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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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White Devil

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

PARTE UM • O ARAUTO.

PRÓLOGO

Tempo estimado de leitura: 42 minutos

BIELORUSSIA • 13 ANOS ANTES.

  Tudo pareceu desacelerar ao seu redor, como se ela estivesse presa em um pesadelo horrível. Por mais que ela corresse o mais rápido que conseguisse, não parecia o suficiente. 
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  Os olhos %verdeschartreuses% da menina se arregalaram, e ela lançou seu tronco para frente, por puro instinto, o grito desaparecendo em sua garganta até ter ficado completamente mudo. Tentou olhar para trás, tentou localizá-lo por entre as árvores que compunham a floresta densa, mas não viu nada. Seu tronco se torceu um pouco, os lábios ressecados pelo inverno e falta de água, entreabertos, deixavam escapar os arfares crescentes, o hálito da menina condensando-se no ar ameno, espiralando ao redor de sua face como fumaça. A roupa fina que usava, apenas uma blusa de manga longa suja com a lama gélida do chão da floresta, e parcialmente molhada pela água do riacho que ela havia atravessado antes, grudava a seu corpo, pouco fazendo para protegê-la do frio cortante que espalhava-se pela floresta. As calças de moletom, rasgadas e ensanguentadas, que outrora enroscavam-se ao redor de suas pernas, agora grudavam como uma segunda pele, os cortes mais profundos onde o tecido molhado e gélido pelo riacho adornava latejavam, a dor aguda quase a cegando. Mas ela não parou de correr. Ela não podia parar. 
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  Se ela o fizesse ele ia encontrá-la. Ele ia alcançá-la, e então… 
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  O disparo feito do rifle de caça rasgou o ar com violência, enterrando-se no tronco ao lado da cabeça dela. %Agatha% gritou baixinho, sentindo a explosão de estilhaços do tronco da árvore chocar-se contra seu rosto, os pedaços afiados de madeira fincando-se superficialmente na lateral esquerda de seu rosto, a ardência, como se fogo tivesse tocado superficialmente sua pele, de onde os fragmentos haviam se cravado sequer foram registrados por ela, tentando se obrigar a correr com mais força. O terror parecia esculpido, preciso e visceral pelo rosto ensanguentado e coberto de suor da menina, mesmo que as temperaturas estivessem abaixo de zero, e que a neve se acumulasse em bolsões no solo irregular da floresta, mandando-a para o chão, por vezes. 
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  O frio invernal era cruel e mordia a pele de %Agatha% com agressividade. O vento forte oferecia um pequeno prenúncio da tempestade que estaria se aproximando, evidenciando que aquela noite seria mais uma das mais frias que ela já havia sentido em sua vida. Evidenciando que se ela falhasse nesse teste, acabaria largada outra vez no celeiro dele, e se fosse este o caso, ela não sobreviveria. Estava dormindo no celeiro fazia dois dias, ainda de madrugada, naquele dia, %Agatha% havia acordado chorando de dor, quando percebeu que os músculos de seus pés não apenas estavam atrofiados pelo frio, como sua pele estava começando a ficar arroxeada. Estava cobrindo-se com as peles das ovelhas que ela havia matado quando o frio se tornou enlouquecedor demais para aguentar, ainda assim, as peles sem tratamento estavam apodrecendo, o cheiro tornou-se comum, tal qual a sensação do rastejar das larvas sobre sua pele, pouca diferença fazia para aquecê-la. 
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  Na primeira noite, ela havia conseguido até mesmo dormir, mesmo que estivesse tremendo da cabeça às pontas de seus pés. Ela havia desmaiado de cansaço. Os olhos semicerrados, nem completamente fechados, nem completamente abertos, aproveitaram a escuridão do celeiro para ceder à exaustão que se acumulava de semanas. A segunda noite, todavia, fora completa tortura. Ela tivera certeza que iria morrer se precisasse dormir lá por mais uma noite. Sabia igualmente que tampouco ele iria se importar se ela estivesse viva ou não; não era assim que as coisas funcionavam ali. Precisava voltar para a cabana. Mesmo que não tivesse o luxo da solidão reconfortante que havia no celeiro, longe da presença fantasmagórica dele caminhando pela casa sem dizer uma palavra, murmurando apenas aquela maldita música baixinho, quase distraidamente: “eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só”. Houve uma época que %Agatha% teria cantado com alegria e excitação em conjunto a quem quer que estivesse recitando as palavras, em uma roda de capoeira enquanto provocava Beatriz, mas esta época, agora, era longínqua tal qual um sonho distorcido por febre. 
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  Ela precisava dormir. A privação de sono a estava deixando errática, letárgica, as alucinações estavam começando a se tornar mais intensas, reais demais. Começavam a se misturar com a realidade, fazendo-a pegar-se resmungando com o vazio ou sem reagir a um som de animal selvagem na floresta perdida em um estado de transe. Até mesmo seus olhos pareciam estar dispostos a traí-la, em alguns momentos ficando completamente desfocados, não importava o quanto ela se esforçasse para enxergar o que estava à sua frente. Precisava passar neste teste, custasse o que custasse — não que não houvesse incentivo, ele só não acreditava em falhas, por isso os testes eram simples, para passar, ela deveria sobreviver e evidenciar a graça de um verdadeiro guerreiro, e se ela falhasse? Bem, estavam no meio da floresta, seu corpo seria digerido pelos animais que viviam ali.
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  O assobio da música começou a ficar mais alto, e a menina entrou em pânico. O rosto aterrorizado permaneceu fixo no caminho à sua frente, forçando suas panturrilhas doloridas e latejantes a continuar o ritmo, tentando correr o mais rápido que seu corpo permitia. O problema era que ela não tinha ideia de para onde ela estava indo. Outro disparo ecoou da carabina de Edgar, a bala atravessou o ar como um flash acertando de raspão a lateral da panturrilha direita de %Agatha%. Ela não gritou, sufocando o choro pela dor causada com um fungado alto, mas seu corpo ainda se projetou para frente, desabando com uma força que roubou o ar de seus pulmões e fez seus ossos vibrarem por baixo de sua carne, rolando ladeira abaixo. 
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  Tudo girou ao seu redor. Dedos feridos se curvaram em garras tentando desesperadamente agarrar-se ao que quer que encontrasse pelo caminho, tentando recuperar-se. Galhos secos, espinhos e raízes fincaram-se em sua pele, retalhando-a, sua cabeça acertou com um tronco de árvore caído e por uma fração de meros segundos, ela desmaiou. Seu corpo ficou completamente mole, e sua visão escureceu. O desespero gritava em sua mente quando %Agatha% recobrou sua consciência arrastando-se pelo chão irregular da floresta, sentindo a neve molhar ainda mais suas roupas e seus dedos ficaram mais e mais amortecidos. O tremor violento da queda de seu corpo começava a transformar-se em espasmos fortes, dificultando para que a menina conseguisse se levantar e voltasse a correr.
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  Apenas correu. Obrigando-se a ir mais rápido, mesmo que suas pernas estivessem começando a ceder ao peso de seu corpo e exaustão, mesmo que seus pulmões estivessem pegando fogo, e o ar gélido queimasse suas vias respiratórias, fazendo com que sangue começasse a escorrer, deslizando pelo lábio superior dela e pingando dentro de sua boca entreaberta. Um ruído alto, clic clac, e então mais um disparo.
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  Este acertou-a na altura do ombro, projetando-a para frente, mas ela não parou. 
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  E foi naquele momento que ela teve a completa certeza de que, desta vez, ela não escaparia da morte. Ele iria matá-la, eventualmente ela iria falhar e ceder ao seu cansaço, e sua corrida em zigue zague pela floresta daria a ele a posição perfeita para que explodisse sua cabeça. As lágrimas ameaçavam escorrer por seu rosto, mas ela sabia que era melhor não chorar. Tudo era melhor do que chorar, então ela apenas engasgou-se com o ar, fungando e arfando, tentando desesperadamente encher seus pulmões de ar, e continuar correndo. Não podia parar… não podia…
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  Mais um disparo. Em desespero, ela se lançou para frente, deixando-se cair outra vez, o baque reverberou por seu corpo inteiro, uma dor aguda envolveu seu corpo e estrelas explodiram por trás de seus olhos, dançando em meio a escuridão de suas pálpebras, seu corpo rolou outra vez pelo terreno irregular da floresta, mais e mais rápido, a náusea do giro constante a desorientado, mas ela não fez menção alguma de parar dessa vez. Porque a menina tinha acabado de perceber que iria morrer. Se nos próximos segundos ou nos próximos minutos, qual diferença faria? A morte estendia seus braços à sua frente, esperando-a como uma velha amiga, e %Agatha%?... %Agatha% pela primeira vez percebeu que não precisava lutar. Que seria melhor entregar-se de bom grado à ceifadora que lhe aguardava, do que ficar. Se ela não morresse agora, então morreria aquela noite, e então na manhã seguinte e por aí em diante. Era um jogo de trapaça, não tinha como ela ganhar. 
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  Então quando seu corpo parou de rolar declive abaixo em meio a neve gélida e cortante amortecendo seus músculos, ela viu o precipício que abria-se alguns metros à frente, em direção a um lago congelado, revolto e de gelo com aparência fina. E foi ali, se tomada por sua teimosia ou pela vã esperança de conseguir finalmente escapar do inferno que vivia — e especialmente de Edgar —, %Agatha% se levantou cambaleante, parcialmente arrastando-se, tentando obrigar-se a mover-se, tentando obrigar-se a correr, uma última vez, antes de saltar. Por um breve segundo, ela sentiu-se pairar no ar, e ela sentiu-se livre. Teve esperanças que mesmo que a queda não a matasse, ela ainda tivesse algum resquício de força para continuar fugindo. Lá embaixo, Edgar não a alcançaria. Lá embaixo nem mesmo sua carabina funcionava. E ela seria livre. Finalmente livre, depois de tanto temp…
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  O disparo atravessou a parte superior do abdômen da menina. Sangue projetou-se à frente da blusa fina e desgastada dela, espalhando-se rapidamente quando o corpo, inerte, chocou-se contra o gelo. Havia uma única verdade naquela floresta e era simples.
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  Edgar %Pedroso% nunca errava.
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•••

LONDRES • AGORA.

  Ela acordou como sempre: vomitando, coberta de suor e vendo fantasmas.
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  Levou cerca de vinte minutos para que ela compreendesse onde estava e o que estava acontecendo. O grito emudecido para seus ouvidos, espalhava-se pelo apartamento modesto no centro da cidade alto e aterrorizado, o zumbido intenso em seus ouvidos, todavia, havia silenciado tudo. Sua pulsação confundiu-se com a memória traumática dos disparos, alta e colocando-se em hiper alerta novamente. O impulso de correr ou lançar-se em direção ao chão tornando-se instintivo, a fazendo tropeçar em seus próprios pés e cambalear cegamente pela mesa de centro do apartamento. Seu coração ainda estava acelerado, martelando com uma força quase dolorosa contra sua caixa torácica, o peito doía como se houvesse algum tipo de pressão invisível, uma parede massiva de cimento sobre si, esmagando-a, parecia que iria explodir. Os instintos em alerta, sensíveis, enviavam estímulos desesperados, a fazendo desviar e proteger sua cabeça de meras sombras ou ruídos baixos. Vidro se quebrou abaixo de si, fazendo-a chocar-se contra o assoalho de madeira, sem perceber o caos que havia acabado de criar. De quatro, ofegante, %Agatha% levou cegamente suas mãos trêmulas em direção a gola de sua blusa, as lágrimas que escorriam por seu rosto, pingando de seu queixo e misturando-se com os cacos de vidro abaixo de si, amortecidos, mal estavam lá. A respiração dela era pesada, irregular e rarefeita. Apenas piorou quando a tosse tomou conta de seu ser, mais nervosa do que qualquer outra coisa, sua mente só registrou meio a parte, a falta de ar.
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  Então tudo começou a girar.
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  Ela tentou respirar, mas quanto mais força fazia, quanto mais tentava sugar o máximo de ar que podia, mais parecia que lhe faltava. %Agatha% rolou para o lado, sem perceber que havia acabado de enfiar sua mão trêmula na poça de seu próprio vômito, tentando escorar-se contra a primeira coisa que encontrasse, a lateral do sofá preto de couro que havia comprado da segunda mãe de Lorraine. Buscou, por puro instinto, por uma arma, qualquer coisa que ela pudesse usar para se defender, o nome de Beatriz escapando por seus lábios quase como uma oração, desesperada e não atendida. Os olhos embaçados não identificavam de imediato o que estava à sua frente, se era a televisão parcialmente quebrada na ponta direita, ou se era a maldita floresta, se era o corpo de Beatriz, retorcido como o de uma marionete. Ela arfou, os soluços mais altos e dolorosos, a cabeça pendendo para trás, como se desta forma ela pudesse obstruir suas vias respiratórias, mesmo que fosse somente sua garganta. Ela encarou diretamente o fantasma da televisão ligada, observando-a sem ver o canal de segunda mão, exibindo o primeiro jornal matinal. 
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  A estática da televisão de tubo fazia não apenas com que a imagem ficasse instável, como aumentava a sensação de desconforto silencioso dos ouvidos emudecidos dela. Franziu o cenho, tremendo, hiperventilando, confusa por não estar conseguindo entender nada do que estava sendo pronunciado, sentindo como se algo estivesse completamente errado. A sensação de desorientação pareceu apenas aumentar, uma careta de pura dor espalhando-se por seu rosto, ao chacoalhar sua cabeça tentando livrar-se daquela maldita sensação. Foi após longos minutos de pura confusão e desespero — questionando-se para onde diabos havia sido levada dessa vez — que ela percebeu. Inglês. Era inglês! Porra! %Agatha% fechou os olhos, deixando-se recostar contra o sofá atrás de si, sentindo o alívio ao menos oferecer-lhe um pequeno consolo para concentrar-se somente em sua respiração. Ela estava em Londres. Não estava na Bielorrússia, nem no México e muito menos no Brasil. Inglaterra. Certo, certo… ela havia se esquecido disso. Porra!
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  Inglaterra, merda, ela estava na Inglaterra, ótimo, porra, fantástico.
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  Suor empapava seus cabelos, a sensação dos fios grudando ao redor de seu pescoço e têmporas apenas aumentavam o incômodo por ter algo tocando sua pele. Na maior parte do tempo, %Agatha% conseguia facilmente ignorar aquela parte de sua mente que repudiava até mesmo os mínimos toques. A ideia de um estranho tocando sua pele exposta era o suficiente para fazer com que seu estômago se contraísse e ela entrasse em uma espiral desesperada para escapar do toque, mesmo que tivesse que rasgar seu caminho com unhas e dentes, mas às vezes, em estranhos momentos como aquele, quando sentia-se uma espectadora dentro de seu próprio corpo, %Agatha% sentia aversão de si mesma. Puta merda, %Agatha% apertou os olhos fechados com mais força, tentando ignorar o gosto amargo de bile em sua boca, espalhando-se e misturando-se contra sua saliva, fazendo-a crescer, como se estivesse à beira do desespero para cuspi-la. Havia o gosto de sangue também, mais discreto, porém presente, o que significava que ela deveria ter cortado alguma parte interna de sua boca outra vez. Deixou-se recostar pesadamente contra as pernas do sofá de segunda mão, sentindo-se zonza, e quase desabando para o lado ao calcular mal a distribuição de seu peso. 
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  A crise estava passando, e uma pequena dor de cabeça começava a se instalar em suas têmporas, como todas as vezes. Ainda estava hiperventilando, e o desconforto começava a alterar-se ao dar os primeiros indícios de dor: o peito dolorido, a garganta seca, raspando a cada arfar. %Agatha% levou sua mão em direção ao pescoço, tentando massageá-la quando o cheiro fétido de seu próprio vômito — algo que misturava vinho, uísque barato e alguma coisa esquisita que ela havia comido na rua aquela noite — atingiu seu nariz e ela se impediu antes que pudesse sujar a si mesma. Ela praguejou entre dentes, as palavras em português escapando como uma segunda natureza, instintivas. Ainda pareciam desconhecidas aos seus lábios, tanto tempo longe de sua terra natal havia a feito perder o que ela supunha que deveria ser sua essência, mas se havia algo que %Agatha% %Pedroso% havia aprendido em sua vida era que não se dava para fugir do que se era. Você poderia se cegar para o que era, mas não fugir. Fez uma careta arrancando com seu braço esquerdo sua blusa e então usando-a para limpar o estrago em sua pele. Quando terminou o trabalho, arremessou a blusa em direção ao lixo e cuspiu no chão, sem conseguir evitar o movimento espasmódico. Usando o antebraço para afastar as mechas revoltas de seus cabelos para longe de seu rosto, olhos e pescoço, ela piscou algumas vezes, tentando clarear sua visão embaçada.
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  Estava encharcada de suor, e apesar de ter a sensação de estar febril, o suor frio lhe dava a certeza de que não era uma intoxicação alimentar, tampouco algo provido apenas de uma reação física externalizada por algum de seus inúmeros pesadelos. Ela sabia o que era, o que seu corpo estava demandando, e que ela ainda não havia se dado ao trabalho procurar. 
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  O vento outonal londrino adentrou pela janela entreaberta do corredor, o aroma pungente de carbono queimado, terra molhada e poluição enviou uma sensação de alívio por sua mente, estabilizando a parte que ainda não conseguia reconhecer completamente o espaço como real, mas o arrepio que percorreu por sua pele com o toque gélido do vento, a incomodou. Ativou a memória que estava tentando fugir naquela noite, e antes que ela pudesse se refrear, ela lembrou-se da sensação. A queda violenta, a maneira como seu corpo havia se torcido e músculos haviam se distendido, e então, havia água, por todo lado, fria, cravando-se em sua pele como garras afiadas, dilacerando o que havia restado de si mesma enquanto a puxava mais e mais para dentro da escuridão. Para dentro do vazio. %Agatha% quase morrera naquele dia, quando caiu dentro do lago congelado, mas também, %Agatha% já havia quase morrido inúmeras vezes, de inúmeras formas. 
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  %Agatha% tinha poucos medos, e a morte, estava longe de ser um deles, mas isso não significava que ela gostasse de sentir desconforto. Não gostava de ser lembrada de seu desconforto.
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  Ela poderia ser maluca, mas não era sádica. Bem, não com ela mesma, pelo menos.
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  Puxou os joelhos na direção de seus seios, agora apenas envoltos pelo sutiã vermelho de renda que era uma das poucas peças que ela havia se dado ao trabalho de comprar em quase três anos vivendo em Londres. Apoiou os dois cotovelos sobre o topo de seus joelhos dobrados, e então permitiu-se inclinar a cabeça para trás, até que sua nuca estivesse repousada contra o estofado macio do sofá. Sua cabeça estava explodindo, e ela ainda tinha aquela sensação desorientadora de estar presa na névoa causada pelo medo e instinto. Ela ainda tinha aquele sentimento esquisito de que a qualquer momento ela iria acordar e se depararia com Edgar à sua frente, olhos desprovidos de alma ou consciência, frios como gelo e afiados como navalha, presos em seu rosto, inexpressivos, esperando para que ela se movesse. Para que fizesse o que ele havia acabado de comandar. %Agatha% inspirou fundo e exalou por entre seus lábios, antes de acertar alguns tapas fortes em seu próprio rosto, tentando despertar-se da letargia causada pelo sono e desorientação, e o torpor que sempre se seguia com o ataque de pânico.
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  A dor clareava sua mente com mais eficácia do que qualquer exercício de respiração que Lorraine pudesse ter tentado ensiná-la, e sua colega de trabalho havia tentado convencê-la a fazer esses exercícios. Havia tentado mesmo até pagá-la. Por breves momentos, %Agatha% até mesmo havia se permitido entreter a ideia. Havia considerado, talvez por curiosidade, talvez por não ter mais nada a perder, fazer exatamente como Lorraine havia ensinado: respirar fundo, segurar, e então exalar contando até cinco. Mas isso nunca a havia ajudado de fato. Era volátil demais para conseguir conter-se apenas com uma mudança de respiração, era treinada demais para estar em alerta até mesmo em momentos de relaxamento, priorizando sempre a resposta. A dor era seu único recurso. Não era o melhor, ela sabia, mas funcionava, então, ela não se importava. 
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  Seus olhos dispararam de um lado para o outro, as pupilas contraindo-se, tentando fixar-se na televisão ligada à sua frente. Ela exalou por entre os dentes, o ruído escapando mais alto do que pretendia e com um pequeno assobio ridículo, que ela tentou obrigar-se a ouvir.
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  Aquela era uma das piores partes. Para além das alucinações, em que %Agatha% não seria capaz de dizer o que era real e o que não era, mesmo que estivesse a um palmo de distância de si, era o ruído em seu ouvido, abafando tudo ao seu redor, deixando-a vulnerável e exposta. Edgar poderia ser muitas coisas, mas a viciou nos mesmos erros que ele possuía. %Agatha% era uma pessoa auditiva antes de mais nada, sua audição era sua principal arma para se localizar. Era por isso que ela era boa no que fazia, porque seus instintos eram calibrados para reações rápidas e precisas, porque ela não se baseava somente em sua visão, mas em sua audição. Isso com o reconhecimento de padrões treinado por Edgar, havia tornado o que era. Então quando a perdia, o medo tornava-se maior, porque, houve uma época, no passado, que ela igualmente não tinha nenhuma de suas habilidades, que ela era vulnerável igual.
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  Nunca mais. Nunca mais custasse o que custasse.
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  Engoliu em seco, sua garganta ainda dolorida pela hiperventilação, esforçando-se para encarar a televisão, sentindo como se estivesse submersa. %Agatha% tencionou sua mandíbula com força, o músculo de sua bochecha se projetando suavemente pela pele intocada de seu rosto, focando nos sons que o aparelho decrépito e inconvencional, estava fazendo. A distorção da voz por um segundo quase a fez rir, antes de seu olhar se estreitar com a imagem que via à sua frente. 
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  — ... de acordo com o Parlamento Canadense, a ação foi necessária para manter a integridade do sistema de justiça — a âncora anunciava. %Agatha% inclinou sua cabeça suavemente para o lado. Não era particularmente fã de política; alguns anos como sargento na SAS havia lhe dado as respostas que precisava para saber para o que todo aquele sistema funcionava, e não era para pessoas como ela. — O Primeiro Ministro Canadense, David %Gauthier%… — Desta vez %Agatha% quase sorriu, uma ponta sardônica de humor envolveu seus olhos. %Gauthier%, o sobrenome ecoou em sua mente, soava como um cuspe, vibrando por sua pele com uma familiaridade enfurecida, tensionando músculos, causando espasmos em suas mãos e ombros, como se estivessem prontos para o ataque. — Declarou esta manhã sobre as investigações ao escândalo de corrupção e desvio de verbas na bancada republicana do Parlamento o qual o representa. Em seu discurso, durante a abertura de um dos novos hospitais para auxílio psiquiátricos para crianças que sofreram abusos, o Primeiro Ministro fez questão de frisar seu compromisso com a verdade, e que está disposto a oferecer todo o auxílio possível para as autoridades… — A imagem na televisão mudou, da âncora loira elegante envolta em roupas profissionais e sérias, para o rosto igualmente sério, mas caloroso de um homem engravatado diante de um púlpito.
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  David %Gauthier%. %Gauthier%.
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  %Agatha% moveu sua boca sem fazer um som, saboreando a pronúncia do nome, carregando no sotaque cajun zombeteira, ela quase podia sentir o desprezo e o prazer escorrendo pelos cantos de seus lábios. Oh, ho-ho, alguém não iria ficar nem um pouco feliz de ver essa notícia hoje
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  Bom. Muito bom. Era o que ele merecia.
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  Aquela fagulha familiar gerada por uma ira bem mais profunda do que ela havia começado a se dar conta aqueceu sua corrente sanguínea e criou um pequeno incêndio ao centro de seu peito. A adrenalina outrora usada em uma vã tentativa de fazê-la focar, jorrou por suas veias, deixando-a desperta e ansiosa. Mas havia um brilho perigoso pairando por seus olhos. Um prazer pessoal que ela nunca se negaria a deleitar-se sempre quando pensava na miséria dele. %Agatha% fechou suas mãos em punhos firmes, suas unhas, maiores do que deveriam, fincando-se nas palmas de suas mãos, cravando fundo o suficiente para conseguir arrancar sangue, ao observar o mais velho. Um letreiro decorado com as cores do jornal surgiu abaixo, junto com a legenda da reportagem, acompanhado pela identificação e profissão do homem na tela. David %Gauthier%, Primeiro Ministro Canadense. David %Gauthier% era um homem imponente, sério, e de aparência capaz. Mas tirando o que era apenas encenação e teatro para as massas, havia uma gentileza em %Gauthier% que era capaz de fazer o estômago dela revirar-se somente de olhar. Tinha os olhos %azuisescuros%, cabelos grisalhos nas laterais, penteados elegantemente em um slideback que pendia sobre suas têmporas de forma elegante, sempre perfeitamente alinhados. A coloração de seus cabelos se alterava minimamente para um platinado ao topo, dando a David o ar de um homem de idade bem conservado. 
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  Havia nascido para ser a porra de um galã grisalho hollywoodiano, barba perfeitamente aparada, roupas impecáveis, sorriso encantador e olhos que brilhavam com aquele carisma que ela viera a conhecer muito bem, e bem de perto. Em uma dose maior e enlouquecedora. Se David %Gauthier% conseguia encantar o público apenas com uma dose do que era aquele maldito chame, dava para entender por que ela havia se deparado com o monstro. %Agatha% não conseguiu conter um sorriso de desgosto e nojo, seus pensamentos uma tempestade incoerente de ressentimento, raiva e o desejo por poder acertar as contas, por poder vingar aquilo que lhe foi roubado. %Agatha% conhecia aquele jogo com perfeita familiaridade: eram as pessoas que se apresentavam com maior perfeição e morais que costumavam a se provar as mais corruptas. Ou, ao menos, as mais fáceis de serem corrompidas. Talvez ela estivesse sendo cínica demais, talvez fosse sua criação que a havia tornado desse jeito. Que havia quebrado dessa forma, mas verdade seja dita, todo mundo tinha algo que repetia em alto e bom tom para se convencer disso. 
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  Os olhos %verdeschartreuses% dela desviaram-se da televisão, repousando nos familiares e fantasmagóricos de Beatriz. Ela trincou os dentes com força. Os olhos de sua irmã gêmea sempre haviam sido mais castanhos, como mel, dos que os dela, eram puxados para uma tonalidade doce, ou fosse apenas a maneira com que ela encarava a todos. Expressivos, Beatriz sempre havia carregado seu coração em suas mãos, era fácil lê-la, era por isso que %Agatha% sempre conseguia levar a melhor durante suas brigas, Beatriz sempre havia sido melhor do que %Agatha% jamais poderia imaginar ser. Agora, aqueles olhos a encaravam fixamente, arregalados, os braços cruzados a frente de seu corpo, em zombaria, como se estivesse provocando %Agatha%, expondo o que ela já sabia sobre si mesma, mas faltava-lhe os pulsos e as mãos, os ossos expostos eram brancos como porcelana, quebradiços e frágeis como ela se lembrava vividamente de terem parecido sob seu toque. A cabeça dela pendia para o lado, sobre o ombro esquerdo, mas não como ela costumava fazer quando estava com sono ou tentando convencer %Agatha% 
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  %Agatha% piscou os olhos rapidamente, encarando as próprias mãos trêmulas, seu peito ardendo, dolorido, e sua respiração insuportavelmente superficial. Tentou alongar os músculos de seus ombros e pescoço com um espaço, movendo a cabeça em um círculo, como se o gesto pudesse aliviar a pressão crescente em seu peito, ou o tremor em suas mãos, mas é claro que não ajuda. A notícia com David %Gauthier% alterou-se para a próxima, exibindo o conflito no Oriente Médio. Não foi a explosão no vídeo, ou a claridade do mesmo que a perturbou, foi a porra do som. Os gritos por ajuda das vítimas. Foi como receber um golpe em seu estômago, ela ofegou, levantando-se com toda sua agilidade e agarrou a lateral da televisão com as duas mãos, e com um grito sufocado, a empurrou em direção ao chão, cambaleando para trás. O estrondo do objeto estatelando-se no assoalho velho de seu apartamento modesto reverberou pelas paredes, o vidro misturou-se com o resto do que fora outrora sua mesa de centro, arranhando as solas de seus pés e cortando-as sem que ela se importasse com a sensação.
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  %Agatha% fincou suas unhas em seu pescoço, sentindo-as mais afiadas do que deveriam ser, cortando a pele sensível de seu pescoço enquanto ela tentava arranhar um buraco aberto no local, um lugar pelo qual ela pudesse respirar. Não conseguiu, é claro, mas a dor novamente ajudou a clarear seus pensamentos. Trincou os dentes com força, irritada. Havia perdido a porra de 400 libras só naquela merda de manhã, e a menos que ela tivesse intenção de dar o cu na esquina — o que jamais funcionaria para ela, devido sua aversão a toque —, ela precisaria de mais dinheiro. Sua vida era simplesmente incrível, não? %Agatha% fechou os olhos novamente, exalando frustrada ao apoiar as duas mãos ao redor de seu pescoço, e deixar sua cabeça pender para trás com uma careta. 
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  Ao menos havia silêncio
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  Não era que ela gostasse de silêncio, na verdade, sentia tanta repulsa quanto por algum toque estrangeiro. Havia algo na imprevisibilidade e na paranoia constante, a necessidade de sempre estar alerta que a configurava naquela dicotomia ridícula. Ao mesmo tempo que ansiava para que tudo estivesse em silêncio, entrava em um estado de hiper alerta pior e mais profundo, esperando de onde viria o próximo ataque, ou quem iria agarrar seus cabelos dessa vez e arrastá-la para algum canto escuro. Igualmente, não era como se ela quisesse ouvir as batidas em sua porta, anunciando que, mais uma vez, teria a reclamação de algum dos desgraçados de seus vizinhos pelos grito
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s e barulhos, mesmo que %Agatha% tivesse apresentado um diagnóstico de terror noturno. 
  Era falso, é claro, ela havia conseguido com Madoc por baixo dos panos, mas havia servido para que a deixassem em paz por um tempo. %Agatha% fizera sempre questão de deixar claro que não se importava com o barulho, gravando e apresentando a seus vizinhos os barulhos de gemidos altos e o contínuo assalto contra o seu lado da parede da cabeceira da cama batendo ritmadamente. Algo havia acontecido, porque até onde %Agatha% se lembrava, o rosto da mulher, Summer, era seu nome, havia empalidecido, e o cara, um idiota que ela não havia se importado em sequer reconhecer como ser humano, havia se tornado vermelha como um pimentão. %Agatha% havia feito pipoca de micro-ondas naquela noite, e se sentado abaixo do quarto deles, adorando ouvir os gritos e acusações sobre a traição de Summer. De qualquer forma, o recado havia sido preciso e efetivo. Mas sempre havia alguém tentando ser herói de sua própria história.
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  %Agatha% odiava esse tipo de pessoa. 
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  Chutou para fora de seu caminho uma das pernas de madeira da mesa de centro, ignorando o barulho do crack abaixo das solas de seus pés, marchando em direção à sua porta com preguiça. As batidas se tornaram mais insistentes, o que a fez parar a frente do objeto de madeira revestida de metal, com consideráveis trancas para tornar, no mínimo difícil que algum idiota entrasse ali. %Agatha% apertou os cantos de seus lábios, dando um passo instintivo para trás, os olhos fixos na tranca, sentindo seus músculos tensos se moverem por baixo de sua pele, tencionando-se um pouco mais ao inclinar-se para frente. Sua respiração desacelerou, como havia sido treinada e ela buscou com o olhar alguma coisa que pudesse usar para defender-se. 
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  Pisando com o pé inteiro, começando pelos dedos, seguido da planta do pé, e então o calcanhar, treinada para não fazer sequer um ruído. O sangue que se acumula em suas solas dos pés, os deixavam escorregadios, fáceis de tornarem-se um problema para ela, mas %Agatha% tinha experiência há tempo suficiente para saber como se adaptar à situação. Era nisso que ela era boa, adaptar-se. Ela exalou por entre os dentes, retirando de um pequeno compartimento no armário em que ela guardava seus sapatos, ela alça a 9mm, destravando-a e engatilhando-a em poucos segundos, sem sequer precisar olhar para a arma, antes de erguer seus braços, firmes e imóveis como os de um cirurgião, precisa em sua arte sangrenta, inspirando fundo, concentrando-se.
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  Tudo ao seu redor pareceu desacelerar, o foco travado apenas na tarefa em suas mãos, em sobreviver. Mirou na porta, mas não disparou, ela esperou, controlando sua respiração, concentrando-se em manter sua posição firme e em detectar quaisquer ruídos que encontrasse, por menores que fossem. Seus olhos %verdeschartreuses% cintilavam como os de um gato, movendo-se para acompanhar o que ouvia do outro lado. Mais duas batidas e então houve apenas silêncio.
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  Ela quase sorriu, desgostosa.
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  Agora, isso era amadorismo. Se a intenção era distraí-la de suas janelas usando a porta, o único lugar que ela possuía para escapar de seu apartamento, então era estupidez tentar entrar pela janela. Se a intenção era esperar que ela abrisse a porta para verificar o que estava acontecendo do lado de fora como uma mulher inocente, atraída para fora de seu apartamento por não saber melhor, então estavam duplamente enganados. %Agatha% quase sorriu consigo, seus dedos envolvendo com mais força a coronha da arma, o metal gélido pressionado contra as palmas calejadas de suas mãos enviando uma sensação de conforto e familiaridade como se fosse uma mera extensão de seus braços. E de certa forma, era
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  Os olhos dela registraram quando a tranca de seu apartamento girou devagar, como se estivessem testando a firmeza do ferro e localizando os últimos pinos a serem erguidos. Deparar-se-iam é claro com o restante das outras trancas, mas era quase fofo ver a dedicação em assumir que ela era uma completa idiota. Estreitou os olhos, esperando. Por uma fração de segundos, %Agatha% podia ter jurado que algo atravessou seu campo de visão pelo lado direito, vindo de sua cozinha. Uma mancha escura que sua visão periférica havia feito pouco uso de registro. Poderia ser um invasor, é claro, mas arriscar sair de sua posição para verificar algo na cozinha era dar uma abertura, mesmo que pequena para quem quer que estivesse tentando entrar em seu apartamento, ou poderia ser somente sua mente traiçoeira, a traindo outra vez.
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  Concentrou-se nos sons. Ruídos baixos de troca de peso vindo do outro lado da porta, a respiração acelerada, provavelmente estavam mais tensos e ansiosos do que %Agatha%, ou era a porra de um novato, ou o infeliz a quem esse trabalho foi conferido sabia quem ela realmente era. Para ambos os efeitos não seria difícil lidar com ele. O problema seria o barulho do disparo, e ocultar o cadáver. Ela já tinha olhos demais em suas costas para querer atrair a atenção de seus vizinhos. Não havia ruído em sua cozinha, apenas um pequeno chiado debaixo de uma torneira esquecida aberta por ela na noite anterior. Fez uma anotação mental para parar de beber com tanta frequência — estava gastando suas próprias palavras consigo mesma, e sabia disso. 
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  Tudo o que silenciasse a voz de Beatriz em sua mente era algo que %Agatha% aceitaria de bom grado. Mesmo uma tentativa de assassinato. 
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  Ela deu um passo silencioso para a frente, trocando seu peso de perna devagar, deliberadamente aproximando-se da porta. Então algo aconteceu. 
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  Havia sido rápido o suficiente para que ela não tivesse compreendido direito o que ocorrera do outro lado da porta, mas ela havia registrado os barulhos como um gato. Um ruído abafado, metal acertando o chão e então algo pesado ao longe. %Agatha% estreitou os olhos. Agora isso era algo estranho. Repassou em sua mente quem diabos poderia ter enviado alguém para tentar matá-la. 
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  Veja bem, ela tinha inimigos. Muitos inimigos. Para ser sincera, ela nunca tivera era um amigo digno de confiança — e os que tivera, ela havia metido a porra de uma bala em seus crânios e encerrado o dia. Mas havia poucas pessoas em Londres que se dariam ao trabalho de tentar matá-la. Ziyad Karam, ou simplesmente Doc, o chefão dos gangsters ali, era um excelente nome para começar. Havia Cortez, e sua gangue de rua ridícula, Los Gigantes em Bethel Greens, no East End, provavelmente frustrado pela contínua extorsão que %Agatha%, com prazer, fazia com Madoc. Não seria a primeira vez que Cortez tentava convencer idiotas a entregar-lhe sua cabeça em uma bandeja, mas era a primeira vez que esses idiotas haviam encontrado sua verdadeira localização. %Agatha% chiou entre dentes relaxando sua postura quando o silêncio se prolongou por mais trinta minutos inteiros, evidenciando para ela que o corredor do outro lado de sua porta, provavelmente estava limpo. 
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  Não hesitou em agir. Com um puxão brusco e mais violento do que desejava, ela abriu a porta com força, empurrando-a com cuidado para trás, ainda empunhando sua arma. Os olhos %verdeschartreuses% de %Agatha% percorreram com cuidado toda a extensão mal iluminada do corredor externo do prédio residencial. Com assoalhos de madeira, com corredores estreitos e portas tingidas de branco amarelado pela passagem de tempo, números irregulares e mal feitos identificavam quais apartamentos pertenciam a quem. Os tapetes de entradas revelavam um pequeno vislumbre das personalidades de cada morador ali, exceto %Agatha%. Ela detestava aquele tipo de coisa, e, se fosse ser honesta, tinha prioridades bem maiores do que a porra de um tapete com uma piadinha genérica convidando alguém para entrar. Ela abaixou sua arma, apoiando-a em suas costas, sem importar-se por estar apenas com calças de moletom sujas e sutiã em meio à local público, franzindo o cenho.
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  Embora as luzes do local oscilassem e tivessem duas lâmpadas queimadas entre o patamar das escadarias daquele andar e do último, %Agatha% podia ver com clareza de detalhes que não havia ninguém. Isso, para muitos, acabaria servindo como conforto. Quem quer que estivesse tentando invadir seu apartamento, havia desaparecido e muito provavelmente não voltaria, mas para %Agatha%, soava como sua sentença de morte. Porque só havia uma pessoa que se movia silenciosamente daquela forma, e %Agatha% não o via fazia anos, e, se tudo não havia passado de apenas uma alucinação de sua parte, então estava piorando e rápido. Precisava ir até Madoc novamente, conseguir mais da porra da droga que ele fornecia antes que perdesse completamente o controle sobre si. 
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  %Agatha% engoliu em seco, assentindo para si mesma quando virou para a esquerda, para voltar para dentro de seu apartamento e deparou-se com uma faca, ensanguentada, fincada na porta. O sangue ainda que mínimo havia deixado uma mancha escura na madeira com metal da porta de entrada de seu apartamento, obscurecendo a superfície que tocava, como se ela tivesse derramado alguma coisa ali. Ao centro da ponta em que a faca se fincava havia apenas um cartão de feliz aniversário embebido em sangue. 
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  Por um breve momento, ela apenas encarou a faca e o cartão cravados em sua porta, cobertos por um sangue que não lhe pertencia. Seu queixo se contraiu e os dedos que seguravam a coronha de sua arma apertaram-se com mais força, os músculos tensionados começando a tremer. Os espasmos percorrendo seu corpo. Os olhos percorreram minuciosamente cada detalhe, da maldita faca para o cartão cravado em sua porta. Faca de assalto, serrilhada, desgastada pelo uso se fosse levar em consideração os pequenos indícios de ferrugem que tinha na conjuntura de sua empunhadura e nas serras. O cartão de feliz aniversário era de uma loja de conveniência, descuidado e havia uma rasura em uma das palavras, como se a pessoa tivesse tentado “consertar” a frase rabiscando-a com força e então adicionado um agressivo “nós”. Parabéns para nós, ficava, e a respiração de %Agatha% se perdeu em algum lugar de sua garganta.
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  O mundo começou a mover-se novamente ao redor de %Agatha%, intenso e girando com uma velocidade nauseante. Seu único ponto sólido era aquela maldita faca e aquele maldito cartão. O gelo de sua tensão e alerta misturou-se com o fogo de sua ira e crescente frustração, em ebulição, sufocante, deixando-a à beira de uma explosão. O amálgama de emoções, todavia, permaneceu sob controle, abaixo de sua máscara de neutralidade, mas seus olhos queimavam. Ela arrancou a faca com um movimento rápido e preciso, arremessando-a no assoalho de seu apartamento, e então alçou o cartão, seus dedos trêmulos envolveram o papel manchado de sangue, curvando-se como garras e o amassando. 
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  Abriu a parte interna, sem saber ao certo o que deveria esperar encontrar ali, mas definitivamente não era a caligrafia elegante e vagarosamente familiar com os únicos dizeres:
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  Vermelho é sua cor. Use-a.
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  %Agatha% sentiu seu rosto empalidecer, engolindo em seco, como se de repente sua garganta estivesse seca demais para que ela pudesse engolir apropriadamente, sua pulsação dando um salto em seus ouvidos, fazendo-se perceber em seu pescoço, sua respiração escapando por entre seus lábios, mas sem nenhum resquício de oxigênio enchendo seus pulmões. Ela amassou com força o cartão, desejando que fosse a porra do desgraçado que ela sabia que deveria ter enviado aquela merda de cartão. Seu coração martelava com intensidade contra sua caixa torácica, expandindo e contraindo de forma errônea, suas pupilas se contraíram, e o movimento de seu peito subindo e descendo era apenas mecânico porque nada passava por sua garganta, apenas frustração e fúria.
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  Fechou a porta atrás de si sem se importar com o barulho, antes de se permitir sentar-se no chão, arfando, mais uma vez, ainda segurando a arma como se sua vida dependesse disso — e de fato, dependia — ela pressionou o metal gélido contra a boca de seu abdômen liso, o toque enviou um arrepio pelo corpo dela, mas o incômodo serviu para mantê-la ali, presente. Quando ela ergueu seus olhos, deparou-se com Beatriz a poucos centímetros de distância de seu rosto, a cabeça torta, oscilando para frente e para trás, mas era seu sorriso que era perturbador. Largo, deixando à mostra quase todos seus dentes enquanto sangue escorria lentamente por entre os cantos de seus lábios e dentes. Estava rindo, o som fantasmagórico soando como vermes, infestando os braços de %Agatha% e corroendo-a de dentro para fora, ainda assim, ela ergueu o queixo, sustentando o olhar de sua irmã gêmea morta. 
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  Sustentando a alucinação do fantasma que apenas ela carregava consigo.
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  — %Agatha%, %Agatha%, %Agatha%… tsc, tsc, tsc, ah, %Agatha% — cantarolou sua irmã gêmea, divertida. A cabeça torta se virou para a direita, ajustando-se no pescoço quando Beatriz parou a um fio de cabelo de distância do rosto de uma %Agatha% imóvel. — Você realmente achou que conseguiria escapar dessa vez? — provocou Beatriz, e a frustração queimou por trás dos olhos de %Agatha%, mesmo que nenhuma lágrima fosse escorrer por seu rosto petrificado e pálido. Um arrepio gélido, forasteiro para ela até então, percorreu por sua espinha, espalhando-se rapidamente por suas veias. Um sentimento que ela não tinha fazia anos, talvez décadas
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  Medo. Puro e profundo medo.
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  Nota da Autora: peço desculpas a todos que leem e acompanham essa história. Do fundo do meu coração, sou eternamente grata pela oportunidade de te entreter ainda que por algumas breves horas. A verdade é que embora a história não tenha mudado quase nada da original, a minha escrita sempre foi confusa, especialmente por causa do TDAH. São muitas ideias flutuando ao mesmo tempo, e pouca coerência. É por conta disso, e para desenvolver melhor os outros personagens, que estarei reescrevendo. A história continua a mesma, só com alguns acréscimos. Agradeço a compreensão, e peço desculpas por isso. Te vejo em breve!

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Lelen

Eu sou estranha por, até certo ponto, gostar de Dark Romance, mas pelas questões psicológicas dos personagens e não pelo sexo e tudo mais? OIASNDOPANSDPO
Em minha defesa, eu trabalho com psicologia, então acho justo que eu goste desse lado das histórias 😂😂😂
Tô curiosa pra conhecer o tal do demônio aí HEHEEHEH
E pra saber mais sobre o passado da pp e como ela se enfiou nessa coisa toda. :O

Lelen

Eu quero ver como que o bonito vai surgir nessa versão agora. Já surgiu com cartãozinho, né? (FOI ELE? FOI ELE, NÃO FOI?)
Ai, eu continuo toda errada morrendo com dark romance OIASHDIAHDAPDHP

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