Capítulo 7
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Os dois meses seguintes passaram voando perante os olhos de Rafael, levando consigo a marca da agressão de André.
A nova rotina corrida começava a dar indícios de sobrecarregar o corpo do rapaz. Comia pouco, tinha pouquíssimas horas de sono e o período da noite separava para gravar seus vídeos para o Tik Tok e o Instagram, plataformas responsáveis por sua renda extra e por conseguir arcar com a sua carreira artística.
Nunca na vida imaginou ter uma vida dupla, onde era Rafael para quem o cercava. Porém, nas redes sociais, era conhecido como Princess, uma drag queen ousada, engraçada, forte, atrevida, sensual e de personalidade forte. Tomava as devidas precauções para que somente a família soubesse dessa parte de sua vida, já que, no fundo, não desejava revelar sua identidade pela esperança de finalizar o curso de Direito e conseguir atuar na área – e, é claro, conciliar o trabalho artístico com o de advogado. Portanto, as noites eram destinadas a ela para produzir vídeos e criar roteiros.
Assim como nos demais aspectos dos últimos anos, aquilo não fora planejado. Na verdade, fora ideia de uma certa mulher morena, quem sempre usava perfumes, vestidos vermelhos chamativos e fumava cigarro.
Num sábado estava no lugar onde se tornou seu refúgio. Estava preocupado. Apesar da alta, a mãe precisava de medicamentos caros, assim como andador para auxiliá-la a transitar pelos espaços por longos meses. Apesar de empregado no salão de Cacá, os valores não batiam – e as dívidas começavam a se formar. - Que cara feia é essa? – a mulher indagou com certa amorosidade – Lugar pra tristeza é do portão pra fora. Aqui quero ver alegria e esperança. - É que estou com uns problemas. A moça bonita puxou o tecido da saia rendada do vestido que ia até o pé. O enrolou na mão, a fechou em punho e descansou na cintura. - Mas você está fodido, mesmo, hein? Puta que pariu. A fala lhe arrancou uma risada por ser verdadeira. - Qual é o problema dessa vez? – deu um trago no cigarro. - O dinheiro não está sendo suficiente. Os remédios da minha mãe são caros. - Hum... – refletiu por um momento o encarando antes de prosseguir – Você tem um talento escondido. Por que? - Ah... Eu não acho que... - Por que não desenterra a porra desse talento logo e o aproveita de maneira a lhe trazer dinheiro? Ninguém jamais o indagara sobre isso. Gostava de cantar e tinha uma boa extensão vocal, mas nunca pensou em deixar as outras pessoas cientes disso. - Essa parte eu resolvo. – bateu no próprio peito com autoridade – O seu dever é correr atrás. O resto deixa comigo. É claro, se quiser. A escolha é sua, mas também será o eu dever lidar com as consequências do que escolher. Foi o que Rafael fez. Quebrava a cabeça sobre como iria dar prosseguimento ao conselho até chegar à conclusão de que a melhor maneira era plataformas de vídeos como o Instagram e o Tik Tok. Anotava as ideias, fazia aulas online grátis de canto para aprimorar a técnica vocal e ensaiava quando estava sozinho. Até que, por fim, o hobby tornou-se sua carreira artística: elaborar músicas, compor, cantar e dançar. Durante o processo conheceu sua futura equipe – Victor, Morgana e Nichole. Com a ajuda deles começou a montar sua drag. Demorou cerca de dois anos, entretanto conseguiram gravar o primeiro clip na companhia da Amanda, uma cantora quem se tornara sua amiga e, devido aos vídeos com tantas visualizações nas redes de comunicação, o chamou para gravarem algo juntos. No segundo clip, organizou uma vaquinha com o seu público, quem já pediam por shows de Princess, ajudar a arcar com as despesas. Tinham nada mais além de uma Coca-Cola, talento e a vontade de vencer para os materiais ficarem prontos – e o resultado não poderia ser de melhor qualidade. Em consequência da demanda da comunidade LGBTQIAPN+ se organizaram para elaborar os shows, assim como a playlist. Morgana ficou com a parte burocrática buscando os lugares onde poderiam se apresentar, Nichole foi a responsável pelos figurinos, Victor por ser o DJ e as fotos promocionais, ele por elaborar as coreografias e Morgana pela divulgação. E foi nesse processo o nascimento de Princess, sua persona artística: uma deliciosa correria, agitação, ansiedade positiva e esperança por dias melhores. Era ela quem sumia com as vozes em sua cabeça lhe dizendo que não iria alcançar seus objetivos ou que não tinha valor, afastando as dores e todas os seus problemas. Princess lhe dava forças para seguir em frente e tirar seus projetos do papel para torna-los em realidade. Como era de se esperar, chegou mais cedo na faculdade para estudar. Acomodado na cadeira da sala de aula vazia, sentia-se estranho. O raciocínio era lento. Embora não pudesse ver, a face empalideceu levemente e na testa formou gotículas de suor. Achando ser devido ao calor, decidiu ir até o bebedouro para encher sua garrafinha de água.
Caminhou zonzo se apoiando na parede com uma mão. Os passos eram vagarosos e vacilantes, chegando ao ponto de tropeçar nos próprios pés e precisar apoiar-se na parede com ambas as destras para não cair. Por fim o corpo não suportou e acabou desmaiando – não sem antes ouvir uma pessoa gritá-lo.
Kalisto pôde jurar sentir o coração errar uma batida quando o viu desmaiando metros a sua frente.
Ia para o banheiro antes de comprar um lanche para si. Não tivera tempo de almoçar naquele dia, então precisava enganar o estômago antes de lecionar.
Percorria o corredor deserto quando o ruivo usava a parede de apoio. De imediato notou que havia algo de errado. A palidez não era normal e era óbvia a dificuldade de locomoção. Quando o corpo não se sustentou mais o advogado correu em sua direção sem sequer pensar. O gesto fora automático, instintivo.
Apesar das desavenças, discussões e provocações, jamais lhe negaria socorro.
O segurou no colo de imediato. Alarmado, detestou a sensação do homem inerte em seus braços. Trêmulo pelo desespero, o carregou de volta para a sala em total estado de aflição. Fora de longe uma das piores sensações experenciadas na vida.
Conseguia viver com a separação. É claro, os últimos quatro anos haviam sido angustiantes, porém sabia que o ex estava vivo. O acompanhava nas redes sociais pela sua persona artística. Parecia estar forte, alegre, dono de si e seguindo em frente. Não demonstrou nenhuma fraqueza nas aparições pela Internet, então, vê-lo inconsciente, foi capaz de lhe tirar o ar tamanho o medo de perde-lo ou, que Deus não permitisse, estivesse doente.
Fechou a porta com um chute e sentou no chão o acomodando em seus braços. O único alívio era o peito que subia e descia, mostrando a respiração.
- Vamos, amor, acorda. – numa voz entrecortada graças ao nervosismo, o sacudia de leve passando a mão pela testa para afastar o suor – Por favor, volta. Olha pra mim. Eu estou aqui contigo.
Lágrimas começavam a embaçar a vista, embora teimassem em não descer. O nó se formou em sua garganta, contendo o grito de pânico que claramente começava a tomar forma em suas cordas vocais.
- Vamos, abre os olhos. – encostou a testa na dele beijando onde os lábios alcançavam – Anda, bebê. Acorda. – o balançava como se ninasse o ex numa tentativa de fazê-lo acordar, murmurando vezes seguidas com os lábios roçando na pele de tão próximos num pedido íntimo para despertar – Volta pra mim. Por favor.
No último segundo antes de levantar para gritar por ajuda, Rafael balbuciou:
- O... O que... – confuso se esforçava para abrir os olhos pestanejando.
- Graças a Deus! – o puxou para um abraço apertado.
- O que aconteceu? O que estou fazendo aqui? – retribuía de maneira desajeitada, porém delicada.
- Não sei. Você simplesmente desmaiou. – o pressionou uma última vez contra si antes de se afastar – Como está se sentindo? – as íris atentas o vasculhavam à procura de algo diferente nele.
- Um pouco melhor. – pela primeira vez o fitou.
Os globos escuros transmitiam tanta angústia oriundas da preocupação que o advogado não conseguia esconder o quanto o episódio o afetara. Se fosse qualquer outra pessoa se manteria mais racional, sem desestabilizar tanto.
Fora Rafael quem desmaiara em sua frente a metros de distância. Fora o seu menino quem mal conseguia suportar o peso do próprio corpo ao caminhar alguns segundos antes de ser tomado pela inconsciência. Portanto, não, era incapaz de ficar indiferente ou tomar uma atitude mais lógica. Fora tomado pelas emoções, completamente alucinado com a ideia do que causara aquilo.
- O que aconteceu? Como que desmaiou assim? Está doente ou...
Kalisto tentava buscar por respostas enquanto acariciava o rosto de feições delicadas. Devido ao estado abalado, foi segurado no rosto pelas mãos na tentativa de focar a atenção:
- Calma. Eu estou bem. Deve ser só a minha pressão. A minha rotina está bem corrida, então...
O raciocínio do advogado era veloz.
- Quê? – pela primeira vez soou meio zangado.
- Não estou tendo tempo direito pra comer ultimamente. – a voz saiu mais firme e encorpada.
Por cinco segundos se calou sem quebrar o contato visual.
A resposta foi capaz de mudar as feições faciais. Agora estava visivelmente irritado e lutando contra o seu temperamento para manter-se tranquilo.
- Daqui a pouco vai anoitecer e está apenas com o café da manhã no estômago?
- Tipo isso. – abriu um sorriso amarelo.
- Quer dizer que quase me mata do coração só porque não se alimentou direito?
Precisou de quase dez segundos para responder encarando o teto.
A resposta o fez morder o lábio – gesto que só reproduzia quando estava profundamente irritado.
- Rafael... – fechou os olhos por um momento para controlar o tom de voz. Quando os abriu estava mais equilibrado – Se quiser me matar, pega a porra de uma faca e crava no meu peito. Ou então a caralha de uma arma e aponta pra merda da minha cabeça. É mais prático e bem menos indolor. Só não negligencia a sua saúde pra desmaiar na minha frente porque não comeu porra nenhuma, não. Estive à beira de uma crise nervosa por sua causa.
- Hey! Não desconta as merdas pra cima de mim, não. – indignado, se defendeu – Estou me esforçando pra dar conta da minha vida. É uma correria filha da puta, sabia?
- Não duvido, mas precisa COMER se quiser se FORMAR na CACETA dessa faculdade!
Abriu a boca para retrucar, mas foi interrompido antes de sequer formular uma sílaba.
- Quer saber? Dane-se. Levanta. Me espere naquele ponto onde te busquei por causa da chuva. Em dez minutos passo lá.
Rafael se afastou das pernas de Kalisto para o homem conseguir se pôr de pé. Em seguida aceitou a mão oferecida para erguer-se.
- Pra eu te levar pra jantar alguma coisa.
- Foda-se a aula. De nada adianta se você estiver desmaiando por aí só por não estar devidamente alimentado.
Já se encaminhava para a porta.
- Dez minutos, Rafael. – avisou de costas antes de atravessá-la.
Quando entrou no carro já havia anoitecido. Kalisto não se atrasou um minuto.
- O que inventou pra ser liberado? – colocava o cinto ao perguntar.
- Falei que tive um imprevisto. Precisaria socorrer uma pessoa adoentada da minha família. – respondeu concentrado na estrada – O que não foi de tudo errado, já que, quando não come, um certo ruivo baixinho costuma cair pelos cantos. – lhe lançou um sorriso irônico.
- Cínico. – retirou os tênis para cruzar as pernas no banco – Tem medo disso voltar pra você, não?
- Não. – deu de ombros parando num sinal vermelho – Deus há de perdoar essa pobre alma quem está fazendo uma boa ação por meio de uma mentirinha de leve.
Virou a cabeça para ele lentamente com o cenho franzido e as pálpebras arregaladas.
- É exatamente o tipo de coisa que a minha irmã diz em situações bem específicas. Ela não te pegou saindo lá de casa, não, né?
- Não. Não tinha ninguém além de mim acordado.
- Kalisto? – o pressionou semicerrando os olhos.
Apesar da resposta não se convenceu. Apenas cruzou os braços com um petulante biquinho se formando.
- Aquela garota é capaz de dar nó em pingo d’água.
- Rafael, olha pra mim. Tenho o triplo da idade dela quase. Acha mesmo que eu, homem feito, na casa dos trinta, advogado e adulto seria chantageado por uma criança?
Um meio sorriso diabólico idêntico ao de Mia se formou nos lábios cheios.
- E quando eu mencionei ter sido vítima de uma chantagem?
- Puta que pariu! – praguejou ao ser pego na mentira.
O ruivo soltou uma estrondosa gargalhada.
- Maninha, eu te venero! – batia palmas jogando a cabeça para trás.
- Vamos, por favor, fingir que isso não aconteceu? – suplicou quase gemendo de vergonha – É constrangedor demais.
- Eu vou lembrar, sim, senhor, porque contou sobre como conhecemos o Mike. – deu um peteleco na coxa grossa – Não era pra contar.
- Você lembra disso? – apesar de indagar com leveza, na verdade, sentia receio. Talvez Rafael se lembrasse de como o tratou e não era o que desejava.
- É claro. Não estava tão bêbado assim pra esquecer de como contou a história pros meus amigos. Fora isso, não me recordo de mais nada daquele café da manhã.
- Em minha defesa, eu poderia ter mostrado as fotos que você bateu com ele e os outros traficantes.
Rafael pensou que o sorriso dado por Kalisto era graças às fotos, não de alívio pela sua falta de memória oriunda da bebedeira.
- É óbvio. – contou num tom cômico – Há coisas que não podemos nos desfazer devido ao conteúdo histórico. Os elementos daquelas fotos são carregados de nuances das mais diversas espécies. – gesticulava falando de forma bem engraçada fazendo o outro rir – Os únicos registros que tenho de você chapado e conversando com uma galinha estão ali.
Ligou o som do carro o conectando ao pen-drive para selecionar algumas músicas enquanto voltava a dirigir.
- Em minha defesa a Cremilda era um exemplo de galinha trans. Aquela conversa me ajudou muito com o meu pai, tá? Quem nunca conversou com um animal antes?
- Conversar com o bicho não tem problema. O problema é esperar ele responder.
Rafael abaixou para pegar a mochila e, usando uma pequena alça por ser inofensiva e incapaz de machucar, começou a bater nele.
- Eu estava chapado! Que podia fazer?
- Pelo menos serviu de história pra contar. – se desvencilhou do último golpe com a alça.
Dando-se por satisfeito, o confortável silêncio tomou conta do ambiente com a introdução de The Dog Days are Over.
O vendo mexer a boca acompanhando a letra da música sem emitir som de olhos fechados, reparou que as feições se tornaram subitamente cansadas, como se carregasse o peso do mundo nas costas e necessitasse de um refrigério, uma maneira de diluir aquela carga tão pesada. Pela primeira vez transpareceu o cansaço dos últimos anos – e isso inquietou o outro por não saber o motivo daquela exaustão.
- Está tendo dias de cão, é?
- Porra, nem fale. Doido pra chegar os dias de glória.
- Aconteceu alguma coisa?
- Pergunta difícil numa hora dessa? Tem nem bebida por aqui pra ajudar. – reclamou numa careta desgostosa.
- Por que não extravasa um pouco? Sei lá... Aproveita a música.
- Gritar, berrar, cantar, dançar... Qualquer coisa. Melhor do que deixar tudo aí guardado.
- Relaxa. – fez um gesto com a mão como se afastasse a ideia – Pode te irritar e eu sou super escandaloso...
- Manda o seu namoradinho pra puta que o pariu! Comigo, amo, quero dizer, Rafael, você pode ser quem é livremente.
O coração do rapaz falhou uma batida ao ouvir quando algo semelhante como “amor” saiu pelos lábios do ex.
- Tudo bem. Se não canta você, canto eu.
E assim Kalisto fez. Cantava de forma bem espalhafatosa e alta a plenos pulmões. Viu o semblante cansado do mais jovem dar lugar à alegria em questão de segundos.
- Me acompanha, carai. – incentivou animado, mais tranquilo pela cantoria surtir o efeito desejado – Vai me deixar assim, cantando sozinho?
Ainda hesitante, o ruivo mordeu o lábio inferior por um momento. Fechou os olhos e, ao abri-los, puxou o ar pelo nariz tomando coragem e o acompanhou.
O trajeto para o restaurante não poderia ser mais agradável. Rafael sentia-se livre, acolhido e respeitado para ser quem era. Não havia espaço para constrangimento, medos, passos infalsos e nem inseguranças. Cantaram essa música, Hightway to Hell e Bring Me to Life até chegarem.
Kalisto atravessou o lugar segurando-o pela cintura. Apesar de apreciar a atitude, avisou:
- Sabe que posso andar sozinho, né?
- E do que adianta se corre o risco de cair de novo?
A preocupação era real, porém não o único motivo para mantê-lo tão próximo. Carecia daquele toque e, ao ter a oportunidade, aproveitaria ao máximo.
Se acomodaram numa mesa tão sofisticada quanto o estabelecimento.
- Kalisto, criança do meu coração. Deixa eu te deixar a par de uma coisa que talvez ainda não saiba. – começou num misto de humor, desespero e ironia gesticulando com as mãos – Tenho dinheiro pra sequer comprar uma água nesse lugar. No máximo posso pedir água da casa e isso porque é de graça obrigatoriamente pela lei.
- Não precisa se preocupar. O convite foi feito por mim. Nada mais justo do que eu pagar, certo?
O cardápio foi entregue a eles simultaneamente antes do garçom se afastar. Ao abri-lo, Rafael se deparou com um prato cujos dígitos tinham três antes da vírgula dos centavos.
- Ok. – fechou-o de imediato – A escolha para o meu jantar é inteiramente sua. O que pedir está ótimo!
O moreno riu sem revelar os dentes. Pediu par si um ravióli de queijo ao molho branco e quatro queijos com alguns adicionais – milho, presunto, queijo, passas, orégano e bacon – além de torradas e queijo ralado para acompanhar. Para o convidado a escolha foi filé mignon ao molho madeira, arroz, salada de legumes e batata frita – durante o jantar perceberia que iria compartilhar também um pouco da própria refeição com o cantor.
Enquanto o ex fazia o pedido, Rafael aproveitou para vistoriar o ambiente. De fato, era amplo, bem iluminado, bem decorado, bem climatizado e muito bem frequentado. Apenas pelas vestes das pessoas percebia-se de que elas tinham uma posição social acima da dele, quem jamais pensou entrar num lugar como aquele. Talvez quando, sabe-se lá Deus como, estivesse com a conta do banco cheia? Sem dúvida, mas não na presente fase da sua vida – e nem no decorrer dos seus mais de vinte anos.
Esperou o garçom se afastar para dizer com o tronco inclinado na mesa:
- Por que não me levou pra um lugar mais simples? Sequer estou vestido de acordo.
E era verdade. Usava tênis branco, short jeans largo e uma regata de pedrinhas.
- E o que o cu tem a ver com as calças?
- Ah, eu queria estar mais bem arrumado.
- Pra mim sua aparência está ótima. – abriu um sorriso leve que trouxe certo acalento para o ruivo.
- Bajulador. – recostou as costas na cadeira macia – Só está falando isso pra não abalar a minha autoestima.
- Hey! Eu não costumo recorrer a bajulações fajutas para agradar as pessoas, não.
E era verdade. Kalisto era o tipo de homem quem sempre fora franco em seus elogios.
O silêncio tomou conta por se estender enquanto o ruivo refletia.
Rafael o encarava numa expressão impassível com o braço estendido na mesa, tentando decifrar ao homem em sua frente.
Por que o estava ajudando? Por que se reencontraram em circunstâncias tão singulares? Por que as coisas estavam se configurando de modo a se reaproximarem? A resposta era inalcançável, bem longe de qualquer lógica plausível. Havia, sim, outra explicação, porém jamais poderia se dar ao luxo de cogitá-la. Do contrário correria o risco de se ferir ainda mais e de se iludir – e de sofrimento já bastava o dos últimos quatro anos. Ainda não se recuperara totalmente dos baques anteriores. Não correria o risco de ter mais um cuja recuperação seria dolorida.
Fitou o chão escolhendo cuidadosamente as palavras.
- Se você está sendo genuíno nas suas ações. Se o que te motiva a agir comigo assim é culpa ou arrependimento. E se você algum dia realmente se importou comigo.
As frases o pegaram desprevenido. Não imaginava a profundidade daquelas dúvidas e receava abrir-se. Não queria colocar-se numa posição de vulnerabilidade, nem que Rafael soubesse o que o impulsionou a fazer o que fez no passado – o que ocasionou o afastamento definitivo entre eles por anos.
- As três, não. Escolhe uma pra eu responder.
- Eu sempre me importei contigo. Desde o dia que o conheci.
Ao ouvir as palavras a vontade era de confrontá-lo aos berros. Caso não estivessem em público, certamente o chamaria de mentiroso em total repúdio se esforçando para derramar nenhuma lágrima. Esfregaria na cara o que viu quando chegou ao quarto de Kalisto naquela tarde e lhe diria que o maior erro cometido foi, um dia, ter posto os olhos nele. A mágoa ainda existia, assim como o ressentimento. Esses sentimentos não foram capazes de serem apagados pelo tempo – e se esforçara pra deixar as respectivas dores no ano quando terminaram o relacionamento conversarem sobre isso, já que fugiu do apartamento aos prantos sem pedir as devidas explicações.
Todavia, não estavam sozinhos.
Portanto, controlou-se o máximo.
Em sinal de desdém Rafael olhou para o lado com a expressão carregada de amargura balançando a cabeça numa negativa.
Consciente de seus atos, estendeu a mão até encontrar a do ruivo, quem fechou os olhos projetando o queixo pra frente perante o toque.
- Não acredita, querido? – sussurrou.
Ao voltar-se para o homem os olhos eram frios e carregados de acusações.
- Digamos que tenho motivos para não acreditar. Além disso, esse não é o lugar para discutir isso. E se tem uma coisa que não farei em hipótese alguma é me aprofundar nesse tema contigo.
Odiou adorar quando Kalisto passou a acariciar as costas da mão em pequenos movimentos sutis com o dedo.
- Não precisa. Basta estar vivo, bem, saudável e feliz. Pra mim é o suficiente.
Vivo, de fato, Rafael estava.
Bem? Ora, era uma definição que dependia do ponto de vista.
Saudável? Só o fato de desmaiar na última hora mostrava que não.
Feliz? Nem tanto. Já tivera dias, meses e anos melhores.
Ao todo? Já não era o farrapo de antes, mas também não se tornara nenhum exemplo de contentamento ou satisfação perante a vida.
Antes de poder retrucar, a comida foi posta na mesa junto aos sucos que pediram. De fato, o restaurante era caro, mas valia a pena. A quantidade de comida em seu prato era considerável, lhe arrancando a dor no estômago por não se alimentar. De imediato, sem aguardar o garçom terminar de colocar pela mesa o pedido de Kalisto, cada item separado em um recipiente, apanhou o garfo e começou a comer.
- Hum... – gemeu mastigando – Isso aqui é bom demais!
Educado como sempre, Kalisto agradeceu ao garçom antes do loiro se afastar.
- Por isso o trouxe aqui. – satisfeito por vê-lo comendo tão ávido, separava sua própria comida no prato – A qualidade do restaurante é altíssima.
- Sim. – bebericou o suco de maracujá – É muito bonito, mas mesmo assim é caro pra porra. Não vai pesar no seu bolso, não? Não quero causar problemas.
- Relaxa. – enrolava a massa no garfo – Minha condição financeira me permite usufruir de alguns privilégios e fazer uma arte vez ou outra de vez em quando.
- Quando eu crescer quero ser assim.
Com humor, Kalisto inclinou o corpo para o lado, podendo ver os pés do outro balançarem no ar pela cadeira ser um pouco alta para suas curtas pernas.
- Aí vai demorar porque você não deixa de ser baixinho.
- Hum! – protestou mastigando, o que arrancou uma risada do moreno.
- É sério. – descansou os talheres no prato e ergueu as mãos na altura do peito – Os seus pés estão assim, olha. – as balançou pra frente e pra trás.
- Sou um homem de um metro e sessenta com muito orgulho da minha estatura!
- Não vai deixar de ser meu menino.
Kalisto pareceu não perceber o peso da própria frase, então Rafael escolheu não se aprofundar e nem tecer comentários.
O jantar não poderia correr melhor. Se divertiram juntos enquanto conversavam sobre filmes, livros e séries.
Kalisto quis saber se Rafael ainda lia Irmandade da Adaga Negra.
Rafael perguntou se gostou do final de Supernatural.
Kalisto gostou de ouvi-lo falando do retorno aos estudos com empolgação e brilho no olhar.
Rafael o aconselhou a mandar uma das suas irmãs pra puta que a pariu pela mulher procura-lo só quando precisava.
Kalisto confessou que continuava indo com um pequeno grupo de amigos num samba ou num pagode, onde sempre era visto com uma cerveja na mão.
Rafael contou que já pedira a indicação de Débora para se consultar com uma oraculista confiável – haviam se passado quase dois anos, mas continuava enviando feedback pra mulher sobre as mensagens transmitidas pelas cartas. Lembrou-se de lhe passar o feedback mais recente da consulta, onde foi avisado do retorno do único ex quem realmente senta falta e por quem carregava sentimentos.
Kalisto confessou ser cético e justamente por causa disso não conseguia entender como a amiga sonhara com algo antes daquilo acontecer.
Rafael contou que, naquele ano, não comemoraria seu aniversário.
Sem avisá-lo, Kalisto planejou conversar com Débora para ela passar o nome dos amigos mais próximos e seus respectivos números de telefone para prepararem algo de surpresa para o rapaz.
Antes de irem embora pediram duas sobremesas por insistência de Kalisto. O moreno não queria uma sobremesa ao final daquele jantar, mas sabia que, caso não o acompanhasse, Rafael, quem amava doces num geral, não aceitaria degustar de uma. Solicitou também, longe das vistas alheias, quem fora ao banheiro, o mesmo prato comido pelo ruivo para a viagem, porém para três pessoas e outras duas sobremesas do gosto de Micaela e Mia.
Enquanto caminhavam para fora do restaurante com o mais novo carregando a sacola com o almoço para o dia seguinte sem saber, Kalisto lhe segurou a mão.
- Está se sentindo melhor?
Não entendeu o motivo de caminharem juntos de mãos dadas até entrarem no carro.
Kalisto parou o carro em frente à casa do mais novo quase nove da noite. O clima no carro não era completamente leve. Haviam inúmeras indagações, hesitações e sentimentos escondidos. Trocavam olhares amorosos, sorrisos bobos e o ruivo permitiu que a mão do outro repousasse em sua coxa. Estavam tomados por suas próprias mágoas.
Manterem as mãos entrelaçados enquanto retornavam para o veículo apenas serviu para demonstrar o quão difícil era ignorar o passado, já que as últimas lembranças de uma época tão carregada de doçura eram amargas. Tão amargas que eram capazes de lhes embrulhar o estômago e sentir o sabor da bile caso se concentrassem demais na memória sensorial. Além disso, era um sinal claro cuja sinalização servia para comprovar o limbo onde se encontravam: não estavam num relacionamento, mas também o tratamento mútuo não era de simples amigos ou sequer de conhecidos distantes.
Existia certo saudosismo no ar, uma amorosidade um tanto quanto excessiva que poderia, sim, ser extravasada e externalizada caso se permitissem. O amor era intenso. O desejo igualmente proporcional. Feliz ou infelizmente os corpos de ambos os entregavam, já que o simples entrelaçar das mãos fora suficiente para a adrenalina correr pelas veias e Rafael precisar refrear a vontade de sentar no colo de Kalisto, quem prontamente o manteria ali por incontáveis minutos com suas respectivas ereções se chocando a medida que retirassem suas roupas em meio a beijos, carícias e lamúrias de prazer.
Entretanto, exerciam um forte controle sobre seus impulsos. Então nada restava além de manterem pacífico o trajeto do retorno, tentando diminuir a tensão pelas falas não ditas por meio de trocas singelas. O mesmo amor que um dia os unira os mantinham separados por não saberem o que esperar um do outro – principalmente Rafael.
Apenas deu um sorriso de despedida antes de descer. Enquanto se dirigia para o portão foi chamado pelo advogado, quem também descera do veículo.
- Esqueceu uma coisa. – retirou do banco traseiro a sacola com as quentinhas – É pra você. – a colocou no capô, recostando-se na porta.
- Como assim? Pensei que fosse seu. – foi até ele parando a centímetros de distância.
- Não. Isso é pra você lembrar de comer direito e evitar de cair pelos cantos. – havia uma contida amorosidade na voz.
Rafael não apanhou a sacola e Kalisto não a entregou. Apenas se fitaram com o intuito de prolongar os instantes juntos. Sentiam medo, inclusive, do que sentiam e, embora carregados de questionamentos, não ousavam revela-los como forma de autodefesa.
Num pesado suspiro Kalisto o puxou para si pela barra da blusa para um abraço onde o mais novo enterrou o rosto no tecido do terno. Abraçavam-se pelas cinturas, Kalisto pressionando o pequeno corpo contra o seu. Subiu uma mão até alcançar a nuca, onde enterrou os dedos nos cabelos ondulados adorando a textura macia.
- Baunilha. – murmurou ao sentir o cheiro.
- Ainda uso o mesmo shampoo.
Se afastou o suficiente para encara-lo. O segurou pelas laterais do rosto sem quebrar o contato visual.
- Eu não quero que negligencie a sua saúde como está fazendo. Não imagina como fiquei agoniado quando o vi cair no chão. A ideia de te ver desmaiando de novo só porque esqueceu de comer me assusta. Entendeu?
O ruivo movimentou-se minimamente para beijar a palma direita.
Encostou a testa no peitoral antes de se reaproximar, sem conseguir fugir daquela áurea mágica que os cercava e sentia tanta falta.
- Me desculpa por te assustar. – murmurou, relaxando pela primeira vez nos braços do moreno desde a noite quando fora abrigado em seu apartamento devido à chuva.
Notou como aquele pequeno conflito fora resolvido por meio de palavras sussurradas e singelas. Não houveram ofensas, culpas, choros, deboches ou humilhações. Eram só duas pessoas que solucionavam uma questão mútua de forma saudável sem o cantor receber ataques desnecessários da outra parte.
A constatação, sem sequer compreender, fez cair um dos muros de autoproteção que colocara ao redor para não ser atingido emocionalmente por Kalisto. Até porque jamais fora tão bem tratado pelo atual quanto era e ainda o é pelo moreno.
- Continua com o mesmo perfume amadeirado. – murmurou após sentir o cheiro, descansando os antebraços nos ombros.
- Algumas coisas nunca mudam.
Conduziu as mãos para a cintura fina, onde apertou como antes costumava fazê-lo. O gesto arrancou uma aguda lamúria do outro, quem cravou as unhas nas laterais do pescoço – e não teve essa reação somente pelo aperto.
- Sabe que não é a primeira vez que fica de pau duro por minha causa nos últimos tempos, né?
A indagação arrancou um sorriso de Kalisto cujo surgimento aconteceu de forma gradual enquanto os olhos tornaram-se mais intensos.
O advogado, em resposta, inclinou o tronco para percorrer os lábios na têmpora sem necessariamente beijá-la.
- Como se eu fosse o único. – separou-se o bastante para a mão direita percorrer um caminho bem conhecido pelo abdômen do ruivo – Ou acha que conseguiria esconder... – segurou o membro por cima do tecido do jeans – Isso aqui de mim?
Apesar do short não marcar, o toque na região lhe arrancou um arfar com o cenho franzido – e ali o advogado reconheceu os sinais do quanto o outro ainda o desejava.
Fitou Rafael para se assegurar se havia alguma resistência ali, qualquer uma. Ao se certificar que não, encontrou o zíper com os dedos. Pousou-os no objeto, aguardando pela confirmação do outro, quem logo acenou um “sim”. Abaixou-o e logo conseguiu...
- Kalisto. – sussurrou de prazer quando sentiu-se ser tocado por cima da boxer branca.
Se segurou com mais firmeza ao homem enquanto os dedos deslizavam até achar a glande, onde ganhou carícias lentas em movimentos circulares.
Mordendo os lábios numa tentativa de conter os gemidos, deitou a testa no peitoral de olhos fechados cravando cada vez mais as unhas nele, quem, por sua vez, não resistiu em explorar a pele alva do pescoço, onde castigou com a língua.
Primeiro ouviram o som metálico. Em seguida, uma voz feminina estridente falou:
- Estou sendo empata foda de duas pessoas ainda vestidas.
Sobressaltaram igualmente, porém de maneiras distintas – Rafael soltou um berro de susto e Kalisto ergueu a cabeça na direção do som enquanto subia o zíper. Alarmado e com o rosto vermelho, Rafael se posicionou de costas para o outro, quem não afastou as mãos da cintura. Ao mesmo tempo, Mia, carregando uma sacola de lixo na mão, reclamava após ganhar um tapa na nuca da mãe:
- Mas é verdade, mãe. É porque a senhora não viu o que eu vi aqui. – ia até a parede onde todos da rua deixavam o lixo – Que pouca vergonha é essa, maninho? Assim, logo na rua? Pelo menos vai mais pra frente onde tem uma moita pra se esconderem. – a garota comentava com humor.
- Menina, não é pra... – a mulher interrompeu a fala ao ver o filho junto do ex. O semblante tornou-se esperançoso e emocionado. Abrira um sorriso afável juntando as mãos no peito – Ai, que cena mais linda. Deus está ouvindo minhas preces.
- Não sei se é Deus, não, mas até eu já estava cogitando em descobrir se macumba funciona, mesmo, pra afastar o André da nossa vida.
- Mia! – o grito veio do irmão e da mãe.
- Mas é verdade, ora! Vai que a Pomba-Gira é mais rápida pra dar jeito.
A mulher poderia se zangar com a menina, porém a gargalhada do moreno atenuou a situação – inclusive também como abraçava Rafael com tamanho carinho.
- Ai, menina, eu gosto de você, viu. Preocupa, não, tia, porque eu também nunca gostei do André.
- Admito que nenhuma pessoa sensata gosta muito dele. Não que eu tenha algo contra o rapaz. Longe de mim. – Micaela ironizou – E vocês dois estão aqui porque... – os pressionou.
- Nada de demais! – o filho se intrometeu com a face mais rubra – O importante é que estávamos nos despedindo pra ele ir embora. Né, Kalisto?
Definitivamente Rafael não conseguia disfarçar. O rosto tomava uma coloração azulada, com os olhos arregalados e completamente desesperado.
- É isso, Rafael? – não pôde deixar de provoca-lo – Acho que estávamos tendo um momento bem interessante por aqui.
- De despedida! – berrou, lhe tirando mais gargalhadas.
Apanhou a sacola no capô se afastando, enquanto o outro se dirigia ao lugar do motorista.
- Tchau, Kalisto! – a irmã se juntava ao irmão e a mãe ao lado do portão.
- Apareça mais vezes! – pediu Micaela, quem carregava um enorme sorriso no rosto.
Apenas fecharam o portão quando o carro preto virou a esquina.
O quarteto não sabia, mas estava sendo observado ao longe por duas figuras distintas – uma mulher de vestido vermelho rendado e um homem com roupas características do malandro carioca.
- Foi fácil fazer os dois se encontrarem? – quis saber o homem com a bengala branca em sua frente.
- Não tanto. Pior foi colocar a vida desse menino nos eixos. Isso, sim, deu um trabalho da porra. – tomou um trago do cigarro.
- E eu agradeço por isso. Meu menino estava muito ruim.
- Muito ruim? – ironizou surpresa pelo eufemismo – Muito ruim é pouco. O moço estava era fodido, mesmo. – deu batidinhas no cigarro para a cinza cair – E como está a história com aquele traste?
- Já estou organizando as coisas pra ele ser pego. No primeiro deslize as coisas vão acontecer com rapidez. Só tem um problema.
- Quando ele se ferrar o menino será alvo daqueles desgraçados. – completou com amargura.
- Maldita hora que deixou o traste daquele perna de calça entrar na vida dele. – resmungou de mau humor.
- A partir daí a nossa atenção terá de ser triplicada pra proteção do menino.
- Não sairá das minhas vistas. Pelos menos tem a nossa ajuda e a de quem realmente o ama para protege-lo.
Se despediram com um aceno de cabeça seco e uma gargalhada feminina antes de se afastar quando Kalisto foi embora e a família entrou em casa.
Ambos estavam satisfeitos com o que presenciaram. Definitivamente as coisas estavam caminhando da melhor forma para todos. Rafael e Kalisto não imaginavam que a conversa entre eles se aproximava de acontecer – o que acarretaria uma enorme mudança na vida deles e de quem os cercavam, além da revelação de segredos sujos e em que André realmente trabalhava.