Capítulo 12
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Jonathan era um bom homem. Trabalhava em dois empregos para conseguir suprir as despesas da casa. Sabia que o primo, Rafael, tinha seus próprios problemas, então não desabafava sobre as dificuldades que passava há anos no seio familiar e nem lhe pedia ajuda.
Era o único responsável por manter as contas em dia. A esposa não podia trabalhar porque não havia dinheiro suficiente para contratarem uma babá ou cuidadora objetivando ficar com o filho autista não verbal de grau médio quem tinha algumas comorbidades, como o retardo mental. O salário se esvaia nos tratamentos do menino de oito anos.
E foi pelo cenário de vulnerabilidade social que André se aproveitou.
Há três anos pedia para o homem guardar uma pequena mala desde que Jonathan não buscasse informações sobre o conteúdo. Em troca entregava um pouco de maconha de graça para o tratamento do menino, cujas crises frequentes desapareceram após o uso de forma medicinal, e dinheiro extra que completava a renda familiar.
E foi a quem André recorreu para descobrir o que Kalisto fora fazer no aniversário de Rafael quando voltou de viagem.
- Cara, eu não sei. Não sou tão próximo do meu primo. Mal tenho tempo pra comer. Só sei que o maluco apareceu. Foi só isso.
Não queria pressioná-lo, então não iria se indispor. Por causa disso foi para a casa de Rafael na tarde de sábado.
O chefe percebeu o quão exausto estava ao dar conta dos compromissos, então, pelo salão estar um pouco mais vazio, o dispensou para descansar.
Entrou em estado de alerta por encontrar o portão de casa encostado, agora desperto e atento ao redor pela adrenalina correr na corrente sanguínea. Ao sair do salão leu um texto da irmã contando que iria com a mãe ao mercado, então, naquele horário, era impossível terem retornado.
Caminhando pelo quintal silenciosamente viu que não arrombaram nada pelas cachorras estarem bem e soltas. Se aproximaram para recepciona-lo abanando os rabos e distribuindo rápidas lambidas nas pernas. Apreensivo, enviou uma mensagem pedindo, por precaução, para Kalisto ir pra lá cuja leitura fora imediata pelo outro estar online.
Ao adentar na sala com a porta entreaberta viu quem foi capaz de invadir a residência.
André o aguardava paciente assistindo televisão sentado confortável no sofá. Alheio à chegada, mantinha a atenção no filme.
- O que está fazendo aqui? – se assegurou de manter uma distância considerável.
Notou de imediato a mudança em Rafael quando o viu. Não havia receio ou insegurança na postura e nem em como soou. Pela primeira vez se dirigia a ele com a voz mais firme sem fraquejar. Não havia a fragilidade oriunda da subjugação a qual André tanto se acostumara em seu semblante, mas sim força, como se o desafiasse.
- Que recepção fria é essa? – levantou com um leve sorriso indo até o ruivo – Não vai me dar um abraço de boas-vindas? – ousou caminhar até o outro com os braços estendidos.
- Pode parar com essa história. – deu três passos para trás podendo enxergar um lampejo de aborrecimento o obrigando a parar o avanço pela rejeição – Nós não temos mais nada.
André deixou os braços retornarem para a posição usual aos poucos controlando-se para conseguir manipula-lo – dessa vez objetivando não correr o risco de ser responsável por mais um desaparecimento.
Já tinha contas demais para prestar a Deus quando morresse. Não havia necessidade de prejudicar alguém de seu interesse – não para conseguir dinheiro, é claro.
- Foi só o seu ex aparecer pra correr pra ele, não é? Esqueceu o que o cara fez com você?
- Não foi pior do que o que você fez a nós dois.
- Chega de mentir! – o grito saíra tão intenso que sentiu uma pontada de dor na garganta – Eu sei da sua armação. Já sei que orquestrou tudo pro Kalisto te ver me beijando contra a minha vontade! Como pôde? Eu estava vivendo a melhor fase da minha vida e achou de ótimo tom tirar isso de mim.
A risada de escárnio não foi agradável.
- Pera lá. – apesar da seriedade do diálogo, usou um quê de humor – A culpa é minha, agora, se você é tão bom ao ponto de esconder esse pequeno detalhe do seu amorzinho e se ele é um imbecil orgulhoso? Faça o favor.
- Não venha jogar a culpa pra cima da gente, assim como cansou de fazer comigo nos últimos anos! A responsabilidade é sua, então assuma a porra dos seus erros. – fechou os olhos momentaneamente, a face carregada do mais genuíno desprezo – Olha, não tenho nada mais a tratar. – escancarou a porta – Pode ir embora e trate de me deixar em paz. Isso aqui – maneou o dedo apontando para si e o ex – jamais deveria ter acontecido.
Por um momento Rafael pensou que não causaria problemas quando o viu se encaminhar para a porta. Porém, no último instante, o maior o segurou pelo pulso e o jogou contra a parede o prendendo.
- Você não vai se livrar de mim tão fácil. – André o agarrou pelo pescoço sem exercer força. Os rostos estavam tão próximos que o hálito de cerveja entrava nas narinas do ruivo – Foram anos namorando comigo.
- Me solta, seu filho da puta. – exigiu entredentes tentando se afastar do toque.
Pela diferença de altura estava em desvantagem.
- Não solto! Sabe porque, amorzinho? Sou o único capaz de te manter longe das mãos de uma galera não muito simpática que sequer tem um terço da paciência que tenho contigo. Estão de olho em você há um tempo, sabia? – com a ponta do dedo da outra destra lhe percorreu a face ditando as qualidades – Bonitinho assim vale um bom dinheiro. Ruivo, gay, bilíngue, boa arcada dentária, pele lisinha... Se está vivo é graças ao nosso namoro. Então nem pense em se afastar.
- Está me machucando! – o rosto ganhando a coloração rosada denunciava o quanto Ivo começara a apertar o pescoço de maneira inconsciente, cortando o oxigênio vagarosamente.
- Se ficar comigo prometo não te machucar. – o encarava sem pestanejar num olhar cheio de frieza e aflição – Só não saia do meu lado. Nunca. Mais.
Reuniu todas as forças para, com o auxílio das mãos e usando o peso do corpo, empurrá-lo para longe com um urro devido ao esforço.
- Nunca voltarei pra você. – rugiu autoritário – Saia daqui ou não responderei por mim.
Não soube como, mas, num reflexo, desviou de um tapa que, sem dúvidas, seria bem dolorido se lhe atingisse na bochecha.
A ira foi grande demais. A raiva pelas agressões sofridas ganhou um espaço enorme em seu íntimo. Todas as humilhações, violência física, emocional e psicológica ganharam um novo teor além da tristeza – desprezo e ódio. Desprezo porque André fora o responsável por destruir completamente a sua autoestima já quase inexistente após a cena que vira no apartamento de Kalisto há quatro anos – o fez sentir vergonha de si, como se houvesse algo de constrangedor na sua essência. Ódio porque é um sentimento capaz de mover uma pessoa para a ação – o oposto da tristeza, que o paralisou por anos.
André cambaleou para trás ao ser golpeado na face por um tapa estalado. A pele ficou avermelhada na região do lado direito do rosto. A ação foi tão inesperada que ficou atordoado por meros instantes, o cérebro demorando para processar a informação.
- Nunca mais tente encostar em mim, seu desgraçado! – rugiu em fúria – Cansei de ser tratado como um lixo por você! Nunca mais admitirei uma merda dessa de ninguém na porra da minha vida!
Infelizmente, o temperamento do homem não era dos melhores.
Num rompante empurrou o ruivo, quem bateu com a testa na porta antes de cair no chão. A força foi tamanha que, além da tontura, sentiu algo molhado na região. Tonto, levou alguns segundos para identificar o sangue escorrendo.
Graças ao corte André teve uma ideia. Na sua concepção não era das melhores, mas impediria o pior de acontecer – e para isso faria qualquer coisa.
Foi para a cozinha a passos largos retornando com uma faca. Não faria grandes estragos, mas também nenhuma das partes ficaria feliz com o resultado – nem ele, nem Rafael e nem as pessoas para quem trabalhava. Portanto, era uma saída para evitar futuros problemas irreversíveis.
O pegou pelos cabelos o arrastando pelo chão sem um pingo de delicadeza.
Apesar de se debater não obteve resultados. André sentou no colo, ainda com os dedos em garra puxando as mechas para mantê-lo no lugar.
- O que vai fazer? – aterrorizado, arregalou os olhos detectando o objeto afiado.
- Sinto muito. – encostou a ponta da bochecha – Mas é melhor do que te perder.
E não se referia somente ao fim do relacionamento.
- Para, André! Me solta! – berrava em desespero se debatendo.
Por quase perder o equilíbrio, o jogou contra a parede adjacente para imobiliza-lo. Pelo corpo estar dolorido pelo impacto do empurrão, não conseguia se levantar rapidamente. Então, André voltou à posição anterior o prendendo melhor.
- Quero ver quem vai te querer desse jeito. – pressionou a lâmina contra a pele à ponto de quase perfura-la, mais uma vez não se referindo somente ao advogado.
Antes de cortar a área ignorando os gritos histéricos do mais novo, foi segurado por mãos grandes pelos ombros o retirando de cima de um Rafael apavorado.
Kalisto rugiu contra a face do homem antes de lhe dar um soco que quebraria o nariz.
Para o azar de André e a sorte de Rafael, Kalisto sabia a hora certa de se deixar levar pelos sentimentos. Isso poderia gerar grandes acordos, uma reconciliação linda assim como há alguns dias ou impulsioná-lo a cometer atos de violência para defender quem amava.
O golpeou algumas vezes no rosto – o suficiente para cuspir sangue e quebrar o nariz alinhado.
Irado, o agarrou pela cabeça com mais força que a necessária depois de jogá-lo contra a parede após apanhar, resultando em um olho roxo, nariz quebrado, alguns hematomas e o inchaço evidente na face.
- Escuta aqui, seu filho da puta. – o agarrou pela gola da camisa preta – Se você fizer alguma coisa contra o Rafael ou a família dele, vai estar assinando ao seu atestado de óbito. Nunca mais na porra da sua miserável vida tente se aproximar deles, entendeu?
Nesse meio tempo o rapaz se pôs de pé com dificuldade, grato pela recém-chegada.
Para a surpresa do casal André ria entre tosses secas:
- Você nem sabe a merda que está fazendo. – disse com as palavras emboladas por causa da dor com os dentes sujos de sangue – Separá-lo de mim apenas vai deixa-lo imponente.
Um dos motivos de ser bem-sucedido no trabalho eram seus instintos. Conseguiu compreender que o aviso era verdadeiro, o que lhe causou um frio na coluna.
- Do que você está falando?
A irritação aumentou por identificar o quanto zombava dele num riso desprendido de humor sem lhe explicar a real situação.
- Isso interessa a mim. Quer ficar com o Rafael? É seu. Só não fique choramingando porque avisado foi. Acha que é blefe? Depois me conta como está o Bruno
se tiver notícias dele.
Chegando por detrás do advogado, o ruivo pousou as palmas nos braços musculosos.
- Deixe-o ir. – pediu quase escondido nas costas do moreno – Não quero te ver nunca mais, André.
Sem escolha e cheio de apreensão, acatou a solicitação devagar.
Caminhou a passos trôpegos até sair pelo portão.
- Graças a Deus que você chegou. – se jogou nos braços do moreno aliviado.
Kalisto queria investigar mais sobre o diálogo com o rival. Ir atrás dele, o pressionar para revelar mais informações. Entretanto, alguém bem mais relevante precisava do seu apoio, se obrigando a deixar os planos para o futuro.
- Shiiiii... Está tudo bem agora. – o envolveu num carinhoso abraço enterrando os dedos nas mechas – Você está bem? – murmurou.
Rafael buscava se conter ao máximo. Reprimia o medo e o desespero do acontecido de minutos atrás impedido por Kalisto. O fato de quase ter sido desfigurado lhe causava náuseas.
- Se você não tivesse chegado... – soluçou encolhendo os ombros.
- Hey, mas eu cheguei, não cheguei?
Ao encará-lo se distanciando minimamente, viu o corte na testa. Retirou a regata preta sem hesitar. A enrolou para pressionar contra a testa, evitando o sangramento.
- Ele me empurrou. Acabei batendo na quina da porta. – apanhou o tecido com as mãos trêmulas e o olhar vago.
Secou as lágrimas com as pontas dos dedos odiando André por afetar tanto o seu menino. Deslizou as palmas pelos braços para tranquiliza-lo quando o cantor voltou a encostar a bochecha em seu peito. Vasculhando o ambiente atento ao menor sinal de mudança em virtude de seus instintos, encontrou um celular sobre o sofá. Foi até o aparelho para apanhá-lo.
- É seu? – indagou ao erguê-lo.
De imediato o abriu. Por sorte não havia senha. Vasculhou as mensagens. Não demorou para encontrar um nome que logo o fez lembrar de Miguel – ou melhor, um título.
Ligou para o amigo delegado de seu número pessoal, quem o atendeu ao terceiro toque.
- Pra me ligar pro meu número de trabalho em plena tarde de sábado é sinal de que deu alguma merda. Qual é o problema? - Estou com um celular aqui e achei nele algo que talvez lhe interesse. O nome Il Dio significa alguma coisa pra você?
- Te dou, no máximo, uma hora pra chegar até aqui. O delegado desligou em seguida.
- O que foi, amor? – pestanejou com a visão turva pelas lágrimas.
Aquilo não era coincidência. André estava envolvido em algo sério, provavelmente um caso investigado pelo amigo. Do contrário, não haveria tanta urgência de vê-lo. A expressão de Kalisto era distante enquanto conjecturava, então a voz de Rafael lhe trouxe para o presente.
- Nada. – quebrou a distância parando na frente do ruivo – Precisamos cuidar desse corte. – avisou analisando melhor a ferida – Onde estão os materiais de primeiros socorros?
- Não. Aqui, não. Não quero que minha mãe e a minha irmã saibam. Eu... – o nó na garganta aumentara o impedindo de falar.
- Escuta. Vamos fazer o seguinte. – o segurou nas laterais da face o fitando – O levo pro meu apartamento para cuidarmos dessa ferida. Dou um pulo na delegacia pra conversar com o Miguel e retorno pra ficar contigo.
- E se o André retornar pra cá? Não o quero perturbando a...
- Conto pro Miguel e o peço pra deixar uns dois policiais na rua por precaução. Não vai acontecer nada de ruim com elas.
Menos de uma hora depois entrou no gabinete de trabalho do amigo. Deixou Rafael no apartamento contra a sua vontade. O rapaz estava visivelmente aflito pelo atentado, mas o homem era teimoso. Não cursara advocacia à toa. Era bom em investigação para encontrar informações ocultas. Se guiava pelos instintos no trabalho e dessa vez não seria diferente.
Miguel o recepcionou com um abraço simpático.
- Algum problema? – de imediato identificou que algo o atormentava.
- Digamos que estou doido para acabar com a vida de alguém, mas essa é uma longa história. – fez um gesto com a mão como se o assunto fosse insignificante.
Se acomodaram nas respectivas cadeiras – um atrás da mesa e o outro de frente.
- Por que falou sobre Il Dio? – quis saber coçando o cavanhaque.
- Conhece esse nome de onde?
- É um criminoso. Tenho uma equipe separada o investigando. O desgraçado atua pela internet, então imagina como é difícil encontra-lo.
- Hum... – o observou por instantes percebendo as réplicas vagas – Há mais alguma coisa que eu precise saber?
- Nada de demais. – o sorriso duro demonstrava o oposto.
- Então vamos direto ao assunto. – nem um pouco convencido, retirou o celular de André do bolso dianteiro da bermuda – Encontrei isso com alguém... Digamos... Conhecido. – estendeu-o na mesa para Miguel, quem o apanhou – Talvez contribua para a sua investigação porque encontrei uma conversa com o dito cujo aí.
- Onde exatamente estava isso? – sério, mexia no aparelho sem encará-lo.
- Aonde!? – a surpresa fora dupla.
- Não revelarei mais nada além disso. No máximo o nome do dono desse celular.
- Ex. – o interrompeu – Agora é ex.
Miguel o conhecia bem demais, então sabia que o moreno não revelaria mais nada.
- Você não vai contar mais nada, né? – a sua curiosidade acerca da vida pessoal do amigo falava mais alto do que a sua lógica.
O resmungo fez Kalisto rir.
- Eu discreto pra porra e você curioso pra caralho. Não poderia ficar mais frustrado.
- Porra, nem fala. Enfim. O celular fica comigo agora. Com sorte vai auxiliar no andamento do meu trabalho.
- Mike, só uma coisa. O Rafael não corre nenhum risco, né?
- Antes que eu esqueça... Vou te passar um endereço. Coloque alguém lá pra caso do André aparecer. Existe a mera possibilidade de o filho da puta dar as caras e não quero que ele prejudique ninguém.
Três meses mais tarde enviaria Sérgio, seu policial mais experiente, portando uma nova identidade para o Oriente Médio devido ao conteúdo das mensagens para encontrar um amigo de Rafael, quem estaria lá contra a sua vontade há cerca de dois meses.
Não se demorou em nada porque queria retornar o mais rápido possível pro apartamento.
Ao adentrar, encontrou Rafael sentado encolhido no sofá com as pernas cruzadas. A gata lhe acompanhava acomodada no seu colo recebendo carinhos suaves na cabeça ronronando. O olhar era vago sem se fixar em nada, perdido em seus pensamentos. O movimento do pulso era automático, o pêlo de Kiara o tranquilizando.
A imagem fragilizada de um rapaz cuja característica principal era alegria lhe apertou o peito. Parecia apagado, os anos de abuso emocional se fazendo presentes naquele momento.
Se aproximou lentamente para não assustá-lo.
O chamou para anunciar a sua chegada se sentando ao seu lado. Passou um braço o segurando pelo ombro quando se aconchegou nele.
Roçando o nariz nas mechas onduladas, indagou:
As lágrimas desciam silenciosas como resposta.
Durante a saída do moreno, Rafael aproveitou para pensar.
Analisou os últimos acontecimentos desde quando se deparou novamente com Kalisto. Infelizmente, só lhe trouxe problemas. Não estava num bom momento. Era claro. Em consequência, o outro fora o responsável por ajuda-lo em diversas ocasiões. Para o seu desgosto, esse não era o percurso desejado – um cenário onde o ruivo precisava ser socorrido pelo amado. Era pra ser leve, sem grandes problemas, assim como antes quando não sofria as consequências de tantos abalos em sua vida.
- Kalisto, se afasta de mim. – pediu numa voz embargada.
Se desvencilhou para encará-lo com os olhos marejados.
- Esquece de mim. Eu não tenho porque entrar na sua vida. Não quero causar problemas.
Sem compreender a situação, pôs a gata na outra extremidade do sofá para acomodá-lo em seu colo, ajoelhado no móvel.
Soltou o ar fitando as íris desoladas.
- Por que está me pedindo isso?
- Porque eu não tenho nada pra te oferecer. – a voz entrecortada era enternecedora em meio aos soluços. As lágrimas escorriam na face avermelhada – Eu só estou te enchendo de problemas e estou te puxando pra isso. Não ganho tanto dinheiro, mal tenho tempo sequer pra mim, trabalho e estudo simultaneamente, estou ferrado não é de hoje e ainda corro o risco de volta e meia ter uma...
Não conseguiu finalizar a frase. A palpitação junto com a falta de ar denunciaram a crise de ansiedade.
Kalisto notou que havia algo de errado pela hiperventilação e as pálpebras arregaladas.
- An.. Ansie... – balbuciou.
Balançou a cabeça frenético numa afirmativa.
Sem hesitar, o retirou de seu colo se encaminhando às pressas para o quarto. Em questão de segundos retornou com um frasco de óleo essencial de lavanda despejando algumas gotas num pedaço de algodão. Depositou o vidrinho escuro no bolso dianteiro da bermuda para sentar numa das extremidades do sofá, puxando-o para si. Trêmulo e com falta de ar, Rafael se acomodou nele de costas com as pernas esticadas na frente do corpo. Um braço o envolveu num abraço enquanto a mão direita pôs o algodão em frente ao nariz para sentir o odor.
- Essa posição comigo é confortável?
Acenou com dificuldade de falar.
- Amor, quero que faça uma coisa. – sussurrou calmamente em sua orelha – Fecha os olhos e acompanhe a minha respiração.
Trêmulo, suando e com os sintomas de uma crise de ansiedade, primeiro encaminhou as mãos de Kalisto para sua cintura. Entendeu que o abraço lhe trazia uma confortável segurança, então se manteve na posição.
Ignorando que o óleo essencial não deveria ser usado na pele por ser muito forte, pôs uma gota na palma e a espalhou na ponta do nariz branco e na região abaixo para voltar a abraça-lo. O ruivo fechou os olhos acatando ao pedido, acompanhando o ritmo lento da respiração do maior. Tudo auxiliou para se recuperar lentamente – o abraço afetuoso, os beijinhos carinhosos nos ombros, o perfume de lavanda, os olhos fechados, a respiração gradativa. A atmosfera de tranquilidade chegou tímida com a junção dos demais fatores.
Sentiu alívio ao ver os tremores cessando até acabarem de vez.
- Estou. – relaxou aproveitando os afagos – O que é isso que me deu?
- Óleo essencial de lavanda. Costuma ter bons efeitos com sintomas de ansiedade.
- E você está com isso porque...
- A Débora entregou pra mim no ano passado. Estava com problemas pra dormir. Esse em específico me ajudou a entrar em estado de relaxamento. Pensei que pudesse ter o mesmo efeito em você.
- Se sente confortável em continuar a conversa?
- Agora, sim. Acho que já pontuei o que precisava. Não quero repetir.
- Amor, vamos. – deu um aperto de leve na cintura – Vira pra mim.
Se sentou no colo do moreno. As palmas ficaram repousadas no tronco e as do outro o seguraram num toque leve nas bochechas. O olhar era carregado de amor e paciência, trazendo um agradável calor sob a pele branca.
- Não ouse me pedir isso.
Ao abrir a boca pra protestar foi calado com um beijo rápido. Ambos de olhos ainda fechados, encostou a testa na do ruivo compartilhando aquele sentimento forte que os unia.
- Eu sei que me ama. – prosseguiu baixinho o abraçando – E eu ainda te amo. – mesmo sozinhos, sussurrava como se partilhasse uma íntima confidência – Não me importo se está passando por uma fase ruim. Quem me interessa é você e o que temos. Isso aqui – o apertou mais contra si para enfatizar – é mais importante. Estarei ao seu lado para enfrentar o que vier porque você, Rafael Siqueira, é o homem quem amo. Não vou desistir de você. Não vou desistir da gente, meu menino.
- Amor... – reuniu as forças para sair daquele abraço e encarar as íris carregadas de certezas – Ainda não estou totalmente bem. Não quero ser um peso na sua vida. Acabei de ter uma crise de ansiedade na sua frente e é capaz do André não se dar por vencido. Tenho medo do que ele possa tentar fazer e de eu não ser a pessoa adequada pra você.
Apesar do término da relação abusiva, ela havia lhe deixado marcas. Marcas essas que, naquele diálogo, estavam sendo mostradas. Ele era suficiente? Será que faria Kalisto feliz? Era o namorado adequado? Haveria algo de errado ou de vergonhoso em si? O que fez de errado para merecer a violência? Os questionamentos permeavam a sua mente incapaz de verbaliza-los por vergonha.
- Você é a melhor pessoa que já conheci. Como não seria adequado pra mim?
- Então não se preocupa por eu não estar no meu melhor momento?
- Não. Te ajudo a colar cada caquinho. Até te dou uma balinha de chocolate depois.
O comentário despretensioso lhe arrancou uma risadinha humorada.
- Então vai ficar comigo, Kalisto? Ainda me quer do seu claro?
- É claro. Enquanto me amar e me quiser ao seu lado é aonde estarei. Não vou te abandonar. Nunca.
Anos mais tarde, com os dois já trabalhando nas respectivas firmas, Kalisto repetiria aquelas palavras numa linda noite de verão na cerimônia de casamento deles.
Rafael depositou diversos selinhos nos seus lábios favoritos em meio a sorrisos mútuos. Definitivamente era bom ser respeitado, acolhido e amado. Estava prestes a esquecer como relacionamentos poderiam ser saudáveis com trocas naturais, sem chegar ao ponto de caminhar sobre ovos para não receber repreendas ou pedir numa escolha minuciosa de palavras para ser amado.
- Por que não está trabalhando? – quis saber o advogado quando o aninhou em si.
Apoiara a bochecha no vão entre o pescoço e o ombro recebendo afagos preguiçosos nas costas.
- Meu chefe me liberou. – murmurou de olhos fechados – Segundo ele, estava ao ponto de me queimar com a porra da prancha de tão sonolento.
O cutucando nas laterais da cintura, ralhou:
- Assim como gostou do amigo da Débora, né? – apesar do bom humor, havia uma certa crítica.
- Ai, que menino ciumento. – deu um tapa de leve na coxa.
- Vamos parar de fugir do assunto principal? – se afastou encontrando um Kalisto com olhar compreensivo e um sorriso discreto – Por que fez aquilo?
- Porque, meu menino ciumento, eu queria saber se me amava ou não.
- Como assim? – tombou a cabeça pro lado confuso.
- Era óbvio que ainda sentia atração por mim. – para enfatizar, o puxou mais pelo quadril fazendo os membros se encontrarem. De imediato sentiram o calor característico da excitação – Mas não sabia se ainda me amava.
- Poderia ter descoberto de outras formas.
- Daí seria necessário te embebedar, coisa que eu jamais faria, ou perguntar para outras pessoas. Também não o faria porque não iria espalhar o assunto pelos quatro ventos. – deu de ombros – Não tive muitas opções.
- Por isso que não flertava de volta?
- Exato. A ideia era te gerar alguma reação branda com aquilo, não te machucar. Entendeu?
Petulante, cruzou os braços com um biquinho.
- Entendi, mas ainda estou zangado contigo!
O puxou para um beijo leve, o finalizando com uma mordidinha no lábio inferior. Rafael retornou para a posição anterior sentindo-se bem com o afeto.
- Por que não fica hoje? Aproveita pra descansar aqui.
- Daqui a pouco está querendo que eu me mude pra cá aos poucos.
- Essa é a ideia. – riram com a franqueza de Kalisto, quem percorria as costas com as palmas – Sua família não teria nenhuma objeção.
- É capaz da minha mãe e da minha irmã fazerem as minhas malas com todos os meus pertences em questão de sessenta minutos, no máximo.
- Elas sabem que a gente se ama.
- E que é bom pra mim. Muito. – sussurrou.
- Você está seguro comigo, amor. Sempre.
Decidiram que seria uma boa ideia Rafael passar o final de semana lá. O rapaz aproveitou pra descansar, sim, mas de outra maneira, com Kalisto gemendo em sua orelha antes de gozarem. Após isso, apenas aproveitou da companhia do mais novo assistindo televisão num volume baixo enquanto ele dormia sobre o seu corpo, acordando sozinho depois de quase duas horas e meia.