Capítulo 11
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Sentia a textura macia de pequeno porte em sua barriga responsável por despertá-lo. Algo o pressionava em duas áreas bem próximas em movimentos alternados, quase como se amassasse pão.
Dormiria mais alguns minutos caso a gata não fosse tão insistente.
Roçava a cabeça felpuda na face relaxada, miando de vez em quando, sem se importar em caminhar sobre o corpo do rapaz – e até mesmo decidir que a testa era o lugar propício para descansar.
- Hum... – fez uma careta ao receber lambidas ásperas no nariz – Você é teimosa igual o seu pai, sabia?
Precisou sentar-se de olhos fechados pelo felino achar a posição bem confortável naquele amplo espaço – deitada confortavelmente no colchão, com o pelo no rosto do ruivo.
Ao erguer as pálpebras com o cobertor lhe cobrindo a nudez, a gata não hesitou em se acomodar em seu colo.
- Bom dia pra você também, criança. – bocejou a acariciando.
Kalisto entrava descalço no quarto com uma da xícara de café consigo.
Despertou uma hora mais cedo, então tomou banho e pediu comida para almoçarem. Embora gostasse de cozinhar, não correria o risco de ficar um minuto sequer longe do seu menino.
- Vim te acordar, mas vi que alguém chegou primeiro.
Pôs a xícara na mesa e sentou na cama lhe dando um selinho. Usava uma regata branca amassada e uma bermuda de algodão para descer e buscar a refeição que chegaria dentro de alguns minutos.
- Bom dia, amor. São que horas?
Os semblantes eram mais leves mesmo se não percebessem tal detalhe.
- Quase meio-dia, por isso vim te chamar. Pedi comida pra gente pelo IFood. Acordei não tem muito tempo e estou com preguiça de cozinhar.
- Que bom que pediu comida. Estou cheio de fome.
O vendo sentado de lado, indagou:
- Está tudo bem? A delicadeza passou longe quando transamos no sofá.
- Apenas meio dolorido. Nada de demais.
Uma pata o atingiu na mão, só parando quando o dono lhe deu afagos no pescoço macio.
- Bom dia pra você também, Kiara. – resmungou.
- Temperamental...
- Igual um certo poodle que conheço. – sorriu o encarando com olhos brilhantes.
- E teimosa igual o pai. – rebateu com humor.
- Teimosa, não. Perseverante.
- Ah, tá! Confia. – deu um risinho antes da voz tomar uma ponta de seriedade – Ainda temos algumas coisas pra conversar, amor.
- Eu sei. – havia certo pesar no tom.
A gata colocou as patinhas dianteiras no abdômen de Kalisto, farejando o seu rosto.
- Está disposto a conversarmos hoje?
- Claro. – afagava as costas do felino distraído.
- Beleza. – levantou para se dirigir ao banheiro – Posso pegar uma roupa emprestada?
- Nem precisar pedir. A casa é sua. É só escolher.
Se dirigiu às gavetas passando em frente ao espelho. Ao ver seu reflexo, parou assombrado.
- Kalisto! – exclamou com a voz aguda num misto de indignação e surpresa.
Havia marcas avermelhadas pelo corpo, em especial na bunda por causa dos tapas fortes.
- Que? Ontem você não se queixou. – tinha um sorriso cínico, embora orgulhoso pelo feito das últimas horas – Além disso, não foi o único a ficar assim, não.
- Como assim?
Retirou a regata se virando de costas. A pele estava em carne viva em arranhões nítidos. Havia marcas de unha por toda a extensão. Pelas costas serem largas e cumpridas, abria espaço para serem arranhadas como o outro bem desejasse – e não deixou cinco centímetros completos sem a pressão das unhas sobre a carne. Abaixou as laterais da bermuda para mostrar os demais formatos de unha de quando Rafael as cravara em si algumas vezes horas atrás.
Definitivamente, seu estado era pior que o do cantor.
- Da última vez fiquei uma semana sem ir pra piscina nessa brincadeira por sua causa, tá? – não havia nenhuma reclamação no tom. Apenas satisfação.
Foi até a cama apoiando um joelho no colchão. A cabeça morena ficou na altura do abdômen, onde segurou a cintura e Rafael o segurou na nuca.
- Poderia ter me avisado. Acabei te machucando.
- Estava gostoso e a gente gozando. Longe de mim esboçar qualquer tipo de protesto. – se afastou ligeiramente do peito desnudo para fita-lo – Até porque a noite passada foi memorável.
Rafael captou tanta amorosidade que sentiu borboletas no estômago. Beijou a testa para ir tomar banho – não sem antes Kalisto abraça-lo por trás lhe beijando a bochecha.
O mais novo começava a se lembrar de como era bom dar e receber carinho na mesma proporção sem reprimendas e nem reclamações. E principalmente: não havia nada de errado com isso.
Saiu do banho com um samba canção e uma blusa de mangas. O tempo estava nublado. Nunca foi muito resistente aos ventos frios os quais balançavam as cortinas.
Deixou o celular na cama já arrumada quando se dirigiu ao banheiro, então não percebeu o vibrar várias vezes.
Sozinho momentaneamente por Kalisto descer para buscar a comida, foi até o aparelho telefônico.
- Que merda, mano...
Haviam quase dez ligações da mãe.
A mulher não se importava de que o filho dormisse fora de casa e tivesse sua própria vida – desde que lhe desse notícias a assegurando que estava vivo e bem.
- Oi, mãezinha querida. – atendeu a chamada de vídeo com um sorriso amarelo caminhando para a sala.
- Ah, agora o senhor lembrou que tem mãe, garoto?
Afastou o telefone por alguns centímetros devido ao berro. Micaela não poderia estar mais zangada.
- Já viu que horas são? Estou igual uma boba preocupada com você.
- Mas eu estou bem. – sentou no sofá de costas para a porta de entrada.
- E teria como eu saber?! – afastou os cabelos do rosto – Poderia estar atropelado, num hospital entre a vida e a morte, preso ou até mesmo no IML.
E sim, ela era drástica.
- Ai, mãe. Estou mais vivo que nunca. Olha essa pele de porcelana.
Afastando a raiva, observou melhor o rosto do filho.
- Usou camisinha, né? Parece até mais descansado.
- Relaxa. É que o celular estava para vibrar e acabei acordando tarde.
Fugiu da pergunta por não querer levantar suspeitas sobre aonde e com quem estivera.
- Pois na próxima vez tenha discernimento de aumentar o volume dessa porcaria.
Teria respondido caso Kalisto não houvesse entrado silenciosamente há alguns segundos. Descansou a compra na mesa antes de se aproximar descalço sem fazer barulho. Num único movimento apanhou o celular.
- Oi, sogrinha. – se dirigiu para o outro completando – Eu sempre quis chama-la assim. – não se importou em usar tal intimidade com a mãe de Rafael, quem visivelmente o adorava.
Numa fração de segundo viu a transformação nas feições doces. De zangada tornou-se aliviada e alegre com os olhos brilhantes.
- Kalisto, meu querido! Como você está? – não poderia soar mais feliz juntando as peças na cabeça e chegando a um resultado exultante para si.
- Estou ótimo. Estamos, no caso. Então, o Rafael está aqui comigo. – sentou ao lado do rapaz posicionando o celular para que ambos aparecessem na tela – Dormiu na minha casa ontem.
- Ai, felicidade! Meu filho está em boas mãos.
Ao fundo uma voz jovial se fez presente. Micaela virou a cabeça para a diagonal prestando atenção em alguém.
- Ué! O Kalisto está com o Rafa?
Logo Mia surgiu na chamada de vídeo comendo uma asa de frango.
- Oi, meninos! Vem cá, Kafael voltou?
- Kafael? – se entreolharam confusos por nunca ouvirem a palavra.
- É como eu e a mamãe chamávamos vocês há uns anos quando o Rafa ainda continuava no armário. Sabe, junção de Kalisto e Rafael.
- Não precisava contar isso, menina! – reclamou enérgica – Desculpa minha filha. – suavizou a voz para se dirigir ao advogado – Ela é boca de sacola demais pro meu gosto. Mas... Já que ela perguntou... – tamborilou os dedos no queixo visivelmente interessada no assunto – Estão namorando?
- Boa pergunta, tia. – encarou o rapaz cuja face estava ruborizada – Voltamos?
- Ah... Não sei... – prolongou as sílabas completamente envergonhado, escondendo o rosto no ombro do moreno.
- Não sabe é o meu ovo, pra não usar a palavra que quero dizer se não a minha mãe me bate. O senhor sabe bem até demais, seu filho de uma figa! – entusiasmada, a menina gesticulava segurando a asa de frango, agora com pouca carne – Só está sem jeito de falar. O Rafa fica fofinho assim com carinha apaixonada, não é, mãe? – deu pulinhos alegres sorrindo pela reação do irmão.
Beijou as ondas macias antes de retorna à posição com a mão na boca em sinal de uma timidez envergonhada.
- Ok, talvez estejamos no caminho para essa finalidade. Satisfeitos? – admitiu com o semblante iluminando tamanha a felicidade.
- Quer apostar quanto que em menos de cinco meses estarão casados e morando juntos? – a menina não poderia soar mais carinhosa.
Se divertiu com as reações. Mia pulava aplaudindo, a mãe se benzeu agradecendo aos céus e a pele do ruivo ruborizou ainda mais. Por causa disso o puxou para si num abraço meigo.
Rapidamente a menina aproveitou a deixa. Arrancou o celular das mãos da mãe, sorriu e tirou um print do momento espontâneo.
- Pronto, agora está registrado!
- Registrado o que? – o irmão se alarmou arregalando as pálpebras.
- Nada de demais. – Micaela a protegia da travessura, cujo resultado fora uma foto que revelaria e deixaria na sala de casa em questão de dias – Tchau.
- E cadê toda aquela história de eu ser um filho desnaturado? Passou rápido assim? – reclamou abismado pelo humor dela mudar apenas pela aparição do advogado.
- Ah, filhote... É aquilo, né? – coçou a cabeça – Estando com o Kalisto está com Deus. Beijos, meninos! – desligou sem lhe dar tempo de responder.
- Meu Deus. – voltou a se aninhar no ombro do advogado – Eu não acredito que esse diálogo aconteceu.
O contornou com o braço o trazendo para o peito.
- Pelo menos já temos o apoio da sua família caso me aceite de volta.
Era implícito que reatariam. Apenas não saberia dizer se chegara a hora de verbalizar esse fato por ainda terem alguns temas para tratar primeiro.
- A minha família te adora! – o encarou sonhador – Por elas a gente estaria entrando na igreja pro casório hoje.
- Caso na igreja desde que em seguida tenha uma festa porreta num salão com direito a samba e cerveja.
- Eu não poderia concordar mais.
Deram vários selinhos consecutivos demorando no último.
- Está com fome? – segurava o rosto doce acariciando a bochecha com o polegar.
- Pior que sim. Acabei não comendo nada ontem de noite.
- Até parece! – rebateu num falso ultraje – Eu fui seu jantar, sua sobremesa e sua ceia.
Rafael gargalhou com a brincadeira.
- Vem. Vamos almoçar.
O homem se dirigiu para a cozinha retornando com dois copos com refrigerante e dois garfos. Encontrou o ruivo desembrulhando as embalagens.
- Mentira que pediu sushi?!
Os levou para onde almoçariam.
- Eu sei que gosta. – soava alegre pela aprovação nas entrelinhas retornando para o sofá colocando os copos no braço do móvel.
- Mano, tem anos que não como comida japonesa. – se acomodou a centímetros de distância.
- Está longe assim por quê?
- Ué, pra não te atrapalhar a comer.
- Atrapalhar nada. Vem pra cá.
De bom grado pôs-se ao lado do outro enquanto a TV era ligada. Repousou uma almofada nos colos para descansar os dois recipientes com os sushis.
Comeram num clima leve em meio a risos e brincadeiras. Escolheram uma famosa série dos anos 90 para assistir. Ao fim, Kalisto levou a embalagem para a cozinha acompanhado por Rafael, quem lavava os talheres e os copos.
Retirou dois pratinhos fundos onde adicionou uma quantidade generosa de pavê para degustarem.
Na bancada o celular do advogado carregava. Curioso pela vibração, o ruivo se aproximou enquanto o outro se encarregava da sobremesa.
- Amor, estão te ligando. – avisou vendo o nome de Gustavo surgir na tela – Acabou de enviar uma mensagem.
- Lê aí pra mim o que é. – pediu ocupado com os afazeres.
- Quer que eu abra a conversa e leia a mensagem em voz alta pra você? – desconfiado, achou melhor se assegurar que aquela foi a solicitação em virtude da série de conflitos e insultos com André no decorrer do tempo por coisas tão pequenas como aquela.
Ainda havia resquícios de questões emocionais não totalmente reparadas pelo dano psicológico causado por André no relacionamento abusivo. Caminhar sobre ovos, buscando calcular seus passos para não irritar a outra pessoa, era um mecanismo que gerava alta demanda de estresse por não poder simplesmente relaxar e aproveitar uma sobremesa na companhia do futuro ex namorado, quem imediatamente comentaria sobre sua aparência, ressaltando a importância de manter-se em forma para não perder a beleza e ser descartado.
- Isso.
- Ah... Bem, ele está te chamando pra ir num barzinho.
- Avisa que não posso porque passarei o final de semana em casa.
Infelizmente se acostumara a ser deixado em segundo plano.
- Amor, não se preocupa. Eu vou pra casa e...
A insegurança era clara, chamando a atenção do advogado. Observou como apoiou o queixo na bancada com ar desolado.
- Nada disso. O único jeito de eu sair essa tarde é na sua companhia e eu sei que, assim como eu, prefere passar a tarde comigo aqui.
O fitou demorando alguns segundos para a informação ser processada. Lacrimejava agradecendo intimamente pelas palavras.
Esqueceu de como era ser respeitado, valorizado e validado dentro de uma relação, ao invés de diminuído, manipulado e constrangido. Era bom ser bem tratado – e Kalisto seria o responsável por fazê-lo sentir-se bem em sua companhia até a velhice.
Num suspiro afastando as lágrimas, respondeu a mensagem com um sorriso tímido.
Dez segundos depois, caiu na gargalhada.
- O que foi? – retornava com os recipientes e colheres.
- O Gustavo perguntou se é porque está comigo.
Rolando os olhos com um meio sorriso, apanhou o celular para enviar o áudio.
- Vai cuidar da sua vida, cacete! – respondeu com humor.
Não conteve o riso, então denunciou a sua estadia ali.
Segurando os pavês retornaram para a sala, onde se acomodaram no sofá.
Numa voz baixa, o advogado indagou:
- Ele te machucou, né?
Não esperava pela pergunta. Demorou-se com a colher na boca olhando para o pratinho.
- Por que acha isso?
- Eu vi a sua cara quando pedi pra responder o Gustavo.
- Não é nada de demais. – balançou a cabeça pestanejando – Está no passado.
- Passado bem do recente que causou alguns danos. O que aconteceu?
Aguardou paciente enquanto Rafael decidia se revelava ou não.
- Sabe isso o que estamos fazendo agora? – levantou a colher com um pedaço de doce – Eu não podia ter um momento como esse. Tinha que controlar a minha alimentação para não correr o risco de ser criticado. Num dia bom só reclamaria caso me pegasse comendo algum chocolate. Do contrário? Nunca pensei que seria comparado à um porco com direito ao som de roink roink vezes consecutivas ao longo do dia. – tentou reproduzir o som que André costumava fazer – Tenho horror desse barulho. – reclamou em murmúrio baixo – Mexer assim no celular como me pediu? Nunca. Era pra passar longe. Me divertir como me diverti contigo no dia da balada ou na casa da Débora dançando, maquiado e com meus brincos? Jamais. Em resumo, quanto mais quieto, reservado e na minha, melhor.
As palavras deixaram-no com mais raiva de André. Maldito o seja por trata-lo daquela maneira.
- Quando as agressões começaram?
- Meses antes daquela resenha na casa da Débora. Não era muito agradável estar na companhia do André. – admitiu desgostoso – A última foi quando apareci aqui te procurando.
Kalisto compensaria cada minuto daquela tortura sofrida por Rafael.
O rapaz sempre fora como um sol radiante: presença marcante, adorava ter contato com pessoas num geral e se comunicava com todos sem distinções. Era triste uma pessoa com tais características se deparar com alguém cujo desejo era apagar a sua luz interna.
- E falando nele... – o advogado mudou o tópico para não correr o risco de agredir o homem quando o visse. Apenas não sabia que o faria em menos de quinze dias – Tenho uma notícia para te dar.
- Qual?
- Acho que o André armou aquela situação toda. – contou indo buscar mais pavê.
- Como é?
Retornou menos de um minuto depois.
- Pois é. – sentou com as costas apoiadas na lateral do amplo sofá. Com uma perna no chão e a outra esticada, o ruivo teve espaço para se acomodar – Ele nunca apareceu por lá e não era segredo pra ninguém que eu te dava carona, certo?
- Certo. – acompanhou a linha de raciocínio com o cenho franzido comendo o doce.
- Por que justamente naquela noite o cara apareceu do nada por ali aparentemente bêbado? O jeito como me olhou depois de te beijar...
- O André te viu?!
- Sim. Logo depois de te beijar te abraçou. Nunca senti tanto ódio de um sorriso na vida. Nada me tira da cabeça que o desgraçado estava sóbrio. São muitas coincidências pra ignorar.
- Que filho da puta! – quase berrou.
- Eu falei que o desgraçado não prestava desde quando o conheceu, não foi?
- Você não vai falar o que eu desconfio que vá falar. – balançou freneticamente o dedo indicador numa negativa.
- Ah, eu vou. Se vou!
- Kalisto...
Gritou projetando a voz para cima:
- EU. AVISEI. CARALHO!
E realmente avisou. Cansou de pedir para Rafael se manter longe de André ou, no máximo, perdurar um contato mais superficial por não lhe causar boa impressão. Entretanto, era bondoso demais – inclusive vendo bondade em quem não merecia. Acabou permitindo a entrada da pessoa errada em sua vida.
- Detesto quando você tem razão. Eu só estava compadecido. A criatura estava passando por uma barra na época. Estava fodido.
- Amor, antes de ajudar um fodido, tenta descobrir primeiro porque ele está ferrado. Às vezes o fodido está fodido por tanto foder a vida das pessoas.
- Está bem. Se eu tivesse te dado ouvidos, sem dúvida as coisas seriam bem diferentes, principalmente se não tivesse escondido sobre o que ele fez. Queria não te envolver por não ir com a cara dele. Acabei fazendo merda ao me calar.
Recebeu um beijo na nuca.
- Esquece. É passado. E o que vai fazer sobre o filho da puta? Sou possessivo demais pra te dividir com alguém.
Tateou o sofá achando o celular. Abriu na conversa com André apoiando o prato nas pernas esticadas para digitar melhor.
“Sinto muito, mas não estou feliz nesse relacionamento. Desculpa.”
Kalisto o apertou contra si lendo o texto. Pôs a tigela vazia no chão o abraçando, aliviado por vê-lo também tirando o status de relacionamento sério das redes sociais e apagando as poucas fotos com o recente ex.
- Isso quer dizer que voltamos, bebê?
- Amor, foram quatro anos. Não quatro dias.
- Então se alguém quiser flertar comigo posso dar trela?
- O cacete! – virou pra ele irado – Só por cima do meu cadáver.
- Ok. Nas entrelinhas a gente está num relacionamento, mas você prefere refletir sobre pela merda que fiz para decidir se vale a pena ou não.
- Resumiu bem em palavras.
- Leve o tempo que quiser. Desde que não haja mais ninguém nessa história além de mim e eu possa ficar assim contigo, está ótimo.
Ao terminarem a sobremesa puxou a parte inferior do sofá para terem mais espaço.
Passaram o dia sem se desgrudarem. Kalisto tinha escova de dentes extra, então não hesitou em lhe entregar uma rapaz dormiu em seu apartamento no episódio da chuva.
Minutos após estarem devidamente alimentados, trouxe uma coberta felpuda do quarto junto com o lubrificante – o último apenas por precaução. O deixou no chão ao lado do móvel a seu alcance. Fechou as janelas do quarto primeiro, puxando as cortinas.
A deixou nas pernas de Rafael antes de fechar as janelas da sala e puxar a cortina igualmente, deixando o ambiente levemente escuro.
- Não estou com frio, amor.
- Vai ficar.
Kalisto retirou a bermuda antes de voltar a se acomodar atrás do corpo de Rafael, quem, compreendendo, o imitou.
No passado, mesmo antes de namorarem, costumavam passar o dia daquele jeito no apartamento.
Não era uma abertura para transarem – embora eventualmente acontecesse sem nenhum protesto pela forte química existente entre o casal. Os tecidos atrapalhavam o contato pele a pele. A sensação era em sua totalidade, aumentando e fortalecendo o senso de intimidade para além do sexo. Tinham certeza dos sentimentos e o conforto aliado à aceitação e companheirismo davam abertura para que, confortáveis, desfrutassem daquela união em total completude.
Ali estavam sozinhos em sua bolha particular onde não se preocupavam com nada e nem ninguém.
Já sem nenhuma peça, Rafael se aninhou de volta no peito cobrindo-os com a coberta.
- Melhor? – o abraçou novamente incapaz de deixar as mãos longe.
- Muito. Não imagina como me fez falta ficar assim contigo. – respirou fundo soltando o ar devagar.
Os minutos se passaram em meio a carinhos e beijos aconchegantes. Aos poucos o teor das carícias mudou. Tornaram-se ansiosas, arrancando suspiros e grunhidos baixos. Logo os corpos despertaram, a pele sensibilizando pelos toques e endurecendo entre as pernas.
Kalisto afastou a coberta para ter a visão completa de Rafael arfando de olhos fechados em meio ao prazer recebendo lambidas no pescoço. Dera espaço movendo a cabeça para o lado, a encostando no sofá.
- Você faz de propósito, né? – indagou com humor antes de se perder num beijo lento, onde o advogado circulava a língua ao redor do outro provocando gemidos agudos.
- A gente não ia ficar muito tempo só de beijinho e abraço desse jeito. – murmurou na orelha para mordiscá-la.
Se contorceu pela onda de prazer, embriagado pelo misto de tesão e amor característico.
- Não posso discordar.
Deslizou a mão pelo abdômen branco até segurá-lo.
- Safadinho. – murmurou se referido a quanto estava rijo.
- É você quem me deixa assim. – o encarou com olhar escuro de tão intenso – Me beija, amor.
O beijo aconteceu de maneira lenta acompanhando a masturbação. Kalisto ia e vinha com a mão simultaneamente como lhe invadia a boca. Rafael suspirava, se agarrava no braço circulado no tronco e roçava os lábios pela região. Com a respiração pesada, segurou a destra espalmada em seu peitoral para beija-la. O advogado a manteve na bochecha, a afagando.
- Amor... – gemeu manhoso – Vai mais rápido.
- Ainda não.
Gostava de vê-lo daquela maneira – se contorcendo, delirando e implorando por mais. Aproveitou para explorar as demais áreas ao seu alcance, como orelhas, nuca e costas. Subiu a palma até os cabelos, onde o puxou do jeito como sabia que irradiaria prazer para o outro, quem deitou a cabeça nele.
Trocou as mãos para continuar a masturbação. Com a outra apanhou o lubrificante usando o dente para abri-lo. Despejou uma gota na glande rosada antes de deixar o tubo no lugar anterior. Usou a única gota para, em seguida, o segurando na base para manter para cima, explorar movimentos diferentes. Ora usava a ponta do indicador para fazer diversos círculos, ora, com o auxílio dos cinco dedos, os deslizava para cima e para baixo – o tempo todo focado na grossa glande.
Rafael mordia os lábios inconformado pelos movimentos tão vagarosos. Apesar de ofegante e dos gemidos, estava longe de gozar.
- Amor, por favor. – o fitou com os lábios úmidos e levemente inchados pelo beijo – Me deixa gozar.
- Quando eu quiser. – deu um selinho – Ou não está gostoso assim?
O rapaz acenou um sim.
- Então aproveita. Só aproveita.
Com um gemido franzindo o cenho e de olhos fechados voltou a se acomodar nele, quem o deixou febril com as mãos hábeis.
Quando decidiu ser o suficiente – e demorou longos minutos – o acomodou deitado no sofá. Desceu a boca pelo abdômen atento às reações, demorando-se para chegar ao destino.
Primeiro lambeu as bolas e as sugou antes de dar a devida atenção ao pau, que logo pulsou ao ser colocado na boca.
O processo em si foi lento e cheio de emoções, principalmente quando segurou a débil mão de pequena na sua a acariciando com o polegar.
Ao descer a língua pelo períneo e a convidativa entrada, o ouviu numa voz baixa:
- Ainda estou meio dolorido.
- Eu sei. – voltou a masturba-lo vendo as pernas encolherem levemente pela sensação – Não vou te foder. Por causa disso eu queria saber se você se sente confortável com... – pressionou de bem leve o indicador na região.
- Assim dá.
O lubrificou com o conteúdo do tubo para inserir o dedo nele até encontrar a próstata, a qual foi massageada enquanto Rafael era masturbado. Em questão de segundos se derramou na garganta de Kalisto num orgasmo tão intenso ao ponto de abafar o grito com o auxílio de uma almofada.
Sobre Rafael, Kalisto o beijou. O outro percorria as mãos pelas costas, sendo a vez dele de gemer baixinho com as investidas do ruivo.
- Meu menino... – enterrara o rosto no ombro alheio desfrutando de cada segundo delicioso – Se não posso te foder agora, eu o quero aqui.
Deslizou as palmas menores as segurando pelo pulso até chegarem em sua bunda.
- Vamos, deita aqui.
Se descolou deslizando para ficar de bruços. Entregou o lubrificante para Rafael, quem tinha outros planos antes de penetrá-lo.
O preparou por prolongados minutos. Circulava a entrada com a língua, obrigando-o a proferir xingamentos e gemidos incompreensíveis. Há muito tempo não se sentia daquela maneira, completamente relaxado e vulnerável perante alguém. Afinal, o único com quem se permitira estar daquele jeito era Rafael, o homem quem amava há mais de quatro anos.
Como o cantor era tão cuidadoso e atencioso quanto o mais velho, o posicionou de lado, ficando atrás do moreno. Como não costumava ser passivo, optou por tal posição por ser mais confortável para quem era penetrado.
Roçou a glande inicialmente para invadi-lo aos poucos. O viu encolhendo os ombros pela fisgada de dor inicial, então parou. Distribuiu beijos para relaxá-lo com a ajuda de uma masturbação para o prazer sobrepujar a dor.
- Quer que eu continue, amor? – murmurou mordiscando carinhoso a pele ao seu alcance.
- Quero. – segurou a mão em seu pau a trazendo para si entrelaçada – Estou com saudade de te ter desse jeito, bebê.
Como o outro não o preencheu por completo, repousou a mão sob a lateral do quadril o puxando para si devagar.
- Ah! – arfou pela próstata ser atingida. Se virou para ele lhe dando um beijo terno – Continua.
Os primeiros movimentos eram lentos e sem precisão para Kalisto se acostumar. Havia anos que não era passivo. Logo, era de se imaginar a importância da precaução. Gradativamente aumentou o ritmo à medida que as demonstrações de prazer se intensificavam, suplicando por mais em lamúrias deliciosas de serem escutadas.
O quadril de Rafael fez o trabalho de maneira suave enquanto vasculhava a carne alheia com carícias. Abraçado ao mais velho, as mãos continuavam unidas e, de tão perto, o via se arrepiar pelo frenesi, principalmente quando estimulado nas regiões certas. Arfavam, gemiam e suplicavam numa atmosfera de aceitação de como funcionavam na dinâmica de casal, já sem a urgência da noite anterior quando ocuparam aquele sofá. Era tudo mais tranquilo, carregado de companheirismo, aliança afetiva e confiança mútua.
- Meu amor... – um Kalisto trêmulo, com gotículas de suor na testa, a boca entreaberta e olhos fechados pedia febril, com a mão menor entrelaçada na sua – Ah! Como eu precisava disso.
- É só com o seu menino que você deixa te ter assim, né?
Acenou um “sim”.
- Ai... – o pau pulsou pela primeira vez anunciando o quão perto o orgasmo estava – Ahhh... Que delícia, bebê. – encolheu o ombro com a forte estocada – Faz o seu homem gozar no seu pau, faz. – arfou sem controle do corpo, o rosto carregado de marcas de expressões profundas – Meu am... Ai, amor... Isso. Continua. Continua que eu... Eu vou... Goz... Ah!!
Explodiu num forte ápice seguido pelo outro, poucas estocadas depois.
Minutos depois, já com as respirações normalizadas e aproveitando os inúmeros carinhos delicados do ruivo, se virou para ele. Adorava encarar aqueles grandes olhos tão expressivos. Tudo o que enxergou foi o quanto era amado, independente do terrível erro cometido. Uma ponta de culpa o fez lembrar da injustiça cometida com quem o amava. O puxou para um abraço, o deitando sobre si. A conexão era forte, onde jurou internamente jamais voltar a ferir o homem em seus braços, quem desfrutava de afagos lentos carregados de amor. Naquele abraço não podiam se sentir mais completos.
As horas passaram vagarosas, onde apenas se levantavam para beber água ou dar atenção a gata. Em determinado momento Kiara buscou por eles querendo atenção. Brincaram com ela por alguns minutos.
Quando começou a anoitecer, nos braços de Kalisto, deitado sobre o moreno no sofá, ambos apenas desfrutando dos efeitos de como era aprazível estarem unidos novamente, Rafael falou com a bochecha pousada no peitoral:
- Estou com preguiça de ir. – fez um biquinho.
Estavam relaxados, sem nenhuma vontade de perderem aquele contato e torcendo para as horas demorarem a passar.
- Ir pra onde? – esfregou o nariz nas ondas ruivas respirando devagar.
- Pra casa.
- Se não quiser, não precisa voltar hoje. – enterrou os dedos nos cabelos iniciando um cafuné afável – Fica aqui. – o pedido foi realizado com uma enorme doçura.
Apoiou o queixo com a face a centímetros da dele. Mordeu o lábio inferior sorrindo passando o indicador pela face morena o admirando.
- E como eu diria não pra esse rostinho tão lindo?
Enviou uma mensagem para a mãe a deixando avisada que seu retorno não seria naquele dia.
A notícia lhe deixaria de bom humor pelo resto do mês – e faltavam exatos trinta dias para o mês acabar.
Foram se descansar quase às duas da manhã. Tomaram um divertido banho juntos onde implicaram um com o outro e se jogavam água rindo das brincadeiras em pura descontração. Não havia espaço para vergonha. A aceitação era recíproca, evidenciada no quanto interagiam bem naqueles momentos de intimidade. Enquanto Rafael se secava, Kalisto aproveitou para deslizar uma toalha menor pelas ondas de seu menino, quem demorou para lhe entregar a maior apreciando a junção de cuidado com cortesia.
Kalisto se encarregou de dar comida para a gata e apagar as luzes do apartamento. Rafael aproveitou o tempo para analisar o seu reflexo no espelho grande do armário preto. As manchas já estavam bem menos aparentes e só então notou como o afastamento de André para a reaproximação com o advogado fora, de longe, uma coincidência de excelência naquele período. Sentia-se carregado de espontaneidade e cheio de vida como antes – inclusive por estar na companhia da pessoa certa quem admirava sua essência e a quilômetros de distância da errada.
Bateu a porta vendo a imagem de Rafael despido no espelho.
- O que tanto você olha aí? – o abraçou por trás sentindo a textura da suave pele nua cheirando ao sabonete.
- As minhas marcas já estão saindo.
- Sortudo. – mordeu de leve o ombro, apoiando o queixo na região em seguida.
Deslizou as mãos pela lateral do tronco até encontrar a cintura, onde a apertou.
- Já estava me perguntando quando iria me apertar assim. Se a memória não me falha, você adorava fazer isso.
Dizia com um sorriso bobo.
- Ah, então tenho que aproveitar para compensar esse tempo.
Deu consecutivos apertos calorosos nele, ambos rindo numa atmosfera alegre onde encolheu os ombros quando os braços morenos o envolveram.
- Saudade de você. – Kalisto beijou a têmpora dando um último aperto.
- Aperta mais, então.
- Eu aperto devagar, leve, forte...
Admiraram-se pelo espelho percebendo o quanto os olhos brilhavam e as feições eram radiantes e cheias de vida, numa harmonia bela.
- Uma foto nossa assim ficaria linda, sabia? – comentou o ruivo num murmurar acanhado pousando a palma no rosto moreno – Principalmente no dia de hoje.
- Vem comigo.
Kalisto o puxou para a cama onde se sentaram. Na mesa de cabeceira ao lado apanhou o celular já carregado.
Se pôs no colo do moreno, quem foi o responsável de bater as selfs tomando o cuidado para não mostrar que estavam sem roupas.
- Essa daqui é a minha favorita. – comentou o mais novo numa em particular onde, de olhos fechados, recebia um beijo na bochecha.
- Ficaram lindas.
Rafael apanhou um creme cicatrizante no armário para passar pelas costas feridas. A cada sinal de dor pedia desculpa pesaroso.
Kalisto foi apagar a luz e o outro pôs o próprio aparelho telefônico para carregar.
Pela temperatura mais fria, não ligou o ar, se acomodando na cama sob a coberta ao lado do rapaz, quem se aninhou nele quando o mais velho deitou de conchinha consigo.
Na escuridão, segurando a mão de Rafael, teve coragem de pronunciar, aliviado pela capacidade de verbalizar sua gratidão:
- Obrigado, amor.
- Pelo que?
- Por me aceitar de volta a sua vida. Por me dar mais uma chance. Eu sei da gravidade do meu erro e vou me esforçar para repará-lo pela gente. Ontem e hoje foram muito significativos para mim. Eu nunca deixei de te amar.
As palavras o inundaram como um bálsamo. Com os olhos marejados se virou lhe dando um prolongado selinho o segurando pela nuca.
- Só vamos dar tempo ao tempo, tá, meu amor? – falou contra os outros lábios. Fungou lutando contra as lágrimas o afagando com as pontas dos dedos com os cílios úmidos – Não quero que a gente se precipite, principalmente agora que as coisas estão se encaminhando.
- Tá. – o puxou par um abraço acolhedor, onde o último muro que os separava foi derrubado – Te amo.
Se separaram apenas para Rafael retornar à posição anterior.
- Eu também te amo. – beijou as costas da destra em total demonstração de carinho – Boa noite.
No dia seguinte decidiram ir a um parque que abriu no shopping. Kalisto aproveitou que acordava mais cedo que Rafael no sábado para lavar roupa, então o rapaz usou seus próprios trajes de sexta-feira.
Foram recebidos com abraços por Micaela, quem não poderia estar mais feliz.
A mulher ficou com o advogado na sala enquanto o filho foi se trocar. Mia o acompanhou se fechando no quarto com ele.
- Vocês voltaram?
- Como assim, voltamos? – abriu o armário buscando uma roupa.
- Ah, Rafa, para de história. – sentou na cama com as pernas cruzados – A gente sempre soube que vocês estavam juntos.
- A gente não teve nada.
O rapaz se virou para completar a fala, mas, ao vê-la com os braços cruzados e uma expressão petulante, notou que não adiantaria mentir.
- Ok, a gente namorou há uns anos. – resmungou derrotado.
- Finalmente admitiu! – a voz subiu umas oitavas.
- Se você não gritar, talvez te conte alguns detalhes dos últimos acontecimentos. Como vocês sabiam, afinal? – buscava uma roupa legal sem conseguir.
Graças ao aviso precisou fazer o mínimo de barulho possível. A menina começou a falar aos sussurros, na esperança de obter alguma informação relevante para repassar para a mãe, quem tentava o mesmo na sala com o advogado.
- Ah, era nítido! Eu e a nossa mãe sempre nos referíamos a vocês como Kafael.
- Pensei que conseguia esconder.
A garota rompeu numa gargalhada.
- Piada boa. – batia palmas se divertindo – Afinal, voltaram ou não? – murmurou carregada de curiosidade.
- Estamos nos acertando aos poucos. Avisa pra nossa mãe se contentar com essa resposta, pelo menos por enquanto.
O vendo se frustrar por não encontrar nada de seu gosto nos cabides, Mia indicou:
- Por que não usa o conjunto que te dei de presente?
- Qual?
A irmã semicerrou os olhos irritada.
- É sério que não viu o meu presente?
- Não tive tempo pra abrir tudo, Mia.
Cruzou os braços caminhando para uma sacola grande do lado da cama onde haviam alguns presentes fechados. Encontrou o que desejava. Retirou o conjunto amarelo de cropped e calça. O retirou da embalagem para estende-lo no colchão.
- Gente, que lindo! Onde arranjou dinheiro pra isso, maninha?
- Ah... Digamos que Deus mandou uma boa alma com um bolso cheio quem se compadeceu pela dificuldade financeira dessa pobre menina inocente quem vos fala.
- Foi o Kalisto quem chantageou?
- Ué! Só porque eu o peguei saindo escondido daqui por dormir na sua cama contigo sabe-se lá os deuses o motivo eu iria chantagear? Claro, mas também o ajudei a sair. Tudo perfeitamente balanceado. Além disso, usei o dinheiro para comprar essa roupa pra você. Não gastei comigo dessa vez.
Apesar da forma errada de obter o capital, foi impossível não se sentir grato pela menina. Não hesitou em puxá-la para um abraço.
O passeio foi ótimo.
Batiam fotos e iam aos brinquedos num clima leve e divertido. O ruivo parecia uma criança de tão alegre cujo sorriso não saía de sua face no semblante tranquilo. Desfrutava por estar na companhia de quem o amava e admirava, sem temer ser quem era – um rapaz alegre, comunicativo, espontâneo e meio escandaloso. Não havia nada de errado em sua essência. A cada afago recebido trazia à tona aos poucos o seu brilho, outrora perdido em consequência de uma armadilha elaborada por quem jamais deveria ter permitido entrar em sua vida.
Na roda gigante, numa noite estrelada desfrutando de uma vista maravilhosa, foram tomados novamente pela áurea de amorosidade, aproveitando das sensações de comunhão do amor mútuo presos em sua bolha particular. Não perderam a oportunidade de se beijarem naquele silêncio aconchegante.
Durante um lanche agradável antes de irem embora combinaram de não postarem nada que ligasse um ao outro. Kalisto detestava aquilo, entretanto ambos compreendiam ser importante para não ter problemas em seu emprego, já que, na universidade, Rafael continuaria sendo seu aluno até o final do período. Porém, isso não os impediria de se encontrarem – e nem de Rafael ser bem-vindo no apartamento no horário que quisesse, inclusive para passar os finais de semana ali.
Futuramente, assim que terminasse a faculdade após apresentar o tema de seu TCC com louvor onde Kalisto estaria presente para prestigiá-lo ainda na postura de professor, a primeira ação de ambos seria assumirem o relacionamento nas redes sociais depois da formatura de Rafael – não fizeram questão de fingir que não tinham nada –, onde postariam algumas fotos daquele dia do parque.