Chame por Cigana


Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 32 minutos

  No final da tarde de segunda-feira Rafael caminhava pelo corredor vazio da faculdade quando uma mão tampou sua boca e um braço envolveu sua cintura. Imediatamente começou a se debater, sem dar-se conta de que a outra pessoa não exercia força alguma.
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  O corpo atrás de si era alto, firme, grande e forte o suficiente para arrastá-lo sem dificuldades para uma sala, a qual fechou com um leve chute antes de se apoiar na parede.
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  - Shi, calma, querido. Sou eu. Está tudo bem. – a voz de Kalisto sussurrou rente a orelha onde a barba rala roçava.
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  Deixou a mão deslizar aos poucos até encontrar-se com a outra e segurá-lo pela cintura, o prendendo ali em contato com o próprio corpo.
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  - Que merda é essa, Kalisto – precisou se controlar para não gritar. Afinal, não seria bom caso fossem pegos daquele jeito dentro da sala.
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  - Foi o único jeito que encontrei de conversarmos. Assim não vai fugir de mim. Foi mal.
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  - Não tenho nada a tratar contigo, seu idiota. – vociferou indignado com a ação insensata.
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  - Ah, tem, sim. E não adianta tentar escapar dessa vez.
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  - Vai se foder.
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  - Adoraria foder, na verdade, mas as minhas últimas transas foram uma merda. – ironizou.
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  - Me solta, cacete. – sem sucesso fazia força para se afastar.
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  - Não. – repetiu decidido.
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  - É o que vamos ver.
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  Para alguém tão baixo e com proporções pequenas a força física aplicada nos movimentos foi surpreendente. O cantor se debatia com certa violência, ao ponto se jogar o corpo para trás e as pernas agitarem-se no ar. Mais de uma vez o moreno recuou alguns passos e precisou esforçar-se para finca-los no chão.
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  - Desde quando você é forte assim? – reclamou o advogado lutando para mantê-lo no lugar sem machucá-lo – Preciso voltar a frequentar a academia pra caso isso se repita eu estar em melhor forma para contê-lo.
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  Isso era verdade. A pele sob o terno azul marinho começava a suar.
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  - Isso não é força, é ódio, seu desgraçado de merda. – esmurrava as grandes mãos com os punhos – Porra, me larga, filho da puta!
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  Sem alternativa, o maior o virou com dificuldade e o segurou num abraço apertado, incapacitando sua movimentação. Com as mãos espalmadas no peitoral tentava empurrá-lo, mas tudo o que conseguiu foi que Kalisto o pressionasse ainda mais contra si ao ponto de não conseguir esticar os braços.
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  A posição não era desconfortável e nem dolorida. Era bem agradável na verdade, porém jamais admitiria naquele momento de raiva. Quando transavam o advogado costumava apertá-lo num abraço bem similar àquele, onde sentiria a carne trêmula do ruivo enquanto ele gozaria lhe arranhando os ombros ou as costas. Em consequência, seu pequeno corpo recordava daquele gesto, o primeiro indício de que iria acalmar-se. Graças ao abraço intenso sua recusa se tornou cada vez menos intensa, até chegar o momento quando, já entregue, buscava somente normalizar a respiração.
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  - Kalisto, é sério. – o encarou carregado de raiva reprimida – Ou me solta ou vou começar a berrar até alguém vir me ajudar,
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  - Vai, mesmo, me prejudicar, bebê?
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  Era um blefe. Ambos sabiam a resposta. Enquanto o amasse ou se importasse com o advogado o rapaz de nenhum modo o prejudicaria. Entretanto, os tempos eram outros e o ruivo havia mudado bastante. Portanto, sim, o maior temia a réplica e estava pronto para lidar com as consequências caso fossem descobertos ali por causa do outro.
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  O ex desviou o olhar dizendo:
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  - Fala logo o que quer e me deixa em paz.
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  O suspiro de alívio foi longo.
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  - Me desculpa.
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  - Pelo que, exatamente? Refresca a minha memória porque a lista é grande. – não poderia soar mais debochado.
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  Um meio sorriso desenhou vagarosamente os lábios do ex.
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  - Cínico. – soltou quase como um elogio, num tom onde claramente não desaprovava a provocação – Me desculpe pelo áudio que me ouviu enviando pro Gustavo. Achei que estivesse dormindo.
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  - Pois achou errado. – disparou irritado – Eu não preciso da sua... – a diminuição do apertou permitiu estalar os dedos como se tentasse lembrar da palavra correta – Como disse, mesmo? Caridade. Não preciso ser o seu objeto de boa ação, não.
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  - Ok, fui meio babaca nessa parte.
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  - Meio? – ergueu as sobrancelhas sarcástico – Meio é o meu cú. Foi um completo idiota filho da puta, isso, sim, seu escroto arrombado.
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  - Em minha defesa, o Gustavo desconfia que eu esteja escondendo algo. Apenas quis soar de maneira que não aguçasse a curiosidade dele, assim como você fez com a sua mãe.
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  - Assim como eu fiz o caralho! Não o desmereci quando deixei minha família avisada que estaria bem naquela noite e abrigado.
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  - Eu sei. – o notando mais tranquilo afrouxou o aperto mais e logo sentiu falta daquela união em virtude dos troncos pressionados – Por isso o meu pedido de desculpas. Aceita?
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  - E quanto ao Lucas? – semicerrou os olhos, ainda não completamente convencido.
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  - Mais uma vez, me desculpa também por isso.
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  - Vai me deixar ciente do porquê daquilo? Foi pra me atingir, né?
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  Quebrou o contato visual encarando acima dos cabelos ruivos.
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  - De certa forma, sim, mas não da maneira ruim para entristece-lo ou enciumá-lo como está pensando. Talvez um dia eu lhe conte as minhas motivações. Por enquanto, não. – voltou a fita-lo – Me desculpa?
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  - Não sei. Vamos ver. – rebateu desviando o olhar – Ainda estou zangado contigo e com razão.
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  Projetando o lábio inferior pra frente, o rapaz formava um biquinho sem sequer notar enrugando o queixo pequeno. Naqueles instantes calados onde Kalisto piscou devagar, o moreno observou os traços os quais denunciavam o seu estado de espírito – raivoso, embora apreciasse o contato corporal e talvez até aprovasse pela maneira como não se distanciou. Focando a atenção nos lábios delineados, a mão coçou para contorna-los com o polegar – e precisou se controlar para não ceder aos impulsos.
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  Em suspiro pesaroso, Rafael se voltou ao homem. Por ver o tímido sorriso alheio surgindo em virtude de novamente estarem tão próximos e por assimilar o quanto o outro havia se fortalecido durante aquele tempo separados em admiração pelo progresso do rapaz, o menor o xingou:
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  - Babaca escroto.
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  Dessa maneira, sem nenhum aviso ou despedida, se desvencilhou dele lhe dando as costas e se encaminhando para a porta com passos ágeis. Quando abaixou a maçaneta, ouviu:
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  - Poodle gostoso.
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  Saiu da sala de costas eretas sem demonstrar o quão saudoso estava de ser apertado daquela maneira pelo homem e crispando os lábios para Kalisto não vê-lo sorrir pelo elogio.
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  O decorrer da semana correu como o usual – cheia de aulas, trabalho e estudo nas horas vagas. Micaela e Mia constantemente o lembravam de se alimentar e, por fim, mais de uma vez levaram lanches ou até mesmo café da manhã no fim de semana quando estava em casa cheio de anotações e livros ao seu redor.
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  Mal havia tempo para se distrair ou descansar. Para evitar do ritmo abalar sua saúde assim como já aconteceu após a separação, se obrigava a relaxar conversando pelo Whatsapp com os amigos ou se distraindo vendo vídeos de conteúdos que não fossem do curso.
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  Por já estar marcado, quinta-feira às sete da noite foi para a casa do namorado para aproveitarem um tempo juntos. Desde o retorno da viagem de André oriunda do trabalho não tiveram oportunidades de ficarem juntos. No máximo se falavam pelo celular por troca de mensagens, então aproveitou o feriado para encontra-lo quando finalizasse os estudos na parte da tarde.
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  Estranhou por se deparar com o portão encostado. Não costumava ser descuidado dessa maneira com a segurança da casa, então entrou sem problemas. Atravessou o quintal e, ao passar pela porta, sentiu o coração acelerar pelo choque da cena.
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  Alheios à sua presença, sentado confortavelmente no sofá era chupado por um loiro musculoso e definido, ajoelhado em sua frente, com a cabeça relaxada caída para trás e os olhos fechados. Rafael o sabia porque estava apenas de boxer azul marinho enquanto o namorado ainda usava a calça jeans com o peito e o pé desnudos.
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  - Que merda é essa?!
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  O grito raivoso os assustou.
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  O desconhecido chegou a cair de bunda no chão devido ao impulso de erguer o tronco para ficar ereto. Compreendeu a situação por ver o ruivo parado do lado da porta em puro estado de agonia.
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  - Filho da puta. – ergueu-se do piso gelado e foi apanhar as roupas.
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  - O que você acha que é, Rafael? – o namorado puxava o zíper da calça, iniciando a conversa como se não tratasse de uma traição.
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  - Você vai me explicar essa merda, meu bem, porque não sou eu o errado nessa história.
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  Estava visivelmente abalado – não necessariamente pelo motivo mais óbvio. A face transbordava agonia e os olhos enchiam de lágrimas, se esforçando para não chorar. As mãos trêmulas, os ombros encolhidos e o misto de uma série de emoções como raiva, desespero, ansiedade, tristeza, desamparo e desamor passavam pelo rosto angelical que em nada combinava com elas, assim como já aconteceu, entretanto de uma maneira menos dolorosa.
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  - Eu só busquei na rua o que não encontro contigo na cama. – André deu de ombros.
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  - Hey! – o estranho rugiu zangado – Não fale assim com ele e nem se refira a mim como um putinho de esquina qualquer.
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  André apenas rolou os olhos em total descaso.
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  Já vestido avisou para o baixinho quando passou ao lado dele:
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  - Cara, desculpa. O perguntei se era casado ou namorava, mas me disse que estava solteiro. Deixou o portão aberto?
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  De braços cruzados Rafael parecia uma criança assustada cujo pirulito havia sido arrancado da boca.
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  - Eu vou deixá-los sozinho pra conversarem. Sério, mais uma vez, desculpa. – completou quando o menor acenou um “sim” para a pergunta.
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  Ao ouvir o portão sendo batido, André levantou.
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  - Posso saber por que veio na minha casa sem avisar?
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  - Caso não se lembre, havíamos combinado de eu dormir aqui essa noite. – mordeu o lábio inferior segurando o pranto.
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  - Podia ao menos chegar mais tarde.
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  - Você não vai jogar a merda da culpa pra cima de mim, não.
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  - É sua, sim! – gritou sobressaltando o outro, quem se encolheu ainda mais – É porque chegou aqui num horário que não foi o combinado. Não fiz nada do que não combinamos quando começamos a sair e você aceitou, sim, um relacionamento aberto.
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  - Relacionamento aberto com regras. – se impôs com voz firme – Nada além de beijos seriam permitidos e nem traríamos alguém pras nossas casas. O que vi hoje foi bem diferente do nosso acordo.
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  - A culpa não é minha você não sabe foder direito.
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  - Como é? – incrédulo, desacreditava na própria capacidade auditiva.
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  - Olha pra você, garoto. – apontou para ele num gesto carregado de desdenho – Quem vai sentir tesão por... Isso? É um viadinho que vive desmunhecando. Olha as suas roupas, essa maquiagem... É ridículo. Eu gosto é de homem de verdade como o que acabou de sair daqui, não disso aí que é. Caso soubesse se vestir direito e falar sem parecer mulher assim como cansei de instruir, isso não teria acontecido.
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  As palavras lhe atingiram no íntimo, tocando em profundas inseguranças e dores antigas. Já se sentiu assim antes – menos, indigno de receber amor, humilhado, desinteressante, desamparado. Porém, dessa vez, havia a presença de algo a mais. A vergonha de si.
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  Rafael nunca foi um rapaz com comportamentos ditados pela sociedade. Sempre teve uma essência mais feminina – essência essa que não era aceita e nem respeitada pelo pai. Portanto, passou por situações desagradáveis de preconceito, inclusive dentro de casa com a figura paterna. Foi obrigado a não assistir determinados desenhos e nem a brincar com bonecas como desejava pelo genitor desaprovar – e isso ainda reverberava nele.
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  - Idiota.
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  Assim que o maior ouviu a frase, quebrou a distância em poucos passos.
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  Primeiro veio o som estalado.
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  Em seguida a ardência do lado esquerdo.
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  Só compreendeu o que lhe aconteceu quando a área começou a latejar de dor.
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  - Você me bateu? – pestanejava ainda confuso e anestesiado pelo choque.
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  - Você... Você me faz fazer coisas que não quero! – falava rápido, soando agressivo e perturbado enquanto gesticulava – Eu não queria, mas te ouvi me xingando. Sabe que não gosto de ser chamado desse jeito. Precisava me chamar de idiota sem necessidade?
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  Ainda torpe e aceitando a sua responsabilidade pelos erros cometidos com o namorado – na cabeça de Rafael, é claro – apenas deu as costas e foi embora sentindo o odor de fumaça.
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  Os dois não sabiam, mas estavam sendo observados por um homem. Homem esse quem usava um terno branco cuja camisa era do mesmo tom da faixa do chapéu vermelho sangue de malandro carioca. Fumava seu cigarro assistindo toda a cena sem interferir.
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  Quando o viu sofrendo a agressão, soltou a fumaça pela boca antes de ser o responsável de guiar o rapaz até onde poderia receber ajuda – ou melhor, quem. Não sem antes gravar bem o rosto de André, assim como o nome.
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  - Pode demorar um pouco, mas o filho da puta vai descobrir que com protegido meu ninguém rela a mão. – pensou antes de acompanhar o cantor enquanto cantarolava.
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“Malandro, se na minha cara der
Pode fazer testamento
Se despedir dessa mulher
Se tiver filhos deixa uma recordação
Cara que mamãe beijou vagabundo nenhum põe a mão”

  Perambulou pela rua. Não corria risco porque sua consciência o lembrava de passar por caminhos conhecidos, iluminados e movimentados. Quando chegou na areia da praia, retirou os tênis e aproveitou para sentar-se e usufruir de um tempo sozinho.
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  Não poderia retornar para casa. Sua mãe e a irmão logo descobririam sobre a agressão na face que estava tomando uma cor arroxeada na região do queixo e da bochecha. Isso as preocuparia e ele não saberia qual mentira contar para justificar. Não queria envolve-las nisso. Esse era um assunto entre ele e o namorado. Namorados brigavam e Ivo sempre teve um temperamento complicado. Não havia sido nada além de uma briga entre namorados e ele, Rafael, deveria ter se certificado sobre o combinado, confirmando tudo antes. Do contrário, nada daquilo aconteceria e os dois compartilhariam juntos de um momento bom.
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  Certo?
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  Pelo menos era isso o que contentava de se convencer.
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  Após cerca de duas horas lá, às dez e meia, se deu conta de onde estava. Olhou para trás e viu um belo prédio. Se certificou que as luzes de um determinado apartamento estivessem acesas antes de se levantar limpando o short e ir naquela direção.
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  Quando passou pelas portas, Márcio, o simpático porteiro quem sempre ficava na catraca feita para a passagem de quem não morava lá quando os moradores aceitavam visitas, abriu um largo sorriso ao vê-lo.
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  - Rafael, menino! Quando tempo! Como você está?
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  - Oi. – parou na frente dele passando as costas da mão no nariz – O Kalisto está aí?
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  - Não tenho certeza. Irei averiguar aqui. – apanhou o telefone para ligar para o advogado. Encarou o outro novamente o avaliando mais minuciosamente – Está tudo bem, filho? Precisa de alguma coisa?
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  - Ah, não, nada, obrigado. Eu só estou com alergia. – esfregou os olhos – Essa mudança de tempo ataca minha bronquite. – forçou uma tosse seca.
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  - Certo.
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  Ao receber a autorização sem sequer ser indagado pelo nome do visitante, o pediu para passar pela catraca.
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  Saiu do elevador vazio no oitavo andar. Caminhou pelo corredor deserto até encontrar a porta certa. Ao batê-la, foi atendido por uma mulher de pele bronzeada. Seria considerada bonita caso não transmitisse tamanha arrogância.
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  - É... O Kalisto está? – a voz saiu trêmula colocando as mãos nos bolsos traseiros do jeans.
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  O avaliou de cima abaixo com desprezo.
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  - Você é o quem? Uma das bichinhas nojentas que meu irmão pega? Pensei que ele tivesse um gosto melhor.
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  Se recebesse um tapa doeria menos. Quando ouviu as palavras simplesmente fechou os olhos as suportando sem alternativa melhor.
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  - Alexandra, a comida já chegou?
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  A voz do moreno ao fundo lhe chamou a atenção.
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  Definitivamente foi uma péssima ideia ir até ali. O ex estava com visita e seria, no mínimo, imprudente envolve-lo naquela situação que não lhe dizia respeito.
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  Sem alternativas, foi embora rapidamente e escolheu descer pelas escadas para não correr o risco de Kalisto vê-lo.
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  Alexandra não era uma das suas irmãs mais amorosas.
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  Mantinha-se num casamento fracassado por ser o certo de acordo com o seu pastor, quem costumava carregar a Bíblia debaixo do braço para usar versículos bem inconvenientes para reforçar suas ideias arcaicas. O pastor não se importava caso a mulher estivesse infeliz, se o marido a traía ou se sofria violência doméstica, sexual, psicológica ou patrimonial. O importante era fazer o certo perante a visão divina – mesmo que, para isso, sua integridade física corresse risco.
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  Assim como toda a família paterna, era evangélica e não aceitava que o irmão fosse gay. Gostava dele e se orgulhava das conquistas materiais, mas não o aceitava por completo.
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  Quando desceu para acompanha-la até a saída com a bermuda de algodão, chinelos e regata puída, Márcio o chamou quando a mulher passou pela porta de saída.
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  - Kalisto, o Rafael conseguiu falar contigo? Quem atendeu ao meu telefonema foi a moça quem acompanhou até aqui, então não sei se ela lhe avisou.
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  - O Rafael esteve aqui? – confuso juntou as sobrancelhas – Aquele quem trouxe pra abrigar devido a última chuva e frequentava o meu apartamento há uns anos?
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  - Sim. Saiu cerca de uma hora antes da sua irmã.
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  - Foi ele quem subiu naquela hora, então. – murmurou para si – Alexandra havia dito que era engano, então, a resposta pra sua pergunta é não. Ele estava bem?
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  - Olha... – lentamente pôs as mãos nos bolsos na calça – Disse que sim, mas eu diria que mentiu. Não parecia estar nem um pouco bem. Sei lá. Parecia bem fragilizado, pra ser franco.
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  - Tudo bem, então. Valeu, Márcio.
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  O advogado subiu e assim quem adentrou na casa pegou o celular para ligar para o ex pelo seu número de trabalho, já que claramente estava bloqueado pelo número profissional, além de existir uma possibilidade enorme do ruivo ignorá-lo ou bloqueá-lo novamente caso soubesse quem o ligava. Como não teve resposta, separou alguns documentos, dinheiro e saiu novamente, indo para a garagem em busca do seu carro.
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  Rafael chegou em casa quase meia-noite. Foi o melhor horário para passar pelo quintal e o sabia porque a sua mãe e a irmã já estariam dormindo. As cachorras estavam soltas pelo quintal, então foi recebido por lambidas alegres.
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  O abalo era tamanho que nem mesmo o recebimento alegre dos animais lhe despertou a vontade de sorrir, mesmo que o gesto fosse mínimo.
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  Foi bem silencioso no interior. Tomou banho, vestiu um conjunto de short e regata coloridos e se acomodou na cama. O que queria era dormir para não se sentir daquela maneira. Facilmente atingiria seu objetivo caso o celular não parasse de tocar no chão ao lado da cama enquanto carregava.
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  Irritado pela vibração, atendeu a ligação.
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  Kalisto não era uma pessoa católica assim como a mãe e nem religioso como a sua família, mas estava numa situação, no mínimo, desesperadora e irônica. Então, pela primeira vez na vida, pedia a Deus, Oxalá, Buda, Krishna, Hécate, Zeus, o Universo, o Panteão do Olimpo e todas as outras divindades cujas existências já ouvira falar na vida.
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  Desesperadora porque, caso fosse pego, seria inevitavelmente preso.
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  Irônica porque era um advogado bem-sucedido quem começou há menos de dois meses lecionar numa faculdade renomada, então não tinha o perfil para ter passagem pela polícia – e caso isso acontecesse seu amigo delegado riria muito quando contasse a história envolvendo suas ações insensatas e talvez até idiotas.
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  Rafael não atendia nenhum dos seus telefonemas, então num ato desesperado, pulou a parede de dois metros de altura. Nunca agradeceu tanto pelos seus 1.85 de altura, seus braços longos, a força adquirida nos anos de academia apesar de precisar voltar a frequentá-la e pela rua estar deserta. Quando desceu do outro lado viu ao longe três cachorras caminhando pelo quintal. Ao vê-lo pensou por um momento se as mordidas de vira-latas de porte pequeno e médio fariam tanto estrago.
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  Por sorte, ao chegarem mais perto latindo, pararam de correr e demonstrarem agressividade. Em gestos desconfiados, começavam a farejar os pés e as pernas dele. Não demorou para guincharem felizes balançando os rabos freneticamente, pularem e o lamberem amorosas.
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  - Ainda bem que se lembram de mim. – soltou o ar que só então percebeu prender pelo medo. Com o celular na mão continuou tentando ligar tentando dar atenção às três cachorras simultaneamente – Do contrário eu sairia daqui mancando e faltando uma perna.
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  - Quem é, cacete? – Rafael atendeu irritado se jogando na cama.
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  - Sou eu, Rafael.
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  - Kalisto? – de tão surpreso sentou-se.
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  - É. O Márcio me avisou que esteve lá no meu prédio me procurando.
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  - Por que...
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  - Abre primeiro pra mim. Daqui a pouco essas cachorras vão me derrubar. Não param de pular em mim.
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  - Abrir o quê?
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  - A porta da sua casa.
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  - Como é?
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  - Estou no seu quintal, carai! – caso não tivesse de fazer silêncio para não ser descoberto pelas outras duas moradoras, teria gritado.
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  Demorou uns instantes para a mensagem ser processada pelo cérebro. Assim que compreendeu a urgência, correu o mais rápido que poderia se situar nos cômodos escuros para colocar o homem para dentro de casa, quem, por fim, acabou em seu quarto.
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  - O que está fazendo aqui? – sussurrou batendo a porta.
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  - Não é óbvio? Quero saber porque foi me procurar.
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  - Não, não foi nada. – respondeu usando a escuridão ao seu favor para esconder a marca na face – Foi só uma ideia impensada.
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  - Tem certeza? O Márcio não é de mentir.
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  - Já disse que estou bem!
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  A hostilidade apenas serviu para reforçar para o outro a ideia de que havia algo de errado. O momento de silêncio seguiu entre eles quando Rafael deu-se conta disso.
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  - Se for pra te acalmar, fingirei acreditar. Tudo bem?
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  -Tá.
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  Trocou o peso de um pé pro outro apenas podendo ver a silhueta do ruivo na sua frente. A luz da Lua entrava pela janela, porém se mantinha longe da luminosidade. Detectando esse fato, pendeu a cabeça pro lado com o cenho franzido.
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  - Por que não deixa eu te ver?
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  Para isso seria necessário atravessar o quarto e passar pela iluminação – e isso não o faria.
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  - Não quero correr o risco de perder o sono. – mentiu.
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  - Ok. Então se está tudo bem, eu posso ir.
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  Arregalou os olhos resolvendo uma equação mental. As três cachorras eram mansas, mas bem agitadas, alegres e principalmente: adoravam fugir pra rua.
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  Já perdeu as contas de quantas vezes saiu correndo pelo portão afora atrás delas. Uma vez passou pela humilhação de correr por quase meia hora atrás da cachorra caramelo na companhia da irmã até conseguirem voltar com ela pra casa no colo de Mia.
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  - É melhor, não. Do contrário corro o risco delas fugirem, o que é de praxe, e virarmos a noite correndo atrás das três.
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  - Então faço o quê?
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  - Você dorme aqui e sai às cinco e meia. Vamos torcer pra que elas estejam dormindo.
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  A solução não era das melhores, porém Rafael estava cansado e não tinha forças para discutir ou elaborar planos para fuga. Só queria que aquela noite terminasse logo e pudesse se entregar ao sono profundo para esquecer os últimos acontecimentos.
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  Sem alternativa melhor e aceitando a enrascada onde se enfiou, Kalisto esvaziou os bolsos e colocou o conteúdo na mesa de cabeceira enquanto Rafael ligava o ar-condicionado e voltava a se deitar. Ouviu o trinco da porta antes do outro retirar a bermuda e acomodar-se ao seu lado na cama pequena para ambos apenas de boxer cinza e a regata. Depositou o celular sob o travesseiro, já programado para tocar dentro de poucas horas. Ficou de costas para o moreno com o corpo encolhido.
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  Infelizmente, a presença de Kalisto agravava a situação. A complexidade de sentimentos foi tamanha que não conseguiu segurar as lágrimas. Em questão de minutos elas começaram a descer sem cessar contra a sua vontade, sendo secadas pela fronha do travesseiro. Conseguiria facilmente chorar sem barulho – até porque já o fez inúmeras vezes. Porém, os soluços o denunciaram.
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  No primeiro mais velho apenas o olhou estranhando o som. Porém, a partir do segundo, compreendeu o pranto.
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  Apesar do afastamento de anos, o rapaz ainda era seu ponto fraco. Era incapaz do sofrimento dele não o afetar. Queria até demais, entretanto não conseguiria ficar parado enquanto o ruivo chorava sem tomar nenhuma atitude para ou atenuar a dor ou, no mínimo, trazer conforto para que a carga emocional se abrandasse.
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  O ouvindo, Kalisto, de barriga pra cima, pôs a destra no pequeno ombro, onde o puxou suavemente. Rafael sabia que entre eles havia um contrato silencioso onde um jamais obrigaria o outro a fazer algo que não quisesse. Tinha a opção de resistir e manter-se naquela posição. Contudo, estava cansado demais e numa aflição intensa igualmente grande. Em consequência, aceitou o cuidado que lhe seria entregue sem reclamações.
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  O virou até acomodá-lo em seu peitoral. Sentiu as lágrimas molharem sua roupa sem se importar. Roçou os lábios nos cabelos num gesto carinhoso com os dedos acariciando de leve as costas pequenas.
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  - Sabe que, geralmente, não adianta mentir pra mim, né?
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  O peteleco no peito lhe arrancou uma risada anasalada.
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  - Doeu.
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  Recebeu leves batidinhas e afagos rápidos onde foi atingido.
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  - Quer conversar?
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  Rafael acenou um não com a cabeça agarrando-se a regata.
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  - Quer ficar sozinho?
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  Mais uma vez recebeu uma negativa.
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  - Quer a presença da sua mãe ou a sua irmã?
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  Mordeu o lábio mexendo a cabeça de um lado pro outro freneticamente.
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  - Quer ou prefere a minha? – havia temor nas palavras por não saber a resposta.
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  Demorou um pouco, mas o ruivo acenou um tímido “sim”, como se o custasse a admitir ou não quisesse revelar a verdade. O ouviu dar um suspiro e foi acariciado no rosto, justamente onde foi atingido por André. Devido a dor soltou um grunhido abafado que não passou desapercebido por Kalisto, embora ainda não compreendesse o motivo para a reação. Portanto, preferiu afagar os cabelos num cafuné reconfortante.
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  - Pode chorar o quanto quiser, bebê. Está seguro comigo. Sempre.
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  E assim, escondidos na escuridão do quarto, envolvidos um pelos braços do outro, Rafael banhou a sua regata com as lágrimas. Não recebeu reclamações, repreendas e nem perguntas. Apenas o que mais lhe era necessário num momento tão delicado: um carinhoso acolhimento. Adormeceram juntos pela primeira vez depois de quatro anos separados sem afastar os corpos.
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Capítulo 5
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