Chame por Cigana


Escrita porZsadist Xcor
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 37 minutos

  O dia de Kalisto começou maravilhosamente bem. Ou melhor, num apanhado geral, a semana foi bem promissora. Recebeu a notícia de ganho de causa de dois clientes, e o alto valor já havia caído na conta. Conversara com a mãe e descobriu que o pai voltou a perguntar pelo filho – apesar de o patriarca não aceitá-lo por ser da comunidade gay, não deixou de amar nem de se preocupar com o advogado. Outros clientes o procuraram para serem representados por Kalisto Andrade judicialmente por indicação de profissionais renomados da área de saúde, e havia um show que iria acompanhado pelo amigo Gustavo Leal horas mais tarde, naquela noite de sexta-feira, ao término de sua aula na turma de Direito da faculdade federal. Embora não tivesse o costume de se interessar por aqueles shows em casa de festa, a artista era alguém que sempre quisera presenciar a performance – e certamente sentiria muito orgulho do que veria em cima daquele palco com diversas pessoas a ovacionando.
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  Como tinha sido um aluno reconhecido em sua turma e a carreira deslanchava ao ponto de ter seu próprio escritório em tão pouco tempo, um professor com quem ainda tinha contato o indicou para substituir uma professora que havia se aposentado. Aceitou o emprego antes de conversar com Micaela, então imaginou, no máximo, ver Rafael pelos corredores, na biblioteca ou no refeitório. Nada de alarmante. Apenas situações onde se cruzariam e não precisariam conversar nem ter maiores contatos. Para isso, estava pronto.
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  Porém, nada o prepararia para quem encontraria ao passar pela porta da sala de aula.
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  Rafael Siqueira, seu ex, a quem não via há quatro anos, estava sentado numa das cadeiras da frente, completamente petrificado. Os olhos arregalados, o maxilar travado, as narinas dilatadas e os ombros encolhidos eram sinais claros de que preferia ver o próprio Lúcifer passando pela porta do que Kalisto Andrade.
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  A reação, apesar de não muito positiva por ser recheada dos indicativos de que não estava exatamente feliz pelo inesperado reencontro em circunstâncias tão estranhas, serviu para lhe mostrar que o ruivo não era completamente avesso a ele. Não era um qualquer em meio à multidão, uma pessoa dentre as demais que passaria batida e cujo rosto não seria identificado em meio a tantos outros. Pelo contrário. Seria reconhecido – e, no íntimo, claro que mentiria caso lhe indagassem, isso lhe gerou certa ansiedade, porque poderiam ter outros sentimentos colidindo ou ressurgindo no coração do rapaz.
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  Enquanto Rafael, que fora um livro aberto, era incapaz de esconder seus sentimentos, o mais velho conseguia disfarçar bem até demais. Entretanto – e torcia para o ruivo não lembrar de tantas características de sua personalidade e comportamento –, quem o conhecia melhor, após uma rápida avaliação, conseguiria perceber que ficara igualmente impactado pelo reencontro graças às mãos trêmulas. Quando estava altamente nervoso ou ansioso, suas mãos começavam a tremer, especialmente quando não existiam meios para extravasar aquela tensão.
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  Pena que não era o único motivo para estar tão alterado, mesmo não demonstrando.
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  Assim que o viu, percebeu que o tempo apenas lhe favoreceu, realçando a sua beleza e dando ao seu corpo as proporções certas. Não conseguia compreender como isso era possível se, caso sua memória não lhe pregasse uma peça, as medidas corporais eram praticamente as mesmas. Entretanto, de alguma maneira, estava mais atraente. Se antes era capaz de fazer o advogado de um metro e oitenta e cinco gozar em poucos minutos em sua boca, certeza que hoje em dia ficaria duro apenas pelo simples ato de segurar sua mão ou entrelaçar os dedos. Os cabelos estavam em sua cor natural, em pequenas ondas, e as pernas tornaram-se mais torneadas, principalmente quando envoltas num tecido jeans justo. Se as coxas estavam convidativas ao ponto de desejar sentir a textura delas novamente, imagine como seria a...
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  Inferno, ainda desejava o homem. Se tivesse oportunidade, o levantaria daquela maldita cadeira para beijá-lo. Arrancaria as roupas, as rasgando com as próprias destras, e o faria seu ali mesmo. O pegaria com gosto e se deliciaria com os gemidos agudos que sairiam daquela boca que tanto desejava beijar há tanto tempo. Espalharia beijos pelo corpo alvo inteiro, desde a testa até a ponta dos pés. O marcaria nos quadris e na bunda com tapas e apertos para impedir que qualquer outro homem se aproximasse, já que perceberia que Rafael já tinha dono. E o mais importante: mergulharia tão fundo nele e tão rápido que esqueceria até o próprio nome, importando-se somente com o prazer dado por Kalisto e na paixão que ainda os consumia.
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  Precisou se concentrar na aula e no conteúdo dado. Descobriu que não poderia deixar seus olhos se encontrarem com os de Rafael porque travava. As palavras simplesmente não saíam da boca quando o encarou duas vezes durante o discurso, então achou mais prudente evitar o contato com aquelas íris instigantes – inclusive porque o viu passar a mão nas pálpebras como se secasse lágrimas de maneira disfarçada. O seu coração se apertou ao constatar isso. Apesar de o passado dos dois conter sofrimento e o ruivo ser o responsável por fazê-lo parar no hospital devido a questões emocionais, não gostava de vê-lo triste – e sentiu-se um perfeito exemplo de filho da puta por provocar uma emoção negativa nele.
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  Quando terminou a aula, já atrás da sua mesa de professor, falou:
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  – Estão liberados. Só uma coisa. Um de vocês entrou nessa turma de última hora. Quero falar com você pra adicionar o seu nome na lista de chamada.
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  Demorou-se a guardar seu material para ir até ele. Independentemente de estar atrasado ou não para se encontrar com os amigos devido ao remunerado compromisso agendado há meses, não gostaria de ter uma plateia os observando. Afinal de contas, era o seu primeiro contato com o ex. Muito poderia dar errado ali, e não queria sair prejudicado em um momento tão importante como aquele – e não tinha em mente apenas o retorno para a faculdade como uma questão preocupante.
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  Quando a última aluna fechou a porta, se aproximou de Kalisto, que estava sentado na cadeira mexendo no celular.
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  – De todos para quem imaginei dar aula, o seu nome jamais se passou pela minha mente. – Deixou o aparelho em cima da mesa para fitá-lo.
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  Rafael queria arrancar aquele sorriso cínico desenhado no rosto moreno com as próprias unhas – de preferência com as da sua drag, por serem maiores. Encará-lo sem que os sentimentos emergissem era um desafio. Eram lembranças, sensações, falas, risadas, sons, texturas, sabores... Havia um vasto conteúdo vivido entre ambos no passado para conseguir ser ignorado.
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  Por outro lado, não era mais o mesmo Rafael de 22 anos. Aquele tão fragilizado, que mais parecia um trapo por meses e completamente apagado. Não permitiria transparecer o quanto a presença daquele homem o incomodava, então aproveitou os ensinamentos da moça de não abaixar a cabeça. Pôs-se altivo, empinando o nariz e com uma expressão orgulhosa na face.
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  – Acredite, estou tão satisfeito quanto você. – Colocou uma das mãos na cintura.
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  – E aí? Como anda a sua vida?
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  Rafael achou a pergunta tão sem nexo que riu de nervoso.
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  – Não podia estar melhor. – É claro que mentiria. – Estou bem, feliz... Até namorando, acredita? – Finalizou com um toque ácido na voz.
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  – Jura? – Kalisto ergueu as sobrancelhas, não conseguindo disfarçar como detestou ouvir as palavras. – E quem é o felizardo?
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  – O André. Deve se lembrar dele.
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  – Ah, lembro muito bem. – Havia certa agressividade nas feições que transpareceram na voz. – O seu amiguinho era tão íntimo seu que preferiram elevar o patamar da relação, né? – Tamborilou os dedos na mesa, deixando o ciúme transparecer.
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  Óbvio que já sabia do relacionamento – e tinha verdadeiro repúdio quando se deparava com alguma foto da dupla nas redes sociais. Porém, ouvi-lo contando aquilo com tamanha satisfação lhe embrulhou o estômago.
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  – Ele é ótimo. Não sabe como o meu atual me faz bem.
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  Fingiu empolgação, soando quase como se o atual fosse sua primeira paixão na vida. Tinha um duro sorriso no rosto ao mentir e mordeu o lábio inferior, parecendo um adolescente cheio de hormônios.
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  – E imagino que não demorou nem um pouco para cair nos braços dele, certo, certo? – A voz saiu fria e a expressão era completamente impassível. Não conseguiu esconder a raiva pelas declarações. Afinal, havia limite para tudo – e o moreno estava chegando no seu.
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  – O André é bom no que faz. Eu seria um tolo se não aproveitasse, não acha?
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  Queria atingi-lo. Depois de tudo o que fez ao brincar com seus sentimentos, não seria justo se Kalisto não sofresse retaliação. O ruivo passou por um inferno sozinho, sem nenhum pingo de coragem para explicar a humilhação que sofreu por causa do ex. A única pessoa que sabia era Bruno, quem conseguiu lhe arrancar a confissão com a ajuda da bebida meses depois.
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  Então, sim. Merecia demonstrar estar ótimo e se mostrar dono de si.
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  Pelo menos era isso o que ambos tentavam mostrar um pro outro. Na prática? Apenas deixaram clara a mágoa, o ressentimento e que os sentimentos continuavam ainda latentes, apesar de não verbalizarem nada.
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  Deveria saber que aquela era a pergunta errada para realizar. Afinal, conhecia o temperamento do ex. Sabia que, desde que não estivessem em público, o mais velho era capaz do inimaginável – e nunca reclamou disso. Em meio a uma multidão? Desde que os demais não presenciassem nada, não havia motivos para se preocupar – aí precisava ser a mente sensata, mas sempre terminava com uma nova história pecaminosa que jamais seus amigos poderiam saber para manter a dignidade intacta. Numa dessas brincadeiras, pensou se era daquela forma como Tarzan e Jane se sentiam quando transavam numa rua deserta, escondidos apenas pela noite, a má iluminação dos postes e as folhagens de uma árvore cuja copa era bem cheia.
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  Num rompante, ergueu o corpanzil sem quebrar o contato visual com Rafael, que ergueu a cabeça para continuar a encará-lo. A proximidade era absurda e a tensão entre os homens quase palpável. O aluno queria socá-lo por se tornar ainda mais atraente com as tranças nagô e a barba rala – e bater em si, já que, caso desse vazão aos seus desejos, pularia no colo do ex para terem uma recaída memorável.
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  Kalisto se perdeu no verde daqueles olhos que lhe transmitiam tanto amor, tanta devoção e tanta sinceridade no passado. Queria, desejava e talvez precisasse voltar a ser encarado assim pelo ruivo, que era o responsável por levá-lo à loucura quando o provocava e o fazia sentir-se em casa quando o abraçava.
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  Ao notar que a raiva do baixinho se dissipava, dando lugar a algo como a saudade – ou talvez fosse a sua mente tentando lhe enganar –, inclinou-se devagar na direção dos lábios carnudos. Parou por alguns instantes, vendo a respiração pesada do outro, como se este se segurasse para não avançar e quebrar aquela mínima distância.
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  Para evitar cometer algo de que se arrependeria no futuro, Rafael esforçou-se para dar dois passos para trás sem baixar sua guarda. Era uma ação prudente, já que permanecer daquela maneira começava a mexer com seu coração. Pelo menos era esse o plano.
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  Ao dar o primeiro passo, Kalisto o segurou pela cintura do jeito que sabia que o ruivo gostava. A pressão causada pelo braço forte gerava arrepios em sua pele, e a mão usava de um pouco mais de força, como se almejasse tocar a pele macia e firme desde que passou pela porta da sala de aula.
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  – Não precisa fugir de mim. – Murmurou com a voz grave e com o ar de luxúria entre eles se intensificando. – Achei que eu já havia deixado isso claro pra você no passado.
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  Mentiroso. Kalisto lhe mostrou que deveria e precisava, sim, fugir dele. Fugir pra longe, pra um lugar onde jamais se encontrariam ou sequer se avistariam em nenhuma hipótese. Foi o responsável por incontáveis noites de choro silencioso em seu quarto, abafados e silenciados com a ajuda do travesseiro.
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  – Respondendo à sua pergunta, sim. – Concordou após minutos de silêncio, em que se encararam com certa raiva, mágoa e desejos reprimidos. – Seria um tolo. – Levou a boca até a pequena orelha, onde prosseguiu e adorou vê-lo fazer um movimento específico de quando costumava provocá-lo na região com a língua ou o toque dos dedos. – Afinal, se ele te fode bem, é o que vale.
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  Rafael estava bem longe de ter orgasmos tão intensos com André como tinha com Kalisto, mas não revelaria isso.
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  Kalisto, por outro lado, não imaginava que Rafael não tivesse nada a perder e que estava mais ousado nos últimos anos. O mais novo virou o pescoço minimamente, o suficiente para conseguir roçar os lábios na barba rala. Arriscou-se a tocá-lo com as palmas no peitoral. Não recebendo nenhuma reação negativa, as deslizou lentamente, sentindo-o aumentar mais o aperto e mordiscar o ombro. Parou quando sentiu o cinto de couro.
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  – É só isso, professor? Ou você está interessado em outras áreas da minha vida? Não posso demorar, porque tenho um compromisso do qual não posso me atrasar.
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  Se refreou de responder um “eu sei”, então disse, afastando-se por completo do toque do menor:
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  – Pode ir.
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  Sentou de volta na cadeira como se não houvesse acontecido nada ali.
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  – Não precisa que eu te dê meu nome?
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  – Eu sei de várias coisas sobre você, inclusive o seu nome completo. Deixa que sou capaz de me virar.
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  Sem se despedir, Rafael empinou o nariz, deu as costas pro ex e, a passadas firmes, passou pela porta.
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  Se antes o advogado endureceu com o diálogo a sós com seu menino, agora, vendo aquela bunda farta marcada pelo jeans, seu pau estava cheio e dolorido dentro da boxer, implorando pela atenção do ex.
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  Apesar de o rapaz ter ido embora, não foi isso o que houve. Aproveitou o corredor vazio para observar o moreno do outro lado da porta. Notou como o homem estava perturbado. A expressão alternava entre a mágoa e a raiva. A respiração pesada não o ajudaria a se acalmar e já tinha desatado o nó da gravata numa tentativa de conter a irritação. Por fim, pegou uma caneta sobre a mesa. Num único movimento, se colocando de pé, a arremessou longe, berrando:
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  – Inferno!
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  Apoiou as mãos na mesa com o corpo inclinado. Só então Rafael foi embora.
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  Chegou na casa de Nichole com a sua mala já pronta para o show. Quando ela, Victor e Morgana viram a cara dele logo foi jorrado de perguntas.
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  - Gente, escuta, o babado é forte, mas prefiro não falar agora. Juro que conto quando estivermos voltando da casa de show. – abriu a mala de rodinhas já retirando o seu figurino – Quero deixar a energia lá em cima.
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  - Mas está tudo bem, Rafa – pranchando os cabelos lisos da franja, Nichole indagou sentando ao lado dele com a maquiagem pela metade.
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  - Tirando a vontade de socar a cara de um filho da puta, sim. – apanhou a lace castanha ajeitando os fios e a colocou no braço do sofá com cuidado.
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  - Se você quiser, conheço uma galera de Jacutinga e de Belford Roxo que podem dar um jeito nisso. – Morgana falou avaliando-se no espelho e decidindo colocar mais sombra na pálpebra.
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  - Seria uma boa ideia. – Rafael riu – Mas não seria inteligente da minha parte, principalmente porque voltei a cursar Direito. Bora melhorar essa vibe porque temos um show da porra dentro de poucas horas. Quero estar mais gostosa do que nunca para arrasarmos naquele palco, suas lindas!
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  - Agora, sim, está falando como a princesa que a Disney não tem. – comentou Victor lhe entregando uma dose do vinho que estava tomando do gargalo antes de ir se arrumar.
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  Sexta-feira à noite Kalisto gostava de ir para o seu apartamento e usufruir de uma boa noite de sono, já que nos finais de semana poderia acordar mais tarde. Daria comida para Cristal, quem o receberia em casa ronronando e se esfregando em suas pernas. Tomaria um prolongado banho quente para relaxar os músculos. Em seguida vestiria uma samba-canção e passaria um tempo em frente à TV assistindo qualquer programa com a gata em seu colo pedindo carinho. Em seguida? Deitaria em sua confortável cama e despertaria no dia seguinte às onze da manhã. Porém, não estava em seu apartamento e sim numa boate.
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  Usava uma regata branca que deixava seus braços musculosos evidenciados. A calça jeans e o tênis branco davam um ar despojado. Com a cerveja em uma mão conversava com Gustavo:
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  - O que te levou a quebrar a sua amada rotina de sexta-feira? Está interessado em alguém daqui? – precisava gritar na orelha do amigo para se fazer ouvir – Algum milagre aconteceu pra querer passar a noite fora.
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  - Não foi nada de demais. – tomou um gole da cerveja – Só estava meio enjoado de passar mais uma noite de sexta-feira dormindo em casa.
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  - Então por que não aproveita e faz valer a pena? Já perdi as contas de quantos caras estão te secando.
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  Realmente, várias pessoas ali flertavam com Kalisto, mas ele fingia não ver. Não eram neles que estava interessado.
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  - Sabe que prezo pelo conforto quando transo. E aqui não é confortável.
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  - Até parece! Várias vezes aproveitou o banheiro dessa boate para transar quando éramos mais novos. Até hoje quero entender a logística de entrar naquele cubículo com outras duas pessoas e todas saírem satisfeitas.
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  Era verdade. Kalisto estava longe de ser puritano.
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  Ao checar o celular descobriu que a atração da noite já estava perto.
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  - Eu não vou demorar aqui. Quando der a minha hora eu vou. – guardou o aparelho inquieto pois ansiava ver a artista quem subiria ao palco.
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  A hora seria quando o show da Princess terminasse – e ele não era louco de perder uma única atualização dela nas redes sociais através do perfil fake.
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  Quando Princess subiu ao palco com as duas bailarinas, Nichole e Morgana, mais uma vez o pau de Kalisto endureceu tanto que a calça jeans se tornara desconfortável. Ela era linda. Conhecia os feitos de Rafael, mas não quando estava sob sua persona artística: Princess. Ela era ousada, atrevida, sensual e corajosa no palco. Muito. Até demais. Durante as apresentações imaginava se Rafael teria coragem de fazer o que Princess fazia no palco: provocar o público com sua sensualidade e beleza, além de hipnotizar as pessoas ali presentes pelo seu magnetismo natural. A drag rebolava sem pudor e aquela minúscula saia preta era sua perdição. A mão coçava para erguê-la e deixar um forte tapa na robusta bunda, assim como fazia quando estavam sozinhos antigamente. Sem dúvida o tapa a faria arfar e a instigaria a unir os lábios nos seus cravando as unhas na carne firme.
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  A drag de Rafael – e sim, ele sabia quem era por debaixo das roupas e da maquiagem – usava um transparente body rendado preto aberto nas costas e de mangas. A minúscula saia preta brilhosa na cintura dava a visão perfeita para a sua bunda, protegida apenas por um fio dental. Um par de coturnos finalizava o look. A lace castanha ornava com a maquiagem. O que Kalisto queria? Pegá-la pelos braços e retirá-la dali.
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  Sabia que Rafael performava e não revelava sua identidade, mas não compreendia o motivo disso. Via como vários homens dali encaravam Princess encantados e desejosos por flertes e talvez passarem momentos à sós. O advogado tinha convicção de que não saberiam tocar nela como ele. Nem de como apertar, em qual intensidade mordiscar e nem a velocidade certa para arrancar agudos gemidos. Apenas Kalisto Andrade era habilidoso o suficiente para leva-la ao ápice do prazer vez após vez – e tomava o tempo que fosse necessário para isso se deleitando com cada reação do corpo.
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  - Gente – a drag um pouco ofegante fez uma pausa para recuperar o ar tomando um gole de água numa garrafinha de plástico entregue por Morgana, quem saiu do palco em seguida a tampando – Quem aí estiver com o celular ou algo que faça luz, peço para que todos acendam essa luz. E caso estejam com o coração partido assim como eu estava quando escrevi essa canção, tenham a certeza de que vai passar e vocês sairão mais fortes e confiantes. Agora é o momento de extravasar essa emoção para ela não corroer em vocês. A deixem se esvair dos seus poros com cada nota que cantarei. Entreguem essa dor para o povo de rua leva-la para longe e vocês conseguirem acordar amanhã maravilhosamente bem.
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  O instrumental de A Tua Voz começou e a voz tomou conta do espaço. Kalisto conseguia ouvir e até mesmo sentir o ressentimento e a amargura na letra da música. Ficou hipnotizado pela letra sem imaginar o que a originou.
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  Rafael compôs A Tua Pele semanas após de ter fugido do apartamento de Kalisto. Deus, como sofreu e sentiu falta dos abraços daquele homem. Mais de uma vez ligou de um outro número desconhecido apenas para ouvir a voz dele – e essa foi a inspiração inicial para a criação da música.
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  No íntimo queria encontrar um motivo para o que aconteceu. Qualquer explicação do porquê Kalisto achou sensato machucá-lo daquela maneira era válida. Então decidiu fazer algo: criou uma história. A história de uma pessoa cujo relacionamento acabou devido a conflitos era imensamente mais interessante e plausível comparada ao que o futuro cantor vivia, onde sequer havia conflitos. Pelo contrário. Nas raras ocasiões onde discordavam com algo, conversavam. Nunca elevaram a voz. Era literalmente o relacionamento dos sonhos cheio de cumplicidade, amor, parceira, respeito, confiança e paixão. Então... Por qual motivo foi fadado ao fracasso?
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  Sem compreender o processo, a sua persona Princess começava a surgir. Enquanto escrevia a letra – hábito criado na tentativa inconsciente de extravasar aqueles sentimentos por não haver nenhuma outra válvula de escape – e cantarolava a música até juntar tudo e transformar elementos isolados em música se imaginava cantando e performando como drag – maquiado, com as roupas e talvez até argolas.
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  Era ela quem havia terminado o relacionamento. Ela brigaria todos os dias em consequência de o cara implicar com os seus trejeitos – e Princess manteria a cabeça erguida convicta de sua força e de seu poder pessoal. Mentiria caso fosse perguntada se a vida estava bem e principalmente: Princess suportaria caso existisse outra pessoa já ocupando o seu lugar ao lado dele?
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  Gustavo estava ao lado do amigo durante a apresentação – e o outro estava completamente alheio. Só tinha olhos para o palco. Olhos esses que estavam carregados de inúmeras emoções reprimidas. A mão que segurava a cerveja estava trêmula e segurava a garrafa com força além da necessária.
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  Após observar atentamente Princess, falou de maneira despretensiosa:
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  - Engraçado. Esse rosto não me é estranho.
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  - De quem?
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  - Dela. – apontou para frente com o queixo.
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  - Acha? Nunca a vi.
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  - Sim. Ela lembra o Rafael.
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  - Acho que não. São bem diferentes.
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  - Tem certeza?
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  - Gustavo, qual de nós dois transava com ele? É obvio que eu saberia se fosse o meu ex debaixo daquela maquiagem ou não.
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  A resposta irritada deixou o amigo desconfiado, principalmente porque o outro não tirava os olhos do palco nem pra conversar com ele.
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  - Se está dizendo...
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  Suas suspeitas seriam confirmadas quando, minutos mais tarde, Kalisto lhe avisasse que estava indo. Mais especificamente no momento em que o show terminasse.
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  - Porra, é sério que tem tanta gente sofrendo por amor aqui? – disse Princess quando terminou a canção – Nem sei quem são eles ou elas, mas tenho certeza de que vão se arrepender amargamente. Olha o tanto de gente bonita nessa boate. – foi ovacionada pelo discurso – Agora, vou finalizar essa noite com uma música da Beyoncé e da Shakira. O que temos a ver com elas? Já nos apaixonamos por um lindo mentiroso. Bora dançar!
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  O advogado escolheu um ambiente onde não seria facilmente identificado, um pouco mais distante do palco, onde ainda havia certa escuridão. E foi ali, parado, que observou cada movimento de Princess desde que ela pisou no palco. Até mesmo o olhar tornou-se mais intenso – e algo dentro dele torceu para que o identificasse na multidão. Talvez fosse efeito da bebida, mas adoraria descobrir a reação do ruivo caso descobrisse – de preferência em sua persona.
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  Ao final do show Victor passou no bar para comprar água para as meninas. Enquanto fazia seu pedido, ouviu um homem conversar com um amigo:
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  - Escuta, minha hora já chegou. Eu já vou.
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  - Você só veio para ver esse show, né? – lhe lançou um olhar de esguelha.
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  - Só vou ser sincero em virtude dos nossos anos de amizade. Sim.
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  - Sabe, eu já disse, mas volto a repetir. A Princess me lembra alguém ou estou neurótico?
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  - Definitivamente está neurótico. – balançou a cabeça em negativa em ar de riso.
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  - Hum... – o avaliava de cima abaixo, como se não acreditasse na resposta.
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  - Que foi, Gusta?
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  - Eu o conheço há mais de vinte anos. Algo me diz que há algo de errado nessa história que não está certo, mas relaxa. Ficarei por aqui. Depois a gente se fala.
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  Quando o outro se afastou, Victor interpelou o de regata branca:
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  - Desculpa, mas foi impossível não ouvir a conversa de vocês. Veio só pra assistir ao show da Princess?
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  - Sim. Ela é uma cantora maravilhosa. A acompanho nas redes sociais, mas não imaginava que dominasse o palco com tanta presença. Foi a primeira oportunidade que tive de prestigiá-la.
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  - Ela é ótima, sim.
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  Um momento de silêncio se passou entre eles e Victor pôde notar que o estranho observava o lugar metros à frente onde Princess estava com as duas amigas. Elas dançavam entre os demais e se divertiam completamente alheias a conversa de Victor, o videomaker da artista, com aquele homem. Além disso identificou a existência de um certo saudosismo no olhar, como se a mente do desconhecido estivesse longe, presa em memórias carregadas de saudade.
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  - Você a conhece? – indagou o videomaker.
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  - Como? – pestanejou sendo retirado dos devaneios.
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  - A Princess. Você a conhece?
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  - Não.
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  - Por que está com essa cara, então? – apoiou os cotovelos na bancada, virando o corpo na direção do desconhecido.
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  - É que ela me faz lembrar de alguém.
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  - Alguém do seu passado que foi importante pra você? – o pressionou carregado de curiosidade.
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  - Admito, foi alguém importante pra mim.
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  - Sem querer me intrometer, qual foi a questão entre vocês? – colocou a mão nos bolsos para pagar as garrafinhas de água dispostas na bancada pelo garçom.
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  - Ele era um lindo mentiroso. Esse foi o único problema. – deu um sorriso depressivo – Não é nada de demais.
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  Apesar das grandes proporções o outro estava cabisbaixo. A postura continuava ereta, entretanto era como se o brilho interno dele estivesse ligeiramente apagado. E foi graças a áurea carregada de lástima que Victor lhe ofereceu.
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  - Se quiser posso leva-lo pra se apresentar e bater uma foto. Vai que seu ânimo melhora? Ela é super receptiva com o público e adora bater fotos. – planejava apenas elevar o ânimo dele. Pena que não surtiu o efeito imaginado.
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  Estranhou como o moreno sobressaltou. A ideia pareceu assusta-lo.
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  - Ah, não, não precisa. – gesticulou com certo nervosismo – Aliás, foi bom conversar contigo. Quem sabe não nos vemos por aí?
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  Sem se despedir se afastou, deixando Victor intrigado com a conversa e até com certa dó.
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  Às cinco e meia da manhã os quatro entraram no Uber, todos espremidos na parte detrás do veículo.
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  - Viada, por favor, você está me matando de curiosidade até agora. – Nichole falou assim que fecharam a porta – Que merda aconteceu hoje pra chegar na casa da Nic com aquela cara de cú?
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  - Cara de cú mal comido, só se for. – comentou Victor.
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  - Bem, prepara aí que a história é longa. – retirou um fio da lace da boca – Adivinhem que é o meu professor da faculdade?
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  - Ah, não sei... – Nichole tomou um gole da garrafinha de água.
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  - Ninguém mais, ninguém menos que o meu ex filho da puta!
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  - Quê?! – as três vozes saíram em uníssono e quatro pares de olhos o encararam. Três dos amigos e um do motorista, quem não esperava pela informação.
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  - Exatamente o que seus ouvidos ouviram.
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  Eles não sabiam bem o que aconteceu entre ele e esse ex. Apenas que o cara foi um tremendo babaca com Rafael e partiu seu coração.
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  - Imagino a sua cara quando o viu entrando na sala. – Nichole gargalhou.
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  - Eu fiquei pra morrer! Queria que o chão o engolisse ali. Fujo desse cara mais do que o diabo foge da cruz, para ele aparecer na minha vida de novo do nada?! Tipo, quais são as chances dessa merda acontecer?
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  - Pri, tome cuidado pra não se envolverem muito. – avisou Morgana – Se ele ainda sente alguma coisa por você, é capaz de se aproximar aos poucos. Ou tentar.
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  - Nem fodendo que vou deixar aquela praga ruim chegar perto de mim. Sofri de dar dó por causa dele. – gesticulou certa das palavras proferidas – Não me tornei essa gostosa da porra pra deitar na cama daquele escroto na primeira oportunidade.
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  - Amiga, é mais fácil nos mostrar uma foto dele, sabia? Pelo menos para termos um rosto em mente. – Nichole explicou.
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  - Segura aí.
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  Princess retirou da bolsinha o celular, onde buscou a rede social de Kalisto.
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  - Pronto. – entregou para as meninas que se sentaram lado a lado.
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  - Gostoso! – soltou a loira.
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  - Gato. Pena que não presta. – finalizou a outra.
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  - Me dá aí pra eu ver também.
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  Com o celular na mão, Victor arregalou os olhos sem comentar nada por alguns segundos enquanto os outros três conversavam. Para ter certeza da imagem, retirou os óculos de marrons hastes quadradas proporcionais ao rosto.
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  - Pri... – pronunciou o apelido prolongando a fonética da sílaba.
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  - Fala.
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  - Tem certeza que é esse cara? – ainda tinha os olhos cravados na tela, passando as fotos do homem.
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  - Tenho, ué.
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  - Mas assim... Certeza absoluta, mesmo? – pestanejou para ter certeza do que via e voltou a colocar os óculos – Aquele tipo de certeza que é irredutível e que você apostaria dinheiro porque sabe que lucraria com isso?
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  - Eu chupava o pau desse homem, Vic! Como não iria saber qual é o rosto dele?
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  - Escuta... – passou a mão pela testa – Você não vai surtar, não? É que tenho uma coisa pra te falar.
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  - Desembucha logo. – apertou de leve a bochecha do amigo em gesto terno.
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  - Se eu te falar que ele estava hoje na casa de show só pra te ver você acredita?
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  - Como é?! – pestanejou em sinal de confusão e estranheza.
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  - Exato.
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  Em questão de segundos resumiu conversa que teve com Kalisto.
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  - E amiga, posso jurar que ele não estava muito bem. – finalizou – Sei lá. Parecia estar meio triste, com saudade... Não sei. Eu deveria ter dado um jeito de bater uma foto da cara dele enquanto te observava. Até eu fiquei com dó.
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  - Pois que sofra! – respondeu ácida – Eu é que não vou ficar mexida só porque o senhor mentiroso ficou todo tristinho.
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  Durante os minutos seguintes Princess não disse mais nada. Os amigos confabulavam entre si enquanto ela, de maneira bem atípica, se manteve calada, com a perna cruzada, um braço sob o peito apoiando o outro pelo cotovelo enquanto movia devagar o dedo anelar e o polegar entre si. De tão concentrada nos próprios pensamentos não ouvia mais os amigos. Avaliava o comportamento de Kalisto e usou como comparação o relato de Victor. Era evidente que o homem estava incomodado em se deparar com Rafael, mesmo após quatro anos. O motivo que o intrigava e o instigava a preencher as lacunas em branco daquela equação permanecia em oculto. As ações dele, desde as mãos trêmulas na sala de aula até a postura tristonha descrita pelo produtor musical e videomaker eram amostras de quem ainda estava abalado. Deus, a dedução em si era quase cômica devido aos eventos de anos atrás.
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  Montada, Princess aflorava algumas características de Rafael, dentre elas a ousadia e a coragem. Ela não tinha medo e irradiava poder. Rafael era mais medroso, então se impedia de arriscar-se em algumas coisas e acabava perdendo oportunidades ao longo da vida. Princess, não. Aliado a isso, tanto quanto Rafael ela precisava de respostas. Não gostava de espaços em branco. Era uma necessidade genuína que esses espaços serem preenchidos.
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  - Ih, gente... Conheço essa cara. – Nichole comentou enquanto se abanava com o leque após ver a expressão de Princess.
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  - Cara de quem vai aprontar. – completou Victor e Morgana.
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  E sim.
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  Rafael iria aprontar.
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  Na faculdade. Pra cima de Kalisto – e usaria um pouco da ousadia de Princess a seu favor.
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Capítulo 2
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