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Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Blood & Crown


Escrita porPams
Revisada por Lelen

Parte 2 • Príncipe Herdeiro de Veyrden

Tempo estimado de leitura: 27 minutos

Reino de Cahir, século XVII

  5 anos atrás…

  A névoa estava espessa naquela noite. 
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  Densa e sufocante, que descia como um manto sobre os telhados da região de Eryndor, o vilarejo mais escondido nas sombras do reino de Cahir. A porta do armazém bateu contra a parede com um estrondo, logo a sombra mais temida pelo reino preencheu o espaço — alta, sinuosa e letal. O capuz caiu, a máscara que carregava a marca registrada de sua Casa, não trouxera desta vez. 
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  Hoje, apenas ela. 
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  Sem máscaras e sem disfarces. Só a lâmina... e a dor que carregava no peito.
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  A informação que a levou ao lugar, tinha vindo com preço — sangue, facas, mentiras. O herdeiro perdido, bastardo da coroa. A única ameaça viva ao trono de Severin Grimwald, estava ali, diante dela.
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  %Alaric% Grimwald.
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  Peça central de um boato que, até então, era somente sussurro de uma criada considerada louca por seu estado de demência. O descendente direto do fundador, o destemido rei Veyrden, surgiu entre as cinzas de seus antepassados, sendo revelado ao mundo. O silêncio pairava no lugar, mesmo não sendo visível com nitidez, o corpo de %Avery% parecia uma extensão da escuridão — vestida de preto, o capuz ocultando metade do rosto.
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  — Vhaloris. — A voz de %Alaric% era grave, mais rouca do que ela se lembrava. — Sabia que não conseguiria ficar longe.
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  Ela, com seu objeto cortante nas mãos, apertou o cabo da adaga até os dedos doerem.
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  — Mentiu para mim. — Sua voz saiu mais trêmula do que deveria. — Mentiu o tempo inteiro. E eu... — A garganta ardeu pela raiva acumulada. — Eu fui tola o bastante para... para acreditar em vossas palavras. %Alaric% Grimwald.
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  Ao pronunciar seu verdadeiro nome. 
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  %Avery% deu-lhe a deixa para entender suas palavras iniciais. Ela havia descoberto o maior de seus segredos, estava diante do descendente direto de uma linhagem real rara. Não era como se ele fosse o filho bastardo do rei atual, Darian apenas estava assentado ao trono por ser covarde o bastante e se aproveitar de uma guerra para planejar a morte do verdadeiro rei — o primo de vossa esposa, Magnar Grimwald — e sentando-se em seu trono posteriormente. 
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  — Não era o momento adequado... Poderias se envolver em algo que não lhe era respeito — respondeu, dando um passo. — Achas que isso foi fácil pra mim?
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  Seu olhar transmitiu honestidade.
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  %Alaric% era diferente, pertencia a mais alta casta. O filho perdido do rei Magnar, o verdadeiro dono do trono de Cahir, o qual muitos derramaram seu sangue para que ele pudesse permanecer vivo o suficiente, para reclamá-lo.
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  O vento cortou forte. 
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  As correntes no cinto balançaram levemente quando ela saltou. Silenciosa e precisa, imperceptível ao ouvido alheio, deixando-o notar sua aproximação apenas no momento em que a lâmina de sua adaga roçou seu pescoço.
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  — Há um ditado que diz… — sussurrou ela no ouvido dele, gélida como a lâmina do instrumento em sua mão — nem todo rei morre ao ascender ao trono.
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  Mas ao invés de se enrijecer de medo, %Alaric% sorriu.
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  — Sabia que viriam após a confirmação de minha identidade real. Só não imaginei que seria através de vós. — A voz dele era grave, rouca, sem traço algum de surpresa.
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  De certa forma, ele entendia a sua rasa indignação.
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  Em um movimento seco, ele girou, o braço batendo contra o punho dela e fazendo a lâmina ricochetear. %Avery% recuou de forma ágil, deslizando para trás com uma precisão felina, sacando uma segunda adaga que estava presa em sua coxa esquerda.
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  — Vais mesmo me matar, Vhaloris? Cravar essa lâmina no meu peito e fingir que tudo isso é apenas mais um trabalho executado para a coroa? — A voz de %Alaric% soou estranhamente.
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  Um toque de alguém ferido internamente.
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  — Não sabe nada sobre mim — rosnou ela, avançando, a lâmina mirando o espaço entre as costelas. — E não viverá para descobrir.
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  Ele desviou, pegando em seu pulso para imobilizá-la. Contudo, %Avery% girou e lançou sua perna, com o intuito de se soltar dele. Jogando seu objeto no chão em consequência de seus movimentos, porém, curiosamente ela puxou outra adaga, agora escondida em seu espartilho, na altura da cintura. Ele agarrou o outro braço, fazendo ambos os corpos se chocarem, com as pernas entrelaçadas e uma respiração ofegante sincronizada. 
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  Mãos que antes sabiam como tocar... agora sabiam como ferir.
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  O ambiente ao seu redor parecia mais quente do que o normal para uma noite de verão, e não era pelo olhar nebuloso da dama que acelerava seu coração.
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  Mas... havia algo mais, escondido sob a fúria.
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  Um calor incômodo. 
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  Uma lembrança do que poderia ter sido, do que quase foi.
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  Ela deslizou por baixo de seu braço, girando o corpo para tentar cravar a lâmina na lateral do abdômen do rapaz, entretanto, mais uma vez sendo impedida, teve ambos os pulsos segurados, enquanto seu corpo foi enquadrado por ele. O som seco do corpo de %Avery% batendo contra a pedra ecoou no espaço, mas não foi isso que a fez prender a respiração, e sim a devastadora proximidade de %Alaric% e a forma veemente de como ele a olhava.
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  Estava perto demais.
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  O antebraço do homem cruzava seu peito, imobilizando-a com precisão. As mãos seguravam seus pulsos, pressionando-os contra a parede a uma altura significativa de seu rosto. O olhar profundo de %Alaric% despertava sentimentos ocultos e adormecidos em seu interior.
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  Era algo que queimava. Que rasgava.
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  Mágoa.
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  Desejo.
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  Decepção.
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  E algo mais, que ambos nunca tiveram coragem de nomear. Ao tentar se debater para soltar seu corpo, fora pressionada ainda mais, a ponto de sentir com avidez o calor que emanava do corpo dele, fazendo-a sentir-se sufocante com seu aroma natural.
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  O cheiro... era o mesmo de antes. 
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  De couro, metal, e... dele. 
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  Maldito cheiro que ela nunca conseguiu esquecer.
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  — Me solte — rosnou, mas a voz vacilou. — Solte-me, %Alaric%.
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  — É isso que quer? — O tom saiu baixo e brando, seu rouco habitual, que a deixava quase desarmada em certos momentos. — Quer que eu solte? Pra me matar? É isso que quer... ou é o que acha que deveria querer? — A respiração tão próxima a ponto de fazê-la estremecer internamente.
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  Os olhos dela permaneceram fixos nos lábios dele por um segundo antes de voltar a sanidade, seus pensamentos a transportaram para a primeira vez que se viram. %Avery% estava em uma missão da coroa no vilarejo de Mordravia, localizado ao leste de Cahir. Seu dever era apenas se desfazer de uma família que ameaçava os planos de Lord Kaelen, um homem ganancioso que buscava poder a todo custo, e havia jurado lealdade à coroa, em troca de alguns favores prestados pelos temidos Vhaloris
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  — Eu devia te odiar — sussurrou ela, respirando fundo para reajustar seu autocontrole. — E devias ser apenas mais um nome na minha lâmina.
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  Maldição. Pensou consigo ao encará-lo. 
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  Por que vossos olhos pareciam sempre pedir algo? 
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  Perdão ou redenção.
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  Em poucos movimentos, %Alaric% suavizou os músculos de seu corpo para aliviar a tensão entre ambos, não o suficiente para soltá-la, mas para que seus dedos escorregassem do pulso dela até a mão, segurando-a de forma quase íntima. 
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  Involuntária.
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  — Então por que não fizeste antes? — sussurrou de volta, convicto de seus argumentos mediante aos fatos. — Poderias ter me matado há quatro noites, quando estivemos juntos… Mas apenas deixou-me no meio da madrugada fria, sem nenhum bilhete, apenas com o vosso perfume impregnado em meu corpo.
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  O silêncio que se seguiu não era só silêncio.
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  Era uma realidade que nenhum deles ousava colocar em palavras. E o mundo pareceu encolher até só existir eles dois. O corpo de %Avery% estremeceu-se mais uma vez, lutando para manter-se em equilíbrio, devido à parede fria que tocava suas costas, em contrapartida com o calor que emanava dele.
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  Se ele a beijasse naquele momento... seria mais fácil do que qualquer palavra.
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  Se ela o apunhalasse... doeria menos do que admitir qualquer verdade.
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  Mas nenhum dos dois fez.
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  Porque quebrar o silêncio mútuo significava quebrar a si mesmos.
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  Ele soltou-a devagar, seus dedos demoraram mais do que deveriam para se desfazer, e quando se afastou, foi como se arrancassem algo de ambos.
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  — Da próxima vez... — disse ele, rouco, quase quebrado. — Ou mata-me adequadamente, ou para de fingir que é apenas a morte que temos em comum.
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  Então, voltaram ao silêncio. 
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  Denso e quase mortal.
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  Atualmente…

  Com o fim da melodia…
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  Os corpos se separam, mas os olhos permaneceram presos um no outro — uma promessa não dita, um duelo que persistia por anos entre ambos. O salão voltou a existir e as máscaras seguiam sorrindo. Contudo, ao centro, as duas peças se moviam no tabuleiro da morte, e o jogo longe de terminar. %Alaric% inclinou-se, levando a mão dela aos lábios, como ditavam as regras da etiqueta.
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  Ou, no caso deles, da guerra silenciosa.
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  — Espero que esta não seja nossa última dança — sussurrou, com os olhos ainda queimando nos dela.
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  — Depende... — respondeu %Avery%, sorrindo. — Se chegar vivo ao final desta noite.
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  Ela se afastou, deslizando pelo salão como um espectro elegante. 
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  O olhar do cavalheiro a acompanhou até desaparecer entre os convidados. %Avery% já tinha todos os seus passos milimetricamente calculados, e suas mãos sempre trabalhavam com precisão. O anel em seu dedo com um fechamento oculto, no qual guardava seu preparado mortal, uma gota translúcida balançando do lado de dentro — pequena, discreta, invisível. O suficiente para matar um homem antes que terminasse sua taça. Seus olhos percorreram o lugar discretamente, até avistar um dos criados se aproximando com uma bandeja de vinho. Com um leve toque no braço do serviçal, atraiu seu olhar tempo suficiente para despejar o líquido na única taça restante, em seguida, pede para que seja entregue a pessoa devida.
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  Discrição impecável. 
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  Um trabalho limpo, perfeito. 
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  Como sempre.
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  Dando mais alguns passos, %Avery% parou em frente à mesa de frutas. Deixou-se admirar pela variedade apresentada em tempos de escassez devido ao inverno rigoroso daquele ano. Enquanto parte do povo morria de fome, os mais vulneráveis economicamente, é claro, a nobreza seguia esbanjando seu status nas grandes festas que realizavam ao longo do ano. Ao pegar uma uva, levou-a à boca e voltou seu olhar sinuoso para %Alaric% — que, claro, a observou de volta. Como se ambos estivessem conscientes de cada movimento do outro.
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  — Devo confessar minha surpresa e alívio por vê-la aqui, milady? — A voz de lorde Maester Aldric despertou sua atenção, fazendo-a olhá-lo.
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  — Não acho que deves continuar a tratar-me com tanta formalidade, já que minha família está a um passo de perder seu título de nobreza — pronunciou ela, a realidade a qual se preparava para vivenciar. — A única coisa que nos restará são as lendas urbanas e a reputação de assassinos da corte.
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  — Lamento que a coroa não seja tão grata e atenciosa a lealdade que a Casa Vhaloris tem mantido ao longo dos séculos — comentou com amargura.
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  Aldrich era classificado como a definição de inteligência controlada. 
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  Seu pouco falar e muito ouvir lhe permitia ter vantagens sobre muitos dos aristocratas que viviam de bajulações desnecessárias. Suas palavras eram medidas como se cada uma tivesse o peso de uma sentença, e, muitas das vezes, as tinha. O conselheiro leal da Coroa, discreto, sempre presente nas reuniões do Conselho, oferecendo análises ponderadas e estratégicas. Seus princípios partiam da preservação do equilíbrio, da história e das linhagens que guardavam segredos maiores que qualquer trono.
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  — É bom ver um rosto amigável, mesmo que pareça assombrado pela minha presença — continuou ela, relevando a indignação do homem por algo que sabia não ter mudança.
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  — Uma vez, vosso pai me disse… — Ele inspirou com precisão, parecia lembrar-se do momento com vivacidade. — “A história não é feita apenas pelos reis... mas pelos fantasmas que eles tentam esquecer.”
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  — A que ponto minha família chegou… — Ela segurou as emoções diante do ocorrido. — Fomos transformados em fantasmas.
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  — Lamento o que tenha acontecido, e sabes que se soubesse de algo… — ele iniciou suas explicações.
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  — Não se preocupe, milorde, consigo ver a inocência em vosso olhar — ela o interrompeu, jamais desconfiaria do único que fora capaz de enfrentar o rei Darian em busca pela verdade sobre o Príncipe Herdeiro de Veyrden. — Sei que não está envolvido nessa trama, não apenas por vosso gesto de compaixão em amparar minha família.
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  O único que abriu as portas de sua casa para abrigar o que um dia foi a imponente Casa de Vhaloris.
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  — Vosso pai foi-me um grande amigo — confessou. — Jamais deixaria a vossa família em estado de necessidade… Contudo... — Ele silenciou por um momento.
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  — Contudo? — indagou ela.
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  — Contudo, preocupou-me o vosso desaparecimento repentino — prosseguiu com as palavras. — Deixando a vossa mãe e irmãos para trás, apenas com um bilhete contendo uma palavra específica que nos trouxe ainda mais aflição.
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  Qual palavra?
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  Vingança.
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  — Como a primogênita, sabe que devo carregar o legado da família. — Não se justificando, apenas esclarecendo sua decisão pelo afastamento. — Sei que cuidará deles em meu lugar.
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  — Temo que algo ruim possa acontecer a vós, criança. — Suavizando mais a voz, demonstrou a preocupação de um pai.
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  A mesma que seu próprio pai teria se estivesse entre os vivos.
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  — Nem toda lâmina brilha ao sol. Existem algumas que cortam melhor na escuridão. — Sua voz aveludada ficou mais lenta, como o dobrar de um sino distante. — Lembra-se desta frase?
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  — Claro que sim… Eu mesmo disse a vós quando começaste vosso treinamento. — Assentiu ele.
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  Do outro lado do salão, o criado com a taça da agonia aproximou-se de %Alaric%, estendendo a bandeja com naturalidade. O príncipe bastardo estendeu a mão para pegá-la já sentindo a garganta seca pelos assuntos que debatia com seu fiel escudeiro, enquanto observava a dama fatal ao longe.
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  Em um piscar de olhos, uma voz rouca e desconfiada cortou o ar.
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  — Deixe-me provar, alteza. Apenas... por precaução.
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  Lucien Falkhart, guarda pessoal, conselheiro e grande amigo de %Alaric% desde a infância — um homem de olhos duros, ombros largos e instinto afiado como a lâmina de sua espada. Considerado pelo príncipe como o equilíbrio perfeito entre a disciplina e o coração. Um homem de códigos, juramentos e convicções, disposto a morrer — e, se necessário, matar — para proteger quem considera digno de sua lealdade. Sua desconfiança de tudo ao seu redor o fazia cético, em relação a todos que circulavam os salões do poder. Carregando secretamente um grande temor por suas próprias emoções. 
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  O passado ensinou-lhe que quem ama... sofre. 
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  E quem protege... perde.
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  Antes da recusa de sua alteza, Lucien tomou-lhe a taça de sua mão e, em um só gole, despejou o vinho garganta abaixo. Por um instante, tudo pareceu normal, entretanto, em um piscar de olhos, o guarda leal levou a mão à garganta, sentindo-a arder. Seus olhos se arregalaram e as pupilas dilataram, uma ligeira fraqueza nos membros do corpo levou-o a derrubar a taça que se estilhaçou pelo chão de mármore.
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  — Al... %Alaric%... — sua voz saiu rouca, sufocada. — Enven…
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  As pernas logo falharam. 
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  E seu corpo pesado desabou, batendo contra o chão com um som seco, seguido de um murmúrio coletivo do salão, que começava a perceber que algo estava errado. %Alaric%, no susto, tentou ampará-lo sem sucesso, sendo levado ao chão juntamente pelo amigo. %Avery% sentiu o coração acelerar — não por remorso, não por culpa, mas porque isso não fazia parte do plano.
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  Ela não errava. Nunca errava.
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  E bastaram alguns minutos mantendo a atenção longe do seu alvo, que todo seu plano fora posto em risco. %Alaric%, ajoelhando-se ao lado do amigo com as mãos pressionando o peito de Lucien, acompanhou a mudança gradativa nas feições do amigo. O herdeiro bastardo não sabia como reagir diante do inesperado. Ao levantar a cabeça, seus olhos percorreram a todos os presentes, as atenções assustadas em sua direção.
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  — Chamem o médico real! — gritou ele em desespero. — Agora!
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  Alguns dos guardas que se mantinham em sentinela, se locomoveram para atender a ordem do príncipe. Ao centro do salão, Severin mantinha seu olhar apático ao ocorrido, entretanto, internamente a fúria e frustração o consumiam, fazendo-o sentir que havia perdido alguns lances naquele tabuleiro.
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  — Lucien, por favor, fica comigo — pediu ele, forçando a voz sair.
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  Não ambicionava perder um amigo daquela forma, ainda mais por perceber que o mesmo havia tomado o vinho em seu lugar. Foi então que sua mente se ascendeu, voltando seu olhar fulminante para apenas uma pessoa. 
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  Não havia mais sorrisos, não havia mais joguinhos. 
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  Apenas a raiva em seu estado bruto. 
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  E um tipo estranho de decepção.
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  — Vhaloris — ele rosnou, levantando-se abruptamente. — GUARDAS!
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  O salão explodiu em caos. 
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  As máscaras caíram, alguns dos convidados gritaram e outros correram, os mais intrigados assistiam paralisados. O restante dos guardas empunhou suas espadas, empurrando a multidão, procurando por ela. Contudo, %Avery%, em sua sagacidade, deslizou pelas sombras como névoa, como foi treinada desde que sabia andar. 
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  Sua mente se moveu mais rápido que seus pés. 
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  O plano falhou, e agora... agora o jogo mudou.
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  De predadora, tornou-se a caça. 
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  Porém, no fundo, já tinha em mente que a linha tênue entre essas duas coisas nunca fora tão clara. E fato era que a próxima vez que seus olhos cruzassem os de %Alaric% Grimwald, não haveria máscaras, apenas a fúria de um amigo que se culpava por tê-la deixado permanecer viva um dia.
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  O caos no salão se desenrolava como uma tempestade descontrolada. 
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  Gritos, correria e espadas desembainhadas. %Avery%, ainda em sua fuga, continuava como sombra entre os vultos, deslizando por frestas, por entre colunas e extensos corredores escuros e úmidos que compunham a vasta arquitetura do castelo. As botas silenciosas não deixavam rastros, pois ela conhecia esse jogo — sempre o conheceu. 
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  Entrar. Matar. Sumir.
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  Mas, desta vez, algo estava errado. Se deslocando para chegar ao corredor lateral que levaria às passagens secretas do palácio, uma rede pesada caiu sobre ela, puxando-a ao chão. A armadilha não era improvisada — fora feita exatamente para conter alguém como ela, esperando-a que tomasse aquele caminho. Então, no ápice do desespero, %Avery% lembrou-se do discreto sorriso de Isolde quando %Alaric% ordenou aos guardas a sua captura, levando-a a constatar que ambos os responsáveis pela ruína de sua família, haviam tramado não apenas uma execução naquela noite, mas sim, duas.
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  Seria como deter dois coelhos com uma única cajadada.
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  — ACHAMOS A ASSASSINA! — gritou um dos guardas. — Segurem-na! NÃO a subestimem!
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  %Avery% lutou… 
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  Chutou um dos guardas e girou o corpo para pegar a adaga presa em sua coxa com golpes precisos de defesa pessoal, conseguiu ferir mais dois guardas. Entretanto, eles estavam em vantagem numerosa e determinados a não a deixar escapar. Uma batida forte em sua cabeça, o suficiente para deixá-la sem os sentidos. 
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  Seria o fim do legado da Casa de Vhaloris
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  Algemas de aço negro se fecharam em seus pulsos. Uma corrente apertada envolveu seu pescoço, limitando seus movimentos e sua respiração. Ao despertar de sua sonolência pelo impacto na cabeça, um misto de frustração tomou conta de si ao lembrar-se do que lhe aconteceram antes do desmaio.
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  — Soltem-me, vermes! — gritou com os olhos ardendo de ódio.
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  Mas era tarde. 
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  As sombras que sempre estiveram ao seu lado agora pareciam traí-la. O som dos seus gritos ecoou pelos corredores frios e úmidos das masmorras do castelo, ao contrário da luz que rescindia o grande salão pelos lustres de cristais, as escassas chamas das tochas espalhadas em pontos estratégicos, não lhe dava nem mesmo a chance de entender o que acontecia ao seu redor. 
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  O cheiro de ferrugem, mofo e sangue seco passou a ser perceptível nas suas narinas.
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  Ali não existia honra, nem misericórdia. As paredes de pedra absorviam os gritos como se estivessem famintas. Correntes, ganchos, mesas de ferro. E ao centro, ela — lançada como um animal, algemada, ensanguentada, respirando com dificuldade.
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  Não demorou para começarem a leve sessão de tortura, prática essa desconhecida pela sociedade aristocrata, mas que demonstrava a real face da coroa de Cahir. Primeiro os golpes? Socos e chutes na região do abdômen. Depois, lâminas pontiagudas que demarcavam precisamente pequenos cortes, não letais, mas fundos o suficiente para dilacerar músculos, arrancar controle, forçar submissão.
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  %Avery% rangeu os dentes, o rosto sujo de sangue e poeira. 
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  Ela não chorava. Nunca. 
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  Cada grito arrancado de sua garganta era uma promessa silenciosa de vingança.
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  Não a %Alaric%, mas àqueles que a forçaram a tal situação.
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  — Diga o que queremos, assassina! — urrou o comandante da guarda, empurrando uma adaga quente contra sua pele. — A quem tentava envenenar?
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  Ela apenas riu. 
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  Uma risada rouca, que mais parecia insanidade ao invés de lucidez. Um momento de silêncio e o som de passos fortes e firmes ecoaram pelo lugar. Em instantes, a figura de %Alaric% adentrou o calabouço com a capa negra ondulando atrás de si, o olhar duro como pedra. Não trazia mais a máscara. Seus olhos, verdes como lâminas de jade, faiscaram com fúria... e algo mais.
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  Desapontamento.
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  Ordenou em silêncio, com um único gesto, a retirada dos guardas. Os homens, em obediência, recuaram com precisão, saindo da cela em que estavam, seus movimentos foram lentos o suficiente para que o príncipe notasse suas mãos manchadas com o sangue dela. Mais uma onda de silêncio com ambos se encarando. Mesmo naquela posição, %Avery% mantinha sua postura rígida de assassina implacável. 
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  Aproximando mais, ele agachou diante dela. 
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  Observou-a como se observasse uma lâmina partida — bela, perigosa, mas agora... vulnerável. Internamente, %Alaric% sentia a mistura de sentimentos o consumindo como as chamas que um dia consumiram a casa da dama à sua frente.
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  — Diga-me uma coisa, %Avery% Vhaloris... — sua voz saiu baixa, grave, carregada de ferocidade contida — ...você pretendia me matar durante... ou depois do baile?
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  Mantendo o olhar nele, tossiu um pouco por suas condições físicas, então, cuspindo sangue no chão, o respondeu com um sorriso trêmulo.
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  — Ainda estava calculando a hora exata, afinal, você dança bem... — respondeu com o soar de deboche. — Quase me convenceu a esperar até a meia-noite.
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  Seus olhos se estreitaram, movendo-se para o chão, o peso de seu corpo a fez sentir um esgotamento desconhecido por ela. Porém, a mão dele agarrou seu queixo, obrigando-a a encará-lo.
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  — Lucien está morto por sua causa — afirmou com o gosto amargo na boca.
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  — Não está, ainda. — Suas palavras soaram como um vento gélido e cortante. — Ao contrário do que pensa, ele ainda está vivo, mas pode desfrutar de uma morte lenta e tortuosa.
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  — Está mentindo — retrucou em desconfiança. — Como sempre.
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  Ela o encarou. 
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  E, pela primeira vez naquela noite, o jogo virou. %Avery% ainda tinha a carta mais valiosa.
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  — Sabe que não brinco em serviço… Posso te dar o antídoto. — Sua voz saiu baixa, rouca, mas firme. — Mas nada vem de graça.
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  %Alaric% apertou o maxilar dela com mais força.
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  — Não vou deixar que brinque comigo novamente. — Áspero e inexpressivo.
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  — Não estou brincando — confirmou.
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  Seu olhar seguro o fez confiar em suas palavras.
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"Someone call the doctor." 
  - Overdose / EXO

Parte 2
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