, Rafael acompanhou a filha até o quarto.
Ia apagar a luz, mas a menina o chamou.
- Papai, me tira uma dúvida?
Foi até ela, se agachando no chão.
- Hoje quando fomos lanchar depois da minha apresentação, vi uma moça com um vestido vermelho muito bonito e um moço de terno com uma bengala. Não foi a primeira vez. Já os vi antes e sempre estão perto da gente. Você os conhece?
- Sim, minha princesinha.
- São amigos meus e do seu pai. Foram eles quem ajudaram você e o Gabe a ficarem conosco.
- É por isso, também, que eu sinto cheiro de perfume e fumaça aqui?
- É, sim. Não precisa ter medo deles, não. Já nos ajudaram bastante.
- Eles devem ser bonzinhos, mesmo, porque a gente não podia ter melhores papais.
A declaração encheu o coração do adulto de emoção.
- E a gente não poderia ter melhores filhos, princesa. Anda, vai descansar. Está ficando tarde. – deu um beijo na testa – Boa noite. Te amo.
O aguardou bater a porta para, furtivamente, descer da cama. Descalça, foi até a janela, de onde podia ver o céu.
- Mamãe, você me viu dançando hoje, né? Foi muito legal. Eu não pude te ver, mas eu acho que estava lá. Te amo, mamãe. – mandou um beijo em direção a Lua – Boa noite porque estou ficando com soninho.
Instantes depois de deitar na cama, sentiu o afago maternal de Lúcia nos cabelos ondulados.
- Também te amo, anjinha. – murmurou quando a menina adormeceu.
Kalisto deixou a porta do quarto encostada, então viu quando Kiara e o vira-lata de porte pequeno entraram sorrateiros.
- Hã, hã, hã. Nada disso.
Repreendeu os cães indo até eles.
Da última vez, não entendeu o motivo deles simplesmente desaparecerem de vez em quando sem o portão estar aberto. Depois descobriram que se escondiam embaixo da cama do casal para dormir. Desde então, era uma regra manter o cômodo fechado. Além de, é claro, comprarem um móvel novo com uma tranca na gaveta ao lado da cama onde guardavam o lubrificante cuja chave foi escondida num lugar incapaz das crianças alcançarem.
Atravessou a sala com os cães, um caramelo e outro preto.
Costumavam dizer que eram um casal no mundo animal. Um não saía de perto do outro. Dormiam juntos, brincavam e, quando Kiara precisou passar por um procedimento cirúrgico, Rams ficou cabisbaixo. A procurou em todos os cômodos. Sequer se alimentava. Pareceu ganhar vida quando a gata passou pela porta, indo de imediato ao seu encontro.
Quinze minutos depois Rafael se acomodou em seu colo sem esquecer de trancar a porta. O beijou com ternura, arrancando do marido um suspiro de satisfação. O finalizou dando uma mordidinha no lábio inferior.
- Como é bom sentir você assim de novo comigo.
O ruivo comentou se virando de costas para ele, quem separou as pernas para acomoda-lo. Recostou as costas no peitoral, sentindo o calor emanado dele.
- Digo o mesmo. – o apertou contra si do jeitinho como sabia que o ruivo gostava – Te amo, bebê.
Aproveitaram aquela união por longos minutos. Como ainda era sábado, podiam continuar mais tempo acordados sem se importarem de acordar cedo no dia seguinte. Trocavam carinhos mútuos, sentindo batimentos cardíacos, as respectivas respirações e toques.
Mais tarde conversaria com Rafael sobre um assunto que já vinha pensando em trazer a pauta.
Amava a sua vida tanto quanto seu menino. Era devoto aos filhos, era ótimo no trabalho e estava satisfeito com a sua família. Porém, havia algo que estava sendo deixado de lado devido à rotina corrida – o casal.
Os dois se amavam como antes. Era inegável. Todavia, existia muito a se pensar no decorrer do dia. Em consequência, a vida deles como casal era ignorada. Era importante estarem conectados, por mais corrida fosse a rotina com trabalho, os afazeres domésticos, a vida artística de Princess e a criação de duas crianças – crianças essas que já conheciam a persona artística.
Uma vez Rafael precisou se arrumar em casa junto a sua equipe. Quando estavam saindo, quase duas da manhã, Gabriel cambaleava em direção a cozinha coçando o olho. Ao avistá-la, pestanejou sonolento algumas vezes sem reconhecer a loira com mechas rosas, quem também congelara ao ver o menino.
- Gabriel, meu lindo. Por que está acordado?
- Papai ou mamãe? – reconheceu a voz do pai, mas não entendeu porque estava vestido como menina e maquiado.
- Sou seu pai, mas, agora, estou... – fez um movimento de cima abaixo pelo corpo – Assim.
Foi até ela, a segurando pela mão.
- Mamãe, pega água pra mim? Estou com sede.
Desde então, Gabriel e Luciana passaram a ter mais contato com Princess, se divertindo com ela quando gravava os vídeos.
De olhos fechados, sentia os toques de Kalisto percorrendo o corpo. O arranhava pelas carícias se tornarem cada vez mais lascivas. Quando a língua percorreu o pescoço, se remexeu entregue ao prazer.
O pau endurecera rapidamente, reclamando por atenção. O moreno parecia desejar instiga-lo cada vez mais, tocando-o em todos os lugares, exceto onde mais queria. Por fim, já ofegante e sem conseguir elaborar algum pensamento, agarrou a mão morena e a direcionou entre as pernas.
- Safadinho. – murmurou com a voz rouca.
- Eu preciso de você. – choramingou.
De imediato abaixou o short puído com a cueca branca, apanhando o membro grosso sem se demorar a iniciar a masturbação lenta. O ruivo estava relaxado com o marido suportando o peso do pequeno corpo.
- Bebê... Eu sinto falta de ficar assim contigo. – sussurrou contra a bochecha.
- Eu também. – gemeu mudando aos poucos a expressão fácil a medida que o prazer aumentava.
Impaciente pelas roupas atrapalharem, Kalisto, seguido pelo marido, retirou as peças, ficando desnudos. Rafael sentou em seu colo. Arquejou quando Kalisto voltou a masturba-lo. Se contorcendo, deitou a cabeça no ombro do amado o abraçando.
- Preciso de mais momentos só nossos. Te amo demais pra querer o contrário. – confidenciou em sua orelha antes de distribuir lambidas nela.
- Aiiiiin... – o gemido baixinho arrepiou o outro – Vamos começar a passar um tempo sozinhos com mais frê... – cravou as unhas nas costas largas – Com mais frequência.
- Pode ser semana que vem, então? Passamos o dia num hotel ou voltamos no dia seguinte.
- O que você quiser. Agora, por favor, me beija ao invés de falar.
Num sorriso satisfeito, Kalisto lhe deu um beijo de tirar o fôlego.
De fato, o combinado seria seguido. Não passaram mais do que cinco meses sem terem um ou dois dias separados exclusivamente para eles. Anos mais tarde, quando as crianças atingissem a maioridade, aproveitariam para viajar por, no máximo, sete dias quando fosse possível. Amavam, sim, os filhos. Porém, se amavam tão intensamente quanto.
Do lado de fora, três figuras distintas passavam pela calçada – mais especificamente uma Cigana com vestes vermelhas, uma moça com um vestido negro de corpete vermelho e um elegante malandro de terno branco com chapéu e bengala. O cântico da cigana ecoava pela rua enquanto a Menina da Estrada soltava gargalhadas e Zé fumava seu charuto.
“Numa noite linda
Numa noite estrelada
7 pontos de estrela marcavam a encruzilhada
7 passos à esquerda um acampamento
Uma dama cigana marcava o movimento Com seu leque de cartas
Ao lado da fogueira
Ela leu a minha mão
E me falou da minha vida inteira O seu nome eu perguntei
Ela me respondeu
O meu nome eu te dou
Sou Esmeralda, a Cigana do amor” E assim como a Pombo-Gira Cigana e Zé Pilintra do Morro socorreram Rafael, Kalisto e Bruno os retirando da escuridão para encaminhá-los de encontro a felicidade, Pombo-Gira Menina da Estrada cuidava dos seus filhos na espiritualidade após entrega-los aos seus pais adotivos.
O trio se encaminhava pela larga calçada deserta para socorrer outra pessoa quem passava por dificuldades similares as de Rafael há alguns anos.
O destino de Rafael foi alterado não quando André armou o terrível plano para separá-lo de quem amava, mas sim quando permitiu que seus caminhos fossem direcionados por entidades as quais ingeriam bebida alcoólica, fumavam cigarro e charuto e xingavam simplesmente porque suas energias eram mais humanas, portanto, compatíveis com a energia do planeta. Entretanto, isso não as tornavam inferiores. De maneira alguma. Eram ótimas trabalhadoras, focadas em auxiliar quem as procurava.
Dizem que, ao passar numa encruzilhada, num cemitério, na areia de praia ou numa estrada, é comum sentir a presença delas. E, se por acaso ouvir uma gargalhada feminina estridente ou uma risada mais rouca quando estiver na rua, agradeça. Não poderia estar mais protegido, mesmo caminhando sozinho.
A rua tem dono – Exús, Pombo-Giras, Malandragem. Portanto, jamais a tema. A respeite e saiba ser grato quando acontecer um livramento da porta da sua casa pra rua. Foram eles que não permitiram. E se algo aconteceu... Bem, já sabem a quem o algoz prestará contas – e não será bonito de se presenciar.
Boa noite, para quem é de boa noite.
FIM