Capítulo 13
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Enquanto Rafael começava a aproveitar de uma fase nova de sua vida, André se afogava ainda mais em seu inferno particular.
Demorou anos para a consciência pesar.
Usava mais drogas que o costume e bebia além da conta. Não se alimentava bem, optando por lanches rápidos ou alimentos processados. Quando a insônia não o impedia de dormir, acordava suando durante a madrugada pelos pesadelos cujas protagonistas eram as suas diversas vítimas.
Tudo isso porque o peso sobre seus ombros estava insuportável desde que descobria o que acontecia com as pessoas entregues por ele no Oriente Médio as quais tentavam fugir ou simplesmente morriam – para sua infelicidade, órgãos davam uma fortuna para quem vendia.
Mantinha-se de frente ao computador trabalhando sentindo-se cada vez mais miserável ao passar dos dias.
Afinal, o que mais lhe restou? Não tinha parentes, a mãe era uma idosa esquizofrênica abandonada pelos familiares cujos remédios caros eram pagos pela renda do único filho. Não havia mais nada e nem ninguém para recorrer objetivando suprir os custos dela, quem tomava vários remédios todos os dias para manter-se estável. Além disso, caso não fosse ele, outro estaria em seu lugar angariando aquele dinheiro. Buscava se convencer da necessidade de proporcionar o mínimo de dignidade para a sua mãe – é claro, às custas de outras mulheres e gays tratados como mercadorias.
Se enfiou naquilo em desespero. Não encontrava emprego e as contas não paravam de chegar. Por fim, iniciou alguns golpes pela Internet. O perfil das vítimas era mais ou menos o mesmo inicialmente. Mulheres entre trinta e cinquenta anos, casadas e com filhos. Entregava para elas aquilo que faltava nas suas vidas – o amor romântico. O casamento obviamente não ia bem e os maridos não lhes davam a devida atenção. Carinho? Nem se lembravam do que era isso.
Por detrás de um perfil fake as conquistava numa sedução envolvente com palavras lindas, histórias engraçadas e paixão – tudo pela Internet. Até que, por fim, comentava sobre seus problemas financeiros. Compadecidas, lhes enviam dinheiro – isso as que tinham a sorte a seu favor. As outras, pelos envios de nudes, as chantageava, conseguindo valores cada vez maiores. Ficou assim durante um tempo até ser enredado por um grupo, cada um atuando em suas respectivas casa e celulares. Algumas ou alguns eram levados por ele em viagens com promessas de conhecer o país natal dos diversos fakes criados por André. Essas pessoas não retornavam – Bruno seria o único a vencer essa estatística de maneira pouco convencional.
Por fim, novamente precisou do auxílio da bebida para prosseguir com o esquema. E isso estava se tornando rotineiro.
Horas mais tarde recebeu uma ligação que lhe deixou em total estado de alerta. Descobriram que Rafael terminara com ele.
Conheciam o ruivo por verem fotos pela internet. Já haviam demonstrado interesse nele, mas André o protegia por não permitir fazer nada com o rapaz. Agora, separados, estava de mãos atadas. Inclusive, foi por causa de Rafael que entrou pra quadrilha. Tinha medo do ruivo ser aliciado após vê-lo entrando num grupo no Telegram em busca de emprego – e era justamente um dos grupos onde captavam as vítimas. Estando ao seu lado, impediria disso acontecer – e não era mais o caso.
Por sorte, sabia que um dos outros membros conversava com Bruno num aplicativo de relacionamento. O indicou para ir no lugar do ex, já que ambos tinham qualidades quase idênticas e a aparência era similar. O alívio foi enorme quando aceitaram a troca – pelo menos por enquanto.
Apesar do cansaço constante, Rafael mantinha um bom desempenho nos estudos. Kalisto se orgulhava do avanço dele cuja admiração crescia cada vez mais.
Achava maravilhoso o empenho para se formar, a organização nos horários para estudar e como aproveitava os intervalos da semana para se aprimorar enquanto equilibrava com a vida artística.
Geralmente interagiam na parte da noite ou aos finais de semana, quando o rapaz tinha mais flexibilidade nos horários para isso. Abria mão do descanso para estar ao lado do advogado? Sim, mas era bem mais importante para si.
Uma vez o encontrou mexendo no celular em seu apartamento deitado na cama antes de dormir.
- O que tanto está vendo aí? – curioso, se acomodou no colchão esticando o pescoço para ver a tela.
Era um macacão do Stitch com direito ao capuz com o formato da cabeça do personagem e orelhas.
- É fofo, mas é meio carinho... – mordiscava distraído a unha do polegar frustrado por não poder arcar com a compra – Não sei também se seria uma boa ideia... – finalizou com um biquinho.
O desapontamento por não conseguir comprar a peça era evidente, então, no dia seguinte, Kalisto tratou de compra-la pela Internet sem lhe avisar.
A apanhou na caixa postal na quinta-feira retornando do trabalho.
Aproveitou que Rafael iria para o seu apartamento após a aula de sexta para lhe deixar encontrar a surpresa. Por chegar depois, já que os horários eram incompatíveis pela aula de Rafael terminar mais cedo, o deixou avisado que havia uma surpresa sobre a cama.
Realmente achou que o macacão era para Mia. Por isso estranhou quando chegou em casa e o encontrou sentado de pernas cruzadas no sofá comendo pipoca doce enquanto assistia A Bela e a Fera – demorou alguns segundos para perceber que era seu amado após se indagar o motivo de Mia estar ali.
Quando ouviu a porta sendo fechada, deixou o balde de pipoca de lado para ir até o outro saltitante com um enorme sorriso.
- Obrigado pelo presente, amor! – o abraçou sem hesitar.
Num impulso, o segurou pela parte detrás das coxas para coloca-lo no colo, quem circulou a cintura com as pernas.
- Era pra você? – achava divertida a situação – Pensei que fosse pra sua irmã.
- Que pra Mia, o que! Era pra mim. É ideal pra esse tempo mais frio. – pressionou de leve com as pontas dos dedos as bochechas até formar uma boca de peixinho – É quentinho e macio. – beijou as pontas dos lábios naquele formato.
- É uma pena porque mal consigo sentir o seu corpo assim. – murmurou esfregando os narizes num beijo de esquimó.
- Depois eu é que tenho fogo no rabo. Olha as coisas que você me fala vestido com esse macacão. – brincou saltando do colo – Vai querer ver filme comigo? – questionou com as mãos no peitoral sendo abraçado pela cintura.
- Claro. Só faz mais pipoca pra mim enquanto tomo banho? Esquenta também as salsichas na panela. – completou detectando o cheiro de cachorro-quente.
- Um querido com fominha.
Beijou a testa alva antes de se separarem. Um foi pegar uma roupa confortável e o outro cuidar da comida.
Ao retornar pra sala cuja luz estava apagada, deparou-se com a imagem de Rafael na posição anterior com mais pipoca doce e salgada em baldes diferentes, alguns cachorros-quentes, um pote com bolo de cenoura que trouxera de casa após fazer uma parada no Uber para pega-lo e dois copos de refrigerante, tudo distribuído numa mesa que deslocou para deixar na frente do sofá. Levantara o capuz, deixando as orelhas do personagem à mostra.
Vestindo um conjunto moletom cinza e meias, parou na entrada da sala por alguns segundos o observando. Voltou a cruzar as pernas e, distraído, balançava a cabeça de um lado por outro cantarolando algumas músicas da animação enquanto mexia no celular. Impossível não acha-lo adorável.
Comentou sorridente se acomodando ao seu lado.
- Quer assistir outra coisa? – esticou para pegar um cachorro-quente – A gente pode assistir ao que preferir sem problemas.
- Relaxa. Assisto A Bela e a Fera contigo. Estou precisando distrair um pouco também pra relaxar.
Mordiscou o ombro largo em agradecimento enquanto a gata surrupiava uma pipoca do balde.
De fato, vivam momentos muito bons reconstruindo a relação – e, distantes, a moça e o malandro acompanhavam o casal, orgulhosos de seus trabalhos e felizes por eles terem encontrado finalmente seus respectivos caminhos de volta um ao lado do outro.
Se Bruno pudesse retornar ao passado, jamais, nunca, em hipótese alguma, teria baixado o aplicativo de relacionamento numa noite entediante. Seria bem mais sábio de sua parte ter saído com os amigos, ter colocado algo na televisão para assistir ou simplesmente ir até a calçada do prédio ver as pessoas aproveitando a solitude com um sorvete.
O celular foi retirado dele, assim como o passaporte e os documentos – ou seja, todo o necessário para a sua fuga acontecer.
Aceitou a mudança de sua vida de imediato sem negar a realidade. Sempre foi mais prático, se moldando aonde estava como, inclusive, forma de sobrevivência. Portanto, abafava seus sentimentos guiando-se pela sua lógica.
Portanto, quando foi levado para o hotel no Egito, não havia resistência. Apenas se arrumou para ir.
Entrou no quarto luxuoso preparado para mais uma noite. Colocara de imediato o tubo de lubrificante, as camisinhas e os dois plugs anais na mesa de cabeceira ao lado da cama. Não imaginava o quanto aquele cliente seria peculiar.
O estranho de porte grande aparentando beirar aos trinta e cinco anos com alguns fios grisalhos nos cabelos estava acomodado no sofá em frente à cama com um metro de distância. O aguardava paciente bebericando água num copo de vidro servido pelo hotel que ganhava um gordo valor à parte para permitir tanto a prostituição quanto duas pessoas irem para o mesmo quarto sem serem casadas – afinal, o país não era laico, então a sharia era severa e não permitia em hipótese alguma algo comum na métrica do Ocidente.
- Já fui avisado de que é brasileiro, então... O que prefere? – sentou no colchão retirando a blusa, ansioso para terminar o serviço.
Na sua bolsa guardava algo para ajuda-lo a passar as horas seguintes de maneira mais fácil para a sua nada conservadora consciência lidar – o desconhecido desmaiado sem correr o risco de transarem.
- Não, não precisa se despir.
Não se deslocou da cadeira um centímetro sequer.
- Prefere que eu tire só a calça, então? – levou as mãos pro cós desabotoando.
- Garoto, para. Para com isso. – acenava aborrecido.
- Como? – franziu o cenho atordoado – Querido, não leva a mal, mas você deve ter se confundido. Meus serviços não são...
- Eu sei no que trabalha. – o interrompeu – Não quero seus serviços. Aliás, não vim pro cú do mundo enfrentando horas horrorosas de voo sem um motivo concreto. Estou à trabalho. Não divertimento.
O traficado cruzou as pernas com uma palma o apoiando na cama.
- Pra que veio até aqui, então, gato?
- Você quer ver os responsáveis por te trazerem pro Egito presos?
- Quer voltar pro Brasil?
O homem não costumava xingar, mas ficou admirado com o brilho de esperança no olhar do outro sem compreender porque apreciou tanto a melodia da voz. Pegou-se numa curiosidade inocente se perguntando se era cantor. Era intrigante esse interesse nele, pensou contendo um sorriso.
- Sou policial. Vim numa operação porque buscamos pôr um fim nessa rede de tráfico humano. Pra isso tenho que agir com cautela, pensando cada passo.
- Então você vai me ajudar a sair daqui?
Pela primeira vez Bruno permitiu seus sentimentos chegarem à superfície. Chorando, quebrou o espaço entre eles e, se curvando, o abraçou.
- Obrigado! Obrigado, moço. – repetia incansável entre os soluços.
- Shi... Calma. Está tudo bem. – murmurava dando batidinhas gentis nos ombros.
Pelo resquício de pudor completamente perdido desde a sua chegada nas terras egípcias, sentou no colo do homem, quem, curiosamente e sem nenhum tipo de segundas intenções, o acolheu sem sentir a sua individualidade sendo invadida.
Se afastou após alguns minutos secando o rosto.
- Desculpe. Nem sei o seu nome. – pestanejou buscando se controlar. Ainda era crucial manter-se bem mais lógico ao invés de emotivo.
- Sérgio. – estendeu a mão no pequeno espaço entre os corpos.
- Bruno. – o cumprimentou como pôde – Oi.
Durante o horário combinado com os aliciadores, Sérgio e Bruno aproveitaram para estipularam a melhor maneira de prosseguir a partir dali para não correrem riscos.
No horário esperado, o rapaz aproveitou do seu talento como ator. Saíra do quarto com os cabelos bagunçados, a cama desarrumada, as camisinhas abertas com as embalagens espalhadas pelo chão e os lábios inchados carregando sua bolsinha num rosto impassível.
Não imaginavam que mordiscara a boca com os dentes e desarrumada os fios com os dedos enquanto o policial espalhava o que precisava pelo quarto para deixar claro o que acontecera ali – supostamente, é óbvio.
As últimas três semanas foram mais corridas que o normal para Rafael.
Precisou acelerar os vídeos para as redes sociais em consequência da gravação de seu novo clip.
A ideia surgiu rapidamente devido ao reencontro com Kalisto. Conversou com a equipe e começaram a trabalhar em cima da letra escrita pelo artista em questão de minutos.
Era criação de figurino, provas, desenvolvimento de coreografia, cenário, divulgação, ensaios e vários outros aspectos relevantes. Kalisto chegou ao ponto de colocar algumas garfadas de comida na boca dele – o único jeito de almoçar naquele dia – quando provava a roupa criada por Nichole aprovando o visual em seguida.
Num sábado se apressou para o local onde aconteceria a gravação.
Não era necessária a presença de Kalisto, mas o advogado fez questão de estar presente. A drag não impediria e era visível o quanto aprovava o comportamento pelas orbes brilharem naquele dia em especial.
Os amigos não sabiam a que ponto estava a relação do casal, porém Kalisto não escondia de ninguém o quanto se orgulhava de Princess, inclusive que a amava. Era afetuoso sem lhe invadir o espaço, pronto para admirá-la ou recebe-la com um abraço ou algum outro ato carinhoso.
Quando viu uma das figurantes puxando assunto com o advogado após analisar a gravação minuciosamente com Victor, rapidamente tratou de marcar território – mesmo com o outro demonstrando total desinteresse perante o desconhecido.
Decidida jogou os cabelos para trás caminhando na direção deles a passos firmes. Entrelaçou a mão na dele indagando manhosa:
- Amor, vem comigo pegar uma água. – espalmou a outra no peitoral moreno demonstrando possessividade – Estou com sede.
Com um aceno de cabeça de despedida se afastou carregando Princess consigo, quem, debochada, lançou um beijinho no ar para o loiro.
O ritmo apenas desacelerou após o primeiro show com o lançamento da música.
Se arrumaram na casa de Morgana em meio a risos, piadas internas e um clima leve. Com o auxílio de Nichole, decidiam ser o momento propício para estrear o presente de Kalisto, uma lace ruiva. Combinava perfeitamente com o look costurado pela amiga em tons vermelhos e terrosos para o show. A junção daquelas cores combinava perfeitamente com ela realçando ainda mais a beleza em contraste perfeito com o seu tom de pele.
Ao subir no palco fez questão de provocar Kalisto de maneira incansável – aliás, esse era o objetivo naquela noite. Rebolava sem pudor, principalmente na frente do homem. Se divertia ao visualizá-lo de queixo caído sem mal piscar. Precisou segurar o riso quando o avistou se remexendo de maneira desconfortável pelo volume excessivo entre as pernas.
Combinou com a amiga do tecido da saia ser mais maleável ao ponto de revelar a bunda tampada apenas por uma calcinha preta fio dental. Nas músicas mais excitantes, não se incomodou em se posicionar de frente para ele rebolando em seu rosto. O encarava com um sorriso devasso mostrando todo o poder exercido sobre o homem.
Em determinado trecho não se incomodou em mudar a letra.
Engatinhando em direção ao homem quem amava, cantava num sussurro:
- Eu te faço gozar, baby, você sabe bem. – sentou ajoelhada com as pernas separadas e o tronco erguido sem quebrar o contato visual – Não me deixe esperando nesse estado com o seu gosto na minha boca, meu amor, volta já pra cá. Deixa eu te fazer meu.
Victor soltou um berro em aplausos calorosos se divertindo com a cara embasbacada de Kalisto, como se encantado pelo canto de uma sereia. As duas bailarinas riram numa troca de olhares cúmplices enquanto a cantora retornava ao seu lugar para a coreografia com a língua de fora por perceber as reações das meninas.
Ao fim da apresentação recebeu um belo abraço do advogado por trás. Por estarem numa das laterais da boate, tinham certa privacidade por estarem envoltos pela escuridão.
- Você é gostosa demais. – sussurrou em sua orelha – Estava linda lá em cima.
- Acha que não sei? Você estava ao ponto de babar me observando.
Aproveitou a batida da música para rebolar ao ritmo da canção sentindo ainda mais o pau em contato de sua carne escondida pelo tecido.
Apertou a cintura de Princess num grave gemido.
- Não provoca se não pretende terminar o serviço. – pediu mordiscando o lóbulo.
A drag virou para o homem com um olhar intenso, carregado de promessas e expectativas.
- Quem disse que não? – colocou as mãos nos ombros – Sabe, estava cogitando em sentar no meu lugar favorito essa noite. – deslizou as pontas dos dedos pelo tronco abaixando cada vez mais num olhar inocente, aumentando a temperatura corporal pela excitação. Segurou o membro rijo num leve aperto, o que o fez arfar numa expressão de prazer – Estava querendo sentar aqui – aproveitou que o tecido não era grosso para acaricia-lo por toda a sua extensão. Tentando disfarçar por estarem em público, apoiou a cabeça no ombro baixo, quem lhe segurou pela nuca – até gozar dentro de mim. – adorou vê-lo arrepiar quando passou a ponta da língua no pescoço – Quer?
Caminhou a passos largos a obrigando andar de costas até pararem numa coluna mais distante das pessoas. A segurou pela lombar para diminuir o impacto. Urgente, desceu o zíper para Princess apanhá-lo com firmeza.
- O que acha? – retorquiu numa voz rouca, grunhindo pelo polegar circular a glande – Você está me deixando louco aqui.
- Então aproveita um pouco as próximas horas comigo por aqui. – puxou o lóbulo entre os dentes rindo pelo estremecimento – Te recompenso mais tarde. É uma promessa.
E foi o que aconteceu. Por mais uma hora e meia permaneceram juntos dançando e se provocando. A cantora se divertia com o jogo de sedução depois de falar com alguns fãs e de bater fotos. Esfregava-se nele sem nenhuma vergonha o tocando com volúpia.
Em determinado momento, de costas para o advogado, ele aproveitava para percorrer a mão pelo corpo enquanto com a outra a apertava na cintura. Beijou o pescoço dela, quem fechou os olhos para aproveitar a sensação.
- Vamos pra casa, minha menina. – suplicou – O seu homem te quer.
Nem ela suportava continuar no ambiente. Os mamilos estavam sensíveis pela excitação e a calcinha extremamente apertada, o membro implorando para ser liberto daquele aperto.
Foi buscar seus pertences de imediato após se despedirem dos amigos.
Ao retornar, o encontrou rindo com um uma bela moça na calçada quem pedia informações. Enciumada, foi até eles.
- Amor, vamos. Está ficando tarde. – o tom imperativo não deu espaço para diálogo.
Quando chegaram ao apartamento não tiveram sequer a oportunidade de fechar a porta direito. Pela gola da regata vermelha de Kalisto o puxou para um beijo sôfrego tateando a maçaneta até encontrar a chave para trancar o lugar.
A intensidade do toque, a urgência em lhe tirar as roupas e a atenção dada em cada espaço daquela carne transmitia apenas uma mensagem – Kalisto era seu. Pertencia a Princess de corpo e alma sem espaço para mais ninguém invadir aquela relação. Era a artista a responsável por sua paixão, pelo seu desejo e pelo seu amor. Era ela a única a toma-lo com a boca como tomou no chão do quarto sobre o tapete felpudo marrom, o mamando quase como se a sua vida dependendo disso, desempenhando um boquete exemplar cujas reações do moreno eram impossíveis de serem controladas. Cada arfada, gemido, movimento, tremor e arrepio era graças a cantora, quem explorou cada área do corpo de maneira obstinada, o percorrendo e estimulando das mais diversas maneiras.
Não se importou quando a calcinha foi rasgada pelas laterais lhe causando um enorme alívio, a livrando da pressão exercida pelo tecido para conter a ereção pujante.
Kalisto ousou tentar retirar a blusa, mas foi impedido. Por cima do corpo dele, o segurou pelos pulsos curvando o tronco até parar a centímetros do rosto.
- Quando nós dois estivermos juntos, eu sou a única a mandar aqui. – puxou entre os dentes o lábio inferior ofegante após um prolongado beijo rebolando no sexo pulsante num contato delicioso.
Faltando apenas o coturno do look, caminhou até a cama, sentando-se na beirada. Separou as pernas com os pés no colchão antes de ergue-las para cima lhe dando uma bela visão.
Kalisto apanhou o lubrificante no caminho. Despejou o conteúdo na entrada para preenche-lo sem cerimônia. Gemiam em meio os movimentos. Princess agarrava a parte detrás dos joelhos dobrados para manter as pernas paradas no lugar. O moreno aproveitou para masturba-la. Se separaram arquejantes após um beijo que lhes arrancou ar dos pulmões. O prendeu em si com as pernas cruzadas na cintura. O agarrou pela nuca impulsionando o tronco para cima sem se desconectarem, obrigando-o a pegá-la no colo.
- Deita no tapete pra eu te mostrara quem pertence. Agora.
Kalisto não estava acostumado a ser dominado, mas, o ser por Princess, era um privilégio delicioso que deveria ser repetido em outras oportunidades na sua opinião.
De costas, lhe dando a total visão de sua bunda, sentava no homem incessantemente quase lhe tirando a sanidade. Curvada para o chão, mexia apenas o quadril para cima e pra baixo ou então rebolando devagar, o deixando à beira da loucura pela visão. Recebia tapas estalados na carne a avermelhando na região.
Protestou num gemido frustrado quando ela levantou cessando as prazerosas sensações. Foi o tempo necessário para Princess voltar a se preencher dele, dessa vez sentando de frente ao moreno. A tocou no rosto, quem chupou um dos dedos. Deslizou as mãos pela cintura as mantendo ali acompanhando os quadris em movimentos circulares perfeitos quando voltou a rebolar.
Com um sorriso sacana, ergueu as sobrancelhas como se duvidasse, praticamente o desafiando.
- Sua, é? – mordeu o lábio inferior adorando a sensação de poder da situação.
- Me faça sua, então. – o desafiou.
Prendeu os pulsos pequenos nas costas numa mão e com a outra a puxou pela nuca, a deitando sobre si. Começou a meter nela naquela posição, quem mantinha-se parada aumentando o volume dos gemidos a cada estocada.
- É isso o que queria, minha putinha?
- É. – gemia trêmula cravando as unhas postiças nele – Me fode. Não para de me foder. – choramingou quase inaudível pelo outro castigar a entrada com o pau e o pescoço com a língua.
Por minutos aceitou ser penetrada numa intensidade admirável em agudas lamúrias incessantes de um prazer primitivo cuja irradiação tomava conta de cada centímetro de sua pele.
- Amor, deixa eu te olhar. – pediu com dificuldade das palavras se formarem – Preciso ver seu rosto quando gozar.
A segurou pelas costas erguendo os troncos. Os sinais claros da paixão estavam detectáveis em cada um. Pele suada, coloração rubra, tremores e gemidos entre os beijos eram evidentes, se fitando abraçados em respirações ofegantes. A artista não quebrava o contato visual se deparando com a plena entrega de Kalisto, quem já havia compreendido o sentimento por detrás de tamanha urgência – o misto de insegurança e medo.
Insegurança por ainda não se achar suficiente para o advogado e medo por ser trocada ou traída devido ao passado – inclusive potencializadas por causa das frases detestáveis de André sobre a artista ao longo dos anos.
- Presta atenção em mim, minha menina. – murmurava com a voz cheia de ar para ela, quem movia os quadris para frente e para trás. Parecia frágil com os ombros encolhidos e o cenho franzido, o olhar banhado de doçura e algo triste cuja identificação exata não fora detectada pelo mais velho – Eu te amo, meu amor. Da mesma forma que seu corpo é meu, o meu corpo é seu. Não esquece disso.
Acenou um tímido sim – tímido porque era a primeira vez que Princess, a persona artística de Rafael, transava montada daquele jeito. E estava apreciando a experiência de ser aceita pelo responsável de acelerar as batidas do seu coração. Recebera incontáveis insultos de André no passado e, embora os ignorasse, lhe causou um forte sofrimento na época, assim como algumas feridas emocionais jamais externalizadas cuja origem foi o ex. Temia sofrer alguma rejeição de Kalisto vestida daquela maneira, simplesmente sendo ela. Portanto, as palavras do moreno foram significativas, banhando seu coração numa surpresa positiva e, em consequência, os olhos marejaram sem sequer notar.
- Você é linda. Linda. Linda demais.
- Repete isso pra mim. Por favor. – implorou baixinho numa voz carregada de ar. Encostou a testa na dele, sensível tanto física quanto emocionalmente – Você é meu, amor?
- Sou seu. Só seu. – a segurou pelas laterais do rosto com delicadeza – Eu sou seu, meu amor.
A envolveu num abraço caloroso repetindo palavras amorosas, sem deixar de enfatizar a sua beleza e reafirmar diversas vezes que era ela a dona de seu coração e de seu corpo e do quanto a amava sem restrições.
Em questão de minutos gozaram embriagados pela atmosfera emotiva que os tomou – Princess trêmula e com as unhas cravadas nas costas dKalisto, quem a prendia contra si numa meiga firmeza.
Permaneceram por longos minutos abraçados, totalmente sensibilizados pela forte conexão.
Kalisto por ter entrado em contato de maneira tão profunda com as feridas ainda carregadas pela pessoa quem amava.
Princess por finalmente sentir-se aceita naquela versão mais intensa de Rafael – apesar das feridas emocionais terem falado um pouco alto demais enquanto estava nos braços musculosos do advogado.
Sentindo o coração desacelerando pelo forte orgasmo, puxou o ar ainda conectado a artista, o soltando pela boca antes de dar um beijo no pescoço. Se separou o suficiente para encará-la. Apesar de continuar com os olhos fechados, exalava fragilidade emocional por detrás da imagem passada com a postura altiva, forte, decidida e ousada. Ali assemelhava-se a uma menina sem experiência nenhuma no âmbito amoroso em toda a abrangência da palavra – ou uma pessoa quem foi bastante humilhada num recente passado.
- Por que está com essa carinha? – murmurou atento a ela.
- Cara de quem queria muito gozar no seu pau? – deu um sorriso tímido.
- Não. Carinha de uma menina machucada.
A frase tocou profundamente seu coração – até porque as palavras eram verdadeiras, assim como a entonação que transmitia enorme paciência e compreensão. Então, o encarou pela primeira vez após transarem.
- Por que você está tão mexida assim, minha princesa?
Não esperava uma conversa com teor tão profundo. Mordeu o lábio inferior com certa insegurança de revelar suas emoções.
Devido à demora, a segurou com as palmas no rosto lhe dando um selinho.
- Você está protegida comigo. – sussurrava com uma docilidade pura, afastando alguns fios ruivos presos na testa por causa do leve suor – Só estamos nós dois aqui.
Levou alguns segundos para ponderar encarando por sobre o ombro do moreno. Por fim, ao se focar nas íris escuras, nada viu além de amor – e foi por essa constatação a decisão de se abrir.
- É que... – sorriu sem humor controlando-se para não chorar – Eu já fui...
- Maltratada? – completou Kalisto com a demora feita por ela, incapaz de entrar em detalhes.
- Sim. Bastante. – por fitar o chão uma lágrima deixou o seu rastro a qual foi secada por dedos ásperos – Ninguém gosta de ser empurrada, ser ridicularizada ou ser chamada de feia e aberração. – ergueu a cabeça para afastar as lágrimas pestanejando – Eu não sou nada disso. – finalizou num fio de voz com um nó na garganta.
- Não, não, meu amor. Você não é. – sentindo dor por vê-la tão sensibilizada, a puxou ainda mais para si colando os corpos – Você é linda. Perfeita. Maldito seja quem lhe disse o contrário.
A voz era suave porque ela não precisava de firmeza naquele momento. Apenas aceitação e acolhimento.
- Me escute com atenção. – transmitia toda a certeza pelo olhar intenso cheio de apreço – Comigo está segura. Sempre. Eu a acho incrível, tanto na sua versão como Rafael quanto nessa artista maravilhosa, princesa. Os dois cabem no meu coração sem nenhuma restrição.
Aquilo foi demais para seu âmago. As lágrimas vieram torrenciais em seguida. O abraçou por saber intimamente que as palavras proferidas por não eram vãs. Eram sinceras.
Pela primeira vez experenciava ter a companhia do homem de quem amava em seus ensaios para os clips, em seus shows e em momentos de ternura como aquele – uma outra vivência nova. Era o sinal claro do quanto era admirada por ele – e isso nunca teve antes dentro de um relacionamento afetivo.
- Eu vou ficar sempre contigo, viu? – dizia em seu ouvido numa promessa – Não vou te deixar nunca, minha princesa.
Se afastou dela apenas quando os soluços cessaram – e isso durou longos minutos por se recordar de cada palavra dita por André, percebendo o quanto foi tola ao ponto de permitir alguém tão desprezível como ele ao seu lado.
Kalisto não conseguia relaxar por preocupação.
À distância observava Rafael dançando alegre com os demais. Diferente do ruivo, estava sentado numa cadeira com o tronco inclinado e os braços apoiados nas coxas.
O rapaz demonstrou insegurança, medo e ciúmes num intervalo de pouco tempo – na gravação do clip, na saída do show e quando transaram horas depois de se apresentar.
Tentara – e conseguira – transmitir a segurança necessária para Princess quando ela estava sobre si, mas não era ingênuo. Sabia que a médio e longo prazo aquele comportamento poderia se tornar um problema na relação dos dois. E a constatação o atormentava porque não sabia como lidar com tal realidade – principalmente pelo receio de perde-lo novamente caso não agisse com cautela.
- Caraminholas na cabeça, moço?
A mulher negra de vestido vermelho se acomodou na cadeira ao lado o retirando dos devaneios.
- Talvez. – mordiscou o interior da bochecha.
- Anda. – deu um trago no cigarro – Qual o problema?
O escutou atentamente por poucos minutos.
- E o que queria depois da merda que você fez? Tem sorte por aceita-lo de volta.
- Eu só queria que tudo ficasse no passado. – passou a mão pelo rosto em sinal de cansaço – Maldito André! – imprecou raivoso – Não sabe como me arrependo do que fiz lá atrás. O Rafael não merecia.
- Bem, eu nunca disse que você era inteligente. – não poderia soar mais debochada.
- Moça! – retrucou o insulto.
- E é mentira? Permitiu ficar cego pelo seu orgulho. Ao invés de resolver essa situação conversando, o feriu e o entregou numa bandeja de prata pra aquele traste. É claro que ia dar problemas.
- Eu errei. Errei feio! – frustrado, fechou os olhos com a cabeça baixa – Só não sei como resolver essa questão. – cruzou as mãos claramente apreensivo.
Ela demorou-se fumando antes de prosseguir:
- Da forma mais simples que você possa imaginar.
O encarou com um olhar compreensível:
- Não dê espaço para dúvidas.
- O que não é dito se torna maldito. – o interrompeu com firmeza segurando o cigarro com os dedos – Você melhor que ninguém deveria saber. Abriu espaço para dúvidas recentemente enquanto estavam juntos, moço? A imaginação do menino é fértil, assim como a sua – e o arrependimento carregado no seu coração é a melhor prova. Mesmo sem perceber, o levou a achar que havia algo de errado acontecendo?
O silêncio foi a afirmativa necessária.
Kalisto não havia feito nada de errado, porém, pelo histórico de ambos, Rafael facilmente poderia achar que sim – tanto pela dor da traição no passado quanto em consequência do martírio vivido enquanto estava num relacionamento com André, quem era abusivo com o rapaz.
- Jamais permita disso voltar a se repetir. Os dois foram extremamente machucados de formas diferentes. No caso dele perdeu quase de maneira irreversível a própria confiança e a autoestima. Isso é difícil de se curar. Não é do dia pro outro. Demanda tempo. Esforço. A companhia da pessoa certa ao lado quem não lhe dê dúvidas sobre nada. É claro, se for possível, pode acelerar o processo. Com a devida paciência? É possível, sim, inclusive de viverem juntos até atingirem a velhice.
- Nós temos chance disso?
- Não sei. É o que querem? Farão por onde? Você seguirá meus conselhos para continuar ao lado do perna de calça tão bom quanto você por quem se apaixonou?
- Acha que sou bom pra ele?
A estrondosa gargalhada lhe arrepiou os fios do braço.
- Se eu achasse o contrário, por que colocaria um de volta na vida do outro?
Após aquela conversa decidiu qual o melhor caminho seguir. Quando saísse com Rafael não sairia do lado dele e nem iria para longe das vistas do rapaz. Não abriria espaço para desconfianças. Aquilo reafirmaria cada vez mais a solidez da relação concertando de pouco em pouco o estrago de anos atrás.
Quando chegaram ao apartamento horas mais tarde o ruivo continuou sem compreender o motivo da mulher com chapéu branco do típico malandro carioca ter lhe entregado uma navalha.
- A guarde de maneira que possa apanhá-la rapidamente. – orientou – É pra sua segurança. Não é pra matar. Só se defender.
Não imaginava que rapidamente chegaria o momento de usar o objeto cortante de maneira propícia para se salvar.
Quando o ruivo se acomodou em seu lado na cama para dormirem, ambos apenas de samba-canção, o puxou em seus braços distribuindo beijinhos pelo rosto lhe arrancando risadas.
- Que foi, amor? – o rosto estava iluminado pelo carinho.
- Eu queria falar contigo rapidinho. Só não sei como. – sobre o rapaz, o segurava no rosto com ternura.
- É só dizer. Não precisa ter medo. – abriu as pernas para acomoda-lo melhor.
- É que... – demorou alguns segundos para prosseguir escolhendo as palavras certas – Eu sei que ficou incomodado na gravação do seu clip e no show quando se encontrou comigo na calçada.
O interrompeu num selinho prolongado enchendo os pulmões de ar.
- Por favor, deixa eu continuar. – murmurou contra os lábios – Não precisa esconder. A culpa não é sua. – empático esfregou o nariz no dele num beijinho esquimó adorável sem acusações, críticas ou julgamentos – Assumo a minha responsabilidade porque, se tivesse sido sensato no passado, nada disso teria acontecido e nem teria te ferido como fiz. Só vai ter que me aguentar a partir de agora porque não sairei mais do seu lado quando estivermos em qualquer outro lugar com gente ao nosso redor. Não quero te deixar dúvida de nada.
Um sorriso emocionado se formou em Rafael por ver a sinceridade daquelas palavras.
- O que eu fiz para merecer você, hein? – indagou completamente encantado pelo inegável amor embutido na mensagem de Kalisto.
Balançando a cabeça em negativa com o pequeno sorriso, dizia:
- Não. Não, não, não. – parou o fitando – O que eu fiz pra merecer você, meu menino?
E foi assim, graças à coerência de Kalisto por demonstrar em ações e comportamentos o quanto suas palavras eram carregadas de significado ao invés de vazias, que voltou a conquistar a confiança do homem de sua vida ao longo dos anos juntos – além de auxiliá-lo de maneira inconsciente a curar a parte quebrada de sua personalidade, restaurando a sua confiança sobre si.
Semanas mais tarde aproveitou o feriado de sexta-feira para sair sozinho à noite.
De vez em quando gostava de passar um tempo na própria companhia em sua solitude. Rafael ia ao cinema, almoçava ou passeava sem se importar em estar desacompanhado.
Como Kalisto estava ocupado agilizando alguns documentos do trabalho e os amigos não puderam, foi para um barzinho onde se acomodou beliscando algumas coxinhas. De vez em quando era necessário para o rapaz passar algumas horas mais introspectivo – e não era mais incomum sentir o odor de cigarro ou de perfume feminino enquanto caminhava, mesmo sem ter ninguém ao redor fumando e nem mulheres.
Um loiro com um sorriso simpático o indagou se poderia se acomodar, já que a pessoa com quem iria se encontrar lhe deu bolo. Como tratava a todos com gentileza, não protestou, aceitando a presença do desconhecido de boa aparência.
Em questão de minutos conversavam num diálogo leve e divertido até às onze e meia da noite ao som da música ao-vivo tocada por um cantor talentoso contratado pelo estabelecimento que estava cheio de pessoas se divertindo num clima agradável.
Quando foi ao banheiro não o viu colocando algo incolor rapidamente em sua bebida, misturando numa colher para não restar vestígios. Ao retornar, voltou a tomar seu suco de laranja. Não demorou para sentir-se estranho, com sintomas de embriaguez mesmo sem ter tomado nada com álcool.
- Você está bem, Rafael? – o tocava no pulso exercendo uma sutil pressão.
- Não sei. – tonto, não conseguiu focar no rosto corado pelo sol.
- Vem comigo. Posso leva-lo para casa.
Por sorte, um curioso homem mais velho quem futuramente deixaria de ser anônimo, observava os dois ao longe. Embora não conhecesse Rafael pessoalmente, sabia quem era – ou melhor, sabia da amizade entre ele e seu primo. Não prestou atenção quando foi despejado um conteúdo suspeito no líquido amarelo, entretanto, a imagem tão simpática do loiro não lhe passava boa impressão.
A experiência de vida lhe ensinou a não desconfiar em quem tinha boa lábia e se mostrava como uma pessoa simpática conquistando a todos ao redor com sua simpatia. Com boa aparência e boa conversa, podia-se chegar aonde bem desejasse – e nem sempre aquilo era utilizado de maneira ética ou moral. Cansara de se deparar com situações onde o “simpático” passava a perna em alguém ou manipulava as situações a seu favor, saindo como o certo num caso onde quem tinha um olhar mais minucioso percebia que era ao contrário.
Portanto, ao vê-lo ser carregado aos tropeços pelo outro, quem o ajudava a segurar o corpo carregando parte do peso, de imediato interferiu.
- O que está acontecendo? Precisa de ajuda? – parou na frente deles impedindo a passagem de propósito.
- Não, não. Está tudo bem. Meu amigo bebeu muito. Pode imaginar.
Numa averiguada rápida para a mesa, pressionou.
- Engraçado, porque não há nenhuma bebida ali.
- Você é quem pensa. – o loiro riu – Esse aqui começou a beber de tarde. Quando começa não sabe a hora de parar.
- Colega, você o conhece?
- Claro. – balbuciou aparentemente embriagado – É meu amigo. Rafael, né?
- Escuta, não quero me intrometer, mas acho melhor ligarmos para a família dele. É mais seguro.
- Qual é, cara? – havia uma faísca de irritação – Só o estou levando pra casa.
- E quem melhor do que a família ou um namorado pra cuidar do garoto, né? – abriu um sorriso duro sem lhe dar maiores opções, completamente inflexível em sua posição.
A fragrância de perfume lhe impregnou as narinas, então falou pela primeira vez de maneira consciente:
- Minha pochete está na mesa. É só ligar pro Kalisto. – sentiu a primeira onda de náusea com uma careta.
A irritação no loiro tornou-se mais evidente, assim como a impaciência.
- Vamos. Eu te ajudo a voltar para ligarmos para o seu namorado.
Planejava segurá-lo para retornarem à mesa, mas não esperava que o outro o empurrasse para si, quem quase se desequilibrou com o rapaz nos braços. Sem pronunciar palavra e aproveitando da distração, o loiro se distanciou sem virar as costas a passos largos – irritado e frustrado porque perdia uma boa quantidade de dinheiro por chegar ao jatinho particular desacompanhado.
Estacionou o carro na rua trinta minutos. Estava preocupado com o estado de seu menino quando o viu.
- O que houve aqui? – se agachou o segurando no belo rosto com sinais de embriaguez – Amor, olha pra mim. Você bebeu?
- Não. – contou com as palavras emboladas lutando para as pálpebras continuarem abertas – Só tomei meu suquinho de laranja.
Sentia-se torpe, como se tivesse ingerido várias doses de tequila.
O mais velho do trio se apressou em encontrar o garçom responsável por servi-lo na mesa para averiguar. O levou para a mesa junto com as anotações dos itens consumidos. Na conta havia apenas coxinha e suco de laranja, os quais foram averiguados por Kalisto. Nada de bebida alcoólica.
- Como ele foi ficar assim?
O desconhecido, quem não saiu do lado do outro, não hesitou em contar o que viu.
Kalisto pagou a conta ao garçom para levar o seu futuro marido até o carro com o auxílio do desconhecido. Por tropeçar nos próprios pés, Rafael teve dificuldade de locomoção.
Colocava o cinto no rapaz buscando informações mais concretas.
- Algumas vezes. Não achei muito seguro deixa-lo nas mãos do...
Por sorte estavam numa distância considerável. Rafael se inclinou para vomitar no chão da calçada.
- Desculpa. – murmurou ofegante, retornando ao seu lugar – Não pude evitar.
- Acho melhor leva-lo. – avisou o moreno, abrindo o porta-luvas para retirar um pano preto.
- Foi mal. – balbuciou Rafael pegando o tecido para limpar a boca.
- Não faz mal, bebê. – fechou a porta.
Antes de entrar no carro, o mais velho o parou:
- Escuta, me chamo Cauã. – o tocou no ombro o obrigando a se virar – Se precisarem de ajuda, é só ligar pra esse número.
Estendeu um pedaço de guardanapo com o número de celular.
- E por que eu ligaria pra você? – o guardou no bolso.
- Porque eu precisaria da ajuda de vocês pra uma coisa.
- O que, exatamente? – estava completamente intrigado pela conversa.
- Aquele rapaz no carro é o Rafael, certo?
- Eu sei porque é amigo do meu primo, Bruno. Estou tentando localizá-lo há semanas e não tenho nenhuma resposta. Caso consiga notícias dele, por favor, me ligue.
- Pode deixar. – apesar dos seus instintos lhe pedirem para se aprofundar no assunto, tinha assuntos mais importantes naquele momento para resolver. O bem-estar do futuro noivo falava mais alto – Qualquer coisa entro em contato.
A viagem de retorno foi tranquila, apesar de parar para o passageiro vomitar novamente.
Ao chegar no apartamento se encaminhou direto para o banheiro o segurando pela cintura, onde o despiu para tomarem banho juntos. Deixou que se apoiasse em si pela tontura, quase não se aguentando em pé.
- Bebê, – sob a água quente do chuveiro, lhe ensaboava o abdômen – tem certeza que não bebeu hoje?
Agradeceu por nota-lo com uma cor mais saudável.
- Nadinha. – de olhos fechados, se concentrava nas sensações transmitidas pelo amparo.
- Como você ficou assim, então?
O virou com cuidado para ensaboar as costas. Automaticamente, o abraçou relaxando a testa no peitoral.
- É capaz de acordar se sentindo melhor amanhã.
- Prometo. Vem, vamos terminar esse banho.
- Hum... – gemeu – Eu estou gostando de ficar assim contigo.
- A gente pode ficar abraçado na cama até dormir. – murmurou contra os cabelos molhados – É seco, confortável e mais aconchegante.
Rafael levantou a cabeça para encará-lo com um sutil sorriso.
Recebeu um selinho antes de fechar a torneira.
Kalisto demorou para pegar no sono. Deitado de barriga pra cima, encarava o teto sem quase pestanejar. Cerca duas horas mais tarde ainda estava acordado com mais novo aconchegado em si. Algo lhe avisava que aquilo não tinha sido um incidente comum. Afagava distraído os cabelos ruivos em movimentos suaves perdido em seus pensamentos com uma sensação aflitiva no peito.
- Posso saber o porquê de estar acordado?
A voz baixa o trouxe para a realidade.
Não abriu os olhos, completamente relaxado.
- Não estou conseguindo dormir.
- Algum motivo pra isso? – encontrou a mão do outro a centímetros do rosto, a segurando.
- De... – a trouxe até os lábios onde depositou um beijo na ponta de cada dedo.
- De te perder. Alguma coisa acontecer contigo.
- Nada de ruim vai acontecer comigo. – mexeu a cabeça sutilmente, aproveitando para roçar os lábios no pescoço lhe afagando a barba rala – Está tudo bem. Foi só um susto, amor. Você não vai me perder. Tá?
Acatou ao pedido após um suspiro prolongado.
Infelizmente, mais tarde, teria provas concretas de que seus medos não eram infundados – e agradeceria intimamente pelas interferências da moça de vestido vermelho, do malandro e da mulher com chapéu branco quem entregou a navalha ao seu menino.